domingo, 12 de novembro de 2017

PÃO POR DEUS

RESPINGOS

É um tema simpático para este início do chamado Ano Litúrgico.
Outrora, todos os fiéis cristãos respeitavam os ciclos litúrgicos estabelecidos pela Igreja, cumprindo as suas normas com respeito e fidelidade. Com o desenvolvimento da Sociedade moderna, tudo se modificou e hoje, nem todos estão dispostos a cumprir essas normas que de mal nada tinham.
Apesar das novas formas de vida, que alguns querem classificar de nova civilização, há lugares e terras (núcleos habitacionais antigos) que mantêm os costumes e os hábitos trazidos dos tempos, algo distantes, de seus avós.
Felizmente que isso acontece nalgumas terras destas ilhas, onde as antigas tradições se conservam com respeito.
Ontem foi dia de Finados. A Igreja Católica recorda, de modo particular, aqueles de seus fiéis que já partiram para o Pai. Fê-lo, como habitualmente, sufragando as almas dos mortos, com actos litúrgicos, por cá bastante concorridos. E não deixou de visitar as campas dos falecidos…
No dia anterior, foi o dia de PÃO POR DEUS. Um velho costume que as crianças ainda trazem até hoje: Pão por Deus! Por amor de Deus! Para as avós, eram elas que se dedicavam a esse trabalhinho, faziam umas pequenas sacolas onde os miúdos recolhiam as dádivas: moedas, doces, géneros (cambadas de milho, punhados de batatas), enfim, tudo o que fosse útil para as crianças e até adultos.
Conheci terras nos Açores em que algumas instituições criaram o sistema de, ao sábado, destinar umas tantas moedas para os pobres mendigos que lhes batiam à porta. Assisti um dia, casualmente, a um acto desses e fiquei chocado com a maneira brusca como o pobre foi recebido.
Por cá ainda se mantém o pão por Deus. Um dia diferente que é lembrado e respeitado.
Pouco ou muito, todos dão e são vários os que pedem: alguns por necessidade, outros para manter uma tradição.
Depois da colheita, porta-a-porta, era a partilha pelos companheiros. Ninguém refilava…
Talvez, outros tempos.
Vila-Capital da Cultura Baleeira
Nov. 2017

E. Ávila

NA ÉPOCA DAS COLHETAS

RESPINGOS


Não havia estradas pelo lado Sul da Ilha do Pico. Os terrenos, os melhores da ilha – diziam - eram explorados normalmente pelo sistema braçal. Quando a colheita era maior utilizavam-se carros “tirados”1 por um ou dois bovinos, no mês nas colheitas dos milhos.
Agradável era o trânsito dos carros de dois bois, atravessando as ruas da vila das Lajes, carregados, geralmente, de maçarocas de milho, das colheitas das Terras de Baixo, Granja, Estreito, ou mesma da Canada de Jorge Dutra, onde se situavam os melhores terrenos dos proprietários da Silveira, Almagreira ou Ribeira do Meio, pois era junto das respectivas habitações ou em terrenos próximos que tinham as “casas de atafona” ou de albegoaria.
E era um gosto o passar dos carros, ao anoitecer, a chilrear, enquanto a autoridade municipal não proibiu esse sistema, pois, diziam, era incómodo principalmente para as pessoas doentes.
Quando em 1943 foi inaugurada a estrada regional, a ligação entre a Vila das Lajes e o centro da freguesia da Piedade passou a ser feita em veículos motorizados, e “ficaram para o lado” os carros de bois. Estes animais, “gado da porta” como era conhecido, praticamente, era utilizado em atafonas e nos trabalhos de lavoura nos prédios “da casa”. Hoje, praticamente desapareceram e quase só existe o “gado de leite”. Trata-se, afinal, de um sistema quase prejudicial, dado que se alterou substancialmente a utilização do gado bovino e o sistema de praticar a antiga agricultura.
Nas casas do lavrador já não há, ao que creio, as noites de desfolhada, como tão bem a descreveu o Escritor Júlio Dinis. Hoje, se vivo fosse, outros assuntos encontraria para as suas saborosas crónicas.
Costumes antigos, vindos de nossos avós, que não se repetem. E tantos eles eram. Relacionavam-se entre si, constituindo “um todo” dos hábitos e costumes das gentes antigas, aquelas que foram nossos Avós.
A quase totalidade dos picoenses tinha cédula marítima para poder ir ao mar, em qualquer barco de pesca: “chata”, lancha, embarcação de pesca costeira, ou mesmo do mar alto, pescar o peixe para o inverno ou, quando profissional, fazer a “soldada” para o sustento da Família, pois esse seu quinhão, como também era conhecido, era a “moeda de troca” dos géneros, tecidos, e o mais necessário com que se mantinha a Família.
O Homem do Pico tanto exercia a profissão de agricultor de braço, como à tarde ia às vejas, ao serão aos sargos, ou, na época própria, ia ao “mar do limpo ”deitar o estremalho para apanhar o chicharro que recolhia ao amanhecer. Nessa altura, feitas as divisões, as mulheres levavam-no numa cesta até ao campo (aldeia vizinha) para trocar por milho, batatas ou outros géneros. Não se passava fome, muito embora houvesse épocas de algumas dificuldades. E quem não se lembra da matança de porco e do dia alegre que era?!...
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Em certos anos, era costume os barcos de pesca deslocarem-se para outras ilhas e fazer ”pescas de fundo”, ou até mesmo nos bancos “Dom João de Castro” e “Princesa Alice”. Preparavam-se com “bordas falsas”- aumento do costado – e na companhia das Lanchas “Lourdes” ou “Hermínia”. E por lá estavam cerca de uma semana, se a pesca era boa.
Quando se deslocavam para os mares de S. Jorge, normalmente, iam para o Norte Pequeno, outros para os Biscoitos da Terceira e outras mais ilhas, onde o peixe abundava. Esse sistema terminou, creio, com a pesca da albacora e a instalação de fábricas de conservas.
Quando a caça à baleia estava no seu auge os baleeiros lajenses eram contratados como mestres ou trancadores pelos armadores e aproveitavam as horas de vazio para a apanha de peixe para seu sustento, da família que o acompanhava, ou para venda...
Hoje tudo não passa de um sonho…
Lajes do Pico - Vila Capital da Cultura da Baleia,

