domingo, 30 de outubro de 2011

Artesãos e artífices

Há muito que o artesanato – arte e técnica de trabalhos manuais e caseiros – constitui uma actividade picoense de valoroso interesse.

Podemos considerar como artesanato as antigas rendas de bilro, croché e outros tipo executados pelas chamadas rendeiras, as mulheres que, quase exclusivamente, se dedicavam à manufactura dessas maravilhas que ainda hoje despertam curiosidade e interesse nos que nos visitam.

Primitivamente, eram manufacturadas rendas de diversos tipos para enviar, como oferta, aos parentes e amigos imigrados nos Estados Unidos, em retribuição das roupas e de algum calçado que de lá enviavam pelo correio, nos tradicionais “sacos da América” ou em mão de emigrantes que vinham de visita à terra natal.

Actualmente, é outro o tipo de artesanato que mais procurado é pelo Turismo. Refiro, especialmente, o conhecido “scrimshaw”, ou trabalhos em osso e dente de baleia de grande procura. Não menos procuradas são as miniaturas de utensílios diversos, executadas em madeira pelos artesãos picoenses, uma classe de artistas exímios que, hoje, estão a contribuir imenso para o desenvolvimento da apreciada actividade.

Nas Lajes existem, ao menos, duas casas de artesanato com representação nacional e cujos artefactos já receberam prémios em exposições nacionais e internacionais, pela beleza dos objectos e pela arte e inspiração artística que revelam.

Conheci, no primeiro quartel do século passado, o Capitão de baleeiras americanas, José Francisco Fidalgo, senhor de respeitável trato e notável artista de “scrimshaw”. Na sua residência possuía uma pequena oficina onde executava, como recreio, trabalhos em dente de baleia (cachalote), matéria prima que, ao tempo, abundava e era gratuita.

Outro bom artesão foi João Soares de Lacerda. Possuía, igualmente, uma pequena oficina onde executava trabalhos em osso de baleia e não só.

Mais tarde apareceram Manuel Rodrigues Quaresma Jr. e Clarence Moniz da Rosa. Foram destes dois artistas os objectos, em osso e dente de baleia, que a Câmara Municipal ofereceu ao Presidente Carmona, e a alguns membros da Comitiva presidencial, aquando da visita que fez aos Açores, em 1940. Salvo erro, um jogo de xadrez, um conjunto de peças de escritório, uma garrafa e cálices, tudo em dente de cachalote. Maravilhas de confecção, arrumadas em artísticos estojos, e que foram bastante apreciados.

Santo Amaro do Pico é uma freguesia de notável relevância artística. Lá existiram os célebres estaleiros da construção naval, hoje praticamente inactivos, donde saíram as mais belas embarcações de pesca e de tráfego local. Recordo sobretudo as traineiras de pesça de atum que, a meados do século passado, foram construídas nos estaleiros dos Mestres José Costa, Júlio Matos, Manuel Joaquim e João Alberto, que tanto movimentaram a freguesia, hoje praticamente paralisada...

Recordo até que a traineira “Ponta da Ilha” foi a primeira construída pelo Mestre Júlio Matos, nas cercanias do porto da Manhenha, para uma sociedade daquela freguesia, antes de instalar a sua oficina em Santo Amaro.

Algumas das embarcações ainda navegam pelos mares dos Açores na faina da pesca do atum. Outras foram abandonadas, como abandonadas foram as célebres lanchas do Canal “Espalamaca” e “Calheta”, também remodeladas nos estaleiros de Santo Amaro.

Na “Calheta” , construída pelos Mestres Oliveira, da Aguada, Ribeiras, antes de pertencer à Empresa das Lanchas do Pico, naveguei entre a Terceira e o Pico, como igualmente na “Lourdes” e Hermínia”, estas construídas pelos mestres Francisco José Machado e Filhos. Elegante era a “Margarida”, primeira lancha baleeira, construída nas Lajes pelo Mestre António dos Santos Fonseca, que igualmente construiu belas canoas baleeiras.

Os calafates lajenses, que os houve e bons artistas, tinham como missão principal a construção de canos baleeiras, depois do Mestre Experiente, Francisco José Machado, ter construído a primeira, o “São José”. Nos estaleiros das Lajes construíram-se e dezenas de canoas e lanchas a motor para a caça da baleia, e que foram utilizadas nos diversos portos dos Açores e até na Madeira e Continente. E não deixo de referir os inúmeros batéis de pesca local.

De lembrar também a Escola de Artesanato de Santo Amaro. Nela as Irmãs Neves preparam várias jovens para a maravilhosa arte, além de executarem os mais diversos artigos em renda e costura e dos mais diversificados géneros. Interessante por lá passar e admirar a multiplicidade de artesanato ali confeccionado.



Engrade, Ilha do Pico,

24 - 09 – 2011

Ermelindo Ávila



sábado, 22 de outubro de 2011

NOTAS DO MEU CANTINHO

PESCA ARTESANAL



Os açorianos “andam de barco de cabotagem e de lancha de remos de terra para bordo, do mar para a terra, de porto para porto, pipas e barricas de vinho e aguardente, vasilhame e madeiras para construção de casas, carruagens e barcos, pedra de cal e telha, aduelas e arcaduras, mastros e remos, para canoas, de gados para o mercado e feiras da lavoura, para criação e gastos de casa, trastes e mobílias de baleeiros, animais, porcos.”

