domingo, 17 de junho de 2012

O DIA DO CONCELHO


NOTAS DO MEU CANTINHO



          Nunca foi esclarecida a data da criação do concelho das Lajes, que abrangia, desde o início, toda a ilha do Pico. Creio mesmo que não será possível.
          O investigador jorgense Dr. João Teixeira Soares de Sousa escreve, numa nota publicada no “O Respigador” o seguinte esclarecimento: “É facto geral, e sem uma única excepção, a ignorância dos títulos diplomáticos da creação das villas, primitivas alçadas, ou sedes das capitanias. Taes são: Em Santa Maria, a villa do Porto; em S, Miguel, vila Franca do Campo; na Terceira, a Praia e Angra; na Graciosa, Santa Cruz; em S. Jorge, as Velas; no Fayal, a Horta; No Pico, as Lages; Nas Flores, Santa Cruz. “
 No “Espelho Cristalino em Jardim de Várias Flores”, escrito por volta de 1660, e que só veio a ser publicado na totalidade em 1989, com erudito prefácio do Professor Doutor Artur Teodoro de Matos, (não interessa agora recordar as bolandas porque o manuscrito andou) refere Frei Diogo das Chagas: (2)
          “Não havia pollo tempo que se passou o primeiro mandato, até ao ano de 1504, pêra 1505, naquella Villa das Lagens, que era Prochia de toda a Ilha, (e muitos annos depois não ouve outra) mais de hum Juiz, e hum Vreador, e hum procurador do Concelho, e do(u)s ou tres homens bons, os coais em Câmara fa(z)ião as posturas e mais cousas que conuinhão para o bom governo da Ilha.”
          E, se outros fossem os factos, Frei Diogo das Chagas não os teria esquecido, pois, no Prefácio referido, diz o seu Autor: “Contendo matéria em grande parte diferente, mas de incontestável interesse histórico, é o capítulo dedicado à ilha do Pico. Trata, é certo, como os respeitantes às demais ilhas, do descobrimento desta parcela açoriana, da descrição da mesma, das suas paróquias e ermidas, dos vigários, da população e de vários casos dignos de memória. No entanto insere documentos muitíssimo curiosos acerca dos primeiros cortes de arvoredos, dos jardins, dos vários artífices que houve na ilha nos primeiros tempos do povoamento, etc. Enfim, um acervo de interessantes notícias através das quais poderemos em certa medida, reconstituir a vida social picoense nos primeiros dois séculos de vida humana, nas regiões correspondentes às vilas das Lajes, de S. Roque e da Madalena.”
          Frei Diogo das Chagas era irmão de sangue de Frei Mateus da Conceição, guardião do convento franciscano das Lajes. Andou pela Província franciscana em visita canónica e, naturalmente, deve ter-se demorado na vila das Lajes, algum tempo, tendo por isso tempo de copiar do arquivo municipal, que não seria muito, os documentos que transcreve na sua notável obra.    
 A propósito, Lacerda Machado refere: “Da elevação da antiga povoação ao foro de vila, não chegou até nós documento algum. Mas a data desse facto, que marca o início da organização municipal da ilha, sabe-se que é anterior a 1501. E refere o alvará passado em 14 de Maio de 1501, passado pelo 2º capitão donatário Joz de Utra, filho, a favor de Fernão Alvares, primeiro povoador da ilha, “pª dar licensa pª poderem ir aos matos tomar os gados brabos & buscar os mansos”.(3)
          E argumenta este Autor: “Ora, tendo as eleições lugar no verão, e sendo o citado alvará de Maio de 1501, conclui-se que a vereação que então servia fora eleita no verão de 1500, em consequência, presumivelmente, de documento régio, criando a vila, sede do primeiro município”.(4)
          Não terão os povoadores trazido consigo aqueles que iam governar o novo território? É natural que assim tenha acontecido pois o Infante ao organizar o povoamento das Ilhas, tudo deve ter providenciado. Veio o Pároco, vieram os animais, as alfaias agrícolas, as sementes. Naturalmente, vinham aqueles que administrariam os novos territórios: um Juiz, um Vereador, um procurador do concelho e dois ou três homens bons, embora subordinados a um capitão - donatário, que preferiu ficar pela Madeira... O caso de Fernão Alvares é um puro acidente. Não conheciam a enseada do Castelete e, com o levantar do mar, julgaram que uma tempestade se aproximava. Fugiram para só voltar no verão seguinte.
Entende-se que o Alvará de 14 de Maio de 1501 seja o primeiro documento oficial respeitante ao novo concelho. E assim sendo, porque não estabelecer essa data como dia do concelho?
____ ___________
  1) O Respigador, jornal jorgense, nº14 de 20/1/1889
  2) Frei Diogo das Chagas, “Espelho Cristalino...”, 1989, pag.509
  3)  F. S. Lacerda Machado, “História do Concelho as Lages”,1936, p.85
 4)  Ibidem

Vila das Lajes, Maio de 2012
Ermelindo Ávila.
(Escrito de acordo com a antiga ortografia)

