quarta-feira, 8 de outubro de 2014

A ERMIDA DAS TERRAS

NOTAS DO MEU CANTINHO




Vai caminhando para meio século de existência a Ermida do Imaculado Coração de Maria, vulgarmente conhecida por ERMIDA DAS TERRAS.
Como qualquer outro evento também tem a sua história. Há muito que representava uma necessidade flagrante, pois o lugar das Terras, subúrbio da vila das Lajes, constitui um núcleo habitacional com mais de duas centenas de habitantes.
Apesar da distância que a separa da sede da Paróquia, o povo das Terras foi sempre o primeiro a estar presente nos actos religiosos que se realizavam na Matriz, como ainda hoje acontece com as solenidades litúrgicas mais relevantes. Daí a necessidade da construção de uma ermida onde pudessem realizar os acto de culto. Foi em 3 de Abril de l970 que o então Ouvidor das Lajes (no tempo ainda existiam em funcionamento as três seculares ouvidorias do Pico...) procedeu à Bênção solene da nova ermida, por comissão do Bispo da Diocese, D. Manuel Afonso de Carvalho. Quase meio século é decorrido.
O primeiro casamento realizado na Ermida, construída em terreno doado por Luiza Silveira Furtado, foi celebrado em 31 de Outubro de 1970.
Os nubentes foram Manuel Moniz Cardoso Soares, natural daquele lugar e Maria Luiza Silveira, neta da doadora do terreno, onde foi implantada a ermida. É natural de Santa Bárbara mas, felizmente ambos encontram-se vivos e residem no lugar das Terras.
O primeiro baptizado, celebrado naquela ermida, no dia 3 de Agosto de l975, foi de um filho de José Adelino dos Santos Fagundes e de Maria de Fátima Simas Fagundes, natural da vizinha freguesia das Ribeiras e residentes também nas Terras. Recebeu o nome de Marco Aurélio.
É tradição realizar-se num dos domingos de Setembro a festa da titular, Imaculado Coração de Maria. Uma festa largamente concorrida e em cujo arraial aparecem normalmente muitos habitantes da vila.
Há imensas ofertas para arrematação a favor da ermida, sobressaindo as de batata-doce, um tubérculo originário da América e por cá muito apreciado.
No presente ano, a festa da titular da ermida das Terras, uma das mais esbeltas da ilha e com capacidade razoável para a população do lugar, vai realizar-se, com o mesmo entusiasmo e respeito de sempre, no dia 12 do corrente mês.
Creio que, em anterior nota já fiz referência circunstanciada ao lugar das Terras da antiga freguesia e paróquia da Santíssima Trindade, hoje somente das Lajes do Pico, ao modus vivendi do seu laborioso povo. Volto ao tema, sempre aliciante e oportuno, pois trata-se de um núcleo populacional em contínuo progresso. Excelentes moradias e uma vida social muito diferente daquela que se conhecia aqui há cinco ou seis dezenas de anos.
Perdeu a escola primária, por motivos demográficos, mas o respectivo edifício, construído de raiz, está entregue ao grupo do Corpo Nacional de Escuteiros, que lhe dá boa aplicação.
No centro do lugar, formando um núcleo importante de urbanização, conjuntamente com a ermida, foi construído um grandioso e óptimo edifício para sede da Sociedade Recreativa Alegria no Campo que tem fins recreativos, culturais e sociais. Ali convivem as pessoas do lugar, realizam as suas festas familiares e é no vasto salão, um dos mais amplos e esbeltos da ilha do Pico, onde são servidos, de cinco em cinco anos, os jantares do Espírito Santo, durante as chamadas “Domingas”, no seguimento de uma tradição que é quase única na ilha e que as famílias vêm mantendo, embora com sacrifício, mas com entusiasmo e respeito. Mas, normalmente, ali se servem as “Sopas do Espírito Santo” por motivos votivos dos residentes ou dos emigrantes que, para cumprir promessas, voltam à terra-mãe.
Como atrás referi, as habitações, na generalidade, foram modernizadas. Desapareceram os tradicionais carros de bois e quase todas, senão todas, as habitações possuem veículos motorizados como, afinal, está acontecendo em quase toda a ilha.
Um lugar pacífico onde não se conhecem causas dirimentes judiciais.
Localmente, não existe comércio de qualquer espécie. Mas as Terras tem uma Lavoura desenvolvida, que permite às suas laboriosas gentes um viver desafogado e feliz, dos melhores da ilha.
E por aqui fico, com uma saudação amiga e fraterna, ao povo das Terras como é conhecido.

Vila das Lajes do Pico,
Outº, de 2014
Ermelindo Ávila.


