terça-feira, 24 de abril de 2012


AS TROPAS LIBERAIS

Ocorrem, no dia 21 do corrente mês de Abril, cento e oitenta e um anos que as tropas do Conde de Vila Flor, ao serviço da Causa Liberal, desembarcaram no porto de Santa Cruz das Ribeiras.
Foi também naquele porto, que porto ainda não era, que os companheiros de Fernão Alvares Evangelho, depois de O haver deixado no penedo negro, à entrada da enseada do Castelete desta vila, e se haverem feito ao largo, porque o mar se levantou e não permitiu que mais ninguém saltasse para terra, meses passados para ali se dirigiram e desembarcaram.
O Conde de Vila Flor desembarcando a sua tropa em Santa Cruz pretendia alcançar o porto da Madalena a fim de se dirigir à Horta, para desapossar daquela então Vila, a administração de Dom Miguel.
No dia seguinte ao desembarque, passando nesta vila, determinou ao juiz pela lei, que, “no dia 22 pelas dez horas da manhã, reunida a Câmara, se faria imediatamente trancar o auto de juramento prestado ao usurpador, aclamando a Rainha, sra. D. Maria II como rainha de Portugal”.
Sobre este feito diz Lacerda Machado (1) :
Estando nas Lages, em abril de 1831, a divisão liberal constituída pelo Conde de Vila Flor, depois Duque da Terceira, foi por este encarregado de prover as subsistências da divisão durante a estada das tropas na ilha, missão delicada, porque as populações sentindo na consciência o pecadinho da afeição pelo Senhor D. Miguel, fugiam à aproximação das forças liberais. O capitão Manuel Machado Soares, cavaleiro infatigável, percorreu pessoalmente as povoações próximas e todas aquelas por onde a divisão devia passar, para com a sua presença incutir confiança, prevenindo ao mesmo tempo as casas que tinha forno para que tivessem à porta, a horas certas, uma fornada de pão, ou bolo à moda da ilha, no que foi prontamente atendido, desempenhando assim cabalmente o difícil encargo.” (1)
Um outro facto não menos importante, ocorreu na ocasião do desembarque das tropas liberais, e conta o historiador lajense :
“... um dia em S. Jorge, Manuel Joaquim Noronha, natural da Terceira. passeando com um camarada pela povoação da Beira, junto das Velas, avistaram dois indivíduos que, para se encontrarem com eles, mudaram de rumo. – Tendo bastou par he fazerem fogo. Um (que era frade) caiu logo morto o outro – o fidalgo Miguel Teixeira, tenente-coronel de milícias, foi crivado de baionetadas.
Quando as tropas liberais desembarcaram em Santa Cruz e marchando em direcção às Lajes, ao passarem em frente da casa do capitão José Bettencourt da Silveira, este saiu-lhe ao encontro e convidou o Conde de Vila -Flor e seu estado-maior a tomar uma refeição.
No decorrer da refeição, Manuel Homem de Noronha, que fazia parte do grupo, ao encher o copo de vinho, quis saudar o dono da casa e perguntou-lhe o nome. O Noronha recuou e insistiu, confirmando o Bettencourt que esse era o seu nome. E foi então que o Conde interveio, dizendo que havia muitas Marias na terra. Julgava o Noronha ter na sua frente o Bettencourt das Velas. Assim ficou o caso sanado. (2)
Nas actas das Vereações das Lajes encontram-se os autos de aclamação de D. Miguel em 9 de Setembro de 1828 e o de D. Maria II, em 22 de Abril de 1831.
Num escrito anterior dizia: “E parece que o povo não recebeu bem a imposição do Conde de Vila Flor, pois não foram tão categorizados e numerosos os signatários do auto de aclamação da Rainha.”(3)
Um parte das tropas seguiu das Lajes até à Madalena, para embarcarem para o Faial, enquanto outra, caminhando pelo lado Norte, embarcou em S. Roque para as Velas.
Na memória das gentes ficaram os actos de vandalismo praticados pelas tropas do Conde de Vila Flor, mais tarde Duque da Terceira. Do Faial a armada ao comando do Conde de Vila Flor, rumou a S. Miguel, que ainda estava sob o domínio de D. Miguel, onde as tropas liberas desembarcam a 1 de Agosto de 1831.
Uma vez em Porto Formoso, o Conde de Vila Flor verificou que os miguelista haviam tomado posições magníficas, ocupando as encostas sobranceiras à freguesia, principalmente na Ladeira da Velha. O Conde manda então suas tropas fazerem um movimento envolvente parecendo abandonar a estrada da Ribeira Grande. Assim consegue que as tropas miguelistas se alarguem e enfraquecem e logo que viu o alto da Ladeira da Velha pouco guarnecido faz avançar uma forte coluna pelo que os miguelistas se viram entre dois fogos. - Foi um desastre para as tropas de Sousa Prego (capitão - general miguelista), pelo que o Conde de Vila Flor segue triunfante para a Ribeira Grande e para Ponta Delgada.”(4)
Foi em Ponta Delgada que D. Pedro, Duque de Bragança, promulgou no dia 17 de Maio de 1832, a extinção dos conventos e colegiadas do distrito da Horta. (5)
Dali seguiram para o Porto, saindo triunfantes da batalha de Mindelo.
A passagem pelo Pico, e naturalmente pelas outras ilhas, não foi pacífica. Daqui levaram muitos rapazes que incorporaram nas suas tropas. E outros mais não foram porque se haviam refugiado nos matos, nas casas de abegoaria. Mais tarde, aqueles que escaparam, voltaram à terra. Um deles, o Pereira Soldado, quase chegou a nossos dias... O Ano da Tropa não ficou esquecido por picoenses. Anos e anos, os mais idosos falavam dessa época com algum pavor.
As Lutas Liberais ocorreram há 180 anos. No porto de Santa Cruz das Ribeiras não se encontra ali assinalado o desembarque das Tropas Liberais, e merecia-o. É ainda tempo que isso se faça, pois trata-se de um acontecimento histórico, numa freguesia onde não abundam factos semelhantes. Demais, nestes tempos de vida administrativa em que se discute a existência de algumas freguesias nacionais e regionais...
______________
1) F.S .Lacerda Machado - “OS Morgados das Lages” – 1915 – pág. -17
2) F.S. Lacerda Machado – “Os Capitães Mores das Lages” - 1915-, pág.69
3) E . Ávila – “Figuras e Factos . Notas Históricas” Vol. I- 1993– pág. 160
4) Carreiro da Costa – Esboço Histórico dos Açores”, 1978, pág.153/4
5) A-L- Silveira de Macedo, “História das Quatro Ilhas...” II Vol. 1871 - pág 511.
Vila das Lajes,
9 de Abril de 2012.
Ermelindo Ávila
(Escrito de acordo com a antiga ortografia)

