quinta-feira, 29 de setembro de 2016

Turismo Rural

Notas do meu cantinho

Há dias ofereceram-me um passeio pela ponta Leste da Ilha. Estive em três ou quatro freguesias e admirei o surto de desenvolvimento urbano que me foi dado apreciar ao longo do percurso. Sobretudo causou-me surpresa agradável alguns dos prédios recentemente edificados, com a particularidade de serem construídos em pedra lavrada, sem quaisquer vestígios de cimento ou cal. Uma autêntica maravilha, a fazer recordar os prédios antigos, onde a cal e muito menos o cimento entravam, mas apenas o barro da terra a segurar as taliscas
Uma das proprietárias informou-me que tinha vinte e oito camas à disposição dos visitantes e que naquele momento estavam quase todas ocupadas. Mas outros prédios, ao redor desta ilha, foram preparados para o chamado turismo Rural, uma nova modalidade que está a ser posta à disposição, principalmente do turista europeu. Disso dá testemunho o número das viagens que, durante o verão, se fizeram da Holanda para o Pico e que, sem explicação, a dar crédito à comunicação social, deixou de viajar para esta ilha, ficando somente pelas de S. Miguel e Terceira. Mas essa atitude inesperada da TUI não põe fim aos que viajam da Europa e da América para a Ilha Montanha. Há qualquer coisa de agradável que os atrai, sem grandes propagandas, a não ser aquela que transmite para o exterior a Internet.
Certo é que, não raro, quando passamos pelas estradas picoenses, do litoral ou mesmo do interior, frequentemente nos cruzamos, normalmente com casais estranhos à ilha. E examinando os mapa da ilha de que são portadores, atravessam não somente as estradas, como os caminhos vicinais e até as canadas e os trilhos, admirando as árvores, as paisagens e os panoramas, e gozando, ao que bem se julga, o clima ameno que envolve a ilha.
É interessante esta nova modalidade do turismo rural, que se está a desenvolver em todas as freguesias da ilha, mas principalmente naquelas em que a emigração deixou muitas casas desabitadas e que agora estão a ser louvavelmente aproveitadas.
O Pico, porém, não pode limitar-se unicamente ao TURISMO RURAL, pois o seu rendimento pouco mais vai além dos alugueres das camas e de uma ou outra refeição tomada nos pequenos restaurantes que todas, ou quase todas a freguesias já possuem. É interessante ver por aí, num deambular pacífico, os simpáticos turistas, mas importa retirar dessa nova actividade industrial maiores rendimentos, que beneficiem os jovens com empregos estáveis e, consequentemente, promotores de progresso e e desenvolvimento da própria economia.
É tempo de se pensar a sério na indústria hoteleira, pois não bastam os estabelecimentos de categoria diversa, que existem.
A Vila das Lajes do Pico necessita, sem demora, de estabelecimentos hoteleiros que promovam o turismo “clássico”, que possa responder às exigências de visitantes titulares de poder económico, e muitos são.
Temos restaurantes de boa categoria, mas não existem ainda, na vila e seu centro histórico, estabelecimentos que possam receber os turistas com as comunidades que alguns exigem e, para os satisfazer, necessita-se de, pelo menos, um estabelecimento hoteleiro de três ou quatro estrelas.
Vai ficar vago o edifício da Escola Secundária, com a transferência daquele serviço para as novas instalações dos Biscoitos -extra-muros, digamos.
Não será tempo de se pensar na utilização daquele grande imóvel?
Porque não utilizá-lo para um estabelecimento hoteleiro condigno? Espaço não falta. Nele podia ser instalada, ao menos, uma POUSADA DA JUVENTUDE…
Fica o alvitre.
Engrade, 12-09-2016