Ermelindo Ávila.

1Puxados, (expressão popular)

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

A VILA QUE TEMOS E QUE PODÍAMOS TER...

Respingos

Trago há tempos em pensamento uma referência singular à organização urbanística da vila, que foi capital da Ilha e ainda hoje, é aquela que a possui em melhores condições, apesar de, ao longo dos anos, diversos atropelos e fortes atrocidades do camartelo ter sofrido…não lhe permitindo usufruir de melhores traçados urbanos.
Nem sempre assim se tem entendido. Nem todos os gestores que têm passado pela administração da Autarquia se hão apercebido dessa realidade. E talvez por isso, atropelam ou destroem um património que muitos desejariam possuir. Razão essa que, apesar de todas as vicissitudes, não impede de estar presente, sempre que possível, neste obscuro cantinho.
Muito embora não esteja possuidor das potencialidades físicas que me permitiriam trazer a esta nota o que julgo ser um dever de todos os cidadãos, aqui estou, no entanto, a cumprir um singelo dever.
Bem ou mal, pouco importa.
Quem alguma vez teve a oportunidade, eu diria felicidade de sobrevoar a avoenga vila picoense, ficou com uma impressão admirável do seu aspecto urbanístico e, igualmente, das diversas muralhas que separam a parte urbana do mar circundante.
Posso estar a fantasiar um pouco, pelo muito que quero a esta terra que foi o meu berço natal. Não Importa. A responsabilidade é somente do escriba.
Até meados do século dezanove a vila não possuía muralhas de defesa. Estava sujeita ao mar e às suas tempestades ciclónicas. Na memória de alguns ainda se mantem o ciclone de 1893, com as suas vítimas e desastres materiais.
A vila ficou em desastroso estado e a partir daí as entidades tiveram de fazer algumas obras de defesa. Uma delas, se não erro, foi uma muralha por cima do lajido, que foi iniciada, mas não continuada, porque os marítimos julgaram que era prejudicial à defesa da Vila e provocaria, em ocasião de temporal, o enchente da Lagoa e a impossibilidade do escoamento das águas. As obras foram suspensas e o início do alicerce lá está há mais de cem anos.
Nos primeiros anos do século passado, o Historiador Lacerda Machado apresentou na Câmara Municipal um projecto para a “modernização da Vila”, com a respectiva memória descritiva. O projecto foi aprovado e, depois de exposto alguns anos na sala das sessões, deixou de ser visto.
Em 1936, um violento ciclone derrubou o muro da Lagoa, entre as casas dos botes do Ribeira do Meio, ou “degráus do José da Emília” e a Rua Nova. Os técnicos e dirigentes da Direcção Distrital de Obras Publicas (Engenheiro Angelo Corbal) receberam instruções imediatas e as obras foram iniciadas. Um ano depois estavam concluídas, incluindo o alteamento, regularização do piso e aumento da plataforma exterior, onde agora está o monumento ao Baleeiro, até à zona do antigo Juncal - aplicação alvitrada pelo General Lacerda Machado - espaço que esteve muitos anos a servir de lixeira e “pasto” da ratazana, com graves prejuízos para a saúde publica, até que foi ocupado, com algum custo, pelo campo de jogos. Transferido este para outro local, o campo, transformado em “Jardim da Baleia”, está em conclusão com os anexos: Recepção do Turismo e outros imóveis. Quando ficará concluido (apesar de inaugurado…) e integrado na CAPITAL DA CULTURA DA BALEIA, ao serviço do público?!
Vila das Lajes, Outº. 2017