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Notas do meu cantinho

AS COROAÇÕES

Em épocas não muito afastadas a freguesia da Santíssima Trindade (hoje constituindo duas paróquias independentes) celebrava as Domingas do Espírito Santo, ou seja aqueles domingos que se situavam entre o Domingo de Páscoa e o Domingo do Pentecostes.

A paróquia estava dividida em núcleos e cada um deles tinha um grupo de “Irmãos” que “levavam a Coroa”, de cinco em cinco anos. Ainda hoje os lugares da Almagreira e das Terras cumprem esse voto. E são sempre as mesmas famílias que sorteiam entre si os domingos em que devem “levar o Senhor Espírito Santo” à Igreja, para usar as denominações populares.

Este ano é o “ano das Terras”. Já foram sorteados os domingos e já principiaram a fazer-se os convites para cada domingo. Aqui há anos, era limitado o número de convidados: apenas os “Irmãos”, os familiares e alguns amigos. Presentemente, os convites são feitos a centenas de amigos e conhecidos.

Lacerda Machado assim se refere às domingas: “Os festejos das domingas consistiam apenas em missa cantada e coroação, em seguida às quais o mordomo oferecia jantar aos colegas das outras Domingas e pessoas convidadas”(1)

A preparação das festas começa, normalmente, cinco anos antes, quando acaba o ciclo festivo duma época.

Para cumprir estes votos os habitantes daquele próspero lugar construíram um grande e espaçoso salão que pode receber mais de mil convivas no jantar do Espírito Santo. Substitui um pequeno espaço, construído há anos para sede da sociedade recreativa, Alegria no Campo, então constituída.

Mas não se ficou pelo salão, um dos melhores, em espaço e arranjos interiores da ilha do Pico. Profundamente católicos os habitantes do lugar edificaram também uma ampla ermida ou igreja, dedicada ao Coração de Maria, nela tendo sido entronizada a Imagem de Santo Isidro, patrono dos agricultores.

Havia ali bons pedreiros e oficinas de ferreiro e alguns carpinteiros. Os que não se empregavam nesses ofícios, trabalhavam na agricultura. As mulheres dedicavam-se quase só aos serviços domésticos e, quando disponíveis, auxiliavam os familiares nos campos.

Alguns emigraram. Lembro John Phillips, que se tornou célebre na luta contra os índios e que hoje é considerado um dos heróis americanos.

Actualmente, a população do lugar é uma das mais prósperas da ilha. Vive feliz e desafogadamente das suas lavouras e em completa harmonia. Segundo sei, ali não há casos de tribunal, o que é uma honra para as suas gentes.

Tenho muita simpatia por aquele lugar e pelas suas gentes. Foi ali que iniciei a Instrução Primária quando uma tia paterna. Aurora Leopoldina Ávila, iniciou a sua profissão de professora do Ensino Primário.

