Mostrar mensagens com a etiqueta Lajes. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Lajes. Mostrar todas as mensagens

domingo, 12 de novembro de 2017

NA ÉPOCA DAS COLHETAS

RESPINGOS


Não havia estradas pelo lado Sul da Ilha do Pico. Os terrenos, os melhores da ilha – diziam - eram explorados normalmente pelo sistema braçal. Quando a colheita era maior utilizavam-se carros “tirados”1 por um ou dois bovinos, no mês nas colheitas dos milhos.
Agradável era o trânsito dos carros de dois bois, atravessando as ruas da vila das Lajes, carregados, geralmente, de maçarocas de milho, das colheitas das Terras de Baixo, Granja, Estreito, ou mesma da Canada de Jorge Dutra, onde se situavam os melhores terrenos dos proprietários da Silveira, Almagreira ou Ribeira do Meio, pois era junto das respectivas habitações ou em terrenos próximos que tinham as “casas de atafona” ou de albegoaria.
E era um gosto o passar dos carros, ao anoitecer, a chilrear, enquanto a autoridade municipal não proibiu esse sistema, pois, diziam, era incómodo principalmente para as pessoas doentes.
Quando em 1943 foi inaugurada a estrada regional, a ligação entre a Vila das Lajes e o centro da freguesia da Piedade passou a ser feita em veículos motorizados, e “ficaram para o lado” os carros de bois. Estes animais, “gado da porta” como era conhecido, praticamente, era utilizado em atafonas e nos trabalhos de lavoura nos prédios “da casa”. Hoje, praticamente desapareceram e quase só existe o “gado de leite”. Trata-se, afinal, de um sistema quase prejudicial, dado que se alterou substancialmente a utilização do gado bovino e o sistema de praticar a antiga agricultura.
Nas casas do lavrador já não há, ao que creio, as noites de desfolhada, como tão bem a descreveu o Escritor Júlio Dinis. Hoje, se vivo fosse, outros assuntos encontraria para as suas saborosas crónicas.
Costumes antigos, vindos de nossos avós, que não se repetem. E tantos eles eram. Relacionavam-se entre si, constituindo “um todo” dos hábitos e costumes das gentes antigas, aquelas que foram nossos Avós.
A quase totalidade dos picoenses tinha cédula marítima para poder ir ao mar, em qualquer barco de pesca: “chata”, lancha, embarcação de pesca costeira, ou mesmo do mar alto, pescar o peixe para o inverno ou, quando profissional, fazer a “soldada” para o sustento da Família, pois esse seu quinhão, como também era conhecido, era a “moeda de troca” dos géneros, tecidos, e o mais necessário com que se mantinha a Família.
O Homem do Pico tanto exercia a profissão de agricultor de braço, como à tarde ia às vejas, ao serão aos sargos, ou, na época própria, ia ao “mar do limpo ”deitar o estremalho para apanhar o chicharro que recolhia ao amanhecer. Nessa altura, feitas as divisões, as mulheres levavam-no numa cesta até ao campo (aldeia vizinha) para trocar por milho, batatas ou outros géneros. Não se passava fome, muito embora houvesse épocas de algumas dificuldades. E quem não se lembra da matança de porco e do dia alegre que era?!...
+
Em certos anos, era costume os barcos de pesca deslocarem-se para outras ilhas e fazer ”pescas de fundo”, ou até mesmo nos bancos “Dom João de Castro” e “Princesa Alice”. Preparavam-se com “bordas falsas”- aumento do costado – e na companhia das Lanchas “Lourdes” ou “Hermínia”. E por lá estavam cerca de uma semana, se a pesca era boa.
Quando se deslocavam para os mares de S. Jorge, normalmente, iam para o Norte Pequeno, outros para os Biscoitos da Terceira e outras mais ilhas, onde o peixe abundava. Esse sistema terminou, creio, com a pesca da albacora e a instalação de fábricas de conservas.
Quando a caça à baleia estava no seu auge os baleeiros lajenses eram contratados como mestres ou trancadores pelos armadores e aproveitavam as horas de vazio para a apanha de peixe para seu sustento, da família que o acompanhava, ou para venda...
Hoje tudo não passa de um sonho…
Lajes do Pico - Vila Capital da Cultura da Baleia,

Ermelindo Ávila.

1Puxados, (expressão popular)

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

LENHAS E COMBUSTÍVEIS

CRÓNICAS DO MEU CANTINHO


Dou-lhe este título como podia dar-lhe outro, talvez mais apropriado. Mas vai o primeiro que saiu do teclado, pois, neste caso, o título pouco importa.
Até meados, ou pouco antes, do século passado, as donas de casa cozinhavam com lenha colhida nos prédios do alto. Era uma trabalheira para a conseguir. Tinha de ser cortada com antecedência de alguns meses e, depois, trazida em feixes à cabeça das mulheres, aos ombros dos homens, nos burros ou cavalos ou em carros de bois, para as residências e nelas preparada (aturada) para os lares.
Aqui nas Lajes as terras do alto, a Leste do burgo, só produziam lenhas, (faias e incensos) como ainda hoje. A lenha, depois de cortada ficava a secar e, quando própria para ser utilizada, era preparada em pequenos feixes, ou molhos, e atada a uma roldana de ferro, e esta a um fio que ligava o alto ao quintal da habitação. Normalmente era ao entardecer, no fim do trabalho, que os operários faziam os pequenos feixes e os enviavam pelo fio para as residências. O deslizar da roldana no fio produzia uma réstia de fogo durante o percurso. Para a miudagem, era um regalo ver o deslizar precipitado dos pequenos molhos. Com a construção da estrada Lajes - Piedade (1943) os fios que tinham forçosamente de atravessar a estrada, foram retirados.
O fogo para as cozeduras era mantido no “lar” e a grelha, ou trempezinha que nele se colocava, suportava os “caldeirões” e tachos onde eram cozinhados os alimentos. Depois apareceram as achas trazidas em carros tirados por um só animal bovino, pelos carreiros da freguesia de S. João, que abatiam a lenha no interior do Mistério onde ela (faias e incensos) ia crescendo. Geralmente, nos chamados dias úteis, o Manuel de Simas e o Inácio traziam à vila os seus carros tirados, cada um por um animal bovino, com achas, normalmente meio milheiro, para fregueses certos. Todos os dias vinham às Lajes com os seus carretos e, na volta, levavam os géneros que lhes haviam sido encomendados. Um serviço útil e simpático.
As achas, para serem utilizadas nos fogões, tinham de ser cortadas ao meio e desse trabalho se encarregava o Jaime (Jaime Teixeira) que outra coisa não fazia. E que fragoso era !...
As achas, passaram a ser utilizadas, principalmente, nos fogões vindos dos Estados Unidos ou importados do continente, até que os ferreiros locais os foram construindo à semelhança daqueles.
Continuaram, porém, e ainda hoje são utilizados, os fornos a lenha onde são cozidos o pão e o bolo e outros manjares e até assada a carne de vaca.
A meados do século surgiram os fogões a gás e, a partir daí, foram desaparecendo os fogões a lenha. As cozinhas passaram a ser providas de fogões a gás ou eléctricos. As salgadeiras, onde se conservava o peixe e a carne, foram substituídas pelas “arcas frigoríficas” e pelos frigoríficos.
Mas, recuando um pouco, e antes que fossem instaladas as redes eléctricas, ou mesmo existisse à venda o petróleo, as casas eram iluminadas com velas de cebo e, depois, de esteriarina e as cozinhas, normalmente, com candeias de azeite de moleiro, toninha, ou albafar. Raro era utilizarem óleo de baleia. Mesmo nas casas de abegoaria, onde nos serões do Outono decorria a desfolhada, a candeia servia para a ofuscada iluminação. Quando era “espevitada”, havia um dito popular: “O que cai da candeia de cima fica na candeia de baixo.”
O cheiro não era nada agradável e a luz muito ténue, mas os candeeiros a petróleo ainda não tinham cá chegado.
É por isso que, ainda na década de vinte, o Administrador do Concelho fez publicar um Edital determinando que o derretimento das carcaças de toninha ou boto só poderia fazer-se a partir das nove horas da noite. Era a hora do recolher. A partir dessa hora não era permitido andar pelas ruas. A Câmara dava sinal, no sino próprio. E até houve um tempo, ainda no século dezanove, que o sino avariou e o presidente da Câmara oficiou ao vigário da Matriz pedindo para ser utilizado o sino da igreja a fim de anunciar a hora de recolher...
Os tempos eram outros. Hoje seria muito diferente.
Quando o petróleo apareceu, a vila passou a ser iluminada com candeeiros a petróleo, até que um pobre louco, conseguindo fugir do recinto onde se achava detido, encontrou no caminho um carro de bois estacionado junto à moradia do proprietário, retirou de lá um fueiro e passeou pela vila partindo alguns dos candeeiros que já então iluminavam as ruas até à hora de recolher. A partir de então, e até que surgisse a electricidade (1932 ?) andou a vila às escuras...
E por hoje, aqui fico.
Lajes do Pico,
13 de Outubro de 2015.

