quinta-feira, 6 de abril de 2017

COISAS ANTIGAS

A MINHA NOTA

       Não se falava em turismo. Estava-se ainda no primeiro quartel do século XX e as comunicações eram mantidas somente pelos dois velhos navios da Empresa Insulana de Navegação, o “Funchal” e o “San Miguel”, substituídos, depois, pelo “Lima”, confiscado aos alemães no após guerra 14-18, e o “Carvalho Araújo” construído já nos anos trinta para substituir o velho “San Miguel”.
         Com a construção do novo e moderno “Funchal”, o “Lima” veio a “morrer” no mar da Palha, no Tejo.
         Os barcos da carreira Lisboa-Funchal-Açores passavam na ilha do Pico de quinze em quinze dias: o “Lima” a quinze de cada mês e o “Carvalho Araújo”, a 28/30, pelo Cais do Pico. Para os picoenses era o Vapor de vinte e oito.
         Os passageiros entre o Pico e Lisboa eram quase nenhuns: um doente que ia consultar especialista a Lisboa ou a Ponta Delgada e o transporte de carga de e para Lisboa. Do Pico saíam os lacticínios e o gado bovino para abate. De Lisboa vinham os diversos géneros de mercearia, a louça, os materiais de construção e os tecidos. Pouco mais.
         No verão passam por cá um ou dois caixeiros-viajantes, a fazer venda dos produtos continentais. Ficavam um ou dois dias nas vilas. Na Lajes utilizavam a única “casa de hóspedes” ou pensão da Maria José: uma pequena casa, embora de dois pisos, apenas com quatro compartimentos. Era lá que pernoitavam os oficiais da Junta de Inspecção Militar que, anualmente, aqui se deslocavam, um ou outro caixeiro-viajante e o condutor do carro da mala, entre as Lajes e a Madalena. Raramente outro visitante.
         Antes da Maria José regressar dos Estados Unidos, nenhuma casa de hóspedes havia por cá.
          O escritor faialense Ernesto Rebelo narra que, em certa ocasião, veio às Lajes caçar pombos da costa e ver uma “toirada” de moleiros. Para pernoitar, um amigo conseguiu-lhe uma das salas do extinto convento franciscano e nele mandou colocar um colchão onde o escritor dormiu as noites que aqui passou.
          Já no meu tempo da juventude conheci, por aqui, e alquebrado, o Anastácio Bello, um retratista que por aí deixou alguns bons retratos a carvão. Na Matriz creio que ainda existe uma apreciada pintura, em tela, com a Ressurreição do Senhor, que era utilizada no Sábado da Aleluia e que, ultimamente servia de retábulo na capela do Santíssimo na Matriz.
          Aquando da Exposição do Rio de Janeiro, nos anos vinte ou trinta, o Anastácio Bello foi um dos pintores convidados para ir ao Brasil decorar o pavilhão português. Voltou a esta vila, onde permaneceu ainda algum tempo e depois regressou à sua terra. Já estava bastante alquebrado, vítima que era do álcool.
         Certa manhã, saindo da “pensão” encaminhou-se para a mercearia do João de Deus Macedo, como habitualmente, que ficava no outro lado da rua – nesse prédio está hoje instado o Lar de Idosos (ou asilo, como antigamente era conhecido), para tomar a “manhã”. João de Deus, naturalmente, tinha acordado mal disposto – aliás era um conhecido “telhudo” – e não lhe quis fornecer a bebida. Mestre Anastácio, dirigindo-se para o pequeno muro que ficava em frente, onde actualmente está um prédio em cujo rés-do-chão está instalado um estabelecimento de fazendas, e pinta a crayon, a figura do João de Deus sentado num “vaso”… Voltou à loja e chamou o merceeiro. Este, ao ver-se assim ridicularizado, deu-lhe o copo de bebida, dizendo: vai imediatamente apagar. Era o que pretendia o Pintor.
         Enquanto esteve nas Lajes, a “manhã habitual” nunca mais faltou ao Pintor.                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                           

Vila das Lajes,
2 de Abril de 2017.

