domingo, 3 de fevereiro de 2013

A ILUMINAÇÃO


Notas do meu cantinho


Passou há semanas o Natal. A iluminação pública a cargo do Município, foi muito fraca. Quase só serviu para assinalar a época. O mesmo aconteceu pela maioria dos diversos concelhos da Região.
Por cá admitiu-se o sistema de só abrir a iluminação nocturna em metade da vila. A parte que circunda a Matriz continua sem iluminação há algum tempo, o que provoca certos embaraços às pessoas que participam nos actos litúrgicos ao entardecer e que, ao sair da igreja, se deparam com a escuridão da noite...
Uma medida restritiva imposta pela economia troikiana que vai atingindo todos os sectores da vida, provocando já a fome e a miséria, como nos deram notícia os órgãos da Comunicação Social, durante a época natalícia. E era ver, com mágoa tamanha aqui o registo, os movimentos de solidariedade que por aí se foram organizando, para se ficar com uma pálida ideia da miséria que já existe em muitos lares, obrigando os seus membros a sair à rua, de prato na mão, a receber uma sopa, distribuída pelas associações de solidariedade social. Se doloroso é receber assim ”em público” a esmola para matar a fome, também o é para muitos dos que assistem, embora casualmente, a tão deprimente espectáculo.
Prenuncia-se, como medida de singular administração económica, a subida da electricidade, da água, dos combustíveis e de outros produtos mais essenciais à vida das pessoas, e simultaneamente, torna-se pública a necessidade de fazer cortes nas pensões miseráveis que os utentes recebem, porque a vida toda descontaram para, agora, delas puderem usufruir. São, pois, um direito adquirido com sacrifício e do qual não podem nem devem ser privados. Houve quem estivesse ao serviço e a descontar para a C.G.A. quarenta e seis anos para, ao reformar-se, apenas puder receber trinta e seis anos, aliás como estava legislado.
=//=
Portugal continental tem electricidade através de várias fontes: de combustíveis fósseis, da geotermia, da hidráulica, da eólica e já tentou das ondas. E isso referindo, volto a um assunto que não desejava. Tinha mesmo feito o propósito de não mais o trazer a público, dada a maneira como há sido tratado pelas entidades responsáveis que, quase todas, com honrosas excepções, se mostraram desinteressadas no aproveitamento da hidroeléctrica da ilha do Pico, depois de haver sido devidamente estudado com resultados positivos.
Mas, não sou eu, que pouco conto neste sector como aliás em tantos outros. A população, a sua generalidade, é que está a sofrer o desinteresse de tão momentoso assunto. E há meio século, se não mais, que ele anda a ser discutido e estudado. Estudado e programado porque alguns (outros já partiram...) sabem que o respectivo projecto foi elaborado e aprovado e só não foi por diante porque a respectiva entidade gestora o relegou para o “fundo da gaveta”.
Por deferência e gentileza do Autor dos Estudos e Projecto, pude compulsar, aqui há anos, o processo que só não foi por diante porque a ilha não estava totalmente electrificada e, consequentemente, não absorvia a produção da energia produzida pelas respectivas turbinas. Estava-se, então, a electrificar a ilha com a chamada “rede rural” porque assim o Estado pagaria a totalidade da obra, informou-me o distinto Engenheiro. Mas tudo ficou “em águas de bacalhau” e os picoenses vêem subir, dia-a-dia, o custo do respectivo kilowatt com grande prejuízo para as suas paupérrimas bolsas. Uma situação catastrófica que quase ninguém se importa de remediar, mormente aqueles que, depois disso, promoveram a construção de grandiosos edifícios com escritórios mobilados onde não faltam os assentos espaldares . Quem não conhece a história?!...
Estão no seu direito! Os outros que alarguem a bolsa para irem pagando a factura mensal do consumo ou do prevista consumo...
Dia virá em que as caldeiras para movimentarem as turbinas produtoras passem a ser alimentadas pela lenha dos Mistérios; ou, então, terá de encarar-se a sério o aproveitamento das lagoas do interior da ilha, para fazer mover as máquinas produtoras. E não será novidade. Nos anos quarenta do século passado, quando a guerra de Hitler dominava a Europa, na ilha do Pico, e não só, as camionetas eram movidas a gás produzido por lenha e, também, algumas a óleo de gata e de baleia...Outros tempos? Talvez!