A ÁGUA

NOTAS DO MEU CANTINHO



A água foi sempre um elemento vital para o homem.
Quando os povoadores aqui aportaram, meteram-se por terra dentro à procura de poços de água. Só a encontraram nos poços das ribeiras. Daí, Fernão Alvares Evangelho, quando ficou abandonado na ilha, caminhou por entre montes e valados e descobriu a ribeira que havia de ficar denominada “ribeira de Fernão Alvares”, até que mais tarde foi designada por “ribeira da burra”, ali ao saínte da vila, e no princípio da Ribeira do Meio.
Confirmando esta tradição, conservou sempre o nome de Ribeira de Fernando Alvares a que, desde algumas dezenas de anos, estupidamente se chama da burra fazendo-se desaparecer da toponímia local uma expressão que representava apreciável vestígio histórico e veneração em memória do primeiro povoador, fundador da vila.” (1)
Como a ilha é falha de água nativa, colhiam-na das árvores, praticando um sulco em volta do tronco, com certa obliquidade relativamente ao eixo e no ponto mais baixo, com uma folha de árvore, improvisavam uma bica, por onde a água da chuva corria em cabaças e tinas.(...) As quartas de água, as bilhas, cântaros e infusas, foram substituídas pelos potes, canecas e canequinhas de cedro, ainda em uso...”(2) Isso hoje não seria possível, pela inexplicável proibição do uso do cedro que continua a abundar na ilha...
A partir de certa época, apareceram os oleiros a utilizar o barro, importado de Santa Maria.
Mais tarde, todas ou quase todas as habitações passaram a ter cisternas onde era recolhida a água para uso doméstico. Se construídas no campo eram providas com eirado. Algumas tinham os eirados com elevação ao centro. Daí serem conhecidos como “tanques de burra”. A maioria era junto das habitações e recebia a água que caía nos telhados.
Mas a carestia da água foi sempre um sério problema até meados do século passado. Utilizava-se nas cozinhas a água salobra extraída dos poços que, entretanto, se foram abrindo. Na vila das Lajes, quase todas as casas de moradia tinham poços de maré, como eram conhecidos. Havia-os, e ainda existem alguns poços públicos: na Maré, junto da ermida de S. Pedro e na Rochinha, junto ao actual Jardim da Baleia, na Pesqueira. Mas o mais procurado era o poço da Ribeira do Meio donde se extraía, com certas marés, água bebível que até servia para a lavagem de roupas. O mesmo acontecia com a água que brotava do muro da Mouraria.
Na vila das Lajes ainda existe uma rua vulgarmente conhecida por “Rua do Poço”. Mas o poço desapareceu “milagrosamente”, absorvido por uma construção efectuada no século XIX... Ficou a denominação...
Em outros lugares, como nas Terras, quase até às pastagens, utilizava-se a água que ficava nas ribeiras, quando estas corriam, depois de grandes chuvadas.
Depois veio-se a descobrir algumas fontes, nas zonas altas, que passaram a ser aproveitadas para uso culinário, e das quais ficou, junto à costa da Silveira, a Fonte, cuja análise laboratorial indica ter composição medicinal. A do Lendroal, que existia num terreno baldio adquirido, em leilão, por um particular, veio a ser expropriada pelo Município, nos anos sessenta, para ser utilizada na rede pública domiciliária que, entretanto, foi instalada.
No interessante trabalho As Lavadeiras, Suas Lidas e Maluqueiras a sua autora informa quais eram os locais, neste lado Sul da Ilha, que as populações utilizavam para a lavagem de roupas:
...a freguesia das Ribeiras, assim chamada por ser notório grande número de ribeiras ali existentes... Nas Lajes, recordo-me da Mouraria... Próximo do Portinho, durante a maré baixa, também corre um torno de água doce. Na Maré, ao lado do poço, havia uma pia que era outro local de lavar. Na Ribeira do Meio havia o poço de água salobra com uma área de lavar ao lado. Ainda lá existe. Na Silveira havia a Fonte ...e muito próximo o pólo do Rego. (3)
O Poço da Aguada, junto da casa do Beleza, na Silveira, ainda existe. E tantos outros poços, por esse Pico fora, cuja água servia, igualmente, para a lavagem de roupas.
Nos primeiros tempos do povoamento, recolhia-se, como atrás se indica, transcrevendo Lacerda Machado, a água da chuva. Ainda conheci grandes talhões de barro onde ela era armazenada somente para ser utilizada em casos de doença, como me dizia minha bisavó: Quando queríamos fazer um chá de ervas para algum doente, íamos a casa do Sr. Joaquim Maria, pois ela tinha grandes talhões onde guardava a água da chuva. Ainda conheci dois desses talhões.
Felizmente que tudo se modificou na década de sessenta do século passado. Estudos preliminares permitiram abrir furos artesianos, de dezenas de metros de profundidade, e colher a água que passou a ser distribuída pelas redes subterrâneas, entretanto instaladas. E hoje todas as habitações da ilha, salvo erro, dispõem de água canalizada, própria para consumo.

___________
1) Machado, D.S. Lacerda Machado, na “História do Concelho
das Lages”. 1936, pag.s 79/80
2) Ibidem
3) Simões, Maria Fernanda, “As Lavadeiras, Suas Lidas e Maluqueiras” E.U.A. 2008, pág.13-14

