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quinta-feira, 8 de junho de 2017

AS FESTAS DO SENHOR

NOTAS DO MEU CANTINHO


         Os micaelenses, e com eles os açorianos em geral, estão a celebrar as festas em honra de Santo Cristo Milagroso. Festas centenárias, elas vivem na alma dos católicos açorianos que, em horas de amargo sofrer, muitos deles se voltam para o Santuário que alberga a Veneranda Imagem, a implorar graças, as mais diversas.
         E isso vem de há séculos.
         Recordo que uma das minhas bisavós que ainda conheci na minha infância, tinha à cabeceira da sua cama, como era habitual em muitas famílias, um quadro com a fotografia da Imagem de Santo Cristo que venerava com muita devoção. E em muitas casas, ao menos aqui no Pico, isso acontecia. Tanto assim que Imagens de Santo Cristo existem em diversas igrejas da Ilha do Pico. Conheço algumas, embora com títulos diferentes: Bom Jesus, em São Mateus, Calheta, e Criação Velha; Santo Cristo, num dos subúrbios da vila da Madalena; Senhor Jesus, na vila das Lajes e Santa Cruz das Ribeiras, e, naturalmente, outras mais, sob as mais diversas invocações.
         Assisti, pela primeira vez, às festas em louvor de Santo Cristo dos Milagres na década de sessenta, do século passado. Era, então, funcionário da Câmara Municipal da Madalena e fui representar o Município levando o respectivo estandarte, a convite da Comissão da Irmandade. Das Lajes foi meu falecido irmão Gabriel, e da Horta António Simões, então vereadores dos respectivos Municípios. Estes me lembro. Recebidos por um membro da Comissão, trataram-nos fidalgamente e ofereceram-nos, na segunda-feira, um agradável passeio às Furnas, com entrada de automóvel, no respectivo Parque, uma excepção que causou surpresa a alguns amigos que tínhamos na Ilha, pois tal deferência não era vulgar.
         Mais tarde voltei a assistir à grandiosa festa, precisamente no ano em que se iniciou a celebração de Missa Campal, no adro da Igreja do Santuário. Pela experiência anterior não me atrevi a tomar parte na longa e demorada Procissão que, na realidade, é um autêntico acto de penitência, único nos Açores, embora se possa considerar um duplo cortejo religioso e cívico. Isto sem ferir, por mínimo que seja, o espírito cristão do povo da Ilha do Arcanjo.
         Não assistirei novamente às solenidades em honra do Senhor Santo Cristo dos Milagres. A idade já não permite. Limitei-me a admirar, pelas reportagens da TV, as feéricas e esplêndidas iluminações, principalmente do frontispício da Igreja, que outras iguais não se fazem nas diversas ilhas açorianas, nem a grandiosa procissão com a Veneranda Imagem do Senhor a percorrer o secular itinerário de há séculos. E, enquanto o Senhor permitir...
         Nas diversas ilhas açorianas as festas religiosas, realizadas em muitas paróquias, são sempre as maiores. Há diversões variadas, durante vários dias, como acontece por cá com a “Semana dos Baleeiros” integrada na Festa de Nossa Senhora de Lourdes, sem dúvida das maiores da Ilha, ou da “Maré de Agosto”, em Santa Maria, da “Semana do Mar”, na Horta, ou das “Sanjoaninas” em Angra, para só estas referir, pois outras mais há actualmente. E quase todas, senão todas, estão ligadas a tradicionais solenidades religiosas. Verdadeiras provas da tradicional religiosidade do povo açoriano, bem expressas também nas festas – Coroações e Impérios – em louvor da Terceira Pessoa da Santíssima Trindade – o Divino Espírito Santo -, que estão a ocorrer nesta altura do ano.
         Os actos de penitência, por vezes bem dolorosos, que nestes dias se praticam no Santuário da Esperança, em Ponta Delgada e seus arredores, são uma extraordinária manifestação de fé e de espírito religioso dos açorianos, vivam em São Miguel, nas demais ilhas açorianas ou até mesmo na Diáspora.
         Que o Filho de Deus, Cristo Redentor, atenda os pedidos das almas carentes e a todos ajude e proteja, em suas necessidades espirituais e materiais.
        