“O mar foi tudo para o açoriano – caminho e atalho, mercado e feira, estaleiro e oficina, festa e tragédia, alegria e lágrimas, pão e conduto, vida e morte.”

“A estrada é o mar. O caminho mais fácil, aberto e chão ou agitado é o mar, durante séculos. – As estradas reais não existem.” (1)

E foi assim. Como diz o autor a que me reporto, durante séculos. As estradas e os meios de transportes terrestres, os barcos a vapor e os aviões são recentes. De nossos dias como soe dizer- se.

Antes valiam o mar e as embarcações que o homem ia construindo para se transportar a outras terras ou para se fazer ao mar à cata do peixe, alimento principal dele e das famílias.

Conta Lacerda Machado: “No reinado de D. João III, achando-se (o primeiro capitão-mór Garcia Gonçalves Madruga) devedor à fazenda real de certa quantia, por motivos hoje ignorados, mandou construir na Prainha do Sul, um “galeão real” a que pôs o nome de Trindade, orago da Vila e foi oferecê-lo a El-rei que se deu, diz o Historiador, por pago e satisfeito, ficando desde então àquela localidade o nome de Prainha do Galeão, que ainda hoje conserva.” (2)

A arte da construção naval parece ter nascido ali e, depois, se espalhado por todo o Pico, pois em quase todos os portos picoenses houve bons e notáveis construtores navais. Foi nas Lajes o mestre Francisco José Machado, que construiu a primeira canoa baleeira, nos Açores, foram os mestres de Santo Amaro com a construções de veleiros e traineiras. E em todos os portos houve calafates que construíam os batéis de pesca neles utilizados. Já os referi algumas vezes e não vou repetir-me.

A actividade marítima foi uma das principais do homem do Pico. A terra era árida. Os vulcões destruíam os terrenos aráveis e não era fácil o viver das gentes. As ervas dos campos substituíam as hortaliças. O pão era fabricado em lajes . Existiam os gados selvagens de difícil captura. Era o mar que valia com a abundância de peixes de diversas qualidades que abundavam nas costas.

A propósito, escreve Lacerda Machado: “À falta de forno, cozeram na laje o pão rudimentar das suas refeições frugais, e mais tarde o bolo, assavam a carne no borralho, o funcho substituiu a hortaliça que ainda não houvera tempo de a cultivar, ou de que faltavam sementes, uso que ainda subsiste, posto que, raramente, inventaram molhos, gratos ao paladar, para suprir a falta do azeite de oliveira, tardia em frutos, costume que perdura, pois só recentemente se começou a tentar a sua cultura.” (3) O probo e erudito Autor não refere o peixe nem como o apanhavam. Devia ser fácil pois, como disse, devia abundar nas costas.

Ainda no século passado, existiam batéis ou barcos de pesca em todos os portos e portecos, como já os classificaram, à volta da ilha e o mesmo nas outras ilhas. Por cá pescava-se o chamado “peixe de fundo”,principalmente, durante a noite e o chicharro ou carapau nas baías. Os barcos dos portos das Lajes e de São João exploravam o “limpo”, quase junto à costa. Era agradável ver, durante as noites de bom tempo, esses barcos iluminados (com candeeiros) a “ingodar” o peixe, que era apanhado em redes. Amanheciam em terra, com os barcos carregados do pescado. Uma fartura que a todos chegava, quer por compra, quer por troca de cereais. Secos ao sol, eram apreciado alimento no inverno.

Praticamente, desapareceu o chicharro depois da proibição da caça à baleia... Deixou de existir, praticamente, o equilíbrio ecológico.

A pesca de fundo fazia-se em “marcas” certas, onde eram pescadas diversas espécies bastante apreciáveis. Foi ainda no princípio do século XX que se descobriram os “bancos” Princesa Alice e Dom João de Castro mas, para lá chegar gastavam-se horas quer na ida, quer no regresso.

No Verão alguns barcos de pesca iam até São Jorge, onde ficavam semanas ou meses. Os costados dos barcos era aumentados com tábuas – “bordas falsas – e neles seguiam, além dos marinheiros, todas as suas bagagens, incluindo sacas com “bolo torrado” que servia para as sopas dos caldos de peixe com que os marinheiros, geralmente, se alimentavam. E não regressavam enfraquecidos... Uma parte do pescado era vendida localmente e outra seca ao sol e trazida para cá: o peixe seco muito apreciado no inverno, pois, no tempo, o bacalhau mal era conhecido.

Por cá ficavam outros marinheiros. Aqueles que se dedicavam à pesca e à caça da baleia. Um conheci que só era pescador: o mestre Bento. Era proprietário de um barco de pesca e todos os dias, manhã cedo, se fazia ao mar. Regressava, geralmente, ao meio dia, com o pescado que servia para o jantar. E falando do Mestre Bento, outros mais houve, com igual traficância, como o João Luiz, os Garcias e outros. Em chegando ao porto, o peixe era colocado no areal e dividido em soldadas (quinhões): para o barco, para o “monte-mór”, para o mestre, para os marinheiros e para o dízimo, ou seja o imposto, do qual tomava conta o Guarda-Fiscal, funcionário do Estado que existia em todos os portos de pesca.

