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segunda-feira, 12 de março de 2018

REGISTOS, A PROPÓSITO


NOTAS DO MEU RETIRO

Volto no ritmo que me é possivel (e o leitor que desculpe a deficiência…) a este meu instrumento de trabalho (quando posso ainda trabalho…), para rabiscar umas notas referentes a assuntos que bailam constantemente no meu pensamento e que desejaria tratá-los com a devida clareza e erudição, o que já não é possível.
Durante muitos anos, as ruas, canadas e veredas tinham o nome que a tradição lhes atribuía: Rua Direita, Rua do Conde, do Conselheiro, etc.
A vila das Lajes, sob o aspecto toponímico, tem a classificação merecida. Estão assinalados os sítios principais com placas que elucidam os transeuntes das zonas onde se encontram. Para além destas, existem monumentos e bustos, e os nomes de ruas passaram a ser utilizados para homenagear certas personalidades ou registar acontecimentos notáveis. É desta forma que aparecem por cá as ruas já referidas e outras como a Rua do P. Xavier Madruga, o Largo General Lacerda Machado e outros mais.
O primeiro monumento a ser erguido data de 1940, um cruzeiro dedicado à Independência e Restauração de Portugal. Trata-se de uma obra, com projecto do desenhador António Garcia, trabalhada em basalto da Terra, por Artistas lajenses, e inaugurada em 1 de Dezembro de 1940. Uma placa que nela existia indicava a razão da sua colocação. O camartelo, como em outros feitos, encarregou-se de a retirar, talvez porque, desde a sua colocação ou aquisição, apresentava umas fendas, sem prejuízo da leitura dos dizeres…
É tempo de voltar a colocar a que lá se encontrava, ou outra, não interessa. O monumento tem de estar assinalado. Assim é um desleixo que não se pode consentir. E não há responsáveis?
Todos devem respeitar os bens públicos.
Em 1960, na Maré, local onde desembarcou o primeiro povoador, foi levantada pela Câmara Municipal uma coluna a lembrar o feito dos portugueses, em 1 de Dezembro de 1640, por cópia da que existe no Monte Brasil, em Angra do Heroismo, da autoria de António Garcia Pedro, lajense radicado naquela cidade.
Mais recentemente, entendeu a autarquia, alterar o monumento, demolindo-o e passando a uma coluna de quatro faces.
Como monumentos nacionais devidamente classificados, conserva-se também a Ermida (antiga paroquial) de S. Pedro e o Castelo (Forte) de Santa Catarina.
No Largo Lacerda Machado presta-se homenagem a dois insignes lajenses, com a ereção dos respectivos bustos: Bispo de Macau, Dom João Paulino de Azevedo e Castro e General Francisco Soares de Lacerda Machado. Da Toponímia lajense, além de outros, fazem parte os nomes de Garcia Gonçalves Madruga e do Vigário Gonçalves Madruga, a quem foram confiscados os bens pela justiça de Castela.
Outras homenagens deviam ser prestadas, se o espaço fosse maior e apropriado… Mesmo assim, trata-se de uma plêiade ilustre de personalidades e acontecimentos que prestigiam e enaltecem a história do pequeno burgo, o primeiro que, na segunda ilha maior e a mais alta de Portugal, foi instalada por gentes do Infante. Um acontecimento relevante da História que não pode ser esquecido, nem ignorado.


Lajes do Pico,
28 Fev.2018
E. Avila

domingo, 4 de março de 2018

DO MEU SENTIR


Crónicas da minha ilha

De vez em quando, sou surpreendido com o título de qualquer outro jornalista ou colaborador, muito embora ao seu e erudito Director, o consagrado jornalista e escritor, Padre Xavier Madruga se fique a dever a criação deste “cantinho” a cujo autor sempre procurei prestar homenagem.
Outro refiro hoje, aqui, para lembrar os notáveis trabalhos que nos deixou o Historiador probo e respeitado e não menos erudito, o Gen. Lacerda Machado. Escreve o distinto Lajense: “À falta de forno, cozeram na laje o pão rudimentar das suas refeições frugais, e mais tarde o bôlo (…); assavam a carne no borralho; o funcho substituiu a hortaliça, que inda não houvera tempo de cultivar, ou de que faltavam sementes, uso que ainda subsiste, pôsto que raramente; inventaram môlhos, gratos ao paladar, para suprir a falta do azeite de oliveira, tardia em frutos, costume que perdura, pois só recentemente se começou a tentar a sua cultura.” (1)
Mais: até tarde, durou o primitivo, principalmente nos quintais, junto das habitações.
A Leste da Vila das Lajes muitos procuram o funcho como hortaliça alimentar. Como hortaliças, outras ervas se iam descobrindo nas hortas e nos terrenos baixos, que entraram no catálogo das plantas preferidas.
Logo se foram construindo os fornos caseiros (para a cozedura do bolo - pão da época). Outros fornos construiram os lavradores, ao lado daquele, muito maiores em área, para a secagem do milho colhido nas terras dos proprietários. (Conheci dois: um grande e o outro pequeno ainda em uso semanal).
Já há muitos anos que deixou de utilizar-se a “Burra” para guardar o milho, com a capa de casca, destinado ao consumo familiar. Passou a ser arquivado em barricas ou “arquibancos” nas próprias residências.
Com a cultura do trigo modificaram-se alguns usos domésticos, passando o trigo a ser utilizado em boa parte da ementa caseira, pois é sabido que o milho cá apareceu depois de descoberto nos Estados Unidos da América e, de lá, para aqui importado.
As atafonas ou instrumentos de triturar o milho até ficar em farinha, devem ter sido trazidos pelos povoadores - refiro a atafona e o moinho de vento. Nas cozinhas existiam as pequenas atafonas para moer a cevada. As atafonas movidas pelo “gado da porta”, serviam para a farinação do trigo e do milho e para acudir à falta de pão.
Além dos géneros de produção local já indicados, usava-se não somente as carnes extraídas dos diversos animais, como ainda o peixe cozinhado de diversas formas.
Nesta zona Pico o peixe é bastante utilizado pela população e faz excelentes “pratos”. Lembro o caldo de peixe fresco, que não só os lajenses, como até os visitantes apreciam.
Aqui há umas dezenas de anos chegou a esta vila um casal com filhos, que aqui se fixou, cujo chefe vinha exercer funções oficiais. Voltando à Metrópole um dos filhos tornou-se jornalista e, numa das suas crónicas, escreveu sobre o caldo de peixe. E usou esta expressão ou outras idênticas – foi há tantos anos!: ”Caldo de peixe como o que se cozinhava na vila das Lajes do Pico, nunca mais encontrei!”.
    1)Lacerda Machado, História do Concelho das Lages, 1991, pag. 78.
Lajes do Pico, 15 Fev. 2018
E. Ávila