E.Ávila

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

ANTIGOS VIVERES

Respingos

No período bucólico, duma simplicidade bíblica, os primeiros povoadores viveram uma página tocante de Júlio Verne, procurando soluções, improvisando, suprindo tudo quanto o isolamento que lhes negava.
À falta de forno, cozeram na lage o pão rudimentar das suas refeições frugais, e mais tarde o bolo, como já descrevi em outra obra, assavam a carne no borralho, o funcho substituiu a hortaliça que ainda não houvera tempo de cultivar, ou de que faltavam sementes, uso que ainda subsiste, posto que raramente, inventaram molhos gratos ao paladar, para suprir a falta de azeite de oliveira, tardia em frutos, costume que perdura, pois só recentemente se começou a tentar a sua cultura.”(1)
O que é certo, porém, é que durante alguns séculos a alimentação dos povos açorianos foi muito frugal. Utilizavam-se os produtos da terra, quando ela os produzia, pois nem adubos existiam para os fertilizar. Os terrenos eram adubados com os ”adubos” retiradas das pocilgas dos animais, de cinzas e águas extraídas das cisternas, quando muito. Continuava-se a colher das paredes e muros dos quintais os funchos e as salsas, as malaguetas, alhos e açaflor, para uso culinário. Os caldos eram temperados com gordura ou banha de animais domésticos (suínos) e algumas vezes acompanhados de carne de frango, de vaca ou de caça.
O sal começou a ser utilizado depois de extraído das salinas domésticas, Recolhida a água do mar em pocilga que ficava até à evaporação, solidificando-se até poder ser utilizado, em estado sólido (pedra), para a conservação dos géneros e tempero dos alimentos.
Em 1702, a produção da Ilha era de mil moios de trigo e 20.000 pipas de vinho. Já em 1826 compareceu “um grande conjunto de povo, desta jurisdição, do lugar da Ribeirinha, Piedade, Calheta, Ribeiras, Vila e São João (praticamente de todo o concelho) a querer impedir que saísse milho para fora das ditas freguesias.
No Relatório de 23 de Dezembro de 1867 informa o Governador Santa Rita que havia no Pico várias espécies de gado bovino, e que havia imensos teares de panos de lã, algum linho, e algodão. Diversos moinhos de vento e de água, atafonas de boi e numerosas de mão.
Quando do início do povoamento, faltou, porém, um ferreiro. Os chefes de família, que não ultrapassavam 45 em toda a ilha, foram obrigados a contribuir para a vinda de um mestre, mediante o pagamento de uma tença.
Decorridos alguns séculos o citado Governador Santa Rita escreve no seu relatório que, em 1871, havia 2 fornos de cal, moinhos de vento e de água, muitas atafonas de boi, numerosas de mão, teares de pano de lã, algum linho e algodão, chapéus de palha e vários outros utensílios.
Presentemente, não se corta lenha para fogões e lareiras, nem se caçam baleias, toninhas, ou golfinhos para extrair óleo de iluminação, como antigamente, quando o petróleo era caro e as candeias abundavam. Há gás e electricidade para os utensílios domésticos (luz, fogões, lareira, etc).
Tudo se modernizou. A Vida do homem tornou-se mais facilitada. Já não se vêem alparcas de coiro de boi, de pele de porco, ou de bandas de pneus estragados. As roupas dos trabalhadores rurais deixaram de ser de lã de ovelha. Os homens do Pico já não se distinguem dos demais açorianos: nem no falar, no trajar, ou no frequentar os café, os restaurantes ou “casas de pasto”, como diziam os Irmãos Bullar, em “Um Inverno nos Açores e Um Verão no Vale das Furnas“- 1838.
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  1. Lacerda Machado – Historia do Concelho das Lajes,-1936 –pag.78
Lajes do Pico, Out. 2017-10-13