Ermelindo Ávila

A grande lição

Notas do meu cantinho


         Procurei, no último domingo, estar bastante calmo e aguardar o desfecho da grande “contenda”, sem sobressaltos.
Gosto de futebol. É o único desporto que me provoca certo entusiasmo, mas procuro assistir às competições que a TV nos “oferece” sem preocupações de espécie alguma. A minha idade já bastante avançada e a caminhar para o ocaso, não aconselha e nem permite grandes entusiasmos. E domingo, dispus-me a não ser diferente.
         Nunca pratiquei qualquer desporto embora saiba apreciar alguns. Nem na minha infância. Quando foi organizado o Clube Desportivo Lajense, uma instituição lajense a caminhar para o século, - criado por alvará de 28 de Abril de 1924, 92 anos são decorridos - limitava-me a ir de fugida ao “juncal” ajudar a carrear material, com outros miúdos, para a terraplanagem do futuro campo. Mas isso passou, pois outras andanças percorri...
         Nem mesmo quando andei ausente da terra-mater, por razão de estudos... Jogava o Lusitânia, o Sport Angrense, o Marítimo, entre si ou com os grupos que passavam, vindos de S. Miguel ou Madeira, mas muita vezes nem sabia o resultado, pois ver os jogos era pecado de bradar aos céus. Mas isso fica para trás, entregue ao esquecimento...
         Domingo, Portugal viveu um grande dia de futebol. A vitória da selecção nacional portuguesa empolgou toda a Nação, desde os mais altos dirigentes, e os milhares e milhares de portuguesas da Diáspora. O Mundo inteiro que acompanhava o desenrolar do Campeonato Europeu vibrou, como jamais se viu.  As bandeiras de Portugal flutuavam, em progressão, por toda a parte. As estações da Rádio e da TV transmitiam o Hino Nacional, que todos os portugueses, sem qualquer distinção – social ou política – acompanhavam com vibrante entusiasmo. Uma festa! Uma grande festa, como há muito não se via em Portugal! Aquele golo de Éder jamais será esquecido!
         O entusiasmo delirante, mas comedido, dos portugueses foi uma autêntica lição, que não pode nem deve ser esquecida. Portugal esteve unido, aos milhares, por toda a parte. Os verde-vermelho da Bandeira das Quinas, os cachecóis, os galhardetes, flutuavam, ordeiramente, em manifestação festiva. E não havia uma voz discordante: Só se ouvia PORTUGAL! Era lindo. Uma lição magnífica para toda a gente de todas as idades. Uma lição ímpar, como há muito não se via em Portugal, repito.
         Nada parecido com as manifestações arruaceiras que, de dias-a-dias, saem às ruas das cidades portuguesas, gritando “slogans” há muito “estafados” e que, por vezes, causam pejo e vergonha...
         É preciso que os portugueses não esqueçam a lição, grande lição de Domingo, que principiou ao anoitecer de domingo em Paris e continuou vinte e quatro horas depois, em terras de Santa Maria: PORTUGAL! PORTGAL! PORTUGAL!


LAJES DO PICO,
14-8-2016.

Ermelindo Ávila

Memórias da baleação

NOTAS DO MEU CANTINHO

Estão quase desaparecidos os velhos e audaciosos baleeiros que outrora tanto prestigiaram e engrandeceram esta terra. Eles andaram por toda a parte onde se estabeleceu a indústria da baleação, e agora estão esquecidos. Recordo alguns, pois de todos não é possível lembrar seus nomes: Francisco Alves, (Pé-Leve), e António Joaquim Madruga, no Cais do Pico; José Silveira Machado (Gatinho), em São Mateus do Pico; José Martiniano (Caramujo), em Santa Cruz das Flores; Manuel Carvão, na Graciosa e depois na Madeira; Manuel Moniz Barreto, na Bretanha, S. Miguel, e outros estiveram na Terceira e Santa Maria. Até em Setúbal esteve o Manuel Machadinho e o António Flores.
Restam o Museu dos Baleeiros, aqui e noutras terras, onde se praticou a actividade e algumas das elegantes baleeiras que um dia o Mestre Experiente criou, sem esquecer as regatas das antigas canoas baleeiras que vão fazendo parte dos programas das semanas festivas de diversas localidades.
Esquece-se, porém, o que representou a actividade baleeira em algumas das Ilhas e o seu importante contributo para a economia do arquipélago. Como não pode deixar de ter-se em consideração a actividade da observação de baleias - o Whale Watching -, muito embora se não a tenha em consideração, como devia, os graves prejuízos que causa às costas e aos bancos ou “marcas” de pesca local, onde esses cetáceos se vêm alimentar e absorvem toneladas de chicharros, cavalas, bonitos e outras espécies. E são os pescadores e os consumidores que estão a sofrer a falta de pexe de consumo, que se vem notando. Um alimento indispensável à subsistência dos povos e que hoje mal aparece, depois do seu comércio estar controlado por um organismo que fica à distância.
É só lembrar que o peixe pescado no porto das Lajes tem de ir à Lota, e para voltar ao posto de vendas das Lajes percorre a mínima distância de setenta quilómetros…Além disso, o pescado atingiu, com todas essas voltas, preços exorbitantes, impossíveis de serem suportados por muitas bolsas
.É tempo de serem reconsideradas todas as medidas tomadas anteriormente e, são causa permanente de todos esses atropelos prejudiciais às economias da maioria das famílias açorianas.
Deixo o momentoso problema à esclarecida consideração das entidades competentes.
A maioria do espólio baleeiro, principalmente as canoas, foram distribuídas pelos clubes navais e até por algumas juntas de Freguesia da Região, depois de adquirido pelo. Governo Regional.
Andam por aí as belas embarcações em competições desportivas, integradas nas festividades principais de cidades, vilas e freguesias.
Realmente faz gosto vê-las, em números por vezes elevados, a competir umas com as outras a ver quem chega primeiro à meta.
A febre já chegou a New Bedford, nos Estados Unidos, outrora o principal centro baleeiro do mundo, donde os picoenses trouxeram a indústria que, durante mais de um século, disse-se e repete-se, tanto valorizou a nossa economia e onde se realizam as regatas com as notáveis canoas, algumas delas recentemente construídas.
Engrade, 9 de Setembro de 2016