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

A PRIMEIRA VISITA DA VIRGEM PEREGRINA

NOTAS DO MEU CANTINHO


         Foi, na realidade, um verdadeiro acontecimento histórico a primeira Viagem da Virgem Peregrina de Fátima à Diocese de Angra e Ilhas dos Açores.
         Quem compulsar a Imprensa dessa época poderá ficar com uma ideia, aliás sucinta, do que foi a visita da Virgem de Fátima na sua Imagem Peregrina. O jornal local “O Dever” dedicou-lhe uma minuciosa e extensa reportagem, pois tratou-se, na realidade, de autêntico acontecimento histórico que não mais se repetiu nas visitas posteriores.
         A Imagem Peregrina percorreu todas as ilhas e a maioria das Paróquias e a todas não foi, porque os meios de comunicação eram ainda bastante limitados. Não havia transportes aéreos e a passagem de uma para outra ilha quase se fez somente no antigo iate “Ribeirense” que, para o efeito, se transformou condignamente.
         A ilha do Pico foi visitada nos dias 27 a 29 de Junho de 1948, quase setenta anos são decorridos. Nesse ano não se realizou a festa de São Pedro.
         Acompanhou a Veneranda Imagem o Bispo da Diocese, D. Guilherme Augusto, a Comissão Diocesana, e também a Comissão Nacional.
          A Imagem peregrina chegou a esta Vila na tarde do dia 28 de Junho e recolheu à Igreja do Convento de S. Francisco. Ao anoitecer, realizou-se uma grandiosa procissão de velas, presidida pelo Bispo de Angra. Era quase meia-noite, quando regressou a São Francisco. O Bispo, aflito com sede (era um diabético), abandonou a procissão e correu para a Igreja a fim de beber alguma água, pois, daí a minutos quebraria o jejum e já não poderia celebrar no dia seguinte. Mas, felizmente, tudo correu pelo melhor (o Concílio Vaticano II ainda não estava em vigor…).
         Durante a noite, numerosos fiéis estiveram em vigília na Igreja a acompanhar a Veneranda Imagem. Entretanto os membros das Comissões foram recebidos em diversas habitações lajenses, onde pernoitaram. (Na nossa casa ficaram os meus antigos condiscípulos, Dr. Moreira Candelária e Pe. Artur Medeiros Paiva).
         A Vila encontrava-se toda engalanada, como jamais foi possível fazer. Em frente da Matriz em construção, a Câmara Municipal, de que era Presidente ao tempo o professor João Pereira Maciel, mandou erguer um monumental altar coberto, para a realização da Missa Campal que, celebrada por Dom Guilherme, teve início no começo do dia. No Largo, uma multidão de pessoas vindas das diversas freguesias do concelho, assistiu à celebração. A Veneranda Imagem chegou ao altar vinda em procissão e acompanhada de centenas ou milhares de devotos.
          Celebrada a Missa, Dom Guilherme usou da palavra para recordar a memória do antigo ouvidor, P. José Vieira Soares, falecido poucos meses antes e que, se fosse vivo, completaria naquele dia (29 de Junho) setenta anos de idade. Sobre a fala de Dom Guilherme escreve “O Dever”: O Venerando Prelado não podia deixar debandar aquela gente, que a maior parte de tão longe viera, sem uma palavra: e falou-lhes... Saudou a todos, e a todos louvou pelos esforços, canseiras, sacrifícios que hão despendido, naqueles dias abençoados. Louvou, ainda, os lajenses pelas ornamentações da sua Vila, lindamente preparada para receber a Virgem. A todos pediu que vivessem sempre a fé daquela hora, velassem pela educação dos seus filhos e fossem fiéis ao chamamento da graça.
          A seguir o P. Filipe Madruga, que estava a exercer as funções de Pároco da Matriz das Lajes, em nome da Paróquia, colocou na Veneranda Imagem um cordão de ouro com crucifixo no qual estava gravado: Lajes do Pico, Açores.
         Antes de sair das Lajes D. Guilherme permitiu que a Veneranda imagem da Virgem descesse ao Porto, cujas embarcações estavam todas engalanadas, velas subidas, arpões em guarda de honra. Linda a homenagem dos baleeiros!
         Na viagem para a Madalena a fim de seguir para o Faial, a Imagem Peregrina tomou lugar num pequeno trono armado num carro – andor. Foi-me permitido e a outros acompanhar a Senhora. Quando passávamos na Terra do Pão, o carro fez um desvio para a terra e fez com que um ferro colocado numa das casas, creio para suporte de um candeeiro, me atingisse e levasse ao chão da carrinha. Felizmente sem quaisquer consequências, graças à Senhora!
          A Veneranda Imagem da Virgem Peregrina já voltou à Ilha do Pico (e consequentemente aos Açores) outras duas vezes mas, infelizmente, nenhuma outra se revestiu do entusiasmo e esplendor da primeira visita. Ignoro a razão desse afrouxamento.

Lajes do Pico,
1 de Fervº de 2017.
Ermelindo Ávila


quinta-feira, 29 de setembro de 2016

Turismo Rural

Notas do meu cantinho

Há dias ofereceram-me um passeio pela ponta Leste da Ilha. Estive em três ou quatro freguesias e admirei o surto de desenvolvimento urbano que me foi dado apreciar ao longo do percurso. Sobretudo causou-me surpresa agradável alguns dos prédios recentemente edificados, com a particularidade de serem construídos em pedra lavrada, sem quaisquer vestígios de cimento ou cal. Uma autêntica maravilha, a fazer recordar os prédios antigos, onde a cal e muito menos o cimento entravam, mas apenas o barro da terra a segurar as taliscas
Uma das proprietárias informou-me que tinha vinte e oito camas à disposição dos visitantes e que naquele momento estavam quase todas ocupadas. Mas outros prédios, ao redor desta ilha, foram preparados para o chamado turismo Rural, uma nova modalidade que está a ser posta à disposição, principalmente do turista europeu. Disso dá testemunho o número das viagens que, durante o verão, se fizeram da Holanda para o Pico e que, sem explicação, a dar crédito à comunicação social, deixou de viajar para esta ilha, ficando somente pelas de S. Miguel e Terceira. Mas essa atitude inesperada da TUI não põe fim aos que viajam da Europa e da América para a Ilha Montanha. Há qualquer coisa de agradável que os atrai, sem grandes propagandas, a não ser aquela que transmite para o exterior a Internet.
Certo é que, não raro, quando passamos pelas estradas picoenses, do litoral ou mesmo do interior, frequentemente nos cruzamos, normalmente com casais estranhos à ilha. E examinando os mapa da ilha de que são portadores, atravessam não somente as estradas, como os caminhos vicinais e até as canadas e os trilhos, admirando as árvores, as paisagens e os panoramas, e gozando, ao que bem se julga, o clima ameno que envolve a ilha.
É interessante esta nova modalidade do turismo rural, que se está a desenvolver em todas as freguesias da ilha, mas principalmente naquelas em que a emigração deixou muitas casas desabitadas e que agora estão a ser louvavelmente aproveitadas.
O Pico, porém, não pode limitar-se unicamente ao TURISMO RURAL, pois o seu rendimento pouco mais vai além dos alugueres das camas e de uma ou outra refeição tomada nos pequenos restaurantes que todas, ou quase todas a freguesias já possuem. É interessante ver por aí, num deambular pacífico, os simpáticos turistas, mas importa retirar dessa nova actividade industrial maiores rendimentos, que beneficiem os jovens com empregos estáveis e, consequentemente, promotores de progresso e e desenvolvimento da própria economia.
É tempo de se pensar a sério na indústria hoteleira, pois não bastam os estabelecimentos de categoria diversa, que existem.
A Vila das Lajes do Pico necessita, sem demora, de estabelecimentos hoteleiros que promovam o turismo “clássico”, que possa responder às exigências de visitantes titulares de poder económico, e muitos são.
Temos restaurantes de boa categoria, mas não existem ainda, na vila e seu centro histórico, estabelecimentos que possam receber os turistas com as comunidades que alguns exigem e, para os satisfazer, necessita-se de, pelo menos, um estabelecimento hoteleiro de três ou quatro estrelas.
Vai ficar vago o edifício da Escola Secundária, com a transferência daquele serviço para as novas instalações dos Biscoitos -extra-muros, digamos.
Não será tempo de se pensar na utilização daquele grande imóvel?
Porque não utilizá-lo para um estabelecimento hoteleiro condigno? Espaço não falta. Nele podia ser instalada, ao menos, uma POUSADA DA JUVENTUDE…
Fica o alvitre.
Engrade, 12-09-2016

Ermelindo Ávila

domingo, 17 de julho de 2016

A CAPITAL DA CULTURA BALEEIRA...