E Ávila

sábado, 16 de setembro de 2017

ARRAIAL…

NOTAS DO MEU CANTINHO

Um arraial que é uma vergonha e continua, sem que haja quem lhe dê uma solução razoável. Até quando, não sabemos, mas não deixa de ser um verdadeiro escárnio para as Lajes e até para quantos nos visitam, e já são bastantes, principalmente nesta quadra de estio em que o calor se faz sentir já em demasia.
Há dias deram-me a oportunidade de dar um pequeno passeio pela muralha do Caneiro, que circunda a Lagoa interior do porto das Lajes. Estava esta cheia de embarcações de recreio que são aquelas que agora ali mais abundam, principalmente nesta época de verão.
E são as locais, algumas de outros portos e até estrangeiras que ali estacionam. O espaço está praticamente ocupado e algumas das embarcações estão junto a outras, por falta de espaço de amarração.
Mais fora está a lagoa formada pelo molhe que aqui há anos foi construído para defesa da Vila e que tem dado bons resultados, apesar de ir perdendo o coroamento com as vagas que o atingem, deixando-o todo “dentado”. No entanto, não deixa de ser chocante ver as bandeirolas ali colocadas em pequenos mastros a sinalizar os montículos submersos que estão espalhados naquele espaço, indicativos do perigo que é deles se aproximarem as embarcações que demandam o porto. E já houve arrombamentos…
Pouco custará meia dúzia de velas de dinamite que destruam aqueles obstáculos, permitindo a circulação segura da navegação e acabando com o espectáculo, algo ridículo, do “arraial” que representam. Será necessário abrir subscrição para a aquisição de tão diminuta quantidade de material explosivo?

Sem grandes custos prestava-se, no modesto entendimento do articulista, uma boa ajuda ao serviço portuário. Estarei certo ou o que venho de expor não passa de uma opinião ultrapassada? E por aqui fico. Outros melhor informados, tratarão deste caso. O que não deixa de ser uma realidade é que a navegação de recreio tem dificuldades em demandar o porto pelos vários cabeços submersos que evitam o livre trânsito naquele espaço.