Lajes do Pico, 30-09-2014

Ermelindo Ávila

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

NAUFRÁGIOS

A MINHA NOTA


Muita gente naufraga na vida. É bom quando esse “cataclismo” é somente individual. Quando arrasta outros, é muito penoso de suportar e normalmente deixa chagas profundas, quando não mortíferas.
Mas hoje não quero “descer” aos naufrágios individuais - colectivos. Antes quero referir-me àqueles que mares atlânticos arrastavam vidas e haveres: os naufrágios marítimos, e não poucos foram no decorrer dos séculos.
No seu caminhar por esses mares “nunca dantes navegados”, quantas caravelas não ficaram no fundo dos mares atlânticos!... Dizem que a baía de Angra onde, geralmente, aportavam as naus do Infante nas suas rotas marítimas, muitas delas acabavam por ficar nos fundos da baía e que hoje ela é um depósito precioso de riquezas da Índia.
Mas não só na baía de Angra aconteceram naufrágios das caravelas, que ali chegavam cansadas e quase destruídas das longas viagens.
Os naufrágios sempre aconteceram. Ainda hoje se recorda o do “Titanic”, que tantas vias ceifou nos mares entre a América, para onde se dirigia e a Europa. Foi, de certo, o mais aparatoso do século XX. E aqueles que as guerras provocaram?!... Nos mares dos Açores vários aconteceram.
O malogrado escritor Amílcar Quaresma, numa série de notáveis artigos publicados no semanário “O Dever” e que, depois, reuniu em volumes sob o título único de “Maresias”, relata-nos alguns desses naufrágios, principalmente de iates picoenses e de lanchas do Canal. A ele me reporto com a devida vénia e com a minha sincera homenagem pelo excelente trabalho que nos deixou.
No primeiro volume, relata-nos o naufrágio do “Caroline”, um Clipper na Rota do Salitre, e que naufragou no dia 3 de Setembro de 1901 no canal Pico-Faial, no mar da “Meia-Broa”, costa do Pico. Era uma barca de quatro mastros, construída em aço. O acontecimento, decorrido mais de um século, está a merecer a atenção dos governantes portugueses.
No dia 14 de Março de 1910, dá-se, no porto da Madalena, a tragédia do “Amigo do Povo”, barco de boca aberta e de doze toneladas de arqueação. Seguia viagem para a Horta, levando carga diversa e 57 pessoas, das quais 28 morreram. Uma tragédia que enlutou uma grande parte das famílias da Fronteira. Serviu de necrópole acidental a Matriz da Madalena que recolheu os cadáveres dos falecidos na tragédia.
Na costa do Lagedo, Flores, dá-se o encalhe do “Savónia” a 10 de Junho de 1909. Ninguém pereceu mas o barco lá ficou e, os seus pertences estão espalhados pelas ilhas dos Açores.
A “Patriota”, uma chalupa de 19 metros de comprimento, construída em 1925, encalhou, na Baía da Areia na noite de 27 de Setembro de 1926, e ficou totalmente destruída. Era seu proprietário Manuel Joaquim Ávila que, na construção, despendeu 80 contos de reis.
Para afastar os iates do Pico do tráfego entre as ilhas açorianas a Empresa Insulana de Navegação, detentora do tráfego Lisboa-Madeira-Açores, com os navios “Funchal” e São Miguel” substituídos pelo “Lima” e “Carvalho Araújo”, pôs ao serviço do tráfego nos Açores, o “Arnel” e o “Cedros”. O primeiro navegou poucos anos pois encalhou, na noite de 19 de Setembro de 1958 na Baía dos Anjos, em Santa Maria, morrendo 14 pessoas. O navio ficou totalmente destruído e foi abandonado pela Empresa proprietária.
Em 17 de Janeiro de 1969 afundou-se junto do Ilhéu da Praia, na Graciosa, o cargueiro “Terceirense” da E.I.N.. Não fez vítimas, mas toda a carga e equipamento – podia transportar 12 passageiros – se perdeu.
Nos anos vinte, encalhou na Ponta da Prainha do Galeão um cargueiro americano, que viajava da América para a Europa. Não houve vítimas, mas o barco ficou destruído e naufragou. A Alfândega tomou conta do caso e procedeu à arrematação dos salvados. Recordo que a primeira máquina de escrever pertenceu àquela barco e veio para um comerciante desta vila. Foi a primeira máquina de escrever existente nesta zona do Pico. Não sei se ainda existe. Outros haveres foram arrematados pelos picoenses e sucateiros que acorreram ao Pico para adquirir muitos dos salvados. Ainda na década de sessenta conheci um negociante que, com mergulhadores especializados, retirou do fundo do mar muito ferro daquela naufragado navio.
Agora recorda-se o naufrágio do “Cartoline”. Ainda bem!
Lajes do Pico,
Agosto de 2014
Ermelindo Ávila