Nas Lajes sedeava-se a Secção da Guarda-Fiscal, comandada por um sargento e composta de quatro guardas. A Secção superintendia nos guardas destacados nos portos. Do Sul, desde São Mateus ao Calhau da Piedade existiam postos da Guarda-Fiscal. O posto da Calheta tinha ainda funções aduaneiras. Um serviço que, praticamente, desapareceu com a promulgação da lei que extinguiu as chamadas “barreiras alfandegarias” e, depois, com a transferência do serviço dos barcos da Insulana para o Cais do Pico. Agora existe a Lota. Deixou quase de haver o peixe fresco, chegado do mar, para haver peixe congelado.

O Guarda-Fiscal, o Professor e o Pároco formavam um “triunvirato” nas respectivas freguesias, muito respeitado pelo povo. Hoje são figuras históricas, praticamente.

Antes da criação dos serviços dos portos, havia os guardas da Alfandega, que mais se preocupavam com a fiscalização do contrabando de tabaco.

Anteriormente, porém, eram as câmaras municipais, que davam licenças para os barcos de pesca exercerem a sua actividade ou outra, como se lê na deliberação da Vereação das Lajes, de 3 de Dezembro de 1817, quase dois séculos são decorridos:

“Acusou o Alcaide a António Silveira Quaresma, Mestre de um barco de pesca do porto da Calheta, na razão de que no princípio do Verão do presente ano pedindo licença para ir à pesca para a Ilha 3ª, e sendo-lhe denegada pelo Presidente desta Câmara com o fundamento de ser o único que ficava no seu porto para acudir a qualquer necessidade assim como para dar, isto é vender o peixe ao povo, sem embargo disso sempre saíra no seu barco à pescaria para a Ilha 3ª sem levar os competentes Despachos de Licença e carta de saúde, e depois recolhendo ao seu porto tornara a ir à Ilha 3ª sem os ditos Despachos o que ele praticava por ser insubordinado, e costumado ... O Réu compareceu e confessou que era verdade ter ido à Ilha 3ª duas vezes sem os competentes Despachos. Condenado em 3$000 e em três dias de cadeia não sendo solto sem pagar a dita coima e custas.”

Outros tempos em que as Câmaras exerciam a justiça em variados senão em todos os sectores sociais.

___________

1) P. Júlio da Rosa – “A Cidade da Horta – Cinquenta anos da sua vida cultural, religiosa e artística nas década de 40 a 80”. 1989

2) Francisco Soares de Lacerda Machado, -“Os Capitães-Móres das Lages”, pág.19 - 1915

3) Ibidem – “História do Concelho das Lages”, pág. 78 - 1936


Vila das Lajes,

17-Outº-2011

Ermelindo Ávila

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

AMARGURAS DA HORA PRESENTE


Portugal atravessa um dos momentos mais cruciais da sua secular existência Dia-a-dia surgem noticias alarmantes da situação económica do País e, consequentemente. da falta de trabalho, dos despedimentos, do “apertar do cinto” da maioria dos

Portugueses e muito mais que não importa recordar agora.

Inventou-se a “Troika” para justificar as medidas de austeridade que os governantes vão tomando com reflexos perniciosos nas classes mais baixas, aquelas que têm de “comer o pão com o suor do seu rosto”

E em tudo se mistura uma política de desagregação, seja das chamadas direita ou esquerda.

Creio que nunca se explicou à Nação se a crise económica que se atravessa é resultante de uma má administração dos negócios públicos ou da carência de receitas provenientes das contribuições e dos impostos, que no entanto já são avantajados.

Não quero penetrar no âmbito da análise política da situação portuguesa porque só interessa àqueles que vivem da Política ou para a Política. Talvez melhor dito da política de Bordalo Pinheiro...

A crise está instalada, não só em Portugal mas em outras nações mais, principalmente uma parte das que formam a União Europeia. E alguns dos seus dirigentes privilegiados já anunciam que nações há que vão perder parte da sua soberania, como se fosse possível ter uma meia ou limitada independência.

No primeiro quartel do século XX um tresloucado apossou-se da governação da grande nação que sempre foi a Alemanha. Passados três quartos de século surgem os novos senhores da Europa a tomar medidas de repressão e fiscalização de outras nações como se os direitos dos povos permitissem pacificamente a sujeição dos mais fracos aos mais poderosos.

No meio de todo o barulho que se instalou na Europa, um problema há que parece não ser equacionado e, muito menos, resolvido satisfatoriamente.

Os trabalhadores não diferenciados deixaram de ser considerados. A sua situação agrava-se com a falta de trabalho. Portugal não possui as industrias e outras actividades económicas que sejam capazes de absorver a mão-de-obra que excede por toda a parte. Há jovens que possuem cursos universitários que não conseguem emprego, mesmo como serventes em qualquer actividade. Basta ler o que nos trás a comunicação social. É desolador ver uma jovem, entre tantas, com a licenciatura em história – v.g. - que nem consegue o lugar de empregada doméstica, ou criada de servir como antes se dizia. “G.M é licenciada em Românicas.-. Estava empregada numa empresa há oito anos. Foi despedida pelos novos proprietários. Está desempregada. Decidiu, entretanto, colocar um anúncio no site olx.pt., onde se oferece para qualquer tipo de trabalho, desde empregada doméstica ou motorista a acompanhante de crianças e idosos.” (Visão, nº 933,de 26-01-2011) Este um caso entre tantos gv. E pior será quando o Estado e as Autarquias deixarem de investir ou executar totalmente obras de interesse social, privando as populações da sua utilização e, simultaneamente, o que é mais grave, lançando para o desemprego milhares de trabalhadores. E quem diz desemprego pode referir a fome, a miséria e, depois, o crime nos mais variados aspectos: o roubo, os assaltos, a droga, como vai acontecendo por esse mundo fora.

