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domingo, 25 de junho de 2017

Padre José Carlos

Notas do meu cantinho

                                      

         O Pe. José Carlos Vieira Simplício já estava sepultado no Cemitério municipal desta Vila, vítima de doença incurável, quando me deram a notícia do seu falecimento, na cidade de Angra, onde se encontrava há anos. Senti profundamente a sua morte, pois éramos amigos de longa data. Sempre acompanhei a sua acidentada vida por Timor, pelos Estados Unidos da América – Califórnia, e por algumas ilhas dos Açores e, agora, na dolorosa doença que, naturalmente, o levou.
         José Carlos foi um dos primeiros alunos do externato liceal de D. Olga Soares, desta Vila e primeiro Director do seu jornal “Estímulo”. Entretanto iniciou cedo a sua colaboração em “O Dever”.
Aos quinze anos publica os seus primeiros versos: “Murmúrios dos meus quinze anos”. O Poeta faialense Osório Goulart, em “Duas palavras” de apresentação, escreve: “José Carlos, esperançoso poeta em embrião incipiente cultor das letras, vai, como a flor desabrochante se inclina para o sol, inclinar-se naturalmente para a luz emotiva da inspiração com que as Musas o abraçam e acarinham nos murmúrios dos seus primeiros versos”. E não se enganou o consagrado poeta faialense.
         Não publicou muitos livros mas sim, boa e inspirada poesia. E recordo a Cantata Mariana que escreveu e o Maestro Emílio Porto musicou para o Grupo Coral das Lajes e que tanto êxito alcançou. De assinalar ainda “Os Maiores Dias da Vila da Madalena”, Notas de reportagem, que escreveu e publicou aquando da celebração do duplo centenário do culto e do povoamento da ilha. No entanto o trabalho de maior fôlego foi, creio, “Padres da Ilha do Pico”, do qual publicou, em 1976, o primeiro volume. Afirmou-me diversas vezes que o segundo volume estava pronto, mas nunca chegou a ser publicado. Julgo que está, inédito, em algum dos seus “caixotes”…
         Um outro interessante trabalho é “Daqui Houve Missionários até aos Confins do Mundo”, publicado no ano jubilar de 2000 e no qual o erudito Autor escreve: “A verdadeira abertura, ou melhor, o Pórtico destas páginas são os três parágrafos que destacámos da Mensagem do nosso bispo D. António de Sousa Braga, para o Jubileu Missionário Diocesano celebrado na ilha do Pico.”
         Por oferta do notável investigador histórico, possuo todos os seus livros, com dedicatórias amigas que guardo religiosamente recordando esse ilustre Sacerdote que sempre quis ser Padre e que desenvolveu, em todas as terras por onde andou - Timor, Califórnia e algumas Ilhas dos Açores - uma actividade cultural, e sacerdotal invulgar.
         Devo-lhe uma amizade leal e sincera desde o primeiro ano do Ensino Secundário, quando principiou a frequentar o primeiro Externato desta Vila. Não o esquecerei jamais até que o Senhor me chame. Mas não podia, neste momento doloroso, deixar de aqui registar singelas palavras de homenagem, de reconhecimento e de gratidão à sua veneranda memória. 
         O P. José Carlos amou sempre a sua terra, a Almagreira. Subúrbio desta vila. A respectiva ermida mereceu-lhe sempre um carinho muito afectuoso e bastante contribuiu para o seu restauro e modernização. A ele se fica a dever a instituição da Festa da Titular, Rainha Santa Izabel, e, para ela, procurava trazer oradores distintos.
         Nos últimos anos sofreu males físicos que muito o atormentaram e inutilizaram intelectualmente. Como atrás disse, há anos que, em razão dessas enfermidades, estava recolhido na casa de Saúde de Angra. E ali faleceu antes de atingir os oitenta anos de idade (4 de Agosto de 1937). Há quase dois anos ocorreu o cinquentenário da celebração da sua primeira Missa. Não sei se alguém o recordou, pois o P. José Carlos já se encontrava um enfermo… Veio ser sepultado no cemitério desta vila não sei se por sua determinação se por deferência da entidade testamentária. Mas fica bem junto dos seus…
         Que o Senhor o haja recebido em seu Reino, pois a memória do saudoso Amigo, sacerdote distinto, investigador histórico, poeta e escritor invulgar será recordada por anos largos.
Requiescat in pace!  
 Vila das Lajes, 10 de Junho de 2017