Lajes do Pico

26-Julho-2017

Pequenas notas…

Notas do meu cantinho

            Volto a este meu cantinho … Nem sei se os leitores deram pela sua falta. Pouco importa. No entanto, vou deixando as minhas singelas notas que outros, tempos passados, poderão aproveitar para os seus trabalhos e estudos.
            Estamos, aqui no Pico, nas chamadas “festas de verão”. Tiveram início, no dia 22 de Julho, com as festas de Santa Maria Madalena, padroeira do mais novo concelho picoense. No decorrer dos anos, as Festas da Padroeira têm beneficiado de tratamentos vários. Recordo, v.g., “Os Maiores Dias da Vila da Madalena”, em que se comemorou, naquele concelho, em 1960, o “Duplo Centenário” do culto da excelsa titular da Paróquia, Santa Maria Madalena.
            Mais tarde, a solenidade da Padroeira tomou novo incremento com a declaração oficial do dia 22 de Julho como feriado municipal. A Câmara promoveu grandes festejos externos com uma brilhante iluminação que esteve a cargo de um artista angrense, creio que Fausto Cristóvão. A partir de então as festas externas em honra da Padroeira tomaram esplendor maior.
            Logo a seguir, a paroquial de São Mateus celebra a solenidade do Bom Jesus Milagroso, no dia 6 de Agosto, precedida de novenário solene e com pregação a cargo de oradores consagrados. Até há uns anos passados, eram às dezenas os sermões votivos, o que obrigava, por vezes, o mesmo orador a pronunciar dois e três seguidos, sistema que, creio, desapareceu. Há muitos devotos que, em cumprimentos de votos, se deslocam a pé, todos os dias a S. Mateus para assistirem às novenas solenes e com pregação por oradores convidados das ilhas ou do continente.
            Sobre a festa do Bom Jesus escreveu Dom João Paulino, ao tempo vice-reitor do Seminário Diocesano, no antigo “Peregrino de Lourdes”, de Angra, o seguinte: Em 1882 no mês de Agosto, passava pela freguesia de S. Mateus da ilha do Pico, por ocasião da festa que anualmente ali se celebra no dia 6 de Agosto em honra do Bom Jesus, um sacerdote da vila das Lajes da mesma ilha. Viu e admirou o entusiasmo religioso da imensa multidão de fiéis que de todos os pontos da ilha e de fora dela ali haviam concorrido impelidos pela devoção à imagem do Senhor Ecce Homo que sob aquela invocação se venera na Igreja da freguesia.”
            No dia 15 de Agosto, realizam-se em algumas paróquias picoenses festas litúrgicas em honra de Nossa Senhora. É o caso da paróquia da Silveira que, desde longa data, soleniza de maneira brilhante, a Mãe de Deus.
            As festas religiosas normalmente constavam de Missa da Comunhão Geral, Missa Solene, cantada, de três padres e procissão.
            Presentemente, deixou de haver a Missa da Comunhão Geral, pois em todas as Missas se distribui a Sagrada Comunhão, uma vez que o actual Direito Canónico, promulgado depois do Concílio Vaticano II, estabelece no cânone 919 que o jejum, de comida ou bebida, só deve observar-se por espaço de uma hora antes, excepto água ou remédios.
            No último domingo de Agosto celebra-se na Matriz da Santíssima Trindade das Lajes do Pico a Festa de Nossa Senhora de Lourdes. Vem de 1883, ano em que chegou às Lajes a Imagem da Virgem aparecida na Gruta de Massabielle.
            Num dos seus brilhantes artigos publicados no citado jornal terceirense escreve ainda D. João Paulino;”Festa de tamanho luzimento jamais fora vista dentro dos muros daquele templo desde que ressurgiu dentre os escombros a que o reduzira um pavoroso incêndio aí por 1830.” E “a festa teve lugar não na igreja Matriz, à qual fora ofertada a imagem, mas na igreja do extinto convento de Sã Francisco, por esta, em consequência da sua situação, forma arquitectónica e estado de conservação, poder dar maior realce aos simpáticos festejos.”
            Escreve ainda D. João Paulino, no artigo de 20 de Julho de 1889:
            “A ornamentação do templo dirigida por um hábil armador expressamente chamado da ilha Terceira, - a música executada pela capela da Matriz e por alguns músicos de fora acompanhada a instrumental – a boa execução das cerimónias religiosas, - o entusiasmo piedoso dos fiéis, - a novidade da festa - tudo dava aos actos religiosos uma grandeza e majestade nunca dantes ali presenciada pelos filhos da actual geração.”
            A Imagem foi adquirida nesse ano por vinte e sete paroquianos, da lista fazendo parte uma armação baleeira “de que era gerente Amaro Adrião de Azevedo e Castro”.
Os lajenses, no final do mês de Agosto que se aproxima, vão, uma vez mais, celebrar as grandiosas festas em honra de Nossa Senhora de Lourdes. Ainda é cedo para mais adiantar…
Lajes do Pico, Julho de 2017

Ermelindo Ávila

DE NOVO, O TURISMO

Notas do meu cantinho

Trata-se, afinal, de um assunto que está na “ORDEM DO DIA”. Interessa dele falar porque nessa actividade se encontra, presentemente, a base da economia local, uma vez que outras actividades económicas não existem por cá, nem se descobrem iniciativas para as instalar, que não deixa de ser uma mazela perniciosa para o progresso e desenvolvimento desta terra, que já foi uma das mais progressivas desta ilha açorianas,
O “Posto de Turismo” foi há anos, nem sei há quantos, instalado no antigo forte de Santa Catarina, imóvel declarado oficialmente de “Interesse Público”. No qual se fizeram algumas adaptações, embora as menos aconselháveis. Desapareceram algumas ameias do lado do Mar e conservou-se o forno, construído em 1885 para funcionar como forno da cal, que ali esteve instalado, colocando-se uma cúpula em plástico para desvio das águas das chuvas.
No actual “Posto de Turismo” funciona uma pequena livraria, quase toda de edição municipal ou com títulos patrocinados pela Câmara Municipal, o que não deixa de ser importante, já que não existe estabelecimento congénere no comércio local. 
Com a construção de um novo edifício na praça do Museu dos Baleeiros, é motivo para perguntar: o que vai acontecer ao antigo Castelo? Não será de preservá-lo, embora voltando um pouco à sua traça primitiva, e fornecendo aos visitantes um pequeno historial, que não será difícil de organizar?

