segunda-feira, 22 de maio de 2017

EVOLUÇÃO SOCIAL

NOTAS DO MEU CANTINHO

Nem tudo, por estas bandas, são atrasos. Felizmente que assim acontece e que os povos respectivos das pequenas localidades, que beneficiam desse desenvolvimento, vão sendo capazes de promover o seu próprio progresso e bem-estar social.
         Refiro-me, particularmente, a certos subúrbios que conheço, desde quase a minha longínqua infância.
Outrora, eram pequenos aldeamentos, vivendo com dificuldades e até sem ligações sociais aos meios mais desenvolvidos ou urbanos, pois nem meios de comunicação capazes – estradas que permitissem o meio de transporte motorizado - possuíam. Conheci, na minha infância, num desses aglomerados, um pequeno estabelecimento onde se transaccionavam alguns géneros, trocando-os por produtos da terra: milho, feijão, batatas, cebolas e alhos, ovos de galinha e pouco mais.
Deslocavam-se pelos próprios meios, percorrendo velhos atalhos ou caminhos de calçada romana, a quilómetros de distância. Para o seu serviço interno possuíam carros tirados a bois somente. Não havia sequer motos ou bicicletas. Felizmente que hoje é diferente, muito diferente mesmo. Enquanto certos meios urbanos se quedaram num pacifismo atrofiante, por razões diversas, alguns meios rurais caminharam, afoitamente, para um futuro promissor e socialmente desenvolvido.
Logo que puderam dispor de estradas - calcetadas ou asfaltadas - melhoraram os seus caminhos e adquiriram meios de tracção motorizada, para sua deslocação e máquinas para trabalhos de campo.
O pequeno lugar, a que especialmente me refiro, construiu um templo religioso, que possui no frontispício um bom relógio público para orientação da população.
         Actualmente detém um dos melhores salões multiusos da ilha, onde fazem os seus encontros, bailes e refeições comunitárias.
Os alunos passaram a frequentar as escolas secundárias e até universitárias. Juventude, assim preparada, vai encontrando melhores colocações profissionais.
Foi sempre, como é natural, uma terra de emigração. Os seus filhos, em terras de imigração, deram sempre excelentes provas de civismo, dedicação ao trabalho, interesse pela vida dos meios onde se fixaram. Basta ter presente a acção heróica de “John (Portugee) Phillips”, o Manuel Filipe, (nome de Baptismo), que em terras Americanas se tornou herói nacional pela sua acção corajosa na defesa contra os índios que habitavam (e alguns ainda habitam) os Estados Unidos da América. O Manuel Filipe nasceu a 28 de Abril de 1832 e foi baptizado em 3 de Maio (faria hoje, data deste escrito, 185 anos). É pena que não seja recordado na sua terra Natal.
Mas, naturais da mesma localidade, outros emigrantes se hão distinguido, ocupando nos Serviços Estatais, posições de relevo.
Estou a referir-me ao lugar das Terras, subúrbio da Vila das Lajes que, no corrente ano, está a celebrar as suas tradicionais festas quinquenárias em louvor do Divino Espírito Santo, reunindo familiares e amigos em número de algumas centenas.
É este lugar de poucas centenas de habitantes, que em 1883 tinha 194 habitantes e só um marido ausente, precisamente o de Filipa de Jesus.

Lajes do Pico,
3 de Maio de 2017
Ermelindo Ávila


A BALEAÇÃO

A MINHA NOTA

         A pouco e pouco, com o rodar dos tempos, vão desaparecendo os velhos baleeiros picoenses.
         Aqui há semanas os jornais noticiaram a partida do Mestre Barbeiro e, pouco depois, do José Lourenço, de Santa Cruz das Ribeiras.
         Desapareçam dois grandes homens que a sua vida dedicaram, afanosamente, à arriscada faina de caçar o monstro marinho. E não sei se outros mais ainda restam. Eles vão desaparecendo tal como ingloriamente aconteceu com a baleação, por um imperativo legal que, ainda hoje mal se compreende. Proteger uma espécie marinha é privar o homem de usufruir os bens da Natureza que Deus lhes deixou.  E é mais do que certo que a Natureza com seus seres está ao serviço do homem e foi criada para seu sustento. O homem deixa de ser, dest’arte, o chamado rei da Natureza para ser um seu fiel servo.
         Foram, a pouco e pouco, desaparecendo os baleeiros. Uns partiram para o Pai, outros emigraram, e a honrosa classe deixou, abruptamente, de existir. Infelizmente.
         Extinguiu-se a actividade desde o já distante ano de 1987, há precisamente trinta anos, mas ainda hoje há quem vibre ao sinal de baleia, agora somente para ir, mar fora, ver o monstro no seu ambiente.
         A proibição teve consequências funestas para a economia destas ilhas. E não se procurou encontrar outra indústria que a substituísse. E os baleeiros, que praticavam a actividade, na sua quase totalidade, tiveram de emigrar para os Estados Unidos e/ou Canada, para conseguirem os meios da sua subsistência. Basta ter em consideração que, no ano de 1946, o valor do óleo de baleia produzido no porto das Lajes foi de 1.692 contos e a respectiva soldada ou quinhão do baleeiro atingiu 112 mil escudos. Por seu lado o Estado arrecadou, de imposto de pescado, 150 mil escudos. E, no ano de 1973, as baleias caçadas nos portos de Calheta, Santa Cruz, Lajes e São Mateus, produziram 1.411. 555$20, segundo publicou “O Dever” em seu número de 16 de Fevereiro de 1974.
         A última baleia, caçada pelo Oficial Manuel Macedo Portugal Brum, na canoa “Maria Armanda”, foi em Outubro de 1987, sendo somente aproveitados os dentes e a carne.
         Em certa medida valeu a chegada do Serge Viallelle que abriu nesta vila, em 1993, o estabelecimento turístico “Espaço Talassa” dedicado à observação de baleias – ou Whale Watching, uma actividade que se implantou em todas as ilhas mesmo  naquelas onde nunca houve tradição baleeira.
         O mesmo acontece com os museus e com as regatas quando é sabido que o Museu dos Baleeiros das Lajes do Pico é o museu mais frequentado dos Açores. As regatas estão a fazer-se em portos onde nunca houve baleação...E até fazendo parte dos programas de algumas festas, quando, afinal, Terra de Baleeiros é somente uma: a Ilha do Pico e, mais concretamente, a Vila das Lajes, onde quase toda a gente, comerciantes, artistas de carpintaria, sapataria, serralharia, barbearia etc., e até alguns funcionários públicos eram baleeiros.
         Afinal, a baleação tem um longo historial que, nem Dias de Melo, o grande escritor da actividade, completou!   
         Ainda é tempo e há quem o possa fazer.

Vila Baleeira,
14-V-2017.

