terça-feira, 2 de abril de 2013

PESCADOS E LOTA


NOTAS DO MEU CANTINHO


Os lajenses vivem uma grave crise de alimentação com a falta de peixe. Outrora, abundava no “limpo” o chicharro e, em certas “marcas”, as cavalas e os bonitos. Outras espécie apanhavam-se todo o ano, com mais ou menos abundância, pois havia certos pescadores que só a elas se dedicavam: o Mestre Bento, o Mestre João Luís, os Garcias, o Luís Sabina, o Henrique Ávila, o Manuel Caiador, o João Maurício, o João Brão, o Manuel da Silva... o Manuel Machadinho e tantos outros, que os havia, mestres de verdade, e que à pesca iam quando não aparecia baleia, pois esta caça estava em primeiro lugar. Pescava-se a garoupa, a veja, o sargo, e outras espécies mais. Durante a noite, iam, geralmente à pesca de fundo, principalmente as abróteas e os gorazes. Hoje tudo é diferente.
Se ainda há barcos de pesca, e não são poucos os que estão amarrados no porto interior das Lajes, e bons marítimos que sabem da sua profissão como os melhores, o pescado quase desapareceu porque uma instituição denominada Lota se fixou na Vila da Madalena, onde todo o pescado deve ser apresentado. Resultado: só cá aparece aquele restolho que não tem qualidade para ser exportado para o continente.
Recordar as pescas antigas do bonito, da cavala e do chicharro (no continente chamam-lhe carapau), é trazer à memória de muitos uma época de abundância em que o peixe aparecia por aí, ora fresco, ora o salgado ou seco. E seco porque as grandes quantidades de chicharro, apanhado durante a noite, eram preparadas para secar ao sol e, durante os meses de inverno, vendidas nas freguesias rurais ou trocadas por milho e outros produto agrícolas, quer aqui no Sul do Pico quer na ilha do Faial para onde os pescadores iam transaccioná-lo por milho e outros produtos agrícolas.
O peixe constituía a base principal da alimentação das populações destas ilhas. Hoje é negócio que não se faz. O “Limpo” está limpo. Os cardumes de chicharro desapareceram dali. Há quem diga que a baleia ou o cachalote dele se alimentam e de outras espécies; de tudo o que lhes chega à grande “bocarra” e onde são absorvidos às toneladas. Se esta não for a explicação, para onde caminhou o peixe que tanto abundava nestas costas? Não será motivo de estudo para os cientistas interessados, que muitos há?
Presentemente passamos a viver, quase só, de congelados, com a saúde por eles um tanto agravada.
Ainda há quem se lembre do caldo de peixe cozinhado com pescado fresco, acabado de chegar do mar e que era uma verdadeira delícia.
Até os marinheiros dos antigos iates – os inesquecíveis “barcos do Pico” - o sabiam cozinhar e, quando conseguiam adquirir bons peixes nos portos de São Jorge, a caminho da Terceira, faziam uma jantarada excelente para si e para alguns passageiros convidados, pois nem todos podiam suportar o cheiro e as baforadas do caldo a ferver em grandes tachos. Esse tempo passou, deixou saudades, mas não vale recordá-lo....
Hoje, poucos dele se lembram. Todavia há quem recorde ainda o ”caldo de peixe à moda do Pico.”
O que venho de recordar não é assunto novo nestes crónicas. Há meses (17-10-2011) falei dele, neste mesmo “Cantinho”. Que eu saiba, ninguém lhe “ligou”. E continuamos a ter um espaço para a venda de peixe da Lota (congelado?), instalado num antigo contentor quando, antes das obras do porto, tínhamos uma casa - pesqueira, construída pela Câmara Municipal, que foi demolida por motivo das obras e não foi substituída.
Está-se a fazer obras na zona do antigo campo de jogos, que vão passar pela Lagoa, mas nada se vê que seja para dar um melhor arranjo à venda de peixe ao público. O pescado chega do mar e desaparece. Um carro da Lota leva-o para a Madalena a trinta e cinco quilómetros de distância, para voltar, depois de ali arrematado pelos próprios pescadores, nem sei quando, para o contentor que serve de Peixaria local, embrulhado em gelo que lhe dá o aspecto de fresco... É o que nos fornecem. Assim acontece em toda a ilha. Não se compreende que, uma ilha tão longa e com habitações dispersas, só haja de consumir o peixe concentrado numa localidade para, depois, voltar aos portos de origem.
E as baleias continuam a aproximar-se da costa, fazendo desaparecer o chicharro, a cavala outras espécies mais...Não será? Estarei enganado?
Continua a proibição da apanha de lapas. Os polvos desapareceram. As redes e os tresmalhos que eram deitados, principalmente no Inverno, nas lagoas da Maré e do Caneiro, e que faziam boas colheitas, estão proibidos, bem como as tarrafas.
Quase tudo se proíbe e assim vão sendo prejudicados os nossos direitos de cidadãos livres...
É tempo de se rever a situação. O pescado do porto das Lajes deve ficar nas Lajes. A reconstrução do porto permite, nas imediações, a reconstrução da antiga Pesqueira. Admito que o pescado excedente do consumo local seja adquirido pela Lota que lhe dará o destino que tiver por conveniente. Tal como se processa o negócio do pescado é intolerável, por lesivo dos interesses das gentes desta banda Sul, onde, afinal, existem os mais importantes portos de pesca: S. João, Lajes, Santa Cruz, Calheta, Manhenha e Calhau. Quem o ignora?