Ermelindo Ávila

A IGREJA DO CONVENTO

NOTAS DO MEU CANTINHO

  Data de 1700 a construção da primeira fase do Convento Franciscano, junto  de uma pequena ermida construída por Filipa Pereira, em 1559, no saínte da vila. A segunda fase do edifício do convento só ficou concluída em 1768 e, junto a ela, no lado Norte ficou a Igreja do convento. 
            Como escreve Silveira de Macedo, a Igreja foi dedicada em 1768, continuando a decorá-la no interior muito lentamente por falta de meios, de sorte que só em 1804 é que conseguiram ultimá-la (...) ficando um dos mais belos templos da ilha pelo primor da escultura dos retábulos e perfeição do dourado, possuindo já os ornamentos necessários, vasos sagrados, uma lâmpada de prata, coroas e resplendores em todas as imagens, o que tudo foi pasto das chamas dum voraz incêndio que em Fevereiro de 1830 reduziu a cinzas a igreja com suas imagens e altares, podendo apenas salvar-se o convento! (1)
            E o mesmo Autor referindo o convento franciscano, informa ainda: possuía um lindo Templo que foi pasto de um incêndio em 1828 (sic) trataram contudo os religiosos de o reedificar e conseguiram cobri-lo e fechá-lo, sendo porém extinto o convento em 1833 assim ficou e já ameaçava ruína quando o padre Francisco Salles, egresso do mesmo e cura da Matriz, tratou de o reparar com esmolas que obteve e alguns melhoramentos lhe fez; mas infelizmente ficou o edifício sem director, e achando-se em estado eminente de ruína. (2)
            A igreja Matriz, construída no meio da Vila, com finta lançada sobre os quarenta e cinco moradores, de então, 1506, encontrava-se bastante arruinada, o que levou o Bispo D. João Maria, aquando da sua visita em 1875, a deixar no respectivo relatório o seguinte reparo: (...) ficamos magoados por ver que uma vila tão antiga, nobre e piedosa, tem uma Igreja Matriz insuficiente para conter o numeroso povo da freguesia, e tão velha que não é susceptível de aumento. Vimos porém com satisfação que se acha reparada e asseada, quanto é próprio, o que é devido às deligencias e zelo do actual muito Rev.do Vice-Vigário António Ribeiro Homem da Costa. E soubemos tambem com satisfação que a respectiva Junta de Paróquia (hoje Junta de Freguesia) e fiéis desta freguesia cuidam com empenho na edificação dum novo templo, para a qual mandaram fazer já a respectiva planta e alçados e coligidos alguns materiais.“
Por seu lado, o Governador Santa Rita, no Relatório de 23 de Dezembro de 1867, já havia dito: (...) a actual igreja paroquial tem19 metros de comprimento até à capela-mor, e 10, 3 de largura. A capela tem 13 m. de comprimento e 5m,3 de largura. (...) Acha-se por tal modo arruinado, que se torna indispensável a construção de um novo templo.
            E assim aconteceu. O projecto é da autoria do P. Ouvidor Francisco Xavier de Azevedo e Castro e a bênção da primeira pedra teve lugar em 7 de Julho de 1895.
            Entretanto os serviços paroquiais continuaram na velha Matriz até que o Governador do Bispado, Cónego Fisher, por Provisão de 16 de Janeiro de 1902, autorizou que os serviços paroquiais passassem para a Igreja do extinto convento franciscano, pois tornava-se necessário demolir a velha matriz para as obras da nova poderem continuar.
            A Igreja só possuía o altar-mor, vindo da Horta da igreja do antigo convento. Foi necessário construir um altar para a Imagem de Nossa Senhora de Lourdes e outro para a do Senhor Jesus, instalar o órgão ido da Matriz, construir, a meio do templo, um coreto, onde a capela cantava, e acrescentado o coro que liga ao convento.
            De salientar que o órgão é uma verdadeira peça de arte, instrumento de concerto, construído pelo artista António Xavier Machado e Cerveira, em 1804. Foi afinado, nos anos trinta pelo pianista Leite, de passagem por esta vila, e em 1990 pelo organeiro Dinarte Machado. Após esta reparação vários artistas derem nele alguns concertos.
            Com o sismo de 1998 a igreja do convento ficou muito danificada, tendo sido totalmente restaurada e a capela-mor e altares laterais devidamente pintados e dourados pelo Governo Regional. Nessa altura foi retirado o coreto e igualmente a parte nova do coro, que ia até meio do templo.
            O órgão voltou à Matriz e encontra-se instalado num dos arcos que separa o corpo da igreja da nave do lado leste, onde o coro se instala.
            De salientar, na Igreja do convento, a imagem de Nossa Senhora da Conceição, titular do templo, uma artística e bela escultura, adquirida com donativos recolhidos nas ilhas pela jovem Rita Carolina, em 1906.
           
______________
1) MACEDO, A.L.Silveira de. História das Quatro Ilhas que formam o Distrito da Horta. Vol. 1, pág.206
2) Ibidem, Vol. III, pág. 82

Lajes do Pico,
24 de Março de 2017

ERMELINDO ÁVILA

AUTONOMIA INCOMPLETA...