Ermelindo Ávila

JUSTA HOMENGEM

A MINHA NOTA


         No dia 25 do mês passado, a Câmara Municipal de São Roque prestou condigna homenagem ao seu antigo Presidente, há anos falecido, António Simas da Costa.
         Um verdadeiro acto de justiça a quem, durante a vida, se dedicou, em cinco mandatos sucessivos, com o todo o entusiasmo e dedicação, ao seu concelho, onde nasce e sempre viveu. E ainda bem que a homenagem simples, mas entusiasta, foi prestada. Um acto que, além de oportuno e justo dignificou bastante quem teve a feliz iniciativa de o prestar e o realizou.
         António Carlos, como era conhecido, era uma pessoa de alta personalidade. Não tinha formação académica, mas uma prática de vida que lhe granjeava a estima e consideração dos seus conterrâneos.
            Trabalhou sempre pelo seu concelho, com um entusiasmo e uma dedicação sem limites.
         Tive oportunidade de colaborar com António Carlos, num período convulsivo da administração autárquico e dou testemunho do entusiasmo com que defendia os interesses da ilha e do seu concelho.
         São Roque do Pico fica-lhe devendo dois grandes empreendimentos, além de outros de não menor volume. Refiro o excelente edifício dos Paços do Concelho que é simultaneamente dos Serviços Judiciais, das Finanças e Tesouraria e dos Serviços dos Registos e Notariado. Um polivalente que muito beneficiou o concelho. E a localização da Central Eléctrica da Ilha, pela qual bastante se empenhou. E mais teria conseguido se um bairrismo doentio, não tivesse surgido a impedir empreendimentos.
         Na sessão de homenagem que o Município de São Roque houve por bem prestar-lhe em homenagem póstuma, Fernando Andrade, que colaborou na última Vereação presidida por António Simas da Costa, no seu discurso de homenagem, afirmou:
         Quando já a mais de meio mandato e os problemas de saúde se foram agravando, passei então a ir buscá-lo a casa e levá-lo a todo o lado. Fosse para a Lagoa do Caiado, onde gostava de ir ver as obras de aproveitamento da água da Lagoa, fosse para visitar as obras de construção da estação de tratamento de águas da Prainha, fosse para reuniões com as outras Câmaras da Ilha, ou fora desta, fosse para acompanhar os preparativos para a festa dos 450 anos de elevação de São Roque a Vila, fosse simplesmente para dar um passeio, fosse para onde fosse.
         E acrescentou: O seu gabinete raramente estava sem ninguém. Atendia a todos, a qualquer hora, em qualquer dia, procurando resolver os problemas das pessoas.
         Na realidade foi esse senhor que conheci e com quem bastante privei no exercício das minhas funções de funcionário da Autarquia lajense. Homem prático, empenhado, compreensivo e de uma dedicação extrema, como atrás afirmei.
         Justa a homenagem que lhe vem de ser prestada mas que, julgo, não é a suficiente para recordar aos vindouros Alguém que “passou fazendo o bem”, pelo concelho de São Roque do Pico.
         Mas, pelo que se disse, bem merecem os actuais autarcas daquela vizinho concelho.
         À veneranda memória do falecido Presidente António (Carlos) Simas da Costa, esta singela mensagem de admiração e de respeito.

Lajes do Pico.
Maio de 2017

Ermelindo Ávila

LEMBRANDO...

NOTAS DO MEU CANTINHO


É um acto de mera justiça recordar alguém que anda esquecido. Há muito que deixou de lembrar-se a figura insigne do notável orador sacro, jornalista integérrimo, homem de bem e sacerdote orientador de almas, que nem sempre o público anónimo conheceu e soube respeitar em toda a sua grandeza sacerdotal e intelectual.
         Sofreu bastante a incompreensão e malévola apreciação que alguns, felizmente não muitos, dele fizeram para, mais tarde, lhe reconhecerem o valor intelectual e a integridade e honestidade do seu valor como homem e como sacerdote.
          O Padre João Vieira XAVIER MADRUGA foi Alguém que passou na vida fazendo o bem. 
         No seu livro “Padres Açorianos – Bispos – Publicistas - Religiosos” escreveu o Cónego José Augusto Pereira:
         Nasceu na Vila das Lages, a 1 de Junho de 1883. Foi Prefeito e Professor do Seminário, donde saiu em 1911 para Pároco e Ouvidor da Vila do Topo, em S.Jorge, passando depois a Pároco da Candelária da ilha do Pico e está hoje (1939) manente na sua terra natal.                                                         
 Fundou e ainda dirige o semanário O Dever que começou a publicar, na Calheta de S. Jorge a 2 de Junho de l917.                                                    
         Por sua vez o P. José Carlos, no seu trabalho “Daqui houve Missionários até aos confins do Mundo – (2000), referindo o P. João Vieira Xavier Madruga, escreve: “Quando, na última fase da sua vida, se estabeleceu na casa da família, nas Lajes do Pico, entregue ao seu jornal “O Dever”, e colaborando pastoralmente na paróquia, e não só, foi até aos Estados Unidos da América do Norte. Acenou-lhe nesse sentido um bom número de colegas, uns de quem tinha sido companheiro e outros de quem fora superior e mestre no Seminário de Angra. Pensavam eles sobretudo em quão frutuosa seria a sua pregação entre os nossos que para lá partiram e ficaram. Abalou e assim aconteceu. Quase dois anos (de 1946 a 1948) de intensa e alargada evangelização por igrejas portuguesas e outras com importantes núcleos da nossa gente, tanto na Nova Inglaterra como na Califórnia. Deu-se por inteiro a missões paroquiais, retiros, novenas, tríduos, sermões de festas, conferências, entrevistas na rádio e na imprensa luso-americana, etc.”
O P. Xavier Madruga, sempre que viajava, publica no jornal extensas crónicas de viagem. Aconteceu assim quando foi a Roma à Canonização de Santa Teresinha, de cuja viagem publicou uma série de crónicas que, em 1930, reuniu  em livro: “Dos Açores a Roma”. Em 1955, quando tomou parte no Congresso Eucarístico realizado em Budapeste, em 1938, e em cuja secção portuguesa fez uma notável conferência, publicou as suas crónicas sob o título: “...Até ao Danúbio - Jornada de Fé e Cultura”. Só ficaram por publicar as “Cartas da América”, de que se encarregou o Núcleo Cultural da Horta, nunca cumprindo, porém, esse compromisso... Uma história para passar ao esquecimento...
“O Dever” foi fundado numa época em que o republicanismo acerbado combatia a Igreja com ferocidade e os jacobinos de então não toleravam o jornal católico, nem o seu Director.
          O P. Madruga não desistiu nunca de combater as investidas dos jacobinos jorgenses mas sofreu imenso com todos os ataques e aleives, inclusivamente com o roubo das chaves da Igreja do Topo que foram, em cortejo alarve, lançá-las ao mar. Coisas de há um século... O P. Madruga e o seu jornal foram defensores acérrimos e entusiastas dos interesses lajenses. No entanto ainda está por prestar-lhe a homenagem devida.  
           Em 1955 celebrou as Bodas de Ouro Sacerdotais. Nessa ocasião a Câmara Municipal deliberou denominar a rua, onde ainda existe a casa do seu nascimento, de Rua P. Xavier Madruga.
Aquando da ocorrência do centenário do seu nascimento, já o P. Madruga era falecido, a Câmara Municipal promoveu uma sessão solene a recordar o notável sacerdote lajense, da qual foi orador o escritor micaelense e seu dedicado Amigo, João Silva Jr.
 Foram singelas essas homenagens. Ainda é tempo de algo mais se fazer em sua memória: descerrar o seu retrato nos Paços do Concelho e colocar uma placa na casa onde nasceu e viveu.
Ao comemorar-se o centenário do “seu” jornal seria azada essa singela homenagem. Fica a lembrança. Que a saibam aproveitar.