Vila das Lajes do Pico,
Janeiro de 2013
Ermelindo Ávila 

SERVIÇOS DE SAÚDE



NOTAS DO MEU CANTINHO


         A Misericórdia das Lajes do Pico, a primeira existente na Ilha, foi criada por Alvará régio de 14 de Novembro de 1592. Atingiu, pois, 420 anos de existência, em 14 de Novembro passado. Ficou com os mesmos privilégios e regalias de que gozam as misericórdias da cidade de Angra e do Faial, determinando o Rei que, pelo dito Alvará as referidas Misericórdias de Angra e Horta lhe enviassem os traslados autênticos dos privilégios e liberdades de que gozam os irmãos das referidas instituições.
Os primeiros estatutos foram escritos em 28 de Dezembro de 1750 ficando como provedor o padre Mathias Cardoso Machado Bettencourt.
A casa da misericórdia estava em ruínas quando das crises sísmicas de 1718 e 1720, sendo nessa altura, em cumprimento de promessa, levantada uma nova Igreja que, decorrido pouco mais de um século, por estar em ruínas, foi demolida e o material aplicado na construção da nova Matriz.
A Misericórdia promovia, anualmente, as solenidades da Visitação, cujas Imagens se encontram na igreja de São Francisco e a de Passos, que ainda hoje é realizada.
Um dos objectivos da Misericórdia era a criação de um hospital, chegando a receber duas inscrições de valor nominal de 500.000 reis cada, doadas pelo barão de Castelo de Paiva.
O Hospital só veio a concretizar-se em 1960, dentro do Plano de Construções Hospitalares do País. O terreno foi adquirido pela Misericórdia, mediante expropriação judicial e foi essa instituição que o construiu, embora com a comparticipação do Estado. Entrou em funcionamento em 1 de Janeiro de 1960. Com a Revolução de Abril de 1974, passou à administração do Estado, e por lá ficou...
Inicialmente, foi escolhido para o local da construção o terreno de Santa Catarina, onde actualmente se encontra o LajeShoping, sendo o terreno do largo destinado ao edifício escolar. Não o entendeu assim o Ministro das O. P., Frederico Ulriche, quando visitou o concelho, e determinou ao então Director de Obras Públicas que o edifício hospitalar fosse construído no Largo, onde actualmente se encontra. Para isso houve que elaborar novo projecto, na Comissão de Construções Hospitalares, da autoria do Engenheiro Nina, passando o edifício de um só piso, destinado a esta vila, para a Madalena, onde a Misericórdia, recentemente criada, aproveitou os terrenos doados pelo Conselheiro Terra Pinheiro que ainda não haviam tido qualquer aplicação. Em parêntese devo acrescentar que pela criação da Misericórdia e do hospital daquela vila muito se empenhou o provedor nomeado, Jacinto Ramos, então a exercer funções profissionais na Madalena. Ambos os hospitais, com a classificação de sub-regionais e, depois, de postos clínicos, passaram a funcionar, regularmente, sob a direcção dos respectivos delegados de Saúde. O de São Roque, denominado da Rainha Santa Isabel, havia sido construído anos antes, por influência do Coronel Linhares de Lima, e ficara sob a direcção do Dr. Ávila Brasil, delegado de saúde naquele concelho.
Mas, por falta de pessoal, quer médico quer paramédico, nunca foi fácil o funcionamento dos hospitais do Pico, contando sempre com a aversão sistemática do Hospital Walter Bensaúde, da Horta.
O respectivo estatuto de funcionamento foi-se alterando até que retiraram aos estabelecimentos hospitalares do Pico a faculdade de poderem realizar partos, medida que bastante tem prejudicado a população picoense, pois obriga as parturientes a passar diversas vezes o canal para consultas da especialidade e/ou nascimentos. Tem mesmo acontecido que um ou outro parto haja acontecido durante as viagens, quer em terra quer no mar. Quantos já nasceram sobretudo no canal? Por essa razão deixou de haver natalidade na ilha e hoje todos nascem na ilha vizinha ou em outras para onde as senhoras se encaminham... Uma anomalia inconcebível nos séculos actuais.
Mas o pior vai acontecer. Qualquer pessoa atacado de doença grave durante a noite não pode ser atendida no seu domicílio nem mesmo no respectivo centro hospitalar, pois estes vão ser privados desse serviço, que passará a ser exercido no novo hospital na Madalena. Será por ficar mais perto do hospital da Horta para onde serão encaminhados os doentes mais graves? E quando o mar não permitir atravessar o canal?
Não ficam mal as perguntas: E quando acabará essa descriminação nada benéfica nem para o doente nem para o familiar que terá de o acompanhar? E para que servem os médicos de família? Qual a sua função profissional? Quantos deles, se não a totalidade, são clínicos bastante dedicados e competentes!
Não muito longe vão os tempos em que os médicos concelhios, porque na ilha só uma parte era servida por estrada, se deslocavam de dia ou de noite, a cavalo, para ir atender o doente no seu domicílio! E se a doença era grave ou exigia tratamento prolongado, quantos eram trazidos em padiolas para casas amigas, para ficarem junto do médico e assim melhor assistidos.
A saúde é o maior bem de que pode gozar qualquer indivíduo. Não brinquem com ela aqueles que, sentados em gabinetes, só promulgam medidas que beneficiam os serviços prejudicando altamente os utentes.