Lajes do Pico.
14 – Maio – 2017

Ermelindo Ávila

sábado, 24 de maio de 2014

ECCE HOMO


Foi num gesto de irresponsabilidade que Pilatos apresentou Cristo à turba multa, depois de o cobrirem com um manto escarlate, O coroarem com uma coroa de espinhos e, à maneira de cetro, lhe colocarem nas mãos manietadas, uma cana verde. Afinal, um gesto de escárnio para Aquele que, sendo o Rei das gentes –Tu o disseste, respondeu a Pilatos – viera ao mundo para remir os homens da culpa de Adão.
Mas não é esta a ocasião, se bem que todas as ocasiões são apropriadas para exaltar, em palavras de retórica, a Pessoa do Divino Mestre que passou, fazendo o bem. Neste momento, desejo recordar um pouco da devoção que os povos do mundo inteiro, do Brasil e de Roma aos Açores e daqui às terras da Diáspora, principalmente Estados Unidos da América do Norte e Canadá, tributam com devoto respeito, ao Santo Cristo dos Milagres, (Ponta Delgada), ao Bom Jesus Milagroso (S. Mateus do Pico) ou ao Senhor Jesus das Preces, que tudo é o Mesmo Senhor.
Com certeza que a mais arreigada devoção daqueles que o Infante Dom Henrique mandou para estas ilhas para a povoarem, foi o Senhor Crucificado que, inicialmente, era invocado como Bom Jesus e que depois, com o aparecimento dos Crucifixos na Praia do Almoxarife, em Santa Cruz das Ribeiras e na vila das Lajes, arrojados à costa nos tempos da Reforma protestante na Inglaterra, pelos anos 1550 ou 1560, como informa Silveira de Macedo (l) passou a ser invocado como Bom Jesus das preces.
O Santo Cristo dos Milagres veio de Roma, oferecido pelo Papa a duas religiosas micaelenses, mas só foi introduzida no convento da Esperança no ano de 1541. A sua devoção foi incrementada, com a entrada de Teresa da Anunciada no convento, em 20 de Junho de l682. (2)
A devoção ao Santo Cristo dos Milagres que, actualmente, se venera no convento da Esperança, está espalhada por todo o mundo e sobretudo nas terras onde se fixaram especialmente os micaelenses que, não somente introduziram a devoção, como construíram igrejas e promovem grandes solenidades.
Mais recentemente temos, na ilha do Pico, a devoção ao Bom Jesus Milagroso, cuja imagem veio de Iguape, Estado de S. Paulo, Brasil, por volta de 1862, trazida pelo emigrante Francisco Ferreira Goulart, e cuja devoção se espalhou pelo Pico e pelas terras da Diáspora.
A propósito da Imagem, informa a Professora Dra. Maria Cecília França: “Iguape foi sem dúvida alguma o centro original da irradiação desse culto. A imagem do Bom Jesus, que é objecto da devoção dos peregrinos, que para ali afluem, vindos de tão longe, foi descoberta em 1647.” Mas antes informara: A expansão do culto ao Bom Jesus no Estado de São Paulo e fora dele é um capítulo que se prende de início à marcha do povoamento paulista desde o primeiro século da colonização portuguesa até o século XVIII. Depois, é um capítulo da história da colonização açoriana no sul do Brasil. Teve sua origem nos Açores e recebeu novo alento com a vinda dos casais açorianos para o Sul do Brasil.(3)