Lajes do Pico,
Maio de 2017

Ermelindo Ávila                                

MAIO FLORIDO

NOTA DO MEU CANTINHO

Outrora o mês de Maio era o mês “de encanto e de flores”. Estava-se em plena Primavera e os campos apresentavam um ar festivo com encantos mil. Os tempos vêm mudando e hoje não se vêem árvores verdejantes nem flores mimosas por essas encostas e nos pequenos jardins das residências.
“Mês de encantos e de flores / Maio ditoso floriu...”
Na Igreja, o mês era dedicado à Virgem e, em todas ou quase todas as paroquiais, um grupo de jovens, normalmente de meninas, preparava-se para acompanhar a devoção diária ante a Imagem de maior devoção, com uma assistência fora do comum.
          Não eram somente as chamadas “beatas” de missa diária, mas muitas outras pessoas, devotas da Mãe de Deus.
Cantavam-se variados cânticos, que a apologética devocional era muito variada e alguns cânticos eram de uma beleza musical fora do comum.
Havia quem fosse à igreja, somente no mês de Maio, para ouvir os belos cânticos que o coro apresentava diariamente, normalmente novos e com belas melodias.
As igrejas eram excelentemente decoradas com as mais belas flores da época, principalmente rosas das mais variegadas cores e com aromas estonteantes, que se espalhavam por todo o templo, grande ou pequeno. Flores, afinal, que eram trazidas dos campos ou, principalmente, dos pequenos jardins que, normalmente, todas as casas possuíam. E se não existiam jardins delimitados, havia roseiras brancas, vermelhas, cor-de-rosa, amarelas, que todos tinham o prazer de cultivar, até nos cantos dos quintais ou até nas encostas das habitações, e que, naquele mês, levavam à sua igreja, em homenagem à Senhora do Rosário, Nossa Senhora de Lourdes, Senhora da Piedade, Mãe de Deus, ou Senhora da Alegria e, mais recentemente, Nossa Senhora de Fátima. Embora os títulos fossem diferentes a devoção era a mesma e sempre crescente,
Que belos eram os jardins públicos das cidades açorianas. Lembro o de Angra, na minha distante juventude, onde existia um variado roseiral de variegadas cores e qualidades, que tornava aquele magnífico recanto um local ameno onde apetecia ficar, à sombra das frondosas árvores e num ambiente aromático. Cuidadoso e hábil era o respectivo jardineiro para cuidar daquele verdadeiro oásis, onde os angrenses se deleitavam nas tardes de Primavera e Estio. Os jardins das outras cidades do Arquipélago não cheguei a conhecer, nessa época de saudosa memória.
Mercê dos altares cuidadosamente floridos e dos perfumes que evoluíam das flores que os engalanavam, as igrejas açorianas alimentavam ambientes místicos, onde a fé dos crentes rejuvenescia, no exemplar espírito religioso que neles se sentia e a todos atraía. E ainda hoje…
A Liturgia actual, principalmente a resultante das reformas introduzidas pelo Concílio Vaticano II, trouxe algumas modificações à prática religiosa. Deu-se mais importância à Missa ou Eucaristia, como é natural, mas as celebrações só têm lugar quando há sacerdotes, o que, infelizmente, na ilha do Pico nem sempre acontece. Basta considerar que, para cerca de vinte paróquias, existem seis ou sete párocos, quando, antes daquelas reformas, todas as paróquias e até os curatos estavam providos de párocos residentes e, por vezes, também de curas. Mas os tempos mudaram. As vocações diminuíram e não poucos membros do sacerdócio pediram escusa...
Estamos no mês de Maio. Verdade que os tempos são outros. As invernias são mais prolongadas. Tudo é diferente... Até o mês de Maio tem sido algo invernoso. Não é o mesmo de outros tempos, quando belos coros cantavam devotamente à Virgem:
Mês de encanto e de flores,/ Maio ditoso findou.../ Mas não cessem os favores,/ Que seu carinho outorgou!

Vila das Lajes do Pico,
Maio de 2017.

Ermelindo Ávila

terça-feira, 2 de maio de 2017

AS COROAÇÕES

Notas do meu cantinho

         Estão em casa, como soe dizer-se, as chamadas domingas, Coroações ou, até mesmo o “Levar a Coroa”. Tudo expressões que se reduzem ao cumprimento de uma promessa ou de um voto dos antepassados. E tudo começa no domingo que se segue ao domingo de Páscoa.
Vêm dos remotos tempos do povoamento, avivado com a crise sísmica que assolou os Açores, e principalmente a ilha do Pico, no século XVIII.
         E se alguns desses votos deixaram de cumprir-se pela extinção natural das respectivas famílias voventes, por aqui ainda se cumpre, de cinco em cinco anos, principalmente na Almagreira – Silveira e nas Terras, da freguesia da Santíssima Trindade. Este ano é “o ano das Terras”, como
ainda se diz. E ali as Famílias dos seculares Voventes tiram sortes, no ano anterior, julgo, para a distribuição das “domingas”, da Páscoa ao Domingo de Pentecostes.
         Há anos passados, era reduzido o número de assistentes à “função”: doze pobres, os familiares que levavam as varas e o estandarte e algumas crianças portadoras de cestinhas com flores, que iam desfolhando à frente da Coroa, ou Coroas, no percurso do cortejo entre a residência do mordomo e a igreja, onde tinha lugar a “Coroação”. Tudo feito com ordem e respeito pela tradição.
         Ainda hoje, assim se procede, muito embora o cortejo seja bastante ampliado com centenas de convidados, por vezes. E os convites são feitos, a amigos e conhecidos, com semanas de antecedência.
         E com antecedência também - durante o ano! – se preparam as famílias para “levar a Coroa”, no dia que lhe saiu em sorte. São os bovinos, ou apenas um que se tratam com mais cuidado; é, em algumas famílias, o trigo que é semeado para ser colhido e guardado até à semana da coroação; são os ovos que se vão trocando para que se reúnam as “dúzias” necessárias para as “massas” que se hão-de cozer. É todo um trabalho feito com cuidado e dedicação e que ocupa novos e velhos.
         Não se trata de uma associação ou irmandade propriamente dita, mas de um compromisso familiar que se vem transmitindo na própria família, com o maior respeito, sem que se tornasse necessário compromisso escrito. Bastou a palavra da primeira hora e tudo se vem realizando há séculos!
         As “Coroações” são uma tradição e uma organização diferente dos “Impérios”. Enquanto estes abrangem todas ou quase todas as famílias do lugar – há freguesias onde se realizam dois ou mais impérios de famílias ou de classes sociais: dos marítimos, dos lavradores, etc. - as “Coroações” têm lugar, nos anos próprios, dentro das próprias famílias que assumiram essa obrigação, em épocas diferentes. E tudo em honra e louvor do Divino Espírito Santo.
         Embora se trate de actos religiosos, a Igreja nada tem com a sua realização ou administração. No entanto, celebra os actos de culto – Missa e Coroação – segundo a vontade de cada um dos mordomos das domingas.
         Verdade que as festas do Espírito Santo, seja “Impérios” ou “Coroações”, são actos religiosos que a Igreja aceita sem interferência na administração. E quando o quis fazer só provocou situações que tiveram desfechos desagradáveis...
Todavia e, felizmente, há um entendimento correcto, normal e plausível entre a Igreja e as organizações do culto da Terceira Pessoa da Santíssima Trindade, e todo o cerimonial se realiza com espírito de fé e de religiosidade honesta.
Não deixa de ser dispendiosa uma “função de coroa”. Nos últimos anos, depois da Missa solene e do cortejo com a Coroa ou Coroas do Divino Espírito Santo, os promotores da solenidade, Mordomos ou “Imperadores”, oferecem um lauto jantar a centenas de convidados e familiares, como disse. Normalmente, recebe pequenas ajudas de familiares, vizinhos e amigos. No entanto, não deixam de ser dispendiosos estes autênticos banquetes que, de bom grado, são realizados em louvor do  Divino, como em certos lugares se diz.
Além das “Coroações” das Domingas, há outras que se realizam durante o ano, consoante as disponibilidades dos voventes, em cumprimentos de votos, alguns residentes, outros emigrantes que voltam à terra para cumprirem suas promessas feitas em ocasiões ou por motivos diversos.
É, afinal, uma devoção muito arreigada na alma do Povo Açoriano, quer esteja no Corvo, em Santa Maria, no Pico ou em qualquer outra ilha. Ponta Delgada realiza, anualmente, uma festa do Espírito Santo, com larga distribuição de sopas, promovida pelo próprio Município. E em outras localidades isso mesmo acontece. É para se poder comodamente promover a sua realização que, presentemente, a ilha do Pico dispõe de um vasto número de salões.

