domingo, 27 de maio de 2012

AS DOMINGAS DO ESPÍRITO SANTO





O ciclo festivo denominado “As Domingas terminou. E, como vulgarmente se diz, este ano foi o "ano das Terras”. Isso significa que, durante as Domingas, após o domingo de Páscoa, diversas famílias, seguindo uma tradição muito antiga, “levaram a Corôa” e deram jantar a muitos convidados. Os dois últimos domingos, entre a Páscoa e o Pentecostes não foram ocupados, pois os antigos “irmãos” já não existem e não deixaram famílias para os continuar.
Mesmo assim, foram cinco domingos de festa para o subúrbio das Terras, desta vila das Lajes do Pico.
O mesmo aconteceu na Almagreira, onde ainda existe idêntica Irmandade, embora esteja também quase inexistente.
Mesmo assim, foram cinco domingos em que aquele lugar das Terras esteve em festa permanente, pois, durante a semana que antecedia o domingo, havia os naturais preparativos para o jantar em cujos trabalhos se ocupava a quase totalidade da população. À noite, não faltava o terço cantado com a presença dos foliões. Na sexta-feira de cada semana o mordomo oferecia aos familiares e convidados uma merenda que, afinal, era um excelente repasto com variados manjares.
Notória a confraternização e o entendimento que existia entre as pessoas, quer as simplesmente convidadas quer aquelas, principalmente jovens, que se ocupavam, nas diversas tarefas preparatórias e, principalmente, na distribuição das sopas e assistência atenta às mesas.
A animar as Coroações estiveram sempre presentes os Foliões, com seus cantares alusivos e, em alguns domingos, filarmónicas que abrilhantavam os cortejos processionais.
Nos domingos festivos, as Corôas, - no último estiveram dez, - saíam das residências dos Mordomos e, em procissão, formada pelos quadros de varas onde iam os portadores dos estandartes alçados e as Coroas, levando à frente os foliões. Depois seguiam, acompanhados dos familiares e de muitos convidados, para a Ermida do Coração de Maria, onde se celebrava Eucaristia solene, cantada. No final o sacerdote celebrante coroava os mordomos e seus representantes. Depois de arrematadas as ofertas que o Mordomo leva à Igreja (pães de massa sovada, uma terrina de sopas, uma travessa de carne e uma garrafa de vinho – o vinho de cheiro do Pico, tanto apreciado nestas ocasiões), era reorganizado o cortejo que voltava a passar pela casa do mordomo para se dirigir a seguir para o vasto salão do lugar, pertença da Sociedade Recreativa Alegria no Campo, mas sempre de portas abertas para as festividades. Aí eram servidas as “sopas do Espírito Santo”.
A ementa do jantar era e é sempre igual em todas as funções mas sempre apetecida: as tradicionais sopas com carne cozida, depois carne assada e a seguir arroz doce e, em algumas, também bolos doces. Nas mesas abundavam o queijo e a massa sovada, para as “entradas” nunca faltando o vinho, os refrescos e as águas minerais.
À apresentação de cada iguaria é costume os foliões, que ocupavam lugares perto dos tronos onde estavam as Coroas, entoavam loas apropriadas. E se havia filarmónica, esta, no final do jantar, habitualmente executa o hino do Espírito Santo e uma marcha ligeira.
No corrente ano foram mordomos: no primeiro domingo, Alberto Pimentel e esposa Vicência Soares Pimentel; no segundo, Manuel da Rosa e esposa Hortense Soares; no terceiro, José Simões e esposa Maria Fernanda Simões, que expressamente vieram dos Estados Unidos, onde residem, para cumprir o voto, que vem, como os outros, de seus antepassados; no quarto domingo, Manuel Pereira Madruga e esposa Maria Armanda Madruga; e, no quinto domingo, José Adelino Fagundes e esposa e Fátima Fagundes.
De registar o lançamento do novo livro da luso-americana Maria Fernanda Simões, Em cada Canto um Divino Espírito Santo, realizado a seguir à merenda da Sexta-feira da semana em que a Autora, como disse, foi Mordoma. Um evento que teve larga assistência. Trata-se de um trabalho bastante ilustrado e com Arranjo Gráfico e impressão da Nova Gráfica, Lda. Em Nota Explicativa escreve a Maria Fernanda: “... para que festas antigas do Divino Espírito Santo não caíssem no esquecimento, resolvi escrever este quarto livro que intitulo Domingas ou Folias, no lugar das Terras, únicas celebrações que ali existem , muito características no lugar, porque vêm de longa data”. Poucas localidades açorianas manterão ainda esta tradição das Domingas, embora celebrem diversos actos de culto em louvor da Terceira Pessoa da SS. Trindade. Eles revelam o respeito dos picoenses pela tradição religiosa de seus Maiores e um autêntico espírito de sacrifício, de confraternização e de amizade entre as famílias e conhecidos, e uma devoção permanente à Terceira Pessoa da Santíssima Trindade.
Os maiores louvores aos mordomos e aos habitantes do progressivo lugar das Terras.

Vila das Lajes,
Semana do Espírito Santo de 2012.
Ermelindo Ávila

quarta-feira, 23 de maio de 2012


NOTAS DO MEU CANTINHO


O RETORNO ...


