domingo, 27 de maio de 2012
AS DOMINGAS DO ESPÍRITO SANTO
quarta-feira, 23 de maio de 2012
sábado, 12 de maio de 2012
SANTO CRISTO MILAGROSO
quarta-feira, 9 de maio de 2012
PATRIMÓNIO IMOBILIÁRIO
Vezes sem conto tenho trazido a estas notas, talvez insípidas, o património imobiliário e histórico desta vila das Lajes. Nem sei, nem me dei ao cuidado de saber, se esses arrazoados têm merecido a atenção devida, não pelo escrito mas sobretudo pelo que representam, ou deviam representar, para uma terra, velha na existência, e para as suas gentes, aquelas sobretudo que nela habitam.
Volto hoje, e concerteza pela última vez, a trazer à ribalta tão importante quão inquietante assunto, chamando a atenção, se é que isso se torna necessário, para a urgente necessidade de salvaguardar os valores históricos que nos legaram nossos maiores e que temos a obrigação de acautelar.
A vila das Lajes é das poucas terras açorianas que têm imóveis classificados.
O convento franciscano foi fundado no Capítulo da Província franciscana, realizado em Ponta Delgada, no dia 29 de Junho de 1641. É um dos mais grandiosos edifícios da ilha do Pico. Está na posse da Câmara Municipal desde 3 de Janeiro de 1840. Foi classificado como imóvel de interesse público, por Portaria nº 22/78, de 30 de Março de 1978, da Secretaria Regional de Educação e Cultura.
A ermida de S. Pedro, fundada pelo primeiro pároco Frei Pedro Gigante, por volta de 1460, é o primeiro templo e, consequentemente, o mais antigo da Ilha. Foi declarado Imóvel de Interesse Público por Portaria do Governo Regional, de 30 de Junho de 1984.
O Castelo de S.to António ou Forte de S.ta Catarina, foi construído em 1792, por ocasião das invasões francesas, para defesa da baía. No local existiu, anteriormente, o forte de S.ta Catarina que, com o forte da Barra e o da Terra da Fôrca, faziam a defesa da vila, das invasões dos argelinos. Possuía duas vigias e 7 ameias. A parada tinha a área de 22 por 34 metros. Ali foi instalado, em 1885, um forno de cozer cal. Presentemente, está nele instalado o Posto de Turismo Municipal. Foi classificado por decreto nº 95/78, de 12 de Setembro de 1978.
Nenhum destes imóveis tem placa de classificação. Impõe-se que neles se coloquem também placas identificativas pois, de contrário, quem os visita fica a desconhecer o interesse histórico que representam para a Vila e para a Ilha. E não é tarefa dispendiosa. Aqui deixo, a quem de direito, como soe dizer-se, o meu reparo e a minha petição.
E mais uma nota muito simples: Há anos foi colocada, no frontispício da ermida de S. Pedro, uma placa identificativa. Foi retirada quando na ermida se fizeram obras de restauro, depois do sismo de 9 de Julho de 1998. A placa não foi recolocada. É tempo de o fazer. O dispêndio não será muito.
Em 9 de Março de 1988, dois Deputados picoenses apresentaram, no Grupo Parlamentar respectivo, um projecto de Decreto Legislativo Regional para a classificação da Vila das Lajes do Pico. Alegavam que “O seu traçado arquitectónico mantem-se tal como o delimitaram os primeiros habitantes do primeiro lugar da ilha. – Ainda conserva a primitiva igrejinha na parte sul e outros monumentos históricos de relevância, como, igualmente, residências particulares, algumas dos séculos XVII e XVIII, que formam um conjunto muito valioso e bastante apreciado pelo turismo.”
O projecto do decreto, muito idêntico ao que classificou a Vila de Santa Cruz da Graciosa, não mereceu a aceitação dos deputados do partido a que pertenciam, alegando que o de S.ta Cruz havia causado certos problemas no restauro dos respectivos edifícios. No entanto, mais tarde houve quem andasse por aí a colher informações sobre a arquitectura e até arruamentos da vila...