Ermelindo Ávila

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Turismo, próspera indústria da actualidade

A  minha nota

Quem viveu o século vinte assistiu, após a segunda guerra mundial, a uma evolução industrial notável, principalmente no sector turístico, indústria até então quase desconhecida.
Na vila das Lajes existia somente a Pensão da Maria José e era nela que se hospedavam os caixeiros viajantes que anualmente visitavam as diversas ilhas dos Açores, o cocheiro, condutor do carro da mala do correio entre a Madalena e Lajes e, anualmente, a Junta de Recrutamento Militar e pouco mais.
Idênticas situações existiam nas outras vilas picoenses e até nos Açores. Na Madalena mais tarde apareceu a do Estevão e, no Cais do Pico, a Gomes, e depois a do Garcia, em edifício próprio. Nesta os magistrados que eram colocados na comarca, cuja sede era no Cais do Pico, não se hospedavam porque o proprietário era funcionário judicial…
No princípio do século, foi fundada em Ponta Delgada, a sociedade Terra Nostra que assumiu a construção do Hotel das Furnas e a Pensão Terra Nostra na cidade.
Em Angra existia, salvo erro, a Pensão Lisboa, junto ao Cais da Alfandega e a Pensão Lourenço, em frente ao Jardim Público.
Na Horta, havia o Hotel Fayal que após legislação especial passou a denominar-se Pensão Continental – Antigo Faial Hotel.
A meados do século XX foi criada a Comissão Regional de Planeamento constituída por diversos grupos de trabalho. E lá surgiu o grupo de Trabalho de Turismo, do qual faziam parte e “pontificavam” os vogais das Comissões Distritais de Turismo. Uma maneira hábil de fazer vingar os seus projectos. 
Foi construído, na Horta, o Hotel Faial com a ajuda do Governo, embora, para o efeito, se fundasse uma sociedade por quotas ou semelhante. 
Na ilha do Pico o próprio governo veio a construir o Hotel Caravelas, na Vila da Madalena e por aí ficou.
Presentemente, o Pico possui alguns estabelecimentos hoteleiros embora não aqueles que necessita e que há muito vem reclamando.
Temos o hotel “Aldeia da  Fonte”, mas distante do  centro da Vila. 
Nas Lajes existe o Hotel do armador de whale-watching, Serge Viallele, mas praticamente destinado aos visitantes das baleias e o Alojamento Bela Vista, pertencente ao armador Camilo Simões 
Pela Ilha vai surgindo com alguma intensidade o agora denominado Turismo rural que está a ser bastante aproveitado pelo turismo estrangeiro. No verão vale aos jovens, principalmente em grupos, que aqui aparecem, o Parque de Campismo que presta óptimos serviços. Igualmente de assinalar a Pousada da Juventude instalada, acertadamente, no antigo convento franciscano, no Cais do Pico. Mas tudo isso não basta. 
Importa cultivar um turismo de qualidade, chamo-lhe assim, e para isso construir edifícios próprios para hotéis nas localidades centrais. Sem os hotéis centrados nas vilas picoenses o turismo não vingará nem será indústria do futuro.
Lajes do Pico, 8-9-2015
Ermelindo Ávila


quinta-feira, 30 de abril de 2015

A CAÇA AO BOTO

A MINHA NOTA


Ernesto Rebello, escritor faialense dos finais do século XIX, deixou-nos uma interessante narrativa da caça ao boto na vila das Lajes.
Escreve o douto faialense sobre “Botos e pombas”, uma excelente crónica sobre a visita que fez à Vila das Lagens (sic) e narra uma caçada ao boto a que assistiu.
Na costa a multidão era enorme, homens, mulheres, creanças, todos com verdadeira ancia esperando o bom ou mau succedimento da pesca. – O cardume de bôtos, afinal já perto da estreita passagem que o queriam obrigar a transpôr, pareceu ter consciencia do perigo que o ameaçava e tentava retroceder, levantando uma grandiosa salseirada. – As lanchas, porém, à força de remos, de gritos e de pedras, conseguiram tornar a reunir os peixes, que ainda assim, temerosos, pararam à entrada do canal, que ladeado de rochedos conduzia para o interior da grande bacia. As pedras choveram então com mais força sobre os resistentes cetaceos. / Afinal um dos maiores peixes, medindo talvez quatro metros de comprimento, possante e luzidio, como uma lamina de aço, encaminhou-se bufando de desespero, para o começo da garganta da Lagôa, e deixando um sulco de escuma na sua passagem, desapareceu, em breve, na direcção da terra. / (...) A pesca estava bem segura, tanto pela disposição dos rochedos, como pela estreiteza da passagem. A este tempo na Matriz soava meio dia.(...) Os lajenses dão certa solemnidade a esta pesca.
E depois de descrever a rendosa caça e a transformação do toucinho em azeite, narra uma caçada aos pombos da costa, onde não foi menor a colheita.
Realmente, era um autêntico espectáculo que atraía toda a população às cercanias da lagoa o arpoar dos botos. Ainda me lembro de uma ou duas caçadas, depois de rodeados os botos, ou moleiros, para o “poção”. Era um trabalho árduo pois exigia valentia e esforço por parte daqueles que arpoavam os animais como, antes, dos que os rodeavam para o poção onde eram “guardados” com redes até serem arpoados e mortos, aproveitando-se as capas de toucinho para azeite de iluminação. O petróleo era de preço elevado e ainda cá não chegara a electricidade. Mas a operação do derretimento só se podia fazer durante a noite, dado o insuportável mau cheiro que exalava. Havia um edital do Administrador do Concelho que regulamentava essa operação.
No fim de dois dias, regressou Ernesto Rebello à sua ilha. Havia empreendido uma viagem longa e temerosa. Ele próprio a narra no princípio da crónica: “Depois de nove horas de jornada, de haver atravessado a serra, subido e descido muitas ladeiras e cruzado os grandes descampados de pedra roliça e requeimada, entremeada aqui e além por moutas de rasteiras faias, descampados a que se dá o nome de mysterios, por serem estes os sítios por onde passaram as ribeiras de refervente lava das antigas erupções vulcânicas do Pico, chegamos, ao cair da noite, à Vila das Lajes.” E acrescenta: “Os nossos companheiros de jornada eram um rapaz da vila, que tinha ido ao Fayal, donde regressava, por causa do recrutamento, um homem da Magdalena, que tinha a seu cargo os dois péssimos burros que montávamos e um cão, rateiro, de raça ordinaríssima, que durante todo o caminho matara, na serra, dois coelhos, dos quais o arrieiro logo se apoderara, e pela estrada vários ratos de enormes proporções.” (1)
Uma descrição viva e interessante a revelar-nos o que era a ilha do Pico, há quase duzentos anos.
O Pico hoje tem estradas, tem transportes colectivos e dezenas de carros ligeiros, mas por aí ficou. O progresso parece que estagnou e os que nela habitam quase só vegetam...
-------------------
l) Arquivo dos Açores, Vol. VIII, pág.295

Vila das Lajes,
Abril de 2015

Ermelindo Ávila

sábado, 21 de março de 2015

AS LADEIRAS...