Vila das Lajes do Pico,
19-Jan.-2013
Ermelindo Ávila

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

SÃO SEBASTIÃO


NOTAS DO MEU CANTINHO


Trata-se de uma festividade bastante antiga, muito embora a ermida actual não seja a primitiva e já haja sido reparada eintegrada no culto duas ou três vezes. “É muito antiga a devoção que os Picoenses consagram ao Mártir São Sebastião. Talvez por isso – não devendo ser alheia a homenagem ao “Desejado” D. Sebastião – já anteriormente a 1592, existia uma ermida no local denominado hoje “São Sebastião-o-Velho”, ao saínte do lugar da Almagreira, subúrbio da Vila das Lajes, pois nesse ano Bárbara Gaspar, natural da freguesia da Santíssima Trindade (Lajes do Pico) testava em favor daquela ermida. Trata-se de um local muito aprazível, donde se desfruta um magnifico panorama da Vila. Ali possuíam alguns lajenses quintas com as respectivas casas de abrigo, onde passavam a estação calmosa. E foi numa delas, por haver pertencido à Família, que foi oferecido ao General Lacerda Machado, aquando da sua última visita à terra natal, em Setembro de 1940, um jantar ”garden-party” muito concorrido e que o ilustre lajense bastante apreciou, recordando os seus tempos de infância.
O visitador João Baptista do Amaral, que esteve na ermida no dia 29 de Novembro de 1709, deixou no livro das visitas Episcopais da Matriz da Santíssima Trindade o seguinte despacho:” Visitei as ermidas de São Sebastião e de Santa Catarina, sufragâneas a esta Matriz, ambas quase incapazes de nelas se celebrar, pela pobreza e não haver fábrica nas ditas ermidas, pelo que mando ao Rev.do. Vigário recolha as imagens a esta Matriz até que se reparem do necessário e reparado o que fica à disposição e cuidado do Rev.do Vigário, tornarão as imagens para as ditas Ermidas.”(1)
A Ermida de Santa Catarina, naturalmente porque estava junto das propriedades do Morgado Manuel Cardoso Machado Bettencourt, foi reparada e voltou ao culto. (Não refiro a questão judicial que decorreu sobre a sua propriedade). Presentemente pertence à Paróquia ou Diocese, por legado dos antigos proprietários.
A ermida de São Sebastião, no século XVIII foi transferida para a Ribeira do Meio e construída no local onde actualmente se encontra, muito embora o Autor da “História das Quatro Ilhas que formam o distrito da Horta”, haja escrito em 1871: “também no bairro da Ribeira do Meio existe uma ermida de S. Sebastião, que há anos alguns devotos ampliaram: mas apenas lhe deitaram a madeira em cima, e a abandonaram e assim se conserva.”(2). Silveira de Macedo, naturalmente, não teve conhecimento do livro da “Arca das Três Chaves”, cuja propriedade devia ser reservada à Matriz e, naturalmente por isso, não faz referência à anterior ermida no Cimo da Almagreira.
A actual ermida de S. Sebastião tem recebido alguns reparos e, durante muitos anos foi zelada pela Família de Manuel José e, depois, pela do genro Manuel da Rosa. O altar foi mais tarde totalmente construído, na década de quarenta do século passado, pelos Irmãos Rodrigues Quaresma (os Importantes como eram conhecidos) e, recentemente, recebeu novas beneficiações.
No bairro da Almagreira, como diria Silveira de Macedo, foi construída, a meio do povoado, uma ermida dedicada a Santa Isabel, a expensas do luso-americano Manuel de Brum, a qual foi totalmente restaurada, após o sismo de 9 de Agosto 1998, com projecto dos arquitectos Rui Pinto e Ana Rochel, que mereceu mais tarde honrosa classificação.
A festa da Rainha Santa Isabel, por influência do Pe. José Carlos Vieira Simplício, dali natural, beneficiou de grande incremento, introduzindo-se num dos dias o “bodo do leite”, em S.Sebastião-o-Velho, para o que foi, nos últimos anos, construída uma pequena capela onde é recolhida a Imagem da Santa portuguesa, enquanto dura o arraial, e que para ali vai em procissão festiva. Parece que a Festa de Santa Isabel está separada do Bodo de Lei, realizando-se este no mês de Agosto. Trata-se de um aprazível lugar, situado num monte donde se desfruta, como disse, agradável panorama. O bodo de Leite já entrou na tradição das festas populares. É uma festa típica única no género realizada na ilha. Os Lavradores fazem descer algumas das suas vacas leiteiras, vindas das pastagens próximas de S. Sebastião-o-velho e oferecem o leite delas extraído a todos os que ali se encontram.
A festa de Santa Isabel realiza-se no mês de Setembro e atrai àquela zona imensas pessoas, não apenas da freguesia como de diversos lugares da ilha que ali vão passar o dia em aprazível convívio numa zona fora do bulício diário e do calor que, ainda nessa época, se faz sentir.
A festa de São Sebastião tem lugar no próximo domingo, 20 do corrente, (próximo do dia litúrgico) e costuma, igualmente, atrair à Ribeira do Meio (ou Bairro da Ribeira do Meio) muitos forasteiros, uma vez que se festeja o santo protector da doença da peste; quando, na Almagreira, se reza no domingo seguinte, a festa de Santo Antão, protector dos animais, embora a Igreja lhe atribua outra intenção.
E recordo o entusiasmo que, desde estudante, o Padre José Carlos punha na realização das festas do seu lugar, apesar de nunca ter paroquiado por estes lados.
________
1) Avila,E. “Figuras & Factos”, 1993, pág.115
2) Silveira Macedo, A.L., “História das Quatro Ilhas Que Formam o Distrito da Horta”1871, III Vol. Pág.8


Vila das Lajes do Pico,
7 de Jan, 2013
Ermelindo Ávila



sábado, 12 de janeiro de 2013

Terminou o Natal chegados que somos aos Reis


NOTAS DO MEU CANTINHO


O mês de Dezembro é sempre um mês especial. Iniciam-se as comemorações natalícias. As casas preparam-se para armarem os presépios e as árvores de Natal. Os estudantes vão chegando, nem todos infelizmente, para passar as férias com as respectivas famílias.
Outrora, as festividades natalícias começavam, propriamente, no primeiro dia da novena preparatória. No entanto, o Presépio, constituído por um pequeno altar erguido na sala principal, só era armado na véspera de Natal, quando o trigo, “posto de molho” no dia de Santa Luzia (13 de Dezembro) já estava crescido.
Na véspera do Natal era uma azáfama enorme, de velhos e novos, a preparar o grande dia. Os idosos dedicavam-se à cozinha a preparar a caçoilha e a cozer as massas de trigo para o almoço do dia seguinte. Os novos encarregavam-se do Presépio: Um altarzinho, formado por dois ou três caixotes, de dimensões diferentes, uma toalha de linho que só servia no Presépio, as taças com o trigo dispostas nos degraus do altar, algumas laranjas americanas trazidas nesse dia da Quinta, e castiçais com velas para “alumiar” o Menino e os vasos com camélias.
Em algumas casas apareceu mais tarde, por influência americana, a Árvore do Natal: um pequeno pinheiro, decorado com bolas coloridas e cordões de várias cores e, quando possível, “séries” de pequenas lâmpadas eléctricas, algumas preparadas artesanalmente, pois só mais tarde é que o comércio começou a importá-las e vendê-las.
Na sala eram colocados os cartões de Boas Festas chegados dos Estados Unidos, enviados pelos familiares e amigos e portadores de alguns dollars para o jantar da festa.
Entretanto, haviam chegado, igualmente, as sacas com roupas e brinquedos para as crianças enviados pelos parentes da Diáspora, que nunca esqueciam a época festiva. E até enviavam os especiais bolos do Natal, em embalagens próprias, de lata (folha de flandres). Por vezes demorava a chegada pois era obrigatória a paragem na Horta a fim de serem inspeccionadas pela Alfândega, não houvesse contrabando...
Antes que as Festas terminassem, já estavam ensaiados e com vestes reparadas, os ranchos dos “Reizes”. E no dia 6 lá vinham eles das diversas localidades, um menino vestido de anjo, trazendo uma vara alta encimada por uma estrela, depois os três Magos, Belchior, Baltazar e Gaspar, com ceptros e coroas (eram de papelão colorido...) trajando vestes multicolores e compridos mantos a imitar os mantos reais.
Normalmente, cantavam hinos ou canções dos poetas locais, todos alusivos à ocasião.
Uma evocação simpática que se mantém em algumas localidades, ainda hoje, e que em imensas pessoas (velhas e novas) para apreciarem os trajes e escutar as loas dos Magos que, segundo um Tratadista da Sagrada Escritura, vieram dos três continentes então conhecidos na época do Nascimento do Menino Jesus: Europa, África e Ásia.
Por cá havia uns “reis” tradicionais, vindos das diversas localidades da Ilha, que todos os anos visitavam os presépios das pessoa conhecidas. Presentemente, com a facilidade de transportes, esses grupos organizam-se ainda em toda a ilha, e percorrem as igrejas e os salões, principalmente, para cantar ao Menino Jesus. Com esses grupo anda sempre um “velho”, encarregado de angariar alguns euros para fazer face às despesas dos trajes e dos transportes. Mas, ainda bem que esses ranchos aparecem. Uma bela maneira de perseverar uma tradição bastante antiga, das mais antigas que conheço, e que serve para, na sua quase ingénua pureza, recordar os Acontecimentos extraordinários de há dois mil anos.