Lajes do Pico,
25-01-2013
Ermelindo Ávila

AS FESTAS TRADICIONAIS


A MINHA NOTA


Mesmo que ocorressem na época invernosa, as festas religiosas tinham sempre quem a elas assistisse, idas das freguesias vizinhas.
Outrora, talvez pelo prestígio e força política de que gozava o respectivo pároco, a festa do orago, Santa Bárbara era um verdadeiro “dia santo” para os lajenses que acorriam àquela paróquia em grande número. E, tal como às outras festas, não havia transportes. Caminhava-se de madrugada para chegar a tempo da Missa Solene.
Para os lados da Ponta – e esta denominação não é nada desprimorosa, pois desde o começo a freguesia da Piedade sempre foi designada pela freguesia da Ponta (ou Ponta da Ilha) - o mesmo se verificava, chegando a nossos dias, pois a estrada Lajes-Piedade e, depois, Piedade-Prainha, só chegou em 1943, precisamente há setenta anos.
Além da Festa de Nossa Senhora da Piedade, - realizava-se, como actualmente, no fim do verão, e não faltavam pessoas idas de toda a ilha e até mesmo da Terceira, onde sempre existiu uma comunidade numerosa oriunda da Piedade, - havia no inverno – Janeiro – as festas dos oragos: Santo Amaro, Santo Antão e São Sebastião. E daí o adágio popular: Se fores a Santo Amaro, vem por Santo Antão e não te esqueças de São Sebastião. E os forasteiros não faltavam. E não havia filarmónicas para abrilhantar os arraiais. Os encontros, o convívio, as visitas aos amigos e conhecidos constituíam o complemento quase principal das festividades.
Normalmente, as viagens era a pé e aos ranchos. Mesmo que fosse distante a solenidade.
A festa de São Mateus, é muito antiga. Anterior à do Bom Jesus. Naturalmente, porque tinha um cunho especial: distribuíam-se vésperas em cumprimento do voto feito por ocasião das crises vulcânicas de 1718 e 1720, não faltavam forasteiros que, como disse, em ranchos, partiam de casa com dias de antecedência, percorrendo assim a ilha. Caminhava-se, habutualmente, pelo Norte para regressar a casa pelo Sul, ou vice-versa. Para o transporte de farnéis e roupas um dos forasteiros levava o seu carro de bois, que também servia para alojar algum que “acajoava” (adoecia) pelo longo caminhar.
Sem ofensa para ninguém, de lugares a lugares, parava o rancho o tocador de viola, que sempre os havia, dava início à “chama-rita”. E lá surgia a primeira cantiga: Romeiros de São Mateus / Descansai, tomar alento / Que a Virgem Nossa Senhora / Nos vai dar bom tempo.
E outras se seguiam conforme o estro inventivo do cantador ou cantadores.
Após a festa, o regresso a casa fazia-se com o mesmo entusiasmo, muito embora alguns gozassem com aqueles que aparentavam cansaço: Ó José, donde vens? O outro respondia muito pausadamente; Da... fes...ta...
Bons e saudosos tempos para aqueles que deles ainda se recordam. Poucos, porém...


Vila das Lajes do Pico,
Dia de Santo Antão, de 2013-01-15
Ermelindo Ávila

AS DANÇAS...


A MINHA NOTA


Passou Carnaval e está-se já a meio da Quaresma. Outrora era um tempo especial para os católicos, ou seja para a quase totalidade dos picoenses. Hoje é diferente, porque um indiferentismo próprio da época que se atravessa, domina a quase totalidade das pessoas. Isso está bem patente no cumprimento dos deveres dos cristãos.
Mas eu não venho “pregar” aos meus possíveis leitores, se bem que não ficasse mal. Os nossos irmãos separados (conhecidos por protestantes) não têm nenhuma relutância em aproveitar todas as ocasiões que se lhes oferecem, para espalhar a sua “doutrina”. Mas deixemos o caso para outros e, naturalmente, para outra ocasião. Hoje venho apenas recordar tradições que se perderam com os novos sistemas de vida e descoberta de meios de comunicação social: rádio, televisão, internet...
Até meados do século XX era tradição respeitarem-se os Domingos de Quaresma, praticando certos actos religiosos, como seja a Via-Sacra. No entanto, em certos centros urbanos, a meio da Quaresma, por vezes acontecia fazer-se um baile, o “Mi-Caréme”. Que me lembre, houve um aqui nas Lajes, promovido por menina da Horta, que cá estava de passagem em casas de amigas, mas com as janelas da rua tapadas...
Todavia, não deixava de se preparar a Páscoa, normalmente “celebrada” com “danças” que saíam à rua e percorriam as diversas localidades da Ilha. Havia a dança dos Pedreiros, dos Cardaços, e outras mais, sempre presenciadas com gosto e aplauso, por numerosa assistência. E era uma Quaresma inteira que se levava nos ensaios.
Nestas danças não entrava o elemento feminino. Quando necessário, alguns homens trajavam de mulher, passando algumas vezes pelo sexo contrário... E acontecia o equívoco provocar cenas hilariantes... O elemento “feminino” trajava a rigor o que mais contribuía para a confusão...
As danças eram acompanhadas, geralmente, dos familiares dos personagens intervenientes. E não faltavam os “velhos” ou as “velhas” que faziam a recolha dos donativos.
As danças que por aqui apareciam eram, geralmente, vindas de São Mateus ou da Prainha do Norte. Os “enredos” eram bem arquitectados e executados com certa arte, o que mais atraía a assistência. Normalmente, o tema era inspirado dum drama ou comédia coniforme melhor se ajeitava aos “actores”.
Que me lembre, nesta vila apenas se fez uma dança, rebuscada de uma outra muito antiga e conhecida pela “dança dos picões”. Já nem me lembro do que se tratava.
No tempo não existiam os bailes nas sociedades, como depois aconteceu. Bailava-se nas casas que tinham salas mais amplas e apenas lá iam os convidados, restos de uma aristocracia que desapareceu.
Nas zonas rurais, aqui e ali, faziam-se as chamadas “folgas”, onde todos os conhecidos e amigos podiam bailar a chama-rita, os bailes de rodas, por exemplo a sapateia, e outros antigos e que já hoje ninguém conhece.
Vila das Lajes do Pico.
21 de Fev. De 2013.
Ermelindo Ávila