Há muitos anos lá se fixou, pelo casamento, um tio-avô materno, que deixou larga descendência. Ainda hoje, encontro vários primos que me dispensam afectuosa amizade, a qual bastante aprecio e estimo.

E porquê o topónimo Terras? Porque ali estão os melhores terrenos de semeadura da freguesia e, porque não?, da ilha. Antigamente era o celeiro. Tinha milho em abundância que servia de moeda de troca. Todos os anos víamos serrados de trigo mas principalmente no ano das Coroações e ainda lá existem diversas eiras que serviam para a debulha. Um dia de festa para famílias e amigos.

Hoje não se vêm serrados com trigo e poucos há de milho. Os terrenos quase só produzem ervas e milho para silagem destinada à sustentação do gado leiteiro, pois as Terras tem várias e amplas manadas, que dão bons rendimentos.

Com este singelo registo fica a minha modesta homenagem ao laborioso Povo das Terras, como disse, uma grande parte meus parentes.

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Lacerda Machado: “História do Concelho das Lages”1936 .

Vila das Lajes,

Março de 2012

Ermelindo Ávila

(Escrito de acordo com a antiga ortografia.)

segunda-feira, 9 de abril de 2012

A GRANDE SEMANA

NOTAS DO MEU CANTINHO


Na gíria popular era a “semana dos nove dias”. E uma razão havia para que as pessoas assim pensarem: na Quinta-feira santa ou Quinta-feira maior as cerimónias litúrgicas decorriam da parte da tarde. Assim, a parte da manhã ficava livre para quaisquer serviços. Na Sexta-feira santa as cerimónias decorriam, normalmente, da parte da manhã, com a Missa dos Pré-santificados e a Procissão de enterro. A parte da tarde ficava livre.

A Igreja era decorada com panos negros, as imagens cobertas e as janelas tapadas.

Mas tudo era feito com ordem e respeito. O povo acorria às cerimónias litúrgicas com notável afluência e enorme sentimento. Quando criança, lembro-me que, quando a matraca dava o sinal, as pessoas, num gesto de sentimento, batiam com as mãos nas caras e algumas choravam, o que não deixava de me impressionar.

Na noite da quinta para sexta-feira, o Santíssimo ficava exposto no trono do altar mor (refiro a igreja de S.Francisco onde funcionaram provisoriamente os serviços paroquiais). A Irmandade do Santíssimo tinha a seu cuidado a adoração permanente, mesmo durante a noite, revezando-se os irmãos conforme ordem pré-estabelecida.

No sábado de Aleluia, ou dia da ressurreição do Senhor, as cerimónias revestiam-se de grande esplendor. Ao cantar do Glória in excelsis Deo, pelo celebrante, a filarmónica, postada no coro alto, rompia com uma marcha, os sinos repicavam, o órgão dava os primeiros acordos e o coro ou capela continuava depois com o canto litúrgico. As imagens eram descobertas e as cortinas das janela caíam. Tudo em simultâneo e com o máximo respeito. Do coro alto e do coreto, crianças da catequese espalhavam, sobre a assistência, pétalas de flores e um dos serventuários levava em bandeja, aos sacerdotes e acólitos e membros do coro, pequenos ramos de flores em belos arranjos de D. Virgínia de Lacerda, uma artista de rara sensibilidade, substituída mais tarde por D. Maria da Encarnação Bettencourt, sua distinta discípula.

(Só depois dos sinos tocarem festivamente, anunciando a Ressurreição do Senhor, é que era permitido aos rapazes o jogo do pião).

No domingo da Ressurreição, manhã cedo, a Filarmónica Artista (extinta nos anos trinta) percorria as ruas da vila tocando uma marcha ligeira. A seguir, saía a procissão da Ressurreição, com o Santíssimo, descendo à rua Direita, e só quando regressava ao templo era dado início à Missa da Ressurreição.

Afinal, quatro dias de celebrações solenes às quais não faltavam os fiéis, depois de uma Quaresma cumprida com recolhimento e alguma penitência.

(O domingo de Páscoa era o dia escolhido pelas senhoras para estrearem os seus trajes festivos de verão. Os homens continuavam a trajar os habituais fatos domingueiros, como diziam).

A celebração da Semana Santa só tinha lugar na Matriz das Lajes, nela tomando parte os sacerdotes das outras paróquias da ouvidoria. Ficaram na memória do povo as Matinas da Sexta-Feira Santa. Era executada uma partitura que se dizia ser da autoria do célebre P. Joaquim Serrão.

Mas não só nas Lajes era celebrada a Semana Maior. Lembro o que eram as cerimónias da semana Santa na Sé de Angra. A cidade toda acorria à Sé e o clero ali se reunia para colaborar nas cerimónias. Na Quinta-feira da parte da manhã, havia a Missa para a bênção dos óleos sacramentais, que depois eram distribuídos por todas as paróquias da Diocese. Nessa Missa Crismal tomava parte, obrigatoriamente, todo o clero da Ilha.

