segunda-feira, 26 de outubro de 2015

LENHAS E COMBUSTÍVEIS

CRÓNICAS DO MEU CANTINHO


Dou-lhe este título como podia dar-lhe outro, talvez mais apropriado. Mas vai o primeiro que saiu do teclado, pois, neste caso, o título pouco importa.
Até meados, ou pouco antes, do século passado, as donas de casa cozinhavam com lenha colhida nos prédios do alto. Era uma trabalheira para a conseguir. Tinha de ser cortada com antecedência de alguns meses e, depois, trazida em feixes à cabeça das mulheres, aos ombros dos homens, nos burros ou cavalos ou em carros de bois, para as residências e nelas preparada (aturada) para os lares.
Aqui nas Lajes as terras do alto, a Leste do burgo, só produziam lenhas, (faias e incensos) como ainda hoje. A lenha, depois de cortada ficava a secar e, quando própria para ser utilizada, era preparada em pequenos feixes, ou molhos, e atada a uma roldana de ferro, e esta a um fio que ligava o alto ao quintal da habitação. Normalmente era ao entardecer, no fim do trabalho, que os operários faziam os pequenos feixes e os enviavam pelo fio para as residências. O deslizar da roldana no fio produzia uma réstia de fogo durante o percurso. Para a miudagem, era um regalo ver o deslizar precipitado dos pequenos molhos. Com a construção da estrada Lajes - Piedade (1943) os fios que tinham forçosamente de atravessar a estrada, foram retirados.
O fogo para as cozeduras era mantido no “lar” e a grelha, ou trempezinha que nele se colocava, suportava os “caldeirões” e tachos onde eram cozinhados os alimentos. Depois apareceram as achas trazidas em carros tirados por um só animal bovino, pelos carreiros da freguesia de S. João, que abatiam a lenha no interior do Mistério onde ela (faias e incensos) ia crescendo. Geralmente, nos chamados dias úteis, o Manuel de Simas e o Inácio traziam à vila os seus carros tirados, cada um por um animal bovino, com achas, normalmente meio milheiro, para fregueses certos. Todos os dias vinham às Lajes com os seus carretos e, na volta, levavam os géneros que lhes haviam sido encomendados. Um serviço útil e simpático.
As achas, para serem utilizadas nos fogões, tinham de ser cortadas ao meio e desse trabalho se encarregava o Jaime (Jaime Teixeira) que outra coisa não fazia. E que fragoso era !...
As achas, passaram a ser utilizadas, principalmente, nos fogões vindos dos Estados Unidos ou importados do continente, até que os ferreiros locais os foram construindo à semelhança daqueles.
Continuaram, porém, e ainda hoje são utilizados, os fornos a lenha onde são cozidos o pão e o bolo e outros manjares e até assada a carne de vaca.
A meados do século surgiram os fogões a gás e, a partir daí, foram desaparecendo os fogões a lenha. As cozinhas passaram a ser providas de fogões a gás ou eléctricos. As salgadeiras, onde se conservava o peixe e a carne, foram substituídas pelas “arcas frigoríficas” e pelos frigoríficos.
Mas, recuando um pouco, e antes que fossem instaladas as redes eléctricas, ou mesmo existisse à venda o petróleo, as casas eram iluminadas com velas de cebo e, depois, de esteriarina e as cozinhas, normalmente, com candeias de azeite de moleiro, toninha, ou albafar. Raro era utilizarem óleo de baleia. Mesmo nas casas de abegoaria, onde nos serões do Outono decorria a desfolhada, a candeia servia para a ofuscada iluminação. Quando era “espevitada”, havia um dito popular: “O que cai da candeia de cima fica na candeia de baixo.”
O cheiro não era nada agradável e a luz muito ténue, mas os candeeiros a petróleo ainda não tinham cá chegado.
É por isso que, ainda na década de vinte, o Administrador do Concelho fez publicar um Edital determinando que o derretimento das carcaças de toninha ou boto só poderia fazer-se a partir das nove horas da noite. Era a hora do recolher. A partir dessa hora não era permitido andar pelas ruas. A Câmara dava sinal, no sino próprio. E até houve um tempo, ainda no século dezanove, que o sino avariou e o presidente da Câmara oficiou ao vigário da Matriz pedindo para ser utilizado o sino da igreja a fim de anunciar a hora de recolher...
Os tempos eram outros. Hoje seria muito diferente.
Quando o petróleo apareceu, a vila passou a ser iluminada com candeeiros a petróleo, até que um pobre louco, conseguindo fugir do recinto onde se achava detido, encontrou no caminho um carro de bois estacionado junto à moradia do proprietário, retirou de lá um fueiro e passeou pela vila partindo alguns dos candeeiros que já então iluminavam as ruas até à hora de recolher. A partir de então, e até que surgisse a electricidade (1932 ?) andou a vila às escuras...
E por hoje, aqui fico.
Lajes do Pico,
13 de Outubro de 2015.

