sábado, 28 de julho de 2012

EMBELEZAMENTO DA VILA


 
          Vão caminhando regularmente os trabalhos de alargamento do muro de defesa da vila, junto ao antigo campo de jogos. Não são muitos os trabalhadores que a empresa empreiteira ali tem mas, mesmo assim, não vale a pena ficarmos na apreciação do caso, pois desconhecemos as clausulas contratuais estabelecidas entre o Município e o empreiteiro.
          Julgo que a obra tem garantida a ajuda financeira da Comunidade Europeia e, consequentemente, é para ir até ao fim.
          Com a execução daquela obra fica a parte marítima da vila um tanto embelezada. Mas importa promover um arranjo conveniente junto da escola primária, abrindo-se um pequeno arruamento da rua Família Xavier até à rua P. Xavier Madruga, o que virá a permitir a construção de alguns prédios urbanos, além de um conveniente traçado urbano. Pena é que fossem permitidas construções urbanas que agora impedem a ligação da rua do Saco e rua Nova (Rua D. João Paulino) com o actual largo Edmundo Machado Ávila.
          Mas a rua Direita (Capitão-Mór Garcia Gonçalves Madruga) também carece que sobre ela se lhe lance um “olhar de misericórdia. Alguns prédios estão em ruína total. E eles têm a sua história. Um deles é o prédio mais antigo da vila. No princípio do século XVIII já residia nele uma Família que só o deixou de habitar a meados do século passado. Consequentemente tem mais de trezentos anos. Pertence ao património histórico da vila e merece um tratamento condizente com a sua  ancestralidade.
          Um pouco a seguir encontram-se as ruínas, assim lhe pudemos chamar, da antiga “Pensão Velha”. Perdeu a torre e o tecto há poucos anos. O frontispício, ou alçado principal, ainda conserva um aspecto razoável.  Impõe-se o seu restauro. Julgo que a Câmara, utilizando os poderes que lhe confere (ia) a Lei, podia tomar as necessárias providências para acabar com aquela triste situação.     
Neste semanário foi publicado, em 10 de Maio do corrente ano o Edital n.º 30/2012, da Câmara Municipal deste concelho anunciando o “Concurso público para a alienação do imóvel globalmente identificado como a “Casa Mariquinhas Tomé”. As propostas dos possíveis interessados deveriam ser entregues no Município até ao dia 28 de Junho. Não sei nem procurei saber se houve ou não concorrentes. Se os houve, folgo com isso pois será uma das soluções para tão gritante problema urbano da Vila. Se os não houve, o assunto é de grande melindre e só a Câmara Municipal pode, e deve, encontrar  os meios necessários para que aquela monstruosidade se transforme num prédio elegante, útil e a servir  a vila com dignidade. Não deve ser demolido, mas restaurado. Foi construído nos finais do séculos XVIII, princípios do século XIX por João Pereira de Lacerda e, depois, adquirido por  José Joaquim Machado, pai da Maricas do Tomé (Tomé, do marido Tomé Vieira Alves), que já nela vivia em 1888.
          E tão “rica” de cantaria é que perdeu há anos o tecto, mas as paredes exteriores e os alçados interiores conservam-se inalteráveis. E para o Leste não lhe falta espaço para uma possível ampliação.
          Para alugar a casa restaurada não faltariam, com certeza, interessados.
          A antiga “Casa da Feliciana”, a meio da rua Machado Serpa, fazendo canto com a rua de Olivença, está em ruínas. O lado norte perdeu o tecto há poucos anos e a parede do Sul há muito que está em ruínas. Impõe-se o apeamento e o arranjo do espaço onde se encontra  um dos “Passos” que ainda existem na vila, utilizados durante a procissão anual do Senhor dos Passos.  Tal como na “Pensão Velha”, a Câmara também pode aqui usar dos meios legais para  exigir o melhoramento que se impõe.
          O taipal que “esconde” a “Casa da Maricas do Tomé”, não pode nem deve continuar. Demais, aquele taipal só embaraça o trânsito, permitindo o estabelecimento de veículos em “espinha”, uma situação incompreensível na época que decorre.         
          A vila merece outra dignidade. Não foi aqui que o Pico começou?

Vila das Lajes,
16-Julho-2912
Ermelindo Ávila
        

domingo, 22 de julho de 2012

Quando é homenageada a memória do Pe. António Cardoso ?