A MINHA NOTA


... estão aí na nossa frente. No entanto, ninguém as descobre. Um matagal imenso as cobre, de baixo a cima, não permitindo que se possam vêr ainda os “serrados” que outrora eram férteis na produção de milho, o cereal principal da alimentação familiar.
Aos socalcos, as ladeiras estendiam-se dos quintais das habitações até lá ao lado da encosta que rodeia o velho burgo. São restos do escoamento das lavas que formaram a fajã, cá em baixo, junto ao mar, onde se assentou o velho burgo. Ainda existem restos inaproveitados da antiga planície onde se desenvolve o junco que outrora era utilizado e que hoje ninguém utiliza ou admira, a não ser os cientistas que andam à cata de novas espécies.
As ladeiras, que daqui de baixo, da planície, caminhavam em socalcos – os serrados, suportados por paredes de encosto, trabalhados com grande esforço, mas sempre produtivos, - estão hoje repletas de arvoredo selvagem: faias, incensos, canavial, que tudo cobre e nada permite que se aproveite.
Aqui, há meio século, o arvoredo só se desenvolvia no cimo das ladeiras e era cortado periodicamente, fornecendo as lenhas que era o combustível para os lares que cozinhavam a fogo directo as refeições diárias, e para os fornos onde se cozia o pão e o bolo e neles, também, se secavam os milhos que eram produzidos nas ladeiras e em outros terrenos do casal.
Hoje não se cultiva nem milho nem trigo. Importa-se a farinha ou compra-se o pão fabricado nas padarias.
Dos serrados das ladeiras já não se colhem as couves, os nabos, os funchos, nem as batatas doces ou “brancas”.
Os terrenos anexos às habitações – os chamados quintais - tudo produziam: além das hortaliças, os feijões, as ervilhas, as favas, as cebolas, os alhos e até o açaflor ou açafrão, as batatas brancas de inverno, e tantos outros produtos. E até neles existiam as figueiras e, aos cantos, as bananeiras, as parreiras de vinha... Em algumas casas não faltavam os belos jardins com sécias, craveiros, roseiras e outras plantas aromáticas e medicinais. Em alguns as camélias.
Actualmente tudo está abandonado. Desapareceu a mão de obra. Os trabalhadores rurais embarcaram.
Deixou de haver quem pudesse trabalhar, de foice e alvião ou sacho, os terrenos. Já não existem por cá os chamados “homens a dias”, que, normalmente, tinham a seu cuidado os quintais. Os animais “da porta” que puxavam os arados e as grades, foram substituídos pelos tractores e outras máquinas, incapazes de subirem as ladeiras. O abandono dos terrenos foi a única solução.
Causa pena ver o estado selvagem que agora nos rodeia. Uma saudade nasce ao recordar os molhos ou feixes de lenha que, ao fim do dia, presos a roldanas, eram enviados em fios, do alto das ladeiras, onde existiam as lenhas, até aos quintais, para serem utilizados nas cozinhas. O contacto das roldanas no fio provoca, ao anoitecer, faíscas que iluminavam e que eram o encanto da miudagem. Mas isso já não se pratica.
O uso do gás e da electricidade veio substituir as achas que os carreiros de São João traziam diariamente aos “fregueses” da vila, ou iam, através dos barcos da Fronteira para o Faial, conjuntamente com os cacetes para as fornalhas das caldeiras da central eléctrica E lembrando a freguesia de S. João, nem o célebre “queijo do Pico” aparece. Outras qualidades de leite, outros sistemas de fabrico, outros tipos de queijo, embora alguns classificados de “queijo do Pico”...
Para exportação resta o vinho mas não aquele que chegou às mesas dos czares. Outras castas e outras qualidades.
Hoje é tudo tão diferente! Todavia, recordar é viver.

Lajes do Pico,
3-3-2015

Ermelindo Ávila

segunda-feira, 9 de dezembro de 2013

Ao que chegámos!

NOTAS DO MEU CANTINHO



Atravessei o século XX com as suas altas e baixas. Vivemos anos de crise depois da primeira guerra mundial e, passados poucos anos, a economia da ilha principiou a desenvolver-se, em parte por beneficiar das obras públicas que por cá foram executadas: a muralha de defesa e, a seguir, a estrada Lajes - Piedade. Depois, a da Piedade - Prainha. A seguir foi a transversal Lajes - São Roque, embora esta fosse executada, dizia-se, para justificar a extinção do Julgado Municipal das Lajes. Entretanto, chegou a fábrica de conservas e, por arrastamento, a construção de traineiras de pesca do atum. Anote-se que, em dado momento, o concelho das Lajes tinha trinta e seis traineiras, construídas nos estaleiros das Lajes e de Santo Amaro. Mas, encerrada esta, por razões pouco compreensíveis e nada justificadas, ainda nos restou a indústria de lacticínios, explorada pela firma continental Martins e Rebelo que, durante mais de três décadas, deu grande incremento à actividade agro-pecuária.
Todavia, já então principiava o declínio económico com a instalação da Autonomia. O novo sistema governativo que, inicialmente, aplaudimos, iniciou o esvaziamento governativo do concelho; esvaziamento que parece estar a avolumar-se com a anunciada extinção dos serviços de finanças. Nas Lajes, a meados do século, extinguiram os serviços judiciais. Depois foi a extinção dos serviços aduaneiros, com a abolição das chamadas “barreiras alfandegárias”. Mais tarde, a retirada da navegação do porto das Lajes e a transferência da Guarda Fiscal para S. Roque. (O prédio onde estava instalada aquela corporação, pertença do Estado, se não lhe acudirem ou ocuparem, em pouco, cairá em ruínas...)
Levaram daqui a Lota para a instalarem em outros sítios. O peixe capturado pelos marítimos lajenses, tem de viajar setenta quilómetros, para aqui poder ser adquirido, para consumo da população, num contentor adaptado “a pesqueira”. (A antiga casa da pesqueira, construída pelo Município foi demolida para dar lugar a uma rampa de varagem).
Instalam-se novos serviços nos outros concelhos ou transferem-se os que aqui existiam e abandona-se o concelho das Lajes, que fica praticamente reduzido à Câmara Municipal e Polícia de Segurança Púbica. E, por enquanto, aos Serviços de Finanças.
Até a EDA que foi fundada com o património dos serviços eléctricos dos Municípios picoenses, retirou daqui os Serviços Administrativos, quando, no protocolo de transferência, (segundo creio) ficara estabelecido que a sede continuaria nesta Vila. Deixaram cá, até ver, um posto de atendimento.
Agora são os estaleiros navais, deixando Santo Amaro na penúria. E já correm notícias de que a repartição de Finanças vai ser extinta, como aliás aconteceu com a Tesouraria que agora lhe está anexa.
E deixa-se para trás os serviços agrícolas que, contra natura, se instalou fora da zona... E até já se suprimiu a Direcção dos Serviços Agrícolas instala no Posto Agrícola Matos Souto. Nas Lajes ficou um serviço de atendimento instalado num antigo “barracão”!...
Do mar resta a actividade “Whale Whacting” porque as baleias por aqui é que passam e o seu trajecto nem o homem nem o governo pode modificá-lo, talvez com pena de alguns...
Com a construção da muralha de defesa, aliás uma obra indispensável à segurança das pessoas e seus haveres, instalou-se um simulacro de porto de recreio, que nem capacidade tem para receber a navegação internacional que aqui aporta, fornecer-lhes combustível e água e possuir instalações de higiene, o que provoca a sua imediata retirada... Felizmente, verdade seja, voltou a funcionar, cumulativamente com a de S. Roque, a antiga Delegação Marítima.
Constrói-se um novo centro de saúde, junto do Canal, como antecâmara do hospital da Horta, mas sem as valências indispensáveis à ilha – refiro ao menos a maternidade, parece que a conselho dos “técnicos”. Certo, porém, queiram ou não, alguns dos meninos do Pico vão continuar a nascer, ou nos transportes terrestres ou aéreos, ou nas lanchas do canal!... Um excelente progresso!... E quando lhe perguntarem, “onde nasceste”? Responderão, como o “outro”: De meio canal p'rà terra.
Tudo vai desaparecendo do concelho das Lajes do Pico. Até quando?
A concentração que se está a operar, arrastando para o extremo da ilha a totalidade dos serviços públicos regionais, é a grande responsável pela “fuga” da juventude e a desarticulação económica do resto da ilha, a viver uma situação trágica, agravada com a crise dos lacticínios.
Tivemos e temos o Ensino Secundário porque foi uma iniciativa dos próprios lajenses que o instalaram, sem mira em quaisquer lucros, mas somente no natural desejo de proporcionar à sua juventude a faculdade de usufruir dessa indispensável preparação cultural.
Hoje, praticamente, não temos juventude. A que nos restava, abalou para seguir estudos superiores e/ou conseguir colocação em outros sítios, pois, naturalmente, com o atrofiar da economia local, foram desaparecendo os postos de trabalho.
E não deixa de referir-se a emigração que, levando daqui a juventude, não deixou de ser responsável, em parte, pelo envelhecimento da população.
E os jovens formados não voltam. Aqui não existem serviços onde possam arranjar colocação.
As habitações vão ficando vazias e estão a desmoronar-se, irremediavelmente. Afinal, uma terra em extinção para gáudio de alguns que sempre se opuseram – quando ele existiu – ao progresso desta secular terra.
Tudo isto porque é necessário criar um burgo citadino, ficando o resto da ilha para seara de passarinhos...
Este o progresso que, a estes lados da ilha, trouxe a autonomia que nos governa.
O inventário das tropelias é extenso. Regista-se somente algo, que poderia ser melhor aclarado, se o espaço que nos reservam fosse mais avantajado.

