segunda-feira, 17 de outubro de 2011


Nossa Senhora das Mercês

A Manhenha, outrora lugar famoso pelo vinho verdelho que nele se produzia, acaba de celebrar a sua festa em honra da Senhora das Mercês, na secular ermida de São Tomé.

A ermida foi convenientemente conservada e a Imagem secular de Nossa Senhora das Mercês, restaurada numa oficina de Vila do Conde.

A festa decorreu com o tradicional entusiasmo dos veraneantes e residentes naquele lugar, e com larga assistência de vizinhos e de outros de diversas partes da ilha.

Como vem sendo já tradição nas festas da Ponta da Ilha, não faltou uma noite de fados e bailados e uma tarde de tourada à corda.

Nas semanas anteriores tinham decorrido as vindimas, este ano bastante irregulares. Uns com boas colheitas outros com produções diminutas. Há quem diga que tem de fazer ainda uma segunda ou mesmo terceira colheita, tal a irregularidade da produção.

Mesmo assim o vinho novo nunca deixa de existir nas adegas, para oferecer aos amigos e visitantes. Uma velha tradição.

Mas é uma pena ver como esta Ponta da Ilha, ou melhor os lugares da Manhenha, Engrade, Calhau vão se enchendo de arvoredo selvagem, quando outrora era rica em vinho verdelho, em terrenos pertencentes não só aos naturais mas ainda a muitos jorgenses, que no verão aqui vinham fazer suas colheitas, transportando depois o vinho para a ilha à semelhança do que outrora e ainda agora acontece para os lados da Fronteira.

E o que se exportava para o Norte da Europa, directamente desta zona ?! Ao lado da baia da Engrade há ainda a “Baia dos franceses” onde aportavam as barcas as barcas daquele País ou daqui partiam as de cá.

Foi na Manhenha que o Estado, quando instalou os serviços agrícolas Matos Souto, adquiriu uma porção de terreno, fez o plantio de vinhas e construiu uma pequena adega. O terreno ainda pertence ao Estado ou, actualmente, à Região, mas não vejo que haja aproveitamento de qualquer produção vinícola.

Só se fala na “zona protegida”, nos muros dos currais de vinha e nos “maroiços” de ouras zonas, como se por cá não existissem iguais “construções”, (também feitas pelas mãos dos homens…)

As vindimas vão decorrendo. Ainda existem os lagares nas adegas. Todavia os baldes de plástico tomaram o lugar dos cestos. Na quase totalidade das adegas, o “pisar” das uvas foi substituído por “engenhos” apropriados. O transporte das uvas já não é feito em burros, como há cinquenta e quarenta anos, mas em camionetas e tractores. No entanto o sumo da uva, embora de castas diversas, é o mesmo e o vinho não deixa de existir nas adegas ou nas habitações dos actuais residentes, que muitos são, para ser usado durante o ano ou oferecido aos visitantes e amigos.

Curiosamente ainda se mantém a recolha, no fim da época das vindimas, do pote de vinho para os “impérios” do Espírito Santo, do ano seguinte. E ainda bem que a tradição se mantém.

A Manhenha, outrora a vileta das cem adegas e hoje uma cidadela, com excelentes vivendas, salão de recreio e festas, ermida e até piscina com balneários. Ao lado, fica-lhe a Engrade, de tradições saudosas, já com várias “adegas” de veraneio e algumas habitações. Brevemente, terá uma ermida, talvez a primeira dedicada ao Beato João Paulo II. Para lá vamos.

Engrade, Piedade,

26-09-2011.

