domingo, 6 de outubro de 2013

O U T O N O

Notas do meu retiro


Terminou a estação calmosa que, no ano em curso, não foi de excessiva canícula. Outros anos passados foram bem piores. O Outono chegou. Outrora era a Primavera das Ilhas, com uma temperatura suave, os dias algo amenos e as noites serenas. O vento de Outono era quase imperceptível. E lá dizia a canção: “Vento de Outono / contigo estou ...”
No fim do verão e primeiras semanas de Outono, se faziam as colheitas do milho, que as do vinho já haviam passado. O mosto passara aos balseiros e, depois de fermentado, às barricas, para, em Janeiro, ser trasfegado e limpo entrando na cura.
O milho era colhido, depois de, antes lhe haver sido retirada a espiga ou bandeira para amadurecer mais rapidamente. E, depois, vinha a esfolhada, um trabalho quase sempre divertido e que reunia, ao serão, familiares e vizinhos. Hoje, são raras essas esfolhadas, pois o milho quase não se colhe para uso domésticos. A maior parte é destinado a forragem para alimentação do gado vacum. E que interessantes e alegres eram essas noites de “descascar o milho”, como por cá se dizia !
Depois de seco no forno, era “avantejado”, recolhido em arquibancos ou caixas, barricas e mais tarde em depósitos de latão, todos estes recipientes devidamente enxofrados para ser utilizado durante o ano inteiro. E casa onde havia milho para o ano era casa feliz pois a subsistência da família estava garantida. O resto vinha com o decorrer do ano: a matança do porco e a conservação dos produtos respectivos, o leite retirado da “vaca da porta” ou da cabra, a carne de vaca, pelo Natal, Páscoa e Espírito Santo, os ovos e galinhas da capoeira, e as hortaliças do quintal: couves, nabos, funchos, abóboras e bogangos, batatas brancas e doces...
Agora importa-se algum milho, para a ementa familiar, mas o mais vulgar é adquirir aquele cereal já farinado ou usar o pão de trigo das padarias. Tempos diferentes e que, por serem os de mais fácil vivência não são os melhores para a economia doméstica.
Tudo isso que quase deixou de existir, resulta do abandono dos campos, que vão regressando aos primeiros tempos do povoamento: abunda o arvoredo selvagem a assenhorear-se das terras de semeadura, como eram conhecidas. Tudo é importado. Ou quase tudo...
Mas o sistema adoptado, numa modernização de costumes, não é somente destas ilhas. Elas estão a seguir, cegamente, o que vai acontecendo por esse mundo fora, principalmente no continente português. E já ninguém fala nos serões da esfolhada ou do descascar do milho.
Vale por isso trazer aqui o que escreveu o romancista português, outrora bastante lido, Júlio Dinis ou Joaquim Guilherme Gomes Coelho (1839-1871):“...não há outros serões mais divertidos também. Ali todos se riem, todos cantam, todos se abraçam, e se beijam até; e fala-se ao ouvido, e graceja-se, dança-se, e com franqueza, se apontam defeitos, e sem ofensa se recebem censuras, e até são mais acolhidas as lisonjas; e tudo isto então, toda esta apetecível desordem, todo este abandono de etiqueta, à vista da porção sisuda da companhia, à qual a tolerância fecha desta vez excepcionalmente os olhos; e, a alumiar uma azáfama, meio festiva, meio laboriosa, apenas a luz mortiça dum modesto lampião, pendurado de uma trave do tecto ou, ainda melhor, a suave claridade do luar em tempo descoberto! (...) Cada espiga (ou maçaroca) vermelha, cada espiga de milho-rei – como por lá lhe chamam – é a sentença promulgada contra o feliz, a cujas mãos ela chegou. Cabe-lhe distribuir por toda a assembleia, ou receber de toda ela, um abraço mais ou menos apertado...”(1)
Por cá os serões eram idênticos. No século dezanove, não havia candeeiros nem velas de estearina mas as simples candeias alimentadas a óleo de peixe: albafar, toninha e até baleia. No entanto, habituados que estavam, ninguém estranhava. A folia era a mesma. E, por vezes, a lua entrava e alumiava os espaços, qualquer que eles fossem, até os saguões das casas morgadias. Tudo, porém, terminava às nove horas da noite, quando o sino da Câmara dava o toque de recolher... A partir daí ninguém podia andar na rua.
Hoje, das esfolhadas quase ninguém se lembra, infelizmente. E é pena.
_________________
1) Dinis, Júlio, “As Pupilas do Senhor Reitor”, Livraria Escolar Progredior, pág.160.
Lajes do Pico,
Setembro-2013.