domingo, 31 de março de 2013

F e s t a s P a s c a i s




Notas do meu cantinho


Estamos na Páscoa. A Quaresma passou, assinalada com alguns actos litúrgicos, celebrados pelos católicos, como preparação para a celebração do grandioso acontecimento: a Ressurreição de Cristo, depois de sofrer o martírio do Calvário – Sua Paixão e Morte. Ele, de facto, disse que havia de ressuscitar ao terceiro dia.
          É esse acontecimento histórico que a Igreja celebra todos os anos, com mais ou menos esplendor litúrgico, consoante as disponibilidades eclesiásticas.
          As Domingas que antecedem a Páscoa da Ressurreição eram tempos de luto e penitência. Os párocos começavam por organizar, anualmente, o chamado “roteiro paroquial”, ou seja o registo de todas as famílias, com a descrição do estado, profissão e idade de cada membro, anotando se era crismado e se cumprira, no ano, os preceitos de confissão e comunhão. O roteiro ou “Rol dos confessados no ano de 1886”, diz-nos que, nesse ano, a freguesia da Santíssima Trindade das Lajes do Pico – do Soldão às Terras, pois ainda não havia sido criada a paróquia de S. Bartolomeu – tinha 1142 indivíduos do sexo masculino e 159l do sexo feminino, 251 menores de sete anos do sexo masculino e 245 do sexo feminino. A população total era de 3.229 indivíduos. Nesse ano, como aliás se verifica, geralmente, nos
demais, nenhum paroquiano deixou de cumprir os preceitos quaresmais (confissão e comunhão), o que não deixa de ser assombroso.
          Para facilidade do serviço de confissões, a paróquia era dividida em “quartéis” diários, reunindo um grupo de famílias, segundo o número dos seus membros. Esse era um dia considerado “dia santo” na família. Só se trabalhava o indispensável.
As semanas de Quaresma eram verdadeiros tempos de recolhimento e penitência. Os adultos trajavam, geralmente, de escuro. As crianças não brincavam com certas modalidades de jogos, principalmente o pião, que só
era usado depois do sino da Igreja, em repique festivo, anunciar a Aleluia Pascal.
          Durante a Quaresma assistia-se com maior assiduidade aos actos religiosos e, aos domingos à tarde, à Via-Sacra solenizada com cânticos apropriados.
Na quinta-feira e sexta-feira realizavam-se, à noite, as Matinas, com grande solenidade. Eram executadas partituras clássicas com os músicos da
capela local auxiliados pelos melhores cantores da Ilha. A concorrência era sempre notável em todas as celebrações.
          A procissão do Senhor Morto da Sexta-feira fazia-se pelas ruas da vila, acompanhada pela Filarmónica local que executava algumas marchas fúnebres. Nos intervalos, uma menina seguida por três companheiras, cantava a “Verónica”. Depois o coro da Matriz entoava o “Miserere”. A Procissão da Ressurreição, que tinha lugar logo ao amanhecer, antes da Missa solene, igualmente, percorria as ruas do burgo enfeitadas com artísticos tapetes de flores e verduras.
 No sábado, só após o anúncio da Ressurreição, era a ocasião dos adolescentes e jovens experimentarem os seus novos piões, numa luta renhida que atraía a curiosidade dos mais adiantados em idade. Costumes que igualmente deixaram de existir.
          Lembrar a festa da Páscoa é trazer à memória dos mais idosos uma época singular, vivida com piedade e respeito, sempre no propósito de recordar com sentimento e fé a Morte do Senhor Jesus que ao mundo veio para redimir a Humanidade da desobediência de nossos primeiros Pais – Adão e Eva. Vem nos livros históricos - A Bíblia - e ainda hoje ninguém se atreveu a duvidar da sua autenticidade.
Mas algo foi mudado pelas normas litúrgicas vindas do Concílio Vaticano II.      Facilitou-se a vida mas isso não evitou que a prática religiosa viesse a cair quase no desconhecimento e ignorância da generalidade das pessoas.
Boa e Santa Páscoa!

Lajes do Pico, 11 de Março de 2013
 Ermelindo Ávila

Ressuscitou, não está aqui!