Ermelindo Ávila

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

PIEDADE EM FESTA

NOTAS DO MEU CANTINHO


Estamos na semana da Festa da Piedade. Tal como acontece em todas as outras localidades, a festa da Padroeira é, normalmente, preparada com respeito e entusiasmo. E creio que esta atitude dos respectivos paroquianos vem desde a instituição da freguesia, uma das mais antigas da Ilha, pois já existia nos princípios do século dezasseis. Mas deixemos a história.
Há dezenas de anos que estou ligado à freguesia da Piedade por laços familiares. Aqui criei amizades e passei momentos que não esqueço pois esta terra e as suas gentes são de uma simpatia pouco vulgar.
A Piedade tem lugares de veraneio paradisíacos: a Manhenha com as suas cem adegas como a definiu um escritor faialense há mais de meio século, o Calhau com a sua baía magnífica e porto embora de reduzidas dimensões; aqui, mais recolhida a Engrade, com uma baía abundante em peixe para as pescarias de “costa”. Para não esquecer os seus famosos vinhos verdelho há muito desaparecidos.
Hoje fico pelo Calhau, uma apreciada estância de verão com excelentes adegas, agora transformadas em belas moradias. Lá existe a ermida de Nossa Senhora da Conceição da Rocha, mandada construir em 1854, pelo Padre Manuel Inácio da Silveira Campelo, vigário de S, Mateus da Terceira. Foi propriedade de Manuel Vieira Machado e, actualmente, pertence aos descendentes de José Joaquim Goulart. Infelizmente, encontra-se em ruínas.
Para a substituir foi construída, junto ao Porto, uma pequena capela onde, anualmente, os locais promovem uma festa à Senhora da Boa Viagem.
Aludindo ao porto do Calhau aqui deixo o que informa o Professor Manuel de Ávila Coelho:
“O Reverendo Pe. Gabriel Soares – que legou a sua casa do Calhau à Paróquia da Piedade onde viveu muitos anos o P. Francisco Soares – Velho – também dizia muitas vezes, com os olhos postos na magnífica baía do “Calhau da Ponta”, que não tem rival na ilha; “Ainda hei-de embarcar e desembarcar ali num cais, a pé enxuto”. Um dia abriu a bolsa e deu bem; o Estado agradeceu, reforçou a verba e ordenou o começo das obras que chegaram ao ponto em que há anos se encontram”. (Isto escrito em 1961). E continua: “Pouca sorte outra vez mas os habitantes da Piedade não tiveram culpa. Nesta maior baía do Pico, de fundo direito e saídas desafogadas, já se abrigaram navios se grande calado e, por mais de uma vez, o antigo “Funchal”, da Empresa Insulana de Navegação, ali fez serviço de mala e passageiros.
Além disto, óptimo varadouro, pela sua grande área e insignificante diferença de nível, presta-se a ser utilizado por grandes embarcações. Contudo já vimos uma traineira de pesca da albacora, das duas pertencentes à freguesia, varada no porto de Santa Cruz das Ribeiras em terra!” (A Freguesia de Nª.Sª. da Piedade, na Ilha do Pico, Boletim do NCH, 1961)
Hoje o Calhau dispõe de um bom porto, com cais acostável, embora de pequena dimensão.
Infelizmente, os iates do Pico que faziam as ligações semanais entre Pico-Faial e as restantes ilhas dos Grupos Central e Oriental desapareceram e a ilha só tem ligações com o exterior, no verão, através do porto do Cais do Pico. Toda a Zona Sul da Ilha está abandonada. Dizem que é progresso e que tudo está melhor!
E fiquemos por aqui, gozando um pouco deste verão calmoso mas agradável por estas bandas.

Engrade, 2 de Setembro de 2011
Ermelindo Ávila

segunda-feira, 6 de junho de 2011

SANTO CRISTO


Santo Cristo, em São Miguel, Bom Jesus, em São Mateus do Pico, ou Senhor das Preces, na vila das Lajes, são alguns dos diversos títulos ou nomes que o povo cristão dá a Jesus Cristo, Segunda Pessoa da Santíssima Trindade.

Qualquer das Imagens que existem, nos templos católicos, representam o Senhor nas diversas fases da Sua Paixão e Morte na Cruz. Santo Cristo, representado somente em busto, venera-se na Igreja da Esperança em Ponta Delgada. Veio de Roma, oferecida a duas religiosas que se haviam deslocado à Cidade Eterna, pelo Papa Paulo III. Dessa Veneranda Imagem se tornou grande devota, a Venerável Madre Teresa da Anunciada, que havia nascido na então Vila da Ribeira Grande, em Novembro de 1658. Estas ilhas haviam sido descobertas e povoadas dois séculos antes.

A devoção a Santo Cristo dos Milagres, como passou a ser conhecida a Veneranda Imagem espalhou-se por toda a parte, quer no Brasil quer nos Estados Unidos ou onde quer que haja um açoriano e, particularmente, um micaelense.

A sua festa, que jamais deixou de ser celebrada no sexto domingo da Páscoa, atrai a Ponta Delgada grande concurso de devotos e não só.

Mas com a mesma invocação ou outra, Jesus Cristo é celebrado, anualmente, em diversas paróquias dos Açores.

Na Ilha do Pico celebra-se desde 1862, a 6 de Agosto, a grande festa do Bom Jesus, em São Mateus, cuja Imagem foi trazida de Iguape, Brasil, pelo emigrante retornado, Francisco Ferreira Goulart. Pela devoção tributada ao Bom Jesus, a igreja paroquial foi elevada à categoria de Matriz e de Santuário, um privilégio que mal foi aproveitado, se bem que a devoção ao Bom Jesus não haja esmorecido. Mas o Senhor, com o mesmo título, também é celebrado na Calheta de Nesquim, desde 1906, ano em que para ali veio a bela Imagem, oferta da devota Maria Filomena Gomes. E há, igualmente, a Imagem do Bom Jesus na Criação Velha, desde 1914, adquirida pelo pároco Pe. Ferreira Porto.

Na Silveira, das Lajes do Pico, celebra-se em Agosto a solenidade de Santo Cristo, cuja Imagem ali se venera há muitos anos, muito embora já não exista a primitiva, desaparecida com o incêndio daquela Igreja em 1925.