Ermelindo Ávila

AS FÉRIAS

NOTAS DO MEU CANTINHO

                               
         Está a chegar o mês de Agosto, anualmente dedicada a férias escolares ou profissionais. E porque de férias é o tempo normalmente destinado, durante o ano, para visitar a terra-mater, os familiares e os amigos, ou simples conhecidos. Afinal, um tempo especial, que muitos desejam aproveitar, mas que nem sempre têm possibilidades materiais para o fazer. E é pena, pois a visita à terra é sempre agradável, retemperante e  reconfortante.
         Os estudantes vão chegando de visita às famílias. Vêm de algumas ilhas dos Açores e do continente, onde frequentam as diversas faculdades e escolas superiores: Coimbra, Lisboa, Porto, Ponta Delgada, e outras mais.
          Antigamente, falar em Universidade era lembrar Coimbra dos fadistas. Actualmente, as escolas superiores estão instaladas em várias cidades onde se ministram os mais variados cursos, que não apenas medicina, direito, letras, engenharia, como há dezenas de anos.
          Os estudantes andam por aí. Vão à “praia” ou a uma pequena baía tomar banhos de mar e de sol, onde passam uma boa parte do dia. À noite frequentam as esplanadas dos restaurantes, que se abrem no verão para acolher os visitantes, ou frequentam algum festival musical que, aqui ou ali, por vezes aparece. E bem poucos se interessam pelos problemas locais. Trazem no pensamento, a colega escolhida, a profissão que pretendem exercer, a terra onde, feito o curso, desejam fixar-se. A terra-mater não interessa, pois não lhe pode oferecer uma colocação estável.
           Normalmente, quando casam, deixam de visitar a terra natal, pois há outros interesses a defender...
           Não levo a mal que a juventude de hoje, por uma razão forte da vida actual, assim pense e assim prepare o seu futuro. Mas lamento que estas ilhas, as chamadas “secundárias”, porque não têm serviços regionais dirigentes, estejam a ser “paulatinamente” abandonadas pelas respectivas populações que procuram, nos meios urbanos desenvolvidos, estabilidade social e profissional.
           Quando se criou a Região Autónoma, o projecto de Estatuto então discutido, indicava cada ilha como um todo administrativo, com organismo dirigente próprio, existindo uma entidade superior que permanecia em cada ilha durante algum tempo a presidir a esse organismo. Uma reedição do antigo juiz de fora. Julgo que seria assim. No entanto, outros pensaram diferente e a chamada maioria encontrou uma forma de manter a hegemonia política que vinha dos antigos distritos administrativos e, depois, autónomos... O resultado está à vista: o despovoamento e o atrofiamento de algumas das ilhas que só servirão para visitar na estação calmosa, está bem presente...
            Andam já por aí alguns dos estudantes picoenses, e muitos são, pois o seu número aumenta, enquanto a população diminui. Um paradoxo autêntico que  mal se sabe explicar, mas que não deixa de ser uma realidade, atestada com as dezenas, ou já centenas de casas desabitadas por essa ilha além.
            Mas não apenas os estudantes. Outros mais, jovens ou já trintões, deixam a terra para se fixarem em outros meios mais movimentados ou evoluídos, onde o andar pelas ruas pejadas de gentes, locais ou estranhas, já é uma festa... 
             O mês de Agosto, apesar da alegria dos encontros que nos proporciona, é um mês de reflexão... Devia sê-lo pelo menos. E isso pertence mais às entidades oficiais a quem incumbe encontrar o bem-estar, a prosperidade económica, o progresso e o desenvolvimento harmónico das terras que administram. Uma missão altruísta, mas por vezes bem difícil de alcançar...
             Já várias vezes abordei em escritos passados, este mesmo tema. Não faz mal repeti-lo. Água mole...

Lajes do Pico,
Julho de 2016,

Ermelindo Ávila

DOM ARQUIMÍNIO

NOTAS DO MEU CANTINHO

     