Lajes do Pico,
19-Nov-2013.

Ermelindo Ávila

domingo, 26 de maio de 2013

SANTÍSSIMA TRINDADE


Notas do meu cantinho


A Liturgia Católica celebra, este domingo, a solenidade da Santíssima Trindade, que as gentes açorianas, especialmente na ilha do Pico, aproveitam para “prolongar” os Impérios do Espírito Santo.

Para os lajenses um motivo especial existe para solenizar o dia do seu Orago.

Os povoadores, quando aqui chegaram, construíram uma pequena Ermida dedicada ao Apóstolo S. Pedro, nome do capelão e primeiro pároco da Ilha – Frei Pedro Alvares Gigante. Essa pequena ermida foi a primeira paróquia da ilha, que “muitos anos não teve esta Ilha outra freguesia mais que esta, e de todas as partes aonde moravam os povoadores vinham a ela, que foi uma pequena Igreja do Apóstolo São Pedro (que hoje é ermida) sua paróquia”.

Em 1506 “trataram de fazer outra em o meio da Vila, como de efeito fizeram, no lugar em que agora está do Orago da Santíssima Trindade, para cujo efeito lançaram finta em todos os moradores da Ilha, e nas fazendas dos Ausentes, conforme cada um tinha de Cabedal”.(1) Somavam os moradores 45. Segundo Lacerda Machado, “Por moradores deve entender-se fogos, chefes de família com propriedade colectável”. Deduz daí que a população, nessa época devia ser de 250 habitantes na ilha.” (2)


Não nos dizem os historiadores porque seria que a paróquia que, até à construção da nova Matriz, se denominava de São Pedro, aliás como acima se refere, o nome do primeiro Pároco, passaria a chamar-se, cerca de cinquenta anos após o povoamento, de Santíssima Trindade.

Quase todas as ilhas tomaram o nome do Santo do dia da chegada dos seus povoadores. Assim acontece em Santa Maria, S. Miguel, etc. O Pico, apesar de algumas divergências iniciais, ficou a chamar-se somente Pico em razão da alta montanha que domina a ilha. Todavia, a primeira igreja foi dedicada ao Apóstolo S. Pedro por ser, naturalmente, o nome do capelão que veio com os primeiros habitantes.

A Igreja celebra a festa da Santíssima Trindade no final do período pascal, que acontece no fim da Primavera. E nessa época o mar já se apresenta calmo e propício à navegação. E foi, possivelmente, nesse dia que os povoadores aportaram à ilha, tentando desembarcar junto ao Castelete, local onde as águas são revoltas devido às mudanças da maré. Apenas cá ficou, como é sabido, Fernando Alvares Evangelho pois “vindo no barco buscar a costa saltou em terra, aonde se diz o penedo negro, e com ele um cão que trazia, e o mar se levantou de modo que não deu lugar a ninguém mais saltar em terra, e aquela noite se levantou vendo do modo que a caravela ao outro dia não apareceu e ele ficou na ilha com o seu companheiro o cão e nela esteve um ano(...) No cabo do ano tornaram os Companheiros a buscar a Ilha pela mesma parte, e ainda com melhor maré (...) (3)

Fernando Alvares fixou-se junto à Ribeira, que durante anos teve o seu nome e que, depois, passou a ser conhecida por Ribeira da Burra. Ali construiu a sua habitação, cujas ruínas ainda lá se encontram. Ele que já conhecia esta parte da ilha, quando os companheiros, passado um ano, cá voltaram, encaminhou-os para a pequena baía de Santa Cruz, onde desembarcaram.

A celebração da Festa da Santíssima Trindade está incorporada no ciclo festivo do Espírito Santo. Nesse dia, em diversas localidades da Ilha do Pico, realizam-se Impérios com larga concorrência. O Império das Lajes caiu em desuso e hoje nem o Orago é por cá lembrado, e é pena, pois a denominação de Santíssima Trindade foi considerada oficial até à promulgação do Código Administrativo em 1940. E o mesmo vai acontecendo na área diocesana. Em diversos documentos, esquecem a freguesia da Santíssima Trindade, para só indicarem a denominação de Lajes do Pico que, até há pouco, foi o nome da Ouvidoria, ora extinta. Que ao menos a Freguesia da Santíssima Trindade se mantenha a lembrar aos presentes e aos vindouros, o nome secular da primeira Paróquia da Ilha.



___________



  1. Frei Diogo das Chagas – “Espelho Cristalino em Jardim de Várias Flores” 1646 – Direcção e Prefácio do Dr. Artur Teodoro de Matos,1989.
  2. História do Concelho das Lages, 1936.
  3. Frei Diogo das Chagas, Ibidem.