NOTAS DO MEU CANTINHO


         ... e incompleta, porque não chegou a todos!
Infelizmente, é assim mesmo.
         Quando se andou por aí a estudar o Estatuto da Autonomia, uma das regras estabelecidas era que a Autonomia devia chegar a todos os açorianos. Criou-se, mesmo, um slogan em que se estabelecia a regra de desenvolvimento harmónico de todas as parcelas do território autónomo.
         Pretendia-se, afinal, com a autonomia, dar aos açorianos, a todos os açorianos, o direito de se governarem sem interferência de vizinhos ou estranhos às respectivas localidades.   
Mas isso não aconteceu. Mantiveram-se os serviços públicos nas antigas capitais de distrito, numa hegemonia ainda mais atrofiante do que existia, embora se centralizasse a sede do governo numa dessas cidades.
         Pior ainda foi, dentro das próprias ilhas, centralizarem-se os serviços, transferindo alguns ou criando novos, diminuindo assim a estabilidade política das primeiras povoações. E fez-se isso com uma naturalidade e insensatez até então praticamente desconhecida. Mas o pior é que o sistema continua. Pretendem ignorar que essas drásticas medidas obrigam à deslocação de funcionários e respectivas famílias para as localidades de fixação, ao engrossamento das respectivas populações e ao despovoamento de outras e consequente atrofiamento económico e social.
         Com o despovoamento desce o número de votantes e as terras deixam de ser ouvidas nos centros de decisão, como seria natural.   
         Os poucos jovens que existem vão caminhando para os locais onde encontram trabalho e as populações vão vertiginosamente envelhecendo, as terras, por vezes as mais férteis, vão ficando abandonadas e uma vegetação selvagem vai-se dela apossando, sem proveito, a não ser de algum estrangeiro que as descobre e as adquire para nela se estabelecer nas época de estio ou repouso.
         Com a saída (abandono) dos homens válidos, desapareceram os artistas das diversas profissões: pedreiros, carpinteiro, ferreiros e funileiros, pintores e artesãos, sapateiros e alfaiates que outrora existiam em abundância e não lhes faltava trabalho em cada uma das respectivas profissões ou artes.
         Fecharam os pequenos estabelecimentos de fazendas e mercearias, o comércio familiar, como agora se diz. E havia-os em todas as freguesias. Na vila das Lajes havia mais de meia dúzia desses pequenos estabelecimentos de mercearia, onde, aliás, de tudo se vendia: desde a cal para as caiações dos prédios até aos géneros de consumo doméstico.
         As duas padarias existentes no concelho foram criadas, há algumas dezenas de anos, pelas próprias famílias. Hoje isso não seria possível pelas exigências burocráticas que, incompreensivelmente (julgo), se estão a pôr em prática, dificultando somente a criação de pequenas actividades industriais ou familiares, indispensáveis à manutenção dos respectivos agregados.
         A caça à baleia, praticada desde há dezenas de anos na Vila das Lajes, foi proibida. Encerrou drasticamente a fábrica de conservas de peixe. Desviaram-se as traineiras e cessou o seu fabrico nos estaleiros locais, que também desapareceram. Daí resultou a emigração, não apenas de jovens mas de famílias inteiras. Às dúzias!...

         Vila das Lajes do Pico,
           28 de Março de 2017
            Ermelindo Ávila                                                                 

domingo, 26 de março de 2017

A QUARESMA

A MINHA NOTA


Quando reinava a Monarquia, a Igreja Católica estava um tanto submetida ao domínio do Monarca. Com a Implantação da República, em 1910, tudo se modificou e a separação do poder civil da Igreja, passou a dominar a vida dos povos com um autoritarismo que deixou profundas mazelas nos indivíduos. Foi um verdadeiro tempo de perseguição religiosa que veio a acabar a meados do século passado, mas cuja acção anticlerical não deixou de marcar os indivíduos e a própria sociedade. Houve, porém, sectores da vida religiosa que se mantiveram, muitas vezes pela influência que certos dirigentes católicos exerciam e continuaram a manter essa situação junto da sociedade civil.
As Misericórdias eram e são, presentemente, instituições canónicas – o Prelado é que tem poder para aprovar os respectivos estatutos – que, em parte, estavam sujeitos à jurisdição civil.
Tenha-se em atenção o que aconteceu com os hospitais que acabariam por ser nacionalizados pelo Estado.
As obrigações canónicas das Santas Casas, como eram e ainda hoje são conhecidas as Misericórdias, mantiveram-se, principalmente, na celebração das procissões quaresmais, como é ainda hoje a Procissão de Passos que, ao menos em todas as ilhas da Diocese, se realizam com grande esplendor e concorrência de fieis.
A essa instituição pertencem os conhecidos “Passos”, pequenos altares incrustados nas paredes de muros de habitações, onde há a paragem do cortejo processional, para a prática litúrgica adequada.
A freguesia da Piedade ainda conserva alguns Passos que denominam  os sítios: Passos Novos ou Passos Velhos. Na Vila das Lajes existem, também, alguns Passos, muito embora, por motivo de construções urbanas, outros hajam desaparecido. Todavia, no dia da Procissão, os moradores do sítio têm o cuidado de “armar” altares apropriados onde há a tradicional paragem.
Em Angra conheci, há umas dezenas de anos, passos fechados com portas durante o ano, naturalmente para se evitarem actos de vandalismo.
Ainda bem que a tradição se conserva, sinal do catolicismo, tão tradicional das gentes açorianas, que não deixa de ser praticado, no Tempo Litúrgico da Quaresma com respeito, e certa solenidade. É o que vai acontecer, uma vez mais durante o corrente ano, segundo está anunciado pelas respectivas paróquias.
No tempo quaresmal realizavam-se também os chamados “quartéis”. A paróquia era dividida em diversos sectores com um certo número de paroquianos por dia, a fim de facilitar o cumprimento do preceito pascal. Curioso que algumas paróquias, ao menos aquelas que me foi dado conhecer, organizavam o registo de toda a população paroquial onde faziam a “descarga” daqueles que cumpriam o preceito. Registavam todos os habitantes da paróquia, por idades e sexos e, por esse registo, aqueles que restaram, decorrido mais de um século, sabe-se qual era a população da freguesia respectiva. Assim, no ano de 1888 a freguesia da Matriz da Santíssima Trindade da Vila das Lajes do Pico, no dia 31 de Dezembro de 1887, tinha 1110 indivíduos do sexo masculino, 1614 do sexo feminino, 246 crianças do sexo masculino até aos 7 anos e 200 do sexo feminino. O total da população, aquele ano, do Soldão às Terras, era de 3.270 habitantes, salvo erro. Em parêntesis, registe-se que é curioso notar que todos os que tinham idade para isso, cumpriram o preceito pascal.
Coisas de outros tempos, dirão. Pois que sejam.
Lajes do Pico,
Março de 2017