NOTAS DO MEU CANTINHO



O site de viagens do jornal espanhol El País insere a agradável notícia de que a Vila das Lajes do Pico ficou em décimo lugar das quinze localidades melhor classificadas pela sua beleza. A jubilosa notícia não vem de cá. Vem de fora. Do estrangeiro, porque dentro de portas não havia, naturalmente, a coragem para isso afirmar.
E isso acontece porque o camartelo ainda não destruiu totalmente a sua traça primitiva. Aqui e ali foram aparecendo algumas modificações, mas o essencial foi mantido e isso valeu-lhe a classificação que o “El País” lhe atribui. Afinal, trata-se, em nosso entendimento, de um aviso sério e, mais do que oportuno para que se evitem atropelos futuros às suas características urbanísticas que ainda se conservam.
         Salvaguardar tão rico património sócio-cultural é um dever, imperioso dever, de quem assumiu a responsabilidade da administração da coisa pública.
A vila, mau grado nosso, continua com duas ou três chagas, que mais não existem. São, afinal, aqueles habitações que estão em ruínas. E volto a falar na casa da Maricas do Tomé e de outras duas ou três que, mesmo assim, são o suficiente para dar um aspecto um pouco degradante à antiga Rua Direita na vila.

É tempo, mais do que suficiente, para que o camartelo restaurador entre em acção e que as entidades públicas, a quem compete tomar as medidas de salvaguarda do património público, assumam a restaurem, ou procurem auxiliar o restauro condigno desses imóveis.
Não interessa que modifique o aspecto urbanístico, modernizando-o, mas que se tomem medidas cautelares, para que se não destrua o que os artífices – que nem engenheiros eram – foram capazes de construir. Refiro, neste momento, a “Casa do Comendador” que ostenta uma placa de 1910. Não conto a história da sua construção, mas recordo somente a beleza da sua arquitectura, obra de um simples mas inteligente carpinteiro, que a projectou a seu jeito e orientou a construção, o Mestre Francisco San Miguel da Fonseca Santos. A sua descendência está praticamente extinta, só restando uma neta. Mas a sua memória não desaparecerá, ao menos, da geração. Com mais espaço poderei referir a “história” desta construção.
A Matriz das Lajes é “projecto” do antigo Vice-Vigário e Ouvidor Pe. Francisco Xavier de Azevedo e Castro, embora sofresse alguma modificação aquando da segunda fase, digamos assim, da sua construção e conclusão.
Repare-se na casa que foi de João de Deus Bettencourt, na rua P. Manuel José Lopes, antiga rua do Poço, e que pertence actualmente à família de Clarêncio Moniz da Rosa. Foram operários lajenses que a construíram e embelezaram. A pintura interior, ainda hoje, dá testemunho do grande pintor que foi o Domingos Belém. Felizmente que parou numa família que a sabe conservar, convenientemente.
Na rua Direita, está ainda em ruínas uma casa do século XVIII, que devia ser restaurada no estilo primitivo, que ainda conserva, mas que foi incompreensivelmente abandonada, ignorando-se quem seja hoje o respectivo proprietário.
         E bem cara que ela é a quem este arrazoado escreve...
Importa conservar o piso antigo de alguns arruamentos, como é o da antiga “Ladeira da Vila” que ainda liga à bacia da Maré. Deve restaurar-se o antigo piso da Rua do Saco, pois não permite trânsito automóvel que justifique o asfalto, cobrindo indevidamente a antiga calçada, que deve ser recuperada, tratando-se presentemente de uma zona bastante frequentada pelo Turismo.
         É preciso não esquecer que habitamos a DÉCIMA das quinze mais bonitas localidades de Portugal e capital da cultura da baleia.


Lajes do Pico,
25 de Junho de 2016

Ermelindo Ávila

domingo, 7 de junho de 2015

WHALE WATCHING

NOTAS DO MEU CANTINHO


Depois da inopinada proibição da caça à baleia que, afinal, os lajenses não inventaram mas que destemidamente souberam continuar, depois de alguns deles haverem andado por esses mares, nunca dantes navegados, surgiu a observação dos cetáceos ou o Whale Watching.
Foi ontem, mas já decorreu quase um quarto de século. Precisamente em 1991, Serge Viallelle chegou a esta vila para estabelecer a nova actividade de ver baleias. Anos, bem poucos haviam decorrido, quando se tentou montar a actividade que os baleeiros lajenses recusaram em sessão pública realizada no salão nobre dos Paços do Concelho. Muitos se devem lembrar ainda, pois foi grande a afluência a esse acto, promovido pelo Deputado Europeu, de então, Doutor Vasco Garcia. Não sortiu efeitos, mas aquele citado cidadão francês soube aproveitar o “vazio”, salvo erro.
Hoje a “observação de baleias” está bastante desenvolvida, e, no porto das Lajes, exercem essa actividade dez empresas que, algumas, nem sedeadas cá estão...
Mesmo assim o Whale Watching traz a esta vila – que conserva o epíteto de “Vila Baleeira”, - notável número de estrangeiros interessados, principalmente, em ver, bem de perto, a vida calma dos monstros marinhos. É por isso que a Baía das Lajes e o sul da Ilha já são considerados o santuário das baleias, tantas são as que, quase diariamente, aqui “vivem”, muito calmamente, sem receio que alguém se lembre de as perseguir...
E por aqui não aparece somente o cachalote. Outras mais espécies por cá andam a despertar a curiosidade dos amantes do mar.
Pode dizer-se que o Whale Watching constitui hoje uma
atracção turística, mas por enquanto só interessa aos empresários que exploram essa actividade, quando algo mais se podia desenvolver, quer na restauração, quer em actividades de animação. Chegar às Lajes e aguardar o sinal da Vigia para ir ver os golfinhos e as baleias, é pouco ainda. Importa algo mais criar para dar emprego à juventude e interessar uma população quase inactiva.
Não posso acompanhar nem esta, nem outras actividades. Limito-me a tomar conhecimento, aliás bastante superficial, do que por aí vai ocorrendo. Trago aqui somente algo das informações, julgo que fidedignas, que chegam a este cantinho onde permaneço muitos dias, sem vêr ou conviver com as pessoas que por aí passam. Todavia dou “graças a Deus” de ainda por cá andar, quando outros de muito menos idade, partem, quantas vezes inesperadamente...
Estou, porém, certo que há muita gente interessada pela sua e nossa terra e que vai estudando, criteriosamente, a maneira adequada de fazer progredir as potencialidades naturais que por aí existem. Demais, pensar hoje em emigrar é uma autêntica utopia, pois a crise económica que nos atinge não anda apenas por cá. Ela abarca o mundo nos seus diversos sectores de actividade e desenvolvimento. Seja na Grécia, na Turquia, ou em outras mais...
Repito o que já algumas vezes lembrei. Importa ao Governo fomentar, aturadamente, o desenvolvimento de todas as ilhas, que não apenas de duas ou de três. E não apenas numa ou em duas áreas ou sectores; ou, o que é mais dramático, privar algumas ilhas de serviços públicos. E não os refiro hoje.
O ar que respiramos não está, felizmente, inquinado, nem as moléstias crónicas ou eventuais por aqui têm passado. Há idosos e doentes, como em qualquer parte, mas isso não será motivo de afastamento de estranhos. Os que por cá aparecem creio que não se dão mal...
A emigração não é meio adequado, nos tempos que decorrem, para a juventude procurar emprego. O desemprego atinge todas as nações, mesmo aquelas que se conhecem como importantes centros económicos – comerciais e/ou industriais.
Há muita juventude que vai e volta, porque foram frustrantes os projectos que levava...É bom que se pense, maduramente, no futuro e se tomem as melhores soluções para os momentos incertos que a todos atingem.
Fiquemos por aqui...