Na Adoração da Cruz, na Sexta-Feira Santa, o Bispo, quando presidia, e os cónegos – naturalmente que eram os primeiros – caminhavam até junto do Crucifixo, em meias e com capas pretas com cauda.

Na Quinta e Sexta-feira Santas também eram cantadas Matinas solenes, com Partituras que constava serem do Pe. Serrão. Certo é que um dos órgãos da Sé havia sido construído pelo Pe. Serrão, notável organista e compositor, natural de Setúbal e falecido em Ponta Delgada, em 1877, onde havia residido vários anos.

Todavia tudo foi simplificado pelo Concílio Vaticano II, mas não tanto como em alguns lugares acontece. E talvez por isso os fiéis católicos deixaram de frequentar as diversas cerimónias da Semana Santa com a assiduidade com que antigamente o faziam.

Vila das Lajes do Pico

Domingo de Ramos de 2012

Ermelindo Ávila

(Escrito de acordo com a antiga ortografia)

terça-feira, 3 de abril de 2012

EM JEITO DE SONHO...

NOTAS DO MEU CANTINHO



Acordei um pouco sobressaltado com o estrondear de um foguetão. Levantei-me, precipitadamente, e corri para a torre da minha modesta residência na esperança de, da janela que dá para o Oceâno, ver uma vez ainda as gasolinas e as canoas saírem pela carreira fora, rumo a oeste.

Na Terra da Fôrca, junto ao velho moinho, o Vigia já devia ter hasteado, com certeza, a bandeira preta, sinal de baleia à vista.

A manhã ia nascendo mas o sol não aparecia ainda no alto das ladeiras.

As pessoas estavam ainda recolhidas quando a bomba, lançada pelo Vigia, estrondeou no ar. Foi uma surpresa. Há muito que na minha terra não se ouvia sinal de baleia. Os poucos botes, que restaram da distribuição graciosa por outros portos, estavam recolhidos nos barracões para servirem em regatas e as lanchas, apenas duas, ancoradas na Lagoa, há muito que não punham os motores em serviço.

Como podia ser possível haver sinal de baleia? Nem sabia responder. Sei que era o antigo sinal e, naturalmente, que as baleias deviam andar por perto.

Os ribeiras e os calhetas já deviam andar fora. O sol por lá aparece mais cedo. Era natural que assim fosse.

Os botes do Mestre José Faidoca, do Manuel Alfaiate, do Domingos Saltão; e também os do João Tavares, do António Medina, e do António Garcia com certeza que estavam a aproximar-se da baía das Lajes

Mas, afinal, por mais que da janela da minha torre espreitasse os botes e lanchas das Lajes, que deviam estar a sair pela carreira que liga a lagoa ao alto mar, não apareciam. Esperei...

E quando me mantinha com o binóculo em punho, na expectativa, de os botes saírem, nada via.

Algum tempo depois um barco semi - rijido motorizado, saía a carreira, levando um grupo de indivíduos: homens e mulheres. Foi então que despertei do meu sonho e verifiquei que eram turistas, de qualquer nacionalidade que, conduzidos pelos operadores/ armadores, iam ver as baleias e os golfinhos, como agora tratam os moleiros e as toninhas, que se encontravam no seu habitat, descuidados e felizes, a viver, calmamente, e a alimentar-se dos peixes que os homens deviam utilizar nas suas ementas mas que agora, a pesar das diligências dos pescadores, nem aparecem nos pesqueiros habituais...

Afinal, sofri uma amarga desilusão... Verdade que já não se arria à baleia há muitos anos, nem há baleeiros em terra. Foram desaparecendo com o rodar dos anos... As gerações novas nem sabem o que era essa actividade marítima que muito contribuía para o equilíbrio económico desta terra que ainda denominam de “terra de baleeiros”. Mas isso foi no passado. Se Raul Brandão cá voltasse já não escreveria uma parte do que disse em “Ilhas Desconhecidas: “Casinhas negras aglomeradas, uma grande solidão e uma grande tristeza. A costa forma baía, fechada de um lado por um desconforme penedo. Lajes é a terra dos baleeiros – seis armações, duzentas pessoas empregadas na pesca. A casa do vigia fica lá no alto num caminho abandonado, num sítio que se chama Terra da Forca.(...) Tudo aqui cheira a baleia e está besuntado de baleia, tudo o que se come sabe a baleia, que é derretida em grandes caldeirões para lhe extraírem o óleo. – Pergunto: - Vocês não sentem isto? Este cheiro horrível? – Este cheiro cheira-nos sempre bem. É sinal de dinheiro”.