Ermelindo Ávila

domingo, 18 de outubro de 2015

Potes e canecas

Notas do meu cantinho


Estes e outros mais eram utensílios domésticos fabricados da madeira de cedro, (da família Juniperus brevifolia).
        Segundo Ruy Telles Palhinha (in Catálogo das Plantas Vasculares dos Açores) trata-se de uma espécie arbórea Muito procurada por causa da madeira. Na ilha do Pico atingia grande desenvolvimento e era utilizada, inicialmente, na construção de casas e igrejas. Depois passou a ser utilizada somente em vasilhas de uso doméstico: celhas para lavar roupas, para servir de preparativos culinários: bolo ou pão, potes para colher água dos poços, e outros mais. Enquanto não chegou o vasilhame de folha de Flandres.
Eram as canecas de cedro que serviam para receber o leite das ordenhas das vacas e cabras – e havia-as de todas as medidas: meia canada, cana, três, quatro e cinco canadas.
Era um vasilhame sempre muito bem cuidado, para que não transmitisse qualquer impureza ao líquido transportado. E, a propósito, recordo o que tive oportunidade de escrever: as moças a transportar à cabeça e nos ombros as grandes canecas, quase sempre rolhadas com urze, (Calluna vulgaris) transportando leite ordenhado das vacas que haviam descido das pastagens e vinham comer o refúgio que havia sido semeado nas terras de milho, após a colheita. A estrada ainda não estava construída e todo o trânsito passava pela rua principal, ou rua Direita da vila, como vulgarmente era conhecida, caminhavam aos ranchos, pois não havia trânsito que isso impedisse. O leite colhido era utilizado, geralmente, na alimentação familiar e no fabrico do queijo caseiro, uma especialidade – o queijo do Pico - que praticamente desapareceu. Hoje fabrica-se queijo com aquele rótulo, mas está muito distante do genuíno queijo que se fabricava até meados do século passado. Quem dele não tem saudades?!
Utensílios esses fabricados por tanoeiros experimentados e que, normalmente, só se dedicavam a essa actividade. Por aqui conheci quatro: dois na Ribeira do Meio e dois na vila. Esses, praticamente só se dedicavam à preparação das barricas que serviam para a exportação do azeite de baleia. Eram os mestres Tomé Alves e José Alves, que haviam andado na caça da baleia nas barcas americanas e que, ao regressarem, se dedicaram a essa faina. Não me lembro de produzirem artigos domésticos.
Os outros, com oficinas na Ribeira do Meio, o Mestre Tabuão e o Mestre Manuel Brão dedicavam-se a toda a espécie de utensílios e até aos cepos das galochas, em madeira de cedro, muito utilizadas por homens e mulheres.
Era interessante vê-los trabalhar. As oficinas conservavam um aroma especial da madeira de cedro, que caminhava longe.
Mas, além dos tradicionais utensílios, o cedro eram utilizado na construção de prédios urbanos, como disse. Aqui há anos, indo à ilha das Flores, entrei na igreja da freguesia dos Cedros, recentemente construída e detectei logo o aroma especial que ali pairava, pois toda a madeira utilizada era de cedro.
De facto Ruy Telles Palhinha, no livro citado, informa: Pelas dimensões das madeiras de cedro que se encontram em edifícios antigos, reconhece-se que os havia de grande porte; no travejamento de algumas igrejas podem observar-se peças com mais de um metro de largo. Ainda se encontram exemplares com cinco a seis metros de altura e 40 a 60 cm de diâmetro mas são cada vez mais raros.”
E porque é mais rara está proibida, segundo creio, a sua utilização. Mas isso pouco importa pois deixou de haver tanoeiros e os potes, celhas, canecas e cepos de galochas são hoje substituídos por utensílios importados. E é pena. O artesanato podia utilizar essa preciosa madeira, sem prejuízo do seu desaparecimento.


Lajes do Pico,
30-9-2015

Ermelindo Ávila

OS FERREIROS

NOTAS DO MEU CANTINHO


Quando os povoadores cá chegaram, com eles vieram operários dos diversos ofícios. Não aparece porém, na primeira lista de moradores, nenhum que exercesse a profissão de ferreiros. Resolveram, daí, fazer uma postura para trazerem um ferreiro para a ilha. A postura é datada de 23 de Março de mil quinhentos e seis e foi subscrita por Pedro Alvares, juiz ordinário, Diogo Gonçalves Galeão, vereador da Câmara e Pedro Enes, procurador.

Contrataram com o ferreiro Gonçalo Enes, para vir para a ilha e morar nela durante quatro anos, dando-lhe em pagamento dois moios de trigo, fazerem-lhe uma casa igual à casa do concelho e pagarem-lhe o frete dele e do seu fato (família) no valor de quinhentos reis. (1)

Naturalmente que Diogo Gonçalves por cá ficou e ensinou a arte a outros residentes, visto ser uma arte que se espalhou pela ilha e quase, ou todas as freguesias passaram a ter um ou mais artistas.

Recordo haver na vila das Lajes o mestre Manuel Inácio Fagundes cujos filhos Manuel e Francisco continuaram a actividade numa oficina que ainda existe e que, actualmente, está adaptada a garagem de recolha de veículos.

Na Silveira, houve vários ferreiros e serralheiros, como passaram a ser denominados. No ano de 1888, a Silveira tinha seis ferreiros, todos eles da mesma família, o mais velho dos quais, Manuel Pereira Domingos Sénior, era viúvo, tinha 82 anos e vivia só. Nesse ano, na freguesia havia mais três ferreiros.