         No antigo posto de Santa Catarina, ao norte da Vila das Lajes, foi construído o castelo ou forte, em cumprimento da ordem régia que mandava edificar fortalezas em todas as ilhas, como precaução contra as invasões dos Exércitos de Napoleão. Decorria o ano de 1792. A Revolução Francesa havia acontecido em 1789. Estava iminente a invasão de Portugal pelos exércitos franceses.”[1]

É tempo de dar solução à construção iniciada. Os turistas vão aumentando e tem de haver alguém, convenientemente preparado, que os saiba orientar e conduzir na Vila das Lajes. Não é somente o whale whatching que interessa. A Vila, a mais antiga e de interesse turístico melhor aspecto arquitectónico e com variado tem de ser patente aos visitantes na sua realidade cultural e histórica.

Vila das Lajes, 7 de Agosto de 2017
Ermelindo Ávila



[1] ÁVILA, Ermelindo. FIGURAS & FACTOS (Notas Históricas), 1993

AS GRANDES FESTAS DOS LAJENSES

Notas do meu cantinho

Não são de ontem nem de hoje. Celebram-se poucos anos após o grandioso acontecimento das Aparições da Virgem na Gruta de Massabielle, em França, no dia 11 de Fevereiro de 1858.
As festas iniciaram-se aqui, junto ao porto da vila, quando os baleeiros, regressando de uma arriada, se viram impedidos de atravessar a entrada por ciclónicas vagas do mar alteroso. O povo, que não somente os familiares dos baleeiros, porque nesses momentos de angústia há uma solidariedade entre as gentes do Mar que a todos une em preces fervorosas, clamando alto, invocou a Virgem aparecida alguns anos antes à Vidente (hoje canonizada) Bernardete. Isso nos narra o lajense, ao tempo Vice-Reitor do Seminário, Dr. João Paulino de Azevedo e Castro que viria a ser mais tarde Bispo de Macau.
Decorridos alguns instantes, o tempo melhorou, o mar acalmou e os botes puderam entrar calmamente no porto sem qualquer dado.
Mais do que o autêntico “milagre”, estava instituída a devoção pública a Nossa Senhora e, por assim dizer, inauguradas as festas anuais em honra de Nossa Senhora de Lourdes. Isto que toda a gente sabe, convém aqui repetir, para que os novos, se este arrazoado lerem, se apercebam que a Festa de Lourdes, integrada na Semana dos Baleeiros, não nasceu nos últimos anos, com a chamada Semana dos Baleeiros, mas já conta 134 anos de celebração, dentro do autêntico espírito cristão que a anima, muito embora os festejos externos, uma verdadeira homenagem de filial respeito tributado pelo baleeiros à sua padroeira, venham do início das solenidades promovidas em 1883.
A primeira festa teve lugar na Igreja de S. Francisco, “por esta, em consequência da sua situação, forma arquitectónica e estado de conservação, poder dar maior realce aos simpáticos festejos.” [i]
“Festa de tamanho luzimento jamais fora vista dentro dos muros daquele templo desde que ressurgiu dentre os escombros a que o reduziu um pavoroso incêndio, aí por 1830”.
“A ornamentação do templo dirigida por um hábil armador expressamente chamado da ilha Terceira, - a música executada pela capela da Matriz e por alguns músicos de fora, acompanhada a instrumental (…) – tudo dava aos actos religiosos uma grandeza e magestade nunca dantes ali presenciada pelos filhos da actual geração! “
A festa tem lugar na 4.ª Dominga de Agosto, “dia em que a igreja reza do Imaculado Coração de Maria”.
“Durante o dia da festa e na véspera, as proximidades da igreja acham-se vistosamente embandeiras, e na noite dum destes dias, conforme o tempo permite, tem lugar uma bonita iluminação chinesa que atrai concurso imenso de espectadores.” (…) “O espectáculo que oferece a iluminação – sempre de bonito efeito de qualquer parte que seja observada.”
(A iluminação chinesa ou veneziana, era feita com balões em armações de folha de Flandres forradas de papel transparente de multicores, onde era colocada uma vela de estearina. Hilariante era, por vezes, quando o vento inclinava os balões e o fogo consumia a cobertura.
A partir do surgimento da electricidade desapareceu a iluminação à veneziana e passou-se a fazer artísticas iluminações, sendo para o efeito contratado um artista terceirense, o que agora deixou de acontecer…)
 Com a celebração do centenário, os festejos externos tomaram grande desenvolvimento, estendendo-se por uma semana a que se denominou “Semana dos Baleeiros”. Apesar da actividade baleeira ter desaparecido, a denominação da Semana festiva continua com o mesmo entusiasmo e brilhantismo. Aliás, como vem acontecendo por estas ilhas açorianas. Pena que dos programas tivessem desaparecido as conferências proferidas durante a “Semana” por ilustres literatos e cientistas, alguns deles Professores Universitários, que aqui se deslocavam com muito agrado, tendo sempre a escutá-los uma larga assistência que muito os apreciava. Nunca é tarde para recomeçar, pois os encargos eram diminutos.
Estamos chegados, uma vez mais, às tradicionais festas de Nossa Senhora de Lourdes, as maiores que por estas ilhas se realizam em honra e louvor da Senhora Aparecida em Lourdes.
A procissão pára na Pesqueira (Porto), tem sermão votivo, colocando-se o Orador na proa de um antigo bote baleeiro; depois, a Veneranda Imagem percorre todos os outros botes de velas enfunadas, onde os velhos  baleeiros, aqueles que ainda existem, se postam em gesto de homenagem à sua Padroeira, enquanto estrugem dúzias de foguetes, não tantos como outrora, quando as baleias eram o sustento e o amparo  de muitas famílias picoenses.
As festas continuam. Hoje é a Semana dos Baleeiros. E continuará, embora algo diferente, mas sempre em louvor da Virgem que há 135 anos (1882) aqui foi invocada publicamente, pela primeira vez, em terras açorianas.
Lajes do Pico,13-Agosto-2017
    Ermelindo Ávila