sexta-feira, 1 de junho de 2012

O fundador de O DEVER


Junto do cabeçalho do jornal ainda se encontra o seu nome. E de lá não deve sair.
O Pe. João Vieira Xavier Madruga nasceu nas Lajes do Pico no dia 1 de Junho de 1883. Há precisamente 129 anos! Todavia a sua memória está sempre presente para aqueles que ainda o conheceram, pois veio a falecer na sua casa, nesta vila, em 1971, aos 88 anos de idade. Mesmo assim foi sempre um espírito brilhante e um escritor, mais do que jornalista, de enormes méritos. Conhecia como poucos a gramática portuguesa – foi professor de português no Seminário após a ordenação – e era portador de um vocabulário rico, apesar de a seu lado, na pequena escrevaninha, estar sempre o dicionário português. Um Mestre na arte de bem escrever, de que alguns foram alunos aproveitados.
O Dever, seu filho predilecto, “nasceu”, a 2 de Junho de 1917. Já então o seu fundador andava embrenhado nas lides jornalísticas, pois desde os bancos do seminário colaborava quase permanentemente no jornal de Angra, “Peregrino de Lourdes”, de Monsenhor António Maria Ferreira.
E O Dever aí está. Ocorre no próximo sábado o aniversário da sua fundação. Nada menos do que 95 anos. Quase um século. Sempre vigoroso e sempre actual. Demais os jornais não têm idade. Ou antes: têm a idade de quem os dirige. E porque dirigido actualmente por gente nova, ele aí está capaz de caminhar por muitos anos fora, para prestígio da Igreja da qual é um paladino intemerato, e da própria terra onde se instalou há 73 anos! (O Dever iniciou a publicação na Calheta de S. Jorge e, em 1938, foi transferido, por vontade expressa do Director e Proprietário, para esta vila, onde continua).
Em 7 de Janeiro de 1939 O Dever atingia o número 1.000 de publicação. No seu habitual “Meu cantinho” escrevia o P. Xavier Madruga: Mal imagina o leitor deste modesto semanário o que representa, para os que nesta casa labutam, como pedra marcante do caminho percorrido angustioso instrumento de trabalho, aquele número mil no alto do jornal! São mil semanas de” grilheta e trabalhos forçados. E depois: Mas se a imprensa tem obrigações para com o público, este também as tem para com ele. O jornal faz o leitor e o leitor faz o jornal. E ainda: Um milhar de números de “O Dever” quer dizer que, sob o signo bendito “Deus e Portugal” durante mil semanas arvorámos sem temor uma bandeira gloriosa, quisemos ser instrumentos fiéis de Ideias e Princípios Eternos, dissipando erros, e ajudando no possível a verdade a triunfar. E Deus sabe a sinceridade com que procurámos servi-Lo – servindo a Igreja e os interesses supremos de Portugal.
E que alegria não sentiria hoje o P. Xavier Madruga ao ver que o jornal que ele fundou com tanto entusiasmo e dedicação, atingia neste dia 4699 números publicados.
Mas o jornal não se deve quedar pelos louros alcançados, antes caminhar com o mesmo entusiasmo da primeira hora para o futuro, tendo sempre presente a defesa dos sãos princípios da Igreja a que pertence e que serve e da Terra onde se publica à qual, aliás, bastos serviços lhe vem prestando. Foram várias as campanhas que empreendeu – e nele se encontram arquivadas – e os triunfos alcançados. O Dever é um autêntico paladino dos direitos da Ilha e particularmente do concelho das Lajes. Nunca disso recebeu agradecimento público e bem o merece. É sempre tempo de se fazer justiça. Demais a sua colecção é um património rico de história que se espera seja salvaguardado.
E fico por aqui nesta modesta homenagem à saudosa memória do Fundador, P. Xavier Madruga, com quem orgulhosamente colaborei muitos anos, e com o qual muito aprendi, e a quantos lhe sucederam na direcção do jornal, não esquecendo as muito e distintas personalidades que colaboraram assiduamente em O Dever !

Vila das Lajes,
Maio de 2012.
Ermelindo Ávila
(Escrito de acordo com antiga ortografia)

domingo, 27 de maio de 2012

AS DOMINGAS DO ESPÍRITO SANTO





O ciclo festivo denominado “As Domingas terminou. E, como vulgarmente se diz, este ano foi o "ano das Terras”. Isso significa que, durante as Domingas, após o domingo de Páscoa, diversas famílias, seguindo uma tradição muito antiga, “levaram a Corôa” e deram jantar a muitos convidados. Os dois últimos domingos, entre a Páscoa e o Pentecostes não foram ocupados, pois os antigos “irmãos” já não existem e não deixaram famílias para os continuar.
Mesmo assim, foram cinco domingos de festa para o subúrbio das Terras, desta vila das Lajes do Pico.
O mesmo aconteceu na Almagreira, onde ainda existe idêntica Irmandade, embora esteja também quase inexistente.
Mesmo assim, foram cinco domingos em que aquele lugar das Terras esteve em festa permanente, pois, durante a semana que antecedia o domingo, havia os naturais preparativos para o jantar em cujos trabalhos se ocupava a quase totalidade da população. À noite, não faltava o terço cantado com a presença dos foliões. Na sexta-feira de cada semana o mordomo oferecia aos familiares e convidados uma merenda que, afinal, era um excelente repasto com variados manjares.
Notória a confraternização e o entendimento que existia entre as pessoas, quer as simplesmente convidadas quer aquelas, principalmente jovens, que se ocupavam, nas diversas tarefas preparatórias e, principalmente, na distribuição das sopas e assistência atenta às mesas.
A animar as Coroações estiveram sempre presentes os Foliões, com seus cantares alusivos e, em alguns domingos, filarmónicas que abrilhantavam os cortejos processionais.
Nos domingos festivos, as Corôas, - no último estiveram dez, - saíam das residências dos Mordomos e, em procissão, formada pelos quadros de varas onde iam os portadores dos estandartes alçados e as Coroas, levando à frente os foliões. Depois seguiam, acompanhados dos familiares e de muitos convidados, para a Ermida do Coração de Maria, onde se celebrava Eucaristia solene, cantada. No final o sacerdote celebrante coroava os mordomos e seus representantes. Depois de arrematadas as ofertas que o Mordomo leva à Igreja (pães de massa sovada, uma terrina de sopas, uma travessa de carne e uma garrafa de vinho – o vinho de cheiro do Pico, tanto apreciado nestas ocasiões), era reorganizado o cortejo que voltava a passar pela casa do mordomo para se dirigir a seguir para o vasto salão do lugar, pertença da Sociedade Recreativa Alegria no Campo, mas sempre de portas abertas para as festividades. Aí eram servidas as “sopas do Espírito Santo”.
A ementa do jantar era e é sempre igual em todas as funções mas sempre apetecida: as tradicionais sopas com carne cozida, depois carne assada e a seguir arroz doce e, em algumas, também bolos doces. Nas mesas abundavam o queijo e a massa sovada, para as “entradas” nunca faltando o vinho, os refrescos e as águas minerais.
À apresentação de cada iguaria é costume os foliões, que ocupavam lugares perto dos tronos onde estavam as Coroas, entoavam loas apropriadas. E se havia filarmónica, esta, no final do jantar, habitualmente executa o hino do Espírito Santo e uma marcha ligeira.
No corrente ano foram mordomos: no primeiro domingo, Alberto Pimentel e esposa Vicência Soares Pimentel; no segundo, Manuel da Rosa e esposa Hortense Soares; no terceiro, José Simões e esposa Maria Fernanda Simões, que expressamente vieram dos Estados Unidos, onde residem, para cumprir o voto, que vem, como os outros, de seus antepassados; no quarto domingo, Manuel Pereira Madruga e esposa Maria Armanda Madruga; e, no quinto domingo, José Adelino Fagundes e esposa e Fátima Fagundes.
De registar o lançamento do novo livro da luso-americana Maria Fernanda Simões, Em cada Canto um Divino Espírito Santo, realizado a seguir à merenda da Sexta-feira da semana em que a Autora, como disse, foi Mordoma. Um evento que teve larga assistência. Trata-se de um trabalho bastante ilustrado e com Arranjo Gráfico e impressão da Nova Gráfica, Lda. Em Nota Explicativa escreve a Maria Fernanda: “... para que festas antigas do Divino Espírito Santo não caíssem no esquecimento, resolvi escrever este quarto livro que intitulo Domingas ou Folias, no lugar das Terras, únicas celebrações que ali existem , muito características no lugar, porque vêm de longa data”. Poucas localidades açorianas manterão ainda esta tradição das Domingas, embora celebrem diversos actos de culto em louvor da Terceira Pessoa da SS. Trindade. Eles revelam o respeito dos picoenses pela tradição religiosa de seus Maiores e um autêntico espírito de sacrifício, de confraternização e de amizade entre as famílias e conhecidos, e uma devoção permanente à Terceira Pessoa da Santíssima Trindade.
Os maiores louvores aos mordomos e aos habitantes do progressivo lugar das Terras.