Lajes do Pico,
20 de Maio de 2015

Ermelindo Ávila

sábado, 21 de março de 2015

A BALEAÇÃO

NOTAS DO MEU CANTINHO


Desapareceu a actividade baleeira mas falta fazer a sua história. Não pretendo fazê-la, pois é tarefa impossível para quem esta nota rabisca. Outros, melhor, o poderão fazer e é tempo de empreender esse importante estudo.
O Museu dos Baleeiros é a história viva da baleação, todavia há que passar ao papel, para “ad perpetuam rei memoriam” e enquanto é tempo, para não se perder um século de história económica e social desta ilha.
Verdade que, em 1788, já 200 barcos ingleses andavam pelos nossos mares à caça do cachalote, mas os lajenses só por volta de 1870 iniciaram a baleação, com os emigrantes americanos retornados.
Pouco mais de um século durou a actividade baleeira nestas ilhas dos Açores. No entanto, é vasta a bibliografia que a baleação nos deixou, portuguesa e estrangeira. Recordo, muito rapidamente, as Ilhas desconhecidas (1926) de Raul Brandão, Mau Tempo no Canal, o romance mais consagrado do emérito escritor Vitorino Nemésio, cujo tema básico anda à volta da Margarida e dos baleeiros do Guindaste, um suposto porto de baleação do Pico. A notável obra literária do escritor picoense Dias de Melo tem, quase exclusivamente, como tema único a baleação e as “estórias” que dela ficaram Na Memória das Gentes, cerca de três dezenas de livros alguns em segunda edição e até um com tradução japonesa.
Muitos outros escritores andaram por aqui a recolher elementos para os trabalhos que nos deixaram, versando a baleação. Lembro dos estrangeiros, o The hand of God –Whaling in the Azores, de Trevor Housby, inglês, e Daniel and the Whale Hunters, de Bernard Wolf, traduzido para português em edição da Câmara Municipal das Lajes do Pico. Muitos outros se publicaram, como o Moby Dick de Herman Melville.
Mais recentemente, podemos registar Robert Clarke, a quem se deve, na douta opinião do Coronel José Agostinho, o vocábulo “baleação”.
O estudo científico do Dr. Mousinho de Figueiredo, Introdução ao Estudo da Indústria Baleeira Insular (1946), deu a denominação da sociedade que instalou nas Lajes do Pico a fábrica de aproveitamento do cachalote – SIBIL e um outro estudo do Comandante Zolá da Silva, da mesma época, serviu de base à publicação da legislação sobre as Zonas Baleeiras, que não usufruíram os efeitos desejados.
O período áureo da baleação deu-se a meados do século passado. As Lajes do Pico passaram a ser conhecidas no Mundo e beneficiaram de um turismo especial que aqui aportou no desejo de conhecer a pesca artesanal do monstro marinho. E eles vieram da América, do Canadá e do Brasil; das diversas nações europeias e do Oriente ou, melhor dito, do Japão (mais especificadamente da Televisão Japonesa). Deixaram-nos excelentes testemunhos escritos, desde o espanhol ao japonês, cerca de oitenta (80), que arquivo, muito ciosamente. De 1970 a 1982.
E foi talvez a passagem dessas individualidades que mais valorizou a baleação nas Lajes do Pico.
Da baleação, a que muitos assistiram no alto mar, ficaram largas colecções de fotografias, livros e vários filmes, alguns deles adquiridos, mais tarde, pelo Museu dos Baleeiros que os exibe com regularidade, como é o filme “The last whalers”, de William Neufeld (Bill), um nova-iorquino, que aqui andou diversos verões.
As Lajes – Vila Baleeira- continua a ser o “santuário das baleias”, e foi por isso que aqui foi lançada a simpática actividade “whale watching “ pelo francês Serge Viallelle.
Para a grande maioria das famílias lajenses, a exploração da indústria baleeira representava uma estabilidade económica que nunca mais foi alcançada. A grande maioria dos baleeiros emigrou.
Depois multiplicaram-se as empresas exploradoras da nova actividade que servem para trazer ao porto das Lajes a maioria dos visitantes e levá-los a alojamentos distantes, depois da visita às baleias. Com raras excepções...
As canoas foram dispersas pelos diversos portos dos Açores e são utilizadas em regatas. Nas casas de recolha foi instalado – e muito acertadamente – o Museu dos Baleeiros. Outro grupo de armazéns recolhe as canoas que por cá ficaram e o Clube Náutico. As “vigias” são hoje utilizadas pelos operadores de “whale watching” para lhes darem a posição das baleias. A fábrica, embora conservando todo o equipamento, foi transformada em Centro de Artes e Ciências do Mar.
Desapareceram os estaleiros onde se construíam as canoas, e foi pena! Não pode nem deve esquecer-se que foi um artista lajense – Francisco José Machado – que, por volta de 1894, iniciou a construção da canoa baleeira no seu estilo actual, ainda hoje considerada a mais bela embarcação do mundo. Foi registada na Delegação Marítima com a denominação de São José.
O nome de Francisco José Machado passou ao esquecimento e bem merecia que fosse recordado.
Lajes do Pico,
10 de Março de 2015


Ermelindo Ávila

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

“LOTEAMENTO DA MARÉ”

NOTAS DO MEU CANTINHO


Na edição de 09 do corrente do semanário “ DEVER”, foi publicada a notícia da sessão da Assembleia Municipal, realizada no dia 30 de Setembro e nela se alude o Loteamento da Maré.
No mesmo texto se anuncia que “Após a aprovação por parte da Assembleia Municipal, seguir-se-á um período de apreciação e discussão pública sobre o mesmo”
Ao que julgo, trata-se do “Serrado de São Pedro”, onde está instalado há anos o “Parque de Campismo” e onde devia ter sido construído o edifício para a Escola Secundária, arredado da Vila, incompreensivelmente !...

O terreno é vasto e o loteamento vai permitir, concerteza, um aproveitamento racional do mesmo. Mas, nada se refere ao bairro anexo, onde se encontra a mais antiga igreja-ermida da ilha do Pico.
Na frente da ermida há um arruamento que se desenvolve para Norte e Sul. Em 1883, era a Rua de São Pedro, assim se denominava, onde viviam trinta e nove pessoas, em nove habitações. Hoje é muito diminuto o número de pessoas que lá residem e, mesmo assim, só no lado Norte e em habitações bem conservadas. As casas do lado Sul estão em ruínas, menos aquela onde funciona a Rádio Montanha, junto da ermida.
O estreito arruamento ainda lá existe e deve ser conservado como fazendo parte do património da vila.
Trata-se da zona mais antiga do burgo, aquela que se “desenvolveu” junto da pequena igreja e onde, naturalmente, habitou Frei Pedro Gigante, capelão dos povoadores e primeiro pároco da ilha.
Um pouco além, para Leste, existia a rua da Barra, que ficava a Norte da antiga “casa da escola”, depois oficina do Mestre António Fonseca, e que desapareceu com a construção do actual edifício da Escola Secundária. Não possuía habitações essa ruela e, pelo centro, corria uma grota que escoava as águas das ruas da vila e que ia vazar na lagoa da Maré.
Toda aquela zona foi completamente alterada com a construção da rua da Ladeira ou Rua Arantes e Oliveira, já que outro nome não lhe foi atribuído...
Ainda existe um troço empedrado, com “calçada à romana”, da antiga Ladeira da Vila. Nele ainda se descobriam, aqui e ali, os sulcos deixados pelos carros de bois que ali, diariamente, transitavam. O mesmo se verifica no que restou da antiga calçada da Maré, por fora da actual muralha de suporte da nova rua.
Num pequeno espaço, junto da habitação que pertenceu aos pais do P. Manuel Vieira Feliciano e que, depois, foi de Manuel Ermelindo dos Santos, existe um poço de maré que servia a população que habitava na Ladeira. O “bocal” que o protegia, está destruído. Importa restaurá-lo. É que os poços de maré são marcos históricos da vivência dos habitantes das Lajes. Ainda existem três ou quatro que não podem, nem devem ser abandonados. O da “Rochinha”, hoje incorporado na urbanização do antigo Juncal, devia ter uma placa: “Poço do contrabando”. (Já contei a história e não vou repeti-la). Faz parte da história lajense. Pois se ainda existe, a chegar ao “Meio da Vila”, como era conhecido o actual Largo General Lacerda Machado, a antiga “Rua do Poço”, hoje Rua Pe. Manuel José Lopes!...
A zona de São Pedro não pode nem deve desaparecer. Foi a primeira habitada, muito embora Fernão Alvares, primeiro homem que aportou à ilha, se tivesse ficado pela Ribeira da Burra e que, primitivamente, era conhecida pela Ribeira de Fernão Alvares. Uma história também já aqui narrada.
O chamado “Loteamento da Maré” não é fácil. Há que respeitar a tradição histórica da zona e conservar o que ainda existe.
As velhas casas da rua de S. Pedro, hoje em ruínas, devem ser restauradas e conservadas, dando-lhes a aplicação mais conveniente.
Que nada mais se construa na avoenga vila, como alguns a tratam, mas que ao menos se conserve aquilo que faz parte e dá continuidade à sua história de quase seis séculos.