[i] Estas e as restantes citações são de crónicas de Dom João Paulino de Azevedo e Castro publicadas no jornal “Peregrino de Lourdes”, Julho, 1889.

AS FESTAS DO VERÃO

NOTAS DO MEU CANTINHO

            Praticamente terminaram as festas de verão, se bem que, numa ou noutra paróquia, ainda se realizem as festas dos Padroeiros, como são os casos de Piedade e São Mateus. Festas de menor luzimento não deixam de atrair os naturais da freguesia que vivem fora e que, anualmente, regressam ao torrão natal para tomar parte nas celebrações. É um costume ou tradição que vem de longe e que se mantém, agora que as comunicações são mais facilitadas, por terra, mar ou ar.
            É sempre agradável encontrar os nossos conterrâneos de volta à terra, a reviver os cantinhos onde nasceram e foram criados.
Eles partiram um dia para conseguirem melhor viver e um futuro mais próspero para os filhos. Mas não esquecem o lugarzinho que lhes foi berço. Lá longe, não escrevem tanto como antigamente, mas a TV e o telemóvel estão sempre ligados para saberem notícias dos seus e novidades da terra. É, na realidade, uma aproximação mais simpática. E, até acompanham com interesse as novidades da terra, através dos próprios jornais, embora as notícias sociais, e disso se queixam, sejam raras ou quase inexistentes.
            Mesmo assim, os jornais são lidos e os artigos ou notícias de interesse recortados e cuidadosamente guardados, até para deixarem aos filhos…
            Alguns emigrantes ainda aí estão para assistirem às festas das suas freguesias, que, para eles, têm um interesse muito especial. É o que acontece, v. g., na freguesia da Piedade, onde as festas da Padroeira e a de Nossa Senhora das Mercês, esta festejada no fim de Setembro, são lembradas com enternecido amor, até porque alguns desses visitantes há muito que cá não vinham e agora chegam saudosos do seus e da própria terra-mãe.
            São Mateus vai celebrar a 21 de Setembro a festa do Padroeiro. Nesse dia cumpre o voto feito em 1718-1720, quando as erupções vulcânicas atingiram Santa Luzia e, depois, os locais onde deixaram, a testemunhar tamanhos cataclismos - os “Mistérios”. São decorridos trezentos anos!
            O voto é representado pela distribuição de rosquilhas a todos os que ali vivem ou por ali passam no dia de São Mateus. Houve até anos em que a Paróquia contribuía com algumas “contas” de rosquilhas para que ninguém voltasse a casa sem levar um “arrelique”. Afinal, um “império” idêntico aos que se realizam nas diversas freguesias da Ilha, durante o tempo litúrgico do Pentecostes.
É caso para louvar o povo picoense que será ainda hoje, se não erro na afirmativa, aquele onde o pão, nalguns lugares também o vinho, são distribuídos a todos os forasteiros e aos doentes ou impossibilitados de comparecer no arraial.
Vale a pena recordar estes acontecimentos históricos que continuam a dar testemunho da crença e do respeito pelos votos dos antepassados, que se cumprem com escrupuloso cuidado e que são transmitidos de pais a filhos e a netos. E tal é o respeito por tão antiga tradição que, presentemente, algumas festas recentes vão introduzindo prazenteiramente, os tradicionais “impérios”.
Este povo do Pico é excepcional. Não lhes evitem cumprir as honrosas tradições. Ajudem-nos quando as dificuldades surjam para que a memória dos antepassados não caia no esquecimento.
Lajes do Pico, 29 de Agosto de 2017