Páscoa de 2017
Ermelindo Ávila


CENTENÁRIO DE FÁTIMA

NOTAS DO MEU CANTINHO


         Portugal, e com ele o Mundo Católico, prepara-se afanosamente para celebrar o primeiro centenário das Aparições da Virgem Maria, na Cova da Iria, aos Três Pastorinhos, Lúcia, Francisco e Jacinta, hoje, o segundo e a terceira, já venerados, nos altares da Igreja Católica e a Primeira, a Lúcia, a caminhar para essa glorificação.
         Tinha dois anos, quando esse extraordinário Acontecimento se deu. Na minha adolescência, assisti a diversas manifestações do Povo Açoriano e adquiri o meu primeiro livro de leitura: “As grandes Maravilhas de Fátima” pelo Visconde de Montelo (P. Manuel Formigão).
         Nos anos Vinte e Trinta, era norma os católicos se reunirem, no dia 13 de cada mês, nas respectivas paroquiais, para rezarem o terço.
         Na Sé de Angra, uma das primeiras, se não a primeira Paróquia na Diocese a adquirir uma Imagem da Virgem de Fátima, tal como a descreveram os Pastorinhos, era habitual rezar-se o terço nos dias 13 de cada mês, à tarde, ante a Imagem.
         Igualmente uma das primeiras ou mesmo a primeira Imagem que veio para o Pico foi adquirida, mediante um peditório feito em toda a Ilha, por um tal João de Iria, da Silveira, para a sua igreja paroquial que, poucos anos antes, havia sido pasto de um pavoroso incêndio que tudo destruiu, só ficando as paredes.
          Em 27 de Junho de 1948, trinta e um anos após as aparições na Cova da Iria, chegou ao Pico a Veneranda Imagem da Virgem de Fátima, depois de percorrer várias ilhas dos Açores. A recepção, na vila das Lajes, ocorreu no dia 28, tendo uma recepção apoteótica. No dia 19, realizou-se a Missa Campal, presidida pelo Bispo da Diocese, Dom Guilherme. Com a Imagem Veneranda da Senhora da Cova da Iria, vinha uma luzidia Comitiva: o Capelão do Santuário, as Sras. D. Teresa Pereira da Cunha e D. Maria Vilas Boas, e os padres Demoutier, e Rapel Lerner e os membros da Comissão Diocesana, Dr. Candelária, Dr. José Pedro (depois Bispo de Viseu), Dr. José Lopes, Dr. Antonino Tavares e P. Artur Paiva. O Prelado celebrou Missa, no dia 29, num monumental altar erguido no largo em frente às obras, ainda inacabadas, da Matriz e no final recordou a memória do antigo Ouvidor e Vigário das Lajes, P. José Vieira Soares, que nesse dia, se vivo fosse, faria 70 anos de idade, e que havia falecido no ano anterior.
         A 13 de Fevereiro de 1995, teve lugar a segunda visita aos Açores e à ilha do Pico e a terceira visita da Imagem Peregrina realizou-se ao Pico de 11 a 14 de Fevereiro de 2016.
         No presente ano, ocorre o Primeiro Centenário das Aparições da Senhora, de 13 de Maio a 13 de Outubro.
         A devoção dos picoenses à Virgem é secular. Os lajenses sempre tiveram especial devoção pela Senhora do Rosário e tanto assim que os baptizados invocavam para sua Madrinha, antes da chegada da Veneranda Imagem da Virgem de Lourdes, em Setembro de 1882, Nossa Senhora do Rosário. Depois voltaram-se para Nossa Senhora de Lourdes e hoje essa devoção não esmorece. A Matriz das Lajes é o seu autêntico Santuário muito embora, por razões mal aceites, não seja oficialmente instituída.
         É uma pena, pois trata-se da primeira paróquia que, nos Açores, invocou publicamente a Virgem Nossa Senhora de Lourdes que havia aparecido 25 anos antes do histórico acontecimento.
         Felizmente que, decorridos 135 anos, a Virgem de Massabielle continua a ser a grande devoção dos lajenses e de muitos picoenses. As festas que anualmente se realizam em Sua honra, na Matriz das Lajes, dão esse irrefutável testemunho.
         Registe-se, porém, que a Virgem de Fátima, de Lourdes, do Rosário, ou Mãe de Deus, é sempre a mesma Senhora que os lajenses invocam com devoção extraordinária. E, apesar de, actualmente, a Imagem de Nossa Senhora de Fátima estar presente em todas as paróquias da Ilha do Pico, a Virgem aparecida em Lourdes, que afinal a mesma é, continua a ser a Padroeira das Lajes, como ontem foi dos bravos baleeiros lajenses.
         Não será tempo de elevar a Matriz das Lajes do Pico a Santuário de Nossa Senhora de Lourdes? Nada perde o catolicismo, antes tudo ganha, com essa homenagem, à Virgem aparecida à hoje Santa Bernardette na Gruta de Massabielle, em Lourdes. Fátima ou Lourdes é a Mãe de Deus e Mãe dos homens!
         A Virgem, é a Glória da nossa Terra e enquanto houver um lajense, Ela será o Nosso Amor!

Vila das Lajes,
Abril 2017

Ermelindo Ávila

AS FESTAS

A MINHA NOTA

                                              

         Todos os anos, aqui ou ali, nesta ou naquela freguesia, têm lugar as Festas em louvor da Terceira Pessoa da Santíssima Trindade. E não se trata de um acontecimento só próprio da Ilha do Pico.
         As Festas são de todos os açorianos que as realizam por tradição ou em cumprimento de votos em terras da Diáspora. E não somente os residentes nas ilhas que, anualmente e principalmente nas domingas a seguir à Páscoa e, normalmente, até ao domingo da Trindade, cumprem a tradição, ou votos feitos em ocasiões críticas.
         Por estas bandas do Sul, as festas começam no presente ano, no lugar das Terras, no primeiro domingo a seguir à Páscoa e há quem “leve a Coroa” todos os domingos, durante os domingos seguintes, e até durante o ano, conforme as promessas feitas, algumas delas na hora da partida para as terras de imigração.
         É uma tradição simpática que os picoenses sempre respeitaram e que outras ilhas, passados anos de silêncio, vão recuperando. E ainda bem que assim acontece.
         Na ilha do Pico, não se trata propriamente de dar jantar aos pobres, que sempre os houve, mas de se manifestar publicamente a devoção à Terceira Pessoa da Santíssima Trindade renovada pelas suas gentes, quando das erupções vulcânicas de 1718 e 1729 e posteriormente. Mas, se iniciaram nessa época de calamidades tremendas, pois sabido é que essa devoção para aqui haja sido trazidas muito antes, quando os primeiros habitantes aqui chegaram.
         Afinal, trata-se de uma devoção muito portuguesa, iniciada quando a Rainha Santa fez coroar o mais pobre dos assistentes com a coroa do Rei sendo cantado o Veni Creator, na capela real de Alenquer, no dia de Pentecostes (1)
          E escreve ainda o Dr. Hélder Fonseca Mendes, que venho de citar: Todos, porém, são concordes em que tiveram por fundadores, em Portugal, Dona Isabel de Aragão, a rainha santa, quando, em 1288, veio casar com D. Dinis, rei de Portugal (1279-1325), edificando uma igreja ao Espírito Santo na vila de Alenquer e erigindo nela a primeira confraria em louvor do Espírito Santo, a que fizeram liberais doações. (2).
Em Alenquer mantém-se a igreja mas não se realizam, ao que sei, nem coroações nem jantares.
         E como se diz, nas suas expressões de devotos:
         Viva o Senhor Espírito Santo!
 _______
1)       Mendes, Hélder Fonseca, “Do Espírito Santo à  Trindade”.pág. 20/21.
2)       ibidem