“Certamente, nenhum outro acontecimento, no século XIX fez movimentar o povo nas ilhas centrais do Arquipélago dos Açores como a surpresa da presença da imagem do Bom Jesus Milagroso, na freguesia de São Mateus da ilha do Pico. (...) A imagem do Bom Jesus não atraiu só o povo do Pico: o Arquipélago despertou a pouco e pouco, e as romarias em Agosto, ao calor do sol, corriam com o caudal de almas sequiosas ao encontro do Senhor. Começaram a divulgar-se as graças e milagres, que chamavam a atenção dos doentes, dos fracos, das almas famintas do sobrenatural...”(4)
Na Ilha do Pico existem três imagens do Ecce Homo: Bom Jesus Milagroso de São Mateus do Pico, Bom Jesus, da Calheta de Nesquim e Bom Jesus, da Criação Velha, e ainda Santo Cristo, dos Toledos, Madalena.
Em Lajes do Pico e Santa Cruz das Ribeiras venera-se o Senhor Jesus, ou Senhor Crucificado, cujas imagens têm a origem acima referida.
Sobre a imagem do Senhor Jesus das preces, da Vila das Lajes, escreve o autor da História das Quatro Ilhas: “No princípio de 173l chegou à vila das Lajes do Pico o doutor Luiz Homem da Costa e trouxe uma relíquia do Santo Lenho numa custódia de prata com um cristal lapidado, oferecida pela condessa do Rio Grande à confraria do Bom Jesus das preces erecta na Matriz daquela vila, e juntamente o breve de aprovação da mesma relíquia passado em Roma pelo bispo Lystrense Epifânio de Nápoles, em 1730”. (4)
A referida Imagem encontra-se no altar mor da Matriz das Lajes. É uma excelente escultura e sempre foi objecto da devoção dos lajenses que, principalmente em ocasiões de tempestades marítimas, a traziam à rua e em preces públicas, pelas ruas da vila, suplicavam que o mar não invadisse as habitações, como algumas vezes aconteceu.
E era assim quase todos os invernos, enquanto a vila não foi defendida pela muralha que, actualmente, evita a invasão dos mares ciclónicos.
Santo Cristo, Bom Jesus ou Senhor Jesus é Esse Jesus de Nazaré, Rei dos Judeus que Pilatos apresentou à multidão tresloucada e condenou à morte ignominiosa da Cruz, no alto do Calvário.
Outras Imagens do Bom Jesus ou Santo Cristo existem em diversas ilhas dos Açores, onde até o denominativo Santa Cruz, é atribuído a diversas localidades: Santa Cruz das Flores, Santa Cruz da Graciosa, Santa Cruz da Lagoa, Santa Cruz das Ribeiras, que não é possível trazê-las a este escrito.
1) Macedo, A.L. Silveira , História das Quatro Ilhas que formam o distrito da Horta, 1871, I Vol. Pág.220.
2)Pinto, Agostinho, Madre Teresa da Anunciada, Autobiografia, Perfil Espiritual, 2012, pág.49
3)França, Maria Cecília, Pequenos Centros Paulistas de Função Religiosa, Universidade de S. Paulo, 1973, I Vol. Pág 45.
4)Macedo, A.L.Silveira, O. citada.

