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domingo, 17 de julho de 2016

O verão já chegou

Notas do meu cantinho

      O verão vai chegando, embora com intermitências invernosas. Mas é o que temos de viver. Já que o inverno foi dos mais devastadores dos últimos anos.
         Com a entrada do Verão, vão aparecendo por aí os turistas estrangeiros a trazer um pouco de movimento, de vida à pacatez da terra picoense que não somente a este ou aquele sítio mais privilegiado. A Natureza é igual para todos, prodigalizando horas de conforto e bem-estar ou, por vezes, arremetidas tempestuosas que causam prejuízos materiais e trazem em sobressalto as pessoas, com a falta de segurança que lhes traz.
         Mas esqueçamos o Inverno e vamos aproveitando, de maneiras diversas, a estação calmosa que mais se faz sentir com o calor que nos traz e que obriga as pessoas a mudar de ambiente e a procurar refúgio nos lugares onde os climas são mais equilibrados e reconfortantes. E nestas ilhas, o Mar é o refúgio para quantos o podem aproveitar, nos banhos das suas águas temperadas e límpidas, actualmente assinaladas com a bandeira azul.
         Como disse, os turistas andam por aí, despreocupadamente, sem receios de ataques terroristas, gozando o bom clima destas ilhas. E o Pico é uma das ilhas que os turistas europeus, qualquer que seja a nação de origem, mais procuram. A muitos deles não interessam as instalações hoteleiras de muitas ou poucas estrelas. Vão aproveitando, aqui e ali, as habitações que se lhes oferecem. É o chamado turismo rural, que está a desenvolver-se, satisfatoriamente, com proveito para aqueles que o sabem explorar com seriedade e oportunidade, seja na Calheta, nas Pontas Negras, na Silveira ou agora na Terra Alta.
         No geral são pessoas simpáticas, que cumprimentam os residentes com gestos amáveis e, quando conversados, deixam as melhores impressões e as mais singelas opiniões acerca da terra e suas gentes.
         Mas os picoenses não vivem, presentemente, do turismo, embora já se faça sentir algo de positivo na economia local.
         Eles mantêm as suas tradições que guardam com sentido altruísta e as suas festas, ou religiosas e profanas, que vão celebrando todos os anos, principalmente as chamadas festas de verão. E elas já começaram no passado domingo, com a Festa de Santo Cristo. A 22, é a da Padroeira Santa Maria Madalena, com as festas da Vila Fronteira.
         A 6 de Agosto realiza-se nas paróquias de Calheta de Nesquim e São Mateus as solenidades do Bom Jesus. A 15, é a da Senhora da Assunção em São Caetano, ou da Mãe de Deus na Silveira e na Prainha do Norte, e a 16, a do Padroeiro da Vila de São Roque, e, no último domingo, a de Nossa Senhora de Lourdes da vila das Lajes.
         A 8 de Setembro a freguesia da Piedade celebra a Festa da sua Padroeira e, no fim do mês, é a festa da Senhora das Mercês, na Manhenha, onde se prova já o vinho novo. Mas, antes, e desde há três anos, a Engrade celebra a festa em honra de São João Paulo II, na sua nova ermida, a primeira construída na ilha e dedicada ao Papa Karol Wojtyla.
         Depois das vindimas e da celebração destas festas, os veraneantes recolhem às suas residências. E isto à volta da ilha, pois em todo o Pico se cultiva vinha e se fabrica vinho, normalmente tinto, e de várias castas, pois o antigo Verdelho há muito que desapareceu... E são poucas as freguesias onde, no mês de Setembro, não se vá até às adegas para apanhar os figos e as uvas que se produzem.
         De registar ainda a festa de São Mateus, onde se realiza o “Império”, o último do ano, em cumprimento do voto feito por ocasião da crise sísmica de 1718 e 1720 e que aquela paróquia continua a cumprir todos os anos, com dignidade e respeito por uma tradição de quase três séculos.
         A Ilha do Pico é uma terra muito procurada no verão. Vêm os turistas estrangeiros e igualmente os emigrantes. Estes, no geral, além das visitas aos familiares, procuram estar nas suas freguesias de origem por ocasião das festas locais, dando-lhes assim maior brilho. É o que acontece todos os anos. Felizmente.