 -A MINHA NOTA-


Os quatro Evangelistas, ou sejam: Marcos, Mateus, Lucas e João, aqueles que escreveram e nos deixaram a vida, morte e ressurreição de Jesus Cristo, são unânimes em descrever a maneira como Ele foi flagelado, crucificado e morreu no meio de dois ladrões, que, com Ele, haviam também sido condenados ao suplício da cruz. Os dois autênticos criminosos. Ele, o Filho de Deus, condenado sem culpa. Trata-se de um acontecimento histórico que ninguém, por mais erudito que seja, é capaz de negar,
          Mas ELE ressuscitou dos mortos, como havia dito.
          No primeiro dia da semana Maria de Magdala foi ao sepulcro logo de manhã, ainda escuro, e viu a pedra retirada do sepulcro. Correu, pois, e foi ter com Simão Pedro e como outro discípulo, aquele que Jesus amava (João) e disse-lhes: ”Levaram o senhor do sepulcro e não sabemos onde O puseram. “ Isto escreve o evangelista João, 20, 1-3.
          No seu Evangelho, São Lucas 24,1-6,refere: “No primeiro dia da semana, ao romper do dia, foram ao sepulcro, levando os perfumes que haviam preparado. Encontraram a pedra do túmulo removida e, entrando, não acharam o corpo do Senhor Jesus. Estando elas perplexas com o caso, apareceram-lhe dois homens em trajes resplandecentes. Como estivessem amedrontadas e voltassem o rosto para o chão, eles disseram-lhes: ”Porque buscais entre os mortos Aquele que vive? “Não está aqui; ressuscitou!
O mesmo afirmam S. Marcos e S. Mateus: Surrexit, non est hic.
          Madalena ficou sozinha à porta da caverna tumular. Roubaram o seu Senhor e ela, inconsolável, tinha a seu lado os frascos de alabastro e outros perfumes com os quais ia embalsamar o Senhor. Mas Ele não estava. Ressuscitara como havia predito. É então que lhe aparece um Homem  vestido de branco que lhe pergunta: Mulher porque choras? - Roubaram Aquele que há três dias havia sido aqui depositado. Foi levado e não sei onde o puseram. E foi então que o Senhor se revelou, chamando: Maria! Ela reconheceu a voz e respondeu: Mestre! E Ele volta a falar: Não me detenhas porque ainda não subi para o Pai. Ela não espera um momento. Alvoroçada, parte e vai anunciar a boa nova aos onze que continuavam refugiados no Cenáculo. Isto nos narra Plínio Salgado na sua monumental ”Vida de Jesus”.
          Mas Guedes de Amorim, autor que principiou como materialista marxista e evoluiu para um espiritualismo franciscano, na sua notável obra “Jesus passou por aqui”, afirma: “Temos só que defender a Ressurreição perante quantos a negam!”.
          Depois de uma Quaresma silenciosa e triste, surge radiante a Páscoa da Ressurreição. Os cristãos – e não só ... - celebram os dois tempos, ora em recolhimento, ora dando expansão às alegrias pastais, cantando com entusiasmo o Aleluia solene. É a alegria perene da Ressurreição do Senhor. E vêm os cumprimentos, melhoram-se as refeições, e aparecem os folares e as amêndoas. Uma alegria que atinge grados e miúdos.
          O Senhor RESSUSCITOU! Aleluia!”
                   
Páscoa de 2013
Ermelindo Ávila       

quarta-feira, 6 de março de 2013

No cabo do mundo


NOTAS DO MEU CANTINHO

Para estas bandas do Sul da Ilha, quando a estrada andava ainda nos gabinetes de desenho do Ministério da Obras Públicas, sem que se vislumbrasse quando a ilha teria uma estrada que ligasse todas as povoações, era vulgar ouvir-se: estamos no cabo do mundo. E assim era.
Quem desejasse deslocar-se da Piedade às Lajes tinha de sair de casa pela madrugada e calcorrear esses caminhos e veredas, subindo e descendo montes e atalhos, para chegar à vila ao abrir das repartições que, no tempo, era às dez horas da manhã. E se desejasse seguir no “Carro da mala” para a Madalena, para tomar a lancha do Canal, mais cedo teria de chegar à vila-Fronteira, pois a camioneta – antes o carro de bestas do Caetano – partia de madrugada. Cheguei a fazer essas viagens: sair de casa de manhã, no Inverno, para chegar à Piedade ao anoitecer. E só poder regressar no dia seguinte, com o mesmo itinerário. Que terrível era passar na “Ladeira do Barriga” (descia-a a pé e em outras mais).
Na Piedade, valeu-me o empregado do Dr. Machado Soares que tomou conta do cavalo e o tratou. Era o cavalo de João Machado Soares (Capitão) e pelo aluguer paguei 50 escudos. Pernoitei na casa de hóspedes de Manuel Serrador, ao Império, única que existia a dar camas para a algum visitante.
Durante quase cinco séculos, a população do concelho das Lajes viveu este tormento das deslocações. Na década de vinte do século passado, apareceram duas lanchas a motor – a “Lourdes” e depois a “Hermínia” que começaram a fazer as ligações da Calheta à Horta, passando pelos portos de S.ta Cruz, Lajes, S. João e S. Mateus. Foi uma melhoria mas só útil àqueles que se davam bem no mar.
A estrada Lajes-Piedade, inaugurada em 28 de Maio de 1943, veio acabar com esse isolamento, mas não passou pelo centro das freguesias das Ribeiras e Calheta, obrigando à construção, mais tarde, dos respectivos ramais.
Presentemente, as ligações estão facilitadas, mas não deixam de ser dispendiosas, pela distância que as separa.
A Ilha é a segunda em área das nove do Arquipélago, e desenvolve-se, praticamente, no sentido Norte-Sul. Quem desejar ir da Piedade ou Ponta da Ilha, como era conhecida, até à Madalena para ir a uma consulta, v.g. ao hospital da Horta, o que, infelizmente, é vulgar, tem de percorrer 56 quilómetros. Ou seja: para tomar a lancha do canal terá de sair de casa ao amanhecer, e se não tiver veículo próprio, voltar à noite, nos meses de Inverno, principalmente. E se não tiver veículo próprio, terá de tomar a camioneta da carreira, o que torna a viagem mais demorada.
A estrada chamada “transversal”, ou seja das Lajes a S. Roque, e que atravessa a ilha, foi uma “estrada política”, como a designava o respectivo engenheiro que a projectou, pois serviu, nos anos quarenta, para justificar a extinção do Julgado Municipal que estava instalado nas Lajes, uma vez que era mais movimentado, em processos cíveis, do que a própria Comarca. Tudo isso tem acontecido e os lajenses suportado como uma afronta ignominiosa à sua cidadania. Que mais os espera?
O concelho das Lajes é o mais “rico” em agricultura. Só a freguesia da Piedade tem mais de 16 mil prédios rústicos registados na respectiva Matriz Predial. O concelho e a Ilha prosperaram com a indústria baleeira e, depois, com a de conservas de atum. Mas esta só a deixaram funcionar pouco mais de vinte anos... “Cortaram-lhe as pernas”. O concelho chegou a ter trinta e cinco traineiras de pesca, que acabaram por ser vendidas para outras zonas de pesca, porque a respectiva fábrica deixou de funcionar. Nem trago as razões desse tremendo colapso.
Não estou a lamuriar mas a lembrar factos concretos e a chamar a atenção para uma situação que, a repetir-se, provocará o desaparecimento do chamado “Sul da Ilha do Pico”. E se isso acontecer, não serão mais precisos nem portos nem estradas. Tudo ficará como na época do descobrimento: terra selvagem...