Ermelindo Ávila

sábado, 5 de outubro de 2013

O CICLONE DE 1893

NOTAS DO MEU CANTINHO



Completaram-se as obras do Jardim da Baleia, como o classificam. O antigo Juncal desapareceu, bem como o rectângulo que servia de campo de jogos. Uma nova feição tomou a parte oeste da vila, dando-lhe, na verdade, outra dignidade e beleza. Mas, em nosso entender, há ainda algo a executar para que aquele espaço se torne atractivo e acolhedor. Refiro, por agora, os chamados “bancos de jardim” que se tornam indispensáveis para que as pessoas possam repousar e não nos muretes de cimento que lá abundam.
O Jardim foi possível ali implantar (faltam os canteiros e as flores para que possa ser jardim e não apenas o relvado e as árvores) porque se alteou o muro de defesa e se construiu, embora com deficiências (basta olhar para o desaparecimento dos blocos de coroamento), o troço de muralha na zona da antiga “carreira”.
O muro de defesa, propriamente dito, foi alargado e alteado, nele se construindo, a espaços, bancos de descanso. Julgo que assim ficou a vila resguardada dos temporais que, periodicamente, assolavam a parte baixa, dando maior segurança aos habitantes daquela zona.
E porque estamos já no Outono e ficou para trás o Verão, será de lembrar que, nesta mudança de estações, aconteciam, por vezes, temporais e ciclones que deixavam a parte oeste da Vila num montão de destroços.
Lembro-me do ciclone de 1936 que derrubou a muralha em frente da zona Norte da Vila sem, contudo, fazer vítimas, como o de 1893.
Diz um jornal da época, citado pelo historiador Fernando Borba: “Na madrugada de 23 (aliás 28) do mês de Agosto de 1893, o vento começou a soprar com enorme violência, do quadrante S.S.E., fazendo grandes estragos no campo. Cerca das 8 horas, como continuasse com a mesma intensidade, aniquilando inteiramente os milheirais, o digno vigário desta vila celebrou preces na igreja matriz, a que concorreram muitos fieis. (...) O acto religioso ia talvez a meio, quando as pessoas que estavam próximas à porta principal da igreja, cheias d'alvoroço, soltaram este grito aflictivo: - o mar! O vento havia avançado mais para oeste, enfurecendo as ondas que, nesta ocasião, já chegavam até à igreja”.
Importa dizer que se refere o articulista à antiga matriz, que ficava na zona onde hoje está a Capela Mor da actual matriz. Uma das minhas avós contava que o mar invadira a igreja e deixara peixes em cima dos altares!
Nessa ocasião, estavam ancorados no porto o iate S. João Baptista, o caíque Espírito Santo e o barco Bom Jesus. Os tripulantes do iate e do barco conseguiram ir a bordo e reforçar as amarrações. O mesmo não sucedeu ao caíque Espírito Santo. Nele ficou o infeliz Manuel Machado, rapaz de 20 anos, por não saber nadar, desaparecendo um pouco mais tarde.
Isto, em resumo, o que nos narra o historiador citado, baseando-se na narração do jornal “Cartão de Visita”, nº107, de 24 de Setembro de 1893. (1)
A ilha ficou devastada e foram muitas as ajudas que vieram de fora, incluindo dos Estados Unidos. D. Rosa Dabney Forbes, ao tempo, residente na Horta, importou dos Estados Unidos um barco com milho que fez distribuir pela população picoense. Para as Lajes, vieram 50 sacos que foram distribuídos por 19 famílias. Algumas delas receberam quatro sacos cada.
Outros ciclones tem havido ao longo dos tempos, mas julgo que o mais devastador foi o de 93. Precisamente, há 120 anos. Destruiu a Mouraria, a Pesqueira, e a Rua Nova da Lagoa. Além do Manuel Machado, desapareceu o comerciante João Machado Alves, que se encontrava no seu estabelecimento e do qual o mar o arrebatou. Este estabelecimento estava instalado no prédio que é, actualmente, de Serge Viallelle.
A muralha que circunda a Vila, foi construída no ano de 1914. Há cem anos portanto. Foi, erradamente, lançada muito junto da parte baixa da vila, quando o podia ter sido muito próximo da costa, recuperando-se os quintais que antes existiam e que os temporais foram conquistando para o mar. Bem reclamou o jornal “As Lages”, (que ao tempo se publicava) inclusive, o estreitamento da largura que foi sofrendo ao aproximar-se da Maré. Entretanto, ia desaparecendo o “Calhau Grosso” com a contínua retirada de pedra para construções. Os habitantes da beira-mar bem reclamavam mas de nada serviu...