A vila ficou prejudicada pela falta de medidas legislativas que acautelassem o seu património. E se o Decreto tivesse sido aceite e aprovado, não seria hoje um montão de ruínas como se vai verificando. Todavia, nunca é tarde para se tomarem medidas cautelares. Haja quem tenha essa coragem.
Mas isso será assunto para mais tarde. Por agora, apenas esta lembrança...
Vila das Lajes,
30 de Abril de 2012
Ermelindo Ávila
terça-feira, 24 de abril de 2012
quarta-feira, 18 de abril de 2012
Notas do meu cantinho
AS COROAÇÕES
Em épocas não muito afastadas a freguesia da Santíssima Trindade (hoje constituindo duas paróquias independentes) celebrava as Domingas do Espírito Santo, ou seja aqueles domingos que se situavam entre o Domingo de Páscoa e o Domingo do Pentecostes.
A paróquia estava dividida em núcleos e cada um deles tinha um grupo de “Irmãos” que “levavam a Coroa”, de cinco em cinco anos. Ainda hoje os lugares da Almagreira e das Terras cumprem esse voto. E são sempre as mesmas famílias que sorteiam entre si os domingos em que devem “levar o Senhor Espírito Santo” à Igreja, para usar as denominações populares.
Este ano é o “ano das Terras”. Já foram sorteados os domingos e já principiaram a fazer-se os convites para cada domingo. Aqui há anos, era limitado o número de convidados: apenas os “Irmãos”, os familiares e alguns amigos. Presentemente, os convites são feitos a centenas de amigos e conhecidos.
Lacerda Machado assim se refere às domingas: “Os festejos das domingas consistiam apenas em missa cantada e coroação, em seguida às quais o mordomo oferecia jantar aos colegas das outras Domingas e pessoas convidadas”(1)
A preparação das festas começa, normalmente, cinco anos antes, quando acaba o ciclo festivo duma época.
Para cumprir estes votos os habitantes daquele próspero lugar construíram um grande e espaçoso salão que pode receber mais de mil convivas no jantar do Espírito Santo. Substitui um pequeno espaço, construído há anos para sede da sociedade recreativa, Alegria no Campo, então constituída.
Mas não se ficou pelo salão, um dos melhores, em espaço e arranjos interiores da ilha do Pico. Profundamente católicos os habitantes do lugar edificaram também uma ampla ermida ou igreja, dedicada ao Coração de Maria, nela tendo sido entronizada a Imagem de Santo Isidro, patrono dos agricultores.
Havia ali bons pedreiros e oficinas de ferreiro e alguns carpinteiros. Os que não se empregavam nesses ofícios, trabalhavam na agricultura. As mulheres dedicavam-se quase só aos serviços domésticos e, quando disponíveis, auxiliavam os familiares nos campos.
Alguns emigraram. Lembro John Phillips, que se tornou célebre na luta contra os índios e que hoje é considerado um dos heróis americanos.
Actualmente, a população do lugar é uma das mais prósperas da ilha. Vive feliz e desafogadamente das suas lavouras e em completa harmonia. Segundo sei, ali não há casos de tribunal, o que é uma honra para as suas gentes.
Tenho muita simpatia por aquele lugar e pelas suas gentes. Foi ali que iniciei a Instrução Primária quando uma tia paterna. Aurora Leopoldina Ávila, iniciou a sua profissão de professora do Ensino Primário.
Há muitos anos lá se fixou, pelo casamento, um tio-avô materno, que deixou larga descendência. Ainda hoje, encontro vários primos que me dispensam afectuosa amizade, a qual bastante aprecio e estimo.
E porquê o topónimo Terras? Porque ali estão os melhores terrenos de semeadura da freguesia e, porque não?, da ilha. Antigamente era o celeiro. Tinha milho em abundância que servia de moeda de troca. Todos os anos víamos serrados de trigo mas principalmente no ano das Coroações e ainda lá existem diversas eiras que serviam para a debulha. Um dia de festa para famílias e amigos.