   Domingo de Páscoa de 2017

  Ermelindo Ávila 

NOTAS SOLTAS

NOTA DO MEU CANTINHO


         Há muitos anos que colaboro em “O Dever”, de maneiras diferentes. Principiei por publicar uma crónica - reportagem que, com espanto meu, foi apreciada por antigo professor a quem fazia aliás, referência merecida.
         Depois, aceite pelo Director do Jornal, que o recebeu com muito carinho, o gosto pela escrita foi-se mantendo ao longo dos anos, derivando, incipiente embora, para os problemas da terra que, já então, eram bastantes.           E a luta pelo bem da terra continuou.
         Ninguém foi capaz de se pôr na frente e dizer: basta!
         Nunca entrei em polémicas e se algum escriba vinha à liça contestar o escrito, deixava-o passar para lhe dar a resposta devida a seu tempo. E foi assim que cheguei até aqui...
         Não faltaram, algumas vezes, poucas, contestatários atrevidos, mas a esses a resposta era ignorá-los.
         Muitas das crónicas, estão reunidas em livros. Não refiro os títulos para não se julgar que estou aqui a fazer deles propaganda. Fique isso para outros. A minha idade, já bastante avançada, não permite que vá por aí para continuar a escrever, mantendo o “vício” que teve começo há 85 anos...
E feita esta pequena observação, prefiro esquecer o passado, mas nem sempre é possível...

                                               +
Os jornais picoenses fazem-se eco da crise da Lavoura, principalmente no concelho das Lajes, outrora o mais rico e próspero nas explorações agrícolas. É lamentável que isso aconteça. Ignorar ou desprezar o potencial agrícola do concelho é atitude que só posso classificar de malévola.
         No concelho das Lajes estão as melhores e mais férteis pastagens, os melhores terrenos de produção agrícola e, também, os aptos à exploração vitivinícola.
         Foi aqui perto que Frei Pedro Gigante plantou os primeiros bacelos de Verdelho. Foi na zona da Ponta da Ilha – freguesia da Piedade, especialmente – que se desenvolveu a cultura do vinho de cheiro, chegando alguns jorgenses a adquirirem ali terrenos para o cultivo da vinha, cujo vinho produzido levavam para a sua ilha. Um ano, porém, essa transferência não lhe foi permitida, porque a produção mal deu para o consumo local. (Consta das actas da Vereação Municipal).
         Alguns produtores tinham embarcações (veleiros) apropriadas ao transporte dos seus vinhos para o Norte da Europa.
         Os proprietários de terrenos de cultura exportavam cereais para outras ilhas e gado para abate no continente.
         Quando o vapor “Lima” passava mensalmente no porto das Lajes, e isso não foi há centenas de anos... era raro o mês que não carregava, para Lisboa, mais de uma centena de cabeças de gado vacum. Com o desenvolvimento da indústria de lacticínios (tenha-se em atenção a firma Martins & Rebello) e isso não foi há muitas dezenas de anos, aumentou a produção leiteira e diminuiu a de carne.
         Hoje, parece que ambas estão em crise. A produção leiteira vai diminuindo... A produção do vinho de qualidade vai aumentando...
         Na Piedade, existe uma extensa propriedade, doada há mais de cem anos por um benemérito filho daquela freguesia e emigrado no Brasil, que se destinava a escola agrícola. Nem são de contar as vicissitudes porque tem passado o Posto “Matos Souto”...
         Com a instalação da Região Autónoma, o que superintendia na Agricultura preferiu tirar dali a chefia dos Serviços Agrícolas e transferi-la para a zona vitivinícola...
Não é para esquecer o que então se passou... Aí têm o resultado...Estarei enganado? Não terá sido mais uma farpoada no Sul do Pico ou, mais propriamente, no concelho das Lajes?
O concelho das Lajes nunca tratou mal os outros. Até ajudou a fundá-los, dando-lhes territórios do seu...
Que bom seria se não se ignorasse a História.

Lajes do Pico,
8 de Abril de 2017.

Ermelindo Ávila

quinta-feira, 6 de abril de 2017

COISAS ANTIGAS

A MINHA NOTA

       Não se falava em turismo. Estava-se ainda no primeiro quartel do século XX e as comunicações eram mantidas somente pelos dois velhos navios da Empresa Insulana de Navegação, o “Funchal” e o “San Miguel”, substituídos, depois, pelo “Lima”, confiscado aos alemães no após guerra 14-18, e o “Carvalho Araújo” construído já nos anos trinta para substituir o velho “San Miguel”.
         Com a construção do novo e moderno “Funchal”, o “Lima” veio a “morrer” no mar da Palha, no Tejo.
         Os barcos da carreira Lisboa-Funchal-Açores passavam na ilha do Pico de quinze em quinze dias: o “Lima” a quinze de cada mês e o “Carvalho Araújo”, a 28/30, pelo Cais do Pico. Para os picoenses era o Vapor de vinte e oito.
         Os passageiros entre o Pico e Lisboa eram quase nenhuns: um doente que ia consultar especialista a Lisboa ou a Ponta Delgada e o transporte de carga de e para Lisboa. Do Pico saíam os lacticínios e o gado bovino para abate. De Lisboa vinham os diversos géneros de mercearia, a louça, os materiais de construção e os tecidos. Pouco mais.
         No verão passam por cá um ou dois caixeiros-viajantes, a fazer venda dos produtos continentais. Ficavam um ou dois dias nas vilas. Na Lajes utilizavam a única “casa de hóspedes” ou pensão da Maria José: uma pequena casa, embora de dois pisos, apenas com quatro compartimentos. Era lá que pernoitavam os oficiais da Junta de Inspecção Militar que, anualmente, aqui se deslocavam, um ou outro caixeiro-viajante e o condutor do carro da mala, entre as Lajes e a Madalena. Raramente outro visitante.
         Antes da Maria José regressar dos Estados Unidos, nenhuma casa de hóspedes havia por cá.
          O escritor faialense Ernesto Rebelo narra que, em certa ocasião, veio às Lajes caçar pombos da costa e ver uma “toirada” de moleiros. Para pernoitar, um amigo conseguiu-lhe uma das salas do extinto convento franciscano e nele mandou colocar um colchão onde o escritor dormiu as noites que aqui passou.
          Já no meu tempo da juventude conheci, por aqui, e alquebrado, o Anastácio Bello, um retratista que por aí deixou alguns bons retratos a carvão. Na Matriz creio que ainda existe uma apreciada pintura, em tela, com a Ressurreição do Senhor, que era utilizada no Sábado da Aleluia e que, ultimamente servia de retábulo na capela do Santíssimo na Matriz.
          Aquando da Exposição do Rio de Janeiro, nos anos vinte ou trinta, o Anastácio Bello foi um dos pintores convidados para ir ao Brasil decorar o pavilhão português. Voltou a esta vila, onde permaneceu ainda algum tempo e depois regressou à sua terra. Já estava bastante alquebrado, vítima que era do álcool.
         Certa manhã, saindo da “pensão” encaminhou-se para a mercearia do João de Deus Macedo, como habitualmente, que ficava no outro lado da rua – nesse prédio está hoje instado o Lar de Idosos (ou asilo, como antigamente era conhecido), para tomar a “manhã”. João de Deus, naturalmente, tinha acordado mal disposto – aliás era um conhecido “telhudo” – e não lhe quis fornecer a bebida. Mestre Anastácio, dirigindo-se para o pequeno muro que ficava em frente, onde actualmente está um prédio em cujo rés-do-chão está instalado um estabelecimento de fazendas, e pinta a crayon, a figura do João de Deus sentado num “vaso”… Voltou à loja e chamou o merceeiro. Este, ao ver-se assim ridicularizado, deu-lhe o copo de bebida, dizendo: vai imediatamente apagar. Era o que pretendia o Pintor.
         Enquanto esteve nas Lajes, a “manhã habitual” nunca mais faltou ao Pintor.                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                           

Vila das Lajes,
2 de Abril de 2017.