         Bem amarga foi a notícia que recebi, do falecimento do notável Bispo Dom Arquimínio Rodrigues da Costa, Prelado Emérito de Macau, e distinto picoense.
         Afinal, com o seu falecimento, fecha-se o ciclo honroso dos Bispos Picoenses que estiveram à frente da Diocese do antigo Padroado Português do Oriente, como era conhecido.
         Os católicos macaenses jamais o poderão esquecer, pois foi notável a sua acção missionária desenvolvida na antiga Cidade do Santo Nome de Deus.
          Como aluno do Seminário, desde 8 de Dezembro de 1938, revelou-se sempre estudante, sacerdote, professor e Bispo de invulgares qualidades e excepcionais dotes intelectuais. Escrevi um dia o que um seu antigo professor, Mons. Teixeira me disse no distante de 1992, e repito: ”o melhor aluno do seu curso!” Era Licenciado em Direito Canónico pela Universidade Gregoriana de Roma.
         Dom Arquimínio saiu de Macau, para dar lugar a um Bispo chinês que, ao assumir funções, quase se “apossou” do governo da Diocese. Mas voltou algumas vezes ao Oriente para tomar parte nas Conferencias Episcopais a que pertencera e a convite dos respectivos Bispos que lhe ofereciam as passagens, se bem sei. Os colegas do Episcopado não dispensavam a sua presença e a sua extraordinária competência.
         O Governo Português, ciente do Seu valor e da Obra realizada, em diversos domínios, agraciou Dom Arquimínio, com o grau de Grande Oficial da Ordem de Benemerência, em 1984, e com a Grã-Cruz da Ordem de Mérito, em 1988.
Em 13 de Setembro de 1986, a Universidade da Ásia Oriental de Macau concedeu-lhe o título de Doutor “Honoris Causa” em Filosofia.
Recolheu-se no Pico, em casa de familiares, mas estava sempre disponível para prestar qualquer serviço, mesmo que fosse de simples padre, como aconteceu durante muito tempo no curato de Santa Margarida, na freguesia vizinha de São Caetano, onde Dom Arquimínio se deslocava todas as semanas para celebrar a Missa Dominical e, antes, ensaiar a respectiva capela que executava os cantos litúrgicos. Na própria freguesia de São Mateus, sua paróquia, substituía o organista durante os actos litúrgicos, numa disponibilidade impressionante.
Mas não só. Sempre que o Prelado Diocesano estava impedido de ir a qualquer Paróquia delegava em D. Arquimínio as respectivas funções, que ele jamais recusava. E foi assim que foi o Bispo Sagrante da Matriz da Santíssima Trindade das Lajes e, em várias paróquias, ministrou o Sacramento do Crisma. Mas uma particularidade há a registar: a sua presença nas festas principais das paróquias picoenses, onde presidia às Concelebrações e, várias vezes, tinha a missão da Proclamação da Palavra. Entretanto, um dia recolheu-se a casa. A doença atingiu-o dolorosamente e manteve-o no leite alguns anos, sofrendo sem nunca o revelar. Era um santo, na prática e no exemplo de fé que nos legou.
         Dom Arquimínio, além das elevadas Funções Prelatícias, era um intelectual, orador, escritor e poeta. Não publicou livros mas o que nos deixou e a Imprensa arquivou revela, na realidade, a Sua invulgar inteligência e cultura.
         A quase totalidade do que escreveu – pastorais e outros escritos – foi recolhida, felizmente, pelo Pe. Tomás Bettencourt, no volume “Textos de D. Arquimínio Rodrigues da Costa. Bispo de Macau” devendo salientar-se um notável trabalho, arquivado no mesmo volume e que havia sido publicado no jornal “O Dever”: - “Questões Actuais -75 perguntas e 75 respostas” que principia por  “A religião diminui nas pessoas a capacidade de lutar pelos seus direitos?”
Ao Cardeal Dom José da Costa Nunes, seu antigo Bispo, dedicou alguns sonetos. Só este a revelar o estro poético do já saudoso Dom Arquimínio:
     Pérola do Oriente! Doce estância! / Como passaram céleres os dias/
     Em que a meus olhos, meiga, tu sorrias / Revestida de luz e fulgurância
    
   Parti... Mas a beleza que irradias, / Venceu dos horizontes a distância:
     Seguiu-me tua mágica fragância / E, ao longe, tu presente em mim vivias

E agora, que de novo te contemplo, / A meus olhos refulges como um templo/
Onde, ajoelhada, reza e canta a História...

Transponho teus umbrais e fico ouvindo/ O passado ao presente repetindo /
O hino triunfal da tua glória...
      (Macau, Dezembro de 1964) (1)

       Com o desaparecimento de Dom Arquimínio Rodrigues da Costa, aos noventa e dois anos – sessenta e seis de sacerdócio, e destes quarenta como Bispo – a Igreja sofre um rude golpe e a sua terra natal fica mais empobrecida de valores.
         Nestas singelas palavras, escritas com muito respeito e admiração indizível, presto humilde homenagem a um dos grandes Senhores da Igreja e da Pátria Portuguesa.

21 de Setº  de 2016
Ermelindo Ávila.
__________

1) Textos de D. Arquimínio Rodrigues da Costa , 1999, Coordenação de Pe. Tomás Bettencourt Cardoso, pág. 464.