Hoje não se vêm serrados com trigo e poucos há de milho. Os terrenos quase só produzem ervas e milho para silagem destinada à sustentação do gado leiteiro, pois as Terras tem várias e amplas manadas, que dão bons rendimentos.
Com este singelo registo fica a minha modesta homenagem ao laborioso Povo das Terras, como disse, uma grande parte meus parentes.
_________________
Lacerda Machado: “História do Concelho das Lages”1936 .
Vila das Lajes,
Março de 2012
Ermelindo Ávila
(Escrito de acordo com a antiga ortografia.)
segunda-feira, 9 de abril de 2012
A GRANDE SEMANA
NOTAS DO MEU CANTINHO
Na gíria popular era a “semana dos nove dias”. E uma razão havia para que as pessoas assim pensarem: na Quinta-feira santa ou Quinta-feira maior as cerimónias litúrgicas decorriam da parte da tarde. Assim, a parte da manhã ficava livre para quaisquer serviços. Na Sexta-feira santa as cerimónias decorriam, normalmente, da parte da manhã, com a Missa dos Pré-santificados e a Procissão de enterro. A parte da tarde ficava livre.
A Igreja era decorada com panos negros, as imagens cobertas e as janelas tapadas.
Mas tudo era feito com ordem e respeito. O povo acorria às cerimónias litúrgicas com notável afluência e enorme sentimento. Quando criança, lembro-me que, quando a matraca dava o sinal, as pessoas, num gesto de sentimento, batiam com as mãos nas caras e algumas choravam, o que não deixava de me impressionar.
Na noite da quinta para sexta-feira, o Santíssimo ficava exposto no trono do altar mor (refiro a igreja de S.Francisco onde funcionaram provisoriamente os serviços paroquiais). A Irmandade do Santíssimo tinha a seu cuidado a adoração permanente, mesmo durante a noite, revezando-se os irmãos conforme ordem pré-estabelecida.
No sábado de Aleluia, ou dia da ressurreição do Senhor, as cerimónias revestiam-se de grande esplendor. Ao cantar do Glória in excelsis Deo, pelo celebrante, a filarmónica, postada no coro alto, rompia com uma marcha, os sinos repicavam, o órgão dava os primeiros acordos e o coro ou capela continuava depois com o canto litúrgico. As imagens eram descobertas e as cortinas das janela caíam. Tudo em simultâneo e com o máximo respeito. Do coro alto e do coreto, crianças da catequese espalhavam, sobre a assistência, pétalas de flores e um dos serventuários levava em bandeja, aos sacerdotes e acólitos e membros do coro, pequenos ramos de flores em belos arranjos de D. Virgínia de Lacerda, uma artista de rara sensibilidade, substituída mais tarde por D. Maria da Encarnação Bettencourt, sua distinta discípula.
(Só depois dos sinos tocarem festivamente, anunciando a Ressurreição do Senhor, é que era permitido aos rapazes o jogo do pião).
No domingo da Ressurreição, manhã cedo, a Filarmónica Artista (extinta nos anos trinta) percorria as ruas da vila tocando uma marcha ligeira. A seguir, saía a procissão da Ressurreição, com o Santíssimo, descendo à rua Direita, e só quando regressava ao templo era dado início à Missa da Ressurreição.
Afinal, quatro dias de celebrações solenes às quais não faltavam os fiéis, depois de uma Quaresma cumprida com recolhimento e alguma penitência.
(O domingo de Páscoa era o dia escolhido pelas senhoras para estrearem os seus trajes festivos de verão. Os homens continuavam a trajar os habituais fatos domingueiros, como diziam).
A celebração da Semana Santa só tinha lugar na Matriz das Lajes, nela tomando parte os sacerdotes das outras paróquias da ouvidoria. Ficaram na memória do povo as Matinas da Sexta-Feira Santa. Era executada uma partitura que se dizia ser da autoria do célebre P. Joaquim Serrão.