Hoje fico por estas reflexões amargas...


29-09-2011


Ermelindo Ávila



Nossa Senhora das Mercês

A Manhenha, outrora lugar famoso pelo vinho verdelho que nele se produzia, acaba de celebrar a sua festa em honra da Senhora das Mercês, na secular ermida de São Tomé.

A ermida foi convenientemente conservada e a Imagem secular de Nossa Senhora das Mercês, restaurada numa oficina de Vila do Conde.

A festa decorreu com o tradicional entusiasmo dos veraneantes e residentes naquele lugar, e com larga assistência de vizinhos e de outros de diversas partes da ilha.

Como vem sendo já tradição nas festas da Ponta da Ilha, não faltou uma noite de fados e bailados e uma tarde de tourada à corda.

Nas semanas anteriores tinham decorrido as vindimas, este ano bastante irregulares. Uns com boas colheitas outros com produções diminutas. Há quem diga que tem de fazer ainda uma segunda ou mesmo terceira colheita, tal a irregularidade da produção.

Mesmo assim o vinho novo nunca deixa de existir nas adegas, para oferecer aos amigos e visitantes. Uma velha tradição.

Mas é uma pena ver como esta Ponta da Ilha, ou melhor os lugares da Manhenha, Engrade, Calhau vão se enchendo de arvoredo selvagem, quando outrora era rica em vinho verdelho, em terrenos pertencentes não só aos naturais mas ainda a muitos jorgenses, que no verão aqui vinham fazer suas colheitas, transportando depois o vinho para a ilha à semelhança do que outrora e ainda agora acontece para os lados da Fronteira.

E o que se exportava para o Norte da Europa, directamente desta zona ?! Ao lado da baia da Engrade há ainda a “Baia dos franceses” onde aportavam as barcas as barcas daquele País ou daqui partiam as de cá.

Foi na Manhenha que o Estado, quando instalou os serviços agrícolas Matos Souto, adquiriu uma porção de terreno, fez o plantio de vinhas e construiu uma pequena adega. O terreno ainda pertence ao Estado ou, actualmente, à Região, mas não vejo que haja aproveitamento de qualquer produção vinícola.

Só se fala na “zona protegida”, nos muros dos currais de vinha e nos “maroiços” de ouras zonas, como se por cá não existissem iguais “construções”, (também feitas pelas mãos dos homens…)

As vindimas vão decorrendo. Ainda existem os lagares nas adegas. Todavia os baldes de plástico tomaram o lugar dos cestos. Na quase totalidade das adegas, o “pisar” das uvas foi substituído por “engenhos” apropriados. O transporte das uvas já não é feito em burros, como há cinquenta e quarenta anos, mas em camionetas e tractores. No entanto o sumo da uva, embora de castas diversas, é o mesmo e o vinho não deixa de existir nas adegas ou nas habitações dos actuais residentes, que muitos são, para ser usado durante o ano ou oferecido aos visitantes e amigos.

Curiosamente ainda se mantém a recolha, no fim da época das vindimas, do pote de vinho para os “impérios” do Espírito Santo, do ano seguinte. E ainda bem que a tradição se mantém.

A Manhenha, outrora a vileta das cem adegas e hoje uma cidadela, com excelentes vivendas, salão de recreio e festas, ermida e até piscina com balneários. Ao lado, fica-lhe a Engrade, de tradições saudosas, já com várias “adegas” de veraneio e algumas habitações. Brevemente, terá uma ermida, talvez a primeira dedicada ao Beato João Paulo II. Para lá vamos.

Engrade, Piedade,

26-09-2011.