Lajes do Pico,
Maio 2014.

E. Ávila

sábado, 20 de julho de 2013

AS FESTAS DA SILVEIRA

NOTAS DO MEU CANTINHO


          Até ao falecimento do Pe. Vigário e Ouvidor José Vieira Soares, em 12 de Abril de 1948, o Pe. Manuel Vieira Feliciano era cura - capelão do curato de São Bartolomeu da Silveira, sufragânio da Matriz das Lajes.
          No entanto, dada a amizade fraternal que unia os dois sacerdotes, ambos naturais da vila das Lajes e colegas do mesmo curso do Seminário de Angra, nunca se notou entre os dois qualquer desentendimento. O P. Feliciano, como era tratado, geria, sem reparo, a sua igreja com total autonomia administrativa. E foi assim que, tomando posse do lugar, em 1 de Junho de 1905, com o falecimento do anterior cura, P. Jerónimo Brum da Silveira, ali se manteve até ao falecimento, tendo conseguido antes, que, por decreto diocesano de 8 de Janeiro de 1957, o curato fosse elevado a paróquia.
          Mesmo assim não foi fácil, para o P. Vieira Feliciano, a administração do curato. A igreja paroquial, iniciada em 1878, levou dez anos a ser concluída. Todavia, ao Pe. Feliciano coube ultimar a decoração e pintura interiores, que não duraram000 muito tempo, pois um violento incêndio, ocorrido na noite de 24 de Junho de 1923, - decorria a novena preparatória para a festa de Santo Cristo - tudo destruiu. E foi o P. Feliciano que teve a coragem de reconstruir o templo, do qual só ficaram as paredes: fechá-lo, construir novos altares, o coro alto e o púlpito, e  pintá-los e dourá-los e adquirir as Imagens de devoção tradicional no antigo curato. (1) Recordo que os trabalhos de entalhamento foram executados pelo Mestre Contente, da Horta e a pintura e douramento pelo Mestre Virgínio de Simas Belém, desta vila.
          Três eram as festas principais que se realizavam na Silveira: Santo Cristo, no primeiro domingo de Julho, Mãe de Deus, a 15 de Agosto e São Bartolomeu (orago), a 24 do mesmo mês. Depois, com a aquisição das imagens de Santa Teresinha e de Nossa Senhora de Fátima - a primeira que veio para o Pico -   as respectivas festas tinham lugar  no mês de Setembro.
          Pelas Festas da Silveira tinham os lajenses uma especial dedicação. E tanto assim que, a Festa de São Bartolomeu obrigava a que a novena de Lourdes, desse dia, fosse rezada e realizada de manhã, para não evitar que os lajenses fossem à Silveira assistir à Missa solene e procissão e arraial, de tarde, abrilhantado pela Filarmónica das Lajes.
As Missa festivas eram cantadas pela Capela local, tendo a colaboração de músicos das capelas de S. João e Lajes. Tudo era feito com brilho e dignidade. Depois do incêndio foi adquirido um novo órgão. Veio de S. Jorge. Sobre o órgão diz o P. Manuel Azevedo da Cunha: ”O órgão dos Biscoitos, feito por Manuel de Serpa da Silva (da Horta) por 600$000 e chegado em 20 de Maio de 1890 (...) foi ultimamente (1924) vendido para a Silveira, Lajes do Pico.(2)
Os arraiais da Silveira eram sempre muito concorridos, principalmente pelas ofertas que os paroquianos levavam à igreja, sobressaindo as frutas diversas – uvas, maçãs, peras, etc. –eram as primeiras a aparecer e muito disputadas nas arrematações.
Na primeira festa já apareciam alguns “veraneantes”, principalmente da Horta, que na Silveira tinham suas vivendas. Os lajenses não faltavam e embora não fossem para as arrematações, iam às Missas solenes, onde apareciam oradores distintos que tinham a seu cargo o sermão da solenidade. Lembro-me de ali pregarem o Dr. Cardoso do Couto, o Dr. Garcia da Rosa, Mons. José Pereira da Silva, o ouvidor de S. Roque, Domingos Ferreira da Rosa Ângelo, o Cónego José Maria Fernandes, e outros mais. Alguns deles trazidos até à Silveira pelo Pe. António Cardoso Machado, que paroquiava na Terceira mas que, todos os anos, vinha à Silveira, sua terra natal, passar as férias.
Actualmente parece que todo esse entusiasmo dos silveirenses pelas suas festas  esfriou, deixando de realizar algumas das  tradicionais.
A terminar este arrazoado, repito o que já escrevi: Para os lajenses a Silveira passou a ser um lugar de eleição. Era ali que as famílias mais abastadas tinham suas vinhas e pomares e as respectivas casas de verão. Eram os terrenos do Sr. Faria, ali por detrás da Igreja; as casas de verão no Caminho de Baixo, da Família Machado Soares, do João de Deus, mais tarde  do comendador Fernando da Costa, da Horta, de Gilberto Castro, no Mirante, e outros mais. Quem não possuía casa de verão alojava-se em casa de amigos e conhecidos, pois o espírito de hospitalidade e de acolhimento foi sempre uma das nobres qualidades dos silveirenses. (3)
_________
1)      E. Ávila, “Figuras & Factos” (1º Vol.), pág.14 – 1993
2)       Cunha, P. Manuel de Azevedo – “Notas Históricas”, Vol.I, pág391. 1924.
3)       E. Ávila, “Crónicas da Minha Ilha”, Vol. II, pág.76, 2002



Vila das Lajes do Pico,
9 de Julho de 2013

Ermelindo Ávila