Mas não só nas Lajes era celebrada a Semana Maior. Lembro o que eram as cerimónias da semana Santa na Sé de Angra. A cidade toda acorria à Sé e o clero ali se reunia para colaborar nas cerimónias. Na Quinta-feira da parte da manhã, havia a Missa para a bênção dos óleos sacramentais, que depois eram distribuídos por todas as paróquias da Diocese. Nessa Missa Crismal tomava parte, obrigatoriamente, todo o clero da Ilha.
Na Adoração da Cruz, na Sexta-Feira Santa, o Bispo, quando presidia, e os cónegos – naturalmente que eram os primeiros – caminhavam até junto do Crucifixo, em meias e com capas pretas com cauda.
Na Quinta e Sexta-feira Santas também eram cantadas Matinas solenes, com Partituras que constava serem do Pe. Serrão. Certo é que um dos órgãos da Sé havia sido construído pelo Pe. Serrão, notável organista e compositor, natural de Setúbal e falecido em Ponta Delgada, em 1877, onde havia residido vários anos.
Todavia tudo foi simplificado pelo Concílio Vaticano II, mas não tanto como em alguns lugares acontece. E talvez por isso os fiéis católicos deixaram de frequentar as diversas cerimónias da Semana Santa com a assiduidade com que antigamente o faziam.
Vila das Lajes do Pico
Domingo de Ramos de 2012
Ermelindo Ávila
(Escrito de acordo com a antiga ortografia)
terça-feira, 3 de abril de 2012
EM JEITO DE SONHO...
NOTAS DO MEU CANTINHO
Acordei um pouco sobressaltado com o estrondear de um foguetão. Levantei-me, precipitadamente, e corri para a torre da minha modesta residência na esperança de, da janela que dá para o Oceâno, ver uma vez ainda as gasolinas e as canoas saírem pela carreira fora, rumo a oeste.
Na Terra da Fôrca, junto ao velho moinho, o Vigia já devia ter hasteado, com certeza, a bandeira preta, sinal de baleia à vista.
A manhã ia nascendo mas o sol não aparecia ainda no alto das ladeiras.
As pessoas estavam ainda recolhidas quando a bomba, lançada pelo Vigia, estrondeou no ar. Foi uma surpresa. Há muito que na minha terra não se ouvia sinal de baleia. Os poucos botes, que restaram da distribuição graciosa por outros portos, estavam recolhidos nos barracões para servirem em regatas e as lanchas, apenas duas, ancoradas na Lagoa, há muito que não punham os motores em serviço.
Como podia ser possível haver sinal de baleia? Nem sabia responder. Sei que era o antigo sinal e, naturalmente, que as baleias deviam andar por perto.
Os ribeiras e os calhetas já deviam andar fora. O sol por lá aparece mais cedo. Era natural que assim fosse.
Os botes do Mestre José Faidoca, do Manuel Alfaiate, do Domingos Saltão; e também os do João Tavares, do António Medina, e do António Garcia com certeza que estavam a aproximar-se da baía das Lajes
Mas, afinal, por mais que da janela da minha torre espreitasse os botes e lanchas das Lajes, que deviam estar a sair pela carreira que liga a lagoa ao alto mar, não apareciam. Esperei...
E quando me mantinha com o binóculo em punho, na expectativa, de os botes saírem, nada via.
Algum tempo depois um barco semi - rijido motorizado, saía a carreira, levando um grupo de indivíduos: homens e mulheres. Foi então que despertei do meu sonho e verifiquei que eram turistas, de qualquer nacionalidade que, conduzidos pelos operadores/ armadores, iam ver as baleias e os golfinhos, como agora tratam os moleiros e as toninhas, que se encontravam no seu habitat, descuidados e felizes, a viver, calmamente, e a alimentar-se dos peixes que os homens deviam utilizar nas suas ementas mas que agora, a pesar das diligências dos pescadores, nem aparecem nos pesqueiros habituais...