E assim era! Todavia, hoje a vila voltou a ser de “...uma grande solidão e uma grande tristeza.” Os baleeiros, vindos da Ribeira do Meio, já não esperam o sinal de baleia no “balcão da Emília”,nem os da Vila nas banquetas junto das antigas “casas dos botes”, – agora Museu dos Baleeiros, frente à rampa da Lagoa, também desaparecida. A Lagoa está transformada em pequena marina onde ainda estacionam alguns barcos de pesca além de outros de recreio e aqueles que levam os visitantes até ao ”santuário das baleias

Pois se até a “Pesqueira” desapareceu...

Fico por aqui e volto ao remanso do meu cantinho para continuar estes rabiscos. Até quando? Só Deus o sabe!...

Vila Baleeira.

13-03-2012

Ermelindo Ávila

Escrito de acordo com a antiga ortografia

quarta-feira, 14 de março de 2012

INDÚSTRIAS PICOENSES


No decorrer dos tempos, a ilha do Pico teve diversas indústrias, algumas de carácter artesanal. Mesmo assim, sem grandes maquinismos, a actividade industrial desenvolveu-se em vários sectores que, produzindo embora em pequena escala, bastavam para as necessidades locais. Outras, algo mais desenvolvidas, produziam para a exportação, como seja, em épocas que podemos considerar já remotas, a produção da laranja, do vinho verdelho e lacticínios, ficando por isso célebre o especial “queijo do Pico!”

Deixo de referir, porque por tantos abordada, a actividade baleeira que aqui nesta ilha nasceu há século e meio, para terminar, ingloriamente, vai para mais de quarenta anos.

Mas outras indústrias existiram no Pico. Até a de pirotecnia, que fabricava o chamado fogo de artifício que animava os arraiais das festividades religiosas da ilha. Foram exímios pirotécnicos Tomé Mamede e António Francisco da Silveira, conhecido por António Félix do Cais do Pico.

Na década de oitenta do século XIX, a freguesia da Santíssima Trindade tinha dezasseis sapateiros, um alfaiate, nove carpinteiros, dois tanoeiros, e três serradores; onze ferreiros e nove pedreiros, um moleiro e um caiador, além de um sangrador e de um veterinário... A freguesia tinha 3.229 habitantes e 1.142 eram do sexo masculino, adultos. Havia 496 menores de sete anos.

A maioria da população ou empregava-se ou na agricultura ou na pesca.

Em 1888, encontramos um oleiro. Sabemos que era natural de ilha de Santa Maria donde importava o barro utilizado no fabrico de diversas peças de uso doméstico.

Em 1899, foi licenciado o funcionamento de um forno de cal, pertencente a Manuel Joaquim de Azevedo e Castro, António Homem da Costa e José Francisco Fidalgo Baptista, “ no terreno que foi Forte de Santa Catarina”. Conheci o operário que lá trabalhou e que ficou conhecido pelo caleiro. A pedra calcária era importada do continente. Ainda resta o respectivo forno.

O Pico possuiu, a um tempo, doze fábricas de lacticínios, três fábricas de conservas de peixe, das quais apenas uma sobrevive, - a COFACO - instalada na Areia Larga; foi dirigida por Francisco Pessanha e a quem o concelho da Madalena ficou a dever o notável desenvolvimento que ali se verificou na segunda metade do século passado. De registar ainda as duas fábricas de extracção de óleos de baleia, e duas fábrica de refrigerantes, primeiro na Madalena e depois nas Lajes.

Aqui deve incluir-se a indústria de espadana, também conhecida na ilha por piteira, existente em São Mateus e de que era proprietário o professor José Inácio Garcia de Lemos Jr. Possuía vários terrenos na ilha e no Faial, onde cultivava essa planta que, depois do corte, era seca, tratada e exportada para o continente. Nessa actividade empregava muita mão-de-obra, principalmente, do sexo feminino. E eram duas ou três centenas de operárias. A cultura era feita de maneira que, a do Faial só fosse colhida depois de trabalhada a do Pico para que as operárias de cá se deslocassem depois para aquela ilha. Uma forma simpática de garantir trabalho, quando ele era escasso. Nem todos, naturalmente, compreendiam a atitude do industrial mas o que é certo é que o prof. José Lemos, procurava servir a freguesia.

Diz um seu biógrafo que o Prof. Lemos era “Empreendedor e dinâmico no comércio e indústria”. Realmente assim foi. Basta ter presente o que dele afirma o escritor Dias de Melo: Em S. Mateus, onde nascera, exercia, com notável competência, o magistério primário e dedicava-se a várias actividades industriais. Proprietário de uma armação fundada por antepassado e há muito encerrada, resolveu, dada a conjuntura favorável aos altos lucros, também reabri-la. (1)