domingo, 17 de julho de 2016

CAPELAS DO ESPÍRITO SANTO

NOTAS DO MEU CANTINHO


         Capelas ou copeiras dos Impérios, onde se realizam as festividades do Divino Espírito Santo. Elas proliferam por toda a ilha, como aliás, por todas as ilhas açorianas.
         Em ocasiões de calamidade – sismos ou temporais – que destruíram ou danificaram bastante as respectivas igrejas, era nessas pequenas capelas que se celebravam os actos do culto, enquanto a igreja não era restaurada. Foi o caso da actual paróquia da Silveira, então curato, quando em 1925,  se deu o terrível incêndio da respectiva igreja, que até derreteu a pedra, o vidro das janelas e a telha do tecto, os actos do culto passaram a ser na capela do Espírito Santo que data de 1720, ano em que se deu a última crise sísmica que assolou a ilha do Pico.
         Algumas dessas capelas são de excelente construção, merecendo das respectivas Irmandades um cuidado extremo. Como é o caso da capela da Ribeira do Meio, diariamente iluminada, e cujo adro que a circunda é praticamente o centro de reunião dos  vizinhos.
         Quem der uma volta à Ilha vai encontrar umas dezenas de capelas ou copeiras, dedicadas à Terceira Pessoa da Santíssima Trindade. Mas elas existem em todos os lugares habitados, onde anualmente se realizam os Impérios do Espírito Santo: lugares, vilas e cidades. É, v.g., o caso do Império dos Nobres, na Horta, ou dos “Quatro Cantos”, em Angra. Creio em Ponta Delgada também existirem capelas congéneres.
         Não faço referência aos Impérios da ilha do Pico, - referir os de todas as ilhas seria um trabalho exaustivo - porque esse levantamento vem sendo feito com muito acerto pelo “Jornal do Pico”, que já realizou um trabalho excelente.
         Vários têm sido os estudos realizados sobre a devoção do Espírito Santo, ou da Terceira Pessoa da Santíssima Trindade, por muitos estudiosos e eruditos escritores açorianos, devendo pôr em merecido destaque, porque me parece único, a tese de doutoramento do Revmo Vigário Geral da Diocese de Angra, Cónego Doutor Hélder Fonseca Mendes, “Do Espírito Santo à Trindade” que, na opinião do falecido Doutor Costa Garcia, foi do melhor que se publicou em Portugal sobre a devoção ao Espírito Santo.
         Depois de descrever as cerimónias festivas, diz o erudito Autor: “Vemos nos Açores as marcas de uma religião inculturada, corporal, sentimental, activa, participativa, de autogestão, com apreço pelas raízes e pela história, pela consciência de pertença, pela ligação unitária à cultura, rica de gestos, capaz de criar hábitos e costumes, que privilegia o dom e a alegria sobre a penitência e o sacrifício, pelos relatos que se contam e pela iniciação aos mais novos, pela capacidade de fazer festa, pela gratuidade, pela igualdade entre todos, pela atenção ao pobre que naquele dia é sacramentalmente incensado, pela densidade simbólica, pelas relações próximas e afectivas, pela abundância partilhada, pela admiração e reconhecimento do sagrado.(1) 
         Os impérios ou capelas  do Espírito Santo estendem-se por todas as ilhas.
         A vila das Lajes possuiu um em madeira, que não teve duração de muitos anos. Ainda se encontram fotos que o localizam em frente da Matriz, então em construção. Deve ter sido levantado depois da cisão  havida no princípio do século passado entre os irmãos da Ribeira do Meio e da Vila. Fora combinado na Irmandade que o Império do Domingo, em vez de se fazer no adro de São Francisco (os serviços paroquiais já funcionavam na Igreja do Convento) por ser acanhado, deveria passar a realizar-se no Meio da Vila. Todos concordaram, mas o certo é que, terminada a Missa, os irmãos da Ribeira do Meio, em vez de se dirigirem com os restantes para a Vila, encaminharam-se todos para a Ribeira do Meio e foram fazer o seu Império no cruzamento das ruas da Almagreira, S. Sebastião e Estrada nacional.
         Na freguesia da Piedade a primitiva capela, depois de abandonada em razão dum corte dos álamos, passou a uso particular e foi demolida com o alargamento da rua que parte do “Império”, como ainda se denomina, para o Calhau.  


Setembro 2015
Ermelindo Ávila




1) Mendes, Hélder F. , Do Espírito Santo à Trindade                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                             

É bom saber agradecer...