Vila das Lajes do Pico,
Fevereiro de 2013
.
Ermelindo Ávila

segunda-feira, 4 de março de 2013

PROTESTO!


NOTAS DO MEU CANTINHO


E repito: Protesto! Protesto pelas delapidações que ultimamente e sistematicamente se vão fazendo aos serviços instalados no concelho das Lajes do Pico. E há razões sérias e ponderáveis para lavrar o meu protesto, que julgo ser o de todos os Lajenses, pelo que se tem feito no concelho. E não vou repetir os vários serviços públicos que daqui têm sido transferidos para outros concelhos. Ultimamente, o mais beneficiado tem sido o da Madalena sem razões sérias para que se justifique essa atitude dos Poderes Centrais. Até que se leve à extinção do concelho...
No meu último cantinho lembrava, sem que tivesse em nota este de hoje, que “O concelho das Lajes é o mais “rico” em agricultura. Só a freguesia da Piedade tem mais de 16 mil prédios rústicos registados na respectiva Matriz Predial”.
Apesar de terem desaparecido duas importantes indústrias, a de conservas e a da baleia, mesmo assim no concelho situam-se duas outras bastantes importantes para a economia da Ilha: O Matadouro Industrial e a fábrica de lacticínios da Lacto-Pico. Apesar da crise que atravessa, “O Presidente do Governo Regional, Vasco Cordeiro reafirmou a disponibilidade do executivo para ajudar a viabilizar o sector cooperativo da Região, nomeadamente a Lacto-Pico...” (1)
Agora, e segundo informações fidedignas, vão centralizar-se na vila da Madalena os Serviços de Finanças, desaparecendo as repartições das Lajes e de S. Roque. Não sei qual a posição tomada pelas autarquias dos dois concelhos. Julgo que deve ser imediata, forte, intransigente e firme. Está em jogo o desenvolvimento e o futuro dos dois concelhos que, a partir dessa drástica e perniciosa determinação do Governo da República, ficarão defraudados e diminuídos, principalmente o concelho das Lajes, pois o de São Roque ainda fica com a vantagem de conservar a Comarca!...
Não se compreende porque tudo se há-de concentrar na vila que quer ser cidade e que só assim, com a ajuda dos poderes públicos, o poderá conseguir.
Não estou a levantar esta questão por acintoso bairrismo. Está fora do meu pensar. Somos todos picoenses e é pela defesa dos interesses picoenses que me move.
Extinguir serviços que são diariamente utilizados pelos cidadãos contribuintes é uma das mais drásticas medidas governamentais, que só prejudica o desenvolvimento económico e a normalidade de vida dos cidadãos, todos os dias obrigados a cumprir certas exigências do fisco.
Pode alegar-se que, na época actual, algumas obrigações podem ser cumpridas através dos meios electrónicos, evitando a deslocação às Finanças, como dizem. Mas quem possui esses meios? Nos meios rurais eles quase se desconhecem.
Fazer deslocar um contribuinte da Ponta da Ilha à Madalena é fazê-lo percorrer mais de cem quilómetros, perder um dia de trabalho, além das despesas com a indispensável alimentação. E quem isso suporta?
É preciso que as chamadas”forças vivas” do concelho tomem medidas imediatas para evitar o desaparecimento de um serviço e/ou a sua centralização a tão longa distância.
Os concelhos foram criados para comodidade dos povos e primeiro e único na ilha do Pico foi o das Lajes. O de São Roque veio mais de um século depois, quando a população se foi desenvolvendo naquela zona. O da Madalena só apareceu no século dezoito e, mesmo assim, extinto nos finais do século dezanove, para ser restaurado poucos anos depois, com o parecer favorável dos outros dois concelhos que assim reconheciam os direitos dos povos daquela zona.
Além disso é bom ter em consideração que o concelho das Lajes é o maior em área territorial, possui o maior número de prédios rústicos e o mais desenvolvido, dada a natureza do seu terreno, na agro-pecuária. As matrizes prediais são a prova oficial do que venho de alegar. E é isso que os governantes devem ter em atenção. As actividades comerciais são oscilantes e, daí as constantes falências que se vão verificando, não só por estas ilhas como pelo próprio continente. E ainda não se encontrou solução para tão perniciosos males para a economia e para o bem-estar dos povos.
É tempo das entidades concelhias tomarem posição e fazerem valer, a tempo e horas, os direitos que se projectam defraudar, dos cidadãos. Ao povo impõe-se uma união de esforços reivindicativos para que se evitem medidas defraudantes dos seus legítimos direitos.
E só mais esta referência: a repartição de finanças da Calheta de São Jorge foi encerrada e o arquivo transferido para as Velas. O povo manifestou-se e protestou, veementemente, de maneira ordeira e pacífica. Passados meses, voltou o arquivo à Calheta e a repartição entrou em funcionamento. Não quero lembrar a revolta popular de 1862 que tantos prejuízos causou ao concelho, precisamente por causa da instituição de novos impostos. Desejo somente que os direitos dos lajenses sejam acautelados e o povo possa viver em tranquilidade, cumprindo as leis nacionais e usufruindo dos direitos de cidadãos livres.
Com vista a quem de direito!
Lajes do Pico,
Março de 2013
Ermelindo Ávila
___________
(1) “Diário dos Açores, nº 40 016 de 22-02-1913 – pág. 20