Ermelindo Ávila

ATAFONAS

A MINHA NOTA

                                         
Há dias, no Auditório do Museu dos Baleeiros, desta vila, passou o documentário ATAFONAS, uma evocação simpática dos velhos sistemas de farinação de cereais. 
         Tudo quando seja lembrar o passado, tem sempre quem aprecie os antigos sistemas de vivência das populações que aqui se fixaram na época do povoamento e tiveram de “inventar”os sistemas indispensáveis para poderem suportar o isolamento a que eram votados.
         Pela carta de 21 de Fevereiro de 1460, passada a favor de Joz de Utra, 2.º donatário do Faial e 3.º do Pico, D. Manuel, em carta de confirmação da doação, estabelece: “... Moinhos – “Outrossim nos praz que o dito Joz de Utra haja para si todos os moinhos de pão que houver nas ditas ilhas (Faial e Pico) de que lhe assim damos o cargo, e que ninguém não faça aí moinhos, somente ele ou quem lhe a ele prouver: e esto não entenda em mó de braço, que a faça quem quiser, não moendo a outrem, nem atafona a não tenha outrem, somente ele ou quem a ele aprouver. (1)
         Conheci diversas atafonas em casas particulares desta vila movimentadas por animais bovinos, quer mais pequenas, manuais, estas de uma só peça de basalto, com mós soltas, somente utilizadas em ocasiões de urgência. Havia ainda umas pequenas, também em basalto (ou pedra da terra), usadas para a farinação de cevada, café ou filho torrado, com que faziam uma mistura de “café”.
         Os moinhos e as atafonas eram os mais vulgares.
         Interessante, em dias de aragem, ver o rodopiar das velas dos moinhos – moinhos de vento - nos pequenos montes ou elevações perto das habitações onde eram instalados.
         Ainda hoje existem alguns moinhos espalhados pela ilha, muito poucos, afinal e que dão um aspecto característicos à paisagem. O Turismo aprecia-os na realidade e a nós, nativos, são uma recordação saudosa de tempos passados, Aqui perto tínhamos o moinho da “Terra da Forca”- um pequeno monte no Sul da Vila, que, felizmente, nunca foi utilizado. Lembro-me da construção do moinho do Juncal, de fatídica existência e o da Ladeira Nova. Mais além, o da Silveira e o do Mistério. De todos existe somente o da Ponta Rasa, entregue à exploração turística. Na Ilha ainda restam outros, embora inactivos.
         Mas volto às atafonas. Todas as casas de lavradores tinham, ou nas lojas das residências, ou numa casa ao lado, “na casa da atafona”, uma atafona para uso doméstico. E nela que se moía diariamente o milho, ou mesmo o trigo que este havia, para uso doméstico. De madrugada levantava-se um dos familiares e descia â loja (rés-do-chão) para moer o milho. Entretanto, a mãe ou uma filha, acompanhava-o para acender o forno. Quando este ficava suficientemente quente, a massa de milho estava pronta para entrar no forno, em forma de bolo do forno, porque, para acudir a uma emergência, também se fazia o bolo do tijolo.                                                      
    Com o aparecimento das moagens movidas a motor, quase desapareceram os instrumentos domésticos que hoje não passam de simples e saudosas recordações.
...
1)MACHADO, Lacerda. História do Concelho das Lajes.1936, pág. 76.