Em Santa Cruz das Ribeiras e na Matriz das Lajes existem à veneração, Imagens do Senhor Jesus, crucificado. Segundo a tradição estas Imagens, de escultura excelente, foram recolhidas no mar, aquando da perseguição que a Inglaterra moveu à Igreja Católica no tempo da reforma protestante. Assim informa Silveira de Macedo (in História das Quatro Ilhas...”, lº Vol. Pág. 220 – 1871): “Consta que esta imagem foi também arrojada pelo mar à praia daquela vila pelo mesmo tempo que o fora outra semelhante à Praia do Almoxarife, ilha do Faial, o que faz julgar terem ambas a mesma procedência.”

Esta nota acresce à informação: No princípio de Janeiro de 1731 chegou à vila das Lajes do Pico o doutor Luiz Homem da Costa e trouxe uma relíquia do santo lenho numa custódia de prata com um cristal lapidado, oferecido pela condessa do Rio Grande à confraria do Bom Jesus das Preces erecta na Matriz daquela Vila, e juntamente o breve de aprovação da mesma relíquia passado em Roma pelo bispo Listrense, Epifânio de Nápoles em 1730.

Em Santa Cruz venera-se também uma Imagem do Senhor Jesus Crucificado que, segundo a tradição, na mesma época (1540?)apareceu numa pedra existente no meio do porto e que há anos foi removida para um pequeno jardim adjacente à Paroquial.

Os Açores estão em festa. As suas Festas Maiores. Vale a pena vive-las com alegrias e paz, sem esquecer a Fé que os antepassados cultivaram com entusiasmo, e nos transmitiram, instituindo as festas que ainda celebramos ,algo materialmente, mas, mesmo assim, sem deixar de as fazer acompanhar do respeito que é devido aos acontecimentos que celebramos e à espiritualidade que está latente em cada um de nós.


vila das Lajes,

Maio de 2011

Ermelindo Ávila


quarta-feira, 18 de maio de 2011

OS VELHOS SISTEMAS DE FARINAÇÃO

A Ilha do Pico estava rodeada de moinhos de vento. Neles se fazia a moenda do milho e do trigo das respectivas populações. Antes serviam as atafonas que quase todos os lavradores tinham nas lojas das respectivas habitações ou em alguma abegoaria anexa que, por isso, se denominava a “Casa da Atafona”. E havia as pequenas atafonas-de-mão, que eram utilizadas, normalmente, em casos de emergência e cuja farinha servia para as papas da manhã ou para o bolo de tijolo do almoço.

Depois apareceram os moinhos de vento.

No Pico houve dois tipos: o somente de pedra, com a cobertura de madeira, de dois pisos no interior, saindo da respectiva junção o pau que sustentava no exterior as quatro velas ou panos; e o de madeira, assente num soco de pedra. Ambos os tipos de moinho giravam em volta do “monte” conforme a direcção do vento. E quando o vento era capaz de mover os panos, presos em quatro armações, o moleiro assoprava num grande búzio que produzia um sinal de alarme que percorria o povoado. Era então que mulheres e homens e, por vezes rapazes, seguiam com os sacos da “novidade”, de um ou dois alqueires (quinze ou trinta litros) , para o moinho, onde eram atendidos “à vez”.

Igual função tinham as atafonas que, normalmente, só eram utilizadas para o serviço do próprio dono, se bem que houvesse excepções pois algumas havia que também moíam “para fora”. E porque o dinheiro era raro, o pagamento, quer nos moinhos, quer nas atafonas, era feito mediante uma pequena quantia de farinhas que o moleiro retirava das respectivas sacas.

Mas, porque os moinhos eram instalados, normalmente, em pequenas elevações, tornavam-se lugares lazer para alguns que neles passavam algumas horas.

Com a instalação da actividade baleeira, os moinhos serviam para o respectivo moleiro fazer a vigia de baleias como acontecia no que estava instalado na “Terra da Forca” que, diariamente, era ocupado pelo vigia Francisco Moniz Barreto que já sucedera ao Pai, José Moniz.

Com a instalação das moagens a quase totalidade dos moinhos deixou de ser utilizada, mas alguns continuaram a servir de “vigia”, pelo local onde se encontravam. É o caso do moinho da Terra da Forca, já referido, e o do Cabeço da Era, na Piedade, ocupado pelo vigia das Armações da Calheta.


Daqueles (dois) que existiram na Terra da Forca, nos Biscoitos, no Soldão, e no Mistério da Silveira, resta o do fim do Mistério, no início da freguesia de São João, hoje transformado em Posto de Turismo. Não sei se outros mais há à volta do Pico.

Foi pena que os deixassem ao abandono e viessem a desaparecer. Eram testemunhas fortes dos trabalhos e das canseiras dos nossos avós e,

ao mesmo tempo, sinais de vida destas gentes que, por aqui, ainda hoje, mourejam o pão de cada dia.

Bem poucos anos bastaram, para que tudo se tornasse diferente. Nem moagens há, pois deixaram de cultivar o trigo; e o milho é bem escasso. É quase tudo importado, até que se volte à terra quando a fome, que não anda longe, por aqui passar...