Até meados do século XX a emigração açoriana dirigia-se para países estrangeiros, principalmente o Brasil. A seguir foi a emigração para os Estados Unidos da América. Mas esta tinha características muito diferentes das actuais.
Normalmente, quem emigrava para o Brasil “esquecia-se” por lá e deixava de dar notícias. Raros eram os que voltavam. Haja em vista o que aconteceu com os “casais” que, após as erupções vulcânicas do século XVIII, foram levados para o Estado de Santa Catarina. Daí correr o adágio: O Brasil é a terra dos esquecidos.
A emigração para os Estados Unidos da América, iniciou-se quase só de “salto” nas baleeiras americanas, embora estas ainda sob a bandeira inglesa.
O notável escritor e contista Florêncio Terra, na obra póstuma “A Caça à Baleia nos Açores”, (para só citar este Autor). Refere: “No ano de 1678, por exemplo, os ingleses obtiveram 800 contos de azeite, tendo empregado 200 navios de um mastro e com capacidade cada um, para 250 barris de óleo, cada barrica levando 50 canadas. Vendia-se nesse tempo o azeite de baleia a 200 rs. A canada (2,33 litros) e o de cachalote a 300 rs. Um ofício do Capitão General dos Açores, D. Antão de Almada, para o Governo, em 19.10-1768, refere-se a muito espermaceti e âmbar que então havia, e apresenta informações interessantes relativas a essa indústria ali efectuada em barcos ingleses”.
Alguns desses emigrantes “de salto” por lá ficaram, outros voltaram, principalmente, para iniciar aqui a actividade baleeira, como foi o caso do Capitão Anselmo. E não só.
Seguiu-se a emigração em termos legais. Pelos portos dos Açores passaram, além de outros, os barcos dos “Transportes Marítimos do Estado”. Apareceram depois os italianos, primeiro o “Sinaia” e, a seguir, outros de maior tonelagem, como o “Vulcânia” e o “Saturnia”. Quando estes por cá apareceram, um jornalista açoriano classificou-se de “cidades flutuantes”!
Normalmente, os emigrantes iam solteiros, com o propósito de voltarem, pois na terra, além dos pais e mais familiares, quase sempre deixavam as namoradas. Alguns esqueciam-se outros cumpriam a promessa... A grande maioria nunca mais voltou à terra e, da família, nos primeiros tempos, lembrava-se quase somente pelo Natal.
Organizaram as suas vidas, constituíram família e tornaram-se elementos válidos nas Terras do Tio Sam. A testemunhar a sua actividade estão as igrejas católicas, as sociedades fraternais e muito do comércio e indústria que, principalmente na Califórnia, ainda hoje prospera. E não refiro nomes, que o podia fazer...
Mas, após a guerra de 1914-1918, a América fechou-se à imigração e anos se passaram sem que alguém pudesse para lá emigrar.
Mesmo assim muitos voltaram às terras de origem e foram eles que passaram a adquirir os terrenos – de semeadura e pastagem – das famílias morgadias, decaídas, o que permitiu a divisão normalizada da propriedade rústica. Uma situação que não pode esquecer-se pois modificou totalmente a vida familiar e económica destas terras.
Na década de cinquenta do século XX rebentou na ilha do Faial o Vulcão dos Capelinhos. Os americanos sensibilizaram-se com a situação angustiante de muitas famílias faialenses e permitiram que algumas delas emigrassem para aquele país. Entretanto, as leis americanas são modificadas e abre-se a emigração a muitos açorianos e portugueses. Foi o êxodo.
Não emigraram unicamente indivíduos isolados. Saíram famílias inteiras. Naturalmente quase toda a juventude. As freguesias foram despovoadas e por cá ficaram quase só os velhos. Não refiro as situações de prosperidade que muitos alcançaram nas terras da Diáspora. Felizmente.
No entanto, os reflexos dessa saída, algo precipitada, estão a verificar-se. Temos uma população praticamente envelhecida, incapaz de ter novas iniciativas de actividades económicas. Alguns dos que ficaram vivem das reformas e dos subsídios estatais. Outros vão-se recolhendo aos lares da terceira idade que, entretanto, se vão criando em quase todos os concelhos. E a juventude que aqui e ali aparece, raro se fica pela terra. Caminha para outros meios para continuar estudos ou conseguir empregos e não voltam.
Uma situação angustiosa, afinal, que ninguém é capaz de alterar.

Vila das Lajes,
9 de Maio de 2012-
Ermelindo Ávila
(Escrito de acordo com a ortografia antiga)

sábado, 12 de maio de 2012

SANTO CRISTO MILAGROSO



O povo açoriano está, nestas dias que antecedem a festa de Pentecostes, voltado para ao Santuário da Esperança, na ilha de São Miguel.
Está a decorrer o novenário preparatório para as grandiosas solenidades em honra de Santo Cristo dos Milagres que, naquela ilha se vem, ininterruptamente, celebrando desde o século XVI, quando o Papa Paulo III ofereceu a duas religiosas micaelenses, a santa imagem, segundo relata o Pe. José Clemente.
A grande devota de Santo Cristo foi a Venerável Teresa da Anunciada que, segundo o seu biógrafo, tinha colóquios íntimos com o Seu Rei e Senhor.
Não se conseguiu ainda que a Igreja Romana elevasse às honras dos Altares a Venerável Religiosa. Todavia, Ponta Delgada já prestou condigna homenagem à Venerável Madre Teresa da Anunciada, colocando a sua estátua junto do convento onde ela passou os últimos anos de vida.
Bem merecia que algo mais se promovesse em ordem à finalização do processo de Beatificação
E isso em nada desmerece ou diminui o culto ao Senhor Santo Cristo, presente no convento da Esperança e, igualmente, em diversas igrejas das ilhas açorianas e até na Diáspora.
A ilha do Pico, além do culto normal a Jesus Cristo, - e ele é bem patente na veneração das Imagens do Bom Jesus de São Mateus, Calheta e Criação Velha, na paróquia da Silveira é o Senhor Santo Cristo, como nas do Senhor Jesus Crucificado de Santa Cruz das Ribeiras ou do Senhor Jesus das Preces, venerada na Matriz das Lajes - tem um culto especial à segunda Pessoa da Santíssima Trindade, em todas as igrejas paroquiais.
A Ilha do Faial festeja, oficialmente, em cumprimento de um voto muito antigo, o Santo Cristo da Praia do Almoxarife. São Jorge presta culto ao Santo Cristo da Caldeira. A Terceira venera na capela da Natividade de Angra, o Santo Cristo da Terceira.
Por toda a parte é o povo em prece ante as Imagens Venerandas, quer em corpo inteiro, quer em busto, ou no Senhor Crucificado, muito embora algumas imagens mereçam mais atenção dos fiéis, como é o caso do Santo Cristo do convento da Esperança, ou do Bom Jesus da paróquia de S. Mateus do Pico, ambos os templos declarados santuários pelo Prelado da Diocese.
Mas maior e mais vincado é o culto ao Senhor Santo Cristo dos Milagres de Ponta Delgada que ali atrai durante o novenário e festa, milhares de devotos, muitos idos das ilhas açorianas e numerosos vindos das terras da Diáspora, onde se encontram milhares de açorianos imigrados.
Quem um dia tomou parte nas festas e, principalmente, na Procissão, não ficou indiferente ante a fé dos devotos e dos sacrifícios que centenas deles fazem no cumprimento de promessas feitas em horas de angústias e dores.
A festa de Santo Cristo mantém o secular programa. A procissão segue, anualmente, o mesmo percurso de há séculos e não haja quem pretenda modificar o itinerário porque os micaelenses não consentem. E ainda bem que é assim. É um acto litúrgico e a liturgia não anda ao sabor dos modernismos mas mantém os seus princípios de culto a Deus e aos Seus Santos. E o Santo Cristo é, na realidade, a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade: Um só Deus em três Pessoas iguais e distintas ensina o antigo catecismo. E o Concílio de Trento já declarara: “O Pai aquilo mesmo que o Filho, o Filho aquilo mesmo que o Pai, o Pai e o Filho, aquilo mesmo que o Espírito Santo, ou seja um único Deus por natureza”.
Não vim dar uma lição de catequese. Não me compete. Venho lembrar a festa da Segunda Pessoa da SS. Trindade – o Filho, que veio ao mundo, encarnou e se fez homem e sofreu e morreu pelos outros homens seus irmãos. E é uma passagem da Sua Vida – Cristo apresentado no Pretório de Pilatos à turba enraivecida, que hoje veneramos na sua bela e expressiva Imagem do Ecce Homo. Imagem milagrosa. Imagem que recorda aos homens um dos momentos mais angustiosos de Cristo ao sofrer a Paixão e Morte na Cruz. E são todos esses passos da Paixão que o povo crente recorda com fé, recolhimento e gratidão, implorando a seu jeito os favores de que necessita, quer materiais quer espirituais.
É por isso que milhares e milhares de devotos caminham descalços ou de joelhos sobre as calçadas, onde deixam algum dos seu sangue de mistura com dores físicas, a expiar as dores morais porque passaram em momentos de aflição e dor.
Não se pode assistir a estes actos de verdadeira penitência sem uma reflexão íntima de pena e angústia a compartilhar sofrimento com os irmãos que sofrem.
Como Mons. Pereira da Silva terminava as suas palestras no Rádio Clube de Angra, a assinalar o lº centenário da festa do Bom Jesus, de São Mateus do Pico, em Agosto de 1962, assim finalizo este modesto escrito: Senhor Jesus, não olheis para a minha indignidade e faze-me um dos teus romeiros. Mete-me numa página do teu livro e dá-me um lugar no teu céu.