Ermelindo Ávila



sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

SÃO SEBASTIÃO


NOTAS DO MEU CANTINHO


Trata-se de uma festividade bastante antiga, muito embora a ermida actual não seja a primitiva e já haja sido reparada eintegrada no culto duas ou três vezes. “É muito antiga a devoção que os Picoenses consagram ao Mártir São Sebastião. Talvez por isso – não devendo ser alheia a homenagem ao “Desejado” D. Sebastião – já anteriormente a 1592, existia uma ermida no local denominado hoje “São Sebastião-o-Velho”, ao saínte do lugar da Almagreira, subúrbio da Vila das Lajes, pois nesse ano Bárbara Gaspar, natural da freguesia da Santíssima Trindade (Lajes do Pico) testava em favor daquela ermida. Trata-se de um local muito aprazível, donde se desfruta um magnifico panorama da Vila. Ali possuíam alguns lajenses quintas com as respectivas casas de abrigo, onde passavam a estação calmosa. E foi numa delas, por haver pertencido à Família, que foi oferecido ao General Lacerda Machado, aquando da sua última visita à terra natal, em Setembro de 1940, um jantar ”garden-party” muito concorrido e que o ilustre lajense bastante apreciou, recordando os seus tempos de infância.
O visitador João Baptista do Amaral, que esteve na ermida no dia 29 de Novembro de 1709, deixou no livro das visitas Episcopais da Matriz da Santíssima Trindade o seguinte despacho:” Visitei as ermidas de São Sebastião e de Santa Catarina, sufragâneas a esta Matriz, ambas quase incapazes de nelas se celebrar, pela pobreza e não haver fábrica nas ditas ermidas, pelo que mando ao Rev.do. Vigário recolha as imagens a esta Matriz até que se reparem do necessário e reparado o que fica à disposição e cuidado do Rev.do Vigário, tornarão as imagens para as ditas Ermidas.”(1)
A Ermida de Santa Catarina, naturalmente porque estava junto das propriedades do Morgado Manuel Cardoso Machado Bettencourt, foi reparada e voltou ao culto. (Não refiro a questão judicial que decorreu sobre a sua propriedade). Presentemente pertence à Paróquia ou Diocese, por legado dos antigos proprietários.
A ermida de São Sebastião, no século XVIII foi transferida para a Ribeira do Meio e construída no local onde actualmente se encontra, muito embora o Autor da “História das Quatro Ilhas que formam o distrito da Horta”, haja escrito em 1871: “também no bairro da Ribeira do Meio existe uma ermida de S. Sebastião, que há anos alguns devotos ampliaram: mas apenas lhe deitaram a madeira em cima, e a abandonaram e assim se conserva.”(2). Silveira de Macedo, naturalmente, não teve conhecimento do livro da “Arca das Três Chaves”, cuja propriedade devia ser reservada à Matriz e, naturalmente por isso, não faz referência à anterior ermida no Cimo da Almagreira.
A actual ermida de S. Sebastião tem recebido alguns reparos e, durante muitos anos foi zelada pela Família de Manuel José e, depois, pela do genro Manuel da Rosa. O altar foi mais tarde totalmente construído, na década de quarenta do século passado, pelos Irmãos Rodrigues Quaresma (os Importantes como eram conhecidos) e, recentemente, recebeu novas beneficiações.
No bairro da Almagreira, como diria Silveira de Macedo, foi construída, a meio do povoado, uma ermida dedicada a Santa Isabel, a expensas do luso-americano Manuel de Brum, a qual foi totalmente restaurada, após o sismo de 9 de Agosto 1998, com projecto dos arquitectos Rui Pinto e Ana Rochel, que mereceu mais tarde honrosa classificação.
A festa da Rainha Santa Isabel, por influência do Pe. José Carlos Vieira Simplício, dali natural, beneficiou de grande incremento, introduzindo-se num dos dias o “bodo do leite”, em S.Sebastião-o-Velho, para o que foi, nos últimos anos, construída uma pequena capela onde é recolhida a Imagem da Santa portuguesa, enquanto dura o arraial, e que para ali vai em procissão festiva. Parece que a Festa de Santa Isabel está separada do Bodo de Lei, realizando-se este no mês de Agosto. Trata-se de um aprazível lugar, situado num monte donde se desfruta, como disse, agradável panorama. O bodo de Leite já entrou na tradição das festas populares. É uma festa típica única no género realizada na ilha. Os Lavradores fazem descer algumas das suas vacas leiteiras, vindas das pastagens próximas de S. Sebastião-o-velho e oferecem o leite delas extraído a todos os que ali se encontram.
A festa de Santa Isabel realiza-se no mês de Setembro e atrai àquela zona imensas pessoas, não apenas da freguesia como de diversos lugares da ilha que ali vão passar o dia em aprazível convívio numa zona fora do bulício diário e do calor que, ainda nessa época, se faz sentir.
A festa de São Sebastião tem lugar no próximo domingo, 20 do corrente, (próximo do dia litúrgico) e costuma, igualmente, atrair à Ribeira do Meio (ou Bairro da Ribeira do Meio) muitos forasteiros, uma vez que se festeja o santo protector da doença da peste; quando, na Almagreira, se reza no domingo seguinte, a festa de Santo Antão, protector dos animais, embora a Igreja lhe atribua outra intenção.
E recordo o entusiasmo que, desde estudante, o Padre José Carlos punha na realização das festas do seu lugar, apesar de nunca ter paroquiado por estes lados.
________
1) Avila,E. “Figuras & Factos”, 1993, pág.115
2) Silveira Macedo, A.L., “História das Quatro Ilhas Que Formam o Distrito da Horta”1871, III Vol. Pág.8


Vila das Lajes do Pico,
7 de Jan, 2013
Ermelindo Ávila