Os ferreiros, além das ferramentas para uso dos agricultores, ferros de arados, alviões e sachos, foices e foicinhos, “caliveiras” ou arados de ferro semelhantes aos que, anteriormente, vinham dos Estados Unidos da América, trazidos pelos antigos emigrantes retornados, passaram a fazer todos os utensílios da caça à baleia: arpões, lanças, “espeiros” e outros. E construíam também outros mais, especialmente fogões de cozinha em que alguns eram de uma perfeição notável. Nas ferramentas de corte: arpões e lanças da baleação ou foices de diversos tipos utilizadas na lavoura, alguns artistas eram mais experientes pela “têmpera” que davam ao instrumento.

Anteriormente, porém, uma das especialidades dos ferreiros era o fabrico de pregos para a construção civil. Daí, talvez, a necessidade dos homens bons do século XVI trazerem um ferreiro para a ilha, pago pelos cofres públicos.

Conta-se até que certo indivíduo, ao construir a respectiva moradia, contratou um ferreiro para o fabrico dos pregos a utilizar. Contou quantas pancadas do malho, na bigorna, eram necessárias para fazer um prego. Depois, deu-se ao trabalho de contar as pancadas que o ferreiro dava diariamente e, ao fim do dia, contava os pregos para saber se o artista levava alguns consigo. Uma autêntica esperteza saloia. Hoje seria tarefa escusada.

A profissão de ferreiro era uma das mais desejadas, pois não lhes faltava trabalho, e até pode ser considerada uma arte nobre. Alguns dos ferreiros eram artistas de verdade, chegando a fundir instrumentos de cobre, e ainda hoje, alguns – os poucos que existem – fazem trabalhos em alumínio.
Hoje a arte de ferreiro quase desapareceu. Os jovens acham-na um ofício menor e, que eu saiba, apenas na Ribeirinha existem mestres que continuam a trabalhar com dedicação e esmero, se bem que haja desaparecido a indústria baleeira e a agricultura esteja praticamente limitada à pecuária.

O Museu dos Baleeiros incorporou nas suas instalações a oficina de ferreiro de Manuel António Macedo, “Piloto”, tal como o artista a deixou ao falecer. E ela lá se encontra equipada com todas as ferramentas utilizadas por um dos melhores ferreiros no fabrico de ferramentas de corte. Mas falta ainda uma nota indicativa: a identificação do antigo proprietário. No entanto ainda é tempo de remediar o esquecimento. Os visitantes apreciariam.

_________

1) Frei Diogo das Chagas “Espelho Cristalino em Jardim de Várias Flores”,(1646) edição de 1989, pag.
518.

Lajes do Pico,
7-Outubro-2015

Ermelindo Ávila

A CHAMARRITA

A minha nota


A Chamarrita – será chama a Rita?- ainda hoje é um dos bailhos mais característicos de cada ilha com coreografia própria. A chamarrita do Faial difere algo daquela que é dançada na ilha do Pico e até mesmo acontece que, de freguesia a freguesia há sempre diferença. Mas, no conjunto, trata-se de um bailho muito semelhante e até tradicional. Pena é que haja sido esquecido, como esquecidos ficaram os conhecidos “bailhos de roda”, de uma riqueza coreográfica que hoje nem sei se haverá quem seja capaz de os bailar.
A chamarrita era o bailho preferido nas festas familiares e até mesmo nos serões promovidos pelas sociedades recreativas. Os jovens, e até os de mais idade, deslocavam-se de terra em terra, da Silveira às Terras, quando sabiam de haver chamarritas ou bailhos.
E quando esses bailes se promoviam, havia convites aos tocadores de viola e aos cantadores. Cada ilha tinha viola de estilo diferente, cuja construção era executada por hábeis marceneiros -violeiros. E todos eles primavam por fazer instrumentos de boa sonoridade, quer violas, guitarras ou bandolins, pois os outros, normalmente eram importados.
Lembro aqui, alguns artistas além de outros, cujos nomes não registei: mestre Augusto Bemfeito, nas Ribeiras; o mestre Manuel José da Terceira e depois o José Joaquim Verónica e por último o Ramiro Brum Ávila, na Ribeira do Meio. Na Terra do Pão havia um grande artista, o Saca. Na realidade quase todas as freguesias tinham artistas de instrumentos de corda. Instrumentos tradicionais mas com características próprias em cada Ilha, pois se até havia a viola de “dois corações”!...
A extinta Junta Geral do antigo Distrito Autónomo da Horta, para perseverar o folclore das ilhas do Faial, Pico, Flores e Corvo criou uma Comissão de Recolha e Divulgação do Folclore do Distrito da Horta. Foi a essa Comissão que incumbiu a edição do trabalho de recolha dos “Bailhos, Rodas e Cantorias – Subsídios para o registo do folclore das ilhas do Faial, Pico, Flores e Corvo”, da autoria do professor Júlio de Andrade que produziu um excelente trabalho. Segundo o Dr. José da Silva Peixoto, em artigo publicado no extinto “Correio da Horta”, a 30 de Janeiro de 1996, aquando da comemoração do centenário de Júlio Andrade, o livro deve ter sido editado em 1948. Referindo-se à Folga, escreve o Autor a páginas 13: De ilha para ilha, e até mesmo entre freguesias da mesma ilha, os costumes do nosso povo, e neste caso os bailhos e as danças, por vezes são tão diferentes que, embora já notados por outros autores, mas apenas dando a letra ou a música, não resisti à tentação de estudar e pôr em livro o resultado de tal trabalho.
A chamarrita é o bailho mais tradicional e que, na verdade, animava as festas tradicionais. Faziam-se convites aos tocadores e cantadores, para que o brilho da dança não ficasse diminuído. O mandador dava início ao bailho, cantando normalmente: Chega pares, chega pares / chega pares ao terreiro / Chega raparigas novas / e rapazes solteiros. E quando algum cantador vinha atrasado botava logo esta cantiga ou outra semelhante: Ainda agora aqui cheguei / Mais cedo não pude vir / estive embalando os rapazes / que ficaram a dormir. E o baile continuava até que o mandador desse o sinal – olé! – para terminar.
Mas o bom cantador era normalmente um apreciado improvisador.
Consta que a chamarrita do Pico vai ser considerada Património Mundial. Folgo que isso aconteça pois será a maneira mais segura de salvaguardar um dos mais característicos elementos do folclore açoriano.
Pena é que não haja quem faça reviver os antigos bailhos de roda, de uma grande riqueza coreográfica e aos quais era tão agradável assistir.