Vila das Lajes,
Semana do Espírito Santo de 2012.
Ermelindo Ávila

quarta-feira, 23 de maio de 2012


NOTAS DO MEU CANTINHO


O RETORNO ...


Até meados do século XX a emigração açoriana dirigia-se para países estrangeiros, principalmente o Brasil. A seguir foi a emigração para os Estados Unidos da América. Mas esta tinha características muito diferentes das actuais.
Normalmente, quem emigrava para o Brasil “esquecia-se” por lá e deixava de dar notícias. Raros eram os que voltavam. Haja em vista o que aconteceu com os “casais” que, após as erupções vulcânicas do século XVIII, foram levados para o Estado de Santa Catarina. Daí correr o adágio: O Brasil é a terra dos esquecidos.
A emigração para os Estados Unidos da América, iniciou-se quase só de “salto” nas baleeiras americanas, embora estas ainda sob a bandeira inglesa.
O notável escritor e contista Florêncio Terra, na obra póstuma “A Caça à Baleia nos Açores”, (para só citar este Autor). Refere: “No ano de 1678, por exemplo, os ingleses obtiveram 800 contos de azeite, tendo empregado 200 navios de um mastro e com capacidade cada um, para 250 barris de óleo, cada barrica levando 50 canadas. Vendia-se nesse tempo o azeite de baleia a 200 rs. A canada (2,33 litros) e o de cachalote a 300 rs. Um ofício do Capitão General dos Açores, D. Antão de Almada, para o Governo, em 19.10-1768, refere-se a muito espermaceti e âmbar que então havia, e apresenta informações interessantes relativas a essa indústria ali efectuada em barcos ingleses”.
Alguns desses emigrantes “de salto” por lá ficaram, outros voltaram, principalmente, para iniciar aqui a actividade baleeira, como foi o caso do Capitão Anselmo. E não só.
Seguiu-se a emigração em termos legais. Pelos portos dos Açores passaram, além de outros, os barcos dos “Transportes Marítimos do Estado”. Apareceram depois os italianos, primeiro o “Sinaia” e, a seguir, outros de maior tonelagem, como o “Vulcânia” e o “Saturnia”. Quando estes por cá apareceram, um jornalista açoriano classificou-se de “cidades flutuantes”!
Normalmente, os emigrantes iam solteiros, com o propósito de voltarem, pois na terra, além dos pais e mais familiares, quase sempre deixavam as namoradas. Alguns esqueciam-se outros cumpriam a promessa... A grande maioria nunca mais voltou à terra e, da família, nos primeiros tempos, lembrava-se quase somente pelo Natal.
Organizaram as suas vidas, constituíram família e tornaram-se elementos válidos nas Terras do Tio Sam. A testemunhar a sua actividade estão as igrejas católicas, as sociedades fraternais e muito do comércio e indústria que, principalmente na Califórnia, ainda hoje prospera. E não refiro nomes, que o podia fazer...
Mas, após a guerra de 1914-1918, a América fechou-se à imigração e anos se passaram sem que alguém pudesse para lá emigrar.
Mesmo assim muitos voltaram às terras de origem e foram eles que passaram a adquirir os terrenos – de semeadura e pastagem – das famílias morgadias, decaídas, o que permitiu a divisão normalizada da propriedade rústica. Uma situação que não pode esquecer-se pois modificou totalmente a vida familiar e económica destas terras.
Na década de cinquenta do século XX rebentou na ilha do Faial o Vulcão dos Capelinhos. Os americanos sensibilizaram-se com a situação angustiante de muitas famílias faialenses e permitiram que algumas delas emigrassem para aquele país. Entretanto, as leis americanas são modificadas e abre-se a emigração a muitos açorianos e portugueses. Foi o êxodo.
Não emigraram unicamente indivíduos isolados. Saíram famílias inteiras. Naturalmente quase toda a juventude. As freguesias foram despovoadas e por cá ficaram quase só os velhos. Não refiro as situações de prosperidade que muitos alcançaram nas terras da Diáspora. Felizmente.
No entanto, os reflexos dessa saída, algo precipitada, estão a verificar-se. Temos uma população praticamente envelhecida, incapaz de ter novas iniciativas de actividades económicas. Alguns dos que ficaram vivem das reformas e dos subsídios estatais. Outros vão-se recolhendo aos lares da terceira idade que, entretanto, se vão criando em quase todos os concelhos. E a juventude que aqui e ali aparece, raro se fica pela terra. Caminha para outros meios para continuar estudos ou conseguir empregos e não voltam.
Uma situação angustiosa, afinal, que ninguém é capaz de alterar.

Vila das Lajes,
9 de Maio de 2012-
Ermelindo Ávila
(Escrito de acordo com a ortografia antiga)