(1) Boletim do Museu Etnográfico da Graciosa, nº 5. pág.103 e seg.s

Lajes do Pico,
28 de Agosto de 2013.
Ermelindo Ávila


ESTÂNCIAS DE VERANEIO

A MINHA NOTA

Ainda existem por esse Pico fora. Umas mais frequentadas do que outras, mas todas optimamente situadas em zonas de clima ameno e dispondo de boas “adegas” ou casas de veraneio. E é nesses sítios que, antes da ”despedida” para as residências próprias, os veraneantes promovem as festividades dos santos Padroeiros das respectivas ermidas que, em todo o Pico, se erguem e, cuidadosamente, são tratadas por zeladoras dedicadas.
Foram-se ou estão a terminar as festas de verão por estes sítios de lazer.
Realmente são as últimas deste Verão de 2013.
As que passaram, foram reconfortantes para quantos esperam para refazer forças gastas em trabalhos e canseiras de um ano nada ameno...
Para estes lados da Ponta, estão a terminar as lides da época. Toda a gente recolhe às adegas para acautelar o vasilhame que utilizou nas vindimas e preparar-se para a partida até às residências próprias: mas somente aqueles que não têm residência pelos lugares costeiros. É que a orla costeira da Ilha é toda constituída por lugares e sítios de veraneio, onde abundam as vinhas, nem que sejam as “americanas”.
O Pico está rodeado de sítios onde abundam as adegas ou casas de verão junto dos Currais de vinha, uma característica única em toda a ilha.
A Areia Larga era, ainda será?, uma estância de verameneio dos Faialenses. A testemunhá-lo ainda lá se encontra o solar dos Salemas. Mas outros mais por lá ficaram. Um pouco além, o Cais do Mourato, o Cachorro, o Lajido, o Cabrito, a Baía de Canas, o Canto de Santo Amaro, e, depois, a Baixa, o Cais do Galego, Calhau, a Manhenha, e por aí fora.
O mês de Setembro é o das festas da Piedade. No primeiro domingo deste mês, realizou-se a festa da Padroeira. Depois, no terceiro, é no Calhau a festa de Nossa Senhora da Boa Viagem, numa ermida construída há poucos anos para, no último, se realizar a tradicional festa de Nossa Senhora das Mercês com que se fecha o ciclo festivo. E talvez por isso, é uma das mais concorridas, não apenas pelos habitantes da própria freguesia como por outros, vindos das freguesias limítrofes.
É no dia de Nossa Senhor das Mercês, que se venera na ermida de São Tomé, que se prova o vinho novo e se oferece aos visitantes. Uma tradição simpática, que ainda se mantêm, apesar das vinhas estarem em decadência. Nem todas são assistidas, por falta de mão de obra. Além disso as castas existentes são pouco produtivas e nada compensa a sua manutenção. Por aí vão aparecendo, nas grandes e médias “superfícies”, diversas marcas de vinhos importadas, e que os consumidores vão preferindo. A Izabela só com as “Sopas do Espírito Santo”... e pouco mais.
Os lugares de veraneio vão crescendo à volta do Pico. E refiro o lugar da Manhenha onde habitam, permanentemente, algumas dezenas de famílias. O mesmo no Calhau e na Baixa. E é por isso que, dando continuidade a uma religiosidade tradicional, também vai crescendo o número de ermidas. Há poucos anos foi restaurada, felizmente digo, a ermida de Nossa Senhora da Conceição da Rocha, no Calhau, que conta quase dois séculos de existência. E está em adiantada construção a ermida que vai ser dedicada ao Papa Beato João Paulo II.
O Governador Santa Rita, no seu relatório de 23 de Dezembro de 1867, faz referência a trinta e uma ermidas existentes no Pico, incluindo nelas as igrejas de São Pedro de Alcântara e de Nossa Senhora da Conceição dos antigos conventos franciscanos. Silveira de Macedo, na “História das Quatro Ilhas”, (1871), refere 27. Actualmente, a freguesia ou paróquia da Piedade, tem cinco ermidas: Fetais, Manhenha, Cais do Galego, Calhau (2) e a nova deste sítio da Engrade, onde já se encontram alguns moradores permanentes e o número de habitações, que há poucos anos mal chegava à meia dúzia, já vai passando das três dezenas.

Engrade,
25 de Setº de 2013.


Ermelindo Ávila

sábado, 28 de setembro de 2013

A escola…

NOTAS DO MEU CANTINHO

Outrora a escola era risonha e franca, como cantava o poeta. Hoje é lugar de frequência obrigatória onde nem se conhece a antiga Cartilha de João de Deus, nem os mais adiantados sabem quais são os rios, as serras e os cabos da costa portuguesa.
O ensino está completamente modificado e já nem todos sabem muitas das coisas que faziam parte dos antigos programas do Ensino Primário. Pois nem se ensinava onde ficavam as ilhas atlânticas…
Diz-se que a D. Maria Mestra – assim era conhecida a professora D. Maria Adelaide da Silva - que lecionou nas Lajes, no princípio do Século XX, tinha um programa vasto de ensino prático e útil às moças que frequentavam a sua escola. E a ela vinham alunas da Silveira, Almagreira e Ribeira do Meio, voluntariamente.
Todas aprendiam a ler e escrever e a fazer as contas de somar, diminuir, multiplicar e dividir e até a resolver problemas de Matemática durante os tempos letivos. De tarde, a Mestra ensinava costura e a fazer rendas e bordados. E muitas aproveitavam. A algumas, de famílias mais abastadas, ensinava piano, ela que era uma grande pianista e a organista da Matriz. O mesmo é dizer: uma senhora com uma cultura pouco vulgar para a época, que a não reservava para si, mas a transmitia com prazer às alunas que o desejassem, pois o ensino não era obrigatório.
Desde meados do século XIX existiu sempre a escola do sexo masculino mas os professores pouco ligavam à profissão. Alguns deles nem iam à escola todos os dias. Tal circunstância obrigou a que, nos finais do século, o Pe. Ouvidor Xavier, ele que já fora professor em S. Jorge, abrisse uma escola na sua casa junto à Maré, e que passou a ser conhecida, pelos anos fora, como a “casa da escola”, e onde mais tarde Mestre António Fonseca teve a sua oficina de construção de botes e outras embarcações e cujo espaço foi ocupado pela actual Escola Secundária.
O P. Xavier ministrava o ensino principalmente a alunos que se destinavam ao ensino secundário: seminário e/ou liceu.
Hoje tudo é diferente, como disse, e repito o poeta.
Há professores. Há edifícios escolares magníficos, há programas abrangentes das ciências e da cultura, e não discuto se bons se maus. Há professores com cursos superiores, embora alguns deles estejam atirados para o desemprego por reformas económicas incompreensíveis. Mas, na verdade, o ensino melhorou?
Deixo a resposta para os mestres da Pedagogia.
Recordo os meus professores primários com simpatia, como alguns, nem todos infelizmente, do Secundário. A alguns destes devo o gosto pela leitura e pela escrita. Se me não tivessem estimulado e obrigado ao estudo seria quase um analfabeto…
Tive um professor de Português que nos exigia a interpretação dos Lusíadas e a decorar alguns dos seus Cantos: D. Inês de Castro, Os doze de Inglaterra e outros mais, além da própria Proposição.
A tantos anos de distância, vale a pena recordar essa juventude distante e trazer à memória tempos que já não voltam, mas que tão diferentes eram. Bons? Maus? Nem vale a pena arranjar resposta.
- Meninos vamos p´rá esquiola! Era assim que, em terra distante, os outros alunos chamavam os colegas. Vamos todos, que ainda temos muito que aprender!...