Vila das Lajes,
 20-Março. 2017
Ermelindo Ávila                                                                

SANTA CASA DA MISERICÓRDIA

NOTAS DO MEU CANTINHO


         No passado domingo realizou-se na Paróquia da Santíssima Trindade, sede da antiga Ouvidoria das Lajes do Pico, a tradicional Procissão do Senhor dos Passos. Um acto litúrgico que vem de longa época que é sempre feita com ordem, respeito e solenidade. O mesmo aconteceu realçando-se a comparência da Irmandade da Santa Casa, promotora daquele acto litúrgico, o único que, presentemente, assinala externamente o Tempo de Quaresma.
         A Santa Casa da Misericórdia da Vila das Lajes é actualmente a instituição sócio-religiosa mais antiga da Ilha. Foi fundada por Alvará régio de 14 de Novembro de 1592 . E diz o Alvará que o Provedor e Irmãos da Confraria “gozem e usem de todos as liberdades e privilégios e liberdades de que gozam e usam (...) o provedor e irmãos da confraria da misericórdia da cidade d´Angra da ilha Terceira e da ilha do Faial e isto naquelas coisas que se poderem aplicar à dita confraria da ilha do Pico...”.
         As Misericórdias de São Roque e Madalena são de recente fundação. Esta última foi fundada recentemente por Jacinto Ramos e outros, para aproveitar o legado de Terra Pinheiro e construir o antigamente classificado “hospital sub-regional” . A de São Roque teve a mesma finalidade. S. Roque construiu o hospital “Rainha Santa Isabel” primeiro que os outros. O das Lajes, apesar dos respectivos estatutos da Santa Casa preverem a construção de um hospital, este só veio a ser inaugurado em l de Janeiro de 1960 por dificuldades na aquisição do terreno onde foi implantado. Mesmo assim o projecto que lhe fora destinado pela Comissão de Construções Hospitalares e que foi cedido à Madalena, teve de ser novamente elaborado por aquela Comissão.
 Para a construção do hospital o Barão de Castelo de Paiva concedeu, em 10 de Janeiro de 1874, duas inscrições com o valor nominal de 500$000 (reis). Mas essas também desapareceram...
 Frei Diogo das Chagas no seu valioso “Espelho Cristalino em Jardim de Várias Flores,” relata que a Santa Casa, em 1641, possuía uma casa que se encontrava em ruínas já no ano de 1718, quando se deram as primeiras erupções vulcânicas na Ilha do Pico. E Lacerda Machado, em artigo publicado no antigo jornal “As Lages”, escreve que a Misericórdia possuía um templo de duas naves, construído, por voto do povo, aquando daquelas erupções, sendo destruído em 1868 e mais tarde demolido para utilizarem os materiais na construção da Igreja Matriz. O local onde fora construído foi arrematado.
Segundo constava dos livros da contabilidade da Misericórdia das Lajes, incompreensivelmente desaparecidos, a instituição limitava a sua actividade a fazer empréstimos a pobres, a distribuir pensões de invalidez e a realizar as solenidades de Passos e Calvário.
          Os irmãos usavam nas cerimónias litúrgicas balandrau preto. O provedor empunhava nos actos públicos uma vara de metal prateada e nas procissões e funerais dos irmãos era levada a bandeira respectiva: um quadro hasteado numa vara e com pinturas em tela nas duas faces. Mas também estas insígnias desapareceram, e não há muitas dezenas de anos.
          Apreciei que a Santa Casa voltasse a dispor de bandeira e o provedor de vara e irmãos de balandrau. As senhoras que pelos novos estatutos podem inscrever-se como irmãs, usam opas pretas.
         Já isso escrevi em outra ocasião(1), mas não fica mal repetir...

1)Ávila, Ermelindo. Figuras & Factos. Vol 1

Vila das Lajes-
15-Março-2016
Ermelindo Ávila



POSTO DE TURISMO

NOTAS DO MEU CANTINHO

         Está em vias de conclusão o edifício destinado ao Posto de Turismo, a aceitar como realidade o que nos é dado observar.
         Até agora aquele serviço municipal tem funcionado no antigo castelo de Santo António, extra-muros, como soe dizer-se. Foi a ocupação encontrada para lhe dar certa utilidade pública. Mas não foi nem é suficiente para um imóvel daquela categoria.
         Trata-se de uma construção levada a efeito aquando da Revolução Francesa, decorria o ano de 1792. O forte ocupou o antigo posto de ordenança, que havia sido extinto, como todos os outros existentes no concelho, por decreto de 30 de Abril de 1832. Como já escrevi em “Figuras & Factos”, (1993), era constituído por duas vigias e sete ameias.
         Em 1885, na cerca ou parada, foi instalado um forno da cal que funcionou alguns anos sob a administração de uma sociedade constituída para o efeito. Depois foi abandonado.
         No século passado foi declarado imóvel de interesse público e nele a Câmara Municipal instalou o Posto de Turismo que será desactivado quando estiver concluído e inaugurado o edifício em construção na Rua dos Baleeiros, desta vila.
         Tratando-se, como se trata, de um imóvel de interesse público, não pode ser novamente abandonado. Há que encontrar para ele uma ocupação utilitária e digna. Uma simples livraria de venda de edições novas ao público é insuficiente. Julgo que mais merece. A antiga fortaleza, onde, aliás, nunca se praticou qualquer acto bélico, ainda hoje dá uma certa dignidade à vila mais antiga da ilha e que sempre se comportou com dignidade e elevação patriótica. Estou a recordar o Vigário Gonçalo de Lemos e o Capitão-Mor Garcia Gonçalves Madruga que foram exceptuados do perdão concedido aos açorianos pelo Rei de Castela, e confiscados seus bens, quando os Filipinos dominavam Portugal, por se manterem fiéis a Dom António, Prior do Crato.
         O Castelo, como é conhecido ainda hoje, fica presentemente numa zona de expansão da vila e pode muito bem ser utilizado para a instalação de um serviço de utilidade pública. E eles não faltarão.
         Na velha fortaleza devem ser repostos os pequenos canhões
que a ele pertenceram e que, depois, foram colocados no porto para servirem de cabeço às embarcações que o demandavam. Ainda conheci alguns. Fazer uma busca e recuperá-los é um gesto administrativo meritório, não somente para os mais novos que devem ter certo orgulho no passado da sua vila, já que o presente se encontra ou vai ficando um tanto “abalado”. E até para o turismo, pois os visitantes, principalmente os estrangeiros, não se interessam somente com as paisagens, arvoredos ou veredas e trilhos antigos. A História também lhes interessa e mais do que se possa julgar.
         O Castelo de Santo António, como se denominava, é um elemento histórico que algo tem a revelar a quem o “interrogue”.
Não o esqueçam, por favor. Conservem-no convenientemente. E já que, de momento, não tem nenhuma função oficial a desempenhar, ao menos que a sua estrutura bélica seja conservada “inocentemente”, voltando às respectivas ameias os pequenos canhões. Hoje é fácil reavê-los, pois não têm outra utilidade.