sábado, 16 de fevereiro de 2013

A FOLGA



O Tony emigrou criança, com os pais, para “Betefet”, nos Estados Unidos da América. Por lá andou estes anos todos, vivendo, alegremente, com os companheiros luso-americanos, sem se lembrar da terra onde nascera.
Um dia, falando com outros companheiros também nascidos nas ilhas, surgiu-lhe o desejo de vir à terra onde nascera e onde ainda tinha parentes. Falou nisso aos Pais. Ficaram radiantes e preparam logo a viagem.
Na ilha tinha um padrinho de baptismo que não conhecia, mas a ele se dirigiu comunicando-lhe o seu desejo de vir à terra natal. E assim aconteceu.
Algum tempo após a chegada, o padrinho resolveu dar uma “Folga”, em homenagem ao afilhado. Tudo se combinou e ficou escolhido um sábado. Convidaram-se os tocadores e cantores, e outras pessoas para a “Folga”.
Por cá é habitual que, se a folga se realiza na Almagreira, convidam-se os amigos da Prainha; se nas Terras, os amigos do lado Sul, da Piedade a S. João.
Para a “Chama-a-Rita”, o instrumento especial é a viola da Terra. Havia, na Terra do Pão, o Saca que era bom artista. Nas Ribeiras, o Mestre Bemfeito, e nas outras freguesias não faltavam quem as construísse com arte.
Foram convidados bons violeiros e cantadores. A casa escolhida era a que tinha melhor e mais ampla sala, que foi preparada com antecedência.
Não faltaram os da Prainha do Norte que, na tarde desse dia, sacola ao ombro com os sapatos e a fatiota domingueira, cá chegaram a tempo e horas de tomar parte da “Folga”. Outros, de mais perto, já andavam nas imediações da casa.
Mal anoiteceu, a porta da sala abriu-se. As moças bailadeiras tomaram os seus lugares, os bailadores ficaram pela porta de entrada e junto das janelas e um dentre eles, sai-se com a primeira “cantiga”: Ainda agora aqui cheguei / Mais cedo não pude vir / estive a deitar os rapazes / que lá ficaram a dormir. E logo outro cantador: Boas noites meus senhores / boas noites vos quero dar / Esta casa está bem posta / Vamos começar a bailar.
A folga começou. Os tocadores dedilhavam os seus dedos. Os cantadores cantavam entusiasmados, lançando alguns despiques que continuaram...E tudo decorreu em ordem. O Tony estava encantado e manifestava o seu entusiasmo aos que o rodeavam.
A festa ia em meio o entusiasmo era grande mas, era a hora do “serviço”. Houve uma pausa. Vieram algumas moças trazendo bandejas com cálices e garrafas com aguardente de vinho, fabrico da casa, e outras com figos passados, das figueiras do quintal, que foram distribuindo pelos assistentes para animar a festa.
O violeiro dá as primeiras pancadas na viola. Um dos cantadores prepara-se para cantar. Os bailarinos fixam-se no meio da sala e a folga continua. Tudo com calma.
A meia noite ia-se aproximando. Alguns dos presentes preparavam-se para sair. O dia seguinte era, realmente, domingo, mas havia que tratar do gado da porte e ir à Missa. Tudo tinha de ser feito. Afinal, tudo ia a tempo e horas.
Tony ficou com pena da festa acabar. Estava encantado com tudo aquilo mas não deixava de deitar o seu “rabo de olho” a uma moça do lugar, como bailadeira, e de sorriso franco. Não tinha vindo para casar mas as coisas estavam a modificar-se e ele estava indeciso no que havia de fazer. No entanto, deixou o caso para depois...
O certo é que o nosso emigrante foi tomando as coisas a sério e, passados algumas semanas, o casamento estava ajustado.
As folgas têm sempre destas surpresas. Tudo tinha acontecido na Época do Carnaval; e o Carnaval proporciona, quase sempre, estas ocasiões.