Vila das Lajes do Pico,
2 de Janeiro de 2013
Ermelindo Ávila

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

= 2 0 1 3 =


NOTAS DO MEU CANTINHO

Há treze anos teve início o terceiro milénio da Era Cristã. Doze anos se passaram. Hoje, como disse, entramos no décimo terceiro. Uma data aziaga para os portugueses. Sempre afastaram o 13 tal como os chineses têm horror ao 8. Outros povos terão números diferentes.
Seja como for, não traz bons auspícios o ano que agora começa. Herdámos uma crise que, para nós portugueses, não será fácil afastar. Mas não só uma crise, mas várias. A crise económica resulta da crise de valores. E tanto assim que nos deixámos orientar, para não dizer governar, pelas instituições estrangeiras que hoje “dominam” Portugal. E essa crise que nos atingiu, resultou no encerramento de actividades produtoras e, consequentemente, no desemprego, na dificuldade em adquirir os bens essenciais à subsistência das pessoas, daí resultando a miséria e a fome... E a fome persiste, apesar da “criação” algo tardia dos bancos de alimentos que ultimamente surgiram num gesto de solidariedade e de inter-ajuda muito plausível.
Mas não basta ter uma sopa fornecida pela caridade pública, para sobrevivermos. Há outras necessidades vitais que importa assegurar. Os pais têm de prover o sustento dos filhos mas também preparar-lhes o futuro, com o ensino apropriado. E este parece faltar-lhes, pois fecham as escolas por falta de verbas para a sua manutenção, afastam-se os professores e, consequentemente, diminui a frequência às escolas médias e superiores. Vamos voltar a um pais de analfabetos? O tempo o dirá.
Desaparecendo os técnicos com cursos superiores e os operários habilitados e especializados como mestres nas escolas técnicas, as fábricas não podem funcionar, uma vez que a mão-de-obra utilizada será incapaz de competir com as congéneres estrangeiras.
É talvez por isso que se estão a promover as privatizações das indústrias, dos serviços públicos, e das demais instituições que contrabalançam a economia nacional.
Todo esse panorama horripilante não resulta do ano aziago mas antecedeu-o drasticamente. E não vejo forma aceitável de melhorar a situação actual.
Provocou-se a emigração mas não aquela que, de há um século para cá, se processou de maneira organizada e que serviu para trazer ao País milhares ou milhões de divisas estrangeiras, principalmente do Brasil, depois dos Estados Unidos e, mais recentemente, do Canadá. Mas os emigrantes afastaram-se em grande parte por causa da paridade do Euro.
Hoje é tudo muito diferente. A vida não permite amealhar e aqueles que partem não pensam regressar. E é, principalmente, a juventude que parte, deixando para trás uma nação sem futuro. E sem futuro, porque quase só ficam os deficientes e os velhos, que superlotam os asilos de mendicidade - hoje chamam-lhes lares da terceira idade - quase todos sem esperança de vida.
As terras estão abandonadas porque não há braços válidos que as trabalhem e a muitas delas não chegam, dada a natureza acidentada das ilhas, os meios mecânicos para as arrotear. E a importação de géneros torna-se quase impossível porque as populações não dispõem de divisas para adquirir os bens essenciais à sua subsistência. como acima refiro.
Se a juventude sai, não há a constituição de famílias novas. Não existindo estas, não haverá natalidade. Sem gente nova não haverá geração que garante a sobrevivência do futuro.
Portugal vai voltar àquilo que era há quase mil anos? É, concerteza, doloroso isso pensar mas não se pode fugir da realidade.
Naturalmente, não assistirei a essa derrocada fatal, mas não deixa de penalizar-me o que possa acontecer, no futuro, à Nação Portuguesa que tantos mundos novos deu ao mundo.
Serei pessimista neste meu “prognóstico” para o ano de 2013 ? Preferia estar enganado.
Apesar da minha maneira algo pessimista de encarar o futuro, não deixarei de aqui expressar os meus votos de um ano novo próspero e feliz, para todos os portugueses e, principalmente, como é natural, para aqueles que um dia se atreveram a povoar estas ilhas e aqui continuam.