Vila das Lajes,
11-Março-2017

Ermelindo Ávila

OS PORTOS DO PICO

NOTAS DO MEU CANTIMNHO


         A Ilha do Pico foi daquelas ilhas que beneficiou, quase em último lugar, da construção de portos capazes de servirem o tráfego marítimo em condições de segurança e comodidade.
         Anos e anos se debateu na Imprensa do antigo distrito da Horta, pela construção de portos na ilha do Pico, mas as opiniões e pareceres técnicos divergiam quanto à respectiva localização. Tratou-se sempre de um problema político sem a discreta solução que merecia.
         Em certa altura surgiu na Imprensa a ideia do “Triângulo”, que cedo se apresentou como a justificação dos portos do Norte da Ilha. De início fui convidado para colaborar na iniciativa de um grupo de jovens faialenses, mas rapidamente me apercebi que não valia a minha colaboração em tão momentoso problema regional e fiquei por aqui, pelo Sul... O certo é que a ideia do Triângulo, descoberta a meados do século passado, vingou e perdura.
         E os portos do Pico acabaram por entrar nos projectos do Governo. Foi criada a “Missão dos Pequenos Portos do Distrito da Horta”, salvo erro, e construíram-se os portos da Calheta de Nesquim e Santa Cruz das Ribeiras. E quando alguém teve a ousadia de interpelar o Engenheiro dos Serviços Hidráulicos sobre o porto das Lajes, foi dito: Esse está sempre justificado. Mas não estava. Os oitocentos contos oferecidos (mas parece que não entregues...) serviram de bandeira para justificar o porto de Santa Cruz, e até se promoveu a inauguração com um dos já antigos e abandonados “Cruzeiros”, que já haviam entrado ao serviço das carreiras do Canal Faial – Pico.
         Construiu-se o porto do Cais do Pico e, a seguir, o faustoso porto da Madalena, com doca e rampas e, até, estaleiro de construção naval!
         Nessa altura alguém perguntou a um conceituado Técnico da Direcção Geral dos Serviços Hidráulicos pelo porto do Sul e a resposta veio logo: Estão-se a construir portos na Ilha do Pico, mas não é ainda que se constrói o porto do Pico.
E, continuando a conversa, disse com a sua comprovada competência de Técnico: O porto do Pico será na Prainha do Sul.
         Com essa afirmação recordava o erudito Técnico o Galeão que o Capitão - Mór da Vila das Lajes, Garcia Gonçalves Madruga mandou construir nas suas propriedades da Prainha do Galeão, o galeão ”Trindade” para oferecer ao Rei em satisfação das suas dívidas ao fisco.
         O porto foi construído na Madalena, mas não decorreram muitas dezenas de anos para que as vagas de mar do Norte se encarregassem de destruir uma boa parte da muralha de defesa, além de outros prejuízos avultados. Há poucos dias estive naquele local e penalizou-me sobremodo os avultados prejuízos ali provocados pelo mar que ainda andava revolto para os lados da Barca. Afinal, uma situação que penalizou, directa ou indirectamente,  todos os picoenses.
         No porto das Lajes, há poucos anos construiu-se um molhe de defesa, que ficou “desdentado” com o mar de Oeste, muito embora tenha formado uma pequena lagoa no seu interior que veio a tornar-se de difícil navegabilidade por não se terem retirado, aquando da construção, pequenos cabeços submersos. Agora, cinco ou seis sinais avisam a navegação que, para entrar no porto interior, por ali tem passado. E era bem fácil fazê-los desaparecer. Incúria ou desinteresse? O porto das Lajes, transformado em Marina de recreio, não deixa de ser procurado, no verão, por veleiros estrangeiros...Vale a pena ver e contar os barcos e barquinhos que ali estacionam...
          No dia em que o Mar do Norte destruiu a muralha de defesa no porto da Madalena, o “Gilberto Mariano” fez viagem até ao porto de Santa Cruz, único acostável que permitiu a atracação e no Sul da Ilha.
         Os portos do Pico são indispensáveis ao desenvolvimento da ilha, a segunda em área do Arquipélago. Não podem nem devem ser esquecidos e, muito menos, abandonados... E não só os do Norte. Pelo Sul também vive uma boa parte dos picoenses. Isto sem deixar de lamentar-se o que acaba de acontecer na zona da Vila Fronteira – a Madalena. Anote-se !