Lajes do Pico,
Fevereiro de 2013.
Ermelindo Ávila



quinta-feira, 7 de fevereiro de 2013

A MODERNIZAÇÃO DA VILA


NOTAS DO MEU CANTINHO


É este o título com que o então Major Lacerda Machado intitulava um artigo publicado no jornal “As Lages”(l), há quase cem anos e no qual tecia diversas considerações sobre o projecto que apresentara, então, à Câmara Municipal sobre a construção da avenida marginal. Não vou repetir o que nessa altura escreveu o distinto General lajense. Fico-me apenas pela referência de que foram necessários cem anos, um século, para que a Vila das Lajes viesse a beneficiar de uma adequada modernização.
Não se construíu a avenida proposta mas, antes, procedeu-se à limpeza do antigo Juncal - a lixeira da zona – e um centro infeccioso com lamentáveis vítimas provocadas pelo surto de doença pestosa proveniente da ratazana que ali se desenvolvia, construindo-se o já antigo campo de jogos para o qual todos os lajenses trabalharam. (Também ajudei, levando, com outros da minha idade juvenil, caixotes de terra para o nivelamento do campo. Há quantos anos!)
O campo foi transferido há poucos anos, embora o novo recinto não tenha, ao que dizem, as dimensões regulamentares desejadas. Mas, antes um mal menor do que nada feito.
O espaço do antigo Juncal, encravado na parte Oeste da Vila e formado pela muralha que a veio defender dos temporais marítimos, está a ser transformado em jardim, “Jardim da Baleia”, evocação simpática duma época de desenvolvimento industrial e de algum desafogo económico que desapareceu.
Para mim, que quase desconheço a leitura de uma planta topográfica, não sei se está, convenientemente, acautelada a ligação, pelo Oeste, das ruas transversais da Vila que, saindo da antiga Rua Direita, ligam ao Juncal, dando origem à actual via que circundava o campo e que havia sido melhorada aquando do Centenário da Festa de Lourdes, em 1982. Um novo arruamento está a ser, acertadamente, construído junto da muralha, permitindo uma circulação de veículos em recta. No lado oposto, onde corre ainda o actual arruamento que liga as ruas vulgarmente denominadas de Baixo, da Cadeia, do Engenho e dos Sapateiros, não sei como vai ficar a ligação dessas artérias para utilização de peões. Julgo que deve manter-se o actual arruamento, embora corrigido e só destinado a peões. Junto da muralha ficará o novo arruamento reservado ao trânsito de pessoas e veículos.
Conheci em Angra, hoje Cidade Património Mundial, quando há umas dezenas de anos por lá andei, arruamentos que, partindo da rua da Sé iam e vão terminar na rua de Cima da Rocha. Para evitar a circulação de veículos - no tempo bem poucos automóveis havia - estavam colocados blocos a impedir essa circulação. E parece que ainda hoje o trânsito é assim regulado. Coisa semelhante pode cá fazer-se. Se o Autor do projecto das obras em execução não previu essa circunstância, a Fiscalização respectiva pode promovê-la, julgo eu.
Precisamente, há um ano publiquei neste jornal um escrito com o título “Faça-se”. Reportava-me aos trabalhos que agora estão a decorrer. Mantenho o que então escrevi. No entanto, há que acautelar certos pormenores que, não o sendo, podem ser prejudiciais no futuro. É por isso que, em todas as Empreitadas há, ao que sei, uma entidade fiscalizadora, representante do dono da obra. Não será?
Na opinião de um Arquitecto que há anos por aqui passou, os arruamentos da vila foram todos voltados a Oeste para permitirem a saída ou fuga dos habitantes em ocasiões de temporais que sempre atormentaram os lajenses, até há bem poucos anos. A muralha de defesa foi construída há um século, embora com projecto defeituoso e só há poucos anos se conseguiu melhorar o que antes havia sido feito, muito embora houvesse técnicos que projectassem o conhecido “muro da vergonha” que bem pouco durou. Não se repita, pois, o que então se fez...
Que a obra prossiga e que a Vila retome o lugar de primeiro centro urbano da Ilha, com uma existência de cinco séculos, mas que se acautele o direito de circulação das pessoas e se não prejudique o secular traçado urbano!
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1) jornal As Lajes, nº 15, de 15-11-1914