Há muito que trago em mente a figura do Pe. António Cardoso, antigo condiscípulo e pároco e ouvidor que foi da Matriz da Santíssima Trindade desta vila.
        Chegou o momento de quebrar o silêncio. E recordo-o aqui como acto de justiça que merece a sua memória.
        O Pe. António Cardoso era natural da freguesia da Criação Velha, onde nasceu a 7 de Julho de 1919. Desta ilha, mas criança passou a residir na Matriz da Horta, para onde mudou a residência e a família.
        Frequentou o Seminário de Angra e foi ordenado sacerdote em 16 de Junho de 1940. Celebrou a primeira Missa na Matriz da Horta e aí ficou de coadjutor de Mons. José Pereira da Silva até à nomeação para pároco da freguesia de S. Caetano, desta ilha.
        Em Junho de 1950 foi nomeado Pároco da Matriz das Lajes e ouvidor do concelho. Aqui vem encontrar as obras da nova Matriz paradas desde 1910.
“O Dever”, em ocasiões várias, mas principalmente depois da visita do Subsecretário das Obras Públicas, em Setembro de 1945, não mais deixa de chamar a atenção dos lajenses para a necessidade da conclusão das obras.
É reorganizada a Comissão dos Bens Culturais, constituída anos antes pelo falecido Pe. José Vieira Soares. E a obra recomeçou em 1954. O P. António Cardoso  não mais descansou.
        Em 28 Maio de 1967 (há 45 anos), era inaugurada a nova Matriz  e benzida pelo Bispo da Diocese D. Manuel Afonso de Carvalho. Foi sagrada pelo Bispo Dom Arquimínio Rodrigues da Costa, em 26 de Agosto de 1983. Era então pároco o Dr. António Rogério Gomes.
        Na Matriz das Lajes existe, desde 1882, a veneranda imagem de Nossa Senhora de Lourdes, de grande devoção não somente dos lajenses mas de uma boa parte dos picoenses e dos nossos conterrâneos da Diáspora. Foi por isso que, a quando da sagração, foi solicitada, ao Bispo diocesano a declaração de Santuário da Virgem, que é na realidade, para a Matriz das Lajes, pedido que aquele Prelado (já não era D. Manuel) rejeitou sem que apresentasse quaisquer razões...
O custo total das obras, na segunda fase de conclusão, foi de 1.205.689$45. Em 1970, era pago o empréstimo de 20.000$00, que havia sido contraído para liquidação total das despesas da obra, ficando tudo saldado.
        Em Dezembro de 1969, o Pe. Cardoso adquiriu para a Paróquia, com autorização do Bispo D. Manuel, a propriedade de “O Dever”, do qual passou a ser director.
Durante a sua estadia na Paróquia é construída a ermida do Coração de Maria, no lugar das Terras, a qual lhe mereceu o mais desvelado cuidado e atenção, embora contasse sempre com um dedicado grupo de paroquianos daquele lugar, que assumiram o financiamento das obras.
        E depois, vê-se quase compelido a deixar a paróquia, sendo nomeado capelão do Hospital de Angra, em 3 de Novembro de 1976 e pároco de São Bento da mesma cidade, em 14 de Dezembro de 1979. Ali faleceu, em 7 de Julho de 1999.
        Nos Estados Unidos da América do Norte, quando qualquer pároco constrói uma igreja recebe de Roma o título de Monsenhor. Por cá não há essa tradição. O titulo de Monsenhor é reservado aos sacerdotes que, normalmente, exercem funções junto da cúria diocesana, pois foram raros os que, não o sendo, receberam essa dignidade.
        O Padre António Cardoso já não pode receber o título de Monsenhor. A sua memória pode, no entanto, ser recordada por qualquer outro meio condigno. Nunca é tarde para se fazer justiça.
        A Igreja Matriz das Lajes tem dois sacerdotes a ela ligados que jamais poderão ser olvidados: o Padre Manuel José Lopes que a iniciou e o Padre António Cardoso que a concluiu, com abnegação e sacrifício. Além do Pe. Francisco Xavier de Azevedo e Castro, vice - vigário e ouvidor do concelho, que foi o autor do magnifico projecto. É um templo majestoso que honra e dignifica a vila das Lajes. Importa que isso não se esqueça.

Vila das Lajes,
7 de Julho de 2012.
Ermelindo Ávila

domingo, 8 de julho de 2012

TRILHOS OU CANADAS



        Foram os caminhos primitivos. Atravessava-se  a ilha, para ir do sul ao norte, pelas veredas, canadas ou trilhos que a “cortavam”, em todos os sentidos.
Para ir para os lados da Fronteira, caminhava-se pelo Caminho dos Ilhéus. “Quem conhece a morosidade ritual das obras públicas, enche-se de pasmo perante a actividade prodigiosa com que o reduzido número dos primeiros povoadores conseguiu, em poucos anos, realizar tal intento, construindo o caminho dos ilhéos que, prolongado, deu a volta completa à ilha. (1)
        “Ernesto Rebello , que visitou a Vila das Lajes, em “Notas Açorianas”, escreve: “Depois de nove horas de jornada, de haver atravessado a serra, subido e descido muita ladeira e cruzado os grandes descampados de pedra roliça e requeimada, entremeada aqui e alem por montes de rasteiras  faias, descampados a que se dá o nome de mysterios, por serem estes os sítios por onde passaram as ribeiras de refervente lava das antigas erupções vulcânicas do Pico, chegamos afinal, ao cair da noite, à Vila das Lajes.” (2)
        Para se sair da vila, pelo lado norte, seguia-se o caminho dos ilhéus, pelo lado sul a ladeira da Vila e para os terrenos do alto, a canada do Manuel Velho ou a Canada das Cruzes. A canada do Tomé (depois conhecida por canada da Maricas do Tomé) servia para dar acesso aos terrenos das ladeiras dó lado Leste. É pena que estes velhos caminhos não estejam devidamente sinalizados, limpos e iluminados para permitirem o trânsito nocturno.
        Na Ribeira do Meio havia o caminho dos Castanhos e a canada do Touril, para os matos. Na Almagreira  um caminho que atravessava o lugar e, pela canada Ana de Vargas, dava acesso à Silveira, onde havia diversas canadas, entre elas a canada do Ajudante, e o caminho de Baixo. Ainda ali existe o caminho Velho e outros mais. 
A estrada real, entre as Lajes e S. Roque, passando pela Madalena, foi construída na segunda metade do século dezanove. Nas pontes  da Ribeira do Meio estão as datas de 1877 e 1879. Todavia a estrada que liga as Lajes à Piedade e, desta, à Prainha, só foram construídas na década de quarenta do século XX. Até aí continuaram os povos do Sul a trilhar as íngremes ladeiras e inóspitos caminhos de calçada bruta e irregular, que não permitia o trânsito de veículos motorizados. E já no século XX! Quem por ele teve de passar pode dar testemunho do que difícil era o viajar pelo caminho da Ponta.
        O tempo que se levava a subir as ladeiras de tão terrível caminho – ainda me lembro da horrível Ladeira do Barriga e de outras mais, pois também utilizei o antigo caminho, saindo das Lajes ao romper do dia para chegar à Ribeirinha ao anoitecer...
        Felizmente que tudo isso se modificou e, hoje, a ilha é circundada por boa estrada asfaltada, diga-se de passagem. A estrada Lajes - Piedade, quando construída, nos anos quarenta do século XX, foi considerada a melhor dos Açores. Mas já não é.
        Os turistas apreciam hoje as longas caminhadas pelas canadas e caminhos rurais para desfrutar das paisagens, do intenso arvoredo e do ar que se respira. Urge, portanto, ter em condições aceitáveis esses velhos caminhos da ilha, que vários são, para proporcionar àqueles que visitam a ilha, os meios indispensáveis a uma boa estadia. Se é que interessa à ilha o desenvolvimento da nova actividade industrial...
__________________     
1) F.S.Lacerda Machado, “História do Concelho das Lages”, 1236, pág.124.
2) Arquivo dos Açores, Vol.VIII,  1982, pág. 295.
Vila das Lajes.
20-6-2012
Ermelindo Ávila