Vila das Lajes,
5 de Maio de 2012.
Ermelindo Ávila


O povo açoriano está, nestas dias que antecedem a festa de Pentecostes, voltado para ao Santuário da Esperança, na ilha de São Miguel.
Está a decorrer o novenário preparatório para as grandiosas solenidades em honra de Santo Cristo dos Milagres que, naquela ilha se vem, ininterruptamente, celebrando desde o século XVI, quando o Papa Paulo III ofereceu a duas religiosas micaelenses, a santa imagem, segundo relata o Pe. José Clemente.
A grande devota de Santo Cristo foi a Venerável Teresa da Anunciada que, segundo o seu biógrafo, tinha colóquios íntimos com o Seu Rei e Senhor.
Não se conseguiu ainda que a Igreja Romana elevasse às honras dos Altares a Venerável Religiosa. Todavia, Ponta Delgada já prestou condigna homenagem à Venerável Madre Teresa da Anunciada, colocando a sua estátua junto do convento onde ela passou os últimos anos de vida.
Bem merecia que algo mais se promovesse em ordem à finalização do processo de Beatificação
E isso em nada desmerece ou diminui o culto ao Senhor Santo Cristo, presente no convento da Esperança e, igualmente, em diversas igrejas das ilhas açorianas e até na Diáspora.
A ilha do Pico, além do culto normal a Jesus Cristo, - e ele é bem patente na veneração das Imagens do Bom Jesus de São Mateus, Calheta e Criação Velha, na paróquia da Silveira é o Senhor Santo Cristo, como nas do Senhor Jesus Crucificado de Santa Cruz das Ribeiras ou do Senhor Jesus das Preces, venerada na Matriz das Lajes - tem um culto especial à segunda Pessoa da Santíssima Trindade, em todas as igrejas paroquiais.
A Ilha do Faial festeja, oficialmente, em cumprimento de um voto muito antigo, o Santo Cristo da Praia do Almoxarife. São Jorge presta culto ao Santo Cristo da Caldeira. A Terceira venera na capela da Natividade de Angra, o Santo Cristo da Terceira.
Por toda a parte é o povo em prece ante as Imagens Venerandas, quer em corpo inteiro, quer em busto, ou no Senhor Crucificado, muito embora algumas imagens mereçam mais atenção dos fiéis, como é o caso do Santo Cristo do convento da Esperança, ou do Bom Jesus da paróquia de S. Mateus do Pico, ambos os templos declarados santuários pelo Prelado da Diocese.
Mas maior e mais vincado é o culto ao Senhor Santo Cristo dos Milagres de Ponta Delgada que ali atrai durante o novenário e festa, milhares de devotos, muitos idos das ilhas açorianas e numerosos vindos das terras da Diáspora, onde se encontram milhares de açorianos imigrados.
Quem um dia tomou parte nas festas e, principalmente, na Procissão, não ficou indiferente ante a fé dos devotos e dos sacrifícios que centenas deles fazem no cumprimento de promessas feitas em horas de angústias e dores.
A festa de Santo Cristo mantém o secular programa. A procissão segue, anualmente, o mesmo percurso de há séculos e não haja quem pretenda modificar o itinerário porque os micaelenses não consentem. E ainda bem que é assim. É um acto litúrgico e a liturgia não anda ao sabor dos modernismos mas mantém os seus princípios de culto a Deus e aos Seus Santos. E o Santo Cristo é, na realidade, a Segunda Pessoa da Santíssima Trindade: Um só Deus em três Pessoas iguais e distintas ensina o antigo catecismo. E o Concílio de Trento já declarara: “O Pai aquilo mesmo que o Filho, o Filho aquilo mesmo que o Pai, o Pai e o Filho, aquilo mesmo que o Espírito Santo, ou seja um único Deus por natureza”.
Não vim dar uma lição de catequese. Não me compete. Venho lembrar a festa da Segunda Pessoa da SS. Trindade – o Filho, que veio ao mundo, encarnou e se fez homem e sofreu e morreu pelos outros homens seus irmãos. E é uma passagem da Sua Vida – Cristo apresentado no Pretório de Pilatos à turba enraivecida, que hoje veneramos na sua bela e expressiva Imagem do Ecce Homo. Imagem milagrosa. Imagem que recorda aos homens um dos momentos mais angustiosos de Cristo ao sofrer a Paixão e Morte na Cruz. E são todos esses passos da Paixão que o povo crente recorda com fé, recolhimento e gratidão, implorando a seu jeito os favores de que necessita, quer materiais quer espirituais.
É por isso que milhares e milhares de devotos caminham descalços ou de joelhos sobre as calçadas, onde deixam algum dos seu sangue de mistura com dores físicas, a expiar as dores morais porque passaram em momentos de aflição e dor.
Não se pode assistir a estes actos de verdadeira penitência sem uma reflexão íntima de pena e angústia a compartilhar sofrimento com os irmãos que sofrem.
Como Mons. Pereira da Silva terminava as suas palestras no Rádio Clube de Angra, a assinalar o lº centenário da festa do Bom Jesus, de São Mateus do Pico, em Agosto de 1962, assim finalizo este modesto escrito: Senhor Jesus, não olheis para a minha indignidade e faze-me um dos teus romeiros. Mete-me numa página do teu livro e dá-me um lugar no teu céu.