Vila das Lajes do Pico,
Janº. 2013
Ermelindo Ávila

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

UM ANIVERSÁRIO A COMEMORAR


NOTAS DO MEU CANTINHO

Bem merece que dele não nos esqueçamos. Merece uma comemoração condigna, quer pela data invulgar, quer pela obra extraordinária que tem realizado em 143 anos de vida. Refiro o aniversário do “Diário dos Açores”, actualmente um dos mais antigos jornais portugueses.
Gutenberg, ao inventar a Tipografia, jamais previu que o seu invento ia provocar uma autêntica revolução nas letras e até nas ciências, apesar das condenações que sofreu por ter inventado a Imprensa, hoje algo abandonada pela descoberta de outros sistemas de Informática. No entanto, a Imprensa escrita terá sempre o seu lugar na vida dos povos. Principalmente, os jornais jamais deixarão de aparecer, com mais ou menos brilho, em todas as partes do Mundo.
Em Portugal, os jornais surgiram com maior intensidade, sobretudo no século XIX. A partir daí os jornais e revistas têm-se multiplicado, a quase totalidade, porém, de vida efémera.
A grande maioria eram jornais panfletários, postos a circular pelos caciques políticos, vários deles a coberto de outros “testas de ferro”, que davam o seu nome para aparecer no cabeçalho mas que, muitas vezes, eram quase analfabetos.
Apesar disso, sempre houve bons jornais, alguns deles atingindo os cem anos e muitos mais. Há dois meses desapareceu em Angra o Diário “A União” fundado em 3 de Dezembro de 1893 e que passara para propriedade da Diocese, em 1 de Dezembro de 1924, ou seja há oitenta e oito anos.
Na Horta, em 2007, já havia desaparecido o “Correio da Horta”, fundado em 4 de Dezembro de 1929 e que era também propriedade da Diocese.
“O Telégrafo”, fundado em 2 de Setembro de 1893, por Manuel Emídio Gonçalves foi continuado pela Família até 1993. Foi adquirido pelos Irmãos Souto Gonçalves que o fizeram desaparecer, passando a publicar o “Incentivo”, jornal há muito desaparecido e que havia sido fundado em 10 de Janeiro de 1857 por João José da Graça, professor do liceu, e que foi um combativo jornalista, chegando a estar seis meses preso por desobediência à Lei da Imprensa vigente. E diz-se que, da prisão, mandava os seus trabalhos para o jornal, escritos nos punhos gomados das camisas, quando iam a lavar. Mas o “Incentivo” deixara de existir há muito, quando os actuais proprietários o fizeram “ressuscitar”, em 1993.
A Ponta Delgada cabe a honra de ainda publicar, sem interrupção, o mais antigo jornal português, “O Açoriano Oriental”, fundado por Manuel António Vasconcelos, em 18 de Abril de 1835. Durante muitos anos esteve na posse de Manuel Ferreira de Almeida que o publicava semanalmente. “O Açoriano Oriental” passou a diário em 1979 e, com o falecimento de Mestre Cícero de Medeiros, fundador e proprietário do diário “Açores”, este transformou-se em semanário e depois em revista, continuando o velho “O Açoriano Oriental” a publicar-se, embora passasse a pertencer, praticamente, a entidades estranhas a S. Miguel.
De referir, com o devido relevo que merece, o “Correio dos Açores”, cujo primeiro número se publicou em Ponta Delgada, em 1 de Maio de 1920. Dentro de meia dúzia de anos atingirá o centenário. Fundado pelos Drs. José Bruno Carreiro e Francisco Luís Tavares, nesta sua já longa carreira tem mantido uma conduta prestigiante, pugnando pela defesa dos interesses açorianos e micaelenses e, sobretudo, pela defesa intransigente da Autonomia dos Açores.
No dia 5 de Fevereiro, o “Diário dos Açores”, como atrás disse, celebra 144 anos de existência e de publicação ininterrupta, quase na Família do Fundador, o jornalista Manuel A. Tavares de Resende. Sucedeu-o o sobrinho Manuel Resende Carreiro, que o dirigiu 47 anos e, a este, os filhos, os Drs. Manuel e Carlos Carreiro. O Dr. Manuel Carreiro dedicou-se com maior intensidade ao jornal dirigindo-o, com o Irmão, com superior elevação até ao falecimento, em 8 de Setembro de 1974. Sucedeu-lhe o irmão, Dr. Carlos, e por falecimento deste, D. Maria Isabel Carreiro Machado Costa, que teve como director adjunto o ilustre jornalista J. Silva Júnior, passando depois a Director executivo até à nomeação de Director Honorário, em 2 de Março de 1994, quando deixou a direcção efectiva do Jornal. Sucedeu-lhe o Dr. Eduardo de Medeiros.
Foi o Dr. Manuel Carreiro que teve a deferência de me chamar, em 1964, a dar a minha modesta colaboração ao seu jornal. Já lá vão quase 50 anos.
O Dr. Manuel Carreiro preocupava-se em trazer o seu Jornal sempre actualizado, tratando os assuntos com elevação e dedicação extremas, apesar da vida profissional que exercia.
Aliás, como todos os jornais que se publicavam há quarenta ou cinquenta anos, tinha uma rede de correspondentes, quer na própria ilha quer nas outras do Arquipélago e no continente, que lhe forneciam as mais diversas notícias regionais ou nacionais. Além disso mantinha uma secção noticiosa, onde eram publicadas as mais simples notícias e acontecimentos, festividades religiosas e movimento demográfico. Uma boa parte dos assinantes , principalmente da Diáspora, interessava-se sobretudo por saber quem havia nascido, casado ou falecido nas suas localidades. Era assunto que o jornal, qualquer que ele fosse, das cidades ou vilas, e fosse de quem se tratasse, não descurava. Faziam-se circunstanciadas reportagens dos acontecimentos ocorridos para deles dar conhecimento pormenorizado, por vezes, aos seus assinantes emigrados. Pois era a primeira coisa que eles liam e lhes servia de conversa no primeiro encontro. (Constava-se até que os jornais diários do continente tinham em carteira as biografias das personalidades que caíam doentes, para publicar notícia necrológica circunstanciada no próprio dia do falecimento.)
Publicava-se a lista dos passageiros que saíam ou entravam na ilha, dando, naturalmente, realce aos viajantes de maior categoria social. Hoje, na verdade, seria impossível, dadas as centenas de pessoas que, quase diariamente, se deslocam ou por doença ou pelos mais diversos assuntos de interesse comercial ou pessoal.
Era um jornalismo diferente mas aquele que interessava e ainda hoje interessa à maioria dos assinantes, e o “Diário dos Açores” não se afastava desse sistema.
Quando não existiam as Bibliotecas itinerantes, os jornais publicavam em folhetim romances e novelas, pois era leitura apetecida. E não faltava uma ou duas páginas de anúncios, pois a TV não existia...
Normalmente, era publicado o “artigo de fundo” versando os mais diversos assuntos, quase sempre da autoria do Director, ou do chefe da Redacção ou mesmo de Colaborador categorizado. E havia sempre quem os lesse, e até, diziam, alguns leitores os decoravam.
Os 143 volumes do Diário dos Açores são um precioso e rico património, sobretudo, da história da vida social, religiosa, cultural e industrial micaelense.
Ponta Delgada possuiu sempre um escol de jornalistas distintos que muito contribuíram para o brilhantismo da sua Imprensa. Recordo, além de Silva Júnior e dos outros citados, os que conheci: Manuel Ferreira, recentemente falecido e a quem presto aqui a minha homenagem de amigo e admirador, o Dr. Carreiro da Costa, José Barbosa, Flamínio Peixoto, Victor Pedroso, Manuel José Dias Jr. e mais, muitos mais. Excedi-me neste modesto testemunho. Desculpe o leitor.
Prestando a minha homenagem à distinta Família Carreiro, expresso os meus cumprimentos de parabéns às distintas Direcção e Redacção do “Diário dos Açores”, deixando o voto simples de que a sua vida se prolongue por muitos anos.

Lajes do Pico, Janeiro de 2013
Ermelindo Ávila

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Bibliografia: ANDRADE, Manuel Jacinto,-Jornais Centenários dos Açorese LIMA, Marcelino – Anais do Município da Horta