Notas do meu cantinho



Sempre procurai agradecer qualquer gesto, fala ou dádiva. E se nem sempre o faço, atempadamente, é porque uma razão forte me impede de fazê-lo. É o caso presente... Mas vamos ao que importa.
Três vezes visitei o Canadá. Mais propriamente Toronto. Sempre fui recebido e tratado com gentilezas tamanhas que nunca poderei esquecer. Hoje, já não posso voltar àquela jovem e progressiva Nação. Razões fortes me impedem de fazer a viagem. Àquela e a outras terras da Diáspora, como sempre foi meu desejo, embora nunca desejasse emigrar... Creio que já isto escrevi. Se o fiz, nada impede que o repita. Cito mesmo uma frase latina, que o explica: Quod abundat, non nocet.
A última vez que fui a Toronto, foi em 2007. Acompanhei o Doutor Sérgio Ávila, meu neto, no lançamento do livro “A balada das baleias” de que ele é autor, conjuntamente com o Sidónio Bettencourt e comigo.
Nessa ocasião, seguiu também o Grupo Coral das Lajes do Pico, da regência do malogrado Maestro, e brilhante musicólogo e compositor, Manuel Emílio Porto. Recordo, embora seja para esquecer, a maneira pouco... “aceitável” como a Presidente da Câmara de Toronto (nem já recordo o nome) recebeu o Grupo Coral (que talvez julgou tratar-se de um simples grupo folclórico), mandando preparar um recinto ao ar livre, embora coberto com um toldo, para a exibição do Grupo, quando este, pela sua categoria artística, merecia melhor tratamento. Mas isso também aconteceu numa cidade açoriana há anos passados. E que só revela a “incultura” musical, digamos, de quem recebeu o categorizado grupo... Mas, hoje, só refiro por acidente o aludido.
Em Toronto, por mera casualidade, assistimos à inauguração da nova sede da Casa dos Açores e foi lá que teve lugar o dito lançamento de “A Balada das Baleias”.
Nessa ocasião recebi convite da minha conterrânea que presidia à sociedade Clube Asas do Atlântico, cujos sócios eram, em boa quantidade, picoenses. E lá fui, muito gostosamente, recebido com as maiores atenções. Era um domingo e creio que se “festejava” uma “matança de porco” à maneira açoriana.
O salão estava repleto de associados e convidados, todos saboreando morcelas, torresmos, fígado e outras iguarias mais, tudo cozinhado por gentes açorianas. No palco, já preparados e “pendurados”, cinco ou seis suínos, que haviam sido abatidos para o efeito.
E enquanto o repasto continuava – lá fui encontrar muitos conhecidos, entre eles recordo ainda Monsenhor Resendes, pároco da paróquia portuguesa de Mississauga, - alguns indivíduos procediam ao leilão de pedaços – por vezes um quarto dos suínos - que alguns arrematavam para conservarem nas “arcas” domésticas.
Depois de uma pequena saudação a toda a numerosa assistência foi-me servida a refeição. Apetitosa e apreciada que foi!
Os canadianos não esqueceram este conterrâneo. Há dias duas senhoras, que residem em Toronto e por aqui passaram em visita de saudade, deixaram na minha residência uma mensagem referindo a homenagem que me prestaram em Abril, acompanhada da placa em anexo.
E com o coração nas mãos, aqui deixo a todos, os que tomaram parte na noite regional e igualmente ao Grupo de Teatro As nossas Raízes, o meu sincero, cordeal e profundo reconhecimento por tão simpática quão imerecida homenagem.
Deus lhes pague!

S/ C- em Lajes do Pico,
Junho de 2016.

Ermelindo Ávila

A CAPITAL DA CULTURA BALEEIRA...

NOTAS DO MEU CANTINHO



O site de viagens do jornal espanhol El País insere a agradável notícia de que a Vila das Lajes do Pico ficou em décimo lugar das quinze localidades melhor classificadas pela sua beleza. A jubilosa notícia não vem de cá. Vem de fora. Do estrangeiro, porque dentro de portas não havia, naturalmente, a coragem para isso afirmar.
E isso acontece porque o camartelo ainda não destruiu totalmente a sua traça primitiva. Aqui e ali foram aparecendo algumas modificações, mas o essencial foi mantido e isso valeu-lhe a classificação que o “El País” lhe atribui. Afinal, trata-se, em nosso entendimento, de um aviso sério e, mais do que oportuno para que se evitem atropelos futuros às suas características urbanísticas que ainda se conservam.
         Salvaguardar tão rico património sócio-cultural é um dever, imperioso dever, de quem assumiu a responsabilidade da administração da coisa pública.
A vila, mau grado nosso, continua com duas ou três chagas, que mais não existem. São, afinal, aqueles habitações que estão em ruínas. E volto a falar na casa da Maricas do Tomé e de outras duas ou três que, mesmo assim, são o suficiente para dar um aspecto um pouco degradante à antiga Rua Direita na vila.

É tempo, mais do que suficiente, para que o camartelo restaurador entre em acção e que as entidades públicas, a quem compete tomar as medidas de salvaguarda do património público, assumam a restaurem, ou procurem auxiliar o restauro condigno desses imóveis.
Não interessa que modifique o aspecto urbanístico, modernizando-o, mas que se tomem medidas cautelares, para que se não destrua o que os artífices – que nem engenheiros eram – foram capazes de construir. Refiro, neste momento, a “Casa do Comendador” que ostenta uma placa de 1910. Não conto a história da sua construção, mas recordo somente a beleza da sua arquitectura, obra de um simples mas inteligente carpinteiro, que a projectou a seu jeito e orientou a construção, o Mestre Francisco San Miguel da Fonseca Santos. A sua descendência está praticamente extinta, só restando uma neta. Mas a sua memória não desaparecerá, ao menos, da geração. Com mais espaço poderei referir a “história” desta construção.
A Matriz das Lajes é “projecto” do antigo Vice-Vigário e Ouvidor Pe. Francisco Xavier de Azevedo e Castro, embora sofresse alguma modificação aquando da segunda fase, digamos assim, da sua construção e conclusão.
Repare-se na casa que foi de João de Deus Bettencourt, na rua P. Manuel José Lopes, antiga rua do Poço, e que pertence actualmente à família de Clarêncio Moniz da Rosa. Foram operários lajenses que a construíram e embelezaram. A pintura interior, ainda hoje, dá testemunho do grande pintor que foi o Domingos Belém. Felizmente que parou numa família que a sabe conservar, convenientemente.
Na rua Direita, está ainda em ruínas uma casa do século XVIII, que devia ser restaurada no estilo primitivo, que ainda conserva, mas que foi incompreensivelmente abandonada, ignorando-se quem seja hoje o respectivo proprietário.
         E bem cara que ela é a quem este arrazoado escreve...
Importa conservar o piso antigo de alguns arruamentos, como é o da antiga “Ladeira da Vila” que ainda liga à bacia da Maré. Deve restaurar-se o antigo piso da Rua do Saco, pois não permite trânsito automóvel que justifique o asfalto, cobrindo indevidamente a antiga calçada, que deve ser recuperada, tratando-se presentemente de uma zona bastante frequentada pelo Turismo.
         É preciso não esquecer que habitamos a DÉCIMA das quinze mais bonitas localidades de Portugal e capital da cultura da baleia.