Lembro-me da moagem que o Dr. José Maria de Melo, que aqui exerceu as funções de facultativo médico municipal e acabou por se transferir para as Velas, tinha instalada na rua que ainda alguns conhecem por “rua do engenho”. A casa principal, onde se encontrava a maquinaria, ainda lá existe. Ao lado havia a casa da caldeira, que já desapareceu. A caldeira era alimentada a lenha, que um carro de um boi trazia do Mistério. Na moagem tanto se moía o trigo como o milho. E estava preparada para tratar a farinha, retirando-lhe o calouro. Com a ida do proprietário para S. Jorge, a moagem para lá foi transferida e as casas, que haviam sido construídas para a instalação da indústria, foram vendidas. Resta, como disse, a principal, de três pisos.

Depois vieram as moagens para farinação de milho. A primeira foi instalada na rua de Olivença, rua de Baixo, onde mais tarde foi construída a sede da Sociedade de Santo António. Creio que o primeiro proprietário foi Gil Xavier Bettencourt que veio, mais tarde, a trespassá-la para Epifânio Batista. Este, passando a encarregado da Central Eléctrica, nos anos trinta, encerrou a moagem e passou a trabalhar na moagem da central, então nos baixos do edifício do convento franciscano. Depois instalou uma moagem na Ribeira do Meio, próximo dos Biscoitos, e uma outra na Silveira. Em Santa Cruz das Ribeiras, pela mesma época, Manuel Silveira de Ávila (Veludo) instalou uma moagem, perto do porto; e o Dr. José Alves Pereira montou uma moagem na Calheta de Nesquim. Ficou assim o concelho com uma cobertura de moagens de farinação de milho que, praticamente, vieram a substituir os antigos moinhos.

Já uma vez recordei este assunto. Não importa repeti-lo. Diz um velho aforismo: Recordar é viver.


Vila das Lajes,

5 de Maio de 2011.

Ermelindo Ávila

sexta-feira, 6 de maio de 2011

VAMOS AFASTAR A CRISE ?


Estamos cansados de ouvir e ler que a crise económica e financeira que atravessamos só pode ser combatida com a diminuição das despesas e o aumento dos impostos.

Se não é esta a definição é a realidade que se apresenta.

Diminuir as despesas das famílias, aumentando o custo do pão, dos géneros alimentícios, a principiar pelo leite e pela carne, dos combustíveis e dos impostos?

E onde estão as receitas para fazer face a esses encargos, se se envia uma parte dos trabalhadores, sejam ou não chefes de família, para o desemprego, se se diminuem os vencimentos e salários, se se aumentam os encargos que sobre eles recaíem, se, em lugar de se promover a produção dos produtos agrícolas de todo o género, desde a batata às bananas, tudo se importa ?

Outrora era agradável olhar para a encosta que ladeia a vila e outras localidades e vê-las verdejantes, com milho ou trigo, ou ervagens para o gado, conforme a época.

Hoje esses terrenos, a que se chamavam ladeiras, praticamente desapareceram com as vegetações selvagens que deles se apossaram. São as faias, os incensos, os canaviais, as silvas e, aqui e ali, duas ou três pequenas matas de criptomérias.

Mas não apenas nestas ladeiras que nos ficam aqui em frente, mas por essa ilha além. Muitos dos melhores terrenos de semeadura estão hoje utilizados em forragens para o gado e o milho que se cultiva, quase só para ser ensilado.

Há necessidade de voltar atrás. Semear a batata branca, fazer o canteiro para produzir a planta da batata doce, cuidar dos pomares para a produção da excelente fruta que, em épocas passadas, o Pico muito produzia e exportava, pôr a funcionar os moinhos e as moagens para a farinação dos cereais produzidos na ilha. Voltar, pois, ao princípio e conseguir arrancar da terra os produtos necessários à subsistência das famílias. Repetir o que fizeram, sem meios mecânicos, os povoadores nossos avoengos.

Uma interrogação se põe: E mão de obra? Faltam os braços para executar tais tarefas. Os velhos já não podem voltar às terras, com o alvião às costas, ou manobrar o arado que, puxado pelos bois, lavrava a terra.

Hoje há maquinaria que substitui, em parte, o trabalho do antigo agricultor! E se a juventude não se quiser dedicar à terra, preferindo aguardar, no “desemprego”, uma colocação condizente com o curso que tirou, podem contratar-se trabalhadores estranhos à ilha, que os haverá em outras terras.

Há anos, no Canadá, tive oportunidade de visitar uma enorme propriedade toda ela plantada de vinha. O proprietário fazia, anualmente, milhares de litros de vinho para venda. Todo o trabalho era executado por trabalhadores contratados, por períodos de seis meses, em Costa Rica, os quais, logo que terminava o contrato que só tinha efeitos nos seis meses de verão, voltavam à sua nação. E estavam sempre prontos a voltar no ano seguinte.

Creio que por cá não se tornará necessário ir tão longe...


Vila das Lajes,

21-2-2011,


P.S. “O Dever”, na edição da semana finda, publicou um judicioso artigo do Comendador Manuel Emílio Porto, sobre o tema que hoje aqui abordo. Com ele estou plenamente de acordo. E, muito embora este meu arrazoado esteja na gaveta há algumas semanas, julgo que não perdeu actualidade, pois a crise continua e agrava-se, assustadoramente. Vale, pois, a pena combatê-la por todos os meios. Trata-se, afinal, da maior crise que Portugal sente e sofre deste 1850. ..É o que diz a Imprensa.