sábado, 7 de julho de 2012

AO ACASO...



          O Verão chegou. Os campos estão verdejantes. O mar está calmo. As neblinas e as nuvens raramente surgem pois o vento parece que se mudou para outras paragens. É chegado o mês de  Julho, o mês mais calmo do ano. .
       Nas escolas  terminaram as aulas e andam agora os alunos preocupados com os exames que têm de fazer para ser avaliado, bem ou mal, um ano de trabalhos. Uns estão confiantes outros  mostram-se preocupados, pois, durante o tempo de aulas, nem sempre se dedicaram ao estudo das matérias com a devida atenção e preocupação.  
        As “piscinas” marítimas  abriram e algumas delas ostentam, orgulhosamente, as bandeiras que a entidade respectiva lhes distribuiu, depois de analisadas as respectivas águas. E já se vêem por aí os banhistas. Afinal eles nunca faltaram, mesmo na estação invernosa, pois para alguns, é de bom tom afrontar as águas frias do Inverno.
        As chamadas “Festas do Verão” vão aparecendo por essas ilhas  e os emigrantes, para  nelas tomarem parte, já chegam.
         São as Sanjoaninas, na cidade de Angra e em Vila Franca do Campo. Depois, as festas  da cidade da Praia, as Festa do Espírito Santo em Ponta Delgada e, muitas outras sem cunho religioso, como “A Maré de Agosto”, em Santa Maria, “A Semana do Mar” na Horta, o “Cais Agosto”, em S. Roque do Pico, a Festa do Emigrante, na ilha das Flores e tantas  mais nas restantes ilhas.
        Verdade seja que as ditas festas religiosas são as que mais atraem os emigrantes: Santa Maria Madalena, Bom Jesus, S. Roque, Nossa Senhora de Lourdes, Nossa Senhora da Ajuda e Nossa Senhora da Piedade. Terminada esta, é o regresso, com as saudades mais vivas e o desejo de voltar, o que nem sempre acontece ...
         Os veraneantes, -  propriamente dito, aqueles que, mais do que  assistir às festas, vêm para repousar depois de um ano de trabalho e cuidar de alguns  bens que cá deixaram, e esses já são muito poucos,  ou simplesmente visitar os familiares, e gozar um pouco do ambiente calmo e reconfortante da terra natal, - vão sendo raros. Demais, nos tempos que decorrem, torna-se difícil viajar só ou acompanhado da família, dado o elevado custo das passagens pouco acessível a quem aufere ordenados de baixo montante. E a situação agora mais se agrava com a carestia da vida actual; da crise que atinge todos os lares, quer pelos contínuos despedimentos, quer pelos baixos salários agravados com  o  corte dos subsídios de férias que a visão esclarecida de um governante criou, aqui há anos,  mas que agora a Troika impede de serem abonados.  Um sinal evidente de que a soberania quase não existe e os mandões estrangeiros, pois praticamente são eles que governam a nação,  proíbem a atribuição dos subsídios àqueles que deles bem carecem e a que têm direito.
        Um momento histórico, mas muito aflitivo para os portugueses e, de modo especial, para os açorianos, que continuam a ser portugueses, embora parece, por vezes, pertencerem a uma classe secundária. E neste âmbito, muito havia a dizer, pois, por vezes, as esferas superiores esquecem que aqui também é Portugal!...
        Mas. afinal, valerá a pena  isto escrever?  Há tantos anos que o faço, numa luta inglória, que apetece parar... Demais, um dia isso vai acontecer...