sábado, 12 de maio de 2012

SANTO CRISTO MILAGROSO



O povo açoriano está, nestas dias que antecedem a festa de Pentecostes, voltado para ao Santuário da Esperança, na ilha de São Miguel.
Está a decorrer o novenário preparatório para as grandiosas solenidades em honra de Santo Cristo dos Milagres que, naquela ilha se vem, ininterruptamente, celebrando desde o século XVI, quando o Papa Paulo III ofereceu a duas religiosas micaelenses, a santa imagem, segundo relata o Pe. José Clemente.
A grande devota de Santo Cristo foi a Venerável Teresa da Anunciada que, segundo o seu biógrafo, tinha colóquios íntimos com o Seu Rei e Senhor.
Não se conseguiu ainda que a Igreja Romana elevasse às honras dos Altares a Venerável Religiosa. Todavia, Ponta Delgada já prestou condigna homenagem à Venerável Madre Teresa da Anunciada, colocando a sua estátua junto do convento onde ela passou os últimos anos de vida.
Bem merecia que algo mais se promovesse em ordem à finalização do processo de Beatificação
E isso em nada desmerece ou diminui o culto ao Senhor Santo Cristo, presente no convento da Esperança e, igualmente, em diversas igrejas das ilhas açorianas e até na Diáspora.
A ilha do Pico, além do culto normal a Jesus Cristo, - e ele é bem patente na veneração das Imagens do Bom Jesus de São Mateus, Calheta e Criação Velha, na paróquia da Silveira é o Senhor Santo Cristo, como nas do Senhor Jesus Crucificado de Santa Cruz das Ribeiras ou do Senhor Jesus das Preces, venerada na Matriz das Lajes - tem um culto especial à segunda Pessoa da Santíssima Trindade, em todas as igrejas paroquiais.
A Ilha do Faial festeja, oficialmente, em cumprimento de um voto muito antigo, o Santo Cristo da Praia do Almoxarife. São Jorge presta culto ao Santo Cristo da Caldeira. A Terceira venera na capela da Natividade de Angra, o Santo Cristo da Terceira.
Por toda a parte é o povo em prece ante as Imagens Venerandas, quer em corpo inteiro, quer em busto, ou no Senhor Crucificado, muito embora algumas imagens mereçam mais atenção dos fiéis, como é o caso do Santo Cristo do convento da Esperança, ou do Bom Jesus da paróquia de S. Mateus do Pico, ambos os templos declarados santuários pelo Prelado da Diocese.
Mas maior e mais vincado é o culto ao Senhor Santo Cristo dos Milagres de Ponta Delgada que ali atrai durante o novenário e festa, milhares de devotos, muitos idos das ilhas açorianas e numerosos vindos das terras da Diáspora, onde se encontram milhares de açorianos imigrados.
Quem um dia tomou parte nas festas e, principalmente, na Procissão, não ficou indiferente ante a fé dos devotos e dos sacrifícios que centenas deles fazem no cumprimento de promessas feitas em horas de angústias e dores.
A festa de Santo Cristo mantém o secular programa. A procissão segue, anualmente, o mesmo percurso de há séculos e não haja quem pretenda modificar o itinerário porque os micaelenses não consentem. E ainda bem que é assim. É um acto litúrgico e a liturgia não anda ao sabor dos modernismos mas mantém os seus princípios de culto a Deus e aos Seus Santos. E o Santo Cristo é, na realidade, a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade: Um só Deus em três Pessoas iguais e distintas ensina o antigo catecismo. E o Concílio de Trento já declarara: “O Pai aquilo mesmo que o Filho, o Filho aquilo mesmo que o Pai, o Pai e o Filho, aquilo mesmo que o Espírito Santo, ou seja um único Deus por natureza”.
Não vim dar uma lição de catequese. Não me compete. Venho lembrar a festa da Segunda Pessoa da SS. Trindade – o Filho, que veio ao mundo, encarnou e se fez homem e sofreu e morreu pelos outros homens seus irmãos. E é uma passagem da Sua Vida – Cristo apresentado no Pretório de Pilatos à turba enraivecida, que hoje veneramos na sua bela e expressiva Imagem do Ecce Homo. Imagem milagrosa. Imagem que recorda aos homens um dos momentos mais angustiosos de Cristo ao sofrer a Paixão e Morte na Cruz. E são todos esses passos da Paixão que o povo crente recorda com fé, recolhimento e gratidão, implorando a seu jeito os favores de que necessita, quer materiais quer espirituais.
É por isso que milhares e milhares de devotos caminham descalços ou de joelhos sobre as calçadas, onde deixam algum dos seu sangue de mistura com dores físicas, a expiar as dores morais porque passaram em momentos de aflição e dor.
Não se pode assistir a estes actos de verdadeira penitência sem uma reflexão íntima de pena e angústia a compartilhar sofrimento com os irmãos que sofrem.
Como Mons. Pereira da Silva terminava as suas palestras no Rádio Clube de Angra, a assinalar o lº centenário da festa do Bom Jesus, de São Mateus do Pico, em Agosto de 1962, assim finalizo este modesto escrito: Senhor Jesus, não olheis para a minha indignidade e faze-me um dos teus romeiros. Mete-me numa página do teu livro e dá-me um lugar no teu céu.

Vila das Lajes,
5 de Maio de 2012.
Ermelindo Ávila


O povo açoriano está, nestas dias que antecedem a festa de Pentecostes, voltado para ao Santuário da Esperança, na ilha de São Miguel.
Está a decorrer o novenário preparatório para as grandiosas solenidades em honra de Santo Cristo dos Milagres que, naquela ilha se vem, ininterruptamente, celebrando desde o século XVI, quando o Papa Paulo III ofereceu a duas religiosas micaelenses, a santa imagem, segundo relata o Pe. José Clemente.
A grande devota de Santo Cristo foi a Venerável Teresa da Anunciada que, segundo o seu biógrafo, tinha colóquios íntimos com o Seu Rei e Senhor.
Não se conseguiu ainda que a Igreja Romana elevasse às honras dos Altares a Venerável Religiosa. Todavia, Ponta Delgada já prestou condigna homenagem à Venerável Madre Teresa da Anunciada, colocando a sua estátua junto do convento onde ela passou os últimos anos de vida.
Bem merecia que algo mais se promovesse em ordem à finalização do processo de Beatificação
E isso em nada desmerece ou diminui o culto ao Senhor Santo Cristo, presente no convento da Esperança e, igualmente, em diversas igrejas das ilhas açorianas e até na Diáspora.
A ilha do Pico, além do culto normal a Jesus Cristo, - e ele é bem patente na veneração das Imagens do Bom Jesus de São Mateus, Calheta e Criação Velha, na paróquia da Silveira é o Senhor Santo Cristo, como nas do Senhor Jesus Crucificado de Santa Cruz das Ribeiras ou do Senhor Jesus das Preces, venerada na Matriz das Lajes - tem um culto especial à segunda Pessoa da Santíssima Trindade, em todas as igrejas paroquiais.
A Ilha do Faial festeja, oficialmente, em cumprimento de um voto muito antigo, o Santo Cristo da Praia do Almoxarife. São Jorge presta culto ao Santo Cristo da Caldeira. A Terceira venera na capela da Natividade de Angra, o Santo Cristo da Terceira.
Por toda a parte é o povo em prece ante as Imagens Venerandas, quer em corpo inteiro, quer em busto, ou no Senhor Crucificado, muito embora algumas imagens mereçam mais atenção dos fiéis, como é o caso do Santo Cristo do convento da Esperança, ou do Bom Jesus da paróquia de S. Mateus do Pico, ambos os templos declarados santuários pelo Prelado da Diocese.
Mas maior e mais vincado é o culto ao Senhor Santo Cristo dos Milagres de Ponta Delgada que ali atrai durante o novenário e festa, milhares de devotos, muitos idos das ilhas açorianas e numerosos vindos das terras da Diáspora, onde se encontram milhares de açorianos imigrados.
Quem um dia tomou parte nas festas e, principalmente, na Procissão, não ficou indiferente ante a fé dos devotos e dos sacrifícios que centenas deles fazem no cumprimento de promessas feitas em horas de angústias e dores.
A festa de Santo Cristo mantém o secular programa. A procissão segue, anualmente, o mesmo percurso de há séculos e não haja quem pretenda modificar o itinerário porque os micaelenses não consentem. E ainda bem que é assim. É um acto litúrgico e a liturgia não anda ao sabor dos modernismos mas mantém os seus princípios de culto a Deus e aos Seus Santos. E o Santo Cristo é, na realidade, a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade: Um só Deus em três Pessoas iguais e distintas ensina o antigo catecismo. E o Concílio de Trento já declarara: “O Pai aquilo mesmo que o Filho, o Filho aquilo mesmo que o Pai, o Pai e o Filho, aquilo mesmo que o Espírito Santo, ou seja um único Deus por natureza”.
Não vim dar uma lição de catequese. Não me compete. Venho lembrar a festa da Segunda Pessoa da SS. Trindade – o Filho, que veio ao mundo, encarnou e se fez homem e sofreu e morreu pelos outros homens seus irmãos. E é uma passagem da Sua Vida – Cristo apresentado no Pretório de Pilatos à turba enraivecida, que hoje veneramos na sua bela e expressiva Imagem do Ecce Homo. Imagem milagrosa. Imagem que recorda aos homens um dos momentos mais angustiosos de Cristo ao sofrer a Paixão e Morte na Cruz. E são todos esses passos da Paixão que o povo crente recorda com fé, recolhimento e gratidão, implorando a seu jeito os favores de que necessita, quer materiais quer espirituais.
É por isso que milhares e milhares de devotos caminham descalços ou de joelhos sobre as calçadas, onde deixam algum dos seu sangue de mistura com dores físicas, a expiar as dores morais porque passaram em momentos de aflição e dor.
Não se pode assistir a estes actos de verdadeira penitência sem uma reflexão íntima de pena e angústia a compartilhar sofrimento com os irmãos que sofrem.
Como Mons. Pereira da Silva terminava as suas palestras no Rádio Clube de Angra, a assinalar o lº centenário da festa do Bom Jesus, de São Mateus do Pico, em Agosto de 1962, assim finalizo este modesto escrito: Senhor Jesus, não olheis para a minha indignidade e faze-me um dos teus romeiros. Mete-me numa página do teu livro e dá-me um lugar no teu céu.