Lajes do Pico,
2 de Outubro de 2015.

Ermelindo Ávila

sexta-feira, 2 de outubro de 2015

P´RA ESCOLA !

NOTAS DO MEU CANTINHO


Há quantos anos não ouço esta cantilena! E era algo agradável, quando os alunos da escola que nos ficava em frente, numa “gritaria” ensurdecedora, chamavam os colegas para a aula, pois o recreio, passado no pátio em frente, havia terminado. Outros tempos. Quase um século é passado.
Era no tempo em que os professores eram poucos, quase todas as escolas, principalmente as que funcionavam nas localidades fora das sedes de concelho, eram mista ou comuns aos dois sexos. E poucos eram os alunos que as frequentavam.
Nas localidades sem escola havia quase sempre alguém que ensinava as primeiras letras, principalmente em escolas nocturnas aos jovens que desejavam emigrar, normalmente para os Estados Unidos. Lá ninguém entrava que fosse analfabeto. E eram esses “mestres–escola” que, pacientemente, ensinavam o a b c, utilizando a velha cartilha de João de Deus. Cartilha Maternal se intitulava, em duas partes. Na primeira aprendia-se o alfabeto e, em lições diversas, as vogais e as consoantes, separadamente. A Mestra sabia de cor e salteado a Cartilha e obrigava os alunos a ler correctamente as lições. Quando algum falhava recebia o castigo: uma, duas ou três palmatoadas com “palmatória” de osso de baleia - a “Maria dos cinco olhos” lhe chamavam, porque tinha cinco furos.
A segunda parte, para os alunos mais adiantados, era constituída por pequenos contos, ou histórias, que os alunos decoravam, por vezes gostosamente.
No final, uma série de quadras, narra a miséria em que vivia a ceguinha e o filho: Era já noite cerrada / Diz o filho – “Oh minha mãe, / Debaixo daquela arcada / Passava-se a noite bem!” E no final: “Então ceguinha e filhinho, / Vendo a sua esperança vã, / Deitaram-se no caminho/ Até romper a manhã.”
Recordo, respeitosamente e com alguma saudade, a minha Mestra que pacientemente me ensinou a cartilha de João de Deus, e a outros da mesma idade que a minha, e a decorar a tabuada, fazendo as quatro operações da Aritmética: somar e diminuir, multiplicar e dividir.
Quando chegávamos à escola já conhecíamos o alfabeto e algumas coisas mais.
Nas localidades onde não existiam escolas oficiais eram os Mestres-escola, conhecidos por “professores” que ensinavam a ler e escrever, principalmente aos moços que desejavam partir para a América. Conheci os mestres - escolas das Terras e de São João pessoas respeitáveis e estimadas das populações.
E, a propósito de emigração, um facto curioso: Após a grande guerra de 1939-45, a Companhia de Navegação Carregadores Açorianos, navegava para os Estados Unidos, podendo transportar, além de carga diversa, doze passageiros. Próximo do Natal um indivíduo açoriano desejou ir passar a Festa com a família imigrada naquele País. E lá foi num dos Carregadores. Quando chegou a New York o barco foi visitado pelo Agente. O Comandante, algo preocupado, informou-o que levava um passageiro analfabeto, o que não deixou de incomodar também o Agente. Mas este teve uma ideia luminosa: Pediu ao Comandante uma Bíblia e disse ao passageiro: -Quando o Oficial de Imigração chegar a bordo e te mandar ler, abres a Bíblia e rezas muito pausadamente o Pai Nosso. E assim aconteceu. O funcionário americano, ao ouvir o primeiro versículo, exclama:-OK! e mandou desembarcar o velho passageiro.
O próprio agente narrou, passado algum tempo, o episódio em crónica publicada no jornal micaelense “A ILHA”. Lia a saborosa crónica e fixei com gosto o “milagroso” acontecimento.
Hoje é tudo diferente. Até o tempo em que as aulas dos diversos estabelecimentos escolares iniciam a sua actividade. Setembro deixou de ser um dos meses de férias. Actualmente, as aulas principiam quando o verão ainda vai decorrendo e muitos aproveitam as baías para os banhos refrescantes. Nem tempo dão aos filhos dos vinhateiros para provar o mosto das uvas colhidas durante o mês.
Outubro deixou de ser o tradicional mês de abertura das aulas. Bem? Mal? – Pouco importa.