Vila das Lajes do Pico
14 de Outubro de 2014

Ermelindo Ávila 

terça-feira, 24 de junho de 2014

As Lajes e a sua História

Notas do meu cantinho


Todas as Terras têm orgulho da sua História. Recheada de factos notáveis ou apenas registando vivências simples do seu passado, não há quem esqueça ou procure ignorar os acontecimentos mais relevantes das suas localidades de origem. Por mais simples que eles sejam, são geralmente motivo de prazer para os seus naturais. Seja em que parte for do mundo. Sempre assim foi e há-de continuar.
Deixemos de deambular e vamos ao que de concreto é.
Os lajenses, como aliás qualquer outro povo, amam a sua terra e têm prazer em falar da sua História, muito embora ela não se encontra totalmente escrita mesmo que tenha vindo até à geração actual, trazida por uma tradição respeitável.
Segundo a tradição, existem na margem direita da Ribeira da Burra, anteriormente conhecida por Ribeira de Fernão Alvares, as ruínas de uma pequena casa que, segundo a tradição, foi nela que viveu o primeiro povoador, o dito Fernão Alvares, que deu o nome à Ribeira. Portanto, uma construção, embora em ruínas, com mais de cinco séculos. Há duas ou três dezenas de anos a Câmara Municipal adquiriu essas ruínas no intuito de as perseverar, convenientemente, e de assinalá-las como é devido. Mas isso não aconteceu e as ruínas vão-se naturalmente degradando, até que venham a desaparecer, a menos que a tempo, se promovam trabalhos acautelares.
No ano de 1940 celebrou a Nação o Duplo centenário da Independência e Restaurarão de Portugal – 1140-1640.
Para assinalar o festivo acontecimento a Câmara de Lisboa ofereceu à Ilha do Pico uma estátua do Rei D. Dinis que, depois de muita controvérsia, acabou por ser colocada no antigo porto do Cais do Pico. Para dar uma satisfação ao concelho das Lajes, dado que foi o primeiro e durante mais de cem anos o único da ilha, a Comissão dos Centenários concedeu um subsídio ao município lajense para a construção de um cruzeiro à semelhança do que estava a fazer em diversos concelhos do País. O cruzeiro, projecto de Armando Garcia que nesta vila se encontrava fazendo parte da Secção de Fiscalização das obras da Estrada Lajes-Piedade, ao tempo em construção, foi executado, em basalto da ilha, pela companhia de pedreiros do Mestre Manuel Macedo. No pedestal, entre a cornija e a base, foi colocada uma lápide indicativa que, infelizmente, chegou partida mas que mesmo assim foi possível colocar no sítio próprio - dado ou plinto.
Com a remodelação do largo foi-lhe atribuido o nome de Edmundo Machado Ávila, homenagem merecida a quem, na primeira metade do século passado, mais contribuíu, na ilha do Pico, para o seu desenvolvimento, progresso e estabilidade económica, quer no comércio, na indústria e até mesmo na vida social. Uma grande figura de cidadão probo e de picoense dedicado. Mas outras figuras houve, no passado, que já haviam merecido a homenagem dos lajenses. Refiro somente os nomes de Garcia Gonçalves Madruga e do vigário Gonçalo de Lemos, ambos exceptuados do perdão concedido por Filipe de Castela aos açorianos por haverem sido partidários de D. António. “Por dar favor ao Senhor Dom António pretendente da Coroa deste Reino de Portugal, foram-lhe confiscadas suas riquezas e escravos pelas Justiças de El-Rei Dom Filipe."(1)
Ambos tem seus nomes em placas toponímicas nas ruas da vila muito embora, ao que julgo, a do Vigário Gonçalo de Lemos esteja duplicada com a de Edmundo Machado Ávila, havendo que evitar que isso aconteça por representar uma indevida confusão.
A primeira Igreja da ilha foi um pequeno templo dedicado ao Apóstolo São Pedro. Hoje a ermida tem o nome do seu primeiro pároco Frei Pedro Gigante. A ele se deve a introdução da vinha Verdelho, no sítio que hoje se denomina Silveira. Foi esse vinho do Pico que chegou à mesa dos Czares e que agora foi para Roma, como oferta da Diocese ao Papa Francisco.
A indicar o primeiro templo da Ilha foi colocada no frontispício da secular ermida uma placa em mármore que, por motivos desconhecidos, foi há anos, não muitos, dali retirada. Quando volta a placa a indicar aos visitantes que aquela ermida tem tantos anos como o povoamento da ilha e que foi sua primeira igreja e paroquial, possuindo ainda a pia baptismal?
Há acções administrativas que não têm quaisquer explicações e esta é uma delas, que exige seja reparada. É tão simples!

1) Lacerda Machado, F.S. “Os Capitães - Móres das Lages”, 1915 – pág.22.