Ermelindo Ávila

A IGREJA DO CONVENTO

NOTAS DO MEU CANTINHO

  Data de 1700 a construção da primeira fase do Convento Franciscano, junto  de uma pequena ermida construída por Filipa Pereira, em 1559, no saínte da vila. A segunda fase do edifício do convento só ficou concluída em 1768 e, junto a ela, no lado Norte ficou a Igreja do convento. 
            Como escreve Silveira de Macedo, a Igreja foi dedicada em 1768, continuando a decorá-la no interior muito lentamente por falta de meios, de sorte que só em 1804 é que conseguiram ultimá-la (...) ficando um dos mais belos templos da ilha pelo primor da escultura dos retábulos e perfeição do dourado, possuindo já os ornamentos necessários, vasos sagrados, uma lâmpada de prata, coroas e resplendores em todas as imagens, o que tudo foi pasto das chamas dum voraz incêndio que em Fevereiro de 1830 reduziu a cinzas a igreja com suas imagens e altares, podendo apenas salvar-se o convento! (1)
            E o mesmo Autor referindo o convento franciscano, informa ainda: possuía um lindo Templo que foi pasto de um incêndio em 1828 (sic) trataram contudo os religiosos de o reedificar e conseguiram cobri-lo e fechá-lo, sendo porém extinto o convento em 1833 assim ficou e já ameaçava ruína quando o padre Francisco Salles, egresso do mesmo e cura da Matriz, tratou de o reparar com esmolas que obteve e alguns melhoramentos lhe fez; mas infelizmente ficou o edifício sem director, e achando-se em estado eminente de ruína. (2)
            A igreja Matriz, construída no meio da Vila, com finta lançada sobre os quarenta e cinco moradores, de então, 1506, encontrava-se bastante arruinada, o que levou o Bispo D. João Maria, aquando da sua visita em 1875, a deixar no respectivo relatório o seguinte reparo: (...) ficamos magoados por ver que uma vila tão antiga, nobre e piedosa, tem uma Igreja Matriz insuficiente para conter o numeroso povo da freguesia, e tão velha que não é susceptível de aumento. Vimos porém com satisfação que se acha reparada e asseada, quanto é próprio, o que é devido às deligencias e zelo do actual muito Rev.do Vice-Vigário António Ribeiro Homem da Costa. E soubemos tambem com satisfação que a respectiva Junta de Paróquia (hoje Junta de Freguesia) e fiéis desta freguesia cuidam com empenho na edificação dum novo templo, para a qual mandaram fazer já a respectiva planta e alçados e coligidos alguns materiais.“
Por seu lado, o Governador Santa Rita, no Relatório de 23 de Dezembro de 1867, já havia dito: (...) a actual igreja paroquial tem19 metros de comprimento até à capela-mor, e 10, 3 de largura. A capela tem 13 m. de comprimento e 5m,3 de largura. (...) Acha-se por tal modo arruinado, que se torna indispensável a construção de um novo templo.
            E assim aconteceu. O projecto é da autoria do P. Ouvidor Francisco Xavier de Azevedo e Castro e a bênção da primeira pedra teve lugar em 7 de Julho de 1895.
            Entretanto os serviços paroquiais continuaram na velha Matriz até que o Governador do Bispado, Cónego Fisher, por Provisão de 16 de Janeiro de 1902, autorizou que os serviços paroquiais passassem para a Igreja do extinto convento franciscano, pois tornava-se necessário demolir a velha matriz para as obras da nova poderem continuar.
            A Igreja só possuía o altar-mor, vindo da Horta da igreja do antigo convento. Foi necessário construir um altar para a Imagem de Nossa Senhora de Lourdes e outro para a do Senhor Jesus, instalar o órgão ido da Matriz, construir, a meio do templo, um coreto, onde a capela cantava, e acrescentado o coro que liga ao convento.
            De salientar que o órgão é uma verdadeira peça de arte, instrumento de concerto, construído pelo artista António Xavier Machado e Cerveira, em 1804. Foi afinado, nos anos trinta pelo pianista Leite, de passagem por esta vila, e em 1990 pelo organeiro Dinarte Machado. Após esta reparação vários artistas derem nele alguns concertos.
            Com o sismo de 1998 a igreja do convento ficou muito danificada, tendo sido totalmente restaurada e a capela-mor e altares laterais devidamente pintados e dourados pelo Governo Regional. Nessa altura foi retirado o coreto e igualmente a parte nova do coro, que ia até meio do templo.
            O órgão voltou à Matriz e encontra-se instalado num dos arcos que separa o corpo da igreja da nave do lado leste, onde o coro se instala.
            De salientar, na Igreja do convento, a imagem de Nossa Senhora da Conceição, titular do templo, uma artística e bela escultura, adquirida com donativos recolhidos nas ilhas pela jovem Rita Carolina, em 1906.
           
______________
1) MACEDO, A.L.Silveira de. História das Quatro Ilhas que formam o Distrito da Horta. Vol. 1, pág.206
2) Ibidem, Vol. III, pág. 82

Lajes do Pico,
24 de Março de 2017

ERMELINDO ÁVILA

AUTONOMIA INCOMPLETA...

NOTAS DO MEU CANTINHO


         ... e incompleta, porque não chegou a todos!
Infelizmente, é assim mesmo.
         Quando se andou por aí a estudar o Estatuto da Autonomia, uma das regras estabelecidas era que a Autonomia devia chegar a todos os açorianos. Criou-se, mesmo, um slogan em que se estabelecia a regra de desenvolvimento harmónico de todas as parcelas do território autónomo.
         Pretendia-se, afinal, com a autonomia, dar aos açorianos, a todos os açorianos, o direito de se governarem sem interferência de vizinhos ou estranhos às respectivas localidades.   
Mas isso não aconteceu. Mantiveram-se os serviços públicos nas antigas capitais de distrito, numa hegemonia ainda mais atrofiante do que existia, embora se centralizasse a sede do governo numa dessas cidades.
         Pior ainda foi, dentro das próprias ilhas, centralizarem-se os serviços, transferindo alguns ou criando novos, diminuindo assim a estabilidade política das primeiras povoações. E fez-se isso com uma naturalidade e insensatez até então praticamente desconhecida. Mas o pior é que o sistema continua. Pretendem ignorar que essas drásticas medidas obrigam à deslocação de funcionários e respectivas famílias para as localidades de fixação, ao engrossamento das respectivas populações e ao despovoamento de outras e consequente atrofiamento económico e social.
         Com o despovoamento desce o número de votantes e as terras deixam de ser ouvidas nos centros de decisão, como seria natural.   
         Os poucos jovens que existem vão caminhando para os locais onde encontram trabalho e as populações vão vertiginosamente envelhecendo, as terras, por vezes as mais férteis, vão ficando abandonadas e uma vegetação selvagem vai-se dela apossando, sem proveito, a não ser de algum estrangeiro que as descobre e as adquire para nela se estabelecer nas época de estio ou repouso.
         Com a saída (abandono) dos homens válidos, desapareceram os artistas das diversas profissões: pedreiros, carpinteiro, ferreiros e funileiros, pintores e artesãos, sapateiros e alfaiates que outrora existiam em abundância e não lhes faltava trabalho em cada uma das respectivas profissões ou artes.
         Fecharam os pequenos estabelecimentos de fazendas e mercearias, o comércio familiar, como agora se diz. E havia-os em todas as freguesias. Na vila das Lajes havia mais de meia dúzia desses pequenos estabelecimentos de mercearia, onde, aliás, de tudo se vendia: desde a cal para as caiações dos prédios até aos géneros de consumo doméstico.
         As duas padarias existentes no concelho foram criadas, há algumas dezenas de anos, pelas próprias famílias. Hoje isso não seria possível pelas exigências burocráticas que, incompreensivelmente (julgo), se estão a pôr em prática, dificultando somente a criação de pequenas actividades industriais ou familiares, indispensáveis à manutenção dos respectivos agregados.
         A caça à baleia, praticada desde há dezenas de anos na Vila das Lajes, foi proibida. Encerrou drasticamente a fábrica de conservas de peixe. Desviaram-se as traineiras e cessou o seu fabrico nos estaleiros locais, que também desapareceram. Daí resultou a emigração, não apenas de jovens mas de famílias inteiras. Às dúzias!...