Lajes do Pico,

Maio de 2013

Ermelindo Ávila


terça-feira, 14 de maio de 2013

As Festas


NOTAS DO MEU CANTINHO


Estamos na época das Festas. Este ano, o calendário litúrgico coloca-as mais cedo. Mesmo assim todos se preparam afanosamente para a celebração das maiores Festas destas ilhas, hoje denominadas de Região.
Não há ninguém que não fale nas festas e nos convites recebidos para as coroações e jantares da Semana do Espírito Santo. E foi sempre assim. Desde remotas eras, quando para aqui vieram os povoadores enviados pelo Infante. Há que tempo que isso aconteceu! E as Festas têm continuado. Ou por tradição ou em cumprimento de promessas, elas aí estão todos os anos, nem que sejam anos de crise como aqueles que estamos a viver. O Senhor Espírito Santo, a Terceira Pessoa da Santíssima Trindade, faz milagres contínuos.
Não há data certa da chegada das Festas a estas ilhas.
No continente, elas surgiram com a criação das Misericórdias, e chegaram aos Açores no século dezasseis. O alvará de criação da Misericórdia das Lajes do Pico é datado de 14 de Novembro de 1592, e concede “ao provedor e irmãos da Misericórdia da Vila das Lajes da ilha do Pico todos os privilégios e liberdades de que gozam e usam o provedor e irmãos das confrarias das misericórdias da cidade de Angra e da ilha do Faial”.
A igreja da Misericórdia já existia no ano de 1645, pois Frei Diogo das Chagas, ao referir a ilha do Pico, no seu Espelho Cristalino, diz que nela existiam treze paróquias e quinze ermidas, uma casa da Misericórdia e o convento de frades franciscanos, “que na mesma vila se fundou em 1641”.
A igreja da Misericórdia, restaurada em 1720, aquando das erupções vulcânicas daquele ano, já estava em ruínas e incapaz de nela se exercer o culto em 1914, ano em que o local onde se encontrava foi posto em arrematação e adquirido por um particular.
Sobre a constituição da devoção ao Divino Espírito Santo, Lacerda Machado informa (1): “No ano de 1523 desenvolveu-se na ilha de S. Miguel uma desoladora peste que ocasionou 2.000 vítimas e se comunicou ao Faial no mês de Julho. O pânico foi geral em todas as ilhas e os povos aterrados recorreram a preces públicas, procissões e invocaram em especial o Espírito Santo, prometendo distribuir pelos pobres anualmente, pela festa do Pentecostes, as primícias de seus frutos, se escapassem do terrível flagelo, que se não comunicou ao Pico. – Instituíram-se irmandades em honra do Espírito Santo, celebrando em seu louvor todos solenes, com folias e bailes, ao uso do tempo.”
A ilha do Pico, na devoção ao Divino Espírito Santo, quase constitui uma excepção entre as outras ilhas. Segundo um “Roteiro do Espírito Santo”, elaborado pelo “Jornal do Pico” no último ano (2012), realizam-se na ilha do Pico, ao longo do ano, desde o sábado do Espírito Santo até ao dia de são Mateus (21 de Setembro), 53 Impérios com a distribuição, a todas as pessoas que aparecem, de rosquilhas ou bolos de vésperas, conforme a tradição.
São, na realidade, as grandes festas da ilha, que se vêm mantendo com o mesmo entusiasmo, estes séculos todos em que a ilha está povoada.
A vila das Lajes celebra o seu império no dia de São Pedro. Reatou a tradição em 1940 e, felizmente, tem mantido. Antes realizava impérios no Domingo do Espírito Santo, segunda-feira do Espírito Santo (dos marítimos ) e terça-feira ( dos nobres).
No princípio do século XX houve um desentendimento entre os irmãos do Domingo e os da Ribeira do Meio, que a ele pertenciam, foram realizar o Império para o Caminho Novo. Os das Lajes vieram para o largo do Meio da Vila, até que os Impérios aqui acabaram: o dos lavradores, no domingo, depois da separação dos irmãos, como ficou dito; o dos nobres porque estes foram desaparecendo; o dos marítimos porque os irmãos foram reduzindo e os que ficaram foram insuficientes para que o império se realizasse.
Mais tarde ainda se tentou, na vila, o Império da Trindade mas durou poucos anos. Veio em 1940, como atrás disse, o de S. Pedro e ficou, felizmente.

____________

  1. História do Concelho das Lages, 1936, pág. 136.


Lajes do Pico,
Maio de 2013-05-09
Ermelindo Ávila


sábado, 20 de abril de 2013

TEMPESTADES MARÍTIMAS


NOTAS DO MEU CANTINHO

E não apenas. Estavam na mente de todos os picoenses as erupções vulcânicas de 1718 e 1720, quando, em 1725, um ciclone marítimo assolou a Vila das Lajes. Assim o descreve Silveira de Macedo: O ano de 1725 foi memorável para os habitantes da villa das Lages do Pico por uma tempestade marítima que lhes inundou a villa causando muitos estragos nos dias 14 a 20 de abril, por cujo motivo fizeram aquelles povos um solene voto ao Bom Jesus das preces (cuja imagem tem em muita devoção) o qual ainda hoje (1871) cumprem no dia 25 de março (deve referir-se a 19 de Abril). (1)
Referenciando a Imagem do Bom Jesus das Preces, diz ainda, em nota de roda-pé: Consta que esta Imagem fora também arrojada pelo mar à praia daquella villa pelo mesmo tempo que fora a outra simelhante à Praia do Almoxarife na ilha do Fayal o que faz julgar terem ambas a mesma procedência. (2)
Segundo a tradição, o mesmo aconteceu com a imagem que se venera na igreja paroquial de Santa Cruz das Ribeiras.
Realmente, a vila das Lajes passou a ser invadida pelo mar, quando tempestuoso, porque lhe foram retirando, ao longo do tempo, os calhaus que circundavam a costa, para as construções urbanas e outras que se foram construindo ao longo dos tempos.
Ficou registado na memória dos picoenses o ciclone de 31 de Agosto de 1893, que provocou grandes estragos e destruíu as culturas da ilha, provocando a fome em muitos lares. Valeu nessa altura a benemerência de muitas pessoas estranhas, entre elas D. Rosa Dabney, residente na Horta, que importou grandes quantidades de milho dos Estados Unidos e o fez distribuir pelas populações famintas.
Já em nossos dias foi bastante violento o ciclone de 9 de Agosto de 1935(?), que destruiu a muralha de defesa que circundava a Lagoa, levando o Governo de então a construir a excelente muralha em basalto trabalhado, o que veio dar maior segurança àquela zona. Mas o resto da Vila ficou aberto às tempestades cíclicas que no Inverno acontecem com frequência, e que causam muitas preocupações e angústias. Os lajenses nunca deixaram de reclamar uma maior segurança para seus bens e haveres, especialmente as habitações fronteiriças ao mar.
De tanto reclamar resultou, a meados do século passado, a construção de quatro “quebra-mares” a meio do chamado Juncal, que, afinal, nenhum efeito deram. O mar, quando bravo, umas das vezes “veio cá acima”, como diz o povo, e andou a “bailar” com os molhes. Valeu a decisiva visão do Ministro Arantes e Oliveira que ordenou o alteamento do muro de defesa que havia sido construído em 1914.
Antes da Câmara Municipal abrir o ramal de saída pelo Sul e, conjuntamente, a muralha que rodeia actualmente a lagoa da Maré, o mar invadia com frequência aquela parte da Vila, chegando, por vezes, quase ao Largo Gen. Lacerda Machado.
Consta mesmo que a antiga igreja Matriz, construída por volta de 1506, e que ocupava o local onde se encontra a actual, ficou muito danificada pelas várias invasões de mar, chegando, não raro, a deixar peixes em cima dos altares. (A minha avó assim m’o dizia).
Agora chegou o embelezamento ou urbanização da zona Oeste da Vila, que deixou de ser utilizada, depois do campo de jogos ter sido transferido para Santa Catarina. Esperamos que o mar não volte a fazer das suas proezas, invadindo de novo a parte baixa da Vila.
Aquando do ciclone de 1935, atrás referido, que destruiu a muralha e algumas casas do Portinho, Ribeira do Meio, a Imagem do Senhor Jesus das Preces, saiu em procissão de penitência pelas ruas da vila, trazida pelo Vigário e Ouvidor de então, Pe. José Vieira Soares, de saudosa memória, a implorar a clemência divina. E durante muitos anos, até cerca de 1960, fazia-se a secular procissão das Preces, no dia 19 de Abril. Acabou quando num certo ano não houve quem conduzisse o andor. Hoje a veneranda Imagem encontra-se no altar principal da Matriz.