A propósito, pode ler-se na revista “Visão”, nº 946, de 21 a 27 de Abril corrente:

Sempre a dever. A dívida pública não parou de crescer nos anos finais da Monarquia e marcou o início da República. A trajectória, interrompida durante o Estado Novo, viria a ser retomada depois do 25 de Abril. Em 2010 o endividamento do Estado atingiu o valor mais alto dos últimos 160 anos.”


29-Abril-2011

Ermelindo Ávila

quarta-feira, 27 de abril de 2011

O JOGO DO PIÃO

Eram muito poucos os jogos que existiam até à primeira metade do século XX. O rapazio entretinha-se nas ruas a jogar o “vinte e cinco”, com moedas em desuso, o “jogo do apanhar”, o” jogo da baleia” ou, na época da Páscoa, o ”jogo do pião”. Não havia o perigo do trânsito, pois raramente passava por elas um carro de bois e os carros da mala, trazidos pelas mulas do Caetano, só chegavam à vila ao anoitecer.

Mas os piões tinham as suas regras que eram escrupulosamente respeitadas. Normalmente, eram feitos de madeira de buxo, rija como ferro. Tinham de diâmetro, aproximadamente quatro a cinco centímetros e com ponta de ferro. Para os adultos que também jogavam o pião, estes tinham cerca de dez centímetros de diâmetro.

Mas, como disse, o pião não se jogava todo o ano. Havia uma época própria. Nunca consegui averiguar a razão. O jogo só começava no sábado da aleluia, depois do sino da Matriz tocar, festivamente, a anunciar a Ressurreição do Senhor.

Os rapazes preparavam os piões e as fieiras dadas pelos pescadores que imigrados dos Estados Unidos traziam rolos de fio para a pesca. Eram eles que forneciam as “fieiras”, pois outro qualquer cordel não servia para pôr o pião em movimento.

Anunciada a aleluia, todos davam início ao jogo. Era uma alegria imensa. Era o maior sinal de festa. Não havia ou eram raras as amêndoas, que agora existem de todas as qualidades. Mais tarde, elas apareceram em maior abundância, fabricadas na Horta na Fábrica Primavera. Mas de uma só qualidade…

O pião, durante as semanas que decorriam entre a Páscoa e o Domingo de Pentecostes ou Espírito Santo, era o grande entretenimento. Até de grandes. Triste daquele que perdia porque o seu pião era sujeito a

ferroadas” que, muitas vezes o inutilizava.

Interessante, também, o jogo da baleia. Duas canas, presas nas extremidades, com um troço da mesma cana ao centro a separá-las, onde “navegavam” o oficial, o trancador e um marinheiro. E as baleias eram os outros jovens que se dispersavam pelas ruas a espreitar a chegada das canoas.

As ruas livres, permitiam todas as brincadeiras, como ainda o jogo de “apanhar”, ou sejam as corridas atrás uns dos outros.

Dizia-se até que jogar antes do Aleluia, era picar a Cara de Nosso Senhor.

Tempos passados e que não voltam. Estão presentes na recordação e talvez na saudade daqueles que tiveram a “dita” de os viver. E recordá-los vale a pena somente para trazer até hoje, os tempos de juventude de alguns pais e dos avós…

Muito mais se podia dizer. Fiquemos por aqui…


Vila das Lajes

4 de Abril de 2011

Ermelindo Ávila

sexta-feira, 22 de abril de 2011

FOLAR DA PÁSCOA

A Páscoa é o tempo em que o povo judaico comemora a libertação do Egipto. É celebrada no 14º dia depois do equinócio da Primavera. Foi nesses dias que se deu a Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus Cristo. E para comemorar esse acontecimento, base da fé cristã, celebram os Cristãos, anualmente, a Ressurreição de Jesus Cristo no domingo seguinte à Páscoa judaica. Trata-se pois de uma festa móvel no calendário da Igreja, celebrada anualmente com grande esplendor litúrgico.

O Cristão vivia a Semana Santa com muito recolhimento. Mesmo que não assistisse diariamente às solenidades litúrgicas. Tinha, no entanto, um enorme respeito por esses dias em que a Igreja Católica comemorava a Paixão de Jesus Cristo.

Os trabalhos dos campos quase eram suspensos, só se efectuando os indispensáveis. Não se realizavam divertimentos de quaisquer espécies. Um quase silêncio respeitoso dominava os ajuntamentos das pessoas.

No ano de 1888 a freguesia da Santíssima Trindade tinha 3.170 habitantes, distribuídos pela Silveira - 1.468, Lajes (incluindo a Ribeira do Meio),1.497 e Terras 205. Toda a população, em idade canónica, cumpria os preceitos de confissão e comunhão. No respectivo registo não se encontra um faltoso. Não digo que fossem melhores ou piores. Eram simplesmente cumpridores das normas da Igreja.