Vila das Lajes,
5 de Maio de 2012.
Ermelindo Ávila

quarta-feira, 9 de maio de 2012

PATRIMÓNIO IMOBILIÁRIO

NOTAS DO MEU CANTINHO

Vezes sem conto tenho trazido a estas notas, talvez insípidas, o património imobiliário e histórico desta vila das Lajes. Nem sei, nem me dei ao cuidado de saber, se esses arrazoados têm merecido a atenção devida, não pelo escrito mas sobretudo pelo que representam, ou deviam representar, para uma terra, velha na existência, e para as suas gentes, aquelas sobretudo que nela habitam. 
Volto hoje, e concerteza pela última vez, a trazer à ribalta tão importante quão inquietante assunto, chamando a atenção, se é que isso se torna necessário, para a urgente necessidade de salvaguardar os valores históricos que nos legaram nossos maiores e que temos a obrigação de acautelar. 
A vila das Lajes é das poucas terras açorianas que têm imóveis classificados.
O convento franciscano foi fundado no Capítulo da Província franciscana, realizado em Ponta Delgada, no dia 29 de Junho de 1641. É um dos mais grandiosos edifícios da ilha do Pico. Está na posse da Câmara Municipal desde 3 de Janeiro de 1840. Foi classificado como imóvel de interesse público, por Portaria nº 22/78, de 30 de Março de 1978, da Secretaria Regional de Educação e Cultura. 
A ermida de S. Pedro, fundada pelo primeiro pároco Frei Pedro Gigante, por volta de 1460, é o primeiro templo e, consequentemente, o mais antigo da Ilha. Foi declarado Imóvel de Interesse Público por Portaria do Governo Regional, de 30 de Junho de 1984.
O Castelo de S.to António ou Forte de S.ta Catarina, foi construído em 1792, por ocasião das invasões francesas, para defesa da baía. No local existiu, anteriormente, o forte de S.ta Catarina que, com o forte da Barra e o da Terra da Fôrca, faziam a defesa da vila, das invasões dos argelinos. Possuía duas vigias e 7 ameias. A parada tinha a área de 22 por 34 metros. Ali foi instalado, em 1885, um forno de cozer cal. Presentemente, está nele instalado o Posto de Turismo Municipal. Foi classificado por decreto nº 95/78, de 12 de Setembro de 1978.
Nenhum destes imóveis tem placa de classificação. Impõe-se que neles se coloquem também placas identificativas pois, de contrário, quem os visita fica a desconhecer o interesse histórico que representam para a Vila e para a Ilha. E não é tarefa dispendiosa. Aqui deixo, a quem de direito, como soe dizer-se, o meu reparo e a minha petição.
E mais uma nota muito simples: Há anos foi colocada, no frontispício da ermida de S. Pedro, uma placa identificativa. Foi retirada quando na ermida se fizeram obras de restauro, depois do sismo de 9 de Julho de 1998. A placa não foi recolocada. É tempo de o fazer. O dispêndio não será muito.
Em 9 de Março de 1988, dois Deputados picoenses apresentaram, no Grupo Parlamentar respectivo, um projecto de Decreto Legislativo Regional para a classificação da Vila das Lajes do Pico. Alegavam que “O seu traçado arquitectónico mantem-se tal como o delimitaram os primeiros habitantes do primeiro lugar da ilha. – Ainda conserva a primitiva igrejinha na parte sul e outros monumentos históricos de relevância, como, igualmente, residências particulares, algumas dos séculos XVII e XVIII, que formam um conjunto muito valioso e bastante apreciado pelo turismo.”
O projecto do decreto, muito idêntico ao que classificou a Vila de Santa Cruz da Graciosa, não mereceu a aceitação dos deputados do partido a que pertenciam, alegando que o de S.ta Cruz havia causado certos problemas no restauro dos respectivos edifícios. No entanto, mais tarde houve quem andasse por aí a colher informações sobre a arquitectura e até arruamentos da vila...
A vila ficou prejudicada pela falta de medidas legislativas que acautelassem o seu património. E se o Decreto tivesse sido aceite e aprovado, não seria hoje um montão de ruínas como se vai verificando. Todavia, nunca é tarde para se tomarem medidas cautelares. Haja quem tenha essa coragem.
Mas isso será assunto para mais tarde. Por agora, apenas esta lembrança... 
Vila das Lajes,
30 de Abril de 2012 
Ermelindo Ávila