         Vila das Lajes do Pico,
           28 de Março de 2017
            Ermelindo Ávila                                                                 

domingo, 26 de março de 2017

A QUARESMA

A MINHA NOTA


Quando reinava a Monarquia, a Igreja Católica estava um tanto submetida ao domínio do Monarca. Com a Implantação da República, em 1910, tudo se modificou e a separação do poder civil da Igreja, passou a dominar a vida dos povos com um autoritarismo que deixou profundas mazelas nos indivíduos. Foi um verdadeiro tempo de perseguição religiosa que veio a acabar a meados do século passado, mas cuja acção anticlerical não deixou de marcar os indivíduos e a própria sociedade. Houve, porém, sectores da vida religiosa que se mantiveram, muitas vezes pela influência que certos dirigentes católicos exerciam e continuaram a manter essa situação junto da sociedade civil.
As Misericórdias eram e são, presentemente, instituições canónicas – o Prelado é que tem poder para aprovar os respectivos estatutos – que, em parte, estavam sujeitos à jurisdição civil.
Tenha-se em atenção o que aconteceu com os hospitais que acabariam por ser nacionalizados pelo Estado.
As obrigações canónicas das Santas Casas, como eram e ainda hoje são conhecidas as Misericórdias, mantiveram-se, principalmente, na celebração das procissões quaresmais, como é ainda hoje a Procissão de Passos que, ao menos em todas as ilhas da Diocese, se realizam com grande esplendor e concorrência de fieis.
A essa instituição pertencem os conhecidos “Passos”, pequenos altares incrustados nas paredes de muros de habitações, onde há a paragem do cortejo processional, para a prática litúrgica adequada.
A freguesia da Piedade ainda conserva alguns Passos que denominam  os sítios: Passos Novos ou Passos Velhos. Na Vila das Lajes existem, também, alguns Passos, muito embora, por motivo de construções urbanas, outros hajam desaparecido. Todavia, no dia da Procissão, os moradores do sítio têm o cuidado de “armar” altares apropriados onde há a tradicional paragem.
Em Angra conheci, há umas dezenas de anos, passos fechados com portas durante o ano, naturalmente para se evitarem actos de vandalismo.
Ainda bem que a tradição se conserva, sinal do catolicismo, tão tradicional das gentes açorianas, que não deixa de ser praticado, no Tempo Litúrgico da Quaresma com respeito, e certa solenidade. É o que vai acontecer, uma vez mais durante o corrente ano, segundo está anunciado pelas respectivas paróquias.
No tempo quaresmal realizavam-se também os chamados “quartéis”. A paróquia era dividida em diversos sectores com um certo número de paroquianos por dia, a fim de facilitar o cumprimento do preceito pascal. Curioso que algumas paróquias, ao menos aquelas que me foi dado conhecer, organizavam o registo de toda a população paroquial onde faziam a “descarga” daqueles que cumpriam o preceito. Registavam todos os habitantes da paróquia, por idades e sexos e, por esse registo, aqueles que restaram, decorrido mais de um século, sabe-se qual era a população da freguesia respectiva. Assim, no ano de 1888 a freguesia da Matriz da Santíssima Trindade da Vila das Lajes do Pico, no dia 31 de Dezembro de 1887, tinha 1110 indivíduos do sexo masculino, 1614 do sexo feminino, 246 crianças do sexo masculino até aos 7 anos e 200 do sexo feminino. O total da população, aquele ano, do Soldão às Terras, era de 3.270 habitantes, salvo erro. Em parêntesis, registe-se que é curioso notar que todos os que tinham idade para isso, cumpriram o preceito pascal.
Coisas de outros tempos, dirão. Pois que sejam.
Lajes do Pico,
Março de 2017

Ermelindo Ávila

ATAFONAS

A MINHA NOTA

                                         
Há dias, no Auditório do Museu dos Baleeiros, desta vila, passou o documentário ATAFONAS, uma evocação simpática dos velhos sistemas de farinação de cereais. 
         Tudo quando seja lembrar o passado, tem sempre quem aprecie os antigos sistemas de vivência das populações que aqui se fixaram na época do povoamento e tiveram de “inventar”os sistemas indispensáveis para poderem suportar o isolamento a que eram votados.
         Pela carta de 21 de Fevereiro de 1460, passada a favor de Joz de Utra, 2.º donatário do Faial e 3.º do Pico, D. Manuel, em carta de confirmação da doação, estabelece: “... Moinhos – “Outrossim nos praz que o dito Joz de Utra haja para si todos os moinhos de pão que houver nas ditas ilhas (Faial e Pico) de que lhe assim damos o cargo, e que ninguém não faça aí moinhos, somente ele ou quem lhe a ele prouver: e esto não entenda em mó de braço, que a faça quem quiser, não moendo a outrem, nem atafona a não tenha outrem, somente ele ou quem a ele aprouver. (1)
         Conheci diversas atafonas em casas particulares desta vila movimentadas por animais bovinos, quer mais pequenas, manuais, estas de uma só peça de basalto, com mós soltas, somente utilizadas em ocasiões de urgência. Havia ainda umas pequenas, também em basalto (ou pedra da terra), usadas para a farinação de cevada, café ou filho torrado, com que faziam uma mistura de “café”.
         Os moinhos e as atafonas eram os mais vulgares.
         Interessante, em dias de aragem, ver o rodopiar das velas dos moinhos – moinhos de vento - nos pequenos montes ou elevações perto das habitações onde eram instalados.
         Ainda hoje existem alguns moinhos espalhados pela ilha, muito poucos, afinal e que dão um aspecto característicos à paisagem. O Turismo aprecia-os na realidade e a nós, nativos, são uma recordação saudosa de tempos passados, Aqui perto tínhamos o moinho da “Terra da Forca”- um pequeno monte no Sul da Vila, que, felizmente, nunca foi utilizado. Lembro-me da construção do moinho do Juncal, de fatídica existência e o da Ladeira Nova. Mais além, o da Silveira e o do Mistério. De todos existe somente o da Ponta Rasa, entregue à exploração turística. Na Ilha ainda restam outros, embora inactivos.
         Mas volto às atafonas. Todas as casas de lavradores tinham, ou nas lojas das residências, ou numa casa ao lado, “na casa da atafona”, uma atafona para uso doméstico. E nela que se moía diariamente o milho, ou mesmo o trigo que este havia, para uso doméstico. De madrugada levantava-se um dos familiares e descia â loja (rés-do-chão) para moer o milho. Entretanto, a mãe ou uma filha, acompanhava-o para acender o forno. Quando este ficava suficientemente quente, a massa de milho estava pronta para entrar no forno, em forma de bolo do forno, porque, para acudir a uma emergência, também se fazia o bolo do tijolo.                                                      
    Com o aparecimento das moagens movidas a motor, quase desapareceram os instrumentos domésticos que hoje não passam de simples e saudosas recordações.
...
1)MACHADO, Lacerda. História do Concelho das Lajes.1936, pág. 76.