Lajes do Pico,
Setembro de 2015

Ermelindo Ávila

Ermelindo Ávila agradecendo:


Quiseram os meus filhos, netos e bisnetos assinalar, de maneira especial, a passagem do meu aniversário natalício.
A eles se associaram as autoridades regionais e municipais e outras entidades oficiais, com destaque para a “Filarmónica Liberdade Lajense”, além da Imprensa, particularmente “O Dever”, o “Diário dos Açores”, o “Correio dos Açores”, “O Jornal do Pico”, o “Ilha Maior”, o “Tribuna das Ilhas”, a RTP-Açores e tantos outros amigos, alguns - não poucos - com gentis lembranças, e não só, que me é totalmente impossível a todos dizer directamente o quanto agradecido e reconhecido lhes estou.
Lembro respeitosamente os Revmos. Sacerdotes que concelebraram na Eucaristia de Acção de Graças, Revmo. Ouvidor Marco Martinho, e Revmos. P. João Neves, P. Francisco Rodrigues e Frei Luís de Oliveira, que pronunciou a homília.
Sirvo-me, pois, abusivamente embora, deste meio de comunicação, e disso peço me desculpem, para a todos e a cada um em particular deixar aqui o meu reconhecimento, a minha gratidão e o meu respeitoso obrigado por tantas provas de consideração e de amizade que sempre recordarei com respeitosa estima durante os meses ou anos que o Senhor me reservar.
Deus lhes pague tantas e tamanhas gentilezas.
Lajes do Pico, 23 de Setembro de 2015

Ermelindo Ávila                       

segunda-feira, 14 de setembro de 2015

Turismo, próspera indústria da actualidade

A  minha nota

Quem viveu o século vinte assistiu, após a segunda guerra mundial, a uma evolução industrial notável, principalmente no sector turístico, indústria até então quase desconhecida.
Na vila das Lajes existia somente a Pensão da Maria José e era nela que se hospedavam os caixeiros viajantes que anualmente visitavam as diversas ilhas dos Açores, o cocheiro, condutor do carro da mala do correio entre a Madalena e Lajes e, anualmente, a Junta de Recrutamento Militar e pouco mais.
Idênticas situações existiam nas outras vilas picoenses e até nos Açores. Na Madalena mais tarde apareceu a do Estevão e, no Cais do Pico, a Gomes, e depois a do Garcia, em edifício próprio. Nesta os magistrados que eram colocados na comarca, cuja sede era no Cais do Pico, não se hospedavam porque o proprietário era funcionário judicial…
No princípio do século, foi fundada em Ponta Delgada, a sociedade Terra Nostra que assumiu a construção do Hotel das Furnas e a Pensão Terra Nostra na cidade.
Em Angra existia, salvo erro, a Pensão Lisboa, junto ao Cais da Alfandega e a Pensão Lourenço, em frente ao Jardim Público.
Na Horta, havia o Hotel Fayal que após legislação especial passou a denominar-se Pensão Continental – Antigo Faial Hotel.
A meados do século XX foi criada a Comissão Regional de Planeamento constituída por diversos grupos de trabalho. E lá surgiu o grupo de Trabalho de Turismo, do qual faziam parte e “pontificavam” os vogais das Comissões Distritais de Turismo. Uma maneira hábil de fazer vingar os seus projectos. 
Foi construído, na Horta, o Hotel Faial com a ajuda do Governo, embora, para o efeito, se fundasse uma sociedade por quotas ou semelhante. 
Na ilha do Pico o próprio governo veio a construir o Hotel Caravelas, na Vila da Madalena e por aí ficou.
Presentemente, o Pico possui alguns estabelecimentos hoteleiros embora não aqueles que necessita e que há muito vem reclamando.
Temos o hotel “Aldeia da  Fonte”, mas distante do  centro da Vila. 
Nas Lajes existe o Hotel do armador de whale-watching, Serge Viallele, mas praticamente destinado aos visitantes das baleias e o Alojamento Bela Vista, pertencente ao armador Camilo Simões 
Pela Ilha vai surgindo com alguma intensidade o agora denominado Turismo rural que está a ser bastante aproveitado pelo turismo estrangeiro. No verão vale aos jovens, principalmente em grupos, que aqui aparecem, o Parque de Campismo que presta óptimos serviços. Igualmente de assinalar a Pousada da Juventude instalada, acertadamente, no antigo convento franciscano, no Cais do Pico. Mas tudo isso não basta. 
Importa cultivar um turismo de qualidade, chamo-lhe assim, e para isso construir edifícios próprios para hotéis nas localidades centrais. Sem os hotéis centrados nas vilas picoenses o turismo não vingará nem será indústria do futuro.
Lajes do Pico, 8-9-2015
Ermelindo Ávila