terça-feira, 24 de abril de 2012


AS TROPAS LIBERAIS

Ocorrem, no dia 21 do corrente mês de Abril, cento e oitenta e um anos que as tropas do Conde de Vila Flor, ao serviço da Causa Liberal, desembarcaram no porto de Santa Cruz das Ribeiras.
Foi também naquele porto, que porto ainda não era, que os companheiros de Fernão Alvares Evangelho, depois de O haver deixado no penedo negro, à entrada da enseada do Castelete desta vila, e se haverem feito ao largo, porque o mar se levantou e não permitiu que mais ninguém saltasse para terra, meses passados para ali se dirigiram e desembarcaram.
O Conde de Vila Flor desembarcando a sua tropa em Santa Cruz pretendia alcançar o porto da Madalena a fim de se dirigir à Horta, para desapossar daquela então Vila, a administração de Dom Miguel.
No dia seguinte ao desembarque, passando nesta vila, determinou ao juiz pela lei, que, “no dia 22 pelas dez horas da manhã, reunida a Câmara, se faria imediatamente trancar o auto de juramento prestado ao usurpador, aclamando a Rainha, sra. D. Maria II como rainha de Portugal”.
Sobre este feito diz Lacerda Machado (1) :
Estando nas Lages, em abril de 1831, a divisão liberal constituída pelo Conde de Vila Flor, depois Duque da Terceira, foi por este encarregado de prover as subsistências da divisão durante a estada das tropas na ilha, missão delicada, porque as populações sentindo na consciência o pecadinho da afeição pelo Senhor D. Miguel, fugiam à aproximação das forças liberais. O capitão Manuel Machado Soares, cavaleiro infatigável, percorreu pessoalmente as povoações próximas e todas aquelas por onde a divisão devia passar, para com a sua presença incutir confiança, prevenindo ao mesmo tempo as casas que tinha forno para que tivessem à porta, a horas certas, uma fornada de pão, ou bolo à moda da ilha, no que foi prontamente atendido, desempenhando assim cabalmente o difícil encargo.” (1)
Um outro facto não menos importante, ocorreu na ocasião do desembarque das tropas liberais, e conta o historiador lajense :
“... um dia em S. Jorge, Manuel Joaquim Noronha, natural da Terceira. passeando com um camarada pela povoação da Beira, junto das Velas, avistaram dois indivíduos que, para se encontrarem com eles, mudaram de rumo. – Tendo bastou par he fazerem fogo. Um (que era frade) caiu logo morto o outro – o fidalgo Miguel Teixeira, tenente-coronel de milícias, foi crivado de baionetadas.
Quando as tropas liberais desembarcaram em Santa Cruz e marchando em direcção às Lajes, ao passarem em frente da casa do capitão José Bettencourt da Silveira, este saiu-lhe ao encontro e convidou o Conde de Vila -Flor e seu estado-maior a tomar uma refeição.
No decorrer da refeição, Manuel Homem de Noronha, que fazia parte do grupo, ao encher o copo de vinho, quis saudar o dono da casa e perguntou-lhe o nome. O Noronha recuou e insistiu, confirmando o Bettencourt que esse era o seu nome. E foi então que o Conde interveio, dizendo que havia muitas Marias na terra. Julgava o Noronha ter na sua frente o Bettencourt das Velas. Assim ficou o caso sanado. (2)
Nas actas das Vereações das Lajes encontram-se os autos de aclamação de D. Miguel em 9 de Setembro de 1828 e o de D. Maria II, em 22 de Abril de 1831.
Num escrito anterior dizia: “E parece que o povo não recebeu bem a imposição do Conde de Vila Flor, pois não foram tão categorizados e numerosos os signatários do auto de aclamação da Rainha.”(3)
Um parte das tropas seguiu das Lajes até à Madalena, para embarcarem para o Faial, enquanto outra, caminhando pelo lado Norte, embarcou em S. Roque para as Velas.
Na memória das gentes ficaram os actos de vandalismo praticados pelas tropas do Conde de Vila Flor, mais tarde Duque da Terceira. Do Faial a armada ao comando do Conde de Vila Flor, rumou a S. Miguel, que ainda estava sob o domínio de D. Miguel, onde as tropas liberas desembarcam a 1 de Agosto de 1831.
Uma vez em Porto Formoso, o Conde de Vila Flor verificou que os miguelista haviam tomado posições magníficas, ocupando as encostas sobranceiras à freguesia, principalmente na Ladeira da Velha. O Conde manda então suas tropas fazerem um movimento envolvente parecendo abandonar a estrada da Ribeira Grande. Assim consegue que as tropas miguelistas se alarguem e enfraquecem e logo que viu o alto da Ladeira da Velha pouco guarnecido faz avançar uma forte coluna pelo que os miguelistas se viram entre dois fogos. - Foi um desastre para as tropas de Sousa Prego (capitão - general miguelista), pelo que o Conde de Vila Flor segue triunfante para a Ribeira Grande e para Ponta Delgada.”(4)
Foi em Ponta Delgada que D. Pedro, Duque de Bragança, promulgou no dia 17 de Maio de 1832, a extinção dos conventos e colegiadas do distrito da Horta. (5)
Dali seguiram para o Porto, saindo triunfantes da batalha de Mindelo.
A passagem pelo Pico, e naturalmente pelas outras ilhas, não foi pacífica. Daqui levaram muitos rapazes que incorporaram nas suas tropas. E outros mais não foram porque se haviam refugiado nos matos, nas casas de abegoaria. Mais tarde, aqueles que escaparam, voltaram à terra. Um deles, o Pereira Soldado, quase chegou a nossos dias... O Ano da Tropa não ficou esquecido por picoenses. Anos e anos, os mais idosos falavam dessa época com algum pavor.
As Lutas Liberais ocorreram há 180 anos. No porto de Santa Cruz das Ribeiras não se encontra ali assinalado o desembarque das Tropas Liberais, e merecia-o. É ainda tempo que isso se faça, pois trata-se de um acontecimento histórico, numa freguesia onde não abundam factos semelhantes. Demais, nestes tempos de vida administrativa em que se discute a existência de algumas freguesias nacionais e regionais...
______________
1) F.S .Lacerda Machado - “OS Morgados das Lages” – 1915 – pág. -17
2) F.S. Lacerda Machado – “Os Capitães Mores das Lages” - 1915-, pág.69
3) E . Ávila – “Figuras e Factos . Notas Históricas” Vol. I- 1993– pág. 160
4) Carreiro da Costa – Esboço Histórico dos Açores”, 1978, pág.153/4
5) A-L- Silveira de Macedo, “História das Quatro Ilhas...” II Vol. 1871 - pág 511.
Vila das Lajes,
9 de Abril de 2012.
Ermelindo Ávila
(Escrito de acordo com a antiga ortografia)

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Notas do meu cantinho

AS COROAÇÕES

Em épocas não muito afastadas a freguesia da Santíssima Trindade (hoje constituindo duas paróquias independentes) celebrava as Domingas do Espírito Santo, ou seja aqueles domingos que se situavam entre o Domingo de Páscoa e o Domingo do Pentecostes.

A paróquia estava dividida em núcleos e cada um deles tinha um grupo de “Irmãos” que “levavam a Coroa”, de cinco em cinco anos. Ainda hoje os lugares da Almagreira e das Terras cumprem esse voto. E são sempre as mesmas famílias que sorteiam entre si os domingos em que devem “levar o Senhor Espírito Santo” à Igreja, para usar as denominações populares.

Este ano é o “ano das Terras”. Já foram sorteados os domingos e já principiaram a fazer-se os convites para cada domingo. Aqui há anos, era limitado o número de convidados: apenas os “Irmãos”, os familiares e alguns amigos. Presentemente, os convites são feitos a centenas de amigos e conhecidos.

Lacerda Machado assim se refere às domingas: “Os festejos das domingas consistiam apenas em missa cantada e coroação, em seguida às quais o mordomo oferecia jantar aos colegas das outras Domingas e pessoas convidadas”(1)

A preparação das festas começa, normalmente, cinco anos antes, quando acaba o ciclo festivo duma época.

Para cumprir estes votos os habitantes daquele próspero lugar construíram um grande e espaçoso salão que pode receber mais de mil convivas no jantar do Espírito Santo. Substitui um pequeno espaço, construído há anos para sede da sociedade recreativa, Alegria no Campo, então constituída.

Mas não se ficou pelo salão, um dos melhores, em espaço e arranjos interiores da ilha do Pico. Profundamente católicos os habitantes do lugar edificaram também uma ampla ermida ou igreja, dedicada ao Coração de Maria, nela tendo sido entronizada a Imagem de Santo Isidro, patrono dos agricultores.

Havia ali bons pedreiros e oficinas de ferreiro e alguns carpinteiros. Os que não se empregavam nesses ofícios, trabalhavam na agricultura. As mulheres dedicavam-se quase só aos serviços domésticos e, quando disponíveis, auxiliavam os familiares nos campos.

Alguns emigraram. Lembro John Phillips, que se tornou célebre na luta contra os índios e que hoje é considerado um dos heróis americanos.

Actualmente, a população do lugar é uma das mais prósperas da ilha. Vive feliz e desafogadamente das suas lavouras e em completa harmonia. Segundo sei, ali não há casos de tribunal, o que é uma honra para as suas gentes.

Tenho muita simpatia por aquele lugar e pelas suas gentes. Foi ali que iniciei a Instrução Primária quando uma tia paterna. Aurora Leopoldina Ávila, iniciou a sua profissão de professora do Ensino Primário.

Há muitos anos lá se fixou, pelo casamento, um tio-avô materno, que deixou larga descendência. Ainda hoje, encontro vários primos que me dispensam afectuosa amizade, a qual bastante aprecio e estimo.