Engrade,
19-Setº.2013

Ermelindo Ávila

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

O CÉU DE ABRAÃO

Notas do meu cantinho

Assim o denominava o povo, em tempos passados, pela amenidade do clima que aqui se desfrutava. Alguns, ainda hoje, assim se referem a este lugar magnífico da Engrade, na freguesia da Piedade, pequeno recanto, outrora célebre pelo vinho Verdelho que aqui se colhia e que quase desapareceu, com a doença das vinhas ou peste da vinha, como se passou a designar a época de 1852.
O verdelho aqui produzido era de excepcional qualidade. Há, precisamente, setenta anos que por aqui ando, e ainda cheguei a assistir à vindima das poucas parreiras que resistiram ao flagelo e que acabaram por desaparecer com o decorrer dos anos. Mas o terreno ficou. E, hoje, não passa, praticamente, de uma extensa mata de arvoredo selvagem sem qualquer utilidade. A casa onde me encontro possui um balcão ou varanda em toda a sua extensão voltado a nascente e com um belíssimo panorama em frente: o mar imenso e ao fundo, lá longe, a ilha Terceira e mais perto a ilha de S. Jorge. Um regalo para as tardes de verão. Hoje pelo bardo enorme que na frente deixaram crescer, abandonando a vinha, nada se vislumbra a não ser uma pequena nesga de mar, a Norte, na frente da Calheta de São Jorge. E é só...
Todavia a Engrade tem o mérito de ser uma excelente estância de veraneio. Da meia dúzia de adegas que conheci, a Engrade é, hoje, um subúrbio da Piedade, povoado de excelentes vivendas, onde já há quem o habite todo o ano, pois as facilidades de comunicação que existem permitem estar no centro da freguesia em cinco minutos. O transito é imenso e quase todos os habitantes da próspera freguesia possuem transporte automóvel. Desapareceram os tradicionais carros de bois e os cavalos e asininos de serviço. Uma modernização aceitável e assaz louvável.
De registar, plausivelmente, que neste lugar está em adiantada construção uma pequena ermida dedicada ao Beato João Paulo II.
* * *
Há dias, precisamente no dia 8 do corrente, a paróquia celebrou a festa da Padroeira.
Outrora, era uma solenidade para a qual o respectivo pároco convidava diversos sacerdotes da ilha e alguns músicos da capela da Matriz das Lajes, que vinham auxiliar a capela local. Lembro-me de a esta pertencerem o Tomé Freitas, o José Laranjeira e outros mais cujos nomes não recordo agora. A organista era uma senhora de cá que havia estudado piano nas Lajes. Mas o órgão, um dia, desapareceu, por alegado estado de degradação.
Presentemente, a festa não teve sacerdotes estranhos, porque no concelho, ou na antiga ouvidoria não existem. O único que agora reside na zona pastoral - pois já desapareceram as seculares ouvidorias - é o que está em serviço nas paróquias da Ponta, como antigamente era conhecida esta zona da Ilha.
A Festa de Nossa Senhora da Piedade não deixou, porém, de ter larga assistência e brilhantismo.
Uma nota positiva e os parabéns para o respectivo vigário e seus paroquianos. E este merecido registo inclui, de modo especial, todos os que contribuíram com as suas oferendas para as despesas da solenidade.
Contavam-se mais de cinquenta ofertas, a quase totalidade em massa sovada (meninos, cabeças, braços, mãos e pernas...) conforme as promessas feitas e agora cumpridas. Quem não teve promessas levou os produtos da terra... Registo o facto, com agrado, e com louvores merecidos aos paroquianos da Piedade.

Engrade, 13 de Setembro de 2013

Ermelindo Ávila.