SEMANA DOS BALEEIROS

NOTAS DO MEU CANTINHO


É agradável para os lajenses viverem estas semanas de Agosto. São as suas semanas maiores, porque nelas se realizam as suas maiores festas do ano.
Em suas casas recebem os familiares que, durante o ano, por razões diversas, estão ausentes. Nas ruas da vila, de momento a momento, encontra-se cara diferentes e, além, delas, amigos e conhecidos que aqui vieram para tomar parte nas suas festas.
É todo um ambiente de amizade, de alegria, de bem-estar numa confraternização contínua que retempera e tonifica.
Recordam-se épocas passadas, amigos que já partiram, acontecimentos que ficaram na história, embora não escrita, mas nas memórias das gentes.
É pois, repito, agradável e saudável, viver estes dias na velha vila picoense, normalmente triste e misantropa, recordando o seu passado de vivências várias, umas alegres e felizes, outras menos risonhas, consoante o estado de espírito de cada um.
Uns recordam com um misto de saudade as antigas festas, embora externamente reduzidas ao sábado da véspera. Mesmo assim não esquecem a noite de concertos, iluminação e fogo preso. E, a propósito deste, há quem ainda se lembre da “batalha” entre o castelo e os soldados, duas peças de bonito efeito.
Normalmente, os concertos tinham a colaboração de uma banda da Horta que aqui chegava ao principio da tarde do sábado, viajando a bordo de uma das antigas lanchas dos Lourenços que, durante as festas, ficava na Lagoa aguardado o regresso da banda, ou Artista Faialense ou Artista Flamenguense, na tarde do domingo, depois da Procissão. Esmeravam-se as bandas, incluindo a “Liberdade Lajense” por executar peças de autores clássicos sendo largamente aplaudidos os solos de cornetim ou trompete e de clarinete.
E falando da Procissão é de recordar o espectáculo que era o queimar de algumas grosas de foguetes, na Ponta do Caneiro, enquanto o andor da Veneranda Imagem de Nossa Senhora de Lourdes, ia percorrendo as canoas baleeiras, cerca de vinte, postadas em frente ao porto e de velas alçadas, se o vento permitia. Mas, não somente na Pesqueira, pois as armações da Ribeira do Meio, situadas, como ainda estão, ao norte da Lagoa, também queimavam algumas dúzias de foguetes à passagem do andor, muito embora já o tivessem feito na Ponta do Caneiro.
Outros, mais novos, têm presentes as festas externas que se iniciaram com a criação da “Semana dos Baleeiros”, em 1983, ano em que se comemorou o primeiro centenário da instituição da Festa de Nossa Senhora de Lourdes.
A “Semana do Baleeiros” tem continuado, embora com programas mais voltados para os espectáculos nocturnos, recreativos, que, aliás, são bastante do agrado da juventude.
A parte cultural, com a série de conferências, foi assim praticamente substituída, não deixando a “Semana” de ter os seus atractivos.
A caça à baleia foi proibida e deixou de praticar-se. No entanto, o que não se pôde proibir é que o povo celebre a sua “Semana dos Baleeiros” com alegria recordando, com saudade, embora, os tempos passados.
As Lajes não deixará de ser a vila baleeira única no Arquipélago e os lajenses, embora muito poucos hajam praticado a arriscada arte, porque era uma verdadeira arte, jamais deixarão de ser baleeiros de tradição e de sangue.
Estamos a viver as festas das Lajes, as suas maiores festas.
Que todos, naturais, residentes ou visitantes as gozem com alegria e que a Senhora de Lourdes, Padroeira dos lajenses, a todos prodigalize as maiores felicidades.

Semana dos Baleeiros de 2014

Ermelindo Ávila  

ERMIDAS E CAPELAS

Notas do meu cantinho

O Pico, desde o seu início ou povoamento, praticou intensamente a religião católica. Nem que tivessem de atravessar a serra ou os baldios para vir às Lajes, primeira povoação da ilha, para se casarem ou baptizarem.
Sabido é que o primeiro templo foi a actual ermida de São Pedro que, na vila das Lajes, serviu de igreja Paroquial de toda a Ilha, enquanto não se construiu a antiga Matriz no princípio do século XVI.
Depois foram aparecendo outras ermidas. Só na paróquia da Santíssima Trindade, além da igreja do convento franciscano, já no seculo XVIII, surgiu a ermida de São Sebastião-o-velho, ao cimo da Almagreira, mais tarde transferida para S. Sebastião, na Ribeira do Meio. De remota era a ermida dos Remédios, demolida a meados do século passado, por se encontrar totalmente arruinada.
Presentemente, existe na Almagreira a igreja-ermida da Rainha Santa Isabel.
Após os sismos de 1718 e 1720, foi reconstruída a igreja da Misericórdia que, decorrido um século, já estava em ruínas.
Resta a ermida de Santa Catarina, num promontório à saída da vila, e que durante centenas de anos esteve ao cuidado da família do antigo morgado.
Ainda pertencente à paróquia da SS.ma Trindade foi construída, nos anos 70, a ermida-igreja do Coração de Maria, no lugar das erras, subúrbio da vila das Lajes.
Tanto na ermida da Almagreira, como na das Terras, exerce-se o culto, quase semanalmente.
Outras ermidas há na área da antiga Ouvidoria.
Nas Ribeiras, existe a secular ermida da Senhora do Socorro, que já serviu de paroquial em Santa Bárbara.
Recentemente, foi construída no Caminho de Baixo das Ribeiras, uma pequena ermida na qual as paróquias de S.ta Cruz e de S.ta Bárbara exercem o culto.
No lugar das Pontas Negras, foi construída, a meados do século passado, uma boa igreja/ermida dedicada a Nossa Senhora de Fátima, onde é exercido o culto, semanalmente, para os paroquianos de Pontas Negras e Ribeira Seca.
No lugar da Ribeira Grande desta freguesia, foi construída uma ermida dedicada a São João Baptista.
Nos Fetais da Piedade, no último século, foi construída uma pequena ermida, dedicada a Santo António, que serve a população local. Na Manhenha, da Piedade existe, de longa data, a ermida de São Tomé onde é venerada e festejada também Nossa Senhora das Mercês. No Calhau da mesma freguesia existe a ermida de Nossa Senhora da Conceição, presentemente restaurada e que data do século XIX.
No mesmo lugar foi construída, há anos, uma pequena ermida dedicada a Nossa Senhora da Boa Viagem.
Na Paróquia da Ribeirinha existe há anos, no sítio da Baixa, uma ermida dedicada ao Apóstolo São Pedro.
Na freguesia da Piedade vai ser inaugurada no dia 14, no lugar da Engrade, uma nova ermida dedicada a São João Paulo II, construída pelos habitantes e veraneantes daquele lugar. Uma pequena ermida onde não faltam as alfaias litúrgicas necessárias uma celebração eucarística.
Fica assim muito valorizado o património católico edificado da zona e da própria Ilha do Pico.
Engrade, Setembro de 2014
Ermelindo Ávila