Lajes do Pico,
25 de Junho de 2016

Ermelindo Ávila

O verão já chegou

Notas do meu cantinho

      O verão vai chegando, embora com intermitências invernosas. Mas é o que temos de viver. Já que o inverno foi dos mais devastadores dos últimos anos.
         Com a entrada do Verão, vão aparecendo por aí os turistas estrangeiros a trazer um pouco de movimento, de vida à pacatez da terra picoense que não somente a este ou aquele sítio mais privilegiado. A Natureza é igual para todos, prodigalizando horas de conforto e bem-estar ou, por vezes, arremetidas tempestuosas que causam prejuízos materiais e trazem em sobressalto as pessoas, com a falta de segurança que lhes traz.
         Mas esqueçamos o Inverno e vamos aproveitando, de maneiras diversas, a estação calmosa que mais se faz sentir com o calor que nos traz e que obriga as pessoas a mudar de ambiente e a procurar refúgio nos lugares onde os climas são mais equilibrados e reconfortantes. E nestas ilhas, o Mar é o refúgio para quantos o podem aproveitar, nos banhos das suas águas temperadas e límpidas, actualmente assinaladas com a bandeira azul.
         Como disse, os turistas andam por aí, despreocupadamente, sem receios de ataques terroristas, gozando o bom clima destas ilhas. E o Pico é uma das ilhas que os turistas europeus, qualquer que seja a nação de origem, mais procuram. A muitos deles não interessam as instalações hoteleiras de muitas ou poucas estrelas. Vão aproveitando, aqui e ali, as habitações que se lhes oferecem. É o chamado turismo rural, que está a desenvolver-se, satisfatoriamente, com proveito para aqueles que o sabem explorar com seriedade e oportunidade, seja na Calheta, nas Pontas Negras, na Silveira ou agora na Terra Alta.
         No geral são pessoas simpáticas, que cumprimentam os residentes com gestos amáveis e, quando conversados, deixam as melhores impressões e as mais singelas opiniões acerca da terra e suas gentes.
         Mas os picoenses não vivem, presentemente, do turismo, embora já se faça sentir algo de positivo na economia local.
         Eles mantêm as suas tradições que guardam com sentido altruísta e as suas festas, ou religiosas e profanas, que vão celebrando todos os anos, principalmente as chamadas festas de verão. E elas já começaram no passado domingo, com a Festa de Santo Cristo. A 22, é a da Padroeira Santa Maria Madalena, com as festas da Vila Fronteira.
         A 6 de Agosto realiza-se nas paróquias de Calheta de Nesquim e São Mateus as solenidades do Bom Jesus. A 15, é a da Senhora da Assunção em São Caetano, ou da Mãe de Deus na Silveira e na Prainha do Norte, e a 16, a do Padroeiro da Vila de São Roque, e, no último domingo, a de Nossa Senhora de Lourdes da vila das Lajes.
         A 8 de Setembro a freguesia da Piedade celebra a Festa da sua Padroeira e, no fim do mês, é a festa da Senhora das Mercês, na Manhenha, onde se prova já o vinho novo. Mas, antes, e desde há três anos, a Engrade celebra a festa em honra de São João Paulo II, na sua nova ermida, a primeira construída na ilha e dedicada ao Papa Karol Wojtyla.
         Depois das vindimas e da celebração destas festas, os veraneantes recolhem às suas residências. E isto à volta da ilha, pois em todo o Pico se cultiva vinha e se fabrica vinho, normalmente tinto, e de várias castas, pois o antigo Verdelho há muito que desapareceu... E são poucas as freguesias onde, no mês de Setembro, não se vá até às adegas para apanhar os figos e as uvas que se produzem.
         De registar ainda a festa de São Mateus, onde se realiza o “Império”, o último do ano, em cumprimento do voto feito por ocasião da crise sísmica de 1718 e 1720 e que aquela paróquia continua a cumprir todos os anos, com dignidade e respeito por uma tradição de quase três séculos.
         A Ilha do Pico é uma terra muito procurada no verão. Vêm os turistas estrangeiros e igualmente os emigrantes. Estes, no geral, além das visitas aos familiares, procuram estar nas suas freguesias de origem por ocasião das festas locais, dando-lhes assim maior brilho. É o que acontece todos os anos. Felizmente.