E porquê o topónimo Terras? Porque ali estão os melhores terrenos de semeadura da freguesia e, porque não?, da ilha. Antigamente era o celeiro. Tinha milho em abundância que servia de moeda de troca. Todos os anos víamos serrados de trigo mas principalmente no ano das Coroações e ainda lá existem diversas eiras que serviam para a debulha. Um dia de festa para famílias e amigos.

Hoje não se vêm serrados com trigo e poucos há de milho. Os terrenos quase só produzem ervas e milho para silagem destinada à sustentação do gado leiteiro, pois as Terras tem várias e amplas manadas, que dão bons rendimentos.

Com este singelo registo fica a minha modesta homenagem ao laborioso Povo das Terras, como disse, uma grande parte meus parentes.

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Lacerda Machado: “História do Concelho das Lages”1936 .

Vila das Lajes,

Março de 2012

Ermelindo Ávila

(Escrito de acordo com a antiga ortografia.)

segunda-feira, 9 de abril de 2012

A GRANDE SEMANA

NOTAS DO MEU CANTINHO


Na gíria popular era a “semana dos nove dias”. E uma razão havia para que as pessoas assim pensarem: na Quinta-feira santa ou Quinta-feira maior as cerimónias litúrgicas decorriam da parte da tarde. Assim, a parte da manhã ficava livre para quaisquer serviços. Na Sexta-feira santa as cerimónias decorriam, normalmente, da parte da manhã, com a Missa dos Pré-santificados e a Procissão de enterro. A parte da tarde ficava livre.

A Igreja era decorada com panos negros, as imagens cobertas e as janelas tapadas.

Mas tudo era feito com ordem e respeito. O povo acorria às cerimónias litúrgicas com notável afluência e enorme sentimento. Quando criança, lembro-me que, quando a matraca dava o sinal, as pessoas, num gesto de sentimento, batiam com as mãos nas caras e algumas choravam, o que não deixava de me impressionar.

Na noite da quinta para sexta-feira, o Santíssimo ficava exposto no trono do altar mor (refiro a igreja de S.Francisco onde funcionaram provisoriamente os serviços paroquiais). A Irmandade do Santíssimo tinha a seu cuidado a adoração permanente, mesmo durante a noite, revezando-se os irmãos conforme ordem pré-estabelecida.

No sábado de Aleluia, ou dia da ressurreição do Senhor, as cerimónias revestiam-se de grande esplendor. Ao cantar do Glória in excelsis Deo, pelo celebrante, a filarmónica, postada no coro alto, rompia com uma marcha, os sinos repicavam, o órgão dava os primeiros acordos e o coro ou capela continuava depois com o canto litúrgico. As imagens eram descobertas e as cortinas das janela caíam. Tudo em simultâneo e com o máximo respeito. Do coro alto e do coreto, crianças da catequese espalhavam, sobre a assistência, pétalas de flores e um dos serventuários levava em bandeja, aos sacerdotes e acólitos e membros do coro, pequenos ramos de flores em belos arranjos de D. Virgínia de Lacerda, uma artista de rara sensibilidade, substituída mais tarde por D. Maria da Encarnação Bettencourt, sua distinta discípula.

(Só depois dos sinos tocarem festivamente, anunciando a Ressurreição do Senhor, é que era permitido aos rapazes o jogo do pião).

No domingo da Ressurreição, manhã cedo, a Filarmónica Artista (extinta nos anos trinta) percorria as ruas da vila tocando uma marcha ligeira. A seguir, saía a procissão da Ressurreição, com o Santíssimo, descendo à rua Direita, e só quando regressava ao templo era dado início à Missa da Ressurreição.

Afinal, quatro dias de celebrações solenes às quais não faltavam os fiéis, depois de uma Quaresma cumprida com recolhimento e alguma penitência.

(O domingo de Páscoa era o dia escolhido pelas senhoras para estrearem os seus trajes festivos de verão. Os homens continuavam a trajar os habituais fatos domingueiros, como diziam).

A celebração da Semana Santa só tinha lugar na Matriz das Lajes, nela tomando parte os sacerdotes das outras paróquias da ouvidoria. Ficaram na memória do povo as Matinas da Sexta-Feira Santa. Era executada uma partitura que se dizia ser da autoria do célebre P. Joaquim Serrão.

Mas não só nas Lajes era celebrada a Semana Maior. Lembro o que eram as cerimónias da semana Santa na Sé de Angra. A cidade toda acorria à Sé e o clero ali se reunia para colaborar nas cerimónias. Na Quinta-feira da parte da manhã, havia a Missa para a bênção dos óleos sacramentais, que depois eram distribuídos por todas as paróquias da Diocese. Nessa Missa Crismal tomava parte, obrigatoriamente, todo o clero da Ilha.

Na Adoração da Cruz, na Sexta-Feira Santa, o Bispo, quando presidia, e os cónegos – naturalmente que eram os primeiros – caminhavam até junto do Crucifixo, em meias e com capas pretas com cauda.

Na Quinta e Sexta-feira Santas também eram cantadas Matinas solenes, com Partituras que constava serem do Pe. Serrão. Certo é que um dos órgãos da Sé havia sido construído pelo Pe. Serrão, notável organista e compositor, natural de Setúbal e falecido em Ponta Delgada, em 1877, onde havia residido vários anos.

Todavia tudo foi simplificado pelo Concílio Vaticano II, mas não tanto como em alguns lugares acontece. E talvez por isso os fiéis católicos deixaram de frequentar as diversas cerimónias da Semana Santa com a assiduidade com que antigamente o faziam.

Vila das Lajes do Pico

Domingo de Ramos de 2012

Ermelindo Ávila

(Escrito de acordo com a antiga ortografia)

terça-feira, 3 de abril de 2012

EM JEITO DE SONHO...

NOTAS DO MEU CANTINHO



Acordei um pouco sobressaltado com o estrondear de um foguetão. Levantei-me, precipitadamente, e corri para a torre da minha modesta residência na esperança de, da janela que dá para o Oceâno, ver uma vez ainda as gasolinas e as canoas saírem pela carreira fora, rumo a oeste.

Na Terra da Fôrca, junto ao velho moinho, o Vigia já devia ter hasteado, com certeza, a bandeira preta, sinal de baleia à vista.

A manhã ia nascendo mas o sol não aparecia ainda no alto das ladeiras.

As pessoas estavam ainda recolhidas quando a bomba, lançada pelo Vigia, estrondeou no ar. Foi uma surpresa. Há muito que na minha terra não se ouvia sinal de baleia. Os poucos botes, que restaram da distribuição graciosa por outros portos, estavam recolhidos nos barracões para servirem em regatas e as lanchas, apenas duas, ancoradas na Lagoa, há muito que não punham os motores em serviço.