1-6-2014

E. Ávila

quinta-feira, 15 de maio de 2014

POR TODO O MUNDO FALA-SE EM TURISMO

NOTAS DO MEU CANTIMNHO


É a palavra moderna que se utiliza em todo o mundo, mesmo nos países mais industrializados, como é o caso dos Estados Unidos da América. Em qualquer cidade americana, mesmo as mais modestas, encontramos os mais modernos estabelecimentos hoteleiros, quer seja em New Bedford, ou New York, quer em San Francisco ou Tulare.
A Europa também possui grandes e luxuosos hotéis. Mas a par desses, há outros de inferior categoria e qualidade, alguns classificados de hotéis, única classificação que o Turismo geralmente aceita, mas que mais parecem as antigas pensões portuguesas. E que excelentes são os hotéis das nossas antigas colónias, ou de Hong-Kong e Macau.
Isto somente para referir que a indústria do Turismo, que importa ser implantada urgentemente nesta ilha, não pode ignorar nem esquecer que, para aqui se desenvolver o turismo, e importa que se o desenvolva urgentemente como única actividade capaz de promover o progresso desta ilha, não se pode proceder a sistemas improvisados, como seja o chamado “turismo rural”, que visitantes estrangeiros, principalmente do Norte da Europa, mais aceitam.
Verdade que há um ou outro caso em que esse sistema é aceite, mas somente à falta de melhor. Para os franceses isso pode acontecer, pois muitos dos seus estabelecimentos hoteleiros, classificados de hotéis, como atrás referi, são bastante precários para uma cidade como Paris. Mas por lá não há somente o turista endinheirado, como igualmente o imigrante refugiado, ou o jovem à procura de emprego.
E deslocados há-os em todas as cidades do Mundo. Se, em Portugal, são os “sem-abrigo”, nos Estados Unidos são os “Tramps” que vivem no mesmo sistema de infortúnio e miséria. Mas isso não é Turismo. Quando muito degradação social, miséria de que, infelizmente, o mundo está cheio.
Mas voltemos ao que importa: Necessitamos atrair as divisas dos turistas. Eles apreciam estas ilhas, o seu clima ameno, as suas paisagens, o verde luxuriante das encostas, os montes e, sobretudo o pico do Pico, quer esteja coberto de neve no inverno ou esplendoroso no verão. E nesse aspecto temos algo que “vender”. Saibamos aproveitar.
Aqui há anos um casal estrangeiro, refugiado das guerras do Norte de África, instalou-se na vila das Lajes, depois de percorrer outras vila do Pico e dos Açores. Quando interrogado sobre a escolha, a resposta foi simples, mas precisa: a água, a excelência da vossa água. A canalização havia sido montada e utilizava-se exclusivamente a água do “furo” da Silveira e da fonte do Lendroal. Não necessita de mais explicações.
Importa explorar a indústria do Turismo, mas com frontalidade e segurança, para que não resulte em fracasso, o que bem pior seria. Não será de esquecer o turismo rural, e as residenciais e, em sua substituição, arranjar estabelecimentos hoteleiros com o mínimo de condições de salubridade, higiene, conforto, sem se caminhar para luxos escusados que, desnecessariamente, elevam o custo da exploração.
Estabelecimentos hoteleiros que atraiam, quer pelo ambiente, quer pelo custo, aqueles que escolham esta ilha para as suas férias ou momentos de lazer.
Falando em momentos de lazer, não se devem descurar as diversões folclóricas, que agradam a muitos turistas. E deixo para trás qualquer referência ao defunto campo de golfe, que morreu à nascença, depois de tanto entusiasmo se ter desenvolvido à sua volta...
Muito sumariamente: julgo que o turismo é a indústria do futuro mas quando preparada e instalada com os requisitos de modernidade sádia e séria.
Estarei errado? O futuro o dirá.

Vila Baleeira
28-4-2014.

Ermelindo Ávila

A HISTÓRIA VAI REPETIR-SE?


Preocupa-me o futuro da ilha. Para alguns isso será uma situação algo irrisória, mas outros haverá que não deixarão de reflectir, por momentos, a situação angustiosa em que se encontra a ilha com uma população envelhecida e a diminuir, consequentemente, dia após dia e com uma economia débil em algumas zonas territoriais.
Isto já foi dito e escrito bastantes vezes, não apenas por mim mas por aqueles outros, e vários são, que têm presente a situação dramática que a ilha atravessa.
A Vila das Lajes, a mais antiga e só por si um património rico de história, atravessa um período de verdadeira calamidade social, com uma população diminuída e desprovida, - propositadamente? – de instituições e serviços que, antes, lhe garantiam estabilidade económica, social e até política.
E essa é a causa, senão única, a mais dramática e responsável. E responsáveis são, simultaneamente, aqueles que a provocaram.
Estão continuamente a diminuir os serviços. Ainda agora são os de saúde. Ontem foram os portuários, os aduaneiros, os judiciais, e de fiscalização e até os agro-pecuários !... Não vale a pena enumerá-los. Basta reflectir um pouco e chegar à triste conclusão de que foi afastada de cá a quase totalidade dos serviços públicos, arrastando a quase totalidade dos seus servidores. Eles foram e levaram os familiares, muitos deles ainda, ignorando onde tinham visto a luz do dia...
E isto não é história de outros tempos. São verdades autênticas da época actual. Intencionalmente ou não, a verdade é que foi-se promovendo o desenvolvimento de outros sítios com prejuízo nítido da vila mais antiga. E a realidade está aí bem patente…
Quando medidas drásticas forem tomadas, quem vai tomar posição defensiva a favor desta terra?
Há mais de um século, em 1895, foi promulgado o Código Administrativo e, mercê do novo sistema, instituído por esse diploma legislativo, extintos os concelhos do Topo, em S. Jorge, de S. Sebastião, na ilha Terceira, de Água de Pau, em S. Miguel e da Madalena do Pico, e não sei se mais. Com excepção da Madalena, os outros extintos nunca mais foram restaurados e as respectivas localidades passaram ao esquecimento. No Topo restou o Notariado que se manteve até ao falecimento do respectivo titular. Nas outras vilas, a “vida” morreu e passaram a simples e ignoradas localidades. Apenas a antiga vila de S. Sebastião é hoje recordado pela artística Matriz, que de lá não pode ser arrancada e que foi classificada como Monumento Nacional. Melhor sorte teve a Madalena do Pico. Após a extinção, as câmaras municipais de São Roque e das Lajes (consta das actas das respectivas Vereações) representaram ao Governo de Sua Majestade para que o concelho fosse restaurado e os respectivos funcionários voltassem aos seus lugares de origem. E isso aconteceu por Decreto de 13 de Janeiro de 1898, três anos após a extinção.
Hoje...O Governo Regional, que actualmente domina este sector público, está a proceder tal como há cem anos. Vai, aos poucos e paulatinamente, retirando de cá os serviços públicos e, depois, virá alegar que a população diminuiu e, por essa razão, não se justifica a manutenção desses mesmos serviços, como é o caso, presentemente em execução, dos Serviços de Saúde.
Amanhã serão outros... E os lajenses que se contentem com os epítetos de vila avoenga, vila baleeira, e quejandos.
A História irá repetir-se, mas em sentido oposto?
Não estarei cá para o testemunhar.

Lajes do Pico.
2 de Maio de 2014.