Lajes do Pico,
Fevereiro de 2017-03-02

Ermelindo Ávila 

CHAMARRITAS E BAILES

NOTAS DO MEU CANTINHO

         Não tive o propósito de fazer um estudo dos antigos bailes e danças, mas apenas recordar aquilo que era motivo de divertimento em épocas longínquas, na minha juventude, bastante distante.
Hoje, falo da Chamarrita do Pico, que todas as ilhas têm a sua Chamarrita, embora com coreografias diferentes.
         Ainda agora, quando se anuncia uma Folga, acorrem de toda a ilha os bailadores, inquietos por “ir a terreiro”. Ficaram mesmo em algumas tradições populares, as velhas cantigas com que se “abrilhantavam” os antigos bailes. Para principiar: Chega pares, chega pares/ chega pares ao terreiro / chega raparigas novas / e rapazes solteiros.
         A meio do baile, ouvia-se por vezes: Ainda agora aqui cheguei / Mais cedo não pude vir / ‘tive embalando os rapazes / que ficaram a dormir”.
Para terminar bastava que alguém dissesse em voz alta: ”olé” e o baile acabava mesmo ali para principiar, dentro de pouco, com outros bailadores. E não tinha fim senão a altas horas da noite.
         Júlio Andrade fez uma recolha que se pode classificar de exaustiva dos “Bailhos, Rodas e Cantorias” que foi editado pela Comissão de Recolha do Folclore do Distrito da Horta, em 1948. Um trabalho de mérito, onde ficaram arquivados os diversos bailes das quatro ilhas que formavam o antigo distrito da Horta. E aí escreve como se formavam as chamarritas, que, no dizer do Autor, eram vinte e cinco.(1)
         Manuel Dionísio, apoiado nos costumes da sua freguesia natal, a Ribeirinha do Pico, inclui as Chamarritas nas Folgas e descreve ainda a Sapateia, o Caracol, a Tirana, a Praia, o Manjericão, a Sapateia de Cadeia. E refere ainda os bailes de roda: Chiro-chiro, o Pezinho, o Bravo, o Samacaio, e o Rema.(2)
         Por outro lado, no excelente trabalho “O Folclore da Ilha do Pico”, o seu Autor, João Homem Machado, além da tradicional Chamarrita, com algumas variações, descreve vinte e dois bailes de roda com as respectivas músicas, por certo o trabalho mais completo publicado nestas ilhas. (3)
         A meados do século passado, as Chamarritas foram passando ao esquecimento, para serem substituídas pelos “Bailes” realizados nos salões das sociedades recreativas. No entanto, parece que se está a fazer reviver a antiga chamarrita pois, ainda há dias, a Filarmónica Liberdade Lajense, para assinalar o 153º aniversário organizou um bom programa comemorativo e, num dos dias, anunciou-se um baile de chamarritas. A assistência foi enorme, vinda das diversas vilas e freguesias da ilha. Um sucesso, segundo me informaram.
         Desde sempre a viola da terra foi o instrumento preferido para as chamarritas. Depois juntou-se o bandolim, a guitarra, o violão e o violino (rabeca).
         Outros bailes antigos – os bailes de roda – já desapareceram, pois não há, presentemente, quem os saiba bailar. E é pena. Tinham coreografia, arte, movimentos atractivos que só os velhos bailadores sabiam “mandar”. E não eram poucos. J. Andrade chama-lhe os “Bailhos Velhos” e cita cerca de dúzia e meia, desde o “Abana Casaca” até ao “Xiro – Xiro.
         Alguns desses bailes, como acima refiro, eram de difícil execução e tanto assim que passaram ao esquecimento. É pena, pois, além de ser uma manifestação simpática da nossa cultura popular, são um testemunho insofismável do nosso passado. Que ninguém é capaz de descobrir a origem.
          Há três ou mais vintenas de anos, andei pelo continente em Cursos de formação profissional. Somente uma maneira de juntar as pessoas pois, neles, nada se aprendia... Numa dessas ocasiões um antigo fornecedor de material para os municípios, quis obsequiar os participantes com um repasto nas suas modernas e amplas instalações e, para abrilhantar o acto, teve a gentileza de apresentar vários grupos folclóricos da Região. Um deles executou um baile que era, praticamente, uma autêntica réplica da nossa Chamarrita, embora com uma ou outra modificação. Um colega, ao lado, pergunta-me como explicava o facto. A resposta foi-lhe assim dada e com ela se conformou: Foi naturalmente daqui e aqui regressou agora.
         Mas, como disse, já tantos anos se passaram...