segunda-feira, 9 de setembro de 2013

DO MEU SENTIR

CÁ & LÁ


A umas dezenas de anos de distância, recordo, com um misto de saudade, esses tempos distantes em que sair de casa, deixar os pais, irmãos mais novos e outros familiares, para ir para qualquer outra ilha continuar a estudar, era um acto heróico ao qual bem poucos se atreviam.
Se para o Faial a distância era curta, mesmo assim, por lá se ficava o trimestres inteiro sem se vir a casa, muito pior era a deslocação para a Terceira ou São Miguel, as únicas três ilhas do Arquipélago que dispunham de ensinos secundários. No Pico, nas Flores ou em São Jorge não se ia além da Instrução Primária e somente quando se tinha a sorte de, na terra, estar colocado um bom professor, o que nem sempre acontecia, é que se ia até ao exame de quarta classe, que já permitia colocação em serviços públicos.
Os que não tinham essa oportunidade, caminhavam para a terra, ou para alguma oficina: pintor, carpinteiro, ferreiro ou serralheiro, caiador ou pedreiro. E, quando essa aprendizagem não era facilitada, feitos os catorze anos, caminhava-se para a pesca, quando se encontrava um mestre amigo que o incluía na sua tripulação. Muito raramente um ou outro, por ser mais “esperto” conseguia um emprego de marçano numa das mercearias, aqui ou no Faial. E era tudo o que podia acontecer.
Curso superior só para algum privilegiado. Todavia, esses que em Coimbra, e só se falava nessa Universidade, talvez por mais antiga e ser melhor o acolhimento nas “repúblicas”, conseguiam tirar um curso superior, raramente voltavam às terras de origem. Ficavam pelo continente ou fixavam-se nas capitais dos distrito insulares, “encostando-se” a algum médico ou advogado que já tinha escritório conhecido e afreguezado.
Alguns, bem poucos, iam para o Seminário de Angra mas nem todos conseguiam prosseguir o curso, por razões as mais diversas. A disciplina era algo rigorosa e pouco pedagógica. Os companheiros, oriundos das mais diversas classes sociais, nem sempre eram acolhedores e camaradas, o pessoal de serviço, rústico e muito dele mal educado. Tudo isso fazia que a debandada principiasse nas primeiras semanas da chegada e continuasse pelos anos adiante. Uma situação que os dirigentes, talvez porque igualmente deficientemente preparados na mesma escola, jamais compreenderam. E o resultado está agora visível na ausência quase total de vocações, mesmo que o funcionamento daquele estabelecimento presentemente só exista para o curso superior – teológico. E é pena. As nossas ilhas são, na generalidade, de formação católica. Nas freguesias e lugares, onde exista um núcleo habitacional, há uma igreja paroquial ou ermida preparadas com alfaias para os actos do culto, principalmente a Eucaristia ou Missa, mas nem todas têm o privilégio de nelas se celebrar a missa dominical nem em horário fixo. A falta de clero, dizem, justifica a carência. É pena...
Na época que passa, as ilhas são verdadeiras terras de missão. Urge, pois, que a anomalia seja encarada de frente e resolvida com presteza para que amanhã, num amanhã que se afigura bastante próxima, os católicos não vão caindo no indiferentismo e, principalmente aqueles que obtenham cursos superiores, enveredem por outros caminhos. É tempo de se lhes acudir, nem que sejam atraídas para estas ilhas ordens religiosas com sacerdotes professos.
Adiantei-me na apreciação de uma situação que a todos é presente? Talvez não!

LAJES DO PICO,
3 de Setembro de 2013.

Ermelindo Ávila 

RECORDANDO...

A MINHA NOTA

Até meados do século passado os hábitos e costumes das nossas gentes eram totalmente diferentes daqueles que hoje nos é dado viver.
O conflito internacional que assolou a Europa e, por acréscimo, o Mundo, modificou totalmente a vivência das pessoas, transformando a própria e ancestral civilização.
É certo que não podemos voltar atrás. A evolução social não o aconselha nem permite. Mas importa que se tomem medidas acertadas para que os povos possam, novamente, usufruir de bem estar e paz, indispensáveis ao seu desenvolvimento e ao progresso das suas iniciativas e actividades.
Hoje, os processos de trabalho são diferentes. A máquina substitui, em muitos casos, o braço humano. E daí resulta, inevitavelmente, o desemprego, o maior flagelo da actualidade, agudizado com o aumento de braços, de ambos os sexos, quando antigamente eram apenas os homens que trabalhavam fora de portas em profissões várias, pois às mulheres só era permitido desempenharem as funções de professoras e além das funções de doméstica que praticamente quase se extinguiram... Algumas delas, depois dos trabalhos domésticos, - cozinha, lavagem de roupas, costura e outras mais – acompanhavam nos campos os familiares, ajudando-os no amanho das terras. Hoje, isso não acontece. Bem?... Mal?...
***
Raro era o verão em que os pescadores locais não demandavam outros ilhas, em cujos mares existiam “marcas” ou “bancos” de peixe. No verão acontecia por vezes os barcos de pesca, aos quais se acrescentavam “bordas falsas” para melhor arrumo das bagagens, irem para os portos de S. Jorge e por vezes para os Biscoitos da Terceira, à pesca de fundo.
Acontecia também navegarem até aos bancos Princesa Alice e/ou D. João de Castro, levados por um barco motorizado, pois em qualquer deles faziam grandes pescas de “peixe de fundo”.
Um ano houve em que os pescadores locais resolveram ir até ao “Princesa Alice”, no iate “São João Baptista”, rebocado pela canhoneira “Açor”, que estacionava, normalmente, no porto da Horta. A viagem fez-se regular e quando se encontravam no auge da pescaria, um dos presentes chamou a atenção dos companheiros para abandonarem a faina e regressarem a terra, imediatamente. Os outros, apesar de serem marinheiros experimentados, não aceitaram a recomendação e continuaram a pesca. Mas eis que, senão quando, o mar principiou a agitar-se e quando saíram do banco já a tempestade se aproximava. Conseguiram, porém, chegar à costa do Faial e aí abrigar-se até ao dia seguinte, em que, com o mar mais calmo, regressaram ao porto. Da tripulação faziam parte, entre outros, António Vieira Soares (Boga), Manuel Vieira Soares, António Joaquim Madruga, todos eles, além de pescadores, hábeis baleeiros e António d´Ávila, meu avô paterno, dono e mestre dum batel de pesca.
Mesmo assim evitou-se mais uma tragédia marítima, de tantas que hão acontecido.

Lajes do Pico,
1 de Setembro de 2013.