CAPELAS E ERMIDAS

NOTA DO MEU CANTINHO



A Ilha do Pico tem diversas capelas dedicadas aos mais diversos santos da devoção dos seus habitantes. E vem de longe essa devoção.
A primeira que ainda existe e foi a Paroquial dedicada a São Pedro, talvez porque esse era o nome do capelão que acompanhou os povoadores, Frei Pedro Alvarez Gigante, ainda se conserva e hoje é considerada imóvel de interesse nacional. (Falta-lhe, porém, a placa indicativa).
Frei Diogo das Chagas, o mais antigo historiador açoriano, embora a sua obra se tivesse conservado quase inédita até 1989, regista no “Espelho Cristalino em Jardim de Várias Flores”, escrito por volta de 1646, indica, que a ilha do Pico possuía já treze freguesias das quais quatro eram curatos: “Santa Luzia, Boa Nova nas Bandeiras, Nossa Senhora da Candelária e São João em que administra um dos dois Curas que havia nas Lagens.”
No Relatório de 1867, o governador civil Santa Rita, refere as ermidas com confrarias: Imaculada Conceição, no Cabo Branco; Santa Ana, no lugar do Pesqueiro; Benditas Almas, no lugar dos Toledos.
Nas Bandeiras, também havia três ermidas: Nossa Senhora do Desterro, no Cais do Mourato; Nossa Senhora dos Milagres, no Cachorro; e S. Caetano, no Cabeço Chão. Na Criação Velha, uma dedicada a N.ª Senhora do Rosário, ”que dá nome ao sítio onde está edificada”.
Na Candelária, havia duas ermidas: uma dedicada a Nª Senhora da Conceição, no porto e outra à Senhora da Boa Nova, no porto do Guindaste.
A paróquia de S. Mateus possuía três ermidas: Nª Senhora da Conceição, junto ao porto; de S. Jerónimo, ao pé do porto, e S. Caetano, no porto da Prainha do Galeão.
Nas Lajes havia a igreja da Misericórdia, já caída, a de S. Pedro e a dos Remédios, já bastante deteriorada, como refere o relatório.
Na Silveira, a de S. Bartolomeu; a de S. Sebastião, na Ribeira do Meio e a de Santa Catarina. Não faz referência à igreja ou ermida de Nª Senhora da Conceição por estar anexa ao convento franciscano, onde já funcionavam as repartições públicas.
Em São João exista, e recentemente foi completamente restaurada, a ermida de Santo António, que serviu de paroquial após as erupções vulcânicas de 1720. Havia uma outra ermida por fora da qual foi construída a actual igreja paroquial, começada em 1829.
Nas Ribeiras havia as ermidas do Bom Jesus, actual igreja paroquial de S.ta Cruz e a de Nossa Senhora do Socorro, em S.ta Bárbara.
Na Calheta não existia qualquer ermida, enquanto na Piedade havia três: a de S. Tomé, na Manhenha, de Santo Antão, na Ribeirinha, hoje igreja paroquial, e a da Conceição da Rocha, no sítio do Calhau.
S. Roque possuía duas ermidas: S. Miguel Arcanjo e Nossa Senhora das Dores. Além da paroquial tinha a igreja de São Pedro de Alcântara, anexa ao extinto convento franciscano. Existia a ermida da Misericórdia em completa ruína e que há muito desapareceu.
Em Santo Amaro não existiam ermidas. A Prainha tinha três ermidas: A da Senhora das Dores, na Areia do Mouro, a da Prainha de Cima e a de S. Pedro no lugar de S. Pedro.
Em Santo António a ermida de Santa Ana, situada no lugar do mesmo nome; a de S. Domingos, no lugar das Almas; a de S. Vicente, situada no Ginjal; a da Madre de Deus, erguida no Areal.
Em Santa Luzia registou a ermida da Senhora da Pureza, no sítio do Lajido e a de São Mateus, no sítio do Cabrito.
Uma parte das ermidas situava-se em lugares de veraneio, tinha património próprio e como protectores certos titulares da antiga nobreza.
Algumas das ermidas desapareceram e outras foram construídas como é o caso da ermida da Almagreira, dedicada à Rainha S.ta Isabel; a do Coração de Maria, edificada no lugar das Terras; a Nª. Senhora de Fátima nas Pontas Negras; a de S. João, na Ribeira Grande; a de S.to António, nos Fetais da Piedade; a de Nª Senhora da Boa Viagem no caminho de Baixo; nas Ribeiras, e uma outra com a mesma invocação no Caminho de Baixo das Ribeiras. A de São João Paulo II, da Engrade, do Cais do Galego, na Piedade, e de S. Pedro, na Baixa, na Ribeirinha.
No sitio da Mirateca foi há anos construída uma Capela dedicada a S. Nuno Alvares Pereira; e, em S. Mateus foi também construída uma ermida, no lugar das Relvas, dedicada a Nª Senhora da Alegria.