        Vila das Lajes,
        2-Julho-2012
        Ermelindo Ávila.

sexta-feira, 29 de junho de 2012

OS BODOS OU IMPÉRIOS



Terminaram os bodos. As Festas, ou os Impérios ou Bodos acabaram. E, como diz a nossa gente, para o ano há mais. Mas, realmente haverá? Para uns, talvez. Para outros...
E terminaram, igualmente, os jantares do Espírito Santo. Para certos mordomos não foi o que esperavam. O tempo esteve chuvoso em alguns
dias e por isso nem todos os convidados apareceram. várias mesas ficaram vazias. No sábado, no domingo do Espírito Santo e até no domingo da Trindade o tempo não ajudou. E foi pena, pois as sopas estavam deliciosas.
Pior nos arraiais das festas. Por estes lados, pois só esta zona conheço na realidade, havia certa tristeza. As ruas quase desertas, muito embora os automóveis estacionassem, calmamente, nas bermas das estradas e ruas com um ou mais ocupantes. E os impérios, que outrora eram lugares de encontro animado de amigos e conhecidos, quase não existiam.
Verdade que a população picoense está drasticamente a diminuir. A juventude anda lá por fora e outros acabaram por deixar a terra e fixar-se em lugares onde arranjaram colocações. É doloroso confrontarmos as estatísticas actuais com as de há cinquenta anos.
Curiosamente, o que mais encontramos pelas ruas são grupos ou casais de estrangeiros que aqui passam com demora de horas apenas, para verem os golfinhos e as baleias no seu habitat preferido, o Sul do Pico, onde abundam, para essas espécies, as comidas apropriadas.
Os bolos de véspera, os pães e as rosquilhas nunca faltaram nos Impérios do Pico. Parece que era, e é realmente, um milagre a sua multiplicação. No entanto, no ano presente, eles abundaram. E que óptimos eram!
No final do mês, a vila das Lajes do Pico celebra o seu Império, com a festividade de São Pedro. No concelho é o dia do feriado municipal o que permite a deslocação das populações do concelho para tomarem parte no Império, e levar para casa uma rosquilha. O resto da ilha, porque os dias são grandes, poderá vir depois do trabalho e também receberá uma relíquia do império de S. Pedro. Era assim que acontecia nos anos passados. No actual, que todos dizem ser um ano de aguda crise, o mesmo vai acontecer.
*
       Estamos em crise mas temos esperança de que tudo mudará. A História isso nos ensina. É preciso, porém estarmos atentos à evolução dos acontecimentos e precavidos para que não sejamos apanhados de surpresa.
Os cataclismos naturais, que vão acontecendo no mundo e cujas notícias tétricas nos chegam todos os dias, são avisos aos quais importa estarmos atentos. Em todos os tempos assim foi.
No ano de 1523 desenvolveu-se na ilha de S. Miguel uma desoladora peste, que ocasionou 2.000 vítimas e se comunicou ao Faial no mês de Julho. O Pânico foi geral em todas as ilhas e os povos aterrados recorreram a preces e orações e invocaram em especial o Espírito Santo, prometendo distribuir pelos pobres anualmente, pela festa do Pentecostes, as primícias de seus frutos, se escapassem do terrível flagelo que não comunicou ao Pico. – Instituíram-se irmandades em honra do Espírito Santo, celebrando-se em seu louvor bodos solenes, com folia e bailes, ao uso do tempo. – Tal foi a origem, no Faial e Pico, das populares festas do Espírito Santo, hoje de carácter regional...”
E o Historiador acrescenta: O primeiro bispo açoriano que consta ter proibido tais divertimentos foi D. frei Jorge, nas suas constituições de 1558, não consentindo nas igrejas jogos, toques de viola, guitarra ou flauta, bem como bailes e cânticos profanos.” (1)
Uma disciplina que, em parte, quase desapareceu. Os tempos são outros e não podemos voltar ao passado.
_________________
1) F.S. Lacerda Machado, “História do Concelho das Lages”, 1936,

Vila das Lajes,
30-Maio.2012
Ermelindo Ávila
(Escrito de acordo com a ortografia antiga)