Vila   das Lajes,
5-Julho-2016

Ermelindo Ávila

sábado, 10 de novembro de 2012

AS ESTAÇÕES DO ANO E NÃO SOMENTE...


A MINHA NOTA

São quatro as estações do ano resultantes do movimento do Sol. Toda a gente tem disso conhecimento e, na organização das suas vidas, respeita normalmente os períodos mais propícios à sua vivência. As mais apetecidas são a Primavera e o Verão, se bem que o Outono, quando normal, é por cá conhecido como a primavera das ilhas, dado o clima ameno que nos oferece. A estação mais agreste é o inverno. Difícil é, por vezes a ela resistir, pelas tempestades que ocorrem durante essa estação e pelo próprio clima: chuvas e ventos, temperaturas baixas originando doenças várias.
Este ano, porém, tudo se alterou. O verão foi curto. O Outono vem sendo chuvoso e já com frio e até as tempestades: Haja em vista o furacão de meados de Outubro, que por aqui deixou marcas destruidoras.
Aqui há duas ou três dezenas de anos era bem diferente. Tudo vinha a seu tempo. O calor no Verão, o frio no Inverno. As estações intermédias eram quase sempre de temperatura amena. Na Primavera floriam as plantas de jardim, faziam-se as sementeiras para colher no Outono. O verão era quente e obrigava a fugidas para os sítios onde a temperatura era mais fresca. É por isso que o mês de Agosto era, e ainda é, o mês das férias, pois o trabalhar é mais difícil nessa época de canícula.
No Outono se fazem as colheitas dos milhos, pois dos trigos, colhidos em Agosto, já pouco se fala. E que belas eram as desfolhadas, as quais Júlio Dinis recorda em ”As Pupilas do Senhor Reitor” (pág.181). E vale a pena recordar: Julgo que pequeno será o número de leitores que não tenha assistido a uma esfolhada na aldeia ou que, pelo menos de tradição, não saibam a índole folgazã e tranquila deste género de trabalho, do qual ninguém procura eximir-se, pois antes espontaneamente correm de toda a parte a oferecer-lhe braços.
Por estas ilhas o mesmo acontecia. E acontecia porque agora raramente acontece. A maior parte das sementeiras de milho são destinadas à ensilagem.
E quem não recorda os serões de Inverno? A família reunida, cada qual com os seus trabalhos, ou escutar a leitura de um velho romance, de folhas já muito gastas de tanto ser usado, ou os contos ou “casos” contados ou recontados pelos mais velhos, enquanto o elemento feminino se ocupava em cardar, fiar e tecer as lãs colhidas em Setembro ou, mais recentemente, a fazer rendas ou tricô.
Não havia mobílias. Quando muito um arquibanco que servia também de “guarda-roupa”. Era na esteira de junco que a miudagem se sentava.
O ambiente era tépido porque o calor provindo do lar ou do forno estendia-se por toda a casa. Até mesmo porque o serão era feito na própria cozinha, o compartimento da casa onde a família, geralmente, se reunia, pois os outros compartimentos, bem poucos por vezes, só serviam de dormitórios... Na cozinha, primitivamente afastada da casa por causa dos incêndios, havia o lar e o forno e, num espaço algo afastado dessa zona com chão de madeira, ficava a mesa das refeições e os bancos para o descanso.
Actualmente, as habitações são providas de lareiras na própria sala de estar, ou de aquecedores eléctricos. Nas cozinhas, ficam os electrodomésticos e as bancas onde se confeccionam os alimentos. Há, quando possível, a mesa simples para os “pequenos almoços”.
Por esse Pico além, ainda existem as antigas moradias somente providas com as tradicionais cozinhas. No entanto, tudo se vai modificando e as habitações novas já dispõem de espaços modernos com todo o conforto que é possível imaginar-se.
Deixem-me, no entanto, recordar, na singeleza do meu rabisco, estas velharias, pois outros mais adestrados – os escritores que agora abundam – saberão melhor dizer e escrever da vida moderna que os rodeia.

Vila das Lajes,
Outº 2012
Ermelindo Ávila