Afinal, sofri uma amarga desilusão... Verdade que já não se arria à baleia há muitos anos, nem há baleeiros em terra. Foram desaparecendo com o rodar dos anos... As gerações novas nem sabem o que era essa actividade marítima que muito contribuía para o equilíbrio económico desta terra que ainda denominam de “terra de baleeiros”. Mas isso foi no passado. Se Raul Brandão cá voltasse já não escreveria uma parte do que disse em “Ilhas Desconhecidas: “Casinhas negras aglomeradas, uma grande solidão e uma grande tristeza. A costa forma baía, fechada de um lado por um desconforme penedo. Lajes é a terra dos baleeiros – seis armações, duzentas pessoas empregadas na pesca. A casa do vigia fica lá no alto num caminho abandonado, num sítio que se chama Terra da Forca.(...) Tudo aqui cheira a baleia e está besuntado de baleia, tudo o que se come sabe a baleia, que é derretida em grandes caldeirões para lhe extraírem o óleo. – Pergunto: - Vocês não sentem isto? Este cheiro horrível? – Este cheiro cheira-nos sempre bem. É sinal de dinheiro”.
E assim era! Todavia, hoje a vila voltou a ser de “...uma grande solidão e uma grande tristeza.” Os baleeiros, vindos da Ribeira do Meio, já não esperam o sinal de baleia no “balcão da Emília”,nem os da Vila nas banquetas junto das antigas “casas dos botes”, – agora Museu dos Baleeiros, frente à rampa da Lagoa, também desaparecida. A Lagoa está transformada em pequena marina onde ainda estacionam alguns barcos de pesca além de outros de recreio e aqueles que levam os visitantes até ao ”santuário das baleias”
Pois se até a “Pesqueira” desapareceu...
Fico por aqui e volto ao remanso do meu cantinho para continuar estes rabiscos. Até quando? Só Deus o sabe!...
Vila Baleeira.
13-03-2012
Ermelindo Ávila
Escrito de acordo com a antiga ortografia
quarta-feira, 14 de março de 2012
INDÚSTRIAS PICOENSES
No decorrer dos tempos, a ilha do Pico teve diversas indústrias, algumas de carácter artesanal. Mesmo assim, sem grandes maquinismos, a actividade industrial desenvolveu-se em vários sectores que, produzindo embora em pequena escala, bastavam para as necessidades locais. Outras, algo mais desenvolvidas, produziam para a exportação, como seja, em épocas que podemos considerar já remotas, a produção da laranja, do vinho verdelho e lacticínios, ficando por isso célebre o especial “queijo do Pico!”
Deixo de referir, porque por tantos abordada, a actividade baleeira que aqui nesta ilha nasceu há século e meio, para terminar, ingloriamente, vai para mais de quarenta anos.
Mas outras indústrias existiram no Pico. Até a de pirotecnia, que fabricava o chamado fogo de artifício que animava os arraiais das festividades religiosas da ilha. Foram exímios pirotécnicos Tomé Mamede e António Francisco da Silveira, conhecido por António Félix do Cais do Pico.
Na década de oitenta do século XIX, a freguesia da Santíssima Trindade tinha dezasseis sapateiros, um alfaiate, nove carpinteiros, dois tanoeiros, e três serradores; onze ferreiros e nove pedreiros, um moleiro e um caiador, além de um sangrador e de um veterinário... A freguesia tinha 3.229 habitantes e 1.142 eram do sexo masculino, adultos. Havia 496 menores de sete anos.
A maioria da população ou empregava-se ou na agricultura ou na pesca.
Em 1888, encontramos um oleiro. Sabemos que era natural de ilha de Santa Maria donde importava o barro utilizado no fabrico de diversas peças de uso doméstico.
Em 1899, foi licenciado o funcionamento de um forno de cal, pertencente a Manuel Joaquim de Azevedo e Castro, António Homem da Costa e José Francisco Fidalgo Baptista, “ no terreno que foi Forte de Santa Catarina”. Conheci o operário que lá trabalhou e que ficou conhecido pelo caleiro. A pedra calcária era importada do continente. Ainda resta o respectivo forno.
O Pico possuiu, a um tempo, doze fábricas de lacticínios, três fábricas de conservas de peixe, das quais apenas uma sobrevive, - a COFACO - instalada na Areia Larga; foi dirigida por Francisco Pessanha e a quem o concelho da Madalena ficou a dever o notável desenvolvimento que ali se verificou na segunda metade do século passado. De registar ainda as duas fábricas de extracção de óleos de baleia, e duas fábrica de refrigerantes, primeiro na Madalena e depois nas Lajes.