Lajes do Pico,
Abril de 2013
Ermelindo Ávila


_______
  1. Macedo, António L. Silveira de – “História das Quatro Ilhas q. Formam o Distrito da Horta” -1871, pág.219.
  2. Ibidem, 220

quarta-feira, 6 de março de 2013

No cabo do mundo


NOTAS DO MEU CANTINHO

Para estas bandas do Sul da Ilha, quando a estrada andava ainda nos gabinetes de desenho do Ministério da Obras Públicas, sem que se vislumbrasse quando a ilha teria uma estrada que ligasse todas as povoações, era vulgar ouvir-se: estamos no cabo do mundo. E assim era.
Quem desejasse deslocar-se da Piedade às Lajes tinha de sair de casa pela madrugada e calcorrear esses caminhos e veredas, subindo e descendo montes e atalhos, para chegar à vila ao abrir das repartições que, no tempo, era às dez horas da manhã. E se desejasse seguir no “Carro da mala” para a Madalena, para tomar a lancha do Canal, mais cedo teria de chegar à vila-Fronteira, pois a camioneta – antes o carro de bestas do Caetano – partia de madrugada. Cheguei a fazer essas viagens: sair de casa de manhã, no Inverno, para chegar à Piedade ao anoitecer. E só poder regressar no dia seguinte, com o mesmo itinerário. Que terrível era passar na “Ladeira do Barriga” (descia-a a pé e em outras mais).
Na Piedade, valeu-me o empregado do Dr. Machado Soares que tomou conta do cavalo e o tratou. Era o cavalo de João Machado Soares (Capitão) e pelo aluguer paguei 50 escudos. Pernoitei na casa de hóspedes de Manuel Serrador, ao Império, única que existia a dar camas para a algum visitante.
Durante quase cinco séculos, a população do concelho das Lajes viveu este tormento das deslocações. Na década de vinte do século passado, apareceram duas lanchas a motor – a “Lourdes” e depois a “Hermínia” que começaram a fazer as ligações da Calheta à Horta, passando pelos portos de S.ta Cruz, Lajes, S. João e S. Mateus. Foi uma melhoria mas só útil àqueles que se davam bem no mar.
A estrada Lajes-Piedade, inaugurada em 28 de Maio de 1943, veio acabar com esse isolamento, mas não passou pelo centro das freguesias das Ribeiras e Calheta, obrigando à construção, mais tarde, dos respectivos ramais.
Presentemente, as ligações estão facilitadas, mas não deixam de ser dispendiosas, pela distância que as separa.
A Ilha é a segunda em área das nove do Arquipélago, e desenvolve-se, praticamente, no sentido Norte-Sul. Quem desejar ir da Piedade ou Ponta da Ilha, como era conhecida, até à Madalena para ir a uma consulta, v.g. ao hospital da Horta, o que, infelizmente, é vulgar, tem de percorrer 56 quilómetros. Ou seja: para tomar a lancha do canal terá de sair de casa ao amanhecer, e se não tiver veículo próprio, voltar à noite, nos meses de Inverno, principalmente. E se não tiver veículo próprio, terá de tomar a camioneta da carreira, o que torna a viagem mais demorada.
A estrada chamada “transversal”, ou seja das Lajes a S. Roque, e que atravessa a ilha, foi uma “estrada política”, como a designava o respectivo engenheiro que a projectou, pois serviu, nos anos quarenta, para justificar a extinção do Julgado Municipal que estava instalado nas Lajes, uma vez que era mais movimentado, em processos cíveis, do que a própria Comarca. Tudo isso tem acontecido e os lajenses suportado como uma afronta ignominiosa à sua cidadania. Que mais os espera?
O concelho das Lajes é o mais “rico” em agricultura. Só a freguesia da Piedade tem mais de 16 mil prédios rústicos registados na respectiva Matriz Predial. O concelho e a Ilha prosperaram com a indústria baleeira e, depois, com a de conservas de atum. Mas esta só a deixaram funcionar pouco mais de vinte anos... “Cortaram-lhe as pernas”. O concelho chegou a ter trinta e cinco traineiras de pesca, que acabaram por ser vendidas para outras zonas de pesca, porque a respectiva fábrica deixou de funcionar. Nem trago as razões desse tremendo colapso.
Não estou a lamuriar mas a lembrar factos concretos e a chamar a atenção para uma situação que, a repetir-se, provocará o desaparecimento do chamado “Sul da Ilha do Pico”. E se isso acontecer, não serão mais precisos nem portos nem estradas. Tudo ficará como na época do descobrimento: terra selvagem...

Vila das Lajes do Pico,
Fevereiro de 2013
.
Ermelindo Ávila

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

SÃO SEBASTIÃO


NOTAS DO MEU CANTINHO


Trata-se de uma festividade bastante antiga, muito embora a ermida actual não seja a primitiva e já haja sido reparada eintegrada no culto duas ou três vezes. “É muito antiga a devoção que os Picoenses consagram ao Mártir São Sebastião. Talvez por isso – não devendo ser alheia a homenagem ao “Desejado” D. Sebastião – já anteriormente a 1592, existia uma ermida no local denominado hoje “São Sebastião-o-Velho”, ao saínte do lugar da Almagreira, subúrbio da Vila das Lajes, pois nesse ano Bárbara Gaspar, natural da freguesia da Santíssima Trindade (Lajes do Pico) testava em favor daquela ermida. Trata-se de um local muito aprazível, donde se desfruta um magnifico panorama da Vila. Ali possuíam alguns lajenses quintas com as respectivas casas de abrigo, onde passavam a estação calmosa. E foi numa delas, por haver pertencido à Família, que foi oferecido ao General Lacerda Machado, aquando da sua última visita à terra natal, em Setembro de 1940, um jantar ”garden-party” muito concorrido e que o ilustre lajense bastante apreciou, recordando os seus tempos de infância.
O visitador João Baptista do Amaral, que esteve na ermida no dia 29 de Novembro de 1709, deixou no livro das visitas Episcopais da Matriz da Santíssima Trindade o seguinte despacho:” Visitei as ermidas de São Sebastião e de Santa Catarina, sufragâneas a esta Matriz, ambas quase incapazes de nelas se celebrar, pela pobreza e não haver fábrica nas ditas ermidas, pelo que mando ao Rev.do. Vigário recolha as imagens a esta Matriz até que se reparem do necessário e reparado o que fica à disposição e cuidado do Rev.do Vigário, tornarão as imagens para as ditas Ermidas.”(1)
A Ermida de Santa Catarina, naturalmente porque estava junto das propriedades do Morgado Manuel Cardoso Machado Bettencourt, foi reparada e voltou ao culto. (Não refiro a questão judicial que decorreu sobre a sua propriedade). Presentemente pertence à Paróquia ou Diocese, por legado dos antigos proprietários.
A ermida de São Sebastião, no século XVIII foi transferida para a Ribeira do Meio e construída no local onde actualmente se encontra, muito embora o Autor da “História das Quatro Ilhas que formam o distrito da Horta”, haja escrito em 1871: “também no bairro da Ribeira do Meio existe uma ermida de S. Sebastião, que há anos alguns devotos ampliaram: mas apenas lhe deitaram a madeira em cima, e a abandonaram e assim se conserva.”(2). Silveira de Macedo, naturalmente, não teve conhecimento do livro da “Arca das Três Chaves”, cuja propriedade devia ser reservada à Matriz e, naturalmente por isso, não faz referência à anterior ermida no Cimo da Almagreira.
A actual ermida de S. Sebastião tem recebido alguns reparos e, durante muitos anos foi zelada pela Família de Manuel José e, depois, pela do genro Manuel da Rosa. O altar foi mais tarde totalmente construído, na década de quarenta do século passado, pelos Irmãos Rodrigues Quaresma (os Importantes como eram conhecidos) e, recentemente, recebeu novas beneficiações.
No bairro da Almagreira, como diria Silveira de Macedo, foi construída, a meio do povoado, uma ermida dedicada a Santa Isabel, a expensas do luso-americano Manuel de Brum, a qual foi totalmente restaurada, após o sismo de 9 de Agosto 1998, com projecto dos arquitectos Rui Pinto e Ana Rochel, que mereceu mais tarde honrosa classificação.
A festa da Rainha Santa Isabel, por influência do Pe. José Carlos Vieira Simplício, dali natural, beneficiou de grande incremento, introduzindo-se num dos dias o “bodo do leite”, em S.Sebastião-o-Velho, para o que foi, nos últimos anos, construída uma pequena capela onde é recolhida a Imagem da Santa portuguesa, enquanto dura o arraial, e que para ali vai em procissão festiva. Parece que a Festa de Santa Isabel está separada do Bodo de Lei, realizando-se este no mês de Agosto. Trata-se de um aprazível lugar, situado num monte donde se desfruta, como disse, agradável panorama. O bodo de Leite já entrou na tradição das festas populares. É uma festa típica única no género realizada na ilha. Os Lavradores fazem descer algumas das suas vacas leiteiras, vindas das pastagens próximas de S. Sebastião-o-velho e oferecem o leite delas extraído a todos os que ali se encontram.
A festa de Santa Isabel realiza-se no mês de Setembro e atrai àquela zona imensas pessoas, não apenas da freguesia como de diversos lugares da ilha que ali vão passar o dia em aprazível convívio numa zona fora do bulício diário e do calor que, ainda nessa época, se faz sentir.
A festa de São Sebastião tem lugar no próximo domingo, 20 do corrente, (próximo do dia litúrgico) e costuma, igualmente, atrair à Ribeira do Meio (ou Bairro da Ribeira do Meio) muitos forasteiros, uma vez que se festeja o santo protector da doença da peste; quando, na Almagreira, se reza no domingo seguinte, a festa de Santo Antão, protector dos animais, embora a Igreja lhe atribua outra intenção.
E recordo o entusiasmo que, desde estudante, o Padre José Carlos punha na realização das festas do seu lugar, apesar de nunca ter paroquiado por estes lados.
________
1) Avila,E. “Figuras & Factos”, 1993, pág.115
2) Silveira Macedo, A.L., “História das Quatro Ilhas Que Formam o Distrito da Horta”1871, III Vol. Pág.8