Ilha do Pico,
Dezembro de 2012.
Ermelindo Ávila

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

ANTIGOS COSTUMES


NOTAS DO MEU CANTINHO


Há cinquenta ou sessenta anos para trás a vida destas terras eram bastante diferente. Até então, predominavam os costumes trazidos de longe, pois o isolamento dos povos era bastante acentuado. Não havia transportes regulares, nem telefones, nem rádio ou, ainda mais tarde, televisão. Só na década de vinte é que apareceu o primeiro automóvel na ilha. O isolamento era, pois, tremendo.
Os jornais, quase sempre de vida efémera e mais voltados para a política de então, raramente traziam notícias de fora. E só quando se dava um acontecimento mais grave ou de maior relevo é que publicavam um telegrama enviado por alguma agência noticiosa. E isso mesmo aconteceu ainda com a guerra de 1939-45. Já existiam os aparelhos de rádio, mas só um ou outro os possuía. Nesta vila o primeiro que aqui apareceu, veio para o Grémio Lajense e, consequentemente, pouco acessível àqueles que não eram sócios.
Mais tarde vieram as emissões dos Clube Asas do Atlântico, Rádio Clube de Angra e Emissor Regional dos Açores e, a seguir, alguns rádios. Foi então que tudo se principiou a modificar.
Voltando atrás, recordemos, os arraiais das festas religiosas, de cada freguesia ou paróquia, eram o motivo de reunião dos povos vizinhos. E era então que se encontravam amigos e conhecidos, se conversava sobre os mais diversos assuntos, individuais ou públicos, e se ficava um pouco a par do que ia acontecendo por esse mundo de Deus.
Nas épocas próprias, pelo Espírito Santo, pela festa do padroeiro, pelo Natal, ou nas matanças de porcos, é que, geralmente, se juntavam familiares e amigos e então, e nessas ocasiões, a cavaqueira prolongava-se algumas vezes pela noite dentro.
Pelo Natal, trocavam-se algumas ofertas, até mesmo de produtos da terra, havia um ou outro brinquedo para as crianças, e faziam-se licores caseiros e passavam-se figos das figueiras do quintal para servir as visitas.
Durante os Domingos Comuns, à saída das missas dominicais, encontravam-se os amigos e conhecidos e aí se trocavam cumprimentos, havia “um dedo de conversa” e até os vizinhos e conhecidos combinavam os serviços da semana. É que era habitual haver uma inter-ajuda para os trabalhos sazonais, pois só assim alguns deles se podiam realizar. Até o dia da matança de porco, um acontecimento familiar de relevo, era combinado para que não se sobrepusesse, permitindo a ajuda de familiares e vizinhos.
Logo a seguir ao Natal vinha o Carnaval, quatro semanas antes da Quaresma. Normalmente, eram festejadas as quintas-feiras: de amigos, amigas, compadres e comadres. Faziam-se filhós, convidavam-se os amigos e a noite era passada com amigos e parentes a bailar umas chamarritas. De vez em quando, apareciam alguns mascarados, que sempre havia quem se dispusesse a percorrer as casas com algum entremez num arremedo de comédia.
Em chegando à Quarta-feira de Cinzas, tudo terminava. Entrava-se na Quaresma e durante esse tempo de penitência não havia folgas, bailes ou outros quaisquer divertimentos. Quando muito ensaiava-se uma dança ou uma comédia para sair pela Páscoa. E todos respeitavam essas semanas. As pessoas vestiam de escuro quando tomavam parte nos actos religiosos, que os havia durante as Domingas quaresmais: via-sacra, procissões, e sobretudo a desobriga feita nos dias próprios de cada família: eram os chamados quartéis, anunciados nas missas do domingo anterior.
Normalmente, era no verão que se realizavam nas paróquias as festas tradicionais com arraiais, onde se exibia uma filarmónica ou duas, e se faziam as arrematações das ofertas ou promessas levadas em cumprimento de votos. Vulgarmente, uma rosquilha, uma cabeça de massa, uma perna ou um menino, consoante a promessa feita em ocasião de doença de um membro da família. Ainda hoje isso se verifica em algumas localidades, apesar do indiferentismo que se instalou nos nossos meios. É, por exemplo, o caso da festa de Nossa Senhora da Piedade, onde aparecem peças de massa sovada dos mais diversos feitios.
E era pelas festas, principalmente as do princípio do Verão, que se estreavam as peças novas de vestuário: vestidos e chapéus para o elemento feminino e fatos e chapéus para o masculino, não faltando igualmente o calçado novo.
E neste escrito recordo o Natal, uma das principais festas do ano, com as tradicionais novenas, depois as Matinas cantadas na véspera, a Noite de Natal... As saudades que ficaram desses tempos simples mas plenos de uma alegria contagiante, principalmente, quando chegava a Noite do Natal, se cantava a Missa do Galo e o Presépio armado com o estábulo, o lago com as vaquinhas, as ovelhas no monte, os pastores caminhando guiados pela estrela e, lá ao longe, os Reis Magos vindos do Oriente. Tudo tão belo!
Nas nossas casas havia o Presépio, limitado a pequeno altar com o Menino Jesus no trono, enfeitado com tacinhas de trigo verdejante e rosas.
Hoje é tudo diferente!... Tão diferente!...
Para todos, os de Casa, os assinantes e os leitores, Boas Festas do Natal !

Lajes do Pico, Dezembro de 2012.