*

O povo cristão criou, para as refeições do dia de Páscoa, o folar. (As amêndoas vieram mais tarde).

O folar é, pois, tradicional da Páscoa, tal como a caçoilha é o prato preferido do Natal. Mas há sua diferença. No Natal predomina o prato de carne. O mesmo acontece no continente, pois é nessa época que há a grande matança para abastecimento geral.

Na Páscoa, ao menos por estes lados, não há prato especial. No domingo de Páscoa as refeições geralmente são frugais. Ao almoço (até há uns cinquenta anos) era partido o chamado folar grande que, quase sempre tinha ovos para toda a família. (Mas que era o folar? - Um pão de massa sovada, no qual se introduziam alguns ovos cozidos, cobertos com dois troços de massa, em forma de cruz ). Alguns folares eram distribuídos pela família e amigos. Por vezes era, e é ainda, uma troca de mimos.

Para o jantar cozinhavam-se pratos simples. Por vezes, carne de galinha e sopa de canja. Isto no tempo em que os horários das refeições eram diferentes: o almoço às dez horas da manhã e o jantar às cinco da tarde. Não havia pequeno almoço. Antes do deitar, cerca das nove/dez horas da noite, era a ceia, também muito frugal, pois era corrente o ditado: das grandes ceias estão as sepulturas cheias...

Depois, por exigência do funcionalismo vindo de fora, o horário das repartições modificou-se passando a haver um intervalo ao meio dia para o almoço. E hoje toda a gente adopta esse horário.

As cerimónias pascais tinham lugar de manhã. Principiavam pela procissão com o Santíssimo, seguindo-se logo a Missa da Ressurreição. Depois, era o almoço familiar e o domingo ficava livre para as visitas das famílias e amigos.

Vila das Lajes.

Páscoa de 2011

Ermelindo Ávila

sábado, 9 de abril de 2011

INTERESSES DA MINHA ILHA


Intitulo este texto “Interesses da Minha Ilha”, como o podia “baptizar” da Nossa Ilha. Eles são gerais e dizem respeito ao todo que é o Pico. Fazer desenvolver uma parcela da Ilha é contribuir para o desenvolvimento e progresso de toda Ilha. Mas, atenção: o Desenvolvimento tem de ser harmónico e interessar o seu todo. Deixem-me trazer aqui uma comparação: um homem bem vestido mas mal calçado, ou descalço, não se encontra bem vestido. Assim a Ilha. Desenvolver uma parte e deixar a outra ao abandono, é contribuir para a degradação de toda a ilha. É bom que se tenha isso presente e que, embora a ilha esteja há séculos dividida administrativamente, nada justifica que se olhe apenas para uma dessas parcelas e se ignorem as restantes. Assim sendo, nunca o desenvolvimento e o progresso, como se anuncia, poderá beneficiar o seu povo.

Há dias encontrei-me com uma senhora de uma das freguesias do concelho. Se fosse noutra ilha diriam que era de uma freguesia do Campo… Falou-me dos meus artigos e referindo-se a um deles dizia-me que estava de acordo com o que eu dizia porque a Vila não podia ser abandonada. São testemunhos destes, recebidos muito a miúdo, que nos confortam e nos animam a prosseguir neste trabalho modesto, sem compensação material, que isso não importa, mas pelo estímulo que nos trazem essas palavras amigas.

Há três décadas, mais ou menos, os três Municípios Picoenses reuniram-se resolveram criar Três Federações: Electricidade, águas e obras públicas, ficando sedeadas uma em cada Município. Assim, a Federação de Electricidade ficou com a sede no Município Lajense, enquanto a das águas ficaria no Município da Madalena e a das Obras em São Roque do Pico. Que me lembre foi a única tentativa colectiva para o desenvolvimento do Pico. Ainda hoje lamento que ela tivesse falhado, pois a ilha nada veio a lucrar com o acontecido… Ainda recordo como o processo se desenvolveu. Águas passadas…

A Federação de Electricidade entrou logo em funcionamento, passando a administrar centrais as existente nos três concelhos, incluindo as chamada “comunitárias”. As outras duas federações, por razões diversas, não passaram de mera intenção. Mas não teve melhor sorte a da Electricidade pois, decorrido algum tempo, o Governo Regional resolveu criar a Empresa de Electricidade dos Açores. A EDA assumiu imediatamente a direcção da Federação. Para a nova empresa pública foram transferidas as centrais, redes e todo o activo, sem qualquer compensação para os Municípios. Que eu saiba, no respectivo protocolo ficou somente salvaguardado que a iluminação pública ficaria à responsabilidade da nova empresa, bem como as iluminações das festas tradicionais dos respectivos concelhos. Acontece que a Câmara Municipal das Lajes tinha acabado de pagar a empreitada de construção da rede de São João às Lajes, no que tinha despendido cerca de vinte mil contos. E creio que não recebeu qualquer compensação…

Registe-se ainda que para a EDA transitaria o pessoal administrativo e técnico da Federação. A sede dos serviços deveria continuar na vila das Lajes. E assim aconteceu durante algum tempo, chegando a EDA a adquirir um prédio para a instalação dos serviços administrativos. Mas, ao que consta, tudo se modificou e o pessoal, uma parte ao menos, passeia diariamente para o novo local de serviço.