Aquando do seu falecimento, em 27/12/1968, dele se escreveu: Era inteligente e prático. Revelou-se chefe. Desfrutava do tacto de mandar, de administrar. Distinto, desde os bancos da escola. Jornalista de vocação aos doze anos dirigia o jornal em miniatura, “O cartão de visita”. Amador teatral com destacada presença. Professor competente e probo. Orador vibrante. Empreendedor e dinâmico no comércio e na indústria. Espírito culto e actualizado assinalou a sua passagem na vida política e administrativa do concelho e do distrito com dois mandatos (l935 e 1943) na presidência da Câmara da Madalena, o último dos quais por doze anos. Músico por intuição e por estudo o prof. Lemos foi alma de muitas associações musicais de São Mateus, estando a seu cargo o órgão da sua igreja paroquial. Era de facto o mais competente organista do Pico. Por muitos anos foi o organizador dos festejos cívicos da festa do Bom Jesus. (2)

Este um dos vultos picoenses que anda esquecido.

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1) Dias de Melo, “A Montanha cobriu-se de negro”, pág.93.

2) “Ecos do Santuário”, Fev. de 1969, Ano I, nº 7


Vila das Lajes,

2 de Março de 2012.

Ermelindo Ávila


sexta-feira, 9 de março de 2012

FIGURAS ILUSTRES

NOTAS DO MEU CANTINHO



Não abundam mas também não são tão raras como possa pensar-se... Sempre existiram figuras ilustres na Ilha do Pico e nas terras açorianas. Não as vou citar a todas porque isso seria tarefa difícil. Fico por algumas. Aquelas que melhor conheci. Outros mais bem informados e eruditos poderão fazer o resto.

Se hoje aqui recordo um ou dois é somente para chamar a atenção da entidade competente para a urgente e imperiosa necessidade de dedicar algo que os dignifique e recorde para a posteridade. Esse gesto de esclarecido entendimento sobre as figuras ilustres desta terra só prestigia quem dele for autor e, no presente e no futuro, a ilha que serviram ou lhes foi berço. Ilha que eles jamais esqueceram embora dela se tenham afastado por afazeres profissionais ou por exigências familiares. E são tantos esses que partiram e viveram uma vida sofrida pela saudade do torrão natal. Alguns deram testemunho desse estado de alma. Outros quedaram-se num silêncio atroz, uma vez que o ambiente que os rodeava não permite ou permitiu que revelassem a saudade que os abarcava: “saudades da minha terra, saudades da minha mãe”, como reza uma canção popular.

Só quem tem a experiência de viver alguns anos fora da terra-mãe pode dar valor aos sentimentos de saudade que a muitos assolapa e contrista. É uma sina à qual não se pode fugir.

Vive com eles, com esses que daqui ou doutra parte qualquer partiram e não mais voltaram.

Mas este intróito lamuriento tem algo de interesse neste momento histórico em que a ilha vai ficando despovoada e, consequentemente, condenada a um pérfido e triste abandono.

Recordemos os nossos maiores. Lembremos, no presente e no futuro, esses que em diversos lugares onde passaram a viver, se notabilizaram pela sua cultura e erudição, pela sua arte ou por uma vida honesta, séria e exemplar. Não serão centenas nem mesmo muitas dezenas mas são alguns.

Hoje trago aqui dois somente. Deles já tratei em escritos anteriores. Vou repetir-me. Não importa.

Recordo o professor catedrático, Doutor José Enes Pereira Cardoso. Nasceu ali na Silveira, donde também era natural o Pai e os ascendentes paternos. Formado em Filosofia na Gregoriana, em Roma, foi professor do Seminário de Angra, das Universidades Católica de Lisboa, de Luanda e dos Açores que ajudou a fundar e da qual foi seu primeiro Reitor. Não são de esquecer as “Semanas de Estudo”, que organizou em Angra na década de sessenta do século passado e que tamanha repercussão tiveram nos meios culturais e científicos do País. Foi um dos mais prestigiados Mestres da cultura portuguesa e, presentemente, encontra-se vivendo em Lisboa, sofrendo de dolorosa doença física.

Quando o concelho comemorou o quinto centenário de vida municipal, o Doutor José Enes veio cá tomar parte nos eventos culturais, comemorativos. Nessa ocasião recebeu as homenagens da Edilidade Lajense. E foi só. No exterior nada há que assinale a sua inconfundível Personalidade. E era tempo de isso acontecer. Ao menos uma placa na casa onde nasceu e viveu a sua infância.

O doutor Julião Azevedo nasceu no Caminho de Cima da freguesia da Piedade. Ainda por lá tem parentes, embora os pais se tenham deslocado para Angra, a fim de poderem dar cursos liceais aos filhos.