Ermelindo Ávila

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

PIEDADE EM FESTA

NOTAS DO MEU CANTINHO


Estamos na semana da Festa da Piedade. Tal como acontece em todas as outras localidades, a festa da Padroeira é, normalmente, preparada com respeito e entusiasmo. E creio que esta atitude dos respectivos paroquianos vem desde a instituição da freguesia, uma das mais antigas da Ilha, pois já existia nos princípios do século dezasseis. Mas deixemos a história.
Há dezenas de anos que estou ligado à freguesia da Piedade por laços familiares. Aqui criei amizades e passei momentos que não esqueço pois esta terra e as suas gentes são de uma simpatia pouco vulgar.
A Piedade tem lugares de veraneio paradisíacos: a Manhenha com as suas cem adegas como a definiu um escritor faialense há mais de meio século, o Calhau com a sua baía magnífica e porto embora de reduzidas dimensões; aqui, mais recolhida a Engrade, com uma baía abundante em peixe para as pescarias de “costa”. Para não esquecer os seus famosos vinhos verdelho há muito desaparecidos.
Hoje fico pelo Calhau, uma apreciada estância de verão com excelentes adegas, agora transformadas em belas moradias. Lá existe a ermida de Nossa Senhora da Conceição da Rocha, mandada construir em 1854, pelo Padre Manuel Inácio da Silveira Campelo, vigário de S, Mateus da Terceira. Foi propriedade de Manuel Vieira Machado e, actualmente, pertence aos descendentes de José Joaquim Goulart. Infelizmente, encontra-se em ruínas.
Para a substituir foi construída, junto ao Porto, uma pequena capela onde, anualmente, os locais promovem uma festa à Senhora da Boa Viagem.
Aludindo ao porto do Calhau aqui deixo o que informa o Professor Manuel de Ávila Coelho:
“O Reverendo Pe. Gabriel Soares – que legou a sua casa do Calhau à Paróquia da Piedade onde viveu muitos anos o P. Francisco Soares – Velho – também dizia muitas vezes, com os olhos postos na magnífica baía do “Calhau da Ponta”, que não tem rival na ilha; “Ainda hei-de embarcar e desembarcar ali num cais, a pé enxuto”. Um dia abriu a bolsa e deu bem; o Estado agradeceu, reforçou a verba e ordenou o começo das obras que chegaram ao ponto em que há anos se encontram”. (Isto escrito em 1961). E continua: “Pouca sorte outra vez mas os habitantes da Piedade não tiveram culpa. Nesta maior baía do Pico, de fundo direito e saídas desafogadas, já se abrigaram navios se grande calado e, por mais de uma vez, o antigo “Funchal”, da Empresa Insulana de Navegação, ali fez serviço de mala e passageiros.
Além disto, óptimo varadouro, pela sua grande área e insignificante diferença de nível, presta-se a ser utilizado por grandes embarcações. Contudo já vimos uma traineira de pesca da albacora, das duas pertencentes à freguesia, varada no porto de Santa Cruz das Ribeiras em terra!” (A Freguesia de Nª.Sª. da Piedade, na Ilha do Pico, Boletim do NCH, 1961)
Hoje o Calhau dispõe de um bom porto, com cais acostável, embora de pequena dimensão.
Infelizmente, os iates do Pico que faziam as ligações semanais entre Pico-Faial e as restantes ilhas dos Grupos Central e Oriental desapareceram e a ilha só tem ligações com o exterior, no verão, através do porto do Cais do Pico. Toda a Zona Sul da Ilha está abandonada. Dizem que é progresso e que tudo está melhor!
E fiquemos por aqui, gozando um pouco deste verão calmoso mas agradável por estas bandas.

Engrade, 2 de Setembro de 2011
Ermelindo Ávila

segunda-feira, 6 de junho de 2011

SANTO CRISTO


Santo Cristo, em São Miguel, Bom Jesus, em São Mateus do Pico, ou Senhor das Preces, na vila das Lajes, são alguns dos diversos títulos ou nomes que o povo cristão dá a Jesus Cristo, Segunda Pessoa da Santíssima Trindade.

Qualquer das Imagens que existem, nos templos católicos, representam o Senhor nas diversas fases da Sua Paixão e Morte na Cruz. Santo Cristo, representado somente em busto, venera-se na Igreja da Esperança em Ponta Delgada. Veio de Roma, oferecida a duas religiosas que se haviam deslocado à Cidade Eterna, pelo Papa Paulo III. Dessa Veneranda Imagem se tornou grande devota, a Venerável Madre Teresa da Anunciada, que havia nascido na então Vila da Ribeira Grande, em Novembro de 1658. Estas ilhas haviam sido descobertas e povoadas dois séculos antes.

A devoção a Santo Cristo dos Milagres, como passou a ser conhecida a Veneranda Imagem espalhou-se por toda a parte, quer no Brasil quer nos Estados Unidos ou onde quer que haja um açoriano e, particularmente, um micaelense.

A sua festa, que jamais deixou de ser celebrada no sexto domingo da Páscoa, atrai a Ponta Delgada grande concurso de devotos e não só.

Mas com a mesma invocação ou outra, Jesus Cristo é celebrado, anualmente, em diversas paróquias dos Açores.

Na Ilha do Pico celebra-se desde 1862, a 6 de Agosto, a grande festa do Bom Jesus, em São Mateus, cuja Imagem foi trazida de Iguape, Brasil, pelo emigrante retornado, Francisco Ferreira Goulart. Pela devoção tributada ao Bom Jesus, a igreja paroquial foi elevada à categoria de Matriz e de Santuário, um privilégio que mal foi aproveitado, se bem que a devoção ao Bom Jesus não haja esmorecido. Mas o Senhor, com o mesmo título, também é celebrado na Calheta de Nesquim, desde 1906, ano em que para ali veio a bela Imagem, oferta da devota Maria Filomena Gomes. E há, igualmente, a Imagem do Bom Jesus na Criação Velha, desde 1914, adquirida pelo pároco Pe. Ferreira Porto.

Na Silveira, das Lajes do Pico, celebra-se em Agosto a solenidade de Santo Cristo, cuja Imagem ali se venera há muitos anos, muito embora já não exista a primitiva, desaparecida com o incêndio daquela Igreja em 1925.

Em Santa Cruz das Ribeiras e na Matriz das Lajes existem à veneração, Imagens do Senhor Jesus, crucificado. Segundo a tradição estas Imagens, de escultura excelente, foram recolhidas no mar, aquando da perseguição que a Inglaterra moveu à Igreja Católica no tempo da reforma protestante. Assim informa Silveira de Macedo (in História das Quatro Ilhas...”, lº Vol. Pág. 220 – 1871): “Consta que esta imagem foi também arrojada pelo mar à praia daquela vila pelo mesmo tempo que o fora outra semelhante à Praia do Almoxarife, ilha do Faial, o que faz julgar terem ambas a mesma procedência.”

Esta nota acresce à informação: No princípio de Janeiro de 1731 chegou à vila das Lajes do Pico o doutor Luiz Homem da Costa e trouxe uma relíquia do santo lenho numa custódia de prata com um cristal lapidado, oferecido pela condessa do Rio Grande à confraria do Bom Jesus das Preces erecta na Matriz daquela Vila, e juntamente o breve de aprovação da mesma relíquia passado em Roma pelo bispo Listrense, Epifânio de Nápoles em 1730.