FESTAS MAIORES

A MINHA NOTA



Todas as localidade celebram as suas festas maiores. Normalmente, são as festas dos Padroeiros ou dos santos de maior devoção. E nisto estou somente a referir as festas de carácter religioso, pois outras se realizam sem que haja qualquer referência à religiosidade local. É o caso da Maré de Agosto, da Semana do Mar, do Cais Agosto, ou da Festa do Chicharro.
Mas, nesta ocasião, refiro somente as solenidades religiosas que se celebram com mais ou menos brilhantismo nas diversas paróquias da Ilha. Ontem, foram as festas de Santa Maria Madalena, depois a do Senhor Bom Jesus Milagroso, em São Mateus, na Calheta de Nesquim e, agora é do orago São Roque. No fim do mês, Nossa Senhora de Lourdes, nas Lajes do Pico.
Na generalidade, em todas elas os católicos, e não somente, primam por fazer das suas festas as melhores de todas no desejo de as tornar atrativas dos forasteiros.
E bom será, enquanto as populações se interessarem pelas festas das suas terras, sinal de que o espírito religioso e cristão não desapareceu da ilha.
Em tempos passados, quando a ilha não dispunha de estradas mas somente de caminhos rurais, que não permitiam o trânsito automóvel, as pessoas deslocavam-se a pé para as freguesias mais próximas, a fim de assistirem às festas locais e aos respetivos arraiais. E a festas consistiam, geralmente, de Missa solene, cantada, procissão e arraial abrilhantado por uma filarmónica, quando esta existia na própria freguesia ou nas freguesias próximas. Uma ou outra festa incluía um arraial nocturno, com um concerto pela filarmónica e fogo preso. O fogo vinha, com a devida antecedência, nos barcos do Pico, construído pelos pirotécnicos que existiam na Ilha Terceira. Mais tarde, fixou-se no Pico o pirotécnico MAMEDE que passou a fazer fogo de artifício de excelente qualidade e não menor efeito. A iluminação era feita com candeeiros com velas, pois, nesses tempos, a electricidade ainda cá não chegara. E a que trabalhos obrigava essa primitiva iluminação! Durante semanas, nas tardes dos domingos, grupos de senhoras, reuniam-se para restaurar as lanternas, com papel transparente e de diversas cores pois, nos arraiais, muitas lanternas ardiam.
Em certa ocasião, dizia-me uma Senhora que vivia numa das freguesias do Sul do Pico: Eu, com meu marido e os nossos filhos vamos a todas as festas e arraiais das vizinhanças, pois não temos outros divertimentos ou distrações.
Hoje, como acima escrevo, é tudo tão diferente. A facilidade de transportes, algum desafogo económico, o estilo que se imprimiu aos festejos, com programas excepcionais de cultura e recreio, atraem, normalmente, grande número de forasteiros, principalmente, a juventude.
Mas as festas maiores dos Açores são as Festas do Espírito Santo, que têm lugar na época do Pentecostes e que juntam milhares de pessoas. Ainda no corrente ano, num notável trabalho de investigação realizado pelo Jornal do Pico, nos tradicionais jantares do Espírito Santo devem ter-se reunido mais de vinte mil convivas, além dos muitos milhares de pães, rosquilhas e vésperas distribuídos não só as pessoas que estão nos «Impérios«, mas igualmente aqueles que por eles passam.
E, no presente ano, estão a terminar as festas. Aquelas que faltam realizar que sejam vividas com alegria, ordem e paz.