Vila das Lajes,
 20-Março. 2017
Ermelindo Ávila                                                                

SANTA CASA DA MISERICÓRDIA

NOTAS DO MEU CANTINHO


         No passado domingo realizou-se na Paróquia da Santíssima Trindade, sede da antiga Ouvidoria das Lajes do Pico, a tradicional Procissão do Senhor dos Passos. Um acto litúrgico que vem de longa época que é sempre feita com ordem, respeito e solenidade. O mesmo aconteceu realçando-se a comparência da Irmandade da Santa Casa, promotora daquele acto litúrgico, o único que, presentemente, assinala externamente o Tempo de Quaresma.
         A Santa Casa da Misericórdia da Vila das Lajes é actualmente a instituição sócio-religiosa mais antiga da Ilha. Foi fundada por Alvará régio de 14 de Novembro de 1592 . E diz o Alvará que o Provedor e Irmãos da Confraria “gozem e usem de todos as liberdades e privilégios e liberdades de que gozam e usam (...) o provedor e irmãos da confraria da misericórdia da cidade d´Angra da ilha Terceira e da ilha do Faial e isto naquelas coisas que se poderem aplicar à dita confraria da ilha do Pico...”.
         As Misericórdias de São Roque e Madalena são de recente fundação. Esta última foi fundada recentemente por Jacinto Ramos e outros, para aproveitar o legado de Terra Pinheiro e construir o antigamente classificado “hospital sub-regional” . A de São Roque teve a mesma finalidade. S. Roque construiu o hospital “Rainha Santa Isabel” primeiro que os outros. O das Lajes, apesar dos respectivos estatutos da Santa Casa preverem a construção de um hospital, este só veio a ser inaugurado em l de Janeiro de 1960 por dificuldades na aquisição do terreno onde foi implantado. Mesmo assim o projecto que lhe fora destinado pela Comissão de Construções Hospitalares e que foi cedido à Madalena, teve de ser novamente elaborado por aquela Comissão.
 Para a construção do hospital o Barão de Castelo de Paiva concedeu, em 10 de Janeiro de 1874, duas inscrições com o valor nominal de 500$000 (reis). Mas essas também desapareceram...
 Frei Diogo das Chagas no seu valioso “Espelho Cristalino em Jardim de Várias Flores,” relata que a Santa Casa, em 1641, possuía uma casa que se encontrava em ruínas já no ano de 1718, quando se deram as primeiras erupções vulcânicas na Ilha do Pico. E Lacerda Machado, em artigo publicado no antigo jornal “As Lages”, escreve que a Misericórdia possuía um templo de duas naves, construído, por voto do povo, aquando daquelas erupções, sendo destruído em 1868 e mais tarde demolido para utilizarem os materiais na construção da Igreja Matriz. O local onde fora construído foi arrematado.
Segundo constava dos livros da contabilidade da Misericórdia das Lajes, incompreensivelmente desaparecidos, a instituição limitava a sua actividade a fazer empréstimos a pobres, a distribuir pensões de invalidez e a realizar as solenidades de Passos e Calvário.
          Os irmãos usavam nas cerimónias litúrgicas balandrau preto. O provedor empunhava nos actos públicos uma vara de metal prateada e nas procissões e funerais dos irmãos era levada a bandeira respectiva: um quadro hasteado numa vara e com pinturas em tela nas duas faces. Mas também estas insígnias desapareceram, e não há muitas dezenas de anos.
          Apreciei que a Santa Casa voltasse a dispor de bandeira e o provedor de vara e irmãos de balandrau. As senhoras que pelos novos estatutos podem inscrever-se como irmãs, usam opas pretas.
         Já isso escrevi em outra ocasião(1), mas não fica mal repetir...

1)Ávila, Ermelindo. Figuras & Factos. Vol 1

Vila das Lajes-
15-Março-2016
Ermelindo Ávila



POSTO DE TURISMO

NOTAS DO MEU CANTINHO

         Está em vias de conclusão o edifício destinado ao Posto de Turismo, a aceitar como realidade o que nos é dado observar.
         Até agora aquele serviço municipal tem funcionado no antigo castelo de Santo António, extra-muros, como soe dizer-se. Foi a ocupação encontrada para lhe dar certa utilidade pública. Mas não foi nem é suficiente para um imóvel daquela categoria.
         Trata-se de uma construção levada a efeito aquando da Revolução Francesa, decorria o ano de 1792. O forte ocupou o antigo posto de ordenança, que havia sido extinto, como todos os outros existentes no concelho, por decreto de 30 de Abril de 1832. Como já escrevi em “Figuras & Factos”, (1993), era constituído por duas vigias e sete ameias.
         Em 1885, na cerca ou parada, foi instalado um forno da cal que funcionou alguns anos sob a administração de uma sociedade constituída para o efeito. Depois foi abandonado.
         No século passado foi declarado imóvel de interesse público e nele a Câmara Municipal instalou o Posto de Turismo que será desactivado quando estiver concluído e inaugurado o edifício em construção na Rua dos Baleeiros, desta vila.
         Tratando-se, como se trata, de um imóvel de interesse público, não pode ser novamente abandonado. Há que encontrar para ele uma ocupação utilitária e digna. Uma simples livraria de venda de edições novas ao público é insuficiente. Julgo que mais merece. A antiga fortaleza, onde, aliás, nunca se praticou qualquer acto bélico, ainda hoje dá uma certa dignidade à vila mais antiga da ilha e que sempre se comportou com dignidade e elevação patriótica. Estou a recordar o Vigário Gonçalo de Lemos e o Capitão-Mor Garcia Gonçalves Madruga que foram exceptuados do perdão concedido aos açorianos pelo Rei de Castela, e confiscados seus bens, quando os Filipinos dominavam Portugal, por se manterem fiéis a Dom António, Prior do Crato.
         O Castelo, como é conhecido ainda hoje, fica presentemente numa zona de expansão da vila e pode muito bem ser utilizado para a instalação de um serviço de utilidade pública. E eles não faltarão.
         Na velha fortaleza devem ser repostos os pequenos canhões
que a ele pertenceram e que, depois, foram colocados no porto para servirem de cabeço às embarcações que o demandavam. Ainda conheci alguns. Fazer uma busca e recuperá-los é um gesto administrativo meritório, não somente para os mais novos que devem ter certo orgulho no passado da sua vila, já que o presente se encontra ou vai ficando um tanto “abalado”. E até para o turismo, pois os visitantes, principalmente os estrangeiros, não se interessam somente com as paisagens, arvoredos ou veredas e trilhos antigos. A História também lhes interessa e mais do que se possa julgar.
         O Castelo de Santo António, como se denominava, é um elemento histórico que algo tem a revelar a quem o “interrogue”.
Não o esqueçam, por favor. Conservem-no convenientemente. E já que, de momento, não tem nenhuma função oficial a desempenhar, ao menos que a sua estrutura bélica seja conservada “inocentemente”, voltando às respectivas ameias os pequenos canhões. Hoje é fácil reavê-los, pois não têm outra utilidade.

Vila das Lajes,
11-Março-2017

Ermelindo Ávila