Ermelindo Ávila 

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

EU SOU A IMACULADA CONCEIÇÃO


NOTAS DO MEU CANTINHO

Desde remotas eras, Portugal prestou culto à Imaculada Conceição.
Nesta Vila das Lajes, os franciscanos construíram seu convento junto de uma ermida que Isabel Pereira fundara, acima da Vila cerca de 1559 e lhe doara alguns foros que tinha, e no seu testamento deixara que, se algum tempo do mundo os frades de São Francisco ali quisessem fundar convento, lhe dariam a ermida com todos os foros. A ermida era dedicada a Nossa Senhora da Conceição (que ainda conheci incorporada no edifício do convento). E assim aconteceu. O convento foi fundado junto da ermida, e a Comunidade nela instalada a 31 de Agosto de 1691. Mais tarde, foi aumentado para Norte e construída a Igreja própria, igualmente dedicada a Nossa Senhora da Conceição. Foi inaugurada em 1768, mas só ficou concluída em 1804. Poucos anos depois, na noite de 1 de Fevereiro de 1830, um violento incêndio destruiu, totalmente, a igreja e seus haveres. Em 1832 foi extinto o convento, por decreto de D. Pedro de 17 de Maio. Mas o P. Francisco Salles, último guardião, conseguiu restaurar a Igreja, e nela colocar uma imagem da Imaculada, oferecida pela Misericórdia da Horta, sendo substituída, em 1906, pela actual, uma excelente escultura adquirida com donativos recolhidos pela devota Rita Carolina, uma jovem que, devido à tuberculose contraída nas andanças pelas ilhas em peditório, morreu cedo.
A devoção à Imaculada Conceição, em Portugal, é muito antiga. Em 1618, a Câmara Municipal de Lisboa mandava lavrar em pedra, nas portas principais da cidade, letreiros em que se afirmava que a Virgem Maria fora concebida sem pecado original. E “Nas cortes de 1645-1646 assentou-se em tomar por padroeira do reino a Imaculada Conceição”. (1)
Portugal, desde há longos anos, vivia a fé neste dogma mariano, tendo D. João IV consagrado o reino à Senhora da Conceição. E em 25 de Março de 1646 coroou, solenemente, a Imagem de N. Senhora da Conceição de Vila Viçosa.
A partir daí os reis de Portugal nunca mais usaram coroa.
De assinalar a construção do santuário do Sameiro, Braga, cuja primeira pedra foi benzida, a 29 de Agosto de 1869. (2)
Em 8 de Dezembro de 1864, Pio IX proclama o dogma em que declara que a Virgem foi imaculada desde a sua concepção.
Entretanto, dão-se as aparições da Virgem em Lourdes. Pela primeira vez, a 11 de Fevereiro de 1858, a Virgem aparece na Gruta de Massabielle a uma jovem, hoje Santa Bernardete, mas só na aparição de 25 de Março, dia em que a Igreja celebra a Festa da Anunciação, e depois de muitas insistências da vidente, a Aparição “Abriu então os braços e os inclinou para o solo, como para mostrar à terra suas mãos virginais, cheias de bênçãos. Depois, levantando-as para a eterna região donde desceu, em igual dia, o Mensageiro divino da Anunciação, tornou-as a juntar, fervorosamente e, olhando para o céu com sentimento dum indizível agradecimento, pronunciou estas palavras: Eu Sou a Imaculada Conceição.” (3) Confirmava assim o dogma de Pio IX.
Como acima refiro, o culto da Imaculada Conceição é muito antigo em Portugal e até mesmo nesta vila. Daí terem os franciscanos fundado seu convento junto da ermida que Isabel Pereira havia construído no cimo da vila. O convento franciscano está hoje a servir de Paços do Concelho e nele instaladas algumas repartições do Estado.
A igreja estabeleceu no calendário litúrgico o dia 8 de Dezembro como o dia da Imaculada Conceição. Outrora, era uma das solenidades maiores celebradas nesta Vila, precisamente na Igreja do antigo convento, com novenário e matinas na véspera. A partitura das matinas era uma peça clássica, com magníficos solos cantados, geralmente, por músicos excelentes convidados para o efeito. Mas tudo passou. Ficou, porém, a devoção bastante entranhada na alma do povo crente, pois conta cerca de cinco séculos. Na Matriz das Lajes, até meados do século passado, era o dia escolhido para a celebração da Comunhão Solene (primeira e única).

1) Almeida, Fortunato, “História da Igreja em Portugal”, pág. 558
2) Silva, Heitor Morais, S.J., “História dos Papas”, pág. 322
3) Lasserre, Henrique, “Nossa Senhora de Lourdes”, 1871, pág. 194
Vila das Lajes do Pico, Dezº de 2012
Ermelindo Ávila