Vila das Lajes,
5 de Maio de 2012.
Ermelindo Ávila

quarta-feira, 9 de maio de 2012

PATRIMÓNIO IMOBILIÁRIO

NOTAS DO MEU CANTINHO

Vezes sem conto tenho trazido a estas notas, talvez insípidas, o património imobiliário e histórico desta vila das Lajes. Nem sei, nem me dei ao cuidado de saber, se esses arrazoados têm merecido a atenção devida, não pelo escrito mas sobretudo pelo que representam, ou deviam representar, para uma terra, velha na existência, e para as suas gentes, aquelas sobretudo que nela habitam. 
Volto hoje, e concerteza pela última vez, a trazer à ribalta tão importante quão inquietante assunto, chamando a atenção, se é que isso se torna necessário, para a urgente necessidade de salvaguardar os valores históricos que nos legaram nossos maiores e que temos a obrigação de acautelar. 
A vila das Lajes é das poucas terras açorianas que têm imóveis classificados.
O convento franciscano foi fundado no Capítulo da Província franciscana, realizado em Ponta Delgada, no dia 29 de Junho de 1641. É um dos mais grandiosos edifícios da ilha do Pico. Está na posse da Câmara Municipal desde 3 de Janeiro de 1840. Foi classificado como imóvel de interesse público, por Portaria nº 22/78, de 30 de Março de 1978, da Secretaria Regional de Educação e Cultura. 
A ermida de S. Pedro, fundada pelo primeiro pároco Frei Pedro Gigante, por volta de 1460, é o primeiro templo e, consequentemente, o mais antigo da Ilha. Foi declarado Imóvel de Interesse Público por Portaria do Governo Regional, de 30 de Junho de 1984.
O Castelo de S.to António ou Forte de S.ta Catarina, foi construído em 1792, por ocasião das invasões francesas, para defesa da baía. No local existiu, anteriormente, o forte de S.ta Catarina que, com o forte da Barra e o da Terra da Fôrca, faziam a defesa da vila, das invasões dos argelinos. Possuía duas vigias e 7 ameias. A parada tinha a área de 22 por 34 metros. Ali foi instalado, em 1885, um forno de cozer cal. Presentemente, está nele instalado o Posto de Turismo Municipal. Foi classificado por decreto nº 95/78, de 12 de Setembro de 1978.
Nenhum destes imóveis tem placa de classificação. Impõe-se que neles se coloquem também placas identificativas pois, de contrário, quem os visita fica a desconhecer o interesse histórico que representam para a Vila e para a Ilha. E não é tarefa dispendiosa. Aqui deixo, a quem de direito, como soe dizer-se, o meu reparo e a minha petição.
E mais uma nota muito simples: Há anos foi colocada, no frontispício da ermida de S. Pedro, uma placa identificativa. Foi retirada quando na ermida se fizeram obras de restauro, depois do sismo de 9 de Julho de 1998. A placa não foi recolocada. É tempo de o fazer. O dispêndio não será muito.
Em 9 de Março de 1988, dois Deputados picoenses apresentaram, no Grupo Parlamentar respectivo, um projecto de Decreto Legislativo Regional para a classificação da Vila das Lajes do Pico. Alegavam que “O seu traçado arquitectónico mantem-se tal como o delimitaram os primeiros habitantes do primeiro lugar da ilha. – Ainda conserva a primitiva igrejinha na parte sul e outros monumentos históricos de relevância, como, igualmente, residências particulares, algumas dos séculos XVII e XVIII, que formam um conjunto muito valioso e bastante apreciado pelo turismo.”
O projecto do decreto, muito idêntico ao que classificou a Vila de Santa Cruz da Graciosa, não mereceu a aceitação dos deputados do partido a que pertenciam, alegando que o de S.ta Cruz havia causado certos problemas no restauro dos respectivos edifícios. No entanto, mais tarde houve quem andasse por aí a colher informações sobre a arquitectura e até arruamentos da vila...
A vila ficou prejudicada pela falta de medidas legislativas que acautelassem o seu património. E se o Decreto tivesse sido aceite e aprovado, não seria hoje um montão de ruínas como se vai verificando. Todavia, nunca é tarde para se tomarem medidas cautelares. Haja quem tenha essa coragem.
Mas isso será assunto para mais tarde. Por agora, apenas esta lembrança... 
Vila das Lajes,
30 de Abril de 2012 
Ermelindo Ávila