Vila das Lajes do Pico,
7 de Jan, 2013
Ermelindo Ávila



segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Iluminação da Vila

NOTAS DO MEU CANTINHO    
              

          A primitiva iluminação das habitações era feita com as candeias alimentadas a óleos extraídos de peixes e animais marinhos: como o albafar,  a toninha e o moleiro (golfinho) e, depois,  a baleia. Havia cadeias de um e de dois “pratos”. Daí o adágio popular: “o que cai da candeia de cima fica na de baixo”.
          Utilizava-se, ainda, a vela de cebo de animais. Tudo uma iluminação bastante precária e até doentia. Depois apareceu o petróleo, que permitia uma melhor iluminação. E foi então que as vilas e cidades começaram a ser iluminadas com candeeiros adequados. Na Vila das Lajes, instalaram-se os candeeiros para a iluminação pública em 1897, tendo a Câmara Municipal dispendido na sua aquisição 240$790 reis. 
          Em sessão de 18 de Julho de 1898, deliberou que os candeeiros estivessem acesos nos meses de Maio a Setembro, inclusive, desde o anoitecer até às 11 horas e  nos restantes meses até às 10 h, exceptuando sempre as noites em que houvesse luar. Em 1910, a Câmara recebeu de oferta da Câmara da Horta, um candeeiro instalado em coluna de ferro, o qual foi colocado no Meio da Vila.
As Lajes tinha uma iluminação razoável e com bons candeeiros. Ainda os conheci, embora já retirados de uso. É que, em      certa noite, um doente mental que estava retido, na cadeia pública, conseguiu evadir-se e, depois de subir à sineira da igreja e tocar a rebate nos sinos, percorreu as ruas da vila a partir todos os candeeiros da iluminação pública. O presidente da Câmara, então o comendador António Homem da Costa, resolveu retirar os candeeiros e recolhê-los no antigo “curral do concelho”, onde os conheci. 
A vila das Lajes ficou às escuras durante muitos anos, o que não deixava de ser aflitivo para as pessoas. Serviam os lampiões com velas de estearinas, que já as havia, ou alguns, raros, de petróleo. Apareceram depois os candeeiros incandescentes e, em uma ou outra habitação, iluminação a gás. Tudo sistemas precários e algo dispendiosos.
          (Já noite, ia-se  à mercearia do Senhor Comendador comprar qualquer género. Ele acendia um bico de vela, servia o freguês e, depois, apagava a vela, para não gastar...)
          Estava-se em 1930. Um grupo de lajenses resolveu fundar uma empresa (sociedade anónima) para promover o fornecimento da iluminação eléctrica. A escritura foi lavrada a 11 de Outubro de 1930. Diz o historiador: “Com a realização deste empreendimento foram os lajenses os pioneiros da electrificação da sua ilha”. (1) Os primeiros corpos gerentes foram constituídos por dezasseis  accionistas.
          O projecto de electrificação da vila foi elaborado pelo engenheiro Max Corsépius que, ao tempo, era o director da estação alemã dos cabos submarinos instalada na Horta. Da Horta vieram dois electricistas que procederam à montagem da rede e executaram as instalações das residências dos futuros consumidores.
          Os lajenses não foram, porém, felizes com a aquisição do primeiro motor - gerador, que chegou a partir cinco veios, até que foi adquirido um outro motor de baixa rotação que garantiu o funcionamento da central, até que os serviços eléctricos passaram para a Câmara Municipal por escritura de 30 de Julho de 1960.
          Depois, foi constituída a Empresa de Electricidade dos Açores, por decreto Regional nº 34/81/A, de 18 de Julho, que  absorveu todos os serviços municipais e particulares de electrificação dos Açores, Entretanto, havia sido constituída a Federação dos Municípios da Ilha do Pico, para a exploração dos serviços eléctricos, que teve vida efémera, pela passagem dos mesmos serviços para a EDA.  Quando tal se deu a Federação estava a proceder à electrificação de toda a ilha. No concelho das Lajes já se encontravam electrificadas as freguesias de Lajes, São João e Ribeiras, com a comparticipação técnica e financeira da Direcção Geral dos Serviços Hidráulicos e Eléctricos. Previa-se o aproveitamento da Lagoa do Paúl para a montagem de uma estação hidroeléctrica, cujos estudos estavam concluídos.
E, uma nota curiosa: o concelho das Lajes já dispunha de dez centrais comunitárias, instaladas pelas próprias freguesias e lugares – as sociedades da luz – a primeira das quais foi instalada em Santa Cruz das Ribeiras, em 1958. Um movimento simpático que resultou na melhoria de vida das respectivas populações.
          Em substituição da hidroeléctrica optou-se pela central das ondas, destruída por ondas alterosas, e montaram-se, no alto da ilha, geradores de energia eólica, esquecendo-se  que este sistema está a ser abandonado por prejudicial à nidificação das aves que se acolhem à ilha.
          Esperamos que a hidroeléctrica venha a ser instalada um dia, quando os combustíveis rarearem e se encarar, decisivamente, a instalação de energias renováveis.
Vila das Lajes,
15 - 11 – 2012
Ermelindo Ávila

sábado, 9 de abril de 2011

INTERESSES DA MINHA ILHA


Intitulo este texto “Interesses da Minha Ilha”, como o podia “baptizar” da Nossa Ilha. Eles são gerais e dizem respeito ao todo que é o Pico. Fazer desenvolver uma parcela da Ilha é contribuir para o desenvolvimento e progresso de toda Ilha. Mas, atenção: o Desenvolvimento tem de ser harmónico e interessar o seu todo. Deixem-me trazer aqui uma comparação: um homem bem vestido mas mal calçado, ou descalço, não se encontra bem vestido. Assim a Ilha. Desenvolver uma parte e deixar a outra ao abandono, é contribuir para a degradação de toda a ilha. É bom que se tenha isso presente e que, embora a ilha esteja há séculos dividida administrativamente, nada justifica que se olhe apenas para uma dessas parcelas e se ignorem as restantes. Assim sendo, nunca o desenvolvimento e o progresso, como se anuncia, poderá beneficiar o seu povo.