Vila   das Lajes,
5-Julho-2016

Ermelindo Ávila

segunda-feira, 30 de maio de 2016

O PÃO NOSSO...

NOTAS DO MEU CANTINHO


        ... DE CADA DIA é por isso que o homem luta dia a dia. O seu trabalho tem como finalidade primária o seu sustento e da família a seu cargo.
          Felizmente que, por estes sítios, vamos entrar na semana maior em que, ao menos nesta ilha, a fome não existirá, porque a todos, válidos e inválidos, velhos e novos é distribuído o pão em abundância.
          Refiro-me, naturalmente, aos tradicionais e seculares Impérios do Espírito Santo em que o pão a todos é festivamente distribuído. Pão que pode ser rosquilhas, pão ou vésperas conforme o lugar onde se realiza um “Império”.
          Isso dá-nos alegria e coloca-nos por cima de outras terras onde, mesmo nestes dias festivos, desconhece-se o que seja um Império do Espírito Santo.
          Há anos bastantes, encontrava-me num domingo em Lisboa. À tarde sentei-me num dos bancos da Praça do Marquês, na Avenida da Liberdade. Era já tarde algo adiantada. O amigo que aguardava não chegava. Entretanto aproxima-se da Praça uma empregada de um dos hotéis que ficam nas imediações, com um saco. Sentou-se, abriu o saco, tirou pão (papos secos) e enviava os nacos para o jardim. Imediatamente, caiu um bando de pombas que se acoitavam nos beirais dos prédios vizinhos. E a Senhora explicou: estes papos secos vão às mesas dos comensais e não são utilizados. Quando os empregados os recolhem, são lançados nos recipientes de lixo, pois não voltam mais às mesas. Foi então que me lembrei de os guardar e destinar a estes pombinhos que por aqui andam...
          Os pombos tomavam, assim, parte nas refeições servidas aos hóspedes...
          E, além dos simpáticos bichinhos, quantos serem humanos não andam pelos depósitos de lixo, à procura dos restos das mesas dos ricos e apreciariam também o pão fresco que eles desprezam!
É por isso que a fome ataca tantos pobres e famintos, tantos seres humanos – os sem-abrigo - vivendo nas ruas e dormindo sobre os cartões que vão retirar do lixo, no vão de uma porta ou debaixo dum beiral, como os vi por essas terras por onde andei... Se bem que João de Deus, na sua Cartilha Maternal, já escrevia: : Minha Mãe! Debaixo daquela arcada / Passava-se a noite bem!
No número de Fevereiro do corrente ano a Revista “Além-Mar” informava: Um terço dos alimentos produzidos no mundo perde-se ou é desperdiçado durante os processos de produção e venda. 850 milhões de pessoas passam fome no mundo. 1,3 mil milhões de toneladas de alimentos são desperdiçadas todos os anos no mundo.
Portugal não está isento de culta. Segundo a citada revista, Portugal perde todos os anos um milhão de toneladas de alimentos. (1)
No período da Guerra de 1939-1945, os géneros  de primeira necessidade eram racionados. As pessoas adquiriam-nos mediante senha fornecida pelos serviços administrativo concelhios. Até mesmo a farinha de trigo. Uma excepção, porém, houve e que teve o aplauso da população: A cada irmão de Império do Espírito Santo foi fornecida a quantidade de farinha necessária para o seu “açafate”, ou seja, para cumprir o seu encargo da sua “conta” de pão, vésperas ou rosquilhas. E todos os “Impérios” foram realizados na ilha e a farinha não faltou!
Actualmente, não estamos, felizmente!, em guerra e os géneros produzidos localmente, praticamente não existem. Todavia os terrenos estão aí, cheios de arbustos, ervas daninhas, abandonados! E, como já referi em anteriores escritos, infelizmente, não há mão de obra,  que os trabalhe ou cultive, como antigamente.  Desapareceram os homens que “davam dias para fora”,ou sejam os trabalhadores rurais. Nem mesmo utilizando a maquinaria moderna eles se encontram, ou muito raramente.
Estamos nas festas ou, “as festas estão em casa”. A maior parte dos Impérios já têm as massas cozidas e nos “açafates”, para serem levadas no dia próprio para o local da distribuição, geralmente junto das pequenas capelas, dedicadas à Terceira Pessoa da Santíssima Trindade.
Na ilha do Pico,  ainda são uma dezenas acrescentadas.

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1) Revista  “Além – Mar”, Fev. 2016

Vila das Lajes,
2 de Maio de 2016.
Ermelindo Ávila