Decorridos cerca de trinta anos está a EDA a remodelar a rede da Vila das Lajes, passando-a totalmente a subterrânea, serviço que há muito devia ter sido empreendido. Mas não basta a rede. Os focos luminosos da rede pública tem de ser aumentados e reforçada a força das respectivas lâmpadas para que a Vila venha a ter uma iluminação condizente com a categoria urbana que possui, embora não haja sido classificada como merecia e merece.

E não volto a falar na hidroeléctrica, como projecto da autoria do Engº Cavaco, que foi Director Geral dos Serviços Hidráulicos. O projecto foi abandonado, naturalmente porque a turbina deveria ser instalada na Ribeira da Burra.



Vila das Lajes, Março de 2011.

Ermelindo Ávila



sexta-feira, 8 de abril de 2011

A POLÍTICA DE HÁ UM SÉCULO


Era muito diferente a política praticada por estas paragens, há anos passados.

Como sempre, trabalhavam-se os actos eleitorais. Não havia comícios nem disputas públicas. Os votos eram pedidos de porta a porta e pela calada da noite. Terminados os actos eleitorais a vida das pessoas voltava à normalidade.

Os partidos não eram muitos. No princípio da República apenas dois os que por cá militavam: os democráticos e os unionistas. E bastavam. O elemento feminino não tinha direito a voto, nem mesmo os analfabeto que, aliás, representavam uma parte importante da população.

Tudo se reduzia a um pequeno ou limitado número de eleitores. E eram esses que manobravam os destinos dos povos, principalmente das câmaras municipais, pois as juntas de freguesia ou de paróquia tinham atribuições limitadas.

Os militantes políticos nada recebiam pelos cargos que exerciam. E isto durante muitos anos, até mesmo no chamado Estado Novo. Depois, tudo se modificou e hoje exercer um cargo político é ter a garantia de auferir ordenados avantajados e invejáveis, quando a grande maioria das pessoas se vê a braços com graves problemas financeiros, derivados dos parcos proventos que recebe e que estão sempre ameaçados de cortes. De realçar os chamados funcionários públicos que, recebendo seus salários dos cofres do Estado, estão sujeitos aos cortes que, dizem, vão permitir saldar os défices do Estado, os quais, segundo se julga, ninguém procura averiguar como foram contraídos…

O quinzenário As Lages, cuja publicação se iniciou nesta vila em Fevereiro de 1914 e do qual era Director, proprietário e editor, Gilberto Paulino de Castro, no seu número 103, de 15 de Abril de 1919, e sob o título “Comissão Administrativa Municipal”, traz a seguinte notícia, que nos apraz aqui transcrever como documento histórico que é, e decorridos que são quase cem anos:

“De acordo. 0s dois grupos políticos desta localidade, unionista e democrático, propuseram ao Exmº Governador Civil deste distrito a nomeação da comissão municipal administrativa deste concelho, por alvará de s. Exª sancionada e assim constituída e representada: Presidente:- Manuel Quaresma Melo, independente. Vogais: - Leonardo Xavier de Castro Amorim e Edmundo Machado Ávila, unionistas; José Francisco Pimentel e Manuel Vieira Cardoso, democráticos. - Cumprimentamos o sr.José Lopes da Silveira Gomes, digno representante do partido democrático deste concelho, pela seleccionada escolha que fez para a representação do mesmo partido na administração deste município. Desde a primeira e subsequentes sessões em que têm tomado parte, mostraram ou fizeram-lhes mostrar o que devem ser e como devem proceder os filhos dilectos do querido pai Afonso!... A César o que é de César” .

Conheci pessoalmente os indicados membros do executivo camarário. Todos eles pessoas de bem.

O Presidente, Manuel Quaresma Melo, era comerciante e oficial de baleia. Duma simpatia extrema. Teve, no entanto, morte trágica. Ele, a Filha e o Genro e dois netos foram vítimas do surto de peste que atingiu esta vila, por volta de 1922. Além do Senhor Quaresma outros mais foram tingidos pela terrível doença que só desapareceu com a construção do antigo campo de jogos, que dali retirou o matagal de junco onde as pessoas, incautamente, faziam lixeira e era pasto da ratazana.

Mas, voltemos à política de outras eras. Não era perfeita como jamais foi em tempo algum, pois as quezílias nunca deixaram de existir. Hoje separa, por vezes, as sociedades, as pessoas e as famílias. Promove, incobertamente, a vingança. Muitas vezes não tem pejo em caluniar para vencer e alcandorar-se nos lugares cimeiros do mando. Governa os povos segundo os caprichos pessoais, quantas vezes de encontro aos princípios básicos do bom senso, da seriedade e do são convívio.

Como me dizia alguém: a política é uma tristeza e uma lástima de que é vítima o Zé Povinho. Bem a definiu Bordalo Pinheiro!…

Vila das Lajes,

30-Março-2011

Ermelindo Ávila.



quarta-feira, 6 de abril de 2011

DIVAGANDO...