terça-feira, 24 de abril de 2012


AS TROPAS LIBERAIS

Ocorrem, no dia 21 do corrente mês de Abril, cento e oitenta e um anos que as tropas do Conde de Vila Flor, ao serviço da Causa Liberal, desembarcaram no porto de Santa Cruz das Ribeiras.
Foi também naquele porto, que porto ainda não era, que os companheiros de Fernão Alvares Evangelho, depois de O haver deixado no penedo negro, à entrada da enseada do Castelete desta vila, e se haverem feito ao largo, porque o mar se levantou e não permitiu que mais ninguém saltasse para terra, meses passados para ali se dirigiram e desembarcaram.
O Conde de Vila Flor desembarcando a sua tropa em Santa Cruz pretendia alcançar o porto da Madalena a fim de se dirigir à Horta, para desapossar daquela então Vila, a administração de Dom Miguel.
No dia seguinte ao desembarque, passando nesta vila, determinou ao juiz pela lei, que, “no dia 22 pelas dez horas da manhã, reunida a Câmara, se faria imediatamente trancar o auto de juramento prestado ao usurpador, aclamando a Rainha, sra. D. Maria II como rainha de Portugal”.
Sobre este feito diz Lacerda Machado (1) :
Estando nas Lages, em abril de 1831, a divisão liberal constituída pelo Conde de Vila Flor, depois Duque da Terceira, foi por este encarregado de prover as subsistências da divisão durante a estada das tropas na ilha, missão delicada, porque as populações sentindo na consciência o pecadinho da afeição pelo Senhor D. Miguel, fugiam à aproximação das forças liberais. O capitão Manuel Machado Soares, cavaleiro infatigável, percorreu pessoalmente as povoações próximas e todas aquelas por onde a divisão devia passar, para com a sua presença incutir confiança, prevenindo ao mesmo tempo as casas que tinha forno para que tivessem à porta, a horas certas, uma fornada de pão, ou bolo à moda da ilha, no que foi prontamente atendido, desempenhando assim cabalmente o difícil encargo.” (1)
Um outro facto não menos importante, ocorreu na ocasião do desembarque das tropas liberais, e conta o historiador lajense :
“... um dia em S. Jorge, Manuel Joaquim Noronha, natural da Terceira. passeando com um camarada pela povoação da Beira, junto das Velas, avistaram dois indivíduos que, para se encontrarem com eles, mudaram de rumo. – Tendo bastou par he fazerem fogo. Um (que era frade) caiu logo morto o outro – o fidalgo Miguel Teixeira, tenente-coronel de milícias, foi crivado de baionetadas.
Quando as tropas liberais desembarcaram em Santa Cruz e marchando em direcção às Lajes, ao passarem em frente da casa do capitão José Bettencourt da Silveira, este saiu-lhe ao encontro e convidou o Conde de Vila -Flor e seu estado-maior a tomar uma refeição.
No decorrer da refeição, Manuel Homem de Noronha, que fazia parte do grupo, ao encher o copo de vinho, quis saudar o dono da casa e perguntou-lhe o nome. O Noronha recuou e insistiu, confirmando o Bettencourt que esse era o seu nome. E foi então que o Conde interveio, dizendo que havia muitas Marias na terra. Julgava o Noronha ter na sua frente o Bettencourt das Velas. Assim ficou o caso sanado. (2)
Nas actas das Vereações das Lajes encontram-se os autos de aclamação de D. Miguel em 9 de Setembro de 1828 e o de D. Maria II, em 22 de Abril de 1831.
Num escrito anterior dizia: “E parece que o povo não recebeu bem a imposição do Conde de Vila Flor, pois não foram tão categorizados e numerosos os signatários do auto de aclamação da Rainha.”(3)
Um parte das tropas seguiu das Lajes até à Madalena, para embarcarem para o Faial, enquanto outra, caminhando pelo lado Norte, embarcou em S. Roque para as Velas.
Na memória das gentes ficaram os actos de vandalismo praticados pelas tropas do Conde de Vila Flor, mais tarde Duque da Terceira. Do Faial a armada ao comando do Conde de Vila Flor, rumou a S. Miguel, que ainda estava sob o domínio de D. Miguel, onde as tropas liberas desembarcam a 1 de Agosto de 1831.
“Uma vez em Porto Formoso, o Conde de Vila Flor verificou que os miguelista haviam tomado posições magníficas, ocupando as encostas sobranceiras à freguesia, principalmente na Ladeira da Velha. O Conde manda então suas tropas fazerem um movimento envolvente parecendo abandonar a estrada da Ribeira Grande. Assim consegue que as tropas miguelistas se alarguem e enfraquecem e logo que viu o alto da Ladeira da Velha pouco guarnecido faz avançar uma forte coluna pelo que os miguelistas se viram entre dois fogos. - Foi um desastre para as tropas de Sousa Prego (capitão - general miguelista), pelo que o Conde de Vila Flor segue triunfante para a Ribeira Grande e para Ponta Delgada.”(4)
Foi em Ponta Delgada que D. Pedro, Duque de Bragança, promulgou no dia 17 de Maio de 1832, a extinção dos conventos e colegiadas do distrito da Horta. (5)
Dali seguiram para o Porto, saindo triunfantes da batalha de Mindelo.
A passagem pelo Pico, e naturalmente pelas outras ilhas, não foi pacífica. Daqui levaram muitos rapazes que incorporaram nas suas tropas. E outros mais não foram porque se haviam refugiado nos matos, nas casas de abegoaria. Mais tarde, aqueles que escaparam, voltaram à terra. Um deles, o Pereira Soldado, quase chegou a nossos dias... O Ano da Tropa não ficou esquecido por picoenses. Anos e anos, os mais idosos falavam dessa época com algum pavor.
As Lutas Liberais ocorreram há 180 anos. No porto de Santa Cruz das Ribeiras não se encontra ali assinalado o desembarque das Tropas Liberais, e merecia-o. É ainda tempo que isso se faça, pois trata-se de um acontecimento histórico, numa freguesia onde não abundam factos semelhantes. Demais, nestes tempos de vida administrativa em que se discute a existência de algumas freguesias nacionais e regionais...
______________
1) F.S .Lacerda Machado - “OS Morgados das Lages” – 1915 – pág. -17
2) F.S. Lacerda Machado – “Os Capitães Mores das Lages” - 1915-, pág.69
3) E . Ávila – “Figuras e Factos . Notas Históricas” Vol. I- 1993– pág. 160
4) Carreiro da Costa – Esboço Histórico dos Açores”, 1978, pág.153/4
5) A-L- Silveira de Macedo, “História das Quatro Ilhas...” II Vol. 1871 - pág 511.
Vila das Lajes,
9 de Abril de 2012.
Ermelindo Ávila
(Escrito de acordo com a antiga ortografia)

quarta-feira, 18 de abril de 2012

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Notas do meu cantinho

AS COROAÇÕES

​Em épocas não muito afastadas a freguesia da Santíssima Trindade (hoje constituindo duas paróquias independentes) celebrava as Domingas do Espírito Santo, ou seja aqueles domingos que se situavam entre o Domingo de Páscoa e o Domingo do Pentecostes.