Ermelindo Ávila

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

S.tª CATARINA DE ALEXANDRIA

NOTAS DO MEU CANTINHO


A Igreja Católica celebra, no dia 25 de Novembro, a festa de Santa Catarina de Alexandria.
Pouco se sabe da data do nascimento desta Virgem e Mártir. Apenas que está sepultada no monte Sinai. Nasceu e viveu no século IV da era cristã, na cidade de Alexandria, no Egipto, quando era imperador Maximino, ou Maximino II, que foi imperador romano entre 308 e 313. Feroz perseguidor do cristianismo, foi combatido por Licínio e desapareceu em Tarso.
Consta que Catarina, pertencia à alta sociedade, era muito inteligente, tinha um rosto de muita beleza e uma alma santa, e que, pela arte da retórica venceu os cinquenta melhores filósofos do Império de Maximino que este lhe enviara para a demover da sua fé. Porque Catarina não se deixou vencer e discutiu com Maximino pondo a descoberto a falsidade dos ídolos que aquele adorava, o terrível imperador não lhe tolerou a afronta e mandou-a descarnar viva numa roda de navalhas.
A devoção a Santa Catarina, para uns padroeira dos filósofos, para outros protectora do juízo de cada indivíduo, é muito antiga, por aqui.
Há uma lenda, que corre neste lado Sul do Pico, e que está recolhida pela Dra. Angela Furtado Brum, no seu livro Açores, Lendas e Outras Histórias, na qual se diz que S. Catarina aparecia amiudadas vezes na Ponta do Mistério – hoje conhecida realmente por Ponta de S.ta Catarina – e que era trazida para a Igreja Matriz das Lajes, quando alguém encontrava a Imagem. Mas acontecia que, no dia seguinte, a imagem voltava ao seu local preferido na Ponta do Mistério. E tantas vezes isso aconteceu que resolveram construir a ermida que se encontra no chamado “Monte de Santa Catarina”, desta vila. Todavia, foi necessário que se abrisse uma pequena janela, junto ao altar onde se colocava a Imagem, para que, dali se pudesse ver a Ponta situada no Mistério. O certo é que a imagem não mais voltou a sair da sua ermida. Isto diz a lenda.
A ermida tem bastantes séculos de existência.
No livro da “Arca das três chaves” da Matriz das Lajes, encontra-se exarada, com data de 13 de Agosto de 1744, a sentença do Bispo de Angra, D. Frei Valério do Sacramento (que governou a Diocese entre 1738 e 1757), na qual estão mencionadas as confrarias da paróquia, e os saldos das respectivas contas. A confraria de Santa Catarina acusou 11$320. Na paróquia existiam as confrarias do Santíssimo Sacramento, do Rosário, do Senhor Jesus, de Santa Rita, das Almas, de S. Caetano, de S. Sebastião, de Santa Catarina, de S. Pedro, e dos Remédios. As últimas quatro pertenciam às ermidas existentes tendo já desaparecido a dos Remédios, que ficava situada no centro da Vila, no local onde hoje é a biblioteca e o auditório municipais.
Mais recentemente, o Governador Santa Rita, no seu relatório de 23 de Dezembro de 1864, refere que a ermida de Santa Catarina tinha um património de 1$585.
Silveira de Macedo, (História das Quatro Ilhas, Vol. III) ao descrever as ermidas da Paróquia, refere que “existem porém (...) e a ermida de Santa Catarina situada numa vistosa colina...”
A ermida passou, litigiosamente, a mãos particulares, o que deu origem a um processo judicial, todavia, com o falecimento do último proprietário dos terrenos, voltou à posse e administração da Igreja. De realçar que nunca deixou de estar aberta ao culto e ser centro de grande devoção.
A antiga imagem de Santa Catarina foi, há muitos anos, substituída pela actual e consta que vendida a um antiquário, em Lisboa.
Recordo que, no dia de festa, o antigo “proprietário” embandeirava, exteriormente, a ermida e adro, e, na véspera, ao anoitecer, iluminava a escadaria, que dá acesso à ermida, com rocas de pinho, o que, realmente, dava à colina um aspecto festivo.


Vila das Lajes do Pico,
16 de Novembro de 2013

Ermelindo Ávila 

domingo, 25 de agosto de 2013

A SEMANA DAS LAJES DO PICO

NOTAS DO MEU CANTINHO

Antes era a Semana de Nossa Senhora de Lurdes. Depois foi a Semana dos Baleeiros. E até foi constituída uma sociedade por quotas para a organização das festas externas. As festas continuam com a Semana dos Baleeiros, mas a sociedade deixou de ter qualquer actividade, assumindo o Município a obrigatoriedade dos festejos externos. Isso pouco importa. Interessa aos lajenses que a Semana dos Baleeiros continue sem alterar o programa litúrgico que já vem desde 1883.

Há cento e trinta e um anos que as Lajes do Pico soleniza, de maneira distinta, a Imaculada Conceição aparecida na cidade de Lourdes, França, “a uma menina FILHA DO POVO”, no dia 11 de Fevereiro de 1858.
A devoção a Nossa Senhora de Lourdes nasceu nas Lajes do Pico, em 1882, quando o povo aflito invocou, publicamente, a Virgem em ocasião aflitiva, quando os botes baleeiros regressavam de “uma arriada à baleia” e se viram impossibilitados de entrar no porto, porque o mar alteroso lhes fechara a “carreira “ hoje desaparecida com a construção do molhe de defesa.
Os festejos externos sempre se realizaram. Basta trazer aqui o que acerca das solenidades, Dom João Paulino de Azevedo e Castro, aquele que mais procurou incrementar na alma do povo a devoção à Virgem de Massabielle, ao tempo, Vice-reitor do Seminário de Angra, escreveu no jornal angrense Peregrino de Lourdes: São nove dias bem passados. As tocantes meditações, a leitura de episódios enternecedores, as práticas edificantes comentando as palavras e circunstâncias da Aparição, a harmonia dos cânticos, a decoração do altar da Santíssima Virgem – tudo concorre para que os dias da novena sejam apetecidos do povo da freguesia e das freguesias vizinhas”.
E mais à frente: Durante o dia da festa e na véspera, as proximidades da igreja acham-se vistosamente embandeiradas, e na noite de um destes dias, conforme o tempo o permite, tem lugar uma bonita iluminação chinesa (ou venesiana)1 que atrai concurso imenso de espectadores.(...) A vila das Lajes, triste e pacata de ordinário, toma durante estes dias um aspecto risonho, alegre e animado.
Desacostumada de ver gente de fora tomar parte em suas festas desde o tempo dos capitães-móres, em que a festa anual de Corpus Christi atraía ao seu recinto, vindos de todo o concelho, uns legendários corpos de milícias armadas de chussos e espadas em atitude bélica – vê-se durante estes dias povoada de estranhos, em atitude pacífica, armados quando muito do rosário, a visitam, atraídos de todos os pontos da ilha pelo encanto da devoção à Virgem de Lourdes”.
Os tempos são outros. Modificaram-se grandemente os hábitos e costumes. A fé e a devoção a Nossa Senhora de Lourdes não se modificou. A mesma novena, a mesma pregação, os mesmos cânticos, nas celebrações litúrgicas. Um novo estilo nos festejos externos que não se estranha, pois estão de harmonia com os tempos que correm.
As semanas festivas espalharam-se por toda a parte, nas ilhas açorianas e no continente. O que importa é que decorram com ordem, paz e harmonia e sejam momentos agradáveis de encontros e de convívios.
Estamos na “Semana de Lourdes” – “Semana dos Baleeiros”, numa evocação feliz desses que foram os primeiros a invocar, publicamente, a Senhora e que ainda hoje, apesar da actividade haver terminado, continuam a prestar suas homenagens Àquela Senhora que os livrou dos perigos tantas e tantas vezes e que eles ou os familiares jamais esquecem.
Aqui deixo três quadras do cancioneiro Popular das Lajes do Pico:
Oh que água milagrosa,
Milagrosa, benta e pura
Onde os enfermos acham
Na doença pronta cura.
Tudo o que lhe devemos
De graça e de favor
É razão que lhe paguemos
Com obséquio de louvores.
Vinde vós, anjos do céu,
Vinde louvar a Mãe de Deus
Ensinai-nos a entoar
Os ternos louvores seus.