1) Andrade, Júlio – Bailhos, Rodas e Cantares. Comissão de Recolha e Divulgação do Folclore do Distrito da Horta, 1948(?)
2) Dionísio, Manuel – Costumes Açorianos. 1937
3) Machado, João Homem – O Folclore da Ilha do Pico. Núcleo Cultural da Horta, 1991


Quinta-feira de Amigas, 2017

Ermelindo Ávila

DANÇAS POPULARES

NOTAS DO MEU CANTINHO


         Os picoenses eram um povo isolado, que só ia às cidades na época do verão fazer os seus negócios de frutas e lenhas, pois a ilha pouco mais produzia. Durante o inverno tecia nos teares o seu o principal vestuário e fazia meias de lã.  No entanto, nos serões de inverno, naquelas noites em que o trabalho era “posto de parte, porque ou eram dias de descanso, ou de festas familiares, organizava-se as “folgas”, com a velha viola de cordas de arame e aí bailavam as “chamarritas” e os “bailes de roda”. Mais tarde, apareceram os pianos nas casas solarengas, mas nestas, raramente, havia aquelas distrações. Era o povo que melhor se divertia nos serões ou Folgas que chegaram a nossos dias e que arrastavam bailadores entusiastas dos mais distantes lugares. Improvisavam quadras e cantavam “ao desafio”.
Hoje, porém, recordo outros divertimentos. Trago à liça as Danças Populares que se exibiam, principalmente, nos arraiais.
        Também por cá as houve, não em tempos muito remotos.  Eram diferentes das actuais. Não se limitavam à coreografia dançante, mas havia sempre um argumento a desenvolver. Fosse um namoro que envolvia certo escândalo, fosse uma comédia hilariante. Tudo servia de motivo para se organizar a dança, porque nela se dançava nos intervalos dos diálogos. E trajava-se a rigor. Não era qualquer fantasia que servia para se utilizar numa dança. Ainda hoje se fazem danças na Terceira e São Miguel. Até mesmo no Continente, onde têm fama as marchas de Santo António. Mas limitam-se quase só à dança e usam trajes uniformes, executados a rigor pela Alta Costura.
        Na ilha do Pico, pela Páscoa, saíam algumas danças, duas ou três, quando muito. E tinham os seus personagens tradicionais: o “Velho” que andava pela assistência a angariar os indispensáveis donativos para as despesas, o comandante, os “actores principais” e os “casais” componentes do entremês. Estou a reportar-me ao primeiro quartel do século passado.
        Lembro duas danças que me ficaram na memória: uma “a dança dos picões”, que saiu nas Lajes, pela Páscoa, comandada pelo Manuel Martiniano; a outra dança, bem organizada, com um argumento bem concebido, trajando a rigor, veio da freguesia de São Mateus, creio que pelo Espírito Santo, se a memória não me falha. No grupo só havia elementos do sexo masculino, mas uma parte trajava-se de feminino e caracterizava-se e maquilhava-se como se jovens mulheres fossem, o que não deixou, por vezes, de causar certos equívocos e situações hilariantes.
        Normalmente, o argumento era agradável e a execução perfeita, pelo que o grupo atraía, por onde passava, uma assistência numerosa e interessada.
        A dança de São Mateus percorreu a ilha e em toda a parte, se não erro, foi bastante aplaudida. Uma das danças que, naqueles recuados tempos, teve êxito mais assinalável.
        Mais tarde apareceram, de outras freguesias, algumas danças, mas de não tanto interesse, quer pela exibição quer pelo trajar.
        As danças populares eram autêntico teatro de rua. Exibiam-se em praças públicas. Não cobravam “bilhetes de presença”, mas nem por isso deixavam de recolher donativos suficientes para as despesas de organização, trajes, transportes e estadias nas localidades. O povo delirava, quando tinha notícia da chegada de uma dança, e os arraiais onde se exibiam parece que duplicavam a assistência.
        Como atrás referi, não havia outros divertimentos populares, pois as “folgas” limitavam-se a recintos particulares e, por vezes, de espaços limitados. O teatro de amadores era raro e os recintos onde se exibia, também acanhados, não permitiam grandes assistências. Aqui e ali chegou-se mesmo a fazer teatro ao “ar livre”, sem cobrança de entradas, mas somente com a recolha de donativos, o que se tornou um sistema vulgar.
        Era no tempo de Quaresma que todos estes divertimentos se preparavam e ensaiavam para se apresentarem ao público, quase sempre, do Domingo de Páscoa ao Espírito Santo.
        Em vez das danças, surgiram as “Marchas”;  as de S.to António, em Lisboa, de São João, em Vila Franca do Campo, as Sanjoaninas, em Angra, e outras mais.
No entanto, o que mais se divulgou foi a Televisão. Cada qual utiliza a TV no canal que escolhe, para “assistir” aos jogos de futebol, às telenovelas, ao teatro, a revistas e ao fado (mais raro)...
        Hoje, os serões não são de melhor qualidade. No entanto, são maneiras novas de ocupar os finais do dia. Valha-nos ao menos isso.

Quinta-feira de Comadres, 2017

Ermelindo Ávila