​A paróquia estava dividida em núcleos e cada um deles tinha um grupo de “Irmãos” que “levavam a Coroa”, de cinco em cinco anos. Ainda hoje os lugares da Almagreira e das Terras cumprem esse voto. E são sempre as mesmas famílias que sorteiam entre si os domingos em que devem “levar o Senhor Espírito Santo” à Igreja, para usar as denominações populares.

​Este ano é o “ano das Terras”. Já foram sorteados os domingos e já principiaram a fazer-se os convites para cada domingo. Aqui há anos, era limitado o número de convidados: apenas os “Irmãos”, os familiares e alguns amigos. Presentemente, os convites são feitos a centenas de amigos e conhecidos.

​Lacerda Machado assim se refere às domingas: “Os festejos das domingas consistiam apenas em missa cantada e coroação, em seguida às quais o mordomo oferecia jantar aos colegas das outras Domingas e pessoas convidadas”(1)

​A preparação das festas começa, normalmente, cinco anos antes, quando acaba o ciclo festivo duma época.

​Para cumprir estes votos os habitantes daquele próspero lugar construíram um grande e espaçoso salão que pode receber mais de mil convivas no jantar do Espírito Santo. Substitui um pequeno espaço, construído há anos para sede da sociedade recreativa, Alegria no Campo, então constituída.

​Mas não se ficou pelo salão, um dos melhores, em espaço e arranjos interiores da ilha do Pico. Profundamente católicos os habitantes do lugar edificaram também uma ampla ermida ou igreja, dedicada ao Coração de Maria, nela tendo sido entronizada a Imagem de Santo Isidro, patrono dos agricultores.

​Havia ali bons pedreiros e oficinas de ferreiro e alguns carpinteiros. Os que não se empregavam nesses ofícios, trabalhavam na agricultura. As mulheres dedicavam-se quase só aos serviços domésticos e, quando disponíveis, auxiliavam os familiares nos campos.

​Alguns emigraram. Lembro John Phillips, que se tornou célebre na luta contra os índios e que hoje é considerado um dos heróis americanos.

​Actualmente, a população do lugar é uma das mais prósperas da ilha. Vive feliz e desafogadamente das suas lavouras e em completa harmonia. Segundo sei, ali não há casos de tribunal, o que é uma honra para as suas gentes.

​Tenho muita simpatia por aquele lugar e pelas suas gentes. Foi ali que iniciei a Instrução Primária quando uma tia paterna. Aurora Leopoldina Ávila, iniciou a sua profissão de professora do Ensino Primário.

​Há muitos anos lá se fixou, pelo casamento, um tio-avô materno, que deixou larga descendência. Ainda hoje, encontro vários primos que me dispensam afectuosa amizade, a qual bastante aprecio e estimo.

​E porquê o topónimo Terras? Porque ali estão os melhores terrenos de semeadura da freguesia e, porque não?, da ilha. Antigamente era o celeiro. Tinha milho em abundância que servia de moeda de troca. Todos os anos víamos serrados de trigo mas principalmente no ano das Coroações e ainda lá existem diversas eiras que serviam para a debulha. Um dia de festa para famílias e amigos.

​Hoje não se vêm serrados com trigo e poucos há de milho. Os terrenos quase só produzem ervas e milho para silagem destinada à sustentação do gado leiteiro, pois as Terras tem várias e amplas manadas, que dão bons rendimentos.

​Com este singelo registo fica a minha modesta homenagem ao laborioso Povo das Terras, como disse, uma grande parte meus parentes.

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Lacerda Machado: “História do Concelho das Lages”1936 .

Vila das Lajes,

Março de 2012

Ermelindo Ávila

(Escrito de acordo com a antiga ortografia.)

segunda-feira, 9 de abril de 2012

A GRANDE SEMANA

NOTAS DO MEU CANTINHO


Na gíria popular era a “semana dos nove dias”. E uma razão havia para que as pessoas assim pensarem: na Quinta-feira santa ou Quinta-feira maior as cerimónias litúrgicas decorriam da parte da tarde. Assim, a parte da manhã ficava livre para quaisquer serviços. Na Sexta-feira santa as cerimónias decorriam, normalmente, da parte da manhã, com a Missa dos Pré-santificados e a Procissão de enterro. A parte da tarde ficava livre.

A Igreja era decorada com panos negros, as imagens cobertas e as janelas tapadas.

Mas tudo era feito com ordem e respeito. O povo acorria às cerimónias litúrgicas com notável afluência e enorme sentimento. Quando criança, lembro-me que, quando a matraca dava o sinal, as pessoas, num gesto de sentimento, batiam com as mãos nas caras e algumas choravam, o que não deixava de me impressionar.

Na noite da quinta para sexta-feira, o Santíssimo ficava exposto no trono do altar mor (refiro a igreja de S.Francisco onde funcionaram provisoriamente os serviços paroquiais). A Irmandade do Santíssimo tinha a seu cuidado a adoração permanente, mesmo durante a noite, revezando-se os irmãos conforme ordem pré-estabelecida.

No sábado de Aleluia, ou dia da ressurreição do Senhor, as cerimónias revestiam-se de grande esplendor. Ao cantar do Glória in excelsis Deo, pelo celebrante, a filarmónica, postada no coro alto, rompia com uma marcha, os sinos repicavam, o órgão dava os primeiros acordos e o coro ou capela continuava depois com o canto litúrgico. As imagens eram descobertas e as cortinas das janela caíam. Tudo em simultâneo e com o máximo respeito. Do coro alto e do coreto, crianças da catequese espalhavam, sobre a assistência, pétalas de flores e um dos serventuários levava em bandeja, aos sacerdotes e acólitos e membros do coro, pequenos ramos de flores em belos arranjos de D. Virgínia de Lacerda, uma artista de rara sensibilidade, substituída mais tarde por D. Maria da Encarnação Bettencourt, sua distinta discípula.

(Só depois dos sinos tocarem festivamente, anunciando a Ressurreição do Senhor, é que era permitido aos rapazes o jogo do pião).