Lajes do Pico,
25 de Agosto de 2015

Ermelindo Ávila

segunda-feira, 31 de agosto de 2015

REGATAS BALEEIRAS

NOTAS DO MEU CANTINHO


Há muito que a baleação terminou. A recordá-la ficaram o Museu dos Baleeiros e as artísticas e elegantes canoas que um antigo calafate lajense idealizou e construiu. Bastante jovem tinha a vontade forte de construir uma canoa bem melhor do que aquelas que vinham importando dos Estados Unidos e que mais não eram do que pequenas embarcações que navegavam a bordo dos antigos barcos baleeiros. (Isto já foi escrito e reescrito mas importa recordar, para conhecimento daqueles que teimam ignorá-lo). E recordo que estive a bordo da última baleeira que restava da numerosa frota, em Mistic Port, nos Estados Unidos da América, são decorridos mais de trinta anos.
Com as antigas canoas baleeiras importadas da América do Norte, nunca se fizeram regatas nos mares dos Açores. Tinham de ser reservadas para a caça a baleia, a que eram destinadas. No entanto, com a visita régia aos Açores, em 1904, realizou-se na baía da Horta a primeira de que reza a História. Venceram as canoas das Lajes que já então eram, na quase totalidade, construídas pelo calafate lajense, Francisco José Machado – o Experiente. E tão bem se houveram os baleeiros lajenses nos seus excelentes botes que o Rei Dom Carlos ofereceu um bote baleeiro às armações do porto das Lajes. Note-se que tudo isto aconteceu há mais de um século.
A caça à baleia acabou. As canoas baleeiras foram adquiridas pelo Governo Regional para compensar os sócios das armações dos prejuízos sofridos, e distribuídas pelo portos açorianos. O porto das Lajes ficou deveras prejudicado com a saída de algumas canoas, não digo as melhores porque a diferença entre essas esbeltas embarcações era quase nula.
Agora são utilizadas nas regatas promovidas durante o verão e fazendo parte dos programas das principais festas. E por lá andam as canoas lajenses que, no decorrer da baleação, enquanto ela foi praticada, fizeram história.
Trazem os nomes primitivos com que foram registadas nos Serviços Marítimos e baptizadas, pois era normal qualquer canoa, após a construção e antes de entrar em actividade, ser benzida ou, como se dizia, baptizada pelo pároco que tinha jurisdição eclesiástica no porto de baleação. E até os nomes ou denominações têm uma origem particular. Normalmente, as canoas tomavam o nome de uma criança, filha ou parente do gerente da armação proprietária, ou de algum santo da devoção de qualquer armador. A canoa que está exposta no Museu dos Baleeiros, porque foi construída para a armação de Joaquim José Machado, Lda. quando a jovem Santa de Lisieux passou a ser uma das de maior devoção dos lajenses. E ainda existem a “Maria Armanda”, a “Celina, a ”Ester” e outras mais.
Em 1897, estavam registadas nos Serviços Marítimos dezasseis canoas pertencentes ao porto das Lajes do Pico. Era a “Aurora”, a “Amélia”, mas também o “Santo Cristo”, o “Espírito Santo” ou a “Águia” e o “Capricho”... A Ilha do Pico possuía naquela ano, além das Lajes, quatro canoas em São Roque, quatro nas Ribeiras, e 3 na Calheta de Nesquim. A fugir um pouco à tradição, chamavam-se “Pátria”, “Democrata” e “Calhetense”. E eram todas construídas seguindo o modelo criado pelo Mestre Francisco José o “Experiente”. Algumas canoas foram desaparecendo com o “envelhecimento”, outras vendidas para portos de outras ilhas e algumas ficaram.
Hoje as canoas baleeiras, de estilo único, elegante, “airosas” como dizem, umas melhores para andar de vela, outras a remos, andam por aí, como já referi, a alegrar as festas em cujos programas se inclui uma regata. Seja na Semana do Mar, seja até na Festa do Bom Jesus.
As canoas lajenses, ou picoenses, criaram fama e ficaram na história marítima Foram até aos Estados Unidos onde, aliás, nasceu a baleação, para ficarem no espólio dos Museus Baleeiros daquele país. E é ainda um calafate picoense que as constrói cá, ou vai construi-las a New Bedford, como é o caso do Mestre João Tavares que agora se dedica à construção dessa invejável rainha dos mares.
É acontecimento que a História regista: a emigração dos quarenta casais de picoenses que, após a crise sísmica de 1718 e 1720, emigraram para Santa Catarina, no Brasil. Eles por lá ficaram e os seus descendentes, que hoje ocupam as mais distintas posições culturais e sociais, têm muito orgulho das suas raízes e mantém respeitosamente a tradição dos hábitos, das festas tradicionais, e dos costumes dos seus antepassados. Lá celebram com todo o esplendor as Festas do Espírito Santo e outras mais e, nos portos, conservam os barcos e batéis no estilo dos botes baleeiros introduzidos por seus avoengos. Até nas pinturas dos cascos e das cintas...
Será maldosa e cretina ideia querer agora, que a faina baleeira terminou, chamar a outros lugares a autoria da criação de um tipo de canoa, que não passou de uma iniciativa falhada. A canoa baleeira criada e construída nas Lajes do Pico por Francisco José Machado, foi e é única e a mais bela embarcação do mundo, repito, uma vez mais!