terça-feira, 26 de junho de 2012

A POLÍTCA DE HÁ UM SÉCULO


APONTAMENTO HISTÓRICO

           Era muito diferente a política exercida por estas paragens há anos passados.
          Trabalhavam-se os actos eleitorais. Pediam-se os votos de porta a porta e pela calada da noite, mas terminados eles a vida das pessoas voltava  à normalidade.
         Os partidos não eram muitos. No princípio da República apenas dois eram por partidos que por cá militava: os democráticos e os unionistas. E bastavam. O elemento feminino não tinha direito a voto, nem mesmo os analfabetos, que, aliás, representavam uma parte importante da população.
        Tudo se reduzia a um pequeno ou limitado número de eleitores. E eram esses que manobravam os destinos dos povos, principalmente das câmaras municipais, pois as juntas de freguesia ou de paróquia tinham atribuições limitadas.
        Os militantes políticos nada recebiam pelos cargos que exerciam. E isto durante muitos anos, até mesmo no chamado estado novo. Depois, tudo se modificou e hoje exercer um cargo político é ter a garantia de auferir proventos avantajados e invejáveis para a grande maioria  das pessoas, muitas das quais se vêm a braços com graves problemas financeiros, derivados dos parcos proventos que recebem e que estão sempre ameaçados de cortes. Pois são os chamados funcionários públicos que, recebendo seus proventos dos cofres do Estado, estão sujeitos aos cortes que vão  permitir  saldar os deficits do Estado, ninguém ,procura averiguar como foram contraídos…
         O quinzenário “As Lages”, cuja publicação se iniciou nesta vila em Fevereiro de 1914 e de que era Director, proprietário e editor, Gilberto Paulino de Castro, no seu número 103,de 15 de Abril de 1919, e sob o título “Comissão  Administrativa Municipal”, trás a seguinte notícia, que nos apraz aqui transcrever como documento histórico que é, decorridos que são quase cem anos:
 De acordo, os dois grupos políticos desta localidade, unionista e democrático, propuseram ao Exmº   Governador Civil deste distrito a nomeação da comissão municipal administrativa deste concelho, por alvará de s. Exª sancionada e assim constituída e representada: Presidente:- Manuel  Quaresma Melo, independente. Vogais: - Leonardo Xavier de Castro Amorim e Edmundo Machado Ávila, unionistas; José Francisco Pimentel e Manuel Vieira Cardoso, democráticos.  -  Cumprimentamos o sr.José Lopes da Silveira Gomes, digno representante do partido democrático deste concelho, pela seleccionada escolha que fez para a representação do mesmo partido na ad0ministração deste município. Desde a primeira e subsequentes sessões em que têm tomado parte, mostraram ou fizeram lhes mostrar o que devem ser e como devem proceder os filhos dilectos do querido pai Afonso!... A Cesar o que é de Cesar” .
            Conheci pessoalmente os indicados membros do executivo camarário. Todos eles pessoas de bem.
            O Presidente, Manuel Quaresma Melo, era comerciante e oficial de baleia. Duma simpatia extrema. Teve, no entanto, morte trágica. Ele, a Filha e o Genro e dois netos foram vitimas do surto de peste que atingiu esta vila, por volta de 1922. Além do Senhor Quaresma outros mais foram vítimas da terrível doença que só desapareceu com a construção do antigo campo de jogos, dali retirando o matagal de junco onde as pessoas, incautamente, faziam lixeira.
           Mas, voltamos à política de outras eras. Não era perfeita como jamais foi em tempo algum: separa as pessoas e as famílias; promove  encobertamente a vingança; não tem pejo, por vezes, em caluniar para vencer e alcandorar-se nos lugares cimeiros do mando. Governa os povos segundo os caprichos pessoais, ou do partido que serve, quantas vezes indo de encontro aos princípios básicos do bom censo, da seriedade e até do são convívio.
           Como me dizia alguém: a política é uma tristeza e uma lástima de que é vítima o Zé Povinho, tal como o definiu Bordalo Pinheiro.
Vila das Lajes,  30-Março-2011
Ermelindo Ávila.

segunda-feira, 18 de junho de 2012


MONSENHOR
JOSÉ DE LIMA AMARAL MENDONÇA

        No dia 1 de Junho corrente, celebrou suas Bodas de Diamante sacerdotais o Revmo e Ilmo. Monsenhor José de Lima Amaral de Mendonça, natural da freguesia das Bandeiras desta ilha. Nasceu a 5 de Setembro de 1928 e foi ordenado sacerdote na Sé de Angra, em 1 de Junho de 1952.
        A cidade de Angra, onde sempre tem exercido a sua actividade sacerdotal, com excepção dos escassos meses que, após a ordenação, esteve de Pároco coadjutor na Matriz da Madalena, prestou ao distinto Monsenhor uma condigna homenagem de respeito, admiração e elevada estima e apreço.
        Foi com muita alegria e elevado regozijo que acompanhei a notícia, embora breve, como já vem sendo habitual nestes casos, da TV - Açores.
        Bem merecido  que o distinto Monsenhor José de Lima, que, registe-se, nunca esquece a sua naturalidade, tivesse sido condignamente homenageado pelo muito que tem dado à cidade e aos Açores em geral, nos diversos cargos que há servido ao longo destes sessenta anos: Cónego, Presidente do Cabido e Deão, professor de Religião e Moral do Liceu e da Escola do Magistério Primário de Angra, professor e director espiritual do Seminário, Vigário Geral da Diocese e membro qualificado de diversas comissões diocesanas. Uma actividade permanente e profícua que ainda não cessou, apesar dos seus quase  oitenta e cinco anos vigorosos e jovens, (5 de Setembro de 1928), não fosse um autêntico Homem do Pico.
        As centenas de pessoas que tomaram parte no banquete de homenagem, cerca de meio milhar, todas elas quiseram manifestar ao Venerando Sacerdote a estima, o apreço, o respeito, o reconhecimento e a veneração que lhe prestavam e prestam, dado que a maioria dos presentes havia sido seu aluno.
        Vigário Geral da diocese, por nomeação do Prelado, em todas as Provisões se afirma que, consultado o clero, por maioria sempre se pronunciou pela nomeação de Monsenhor José Lima, uma prova clara e insofismável da estima e do respeito que lhe tributam os sacerdotes diocesanos. Mas não só. Como disse, os angrenses em geral, têm uma particular estima pelo sacerdote que adoptou a cidade como sua e os acompanha há tantos anos. Principalmente a juventude tem um especial carinho por Mons. José Lima, porque ele se dedicou, com entusiasmo e dedicação, à sua formação, não apenas durante os anos em que leccionou  no antigo Liceu de Angra, como posteriormente, pois a grande maioria jamais o esqueceu.
Múltiplas funções foram as que exerceu na administração da Diocese. Todas elas com a maior dedicação, entusiasmo e abnegado esforço.
E foi essa nobre e exaltante missão que os cerca de quinhentos convivas lhe quiseram agradecer no banquete que assinalou os sessenta anos de sacerdócio.
E termino esta minha saudação e singela homenagem, servindo-me das mesmas palavras que o Pe Francisco Dolores, seu antigo aluno, proferiu na saudação que dirigiu a Monsenhor José Lima – o Padre Lima – na magna “assembleia” do “Clube Musical Angrense”e que aqui transcrevo com a devida vénia: “Demos graças a Deus pelos Sessenta anos de Sacerdócio do Padre Lima e o privilégio de o termos conhecido,( ...) nas diversas circunstâncias deste Homem do Pico que muito honra a Família, a Terra que o viu nascer, os Açores que nunca abandonou e o Serviço prestado a esta Igreja diocesana, na sua dimensão vertical da ligação Homem - Deus e horizontal de abraçar a todos os homens numa mesma fraternidade de Filhos de Deus. Bem haja!
E recordando seu venerando Pai, Senhor Pedro Mendonça, com quem tive o prazer de conviver na minha passagem de funcionário administrativo pela vila da Madalena, aqui fica, nestas singelas e modestas palavras, o  meu abraço sincero e respeitoso de admiração e amizade.
Parabéns, Monsenhor José Lima, pelas suas Bodas de Diamante Sacerdotais e que o Senhor o conserve ad multos annos!
Vila das Lajes do Pico,
 Junho de 2012