domingo, 2 de dezembro de 2012

CULTURA MUSICAL PICOENSE


NOTAS DO MEU CANTINHO


No dia 22 do corrente mês, a Liturgia católica celebra a memória de Santa Cecília, padroeira dos músicos. É uma festividade que aqui teve início, no ano de 1947, quando o Pe. António Filipe Madruga exercia as funções paroquiais na Matriz desta vila, após o falecimento do vigário e ouvidor Pe. José Vieira Soares. A partir daí, a capela da Matriz tem procurado promover essa memória. E fê-lo no passado domingo, com a colaboração de todos os coros paroquiais do concelho.
A vila das Lajes tem, de facto, uma tradição que vem de longos anos, com a cultura da Música. Quando por cá estavam os frades franciscanos, eram eles que colaboravam nas paroquiais, cantando nas festas solenes.
Em 1677 a confraria de S. Pedro “Despendeu da pregação e música na festa do Santo aos Frades mil reis”. Os Frades eram os franciscanos, porque outros não havia por cá.
Só quando os religiosos foram expulsos é que os padres seculares tomaram a seu cuidado a música das celebrações solenes. E excelentes músicos que alguns foram. Recordo os mais recentes: Pe. António Lúcio Ribeiro, Pe. João Pereira da Terra, Pe. Domingos Ferreira da Rosa Ângelo, Pes Manuel e José Ávila, Pe. Joaquim Vieira da Rosa, Pe. José Vieira Soares e até o Pe. António Filipe Madruga, além de João Homem Machado, que fez o curso no Seminário de Macau e que em S. Bárbara, desta ilha, e depois no Rio de Janeiro, Brasil, desenvolveu apreciável actividade musical, sendo o autor da letra e música do hino da Casa dos Açores, de que foi co-fundador. Publicou um importante estudo sobre “O Folclore na Ilha do Pico”. O Pe. José Vieira, ainda seminarista, foi nomeado para o coro da Sé, dada a sua excelente voz, apurado ouvido e conhecimentos musicais. O Pe. João foi o professor de diversos, particularmente, dos Pes. Ávila e Francisco Vieira Beleza. O Pe. José de Ávila foi professor de música no seminário, e de canto coral em diversos Liceus, incluindo o Liceu Camões, em Lisboa. Foi o fundador do orfeão de Angra donde derivaram os actuais grupos orais existentes em diversas ilhas.
De justiça aqui registar o Grupo Coral das Lajes do Pico, fundado e dirigido pelo malogrado Maestro Manuel Emílio Porto, não só ensaiador e regente, como inspirado compositor, um verdadeiro artista que, além de diversos trabalhos publicados, deixou, ao que consta, centenas de partituras inéditas. Do Seminário, onde tiveram Mestres de muito valor, como o referido Pe. José de Ávila e o Dr. Edmundo Machado Oliveira, saíram muitos sacerdotes que foram bons cultores da Música e promotores dos grupos corais em diversas ilhas. Um deles foi o já referido Maestro Emílio Porto.
O Pe. Manuel José Lopes, além de bom músico, foi ensaiador e regente de algumas filarmónicas, já no tempo em que cursou o Liceu da Horta. Em São Mateus, onde exerceu as suas funções sacerdotais, fundou a Filarmónica “Lira Picoense” (salvo erro), que veio a extinguir-se com a sua saída e cujo instrumental foi vendido mais tarde para a Filarmónica da Piedade, fundada pelo Pe. Francisco Vieira Soares.
A Música tem tido bons cultores na ilha do Pico. O concelho das Lajes tem, actualmente, seis Filarmónicas e quatro delas já celebraram cem anos. A Filarmónica Liberdade Lajense, a mais antiga, foi fundada em 14 de Fevereiro de 1864.
Na década de trinta do século passado, fundou-se, nesta vila, a Orquestra Santa Cecília, por Gil Xavier Bettencourt, que deu alguns concertos com notável êxito. Como, depois, uma Tuna de apreciável valor artístico, fundada e mestrada por Manuel Vitorino Nunes Jr..
Antes havia existido a Filarmónica Artista Lajense que, durante vários anos, actuou sob a regência de Manuel Xavier Bettencourt e, depois, do filho Gil Xavier. Constituíam a Família Xavier, músicos notáveis, o que levou a Câmara Municipal, aqui há anos, a dedicar-lhe uma das ruas da Vila, hoje denominada “Rua Família Xavier – Músicos”. Mas não só os citados. Importa lembrar D. Maria Xavier, seu filho o maestro Manuel Xavier Soares, e a sobrinha D. Margarida Xavier, distintos executantes e professoras de piano, que deixaram bons discípulos.
Mas, afinal, na ilha do Pico sempre se cultivou, com muito interesse, a divina arte. Lembro as Filarmónicas Recreio dos Pastores (1904), Lira Fraternal Calhetense (1888) e Recreio Ribeirense (1900), além da Liberdade Lajense, todas já centenárias, a União Musical da Piedade (1944) e a União Ribeirense (1952) de Santa Bárbara; a União Artista de S. Roque (1880), também centenária, a Recreio União Prainhense (1934) da Prainha do Norte e a Recreio Santamarense (1931) de Santo Amaro. A Vila da Madalena tem duas Filarmónicas de elevado nível artístico: a Lira Madalenense (1897) e a União e Progresso (1879). Recentemente, foi fundada a “Lira de S. Mateus”, numa freguesia onde sempre existiram bons cultores da Música. Recordo os professores Manuel José Rodrigues e José Inácio Garcia de Lemos.
E lembro o velho e bom amigo, Manuel Cristiano de Sousa e Simas, além de Rodrigo Ferreira, na Madalena, que, foram bons executantes e inspirados compositores.
E os ranchos folclóricos que mantêm, com entusiasmo, a Música popular e que aí andam, nas festas e arraiais, a divertir o povo?! São vários os que existem na ilha do Pico. Não esqueço também a qualidade dos novos compositores, maestros e executantes das nossas filarmónicas picoenses formados nas escolas públicas, e já com excelentes provas dadas. Presentemente, temos o maestro Antero Ávila autor de alguns trabalhos relevantes. Mas é impossível todos aqui recordar.
Nestes dias em que a Padroeira da Música é lembrada, vale a pena esta pequena homenagem simples mas justa, aos cultores da Arte Musical, na ilha do Pico.

Vila das Lajes do Pico,
Nov.2012
Ermelindo Ávila

A RESTAURAÇÂO


NOTAS DO MEU CANTINHO

Aproxima-se o 1º de Dezembro. Uma data nacional que sempre foi assinalada com diversas solenidades, principalmente nas escolas, onde todos os alunos aprendiam e cantavam com entusiasmo o conhecido “Hino da Restauração”.
Aquando do duplo centenário da Independência e Restauração, em 1940, Portugal comemorou a data com diversas monumentos.
O Poeta Pe. Moreira das Neves, além de muitos poemas, a propósito, publicados na Imprensa, lançou a ideia de se construírem Cruzeiros em todos os concelhos de Portugal a registar a dupla efeméride.
Essa a razão primeira e altamente patriótica da construção do Cruzeiro que se encontra à entrada desta vila, já que a estátua que nela devia ser erguida, se desviou para outro concelho. Mas isso não vem hoje para o caso. Importa, antes, realçar o significado histórico do Cruzeiro da Restauração e Independência de Portugal. (Falta-lhe a placa indicativa que lá existia e que foi retirada, talvez por se encontrar fendida; todavia assim havia sido colocada, como, infelizmente, chegou de Lisboa.)
E tanto mais é de recordar o extraordinário feito, quanto nos custa aceitar que o histórico acontecimento vai passar ao esquecimento com a abolição do feriado comemorativo. Na realidade não se compreende que isso aconteça, quando outros de somenos importância histórica se mantêm, gaudiosamente. É caso para se perguntar: Onde está o patriotismo dos governantes portugueses?
Todos os historiadores dão relevo à Restauração de Portugal. É um feito nacional que qualquer nação se orgulharia de comemorar.
Portugal preocupa-se em manter dois feriados que assinalam revoluções internas, mas relega aquela que restaurou a independência da nação, livrando-a do jugo estrangeiro. Será que a Troika aqui também teve influência? Talvez já não importe a soberania da Nação?