Formado em História e Filosofia pela Universidade de Lisboa, foi professor do Ensino Secundário e, depois, escolhido pelo Instituto de Alta Cultura para Leitor da Faculdade de Letras da Universidade de Poitiers. Depois passou para a Universidade de Paris (Sorbone), uma das mais prestigiadas escolas da França “contribuindo para um interesse cada vez maior pela nossa cultura”. Regressado a Lisboa “foi incumbido pelo I.A.C. de preparar um valioso acervo bibliográfico que, por ocasião do Centenário da Cidade de São Paulo (Brasil), em 1954, seria oferecido como fundo da biblioteca do Centro de Estudos Portugueses, então criado na Faculdade de Letras e Ciências Humanas daquela cidade, tarefa que não chegou a completar por ter falecido inesperadamente”, em Abril de 1953, aos 30 anos de idade. Mesmo assim publicou em vida diversos trabalhos de apreciável valor, um dos quais, Condições Económicas das Revolução Portuguesa de 1820 que, se bem sei, foi adoptado como compêndio de estudo pela Universidade dos Açores.

Aquando seu falecimento o Boletim do Instituto Histórico da Ilha Terceira registou o infausto acontecimento com as seguintes palavras, tombadas em acta da sessão de 1 de Junho de 1953: “Foi aprovado por unanimidade que se lançasse na acta um voto de profundo pesar pelo falecimento prematuro do Dr. Julião Soares de Azevedo, natural desta ilha, e que na sua curta carreira de professor se notabilizou por trabalhos históricos e linguísticos, alguns deles referentes à Terceira.”

Só se ressalva que o Dr. Julião nasceu na freguesia da Piedade desta Ilha em 1920. É tempo de, na freguesia natal, lhe ser prestada a homenagem de que é merecedor.


Vila das Lajes,

25.Fev.-2012

Ermelindo Ávila

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

SÉCULO E MEIO DE JORNALISMO

Na realidade, a existência do “Diário dos Açores” é um acontecimento histórico, não somente para a ilha de S. Miguel, onde se publica, mas para todo o Arquipélago e até para o continente português.

Os directores e redactores que o têm dirigido e mantido ao longo destes anos todos, bem merecem que os recordemos nesta ocasião com uma palavra respeitosa de homenagem e gratidão por aquilo que fizerem em prol destas ilhas do Atlântico. Mal sabia Manuel Augusto Tavares de Resende, quando, em 5 de Fevereiro de 1870, pôs nas bancas de Ponta Delgada um novo jornal que a sua vida seria tão longa e proveitosa. Mas o “Diário dos Açores” aio está, sempre rejuvenescido e actual, defendendo os problemas ilhéus com denodo, competência e galhardamente.

Razão tinha o esquecido mas sempre notável posta Osório Goulart, quando endereçou a Tavares de Resendes uma importante carta, onde dizia: “O “Diário dos Açores” não é somente um título; serve a conveniência da confraternização açoriana, que outra não tem sido a minha constante cogitação.

Está ao serviço de todos os homens de talento e de honestas intenções, inspira-se no bem da Pátria e no respeito por tudo o que é respeitável.”(1)

Bem o afirmou Osório Goulart. O “Diário” , neste quase cento e cinquenta anos, tem estado sempre ao serviço dos Açores e das suas respeitáveis gentes, servido por um elenco de directores e redactores que lhe deram brilho, dinamismo e actualidade.

Recordo, a propósito, os irmãos Carreiros, Dr. Manuel e Dr. Carlos, que dedicaram, após o falecimento do pai, Manuel Rezende Carreiro, que havia dirigido o jornal, após o falecimento do tio, Tavares Carreiro, durante 47 anos, como informa o saudoso e ilustre jornalista, que foi Manuel Jacinto de Andrade. E não esqueço Silva Júnior, que, depois de dirigir o jornal durante doze anos, foi seu “Director Honorário”. E só refiro neste arrazoado aqueles que conheci aos quais presto a minha sentida e respeitosa homenagem.

O “Diário dos Açores” é, como disse, um repositório da história micaelense nos últimos 150 anos. Compulsar a sua secular colecção é tomar conhecimento da sua história, social, económica e política.

Embora hoje os processos modernos procurem relegar a imprensa escrita, ela jamais deixará de ser um elemento importante e indispensável, da história dos povos. No jornal encontra-se a vida social, embora a mais simples e por vezes ingénua; a vida económica, com relevância para o comércio e actividades industriais das respectivas localidades; as disputas políticas, as mais inverisímeis . Tudo revela o estado ambiental da época a que se refere.

Anteriormente eram raros os livros que se encontravam à venda nas livrarias. Angra possuía a Livraria Editora Andrade, a única que nos Açores se dedicava à edição de livros. Algumas ds tipografias dos jornais editavam, de longe a longe, alguns livros de autores locais. Raros eram o que vinham do continente. Só nas últimas décadas é que se publicam livros, dos mais diversos géneros, em abundante quantidade.

O romance era o género de literatura mais procurado. Eram os jornais que se encarregavam de os tornar conhecidos através da secção “folhetim”, que quase todos inseriam, publicada em roda pé, e que eram recortados e arquivados, para ser lido aos serões de inverno. E lido que era passava a outro, para que todos conhecem o romance publicado. Os folhetins estão substituídos pelas telenovelas da TV, mas não se arquivam...