domingo, 17 de junho de 2012

O DIA DO CONCELHO


NOTAS DO MEU CANTINHO



          Nunca foi esclarecida a data da criação do concelho das Lajes, que abrangia, desde o início, toda a ilha do Pico. Creio mesmo que não será possível.
          O investigador jorgense Dr. João Teixeira Soares de Sousa escreve, numa nota publicada no “O Respigador” o seguinte esclarecimento: “É facto geral, e sem uma única excepção, a ignorância dos títulos diplomáticos da creação das villas, primitivas alçadas, ou sedes das capitanias. Taes são: Em Santa Maria, a villa do Porto; em S, Miguel, vila Franca do Campo; na Terceira, a Praia e Angra; na Graciosa, Santa Cruz; em S. Jorge, as Velas; no Fayal, a Horta; No Pico, as Lages; Nas Flores, Santa Cruz.
 No “Espelho Cristalino em Jardim de Várias Flores”, escrito por volta de 1660, e que só veio a ser publicado na totalidade em 1989, com erudito prefácio do Professor Doutor Artur Teodoro de Matos, (não interessa agora recordar as bolandas porque o manuscrito andou) refere Frei Diogo das Chagas: (2)
          Não havia pollo tempo que se passou o primeiro mandato, até ao ano de 1504, pêra 1505, naquella Villa das Lagens, que era Prochia de toda a Ilha, (e muitos annos depois não ouve outra) mais de hum Juiz, e hum Vreador, e hum procurador do Concelho, e do(u)s ou tres homens bons, os coais em Câmara fa(z)ião as posturas e mais cousas que conuinhão para o bom governo da Ilha.
          E, se outros fossem os factos, Frei Diogo das Chagas não os teria esquecido, pois, no Prefácio referido, diz o seu Autor: “Contendo matéria em grande parte diferente, mas de incontestável interesse histórico, é o capítulo dedicado à ilha do Pico. Trata, é certo, como os respeitantes às demais ilhas, do descobrimento desta parcela açoriana, da descrição da mesma, das suas paróquias e ermidas, dos vigários, da população e de vários casos dignos de memória. No entanto insere documentos muitíssimo curiosos acerca dos primeiros cortes de arvoredos, dos jardins, dos vários artífices que houve na ilha nos primeiros tempos do povoamento, etc. Enfim, um acervo de interessantes notícias através das quais poderemos em certa medida, reconstituir a vida social picoense nos primeiros dois séculos de vida humana, nas regiões correspondentes às vilas das Lajes, de S. Roque e da Madalena.
          Frei Diogo das Chagas era irmão de sangue de Frei Mateus da Conceição, guardião do convento franciscano das Lajes. Andou pela Província franciscana em visita canónica e, naturalmente, deve ter-se demorado na vila das Lajes, algum tempo, tendo por isso tempo de copiar do arquivo municipal, que não seria muito, os documentos que transcreve na sua notável obra.    
 A propósito, Lacerda Machado refere: “Da elevação da antiga povoação ao foro de vila, não chegou até nós documento algum. Mas a data desse facto, que marca o início da organização municipal da ilha, sabe-se que é anterior a 1501. E refere o alvará passado em 14 de Maio de 1501, passado pelo 2º capitão donatário Joz de Utra, filho, a favor de Fernão Alvares, primeiro povoador da ilha, “pª dar licensa pª poderem ir aos matos tomar os gados brabos & buscar os mansos”.(3)
          E argumenta este Autor: “Ora, tendo as eleições lugar no verão, e sendo o citado alvará de Maio de 1501, conclui-se que a vereação que então servia fora eleita no verão de 1500, em consequência, presumivelmente, de documento régio, criando a vila, sede do primeiro município”.(4)
          Não terão os povoadores trazido consigo aqueles que iam governar o novo território? É natural que assim tenha acontecido pois o Infante ao organizar o povoamento das Ilhas, tudo deve ter providenciado. Veio o Pároco, vieram os animais, as alfaias agrícolas, as sementes. Naturalmente, vinham aqueles que administrariam os novos territórios: um Juiz, um Vereador, um procurador do concelho e dois ou três homens bons, embora subordinados a um capitão - donatário, que preferiu ficar pela Madeira... O caso de Fernão Alvares é um puro acidente. Não conheciam a enseada do Castelete e, com o levantar do mar, julgaram que uma tempestade se aproximava. Fugiram para só voltar no verão seguinte.
Entende-se que o Alvará de 14 de Maio de 1501 seja o primeiro documento oficial respeitante ao novo concelho. E assim sendo, porque não estabelecer essa data como dia do concelho?
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  1) O Respigador, jornal jorgense, nº14 de 20/1/1889
  2) Frei Diogo das Chagas, “Espelho Cristalino...”, 1989, pag.509
  3)  F. S. Lacerda Machado, “História do Concelho as Lages”,1936, p.85
 4)  Ibidem