Como podia ser possível haver sinal de baleia? Nem sabia responder. Sei que era o antigo sinal e, naturalmente, que as baleias deviam andar por perto.

Os ribeiras e os calhetas já deviam andar fora. O sol por lá aparece mais cedo. Era natural que assim fosse.

Os botes do Mestre José Faidoca, do Manuel Alfaiate, do Domingos Saltão; e também os do João Tavares, do António Medina, e do António Garcia com certeza que estavam a aproximar-se da baía das Lajes

Mas, afinal, por mais que da janela da minha torre espreitasse os botes e lanchas das Lajes, que deviam estar a sair pela carreira que liga a lagoa ao alto mar, não apareciam. Esperei...

E quando me mantinha com o binóculo em punho, na expectativa, de os botes saírem, nada via.

Algum tempo depois um barco semi - rijido motorizado, saía a carreira, levando um grupo de indivíduos: homens e mulheres. Foi então que despertei do meu sonho e verifiquei que eram turistas, de qualquer nacionalidade que, conduzidos pelos operadores/ armadores, iam ver as baleias e os golfinhos, como agora tratam os moleiros e as toninhas, que se encontravam no seu habitat, descuidados e felizes, a viver, calmamente, e a alimentar-se dos peixes que os homens deviam utilizar nas suas ementas mas que agora, a pesar das diligências dos pescadores, nem aparecem nos pesqueiros habituais...

Afinal, sofri uma amarga desilusão... Verdade que já não se arria à baleia há muitos anos, nem há baleeiros em terra. Foram desaparecendo com o rodar dos anos... As gerações novas nem sabem o que era essa actividade marítima que muito contribuía para o equilíbrio económico desta terra que ainda denominam de “terra de baleeiros”. Mas isso foi no passado. Se Raul Brandão cá voltasse já não escreveria uma parte do que disse em “Ilhas Desconhecidas: “Casinhas negras aglomeradas, uma grande solidão e uma grande tristeza. A costa forma baía, fechada de um lado por um desconforme penedo. Lajes é a terra dos baleeiros – seis armações, duzentas pessoas empregadas na pesca. A casa do vigia fica lá no alto num caminho abandonado, num sítio que se chama Terra da Forca.(...) Tudo aqui cheira a baleia e está besuntado de baleia, tudo o que se come sabe a baleia, que é derretida em grandes caldeirões para lhe extraírem o óleo. – Pergunto: - Vocês não sentem isto? Este cheiro horrível? – Este cheiro cheira-nos sempre bem. É sinal de dinheiro”.

E assim era! Todavia, hoje a vila voltou a ser de “...uma grande solidão e uma grande tristeza.” Os baleeiros, vindos da Ribeira do Meio, já não esperam o sinal de baleia no “balcão da Emília”,nem os da Vila nas banquetas junto das antigas “casas dos botes”, – agora Museu dos Baleeiros, frente à rampa da Lagoa, também desaparecida. A Lagoa está transformada em pequena marina onde ainda estacionam alguns barcos de pesca além de outros de recreio e aqueles que levam os visitantes até ao ”santuário das baleias

Pois se até a “Pesqueira” desapareceu...

Fico por aqui e volto ao remanso do meu cantinho para continuar estes rabiscos. Até quando? Só Deus o sabe!...

Vila Baleeira.

13-03-2012

Ermelindo Ávila

Escrito de acordo com a antiga ortografia

quarta-feira, 14 de março de 2012

INDÚSTRIAS PICOENSES


No decorrer dos tempos, a ilha do Pico teve diversas indústrias, algumas de carácter artesanal. Mesmo assim, sem grandes maquinismos, a actividade industrial desenvolveu-se em vários sectores que, produzindo embora em pequena escala, bastavam para as necessidades locais. Outras, algo mais desenvolvidas, produziam para a exportação, como seja, em épocas que podemos considerar já remotas, a produção da laranja, do vinho verdelho e lacticínios, ficando por isso célebre o especial “queijo do Pico!”

Deixo de referir, porque por tantos abordada, a actividade baleeira que aqui nesta ilha nasceu há século e meio, para terminar, ingloriamente, vai para mais de quarenta anos.

Mas outras indústrias existiram no Pico. Até a de pirotecnia, que fabricava o chamado fogo de artifício que animava os arraiais das festividades religiosas da ilha. Foram exímios pirotécnicos Tomé Mamede e António Francisco da Silveira, conhecido por António Félix do Cais do Pico.

Na década de oitenta do século XIX, a freguesia da Santíssima Trindade tinha dezasseis sapateiros, um alfaiate, nove carpinteiros, dois tanoeiros, e três serradores; onze ferreiros e nove pedreiros, um moleiro e um caiador, além de um sangrador e de um veterinário... A freguesia tinha 3.229 habitantes e 1.142 eram do sexo masculino, adultos. Havia 496 menores de sete anos.

A maioria da população ou empregava-se ou na agricultura ou na pesca.

Em 1888, encontramos um oleiro. Sabemos que era natural de ilha de Santa Maria donde importava o barro utilizado no fabrico de diversas peças de uso doméstico.

Em 1899, foi licenciado o funcionamento de um forno de cal, pertencente a Manuel Joaquim de Azevedo e Castro, António Homem da Costa e José Francisco Fidalgo Baptista, “ no terreno que foi Forte de Santa Catarina”. Conheci o operário que lá trabalhou e que ficou conhecido pelo caleiro. A pedra calcária era importada do continente. Ainda resta o respectivo forno.

O Pico possuiu, a um tempo, doze fábricas de lacticínios, três fábricas de conservas de peixe, das quais apenas uma sobrevive, - a COFACO - instalada na Areia Larga; foi dirigida por Francisco Pessanha e a quem o concelho da Madalena ficou a dever o notável desenvolvimento que ali se verificou na segunda metade do século passado. De registar ainda as duas fábricas de extracção de óleos de baleia, e duas fábrica de refrigerantes, primeiro na Madalena e depois nas Lajes.

Aqui deve incluir-se a indústria de espadana, também conhecida na ilha por piteira, existente em São Mateus e de que era proprietário o professor José Inácio Garcia de Lemos Jr. Possuía vários terrenos na ilha e no Faial, onde cultivava essa planta que, depois do corte, era seca, tratada e exportada para o continente. Nessa actividade empregava muita mão-de-obra, principalmente, do sexo feminino. E eram duas ou três centenas de operárias. A cultura era feita de maneira que, a do Faial só fosse colhida depois de trabalhada a do Pico para que as operárias de cá se deslocassem depois para aquela ilha. Uma forma simpática de garantir trabalho, quando ele era escasso. Nem todos, naturalmente, compreendiam a atitude do industrial mas o que é certo é que o prof. José Lemos, procurava servir a freguesia.