Quem conseguisse reunir as cartas que se trocavam entre as famílias açorianas e os familiares que emigraram para o Brasil e, mais tarde, para os Estados Unidos, ficaria de posse de um extraordinário acervo sobre a história destas ilhas.

Muito embora não fossem assíduas as cartas, pois os meios de transporte eram raros, nem por isso deixavam de levar daqui, não só as notícias da família, mas igualmente das ocorrências que se haviam dado nos tempos anteriores.

Basta ler a “Carta para Longe”, (in “Em Louvor da Humildade”- 1924) de Armando Cortes Rodrigues, para se ter uma ideia muito aproximada do que eram essas missivas cheias de saudades imensas, pois as famílias de cá não deixavam de transmitir aos que haviam partido, as notícias dos mais simples acontecimentos.

Tal como as tradicionais cartas, principiava o poema:

Maria! Estimarei / Tua saúde e dos teus/ Pois a nossa, ao fazer desta, / É boa graças a Deus”.

E continuava dando as mais simples notícias, quer da própria casa, quer da família e dos vizinhos:

“O craveiro do balcão / Já se secou, coitadinho.../ Faltou-lhe a luz dos teus olhos / E o modo do teu carinho”.

Deste jeito eram as cartas para Longe como escreveu o consagrado Poeta e Literato.

Havia escreventes habituais. Respondiam com certa graça às cartas que vinham das terras de imigração e muitas vezes aproveitavam para dar notícias da escrevente e dos acontecimentos por vezes os mais dispares. Mais assíduas eram as cartas dos Estados Unidos e do Canadá.

Do Brasil eram poucas e cada vez iam rareando mais. Até havia o ditado: O Brasil é a terra dos esquecidos. E esquecidos porque, passados uns tempos, os que lá estavam imigrados, esqueciam a terra e a própria família. Poucos eram os que voltavam à terra. Que me lembre, apenas uma ou duas famílias cá vieram. Uma por cá ficou e passou a ser conhecida pela terra para onde havia emigrado.

Uma questão psicológica, que interessante seria averiguar, pois é sabido que existem nas terras de Santa Cruz imensos descendentes de açorianos, desde os históricos Casais – cerca de quarenta – que emigraram para Santa Catarina aquando das erupções vulcânicas do século dezoito e, depois, para outras regiões. Alguns deles fixaram-se mais tarde no Uruguai, onde ainda existe uma colónia de descendentes açorianos, que há poucos anos fundou uma sociedade açoriana-uruguaia, para defesa da língua portuguesa, como rezam os respectivos estatutos.

E todos eles, quer no Brasil quer no Uruguai, têm muito orgulho em serem descendentes de gentes emigradas destas ilhas. Mas só.

Existem “Casas dos Açores” em diversas cidades do Brasil, algumas com grande actividade, como seja a “Casa dos Açores” do Rio de Janeiro.

O mesmo acontece agora no Canadá, onde se encontram dezenas de associações com sedes próprias, fundadas pelos imigrantes portugueses e açorianos. Só em Toronto, consta-me, há mais de duas dezenas.

Afinal, as Casas dos Açores proliferam por toda a parte onde se haja fixado um grupo de açorianos.

A de Lisboa, por certo a mais antiga, tinha inicialmente a denominação de “Grémio dos Açores”, fundado em Março de 1927.

Não são de esquecer as seculares sociedades, “União Portuguesa do Estado da Califórnia”, fundada em 1880 pelo picoense António Fontes e a “Sociedade do Divino Espírito Santo”, também fundada pelo picoense Pe. Manuel Fernandes, conjuntamente com outros imigrantes, em 1896, ambas da Califórnia. Em New Bedford existia o “Montepio Português”. Mas não somente estas. Outras mais há, como a “Casa da Saudade”.

Servem elas, meritoriamente, para conservar vivo o espírito e as tradições das terras de origem, desde as matanças de porco até às festividades do Espírito Santo, não esquecendo os Santos Padroeiros das respectivas localidades de origem.

E, não só as sedes sociais, algumas de grandeza enorme, tenha-se presente a de Mississauga, Canadá, como até os belos e modernos Templos, quase sempre providos de clero português.

De referir também a Imprensa portuguesa, mantida com entusiasmo em terras da Diáspora. É o caso da Califórnia e de Massachusetts. Só na Califórnia, até 1979, fundaram-se vinte e seis periódicos. Lá existem ainda jornais portugueses desde longa data. Outros, embora portugueses na sua origem, já utilizam a língua estrangeira.

E há ou houve programas portugueses na Rádio e na Televisão. Lembro aqui o programa Castelos Românticos iniciado em 1930 pelo nosso conterrâneo Arthur Ávila e esposa Celeste Ávila, o qual teve grande audiência entre a comunidade portuguesa da Califórnia.

Não posso ir mais além. O assunto, de tamanho que é, transcende os limites de um texto jornalístico.


Vila das Lajes,

20 de Março de 2011.

Ermelindo Ávila