Ermelindo Ávila

domingo, 25 de agosto de 2013

A SEMANA DAS LAJES DO PICO

NOTAS DO MEU CANTINHO

Antes era a Semana de Nossa Senhora de Lurdes. Depois foi a Semana dos Baleeiros. E até foi constituída uma sociedade por quotas para a organização das festas externas. As festas continuam com a Semana dos Baleeiros, mas a sociedade deixou de ter qualquer actividade, assumindo o Município a obrigatoriedade dos festejos externos. Isso pouco importa. Interessa aos lajenses que a Semana dos Baleeiros continue sem alterar o programa litúrgico que já vem desde 1883.

Há cento e trinta e um anos que as Lajes do Pico soleniza, de maneira distinta, a Imaculada Conceição aparecida na cidade de Lourdes, França, “a uma menina FILHA DO POVO”, no dia 11 de Fevereiro de 1858.
A devoção a Nossa Senhora de Lourdes nasceu nas Lajes do Pico, em 1882, quando o povo aflito invocou, publicamente, a Virgem em ocasião aflitiva, quando os botes baleeiros regressavam de “uma arriada à baleia” e se viram impossibilitados de entrar no porto, porque o mar alteroso lhes fechara a “carreira “ hoje desaparecida com a construção do molhe de defesa.
Os festejos externos sempre se realizaram. Basta trazer aqui o que acerca das solenidades, Dom João Paulino de Azevedo e Castro, aquele que mais procurou incrementar na alma do povo a devoção à Virgem de Massabielle, ao tempo, Vice-reitor do Seminário de Angra, escreveu no jornal angrense Peregrino de Lourdes: São nove dias bem passados. As tocantes meditações, a leitura de episódios enternecedores, as práticas edificantes comentando as palavras e circunstâncias da Aparição, a harmonia dos cânticos, a decoração do altar da Santíssima Virgem – tudo concorre para que os dias da novena sejam apetecidos do povo da freguesia e das freguesias vizinhas”.
E mais à frente: Durante o dia da festa e na véspera, as proximidades da igreja acham-se vistosamente embandeiradas, e na noite de um destes dias, conforme o tempo o permite, tem lugar uma bonita iluminação chinesa (ou venesiana)1 que atrai concurso imenso de espectadores.(...) A vila das Lajes, triste e pacata de ordinário, toma durante estes dias um aspecto risonho, alegre e animado.
Desacostumada de ver gente de fora tomar parte em suas festas desde o tempo dos capitães-móres, em que a festa anual de Corpus Christi atraía ao seu recinto, vindos de todo o concelho, uns legendários corpos de milícias armadas de chussos e espadas em atitude bélica – vê-se durante estes dias povoada de estranhos, em atitude pacífica, armados quando muito do rosário, a visitam, atraídos de todos os pontos da ilha pelo encanto da devoção à Virgem de Lourdes”.
Os tempos são outros. Modificaram-se grandemente os hábitos e costumes. A fé e a devoção a Nossa Senhora de Lourdes não se modificou. A mesma novena, a mesma pregação, os mesmos cânticos, nas celebrações litúrgicas. Um novo estilo nos festejos externos que não se estranha, pois estão de harmonia com os tempos que correm.
As semanas festivas espalharam-se por toda a parte, nas ilhas açorianas e no continente. O que importa é que decorram com ordem, paz e harmonia e sejam momentos agradáveis de encontros e de convívios.
Estamos na “Semana de Lourdes” – “Semana dos Baleeiros”, numa evocação feliz desses que foram os primeiros a invocar, publicamente, a Senhora e que ainda hoje, apesar da actividade haver terminado, continuam a prestar suas homenagens Àquela Senhora que os livrou dos perigos tantas e tantas vezes e que eles ou os familiares jamais esquecem.
Aqui deixo três quadras do cancioneiro Popular das Lajes do Pico:
Oh que água milagrosa,
Milagrosa, benta e pura
Onde os enfermos acham
Na doença pronta cura.
Tudo o que lhe devemos
De graça e de favor
É razão que lhe paguemos
Com obséquio de louvores.
Vinde vós, anjos do céu,
Vinde louvar a Mãe de Deus
Ensinai-nos a entoar
Os ternos louvores seus.