Pode dizer-se que os modernos meios de comunicação suprem com alguma vantagem, os periódicos escritos. Mas eles não enchem as prateleiras das bibliotecas e por qualquer circunstâncias desaparecem sem deixar vestígios.

Continuar o “Diário dos Açores” é um trabalho meritório que só prestigia e dignifica aqueles que o fazem dia-a-dia e o arquivam para estudo e regalo das gerações futuras.

Aos seus actuais directores e redactores aqui deixo um simples bem hajam pelo trabalho que estão a desenvolver, com votos sinceros para que o Diário nunca envelheça e continue garbosamente por muitos anos.

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1) Andrade, Manuel Jacinto – “Jornais Centenários dos Açores”, 1994, pág.79.


Vila das Lajes do Pico

27-Jan.-2012

Ermelindo Ávila

domingo, 12 de fevereiro de 2012

FEVEREIRO

NOTAS DO MEU CANTINHO


Fevereiro fica a meio do Inverno. Um mês nevoeirento, triste e doentio. O seu frio provoca muitas vezes constipações e outras enfermidades. Nem todos resistem aos seus impulsos tempestuosos... E é o Mês da Senhora das Candeias. Mas não aquela que, no dizer do povo, “veio com a espada na mão / para matar os filisteus, que são falsos à nação”. É outra Senhora, Mãe dos homens, que representada com uma vela na mão, para alumiar todos os filhos, sem excepção.

Fevereiro é o mês mais pequeno do ano. Mesmo que o ano seja bissexto, não consegue alcançar os outros. Falta-lhe sempre um dia para se igualar a Abril, Junho, Setembro e Novembro.

Geralmente não permite sementeiras nem colheitas. As chuvas e os frios de Fevereiro obrigam as pessoas a recolherem-se em suas casas principalmente aos serões, muito embora os dias já vão crescendo pois, como diz o adágio popular : “Janeiro fora, cresce uma hora”.

Neste mês ocorrem, de anos a anos, as semanas do Carnaval. E é nas noites de alguns dos dias da semana, que as pessoas se juntam e convivem. E não há chuva nem frio que os prive de gozarem esses serões, antes que a Quaresma chegue. Mas isso era o que acontecia ontem... Hoje julgo que será diferente, (pois ando arredado, há muito, de tais convívios). Infelizmente, pois nem todos eram (serão ainda?) proibidos ou evitados por muitas famílias.

Nestes dias o sol mal aparece. E se surge, geralmente por entre nuvens, não tem o brilho do sol estival. Quando assim é, o povo diz na sua sabedoria ancestral que o sol vai doente. E se vai doente é porque o tempo que nos espera não será o melhor.

Pior era em tempos passados, quando as noites eram medonhas. Os labregos, diziam, andavam à solta e as pessoas tinham receio da “justiça da noite”. Não existia iluminação nas ruas e, para se ir de uma casa a outra, quando não havia lampião, um troço de lenha, retirado do lar, onde se cozinhava, servia para iluminar o percurso. Actualmente, nada disso se vê, nem os mais novos isso conhecem, porque a iluminação eléctrica cobre todos os povoados, muito embora haja ainda estradas total e incompreensivelmente às escuras, por falta de electrificação, apesar das redes de distribuição por elas passarem. Uma questão de economia agravada pela situação de penúria que está atingindo muitos povos. E, nestes tempos de carestia que nos atinge, os focos de electrificação pública estão a ser reduzidos ...

Faz lembrar o que aconteceu aqui há uns anos passados nesta vila. Depois de aparecer o petróleo, alguns municípios iluminaram as sedes de concelho com candeeiros públicos. Um dia um doente resolveu sair da sua galilé onde estava “recolhido” e, alcançando um fueiro de um carro de bois que se encontrava arrumado junto da habitação do proprietário, como era hábito e hoje fazem os automóveis, com ele partiu uma parte dos candeeiros. A Câmara, quase sem receitas, não pôde substitui-los. A iluminação que era, para aqueles tempos um sinal de progresso, deixou de existir.

Estamos em Fevereiro. O segundo mês do ano novo, que parece ter-se iniciado ontem, um ontem que, afinal, já conta trinta e um dias. Um ano que, vaticinam, será para esquecer, pelas mazelas que vai trazer aos portugueses e que nós açorianos, vamos igualmente sofrer “por tabela”.

Março, que se lhe segue, não será melhor. Há um provérbio popular que assim reza: “Março, marçagão, de manhã verão, à tarde focinho de cão”, como se os familiares animais fossem os responsáveis por todas as tempestades e carestias que vão surgir.

Mas, de devaneios, basta. Esperemos que Fevereiro nos traga bons dias e o Carnaval possa ser celebrado com eufórica alegria, para