Vila das Lajes, Maio de 2012
Ermelindo Ávila.
(Escrito de acordo com a antiga ortografia)

sexta-feira, 1 de junho de 2012

O fundador de O DEVER


Junto do cabeçalho do jornal ainda se encontra o seu nome. E de lá não deve sair.
O Pe. João Vieira Xavier Madruga nasceu nas Lajes do Pico no dia 1 de Junho de 1883. Há precisamente 129 anos! Todavia a sua memória está sempre presente para aqueles que ainda o conheceram, pois veio a falecer na sua casa, nesta vila, em 1971, aos 88 anos de idade. Mesmo assim foi sempre um espírito brilhante e um escritor, mais do que jornalista, de enormes méritos. Conhecia como poucos a gramática portuguesa – foi professor de português no Seminário após a ordenação – e era portador de um vocabulário rico, apesar de a seu lado, na pequena escrevaninha, estar sempre o dicionário português. Um Mestre na arte de bem escrever, de que alguns foram alunos aproveitados.
O Dever, seu filho predilecto, “nasceu”, a 2 de Junho de 1917. Já então o seu fundador andava embrenhado nas lides jornalísticas, pois desde os bancos do seminário colaborava quase permanentemente no jornal de Angra, “Peregrino de Lourdes”, de Monsenhor António Maria Ferreira.
E O Dever aí está. Ocorre no próximo sábado o aniversário da sua fundação. Nada menos do que 95 anos. Quase um século. Sempre vigoroso e sempre actual. Demais os jornais não têm idade. Ou antes: têm a idade de quem os dirige. E porque dirigido actualmente por gente nova, ele aí está capaz de caminhar por muitos anos fora, para prestígio da Igreja da qual é um paladino intemerato, e da própria terra onde se instalou há 73 anos! (O Dever iniciou a publicação na Calheta de S. Jorge e, em 1938, foi transferido, por vontade expressa do Director e Proprietário, para esta vila, onde continua).
Em 7 de Janeiro de 1939 O Dever atingia o número 1.000 de publicação. No seu habitual “Meu cantinho” escrevia o P. Xavier Madruga: Mal imagina o leitor deste modesto semanário o que representa, para os que nesta casa labutam, como pedra marcante do caminho percorrido angustioso instrumento de trabalho, aquele número mil no alto do jornal! São mil semanas de” grilheta e trabalhos forçados. E depois: Mas se a imprensa tem obrigações para com o público, este também as tem para com ele. O jornal faz o leitor e o leitor faz o jornal. E ainda: Um milhar de números de “O Dever” quer dizer que, sob o signo bendito “Deus e Portugal” durante mil semanas arvorámos sem temor uma bandeira gloriosa, quisemos ser instrumentos fiéis de Ideias e Princípios Eternos, dissipando erros, e ajudando no possível a verdade a triunfar. E Deus sabe a sinceridade com que procurámos servi-Lo – servindo a Igreja e os interesses supremos de Portugal.
E que alegria não sentiria hoje o P. Xavier Madruga ao ver que o jornal que ele fundou com tanto entusiasmo e dedicação, atingia neste dia 4699 números publicados.
Mas o jornal não se deve quedar pelos louros alcançados, antes caminhar com o mesmo entusiasmo da primeira hora para o futuro, tendo sempre presente a defesa dos sãos princípios da Igreja a que pertence e que serve e da Terra onde se publica à qual, aliás, bastos serviços lhe vem prestando. Foram várias as campanhas que empreendeu – e nele se encontram arquivadas – e os triunfos alcançados. O Dever é um autêntico paladino dos direitos da Ilha e particularmente do concelho das Lajes. Nunca disso recebeu agradecimento público e bem o merece. É sempre tempo de se fazer justiça. Demais a sua colecção é um património rico de história que se espera seja salvaguardado.
E fico por aqui nesta modesta homenagem à saudosa memória do Fundador, P. Xavier Madruga, com quem orgulhosamente colaborei muitos anos, e com o qual muito aprendi, e a quantos lhe sucederam na direcção do jornal, não esquecendo as muito e distintas personalidades que colaboraram assiduamente em O Dever !