Povoação,
7-08-2014
Ermelindo Ávila


sábado, 26 de julho de 2014

ANGRA DOS ANOS TRINTA

NOTAS DO MEU CANTINHO

Até meados do século XX, as ilhas açorianas eram terras quase ignoradas. Poucos eram os contactos que as suas gentes tinham com o exterior e, muitos açorianos nasciam, viviam e morriam sem conhecer a ilha que lhes ficava fronteira.
A navegação era escassa, pois os dois barcos da Empresa Insulana de Navegação que explorava a rota Lisboa – Madeira - Açores só saíam da capital duas vezes no mês. Por cá, inicialmente, eram os vapores de doze e de vinte e oito, dias em que chegavam a esta ilha.
Raramente, um dos barcos da Frabe Line – normalmente o “Sinaia”, passava no porto de Angra, pois a sua rota era Providence, (nos Estados Unidos) – Horta - Ponta Delgada - Lisboa.
Uma vez passou em Angra o “Saturnia” e o jornalista, convidado pela agência a visitar o barco, escrevia, admirado: É uma verdadeira cidade flutuante. Foi tal o assombro que lhe causou o luxo do transatlântico.
Valiam os barcos do Pico que, no verão, percorriam as ilhas do Grupo Central e Oriental. Primeiro a lancha “Calheta” e, depois, o “Ribeirense”, a seguir o “Andorinha”, para terminar no “Terra Alta” – “Terrialta” como vulgarmente era conhecido. E que alegria causava aos picoenses, ou picarotos, residentes em Angra, a chegada de um barco do Pico! Mas muitos dos angrenses também não faltavam, principalmente, para receberem notícias de S. Jorge a que alguns estavam ligados ou somente para assistir ao movimento do porto.
Certa ocasião, o “Andorinha” preparava-se, ao entardecer, para viajar para Ponta Delgada. Estava acostado ao Cais do Porto de Pipas. Terminada a manobra, iniciou muito lentamente a marcha e ia rodando a ponta do Cais, rumo a S. Miguel, quando um cavalheiro, caminha para a beira do molhe e diz: Mestre José Gaspar, pode trazer-me de S. Miguel uma dúzia de laranjas? Sim, Sr. João Baldaia, foi a resposta. Este um caso apenas de entre muitos outros idênticos.
Angra, apesar do isolamento, era uma cidade onde ainda existia e se respeitava certa aristocracia. Ainda conheci algumas senhoras irem à Missa dominical da Sé em coche puxado por dois lindos cavalos e com cocheiro de chapéu de pelo e luva branca.
Mas, mau grado o isolamento com o exterior, Angra tinha uma vida social e cultural intensa. Além de Famílias distintas que conservavam com certo orgulho as tradições do seu passado, tinha um ambiente cultural distinto, mercê das personalidades que por lá existiam.
Não dispunha, ao tempo, de grandes estabelecimentos comerciais mas tinha diversos e de variados ramos. A Loja do Atanásio era o centro de reunião da melhor sociedade angrense. Na Livraria Editora Andrade, à rua Direita, reuniam os intelectuais. E recordo o Tenente Coronel José Agostinho, o Dr. Luís da Silva Ribeiro, o Dr. Henrique Braz, o escritor Gervásio Lima, o Dr. Francisco Lourenço Valadão Jr., Maduro Dias, João Costa Moniz, Raimundo Belo, Dr. Cândido Forjaz, Dr. Manuel de Sousa Menezes, e tantos outros, que ali publicavam seus livros, apreciavam as recentes publicações e analisavam a vida intelectual.
E havia comerciantes de grande prestígio. Recordo Manuel Borges de Ávila, Manuel Magalhães, Basílio Simões, casa de atacados, e moagem de farinação de trigo e o sr. Pereira, da Rua Direita, o Lourenço. E tantos mais.
Luís Ribeiro, além de advogado, funcionário administrativo e etnógrafo distinto, era um grande violinista e crítico musical. E falando de música, lembro Tomás Borba, Henrique Vieira, com a sua orquestra, o Pe. José de Ávila e o orfeão do Seminário, estabelecimento de ensino de grande prestígio cultural pelos Mestres de que dispunha: Dr. Bernardo Almada, Dr. José Pacheco Bettencourt, Dr. Cardoso do Couto, Dr. António Vasconcelos, Dr. Garcia da Rosa, Cónego Pereira, Pe. Costa Ferreira e outros mais.
Desse prestigiado grupo de intelectuais surgiu mais tarde o Instituto Histórico da Ilha Terceira, presidido pelo Dr. Luís da Silva Ribeiro.
Mas a cidade não se ficava pelos seus habitantes e actividades económicas, sociais ou literárias. Eram notáveis as reuniões do Clube Musical, do Lawn Tennis Club ou da Cozinha Económica, para não referir o Teatro Angrense.
Subir à estrada de S.to António do Monte Brasil, ou à Memória; deixar para trás o histórico burgo e entrar no Jardim Público e acolher-se às suas frondosas árvores ou gozar o perfume deleitante do imenso roseiral que vicejava no relvado viçoso e lindo, além de outras espécies raras, tudo carinhosamente cuidado pelo antigo jardineiro, uma pessoa simpática e acolhedora, e, ao domingo, assistir aos magníficos concertos da Banda Militar; voltar às ruas do histórico burgo e ir até ao Pátio da Alfândega e aí encontrar alguns amigos ou conterrâneos, que os havia, gozar o espectáculo das bonançosas águas da esbelta baía ou tentar assistir à chegada de algum barco do Pico, anunciado pelo “facho”, e portador de alguma notícia familiar; quem não recorda esta cidade que, justamente, é hoje Património Mundial?
Angra do Heroísmo era assim nos anos trinta. Recordo-a com um misto de saudade, embora nem tudo nem todos possa aqui lembrar. São passados tantos anos...


Lajes do Pico,
Julho de 2014.

Ermelindo Ávila

segunda-feira, 21 de julho de 2014

COISAS DO ARCO-DA-VELHA...