Em Santa Cruz venera-se também uma Imagem do Senhor Jesus Crucificado que, segundo a tradição, na mesma época (1540?)apareceu numa pedra existente no meio do porto e que há anos foi removida para um pequeno jardim adjacente à Paroquial.

Os Açores estão em festa. As suas Festas Maiores. Vale a pena vive-las com alegrias e paz, sem esquecer a Fé que os antepassados cultivaram com entusiasmo, e nos transmitiram, instituindo as festas que ainda celebramos ,algo materialmente, mas, mesmo assim, sem deixar de as fazer acompanhar do respeito que é devido aos acontecimentos que celebramos e à espiritualidade que está latente em cada um de nós.


vila das Lajes,

Maio de 2011

Ermelindo Ávila


quarta-feira, 18 de maio de 2011

OS VELHOS SISTEMAS DE FARINAÇÃO

A Ilha do Pico estava rodeada de moinhos de vento. Neles se fazia a moenda do milho e do trigo das respectivas populações. Antes serviam as atafonas que quase todos os lavradores tinham nas lojas das respectivas habitações ou em alguma abegoaria anexa que, por isso, se denominava a “Casa da Atafona”. E havia as pequenas atafonas-de-mão, que eram utilizadas, normalmente, em casos de emergência e cuja farinha servia para as papas da manhã ou para o bolo de tijolo do almoço.

Depois apareceram os moinhos de vento.

No Pico houve dois tipos: o somente de pedra, com a cobertura de madeira, de dois pisos no interior, saindo da respectiva junção o pau que sustentava no exterior as quatro velas ou panos; e o de madeira, assente num soco de pedra. Ambos os tipos de moinho giravam em volta do “monte” conforme a direcção do vento. E quando o vento era capaz de mover os panos, presos em quatro armações, o moleiro assoprava num grande búzio que produzia um sinal de alarme que percorria o povoado. Era então que mulheres e homens e, por vezes rapazes, seguiam com os sacos da “novidade”, de um ou dois alqueires (quinze ou trinta litros) , para o moinho, onde eram atendidos “à vez”.

Igual função tinham as atafonas que, normalmente, só eram utilizadas para o serviço do próprio dono, se bem que houvesse excepções pois algumas havia que também moíam “para fora”. E porque o dinheiro era raro, o pagamento, quer nos moinhos, quer nas atafonas, era feito mediante uma pequena quantia de farinhas que o moleiro retirava das respectivas sacas.

Mas, porque os moinhos eram instalados, normalmente, em pequenas elevações, tornavam-se lugares lazer para alguns que neles passavam algumas horas.

Com a instalação da actividade baleeira, os moinhos serviam para o respectivo moleiro fazer a vigia de baleias como acontecia no que estava instalado na “Terra da Forca” que, diariamente, era ocupado pelo vigia Francisco Moniz Barreto que já sucedera ao Pai, José Moniz.

Com a instalação das moagens a quase totalidade dos moinhos deixou de ser utilizada, mas alguns continuaram a servir de “vigia”, pelo local onde se encontravam. É o caso do moinho da Terra da Forca, já referido, e o do Cabeço da Era, na Piedade, ocupado pelo vigia das Armações da Calheta.


Daqueles (dois) que existiram na Terra da Forca, nos Biscoitos, no Soldão, e no Mistério da Silveira, resta o do fim do Mistério, no início da freguesia de São João, hoje transformado em Posto de Turismo. Não sei se outros mais há à volta do Pico.

Foi pena que os deixassem ao abandono e viessem a desaparecer. Eram testemunhas fortes dos trabalhos e das canseiras dos nossos avós e,

ao mesmo tempo, sinais de vida destas gentes que, por aqui, ainda hoje, mourejam o pão de cada dia.

Bem poucos anos bastaram, para que tudo se tornasse diferente. Nem moagens há, pois deixaram de cultivar o trigo; e o milho é bem escasso. É quase tudo importado, até que se volte à terra quando a fome, que não anda longe, por aqui passar...

Lembro-me da moagem que o Dr. José Maria de Melo, que aqui exerceu as funções de facultativo médico municipal e acabou por se transferir para as Velas, tinha instalada na rua que ainda alguns conhecem por “rua do engenho”. A casa principal, onde se encontrava a maquinaria, ainda lá existe. Ao lado havia a casa da caldeira, que já desapareceu. A caldeira era alimentada a lenha, que um carro de um boi trazia do Mistério. Na moagem tanto se moía o trigo como o milho. E estava preparada para tratar a farinha, retirando-lhe o calouro. Com a ida do proprietário para S. Jorge, a moagem para lá foi transferida e as casas, que haviam sido construídas para a instalação da indústria, foram vendidas. Resta, como disse, a principal, de três pisos.

Depois vieram as moagens para farinação de milho. A primeira foi instalada na rua de Olivença, rua de Baixo, onde mais tarde foi construída a sede da Sociedade de Santo António. Creio que o primeiro proprietário foi Gil Xavier Bettencourt que veio, mais tarde, a trespassá-la para Epifânio Batista. Este, passando a encarregado da Central Eléctrica, nos anos trinta, encerrou a moagem e passou a trabalhar na moagem da central, então nos baixos do edifício do convento franciscano. Depois instalou uma moagem na Ribeira do Meio, próximo dos Biscoitos, e uma outra na Silveira. Em Santa Cruz das Ribeiras, pela mesma época, Manuel Silveira de Ávila (Veludo) instalou uma moagem, perto do porto; e o Dr. José Alves Pereira montou uma moagem na Calheta de Nesquim. Ficou assim o concelho com uma cobertura de moagens de farinação de milho que, praticamente, vieram a substituir os antigos moinhos.