Há dias encontrei-me com uma senhora de uma das freguesias do concelho. Se fosse noutra ilha diriam que era de uma freguesia do Campo… Falou-me dos meus artigos e referindo-se a um deles dizia-me que estava de acordo com o que eu dizia porque a Vila não podia ser abandonada. São testemunhos destes, recebidos muito a miúdo, que nos confortam e nos animam a prosseguir neste trabalho modesto, sem compensação material, que isso não importa, mas pelo estímulo que nos trazem essas palavras amigas.

Há três décadas, mais ou menos, os três Municípios Picoenses reuniram-se resolveram criar Três Federações: Electricidade, águas e obras públicas, ficando sedeadas uma em cada Município. Assim, a Federação de Electricidade ficou com a sede no Município Lajense, enquanto a das águas ficaria no Município da Madalena e a das Obras em São Roque do Pico. Que me lembre foi a única tentativa colectiva para o desenvolvimento do Pico. Ainda hoje lamento que ela tivesse falhado, pois a ilha nada veio a lucrar com o acontecido… Ainda recordo como o processo se desenvolveu. Águas passadas…

A Federação de Electricidade entrou logo em funcionamento, passando a administrar centrais as existente nos três concelhos, incluindo as chamada “comunitárias”. As outras duas federações, por razões diversas, não passaram de mera intenção. Mas não teve melhor sorte a da Electricidade pois, decorrido algum tempo, o Governo Regional resolveu criar a Empresa de Electricidade dos Açores. A EDA assumiu imediatamente a direcção da Federação. Para a nova empresa pública foram transferidas as centrais, redes e todo o activo, sem qualquer compensação para os Municípios. Que eu saiba, no respectivo protocolo ficou somente salvaguardado que a iluminação pública ficaria à responsabilidade da nova empresa, bem como as iluminações das festas tradicionais dos respectivos concelhos. Acontece que a Câmara Municipal das Lajes tinha acabado de pagar a empreitada de construção da rede de São João às Lajes, no que tinha despendido cerca de vinte mil contos. E creio que não recebeu qualquer compensação…

Registe-se ainda que para a EDA transitaria o pessoal administrativo e técnico da Federação. A sede dos serviços deveria continuar na vila das Lajes. E assim aconteceu durante algum tempo, chegando a EDA a adquirir um prédio para a instalação dos serviços administrativos. Mas, ao que consta, tudo se modificou e o pessoal, uma parte ao menos, passeia diariamente para o novo local de serviço.

Decorridos cerca de trinta anos está a EDA a remodelar a rede da Vila das Lajes, passando-a totalmente a subterrânea, serviço que há muito devia ter sido empreendido. Mas não basta a rede. Os focos luminosos da rede pública tem de ser aumentados e reforçada a força das respectivas lâmpadas para que a Vila venha a ter uma iluminação condizente com a categoria urbana que possui, embora não haja sido classificada como merecia e merece.

E não volto a falar na hidroeléctrica, como projecto da autoria do Engº Cavaco, que foi Director Geral dos Serviços Hidráulicos. O projecto foi abandonado, naturalmente porque a turbina deveria ser instalada na Ribeira da Burra.



Vila das Lajes, Março de 2011.

Ermelindo Ávila



quinta-feira, 29 de outubro de 2009

BIBLIOTECAS

Estão a terminar, no corrente ano, as visitas às Baleias. Não sei quantos foram os visitantes, pois não tive oportunidade de investigar junto dos respectivos armadores, se isso permitissem, quantos foram aqueles que, aproveitando a frota local, foram junto dos cetáceos que abundam na baía das Lajes. Mas, a julgar pelo movimento diário que se observava no porto das Lajes do Pico, devem ter atingido alguns milhares.

É uma nova modalidade de turismo que está a valorizar esta terra, há cerca de duas dezenas de anos. Aliás um turismo com força cultural e que vem reforçar o ambiente que se vive desde há muito por esta ilha picoense.

E já agora convém recordar: A Vila das Lajes possui alguns estabelecimentos de leitura importantes pelo seu recheio e pelo número de obras que neles se consultam.

E principiemos pela Escola Secundária cuja biblioteca já atingiu cerca de 6.700 exemplares.

O Museu dos Baleeiros, nas Lajes do Pico, possui uma biblioteca especializada com algumas centenas de exemplares de obras clássicas, nacionais e estrangeiras.

A Biblioteca Municipal é bastante antiga e conta com cerca de 10 mil volumes. Mas tem uma história que vale a pena recordar.

Entre 1874 e 1879 andou por Coimbra a estudar Teologia aquele que , depois, seria Bisco de Macau, Dom João Paulino de Azevedo e Castro. Durante esses anos conseguiu recolher, nos alfarrabistas, algumas centenas de livros que enviou para a Vila das Lajes, sua terra natal, ao irmão Manuel Joaquim de Azevedo e Castro. Este, amante da leitura, havia solicitado a alguns cavalheiros a sua colaboração no sentido de fundar um Gabinete de Leitura. E foi para este gabinete que o irmão João enviou os “centos de livros” que havia recolhido. A Câmara Municipal de então concedeu ao Gabinete o subsídio de 18$000.

O Gabinete funcionou com regularidade durante vários anos até que, em 28 de Outubro de 1895, foi fundado o “Grémio Literário Lajense”, instituição de recreio, para o qual transitou o espólio do Gabinete. (Por exigências legais da Ditadura, o Grémio teve de alterar a denominação para Sociedade Literária e Recreativa Lajense, já nos anos quarenta do século 20.

A biblioteca do Grémio foi passando de instituição para instituição, chegando a nossos dias já bastante diminuída. Essa circunstância levou um pequeno grupo de jovens lajenses, na década de trinta, a fundar a Biblioteca Popular Lajense que, para garantia da sua existência viria a ser entregue, nos princípios dos anos quarenta, à Câmara Municipal das Lajes do Pico.

Actualmente denomina-se Biblioteca Municipal Dias de Melo em homenagem ao escritor picoense, recentemente falecido. Possui uma existência superior a dez mil exemplares. Dela faz parte uma biblioteca infantil, muito frequentada.

Em formação e contando já algumas centenas de exemplares existem os núcleos do Posto de Turismo Municipal, ao Castelo, e o Centro de Ciências do Mar, na antiga SIBIL.

Além das indicadas, encontram-se na vila das Lajes algumas pequenas bibliotecas particulares que acrescentam uma nota de verdadeira cultura ao velho e secular burgo.

Na Madalena, existe uma Biblioteca Municipal, fundada com os restos da biblioteca do escritor Nunes da Rosa, mas agora bastante enriquecida com mais de 15.000 volumes da biblioteca particular do falecido Dr. Lopes Correia e que o Filho, num gesto altruísta, acaba de doar ao Município da sua terra. Fica assim a Vila da Madalena a possuir uma das maiores bibliotecas picoenses.

Em S. Roque do Pico um grupo de cavalheiros, tendo à cabeça o notável João Bento de Lima, criou o Gabinete de Leitura Marques de Pombal, inaugurado em 8 de Maio de 1882.

A nossos dias pouco ou nada chegou da antiga biblioteca. No final do século XX, a Família do malogrado Poeta Almeida Firmino entendeu entregar à Câmara Municipal de São Roque a biblioteca do Poeta. Hoje a instituição possui mais de 3.600 volumes e está devidamente instalada, em edifício próprio.

Afinal um ambiente cultural que importa perseverar com cuidado e esmero pois só valoriza e em muitos aspectos a terra picoense.

Vila das Lajes, 24/Set./2009

Ermelindo Ávila