Ermelindo Ávila

A ESTÁTUA DE D. DINIS

A MINHA NOTA

            Há setenta anos (1940) a Nação Portuguesa celebrou o Duplo Centenário da Independência e Restauração de Portugal (1140-1640). A Ilha do Pico não esqueceu o histórico acontecimento e inaugurou, no antigo porto do Cais do Pico, a estátua do Rei-Lavrador, D. Dinis. Para a cidade da Horta veio a estátua do Infante Dom Henrique, com a diferença de que esta era em mármore e o tempo encarregou-se de a desfazer aos poucos, enquanto a de D. Dinis, sendo de bronze, tem resistido a todas as intempéries.
Era Vice-Presidente da Comissão Nacional dos Centenário o Coronel Henrique Linhares de Lima, natural do Cais do Pico, que havia exercido ou ainda exercia o cargo de Presidente da Câmara Municipal de Lisboa. Tendo aquelas estátuas sido retiradas das praças públicas e devolvidas a armazém, entendeu Linhares de Lima enviá-las para o seu distrito natal, e mais: na Assembleia Nacional, de que era deputado, apresentou um projecto de Lei mudando o nome da ilha do Pico para ilha de Dom Dinis. O projecto foi largamente contestado e mereceu a recusa da Câmara Corporativa de então. Um dos grandes opositores do projecto foi o General Lacerda Machado. “O Dever” arquiva diversos artigos de opinião desaprovando a proposta. No entanto, a estátua do Rei veio para a ilha do Pico e, embora devesse ter ficado nas Lajes, primeira terra povoada, Linhares de Lima, porque era ele que determinava a colocação, levou-a para a sua terra. Tinha, como soe dizer-se, a faca e o queijo na mão…
A inauguração realizou-se a 16 de Agosto de 1940, dia da festa do Padroeiro, São Roque e decorreu, diga-se em boa verdade, com solenidade e esplendor.
Era presidente da Câmara Municipal de São Roque Celestino Freitas e ao acto compareceram os presidentes dos outros dois concelhos da Ilha. Presidiu ao acto inaugural o Governador Civil do Distrito, Capitão Moreira de Carvalho que navegou da Horta para o Cais num vaso de guerra que estacionava no porto daquela cidade. Trouxe consigo numerosa comitiva. Na inauguração, falou, em nome do Município de São Roque, Almério Tavares que desempenhava as funções de chefe da Secretaria do Tribunal Judicial. Na residência de Raimundo Mesquita, em São Roque, foi servido o almoço ao Governador e demais entidades presentes.
Na Matriz de São Roque, realizou-se a solenidade em honra do Padroeiro, sendo orador o ouvidor das Lajes, P. José Vieira Soares. A seguir, realizou-se a Procissão, tendo, em todos os actos, estado presente o Governador e Comitiva.
Decorreram já, como acima referi, setenta anos. A estátua continua no mesmo local onde foi colocada mas, virada para o Canal, quase ninguém dá por ela, uma vez que foi construído novo porto, bastante distante, onde se processa todo o movimento portuário.
A ilha continua a ser do Pico, com a montanha sempre em frente, mais procurada do que nunca pelos visitantes nacionais e estrangeiros. Simples e bela, na sua majestade deslumbrante, é o encanto dos picoenses que a contemplam embevecidos, ao declinar da tarde, quando o sol se põe ou mesmo, com os raios de luz a anunciar o novo dia que vem chegando. Mas isso é para os poetas que sabem aproveitar o encanto e a beleza de uma ilha que, sem ser de bruma, para os naturais parece esquecida e adormecida… 
Lajes do Pico,
Agosto de 2017

Ermelindo Ávila