Aqui deve incluir-se a indústria de espadana, também conhecida na ilha por piteira, existente em São Mateus e de que era proprietário o professor José Inácio Garcia de Lemos Jr. Possuía vários terrenos na ilha e no Faial, onde cultivava essa planta que, depois do corte, era seca, tratada e exportada para o continente. Nessa actividade empregava muita mão-de-obra, principalmente, do sexo feminino. E eram duas ou três centenas de operárias. A cultura era feita de maneira que, a do Faial só fosse colhida depois de trabalhada a do Pico para que as operárias de cá se deslocassem depois para aquela ilha. Uma forma simpática de garantir trabalho, quando ele era escasso. Nem todos, naturalmente, compreendiam a atitude do industrial mas o que é certo é que o prof. José Lemos, procurava servir a freguesia.
Diz um seu biógrafo que o Prof. Lemos era “Empreendedor e dinâmico no comércio e indústria”. Realmente assim foi. Basta ter presente o que dele afirma o escritor Dias de Melo: Em S. Mateus, onde nascera, exercia, com notável competência, o magistério primário e dedicava-se a várias actividades industriais. Proprietário de uma armação fundada por antepassado e há muito encerrada, resolveu, dada a conjuntura favorável aos altos lucros, também reabri-la. (1)
Aquando do seu falecimento, em 27/12/1968, dele se escreveu: Era inteligente e prático. Revelou-se chefe. Desfrutava do tacto de mandar, de administrar. Distinto, desde os bancos da escola. Jornalista de vocação aos doze anos dirigia o jornal em miniatura, “O cartão de visita”. Amador teatral com destacada presença. Professor competente e probo. Orador vibrante. Empreendedor e dinâmico no comércio e na indústria. Espírito culto e actualizado assinalou a sua passagem na vida política e administrativa do concelho e do distrito com dois mandatos (l935 e 1943) na presidência da Câmara da Madalena, o último dos quais por doze anos. Músico por intuição e por estudo o prof. Lemos foi alma de muitas associações musicais de São Mateus, estando a seu cargo o órgão da sua igreja paroquial. Era de facto o mais competente organista do Pico. Por muitos anos foi o organizador dos festejos cívicos da festa do Bom Jesus. (2)
Este um dos vultos picoenses que anda esquecido.
_________
1) Dias de Melo, “A Montanha cobriu-se de negro”, pág.93.
2) “Ecos do Santuário”, Fev. de 1969, Ano I, nº 7
Vila das Lajes,
2 de Março de 2012.
Ermelindo Ávila
sexta-feira, 9 de março de 2012
FIGURAS ILUSTRES
NOTAS DO MEU CANTINHO
Não abundam mas também não são tão raras como possa pensar-se... Sempre existiram figuras ilustres na Ilha do Pico e nas terras açorianas. Não as vou citar a todas porque isso seria tarefa difícil. Fico por algumas. Aquelas que melhor conheci. Outros mais bem informados e eruditos poderão fazer o resto.
Se hoje aqui recordo um ou dois é somente para chamar a atenção da entidade competente para a urgente e imperiosa necessidade de dedicar algo que os dignifique e recorde para a posteridade. Esse gesto de esclarecido entendimento sobre as figuras ilustres desta terra só prestigia quem dele for autor e, no presente e no futuro, a ilha que serviram ou lhes foi berço. Ilha que eles jamais esqueceram embora dela se tenham afastado por afazeres profissionais ou por exigências familiares. E são tantos esses que partiram e viveram uma vida sofrida pela saudade do torrão natal. Alguns deram testemunho desse estado de alma. Outros quedaram-se num silêncio atroz, uma vez que o ambiente que os rodeava não permite ou permitiu que revelassem a saudade que os abarcava: “saudades da minha terra, saudades da minha mãe”, como reza uma canção popular.