Diz um seu biógrafo que o Prof. Lemos era “Empreendedor e dinâmico no comércio e indústria”. Realmente assim foi. Basta ter presente o que dele afirma o escritor Dias de Melo: Em S. Mateus, onde nascera, exercia, com notável competência, o magistério primário e dedicava-se a várias actividades industriais. Proprietário de uma armação fundada por antepassado e há muito encerrada, resolveu, dada a conjuntura favorável aos altos lucros, também reabri-la. (1)

Aquando do seu falecimento, em 27/12/1968, dele se escreveu: Era inteligente e prático. Revelou-se chefe. Desfrutava do tacto de mandar, de administrar. Distinto, desde os bancos da escola. Jornalista de vocação aos doze anos dirigia o jornal em miniatura, “O cartão de visita”. Amador teatral com destacada presença. Professor competente e probo. Orador vibrante. Empreendedor e dinâmico no comércio e na indústria. Espírito culto e actualizado assinalou a sua passagem na vida política e administrativa do concelho e do distrito com dois mandatos (l935 e 1943) na presidência da Câmara da Madalena, o último dos quais por doze anos. Músico por intuição e por estudo o prof. Lemos foi alma de muitas associações musicais de São Mateus, estando a seu cargo o órgão da sua igreja paroquial. Era de facto o mais competente organista do Pico. Por muitos anos foi o organizador dos festejos cívicos da festa do Bom Jesus. (2)

Este um dos vultos picoenses que anda esquecido.

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1) Dias de Melo, “A Montanha cobriu-se de negro”, pág.93.

2) “Ecos do Santuário”, Fev. de 1969, Ano I, nº 7


Vila das Lajes,

2 de Março de 2012.

Ermelindo Ávila


sexta-feira, 9 de março de 2012

FIGURAS ILUSTRES

NOTAS DO MEU CANTINHO



Não abundam mas também não são tão raras como possa pensar-se... Sempre existiram figuras ilustres na Ilha do Pico e nas terras açorianas. Não as vou citar a todas porque isso seria tarefa difícil. Fico por algumas. Aquelas que melhor conheci. Outros mais bem informados e eruditos poderão fazer o resto.

Se hoje aqui recordo um ou dois é somente para chamar a atenção da entidade competente para a urgente e imperiosa necessidade de dedicar algo que os dignifique e recorde para a posteridade. Esse gesto de esclarecido entendimento sobre as figuras ilustres desta terra só prestigia quem dele for autor e, no presente e no futuro, a ilha que serviram ou lhes foi berço. Ilha que eles jamais esqueceram embora dela se tenham afastado por afazeres profissionais ou por exigências familiares. E são tantos esses que partiram e viveram uma vida sofrida pela saudade do torrão natal. Alguns deram testemunho desse estado de alma. Outros quedaram-se num silêncio atroz, uma vez que o ambiente que os rodeava não permite ou permitiu que revelassem a saudade que os abarcava: “saudades da minha terra, saudades da minha mãe”, como reza uma canção popular.

Só quem tem a experiência de viver alguns anos fora da terra-mãe pode dar valor aos sentimentos de saudade que a muitos assolapa e contrista. É uma sina à qual não se pode fugir.

Vive com eles, com esses que daqui ou doutra parte qualquer partiram e não mais voltaram.

Mas este intróito lamuriento tem algo de interesse neste momento histórico em que a ilha vai ficando despovoada e, consequentemente, condenada a um pérfido e triste abandono.

Recordemos os nossos maiores. Lembremos, no presente e no futuro, esses que em diversos lugares onde passaram a viver, se notabilizaram pela sua cultura e erudição, pela sua arte ou por uma vida honesta, séria e exemplar. Não serão centenas nem mesmo muitas dezenas mas são alguns.

Hoje trago aqui dois somente. Deles já tratei em escritos anteriores. Vou repetir-me. Não importa.

Recordo o professor catedrático, Doutor José Enes Pereira Cardoso. Nasceu ali na Silveira, donde também era natural o Pai e os ascendentes paternos. Formado em Filosofia na Gregoriana, em Roma, foi professor do Seminário de Angra, das Universidades Católica de Lisboa, de Luanda e dos Açores que ajudou a fundar e da qual foi seu primeiro Reitor. Não são de esquecer as “Semanas de Estudo”, que organizou em Angra na década de sessenta do século passado e que tamanha repercussão tiveram nos meios culturais e científicos do País. Foi um dos mais prestigiados Mestres da cultura portuguesa e, presentemente, encontra-se vivendo em Lisboa, sofrendo de dolorosa doença física.

Quando o concelho comemorou o quinto centenário de vida municipal, o Doutor José Enes veio cá tomar parte nos eventos culturais, comemorativos. Nessa ocasião recebeu as homenagens da Edilidade Lajense. E foi só. No exterior nada há que assinale a sua inconfundível Personalidade. E era tempo de isso acontecer. Ao menos uma placa na casa onde nasceu e viveu a sua infância.

O doutor Julião Azevedo nasceu no Caminho de Cima da freguesia da Piedade. Ainda por lá tem parentes, embora os pais se tenham deslocado para Angra, a fim de poderem dar cursos liceais aos filhos.

Formado em História e Filosofia pela Universidade de Lisboa, foi professor do Ensino Secundário e, depois, escolhido pelo Instituto de Alta Cultura para Leitor da Faculdade de Letras da Universidade de Poitiers. Depois passou para a Universidade de Paris (Sorbone), uma das mais prestigiadas escolas da França “contribuindo para um interesse cada vez maior pela nossa cultura”. Regressado a Lisboa “foi incumbido pelo I.A.C. de preparar um valioso acervo bibliográfico que, por ocasião do Centenário da Cidade de São Paulo (Brasil), em 1954, seria oferecido como fundo da biblioteca do Centro de Estudos Portugueses, então criado na Faculdade de Letras e Ciências Humanas daquela cidade, tarefa que não chegou a completar por ter falecido inesperadamente”, em Abril de 1953, aos 30 anos de idade. Mesmo assim publicou em vida diversos trabalhos de apreciável valor, um dos quais, Condições Económicas das Revolução Portuguesa de 1820 que, se bem sei, foi adoptado como compêndio de estudo pela Universidade dos Açores.

Aquando seu falecimento o Boletim do Instituto Histórico da Ilha Terceira registou o infausto acontecimento com as seguintes palavras, tombadas em acta da sessão de 1 de Junho de 1953: “Foi aprovado por unanimidade que se lançasse na acta um voto de profundo pesar pelo falecimento prematuro do Dr. Julião Soares de Azevedo, natural desta ilha, e que na sua curta carreira de professor se notabilizou por trabalhos históricos e linguísticos, alguns deles referentes à Terceira.”

Só se ressalva que o Dr. Julião nasceu na freguesia da Piedade desta Ilha em 1920. É tempo de, na freguesia natal, lhe ser prestada a homenagem de que é merecedor.


Vila das Lajes,

25.Fev.-2012

Ermelindo Ávila