Vila das Lajes,
Maio de 2012.
Ermelindo Ávila
(Escrito de acordo com antiga ortografia)

domingo, 27 de maio de 2012

AS DOMINGAS DO ESPÍRITO SANTO





O ciclo festivo denominado “As Domingas terminou. E, como vulgarmente se diz, este ano foi o "ano das Terras”. Isso significa que, durante as Domingas, após o domingo de Páscoa, diversas famílias, seguindo uma tradição muito antiga, “levaram a Corôa” e deram jantar a muitos convidados. Os dois últimos domingos, entre a Páscoa e o Pentecostes não foram ocupados, pois os antigos “irmãos” já não existem e não deixaram famílias para os continuar.
Mesmo assim, foram cinco domingos de festa para o subúrbio das Terras, desta vila das Lajes do Pico.
O mesmo aconteceu na Almagreira, onde ainda existe idêntica Irmandade, embora esteja também quase inexistente.
Mesmo assim, foram cinco domingos em que aquele lugar das Terras esteve em festa permanente, pois, durante a semana que antecedia o domingo, havia os naturais preparativos para o jantar em cujos trabalhos se ocupava a quase totalidade da população. À noite, não faltava o terço cantado com a presença dos foliões. Na sexta-feira de cada semana o mordomo oferecia aos familiares e convidados uma merenda que, afinal, era um excelente repasto com variados manjares.
Notória a confraternização e o entendimento que existia entre as pessoas, quer as simplesmente convidadas quer aquelas, principalmente jovens, que se ocupavam, nas diversas tarefas preparatórias e, principalmente, na distribuição das sopas e assistência atenta às mesas.
A animar as Coroações estiveram sempre presentes os Foliões, com seus cantares alusivos e, em alguns domingos, filarmónicas que abrilhantavam os cortejos processionais.
Nos domingos festivos, as Corôas, - no último estiveram dez, - saíam das residências dos Mordomos e, em procissão, formada pelos quadros de varas onde iam os portadores dos estandartes alçados e as Coroas, levando à frente os foliões. Depois seguiam, acompanhados dos familiares e de muitos convidados, para a Ermida do Coração de Maria, onde se celebrava Eucaristia solene, cantada. No final o sacerdote celebrante coroava os mordomos e seus representantes. Depois de arrematadas as ofertas que o Mordomo leva à Igreja (pães de massa sovada, uma terrina de sopas, uma travessa de carne e uma garrafa de vinho – o vinho de cheiro do Pico, tanto apreciado nestas ocasiões), era reorganizado o cortejo que voltava a passar pela casa do mordomo para se dirigir a seguir para o vasto salão do lugar, pertença da Sociedade Recreativa Alegria no Campo, mas sempre de portas abertas para as festividades. Aí eram servidas as “sopas do Espírito Santo”.
A ementa do jantar era e é sempre igual em todas as funções mas sempre apetecida: as tradicionais sopas com carne cozida, depois carne assada e a seguir arroz doce e, em algumas, também bolos doces. Nas mesas abundavam o queijo e a massa sovada, para as “entradas” nunca faltando o vinho, os refrescos e as águas minerais.
À apresentação de cada iguaria é costume os foliões, que ocupavam lugares perto dos tronos onde estavam as Coroas, entoavam loas apropriadas. E se havia filarmónica, esta, no final do jantar, habitualmente executa o hino do Espírito Santo e uma marcha ligeira.
No corrente ano foram mordomos: no primeiro domingo, Alberto Pimentel e esposa Vicência Soares Pimentel; no segundo, Manuel da Rosa e esposa Hortense Soares; no terceiro, José Simões e esposa Maria Fernanda Simões, que expressamente vieram dos Estados Unidos, onde residem, para cumprir o voto, que vem, como os outros, de seus antepassados; no quarto domingo, Manuel Pereira Madruga e esposa Maria Armanda Madruga; e, no quinto domingo, José Adelino Fagundes e esposa e Fátima Fagundes.
De registar o lançamento do novo livro da luso-americana Maria Fernanda Simões, Em cada Canto um Divino Espírito Santo, realizado a seguir à merenda da Sexta-feira da semana em que a Autora, como disse, foi Mordoma. Um evento que teve larga assistência. Trata-se de um trabalho bastante ilustrado e com Arranjo Gráfico e impressão da Nova Gráfica, Lda. Em Nota Explicativa escreve a Maria Fernanda: “... para que festas antigas do Divino Espírito Santo não caíssem no esquecimento, resolvi escrever este quarto livro que intitulo Domingas ou Folias, no lugar das Terras, únicas celebrações que ali existem , muito características no lugar, porque vêm de longa data”. Poucas localidades açorianas manterão ainda esta tradição das Domingas, embora celebrem diversos actos de culto em louvor da Terceira Pessoa da SS. Trindade. Eles revelam o respeito dos picoenses pela tradição religiosa de seus Maiores e um autêntico espírito de sacrifício, de confraternização e de amizade entre as famílias e conhecidos, e uma devoção permanente à Terceira Pessoa da Santíssima Trindade.
Os maiores louvores aos mordomos e aos habitantes do progressivo lugar das Terras.

Vila das Lajes,
Semana do Espírito Santo de 2012.
Ermelindo Ávila