Já uma vez recordei este assunto. Não importa repeti-lo. Diz um velho aforismo: Recordar é viver.


Vila das Lajes,

5 de Maio de 2011.

Ermelindo Ávila

sexta-feira, 6 de maio de 2011

VAMOS AFASTAR A CRISE ?


Estamos cansados de ouvir e ler que a crise económica e financeira que atravessamos só pode ser combatida com a diminuição das despesas e o aumento dos impostos.

Se não é esta a definição é a realidade que se apresenta.

Diminuir as despesas das famílias, aumentando o custo do pão, dos géneros alimentícios, a principiar pelo leite e pela carne, dos combustíveis e dos impostos?

E onde estão as receitas para fazer face a esses encargos, se se envia uma parte dos trabalhadores, sejam ou não chefes de família, para o desemprego, se se diminuem os vencimentos e salários, se se aumentam os encargos que sobre eles recaíem, se, em lugar de se promover a produção dos produtos agrícolas de todo o género, desde a batata às bananas, tudo se importa ?

Outrora era agradável olhar para a encosta que ladeia a vila e outras localidades e vê-las verdejantes, com milho ou trigo, ou ervagens para o gado, conforme a época.

Hoje esses terrenos, a que se chamavam ladeiras, praticamente desapareceram com as vegetações selvagens que deles se apossaram. São as faias, os incensos, os canaviais, as silvas e, aqui e ali, duas ou três pequenas matas de criptomérias.

Mas não apenas nestas ladeiras que nos ficam aqui em frente, mas por essa ilha além. Muitos dos melhores terrenos de semeadura estão hoje utilizados em forragens para o gado e o milho que se cultiva, quase só para ser ensilado.

Há necessidade de voltar atrás. Semear a batata branca, fazer o canteiro para produzir a planta da batata doce, cuidar dos pomares para a produção da excelente fruta que, em épocas passadas, o Pico muito produzia e exportava, pôr a funcionar os moinhos e as moagens para a farinação dos cereais produzidos na ilha. Voltar, pois, ao princípio e conseguir arrancar da terra os produtos necessários à subsistência das famílias. Repetir o que fizeram, sem meios mecânicos, os povoadores nossos avoengos.

Uma interrogação se põe: E mão de obra? Faltam os braços para executar tais tarefas. Os velhos já não podem voltar às terras, com o alvião às costas, ou manobrar o arado que, puxado pelos bois, lavrava a terra.

Hoje há maquinaria que substitui, em parte, o trabalho do antigo agricultor! E se a juventude não se quiser dedicar à terra, preferindo aguardar, no “desemprego”, uma colocação condizente com o curso que tirou, podem contratar-se trabalhadores estranhos à ilha, que os haverá em outras terras.

Há anos, no Canadá, tive oportunidade de visitar uma enorme propriedade toda ela plantada de vinha. O proprietário fazia, anualmente, milhares de litros de vinho para venda. Todo o trabalho era executado por trabalhadores contratados, por períodos de seis meses, em Costa Rica, os quais, logo que terminava o contrato que só tinha efeitos nos seis meses de verão, voltavam à sua nação. E estavam sempre prontos a voltar no ano seguinte.

Creio que por cá não se tornará necessário ir tão longe...


Vila das Lajes,

21-2-2011,


P.S. “O Dever”, na edição da semana finda, publicou um judicioso artigo do Comendador Manuel Emílio Porto, sobre o tema que hoje aqui abordo. Com ele estou plenamente de acordo. E, muito embora este meu arrazoado esteja na gaveta há algumas semanas, julgo que não perdeu actualidade, pois a crise continua e agrava-se, assustadoramente. Vale, pois, a pena combatê-la por todos os meios. Trata-se, afinal, da maior crise que Portugal sente e sofre deste 1850. ..É o que diz a Imprensa.

A propósito, pode ler-se na revista “Visão”, nº 946, de 21 a 27 de Abril corrente:

“Sempre a dever. A dívida pública não parou de crescer nos anos finais da Monarquia e marcou o início da República. A trajectória, interrompida durante o Estado Novo, viria a ser retomada depois do 25 de Abril. Em 2010 o endividamento do Estado atingiu o valor mais alto dos últimos 160 anos.”


29-Abril-2011

Ermelindo Ávila

quarta-feira, 27 de abril de 2011

O JOGO DO PIÃO

Eram muito poucos os jogos que existiam até à primeira metade do século XX. O rapazio entretinha-se nas ruas a jogar o “vinte e cinco”, com moedas em desuso, o “jogo do apanhar”, o” jogo da baleia” ou, na época da Páscoa, o ”jogo do pião”. Não havia o perigo do trânsito, pois raramente passava por elas um carro de bois e os carros da mala, trazidos pelas mulas do Caetano, só chegavam à vila ao anoitecer.

Mas os piões tinham as suas regras que eram escrupulosamente respeitadas. Normalmente, eram feitos de madeira de buxo, rija como ferro. Tinham de diâmetro, aproximadamente quatro a cinco centímetros e com ponta de ferro. Para os adultos que também jogavam o pião, estes tinham cerca de dez centímetros de diâmetro.