*

Sob ao domínio dos Filipes a situação de Portugal, esmagado de impostos, agrava-se cada vez mais e torna-se lamentável. A Miséria do povo e o seu desenvolvimento chegam ao apogeu e começam a traduzir-se em tumultos...” (1) E há quem julgue que a história se não repete...
No dia 1 de Dezembro de 1640, pelas nove horas da manhã, os quarenta conjurados, além dos seus aderentes, em número de 120, assaltaram o Paço da Ribeira, guardado pelos castelhanos que dominavam Portugal há sessenta anos, imobilizaram o secretário da vice-rainha Duquesa de Mântua, Miguel de Vasconcelos, que estava escondido num armário, abateram-no e lançaram-no à rua. E foi então que outro Miguel, D. Miguel de Almeida, do alto do balcão principal, proclamou a liberdade da Pátria e a realeza de D. João, Duque de Bragança, aclamado como D. João IV, Rei de Portugal.
Era o fim do domínio estrangeiro. A Nação retomava a sua independência que nunca mais seria perdida. Portugal comemora esse feito glorioso há 372 anos! (2)
Será que vamos regressar a 1639 e ficar de novo subjugados por domínios estrangeiros? Surgirão novos Miguéis de Vasconcelos a trair a Pátria lusa?
Portugal vive, na realidade, momentos aflitivos. Não está iminente uma guerra de armas mas outra não menos mortífera: a subsistência das suas gentes. A derrogação dos seus direitos e prerrogativas. A ausência de respeito pelos direitos, liberdades e garantias do seu povo.
Desapareceu a época gloriosa das descobertas e conquistas. Dela ficou, quase somente, o poema de Camões. Mas esse também anda esquecido com a introdução de novas maneiras de expressar a língua pátria.
Estamos reduzidos a uma faixa de terreno na Península Ibérica, “à beira mar plantada” e a uns pináculos no meio do Atlântico, sujeitos às intempéries atmosféricas e às tropelias políticas dos governantes, até que um dia apareçam os novos traidores da Pátria.
Deixem-nos ao menos o feriado do 1º de Dezembro a recordar esses feitos e memórias gloriosas que trouxeram a Portugal a restauração e a independência.

__________

1) “Pequeno Dicionário de História de Portugal”, dirigido por Joel Serrão.
2)Serrão, Joaquim Veríssimo – “História de Portugal” Vol. V -– 1980 -

Vila das Lajes do Pico, Nov.2012
Ermelindo Ávila

Seminário de Angra 1862 – 2012



Segundo o auto lavrado pelo escrivão da Câmara Eclesiástica, José Maria Sodré, as aulas do Seminário Diocesano de Angra iniciaram-se no dia 9 de Novembro de 1862. São decorridos, portanto, 150 anos. Uma efeméride a recordar, com efusivos louvores.
Matricularam-se 26 alunos, número superior ao actual. Desses primeiros fizeram parte 8 alunos da ilha do Pico, entre eles António Lúcio Ribeiro, já viúvo e professor de ensino secundário. Frequentou o último ano e ordenou-se sacerdote, continuando nas Lajes a leccionar Latim e Latinidade.
Com a proclamação da Republica o Seminário foi extinto em Outubro de 1911, tomando o Administrador do Concelho conta das chaves, do recheio e do fundo financeiro.
Os alunos dispersaram-se: uns voltaram para as famílias e outros instalaram-se em residências particulares e recebiam aulas nas residências dos professores. Em 2 de Março de 1914, o Dr. Bernardo Almada, de acordo com o Governador do Bispado, comprou o Palácio do Barão do Ramalho. (Enquanto nele viveu não permitiu que fossem alteradas as salas que ocupava.) Aí principiou a funcionar o seminário, com a denominação de internato, pois não era permitido, pelas leis republicanas, a existência de seminários.
A população escolar voltou a crescer e a casa tornou-se pequena para a albergar. Entretanto, foi comprada uma casa no Pátio do Conde, em S. Luzia, (onde hoje existem os Serviços Meteorológicos) que passou a servir de camarata a uma parte dos alunos. Os outros ficavam numa sala por cima da sacristia da Sé. Mais tarde os teólogos instalaram-se no último andar da Casa das Senhoras Meneses. Hoje, julgo ser a seda das “Obras Católicas”.
Era penosa a deslocação, principalmente no inverno, para as camaratas. Seguia-se pela rua da Esperança e atravessava-se a Rua da Sé, com excepção do domingo. Nesse dia, não se podia ir pela rua da Esperança por causa das sessões de cinema no Teatro. Descia-se, pois, à rua da Sé e subia-se por ela, vendo as montras dos estabelecimentos comerciais, o que já não era pouco... Recolhiam às nove e meia da noite. O despertar era às 5,30 h. da manhã. Na Sé, só ficavam os mais novos e depois uma parte dos médios...
Em disciplina não havia contemplações. Os Prefeitos eram inexperientes mas exigentes. Alguns nem padres eram ainda e tratavam os alunos como “animais bravos”... Daí algumas das desistências. Em 1927 entraram para o Seminário 50 alunos. Terminaram o curso cerca de vinte!...
Diferente era o corpo docente, a quase totalidade formada em Roma. Muitos deles deixaram saudades nos alunos: recordo o Dr. Cardoso do Couto, que foi vice-reitor (reitor era o Prelado) até 1928, e professor de Filosofia, o Dr. Garcia da Rosa, professor de Português, e o P. Costa Ferreira, professor de Literatura e História (e alguns mais). Em 1928, quando ainda era vice-reitor o Dr. Couto, o Orfeão da regência do P. José de Ávila, foi a Ponta Delgada. Os seus concertos fizeram sucesso. E, depois, só uma vez foi permitida a saída ao Teatro Angrense.
Ainda na administração do Dr. Couto foi construída a camarata da Rua do Rego, que passou a ser utilizada pelos mais novos. Era a “Camarata do Dr. Couto”.
Com a entrada de novo vice-reitor, tudo se modificou ou, melhor, complicou. Os alunos, até então, não saíam com vestes talares, até porque o espírito dos antigos republicanos ainda se impunha. A partir daí, e porque a revolução de 28 de Maio havia alterado o sistema político, o novo vice-reitor impôs a saída de batina, até aos mais novos... A medida causou certa perplexidade na cidade, dado até o “isolamento” imposto. Nem era permitido o contacto, durante os passeios, com qualquer estranho... Atribulados foram os anos que se seguiram com as construções que se fizeram, muito embora tivessem permitido o albergue interno de todos os alunos.
Apesar de tudo, é de registar que o Seminário de Angra foi sempre considerado um estabelecimento de ensino superior modelar, pelo Corpo Docente que nele leccionava.
E termino aqui, pois já excedi o espaço que me foi concedido.
Vila das Lajes, 13-11-2012.
Ermelindo Ávila