No domingo da Ressurreição, manhã cedo, a Filarmónica Artista (extinta nos anos trinta) percorria as ruas da vila tocando uma marcha ligeira. A seguir, saía a procissão da Ressurreição, com o Santíssimo, descendo à rua Direita, e só quando regressava ao templo era dado início à Missa da Ressurreição.

Afinal, quatro dias de celebrações solenes às quais não faltavam os fiéis, depois de uma Quaresma cumprida com recolhimento e alguma penitência.

(O domingo de Páscoa era o dia escolhido pelas senhoras para estrearem os seus trajes festivos de verão. Os homens continuavam a trajar os habituais fatos domingueiros, como diziam).

A celebração da Semana Santa só tinha lugar na Matriz das Lajes, nela tomando parte os sacerdotes das outras paróquias da ouvidoria. Ficaram na memória do povo as Matinas da Sexta-Feira Santa. Era executada uma partitura que se dizia ser da autoria do célebre P. Joaquim Serrão.

Mas não só nas Lajes era celebrada a Semana Maior. Lembro o que eram as cerimónias da semana Santa na Sé de Angra. A cidade toda acorria à Sé e o clero ali se reunia para colaborar nas cerimónias. Na Quinta-feira da parte da manhã, havia a Missa para a bênção dos óleos sacramentais, que depois eram distribuídos por todas as paróquias da Diocese. Nessa Missa Crismal tomava parte, obrigatoriamente, todo o clero da Ilha.

Na Adoração da Cruz, na Sexta-Feira Santa, o Bispo, quando presidia, e os cónegos – naturalmente que eram os primeiros – caminhavam até junto do Crucifixo, em meias e com capas pretas com cauda.

Na Quinta e Sexta-feira Santas também eram cantadas Matinas solenes, com Partituras que constava serem do Pe. Serrão. Certo é que um dos órgãos da Sé havia sido construído pelo Pe. Serrão, notável organista e compositor, natural de Setúbal e falecido em Ponta Delgada, em 1877, onde havia residido vários anos.

Todavia tudo foi simplificado pelo Concílio Vaticano II, mas não tanto como em alguns lugares acontece. E talvez por isso os fiéis católicos deixaram de frequentar as diversas cerimónias da Semana Santa com a assiduidade com que antigamente o faziam.

Vila das Lajes do Pico

Domingo de Ramos de 2012

Ermelindo Ávila

(Escrito de acordo com a antiga ortografia)

terça-feira, 3 de abril de 2012

EM JEITO DE SONHO...

NOTAS DO MEU CANTINHO



Acordei um pouco sobressaltado com o estrondear de um foguetão. Levantei-me, precipitadamente, e corri para a torre da minha modesta residência na esperança de, da janela que dá para o Oceâno, ver uma vez ainda as gasolinas e as canoas saírem pela carreira fora, rumo a oeste.

Na Terra da Fôrca, junto ao velho moinho, o Vigia já devia ter hasteado, com certeza, a bandeira preta, sinal de baleia à vista.

A manhã ia nascendo mas o sol não aparecia ainda no alto das ladeiras.

As pessoas estavam ainda recolhidas quando a bomba, lançada pelo Vigia, estrondeou no ar. Foi uma surpresa. Há muito que na minha terra não se ouvia sinal de baleia. Os poucos botes, que restaram da distribuição graciosa por outros portos, estavam recolhidos nos barracões para servirem em regatas e as lanchas, apenas duas, ancoradas na Lagoa, há muito que não punham os motores em serviço.

Como podia ser possível haver sinal de baleia? Nem sabia responder. Sei que era o antigo sinal e, naturalmente, que as baleias deviam andar por perto.

Os ribeiras e os calhetas já deviam andar fora. O sol por lá aparece mais cedo. Era natural que assim fosse.

Os botes do Mestre José Faidoca, do Manuel Alfaiate, do Domingos Saltão; e também os do João Tavares, do António Medina, e do António Garcia com certeza que estavam a aproximar-se da baía das Lajes

Mas, afinal, por mais que da janela da minha torre espreitasse os botes e lanchas das Lajes, que deviam estar a sair pela carreira que liga a lagoa ao alto mar, não apareciam. Esperei...

E quando me mantinha com o binóculo em punho, na expectativa, de os botes saírem, nada via.

Algum tempo depois um barco semi - rijido motorizado, saía a carreira, levando um grupo de indivíduos: homens e mulheres. Foi então que despertei do meu sonho e verifiquei que eram turistas, de qualquer nacionalidade que, conduzidos pelos operadores/ armadores, iam ver as baleias e os golfinhos, como agora tratam os moleiros e as toninhas, que se encontravam no seu habitat, descuidados e felizes, a viver, calmamente, e a alimentar-se dos peixes que os homens deviam utilizar nas suas ementas mas que agora, a pesar das diligências dos pescadores, nem aparecem nos pesqueiros habituais...

Afinal, sofri uma amarga desilusão... Verdade que já não se arria à baleia há muitos anos, nem há baleeiros em terra. Foram desaparecendo com o rodar dos anos... As gerações novas nem sabem o que era essa actividade marítima que muito contribuía para o equilíbrio económico desta terra que ainda denominam de “terra de baleeiros”. Mas isso foi no passado. Se Raul Brandão cá voltasse já não escreveria uma parte do que disse em “Ilhas Desconhecidas: “Casinhas negras aglomeradas, uma grande solidão e uma grande tristeza. A costa forma baía, fechada de um lado por um desconforme penedo. Lajes é a terra dos baleeiros – seis armações, duzentas pessoas empregadas na pesca. A casa do vigia fica lá no alto num caminho abandonado, num sítio que se chama Terra da Forca.(...) Tudo aqui cheira a baleia e está besuntado de baleia, tudo o que se come sabe a baleia, que é derretida em grandes caldeirões para lhe extraírem o óleo. – Pergunto: - Vocês não sentem isto? Este cheiro horrível? – Este cheiro cheira-nos sempre bem. É sinal de dinheiro”.

E assim era! Todavia, hoje a vila voltou a ser de “...uma grande solidão e uma grande tristeza.” Os baleeiros, vindos da Ribeira do Meio, já não esperam o sinal de baleia no “balcão da Emília”,nem os da Vila nas banquetas junto das antigas “casas dos botes”, – agora Museu dos Baleeiros, frente à rampa da Lagoa, também desaparecida. A Lagoa está transformada em pequena marina onde ainda estacionam alguns barcos de pesca além de outros de recreio e aqueles que levam os visitantes até ao ”santuário das baleias”

Pois se até a “Pesqueira” desapareceu...

Fico por aqui e volto ao remanso do meu cantinho para continuar estes rabiscos. Até quando? Só Deus o sabe!...

Vila Baleeira.

13-03-2012

Ermelindo Ávila

Escrito de acordo com a antiga ortografia