Mas, como disse, o pião não se jogava todo o ano. Havia uma época própria. Nunca consegui averiguar a razão. O jogo só começava no sábado da aleluia, depois do sino da Matriz tocar, festivamente, a anunciar a Ressurreição do Senhor.

Os rapazes preparavam os piões e as fieiras dadas pelos pescadores que imigrados dos Estados Unidos traziam rolos de fio para a pesca. Eram eles que forneciam as “fieiras”, pois outro qualquer cordel não servia para pôr o pião em movimento.

Anunciada a aleluia, todos davam início ao jogo. Era uma alegria imensa. Era o maior sinal de festa. Não havia ou eram raras as amêndoas, que agora existem de todas as qualidades. Mais tarde, elas apareceram em maior abundância, fabricadas na Horta na Fábrica Primavera. Mas de uma só qualidade…

O pião, durante as semanas que decorriam entre a Páscoa e o Domingo de Pentecostes ou Espírito Santo, era o grande entretenimento. Até de grandes. Triste daquele que perdia porque o seu pião era sujeito a

“ferroadas” que, muitas vezes o inutilizava.

Interessante, também, o jogo da baleia. Duas canas, presas nas extremidades, com um troço da mesma cana ao centro a separá-las, onde “navegavam” o oficial, o trancador e um marinheiro. E as baleias eram os outros jovens que se dispersavam pelas ruas a espreitar a chegada das canoas.

As ruas livres, permitiam todas as brincadeiras, como ainda o jogo de “apanhar”, ou sejam as corridas atrás uns dos outros.

Dizia-se até que jogar antes do Aleluia, era picar a Cara de Nosso Senhor.

Tempos passados e que não voltam. Estão presentes na recordação e talvez na saudade daqueles que tiveram a “dita” de os viver. E recordá-los vale a pena somente para trazer até hoje, os tempos de juventude de alguns pais e dos avós…

Muito mais se podia dizer. Fiquemos por aqui…


Vila das Lajes

4 de Abril de 2011

Ermelindo Ávila

sexta-feira, 22 de abril de 2011

FOLAR DA PÁSCOA

A Páscoa é o tempo em que o povo judaico comemora a libertação do Egipto. É celebrada no 14º dia depois do equinócio da Primavera. Foi nesses dias que se deu a Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus Cristo. E para comemorar esse acontecimento, base da fé cristã, celebram os Cristãos, anualmente, a Ressurreição de Jesus Cristo no domingo seguinte à Páscoa judaica. Trata-se pois de uma festa móvel no calendário da Igreja, celebrada anualmente com grande esplendor litúrgico.

O Cristão vivia a Semana Santa com muito recolhimento. Mesmo que não assistisse diariamente às solenidades litúrgicas. Tinha, no entanto, um enorme respeito por esses dias em que a Igreja Católica comemorava a Paixão de Jesus Cristo.

Os trabalhos dos campos quase eram suspensos, só se efectuando os indispensáveis. Não se realizavam divertimentos de quaisquer espécies. Um quase silêncio respeitoso dominava os ajuntamentos das pessoas.

No ano de 1888 a freguesia da Santíssima Trindade tinha 3.170 habitantes, distribuídos pela Silveira - 1.468, Lajes (incluindo a Ribeira do Meio),1.497 e Terras 205. Toda a população, em idade canónica, cumpria os preceitos de confissão e comunhão. No respectivo registo não se encontra um faltoso. Não digo que fossem melhores ou piores. Eram simplesmente cumpridores das normas da Igreja.

*

O povo cristão criou, para as refeições do dia de Páscoa, o folar. (As amêndoas vieram mais tarde).

O folar é, pois, tradicional da Páscoa, tal como a caçoilha é o prato preferido do Natal. Mas há sua diferença. No Natal predomina o prato de carne. O mesmo acontece no continente, pois é nessa época que há a grande matança para abastecimento geral.

Na Páscoa, ao menos por estes lados, não há prato especial. No domingo de Páscoa as refeições geralmente são frugais. Ao almoço (até há uns cinquenta anos) era partido o chamado folar grande que, quase sempre tinha ovos para toda a família. (Mas que era o folar? - Um pão de massa sovada, no qual se introduziam alguns ovos cozidos, cobertos com dois troços de massa, em forma de cruz ). Alguns folares eram distribuídos pela família e amigos. Por vezes era, e é ainda, uma troca de mimos.

Para o jantar cozinhavam-se pratos simples. Por vezes, carne de galinha e sopa de canja. Isto no tempo em que os horários das refeições eram diferentes: o almoço às dez horas da manhã e o jantar às cinco da tarde. Não havia pequeno almoço. Antes do deitar, cerca das nove/dez horas da noite, era a ceia, também muito frugal, pois era corrente o ditado: das grandes ceias estão as sepulturas cheias...

Depois, por exigência do funcionalismo vindo de fora, o horário das repartições modificou-se passando a haver um intervalo ao meio dia para o almoço. E hoje toda a gente adopta esse horário.

As cerimónias pascais tinham lugar de manhã. Principiavam pela procissão com o Santíssimo, seguindo-se logo a Missa da Ressurreição. Depois, era o almoço familiar e o domingo ficava livre para as visitas das famílias e amigos.

Vila das Lajes.

Páscoa de 2011

Ermelindo Ávila