Vila Baleeira dos Açores
Agosto de 2013
Ermelindo Ávila

1 Lanterna constituída por uma armação leve inteiramente forrada de papel de cor, vendo-se a luz por transparência.

sábado, 20 de julho de 2013

AS FESTAS DA SILVEIRA

NOTAS DO MEU CANTINHO


          Até ao falecimento do Pe. Vigário e Ouvidor José Vieira Soares, em 12 de Abril de 1948, o Pe. Manuel Vieira Feliciano era cura - capelão do curato de São Bartolomeu da Silveira, sufragânio da Matriz das Lajes.
          No entanto, dada a amizade fraternal que unia os dois sacerdotes, ambos naturais da vila das Lajes e colegas do mesmo curso do Seminário de Angra, nunca se notou entre os dois qualquer desentendimento. O P. Feliciano, como era tratado, geria, sem reparo, a sua igreja com total autonomia administrativa. E foi assim que, tomando posse do lugar, em 1 de Junho de 1905, com o falecimento do anterior cura, P. Jerónimo Brum da Silveira, ali se manteve até ao falecimento, tendo conseguido antes, que, por decreto diocesano de 8 de Janeiro de 1957, o curato fosse elevado a paróquia.
          Mesmo assim não foi fácil, para o P. Vieira Feliciano, a administração do curato. A igreja paroquial, iniciada em 1878, levou dez anos a ser concluída. Todavia, ao Pe. Feliciano coube ultimar a decoração e pintura interiores, que não duraram000 muito tempo, pois um violento incêndio, ocorrido na noite de 24 de Junho de 1923, - decorria a novena preparatória para a festa de Santo Cristo - tudo destruiu. E foi o P. Feliciano que teve a coragem de reconstruir o templo, do qual só ficaram as paredes: fechá-lo, construir novos altares, o coro alto e o púlpito, e  pintá-los e dourá-los e adquirir as Imagens de devoção tradicional no antigo curato. (1) Recordo que os trabalhos de entalhamento foram executados pelo Mestre Contente, da Horta e a pintura e douramento pelo Mestre Virgínio de Simas Belém, desta vila.
          Três eram as festas principais que se realizavam na Silveira: Santo Cristo, no primeiro domingo de Julho, Mãe de Deus, a 15 de Agosto e São Bartolomeu (orago), a 24 do mesmo mês. Depois, com a aquisição das imagens de Santa Teresinha e de Nossa Senhora de Fátima - a primeira que veio para o Pico -   as respectivas festas tinham lugar  no mês de Setembro.
          Pelas Festas da Silveira tinham os lajenses uma especial dedicação. E tanto assim que, a Festa de São Bartolomeu obrigava a que a novena de Lourdes, desse dia, fosse rezada e realizada de manhã, para não evitar que os lajenses fossem à Silveira assistir à Missa solene e procissão e arraial, de tarde, abrilhantado pela Filarmónica das Lajes.
As Missa festivas eram cantadas pela Capela local, tendo a colaboração de músicos das capelas de S. João e Lajes. Tudo era feito com brilho e dignidade. Depois do incêndio foi adquirido um novo órgão. Veio de S. Jorge. Sobre o órgão diz o P. Manuel Azevedo da Cunha: ”O órgão dos Biscoitos, feito por Manuel de Serpa da Silva (da Horta) por 600$000 e chegado em 20 de Maio de 1890 (...) foi ultimamente (1924) vendido para a Silveira, Lajes do Pico.(2)
Os arraiais da Silveira eram sempre muito concorridos, principalmente pelas ofertas que os paroquianos levavam à igreja, sobressaindo as frutas diversas – uvas, maçãs, peras, etc. –eram as primeiras a aparecer e muito disputadas nas arrematações.
Na primeira festa já apareciam alguns “veraneantes”, principalmente da Horta, que na Silveira tinham suas vivendas. Os lajenses não faltavam e embora não fossem para as arrematações, iam às Missas solenes, onde apareciam oradores distintos que tinham a seu cargo o sermão da solenidade. Lembro-me de ali pregarem o Dr. Cardoso do Couto, o Dr. Garcia da Rosa, Mons. José Pereira da Silva, o ouvidor de S. Roque, Domingos Ferreira da Rosa Ângelo, o Cónego José Maria Fernandes, e outros mais. Alguns deles trazidos até à Silveira pelo Pe. António Cardoso Machado, que paroquiava na Terceira mas que, todos os anos, vinha à Silveira, sua terra natal, passar as férias.
Actualmente parece que todo esse entusiasmo dos silveirenses pelas suas festas  esfriou, deixando de realizar algumas das  tradicionais.
A terminar este arrazoado, repito o que já escrevi: Para os lajenses a Silveira passou a ser um lugar de eleição. Era ali que as famílias mais abastadas tinham suas vinhas e pomares e as respectivas casas de verão. Eram os terrenos do Sr. Faria, ali por detrás da Igreja; as casas de verão no Caminho de Baixo, da Família Machado Soares, do João de Deus, mais tarde  do comendador Fernando da Costa, da Horta, de Gilberto Castro, no Mirante, e outros mais. Quem não possuía casa de verão alojava-se em casa de amigos e conhecidos, pois o espírito de hospitalidade e de acolhimento foi sempre uma das nobres qualidades dos silveirenses. (3)
_________
1)      E. Ávila, “Figuras & Factos” (1º Vol.), pág.14 – 1993
2)       Cunha, P. Manuel de Azevedo – “Notas Históricas”, Vol.I, pág391. 1924.
3)       E. Ávila, “Crónicas da Minha Ilha”, Vol. II, pág.76, 2002



Vila das Lajes do Pico,
9 de Julho de 2013

Ermelindo Ávila

quinta-feira, 4 de julho de 2013

Cartas para longe...



Quem escreve é que sabe a dificuldade que encontra quando “lança a mão à pena...” Mas isso era antigamente...Hoje é colocar as mãos sobre o teclado do computador, já não da máquina de escrever, e deixar correr... Pois que seja.

A propósito daquele “lança a mão à pena”, veio-me à lembrança a “Carta para longe” de Armando Cortes-Rodriguesi. Actualmente, já não se escrevem cartas para as Américas e quase para parte nenhuma. Até as de negócios foram substituídas pela Internet.

No entanto, vale a pena lembrar o que escreveu o Poeta :

Maria manda dizer
o que por aí tens passado
Triste velhice de quem
Não tem os seus a seu lado.

Não te esqueças de teu pai
lembra-te sempre de mim
Adeus...adeus...que as saudades
Só à vista terão fim!”
Triste velhice de quem
não tem os seus a seu lado!

E quantos partiram para não mais voltar...Viveram envoltos numa saudade permanente, recordando “o craveiro do balcão” ou a figueira do quintal...