Só quem tem a experiência de viver alguns anos fora da terra-mãe pode dar valor aos sentimentos de saudade que a muitos assolapa e contrista. É uma sina à qual não se pode fugir.
Vive com eles, com esses que daqui ou doutra parte qualquer partiram e não mais voltaram.
Mas este intróito lamuriento tem algo de interesse neste momento histórico em que a ilha vai ficando despovoada e, consequentemente, condenada a um pérfido e triste abandono.
Recordemos os nossos maiores. Lembremos, no presente e no futuro, esses que em diversos lugares onde passaram a viver, se notabilizaram pela sua cultura e erudição, pela sua arte ou por uma vida honesta, séria e exemplar. Não serão centenas nem mesmo muitas dezenas mas são alguns.
Hoje trago aqui dois somente. Deles já tratei em escritos anteriores. Vou repetir-me. Não importa.
Recordo o professor catedrático, Doutor José Enes Pereira Cardoso. Nasceu ali na Silveira, donde também era natural o Pai e os ascendentes paternos. Formado em Filosofia na Gregoriana, em Roma, foi professor do Seminário de Angra, das Universidades Católica de Lisboa, de Luanda e dos Açores que ajudou a fundar e da qual foi seu primeiro Reitor. Não são de esquecer as “Semanas de Estudo”, que organizou em Angra na década de sessenta do século passado e que tamanha repercussão tiveram nos meios culturais e científicos do País. Foi um dos mais prestigiados Mestres da cultura portuguesa e, presentemente, encontra-se vivendo em Lisboa, sofrendo de dolorosa doença física.
Quando o concelho comemorou o quinto centenário de vida municipal, o Doutor José Enes veio cá tomar parte nos eventos culturais, comemorativos. Nessa ocasião recebeu as homenagens da Edilidade Lajense. E foi só. No exterior nada há que assinale a sua inconfundível Personalidade. E era tempo de isso acontecer. Ao menos uma placa na casa onde nasceu e viveu a sua infância.
O doutor Julião Azevedo nasceu no Caminho de Cima da freguesia da Piedade. Ainda por lá tem parentes, embora os pais se tenham deslocado para Angra, a fim de poderem dar cursos liceais aos filhos.
Formado em História e Filosofia pela Universidade de Lisboa, foi professor do Ensino Secundário e, depois, escolhido pelo Instituto de Alta Cultura para Leitor da Faculdade de Letras da Universidade de Poitiers. Depois passou para a Universidade de Paris (Sorbone), uma das mais prestigiadas escolas da França “contribuindo para um interesse cada vez maior pela nossa cultura”. Regressado a Lisboa “foi incumbido pelo I.A.C. de preparar um valioso acervo bibliográfico que, por ocasião do Centenário da Cidade de São Paulo (Brasil), em 1954, seria oferecido como fundo da biblioteca do Centro de Estudos Portugueses, então criado na Faculdade de Letras e Ciências Humanas daquela cidade, tarefa que não chegou a completar por ter falecido inesperadamente”, em Abril de 1953, aos 30 anos de idade. Mesmo assim publicou em vida diversos trabalhos de apreciável valor, um dos quais, Condições Económicas das Revolução Portuguesa de 1820 que, se bem sei, foi adoptado como compêndio de estudo pela Universidade dos Açores.
Aquando seu falecimento o Boletim do Instituto Histórico da Ilha Terceira registou o infausto acontecimento com as seguintes palavras, tombadas em acta da sessão de 1 de Junho de 1953: “Foi aprovado por unanimidade que se lançasse na acta um voto de profundo pesar pelo falecimento prematuro do Dr. Julião Soares de Azevedo, natural desta ilha, e que na sua curta carreira de professor se notabilizou por trabalhos históricos e linguísticos, alguns deles referentes à Terceira.”
Só se ressalva que o Dr. Julião nasceu na freguesia da Piedade desta Ilha em 1920. É tempo de, na freguesia natal, lhe ser prestada a homenagem de que é merecedor.
Vila das Lajes,
25.Fev.-2012
Ermelindo Ávila