A MINHA NOTA

Assim reza o velho ditado, quando algo acontece contrário ao senso comum. E tantas que elas são!...
Durante anos, levou-se a reclamar a falta de um médico para o concelho. O facultativo ou médico municipal que cá havia, estou a referir-me ao princípio do século passado, mudou-se para S. Jorge e, até 1928, deixou de existir um médico, socorrendo-se os pacientes dos chamados “homeopatas”, que lhes aplicavam, normalmente, mezinhas caseiras.
Geralmente, eram os padres que, sendo cura de almas, eram também, por vezes com sucesso, cura de doentes. Tanto assim que, nos programas de ensino do seminário existia a aula de “higiene”, que mais não era do que os rudimentares ensinamentos da medicina caseira. O título do método era elucidativo: “O padre junto dos doentes e moribundos”.
Na minha adolescência, fui tratado por um excelente sacerdote que aconselhou que me ministrassem uma mesinha em água, às colheres.
Naquele ano de 1928, a Câmara Municipal conseguiu trazer para o concelho um médico que aqui se conservou durante quarenta anos. Que óptimo e competente era esse facultativo, o inesquecível Dr. José Pinheiro Cardoso de Campos.
Em 1960, a Misericórdia conseguiu abrir o, então classificado, hospital sub-regional. O Dr. Campos, entretanto adoeceu. E que pesar tinha ele de não poder desenvolver a sua actividade. Dizia-me: “Veio tarde o hospital”.
A ilha dispôs de médicos municipais em S. Roque e Madalena. A um deles, o Dr. Tibério de Ávila Brasil, erigiram um busto. Como podiam ter dedicado outros aos Dr. Campos e Dr. Luís Caetano de Mendonça, que bem o mereciam.
Outros médicos foram aparecendo e, actualmente, o hospital, que passou a ser simplesmente “centro de saúde”, tem um bom e respeitável corpo clínico. Mas, quando isso acontece, cortam-lhe, abruptamente, o desenvolvimento concentrando “contra natura” os serviços médicos num único centro de saúde, precisamente, aquele que é mais desaconselhável pela distância a que fica da população da ilha. Melhor: as urgências nocturnas e alguns serviços de diagnóstico.
Toma semelhante medida quem nunca viveu nas ilhas secundárias, onde a população é dispersa e envelhecida e, consequentemente, mais carecida de assistência médica. É que não conta a população, quando ela é nova e saudável. Mas quando a juventude vai desaparecendo e só ficam os idosos e doentes, apenas lhes podem valer duas instituições: as casas dos idosos e os centros clínicos.
A ilha do Pico, que nunca necessitou de asilos, hoje dispõe de quatro. Para os doentes dispunha de três unidades hospitalares, equipadas para os primeiros cuidados assistidas por médicos dedicados e acolhedores que atendiam os doentes, a qualquer hora do dia ou da noite. Agora ?!...
Com a saúde não se brinca, diz o povo. Estão em jogo muitas vidas e estas nem pagas nem substituídas podem ser.
Quase que é pena um daqueles que está a inventar estes serviços atabalhoados da saúde, não viver na Piedade e, em certa noite, não lhe aparecer uma pequena enxaqueca que o obrigasse a socorrer-se de um médico. Ia percorrer um môio de quilómetros para ir `a “Urgência” no Centro da Madalena?
Escreve quem isso conhece e sabe quanto custa!...
Só é para admirar que a “mudança” se não tenha feito com foguetes e um cálice do festejado néctar das parreiras picoenses.
Não serão “coisas do arco da velha”. Dos novos é que não devem ser, ou, antes, não deviam ser.

Pico, 13 de Julho de 2014.

Ermelindo Ávila

quarta-feira, 16 de julho de 2014

JUNHO, O MÊS DA ALEGRIA

NOTAS DO MEU CANTINHO


Chegámos ao mês de Junho, o mês da alegria. Este ano é mesmo em cheio. No segundo domingo é o dia de Pentecostes, e nele principiam os “impérios”, com excepções do sábado anterior e do dia de S. Mateus, em que se realizam, na Silveira e naquela freguesia, impérios com distribuição de pão e rosquilhas, respectivamente, em cumprimento de votos feitos por ocasião das erupções vulcânicas de 1718 e 1720, que tanto abalaram as gentes do Sul do Pico.
No mês de Junho, para além das festas tradicionais de Santo António, São João e São Pedro, na ilha do Pico têm lugar os “impérios do Espírito Santo” .
Escreve Lacerda Machado:”No ano de 1523 desenvolveu-se na ilha de S. Miguel uma desoladora peste, que ocasionou 2.000 vítimas e se comunicou ao Faial no mês de Julho. O pânico foi geral em todas as ilhas e os povos aterrados recorreram a preces públicas, procissões e invocaram em especial o Espírito Santo, prometendo distribuir pelos pobres anualmente, pela festa de Pentecostes, as primícias de seus frutos, se escapassem do terrível flagelo, que se não comunicou ao Pico. – Instituíram-se irmandades em honra do Espírito Santo, celebrando-se em seu louvor bodo solenes, com folias e bailes ao uso do tempo.”(1)
Com as excepções atrás referidas, os impérios realizam-se na ilha nos três dias do Pentecostes e no domingo seguinte, ou domingo da Trindade.
Segundo investigação publicada pelos jornais picoenses, Jornal do Pico e Ilha Maior, respectivamente das vilas de S. Roque e Madalena, realizam-se na ilha do Pico 45 impérios. Nesses dias há jantares para cerca de vinte mil convidados, e rosquilhas, pão ou vésperas, consoante as localidades, para quarenta a cinquenta mil pessoas, aproximadamente. Nos impérios distribuem-se cerca de trezentas mil vésperas. Em alguns impérios mantêm-se a tradição de distribuir pão de “água” ou de “ovos”, como é o caso da Silveira e Ribeira do Meio. No lado Sul da Ilha, da Calheta à Madalena, faz-se a distribuição de rosquilhas e, na parte Norte, de “vésperas”, um bolo especial, de fabrico trabalhoso mas muito apreciado.
Quaisquer que sejam, todas as “vésperas” são bastante apreciadas, não somente pelos residentes como também por quantos se deslocam ao Pico, nessa época.
Na realidade os dias do Espírito Santo são os dias da autêntica Caridade, Fraternidade e Partilha. Todos os picoenses, remediados ou pobres (que ricos quase não existem) terão pão com fartura em suas mesas e em muitas haverá também a carne que, além da utilizada nos jantares, é distribuída ou em cumprimento de promessas ou até mesmo e só em louvor do Divino Espírito Santo.
O tempo do Espírito Santo é, na verdade, época festiva, onde reina a paz, a amizade, a fraternidade, em “nossa casa” e em “casa do vizinho”. É para além de tudo, o tempo da partilha, que não deve ser esquecido.
Sobre o culto popular ao Espírito Santo diz o Doutor Hélder Fonseca Mendes no seu douto e erudito trabalho, “Do Espírito Santo à Trindade” um dos mais profundos tratados sobre a Terceira Pessoa da Santíssima Trindade, na opinião autorizada de um crítico teológico:
Pelos ritos e símbolos, dá-se uma comunicação e auto-comunicação comunitária unificadora; dá-se uma renovação das relações comunitárias e das tarefas e compromissos comuns; manifesta-se a identidade da “communitas” e a identificação dos membros com ela, relembrando os valores comuns, actualizando os sentimentos de pertença; cresce-se na igualdade e fraternidade, em equilíbrio e abertura criadora; articula-se e estrutura-se a própria vida da comunidade, sobre os seus sinais visíveis celebrativos de referência, segundo os diversos papeis e funções.” (2)
E em “Conclusões” escreve o mesmo distinto Autor:
As razões para a permanência do culto nos Açores devem-se ao facto destas festas serem as que melhor permitem o entendimento entre os diversos povoadores e se enquadram num espírito de solidariedade necessário na luta contra as dificuldades (...).” (3)
Os açorianos, em todas as ilhas e até aqueles que vivem na Diáspora, estão a viver estes tempos do Espírito Santo de uma maneira muito especial e peculiar. A ementa dos jantares é a mesma por toda a parte. O cerimonial litúrgico não difere. Apenas os cortejos se adaptaram aos próprios meios onde se realizam, por razões muito especiais. Mas, acima de tudo, está o louvar ao Senhor Espírito Santo. Bem hajam!
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  1. Lacerda Machado, F.S., “História do Concelho das Lages”, 1939, pág.127.
  2. Mendes, Hélder Fonseca, “Do Espírito Santo à Trindade, Um Programa Social de Cristianismo Inculturado”, 2006, pág. 231.
  3. Ibidem, pág. 257.