A saudade era tamanha que, nem a língua da nova pátria, quiseram aprender. A terra pequena e humilde, bastante distante, estava sempre presente. Recordavam os feitos de criança, os irmãos e os pais com uma saudade amarga. Aos filhos ensinaram a língua materna para que, em casa, só esse idioma se falasse...E nunca puderam voltar às pedras negras do cantinho natal...

Por c á os pais viveram, e partiram para sempre, embalados na esperança de um dia eles regressarem, porque,

Depois que daqui saíste
Nunca mais houve alegria,
Que do céu da nossa vida
Veio a noite e foi-se o dia”.

Essa gente que ficou foi envelhecendo, sempre a olhar para o horizonte, na esperança de um dia o barco voltar ao porto e trazer o seu Manuel, rico e bem trajado, a espalhar alegria e lembranças aos que deixara num dia longínquo. Mas isso raro aconteceu. O Manuel não mais voltou... Todavia,

A tua cadeira baixa
Lá está (ainda) junto à janela
Como quem ainda espera
Que te venhas sentar nela.”

Quem conseguisse reunir as cartas que se trocavam entre as famílias açorianas e os familiares que emigraram para o Brasil e, mais tarde, para os Estados Unidos, ficaria de posse de um extraordinário acervo sobre a história destas ilhas.
Muito embora não fossem assíduas as cartas, pois os meios de transporte eram raros, nem por isso deixavam de levar daqui, não só as notícias da família mas igualmente das ocorrências que se haviam dado nos tempos anteriores.
Havia escreventes habituais. Respondiam com certa graça às cartas que vinham das terras de imigração e muitas vezes aproveitavam para dar notícias da escrevente e dos acontecimentos por vezes os mais dispares. Mais assíduas eram as cartas dos Estados Unidos e do Canadá. Do Brasil eram poucas e cada vez iam rareando mais. Até havia o ditado: O Brasil é a terra dos esquecidos. E esquecidos porque, passados uns tempos, os que lá estavam imigrados, esqueciam a terra e a própria família. Poucos eram os que voltavam à terra. Que me lembre, apenas uma ou duas famílias cá vieram. Uma por cá ficou e passou a ser conhecida pela terra para onde havia emigrado.
Uma questão psicológica, que interessante seria averiguar, pois é sabido que existem nas terras de Santa Cruz imensos descendentes de açorianos, desde os históricos Casais – cerca de quarenta – que emigraram para Santa Catarina aquando das erupções vulcânicas do século dezoito e, depois, para outras regiões. Alguns deles fixaram-se mais tarde no Uruguai,
onde ainda existe uma colónia de descendentes açorianos, que há poucos anos fundou uma sociedade açoriana-uruguaia, para defesa da língua portuguesa, como rezam os respectivos estatutos.
E todos eles, quer no Brasil quer no Uruguai, tem muito orgulho em serem descendentes de gentes emigradas destas ilhas. Mas só.
Existem “Casas dos Açores” em diversas cidades do Brasil, algumas com grande actividade, como seja a “Casa dos Açores” do Rio de Janeiro.
O mesmo acontece agora no Canadá, onde se encontram dezenas de associações com sedes próprias as quais foram fundadas pelos imigrantes portugueses e açorianos. Só em Toronto, consta-me, há mais de duas dezenas.
Afinal, as Casas dos Açores proliferam por toda a parte onde se haja fixado um grupo de açorianos. A de Lisboa, por certo a mais antiga, tinha, inicialmente, a denominação de “Grémio dos Açores”, fundado em Março de 1927.
Não são de esquecer as seculares sociedades, “União Portuguesa do Estado da Califórnia”, fundada em 1880 pelo picoense António Fontes, e a “Sociedade do Divino Espírito Santo”, também fundada pelo picoense Pe. Manuel Fernandes, conjuntamente com outros imigrantes, em 1896, ambas da Califórnia. Em New Bedford existia o “Montepio Português”. Mas não somente estas. Outras mais há, como a “Casa da Saudade”.
Servem elas, meritoriamente, para conservar vivo o espírito e as tradições das terras de origem, desde as matanças de porco até às festividades do Espírito Santo, não esquecendo os Santos Padroeiros das respectivas localidades de origem.
E, não só as sedes sociais, algumas de grandeza enorme, tenha-se presente a de Mississauga, Canadá, como até os belos e modernos Templos, quase sempre providos de clero português.
De referir também a Imprensa portuguesa, mantida com entusiasmo em terras da Diáspora. É o caso da Califórnia e de Massachusetts. Só na Califórnia, até 1979, fundaram-se vinte e seis periódicos. Lá existem ainda jornais portugueses desde longa data. Outros, embora portugueses na sua origem, já utilizam a língua estrangeira.
E há ou houve programas portugueses na Rádio e na Televisão. Lembro aqui o programa Castelos Românticos iniciado em 1930 pelo nosso conterrâneo Arthur Ávila e esposa Celeste Ávila, o qual teve grande audiência entre a comunidade portuguesa da Califórnia.
E nunca mais voltaram... E os pais foram envelhecendo, sempre na esperança de um encontro que não se realizou!...

E o referido Poeta continuou a registar:

”Saudade é como o luar
Que só de noite é que brilha... “

É simples mas repleta de encanto a prece final:

A bênção de Deus te cubra
Com amor, paz e saúde
E lembra-te que a riqueza
Verdadeira é a virtude.”

A crónica acabou. “Até à vista...”


Vila das Lajes,
Junho de 2013
Ermelindo Ávila

i Côrtes Rodrigues, Armando, “Em Louvor da Humildade”- 1924