Vila Baleeira dos Açores
Agosto de 2013
Ermelindo Ávila

1 Lanterna constituída por uma armação leve inteiramente forrada de papel de cor, vendo-se a luz por transparência.

sábado, 1 de junho de 2013

A VILA EM RUÍNAS

NOTAS DO MEU CANTINHO


Estão a terminar as obras de construção da avenida marginal (a denominação é minha) e do jardim anexo. Um espaço abandonado que, em boa hora e felizmente entendeu o Município recuperar, depois da saída do campo de jogos. Uma atitude de aplaudir e que bastante vem dignificar a parte Oeste da Vila. Há muito que se impunha mas, como diz o velho adágio, “tarda é o que nunca chega”. E ainda bem que chegou . Os lajenses, na generalidade, estão satisfeitos, pelo menos aqueles com quem tenho trocado impressões acerca do novo empreendimento. Mas não basta ficar por aqui. Iniciou-se uma obra que há que continuar. Naturalmente que os técnicos trabalham na elaboração dos respectivos projectos. No entanto há que algo lembrar do muito que se tem dito e escrito sobre a parte histórica, é assim que agora se diz por toda a parte, da vila mais antiga da ilha.
Refiro os monstrengos que para aí existem abandonados e a causar perigo aos transeuntes.
A casa da Maricas do Tomé já está entaipada mas isso não evitará uma derrocada e as pessoas que possam ser atingidas. O mesmo acontece com as duas casas que pertenceram ou pertencem à “Planipico”, ambas já sem tecto, uma delas de traça do século XVII/XVIII. E não menos perigosas são as ruínas da casa que da Feliciana, em cuja empena sul existe um “Passo”, propriedade da Misericórdia, como são todos os outros. Outras casas vão caminhando para esse inglório destino. Na rua principal da vila há a antiga “Casa da Alfandega”, propriedade do Estado, há anos encerrada. O que lhe vai acontecer? E já não refiro as ruas transversais...
Julgo que, segundo a legislação, a autarquia tem competência para impor obras ao proprietário ou expropriar o prédio e, depois, dar-lhe o destino que julgar mais acertado.
Mas expropriar para ficar abandonada como a da já histórica “casa da Maricas do Tomé” que, ao que sei, pertence hoje ao Município, não vale a pena.
Sei que não apenas nas Lajes do Pico existem prédios em ruínas e abandonados. Outras terras há, em Portugal, que nos centros de várias cidades, existem igualmente prédios degradados e abandonados. Mas isso pouco nos importa. Tratemos do que é nosso, pois nas eras que passam, a “inter-ajuda” é somente uma palavra de retórica.
Com a construção do novo arruamento há que promover a melhor regulamentação do trânsito, retirando o estacionamento de viaturas da rua principal (não se compreende o estacionamento em espinha em frente da Casa da Maricas do Tomé) e fazendo nela a circulação nos dois sentidos, para que os visitantes possam admirar o centro histórico e bons prédios que ainda existem.
No novo arruamento (chamo-lhe assim porque ainda não tem denominação) o trânsito deve ser regulamentando não se permitindo o estacionamento de veículos de carga, como já vai acontecendo, o que retira a beleza daquele espaço e a vista sobre o futuro jardim. Para os veículos pesados ou de carga pode destinar-se o parque da rua Direita, por detrás da Caixa Geral de Depósito, ou em outro que melhor convenha.
Afinal, pequenas coisas de grandes efeitos, ao que julgo.
E por hoje apenas estes reparos, para que a tempo, e antes de se criarem hábitos, tudo seja convenientemente regulamentado.
Há anos fui à Europa. Passei por várias cidades que, anos antes, haviam sido destruídas pela metralha da guerra. Estavam completamente recuperadas e nada “diziam” do seu passado bélico.
Por cá não houve guerras nem revoluções que destruíssem os prédios urbanos. Felizmente!
Mas a incúria e o abandono têm feito destruições enormes. Causa pena!


Vila das Lajes do Pico,
Maio de 2013.


Ermelindo Ávila

segunda-feira, 4 de março de 2013

PROTESTO!


NOTAS DO MEU CANTINHO


E repito: Protesto! Protesto pelas delapidações que ultimamente e sistematicamente se vão fazendo aos serviços instalados no concelho das Lajes do Pico. E há razões sérias e ponderáveis para lavrar o meu protesto, que julgo ser o de todos os Lajenses, pelo que se tem feito no concelho. E não vou repetir os vários serviços públicos que daqui têm sido transferidos para outros concelhos. Ultimamente, o mais beneficiado tem sido o da Madalena sem razões sérias para que se justifique essa atitude dos Poderes Centrais. Até que se leve à extinção do concelho...
No meu último cantinho lembrava, sem que tivesse em nota este de hoje, que “O concelho das Lajes é o mais “rico” em agricultura. Só a freguesia da Piedade tem mais de 16 mil prédios rústicos registados na respectiva Matriz Predial”.
Apesar de terem desaparecido duas importantes indústrias, a de conservas e a da baleia, mesmo assim no concelho situam-se duas outras bastantes importantes para a economia da Ilha: O Matadouro Industrial e a fábrica de lacticínios da Lacto-Pico. Apesar da crise que atravessa, “O Presidente do Governo Regional, Vasco Cordeiro reafirmou a disponibilidade do executivo para ajudar a viabilizar o sector cooperativo da Região, nomeadamente a Lacto-Pico...” (1)
Agora, e segundo informações fidedignas, vão centralizar-se na vila da Madalena os Serviços de Finanças, desaparecendo as repartições das Lajes e de S. Roque. Não sei qual a posição tomada pelas autarquias dos dois concelhos. Julgo que deve ser imediata, forte, intransigente e firme. Está em jogo o desenvolvimento e o futuro dos dois concelhos que, a partir dessa drástica e perniciosa determinação do Governo da República, ficarão defraudados e diminuídos, principalmente o concelho das Lajes, pois o de São Roque ainda fica com a vantagem de conservar a Comarca!...
Não se compreende porque tudo se há-de concentrar na vila que quer ser cidade e que só assim, com a ajuda dos poderes públicos, o poderá conseguir.
Não estou a levantar esta questão por acintoso bairrismo. Está fora do meu pensar. Somos todos picoenses e é pela defesa dos interesses picoenses que me move.
Extinguir serviços que são diariamente utilizados pelos cidadãos contribuintes é uma das mais drásticas medidas governamentais, que só prejudica o desenvolvimento económico e a normalidade de vida dos cidadãos, todos os dias obrigados a cumprir certas exigências do fisco.
Pode alegar-se que, na época actual, algumas obrigações podem ser cumpridas através dos meios electrónicos, evitando a deslocação às Finanças, como dizem. Mas quem possui esses meios? Nos meios rurais eles quase se desconhecem.
Fazer deslocar um contribuinte da Ponta da Ilha à Madalena é fazê-lo percorrer mais de cem quilómetros, perder um dia de trabalho, além das despesas com a indispensável alimentação. E quem isso suporta?
É preciso que as chamadas”forças vivas” do concelho tomem medidas imediatas para evitar o desaparecimento de um serviço e/ou a sua centralização a tão longa distância.
Os concelhos foram criados para comodidade dos povos e primeiro e único na ilha do Pico foi o das Lajes. O de São Roque veio mais de um século depois, quando a população se foi desenvolvendo naquela zona. O da Madalena só apareceu no século dezoito e, mesmo assim, extinto nos finais do século dezanove, para ser restaurado poucos anos depois, com o parecer favorável dos outros dois concelhos que assim reconheciam os direitos dos povos daquela zona.
Além disso é bom ter em consideração que o concelho das Lajes é o maior em área territorial, possui o maior número de prédios rústicos e o mais desenvolvido, dada a natureza do seu terreno, na agro-pecuária. As matrizes prediais são a prova oficial do que venho de alegar. E é isso que os governantes devem ter em atenção. As actividades comerciais são oscilantes e, daí as constantes falências que se vão verificando, não só por estas ilhas como pelo próprio continente. E ainda não se encontrou solução para tão perniciosos males para a economia e para o bem-estar dos povos.
É tempo das entidades concelhias tomarem posição e fazerem valer, a tempo e horas, os direitos que se projectam defraudar, dos cidadãos. Ao povo impõe-se uma união de esforços reivindicativos para que se evitem medidas defraudantes dos seus legítimos direitos.
E só mais esta referência: a repartição de finanças da Calheta de São Jorge foi encerrada e o arquivo transferido para as Velas. O povo manifestou-se e protestou, veementemente, de maneira ordeira e pacífica. Passados meses, voltou o arquivo à Calheta e a repartição entrou em funcionamento. Não quero lembrar a revolta popular de 1862 que tantos prejuízos causou ao concelho, precisamente por causa da instituição de novos impostos. Desejo somente que os direitos dos lajenses sejam acautelados e o povo possa viver em tranquilidade, cumprindo as leis nacionais e usufruindo dos direitos de cidadãos livres.
Com vista a quem de direito!
Lajes do Pico,
Março de 2013
Ermelindo Ávila
___________
(1) “Diário dos Açores, nº 40 016 de 22-02-1913 – pág. 20