Lajes do Pico,
Junho de 2014

E. Ávila

AS FÉRIAS QUE SE APROXIMAM

Notas do meu cantinho



Para a juventude que está ausente durante o ano lectivo, Julho é sempre um mês esperado com grande ansiedade. É o início das férias depois de um ano de trabalho escolar, para alguns trabalho exaustivo e cansativo, pois sem trabalho não é possível obterem-se as classificações que permitam atingir um futuro promissor e auspicioso.
Vêm, pois, aí as férias. Os estudantes estão a chegar. As famílias recebem-se com alegria, muito embora na época actual, os estudantes não estejam ausentes todo o ano lectivo como acontecia há meio século, em que se aproveitava a lancha “Calheta” ou os iates do Pico, para regressar, rapidamente, após o encerramento das aulas.
Hoje as facilidades de comunicações, quer nos meios de transporte, quer nos descontos que, por vezes, são concedidos, permitem que os alunos venham a casa mais do que uma vez: nas férias de Natal e Páscoa e até em outras ocasiões nas dispensas que acontecem durante o ano escolar. E só refiro os que estudam nas escolas açorianas porque os que foram obrigados a frequentar escolas do Continente, e alguns são, para esses as deslocações tornam-se mais difíceis pelos custos que acarretam.
Estão a chegar os estudantes. As famílias aguardam-nos com ansiedade e alegria. Alguns vêm de escolas superiores, já com rumos escolhidos. Todavia, e mercê da situação precária que se atravessa, outros por lá ficam a aguardar que as oportunidades de emprego surjam rapidamente.
Certo que, com todas as facilidades de ensino que hoje se oferecem, permitindo a escolha de áreas mais apetecíveis e concernentes com as aptidões ou vocações dos estudantes, há todavia um número razoável de alunos que se vê compelido a ingressar em áreas de ensino que não são aquelas que sempre idealizaram e desejaram mas que têm de aceitar para não ficarem privados de prosseguir os estudos, para que possam conseguir um futuro risonho e feliz.
Os nossos estudantes estão a chegar. Recebamo-los com amizade, carinho e proporcionemos-lhes umas férias agradáveis.
Interessemo-los pelos nossos problemas, pelas nossas festas, pelas nossas actividades sociais e recreativas. Façamos-lhes participar, activamente, na vida colectiva, para que eles se julguem úteis e capazes de uma colaboração activa, eficiente e útil. A inactividade nas férias a ninguém aproveita e “corta” o ritmo do trabalho a que se está habituado, se é que se tomou a sério a área escolar que se escolheu. O descanso intelectual não evita que o estudante se ocupe em outros misteres, diferentes embora, mas que servem para se manter em actividade contínua as faculdades intelectuais.
E há por aí tanta coisa a fazer. Não as indico pois não tenho já condições intelectuais e materiais para algo fazer. O meu tempo terminou...
Saúdo com amizade e carinho os estudantes que chegam. É uma ocasião muito interessante para se reviverem épocas passadas: a infância e a juventude. Se renovarem os afectos familiares e se preparar o futuro que se aproxima a passos velozes. E é também o tempo para se interessarem pelos problemas da terra, pelo seu desenvolvimento económico porque não?! – pelo seu futuro, pois a terra, com todos os seus problemas, dificuldades e atrasos, será sua.
Verdade porém e infelizmente, que por falta de estruturas, a terra não pode proporcionar a todos um futuro condigno. Daí a debandada que ultimamente se vem verificando e que tornou a terra despovoada e envelhecida com as graves consequências que daí advêm.
Aqui ou onde quer que se fixem, onde quer que se encontrem, os jovens de hoje, serão os mestres do ensino, os profissionais, os dirigentes da política, os comerciais e industriais, actividades que não vêm longe mas que se aproximam a passos largos.

Lajes do Pico,
Junho de 2014
Ermelindo Ávila