Vila Baleeira dos Açores.
Agosto de 2015

Ermelindo Ávila

O PICO EM FESTA

A MINHA NOTA


A ilha do Pico está em festa. Uma festa contínua que se iniciou na Madalena, passa por São Mateus, “salta” a São Roque e termina na Lajes. Sem referirmos as que se realizam no mês de Setembro em diversas freguesias, a começar pela de Nossa Senhora da Piedade.
Em anos passados a festa principal da Ilha era a do Bom Jesus, em São Mateus. É isso que nos diz o Bispo Dom João Paulino, numa série de artigos publicados no “Peregrino de Lourdes”, de Angra, em 1889. E começa o primeiro, referindo-se à origem da Festa de Lourdes:
Em 1881 no mês de Agosto passava pela freguesia de S. Mateus da ilha do Pico, por ocasião da festa que anualmente ali se celebra no dia 6 em honra do Bom Jesus um sacerdote da vila das Lajes da mesma ilha. Viu e admirou o entusiasmo religioso da imensa multidão de fiéis que de todos os pontos da ilha e de fora dela ali haviam concorrido impelidos pela devoção à imagem do Senhor Ecce Homo que sob aquela invocação se venera na igreja da freguesia. E, depois, acrescenta: Há trinta anos ainda não havia ali a imagem do Senhor que dela é objecto.
E é o mesmo articulista que escreve:
Numa das primeiras entrevistas que teve com o seu inolvidável amigo o Padre António Ribeiro Homem da Costa, ouvidor das Lajes e vigário da matriz daquela vila, propôs-lhe o seu pensamento, (...) o Padre Ribeiro, longe de oferecer a menor hesitação imediatamente acolheu o pensamento do seu amigo apenas este lho comunicou. – O estabelecimento do culto de Nossa Senhora de Lourdes na vila das Lajes era da máxima oportunidade. E realmente foi o aconteceu. As primeiras festas realizaram-se em Setembro de 1883, pela chegada tardia da Imagem. (...) Festa de tamanho luzimento jamais fora vista dentro dos muros daquele templo.
Desde 1884, porém, a festa tem lugar no último domingo de Agosto. E já são decorridos cento e trinta e um anos.
A Madalena celebra (já celebrou no ano corrente) a sua festa principal no dia 22 de Julho, dia liturgicamente designado para a comemoração da Padroeira, Santa Maria Madalena. A festa religiosa sempre se celebrou com grande esplendor litúrgico. Os festejos externos são de realização mais recente. Por volta de 1965 a festa foi notoriamente solene e bastante concorrida. O Município havia conseguido que o feriado municipal se celebrasse no dia da Padroeira. A vila foi engalanada a preceito e uma feérica iluminação eléctrica cobriu a parte central do burgo. Para isso veio de Angra o técnico electricista Fausto. E assim tem continuado, felizmente.
São Roque, porque houve mudança inadvertida e prejudicial da sede do Município, passando de S. Roque para o antigo convento franciscano, extinto por decreto de D. Pedro em 1823, deixou de interessar-se um pouco pela festa do Padroeiro. E tanto assim que, actualmente, os festejos principais são aqueles que se realizam no Cais do Pico e se designam por “CaisAgosto”.
Uma festa assinalável e que decorreu com brilho foi a que se realizou em 16 de Agosto de 1940, integrada nas comemorações do Duplo Centenário da Independência e Restauração de Portugal. Na ocasião, com a presença do Governador do Distrito e outras autoridades distritais, foi inaugurada nas imediações do porto do Cais do Pico a estátua do Rei Dom Dinis, que lá se encontra. Depois seguiu-se a solenidade religiosa na Matriz de São Roque, na qual foi orador o Ouvidor das Lajes, P. José Vieira Soares. Uma festa realmente brilhante e bastante concorrida.
Hoje São Roque continua a celebrar a festa do Padroeiro na sua igreja Matriz, a mais antiga da ilha e que ainda conserva a Capela mor oferecida, aquando da construção do templo, pelo Rei Dom João V. Uma relíquia que muito valoriza aquele templo e que merece ser acautelada com todo o carinho.
E, a propósito das festas de S. Roque, escreveu o saudoso P. José Idalmiro (Património Religioso – Concelho de S. Roque do Pico, pág.3): Em tempos não muito remotos assumiu a festa do Padroeiro que também o é do Concelho, esplendor assinalável. – Balões à veneziana emolduravam espectáculo atraente a iluminar o adro e a rua adjacente. Nesta, o célebre fogo de artifício que Tomé Mamede armava na sua oficina do Cais, era forte motivo de atracão dado o ineditismo do facto.”
E as Festas continuam. São indispensáveis para, na parte religiosa, afervorar a fé dos crentes, e na parte externa, pelo convívio ameno que proporciona a quantos nela tomam parte.
Não é possível, neste simples arrazoado, mais dizer.

Lajes do Pico,
24 de Julho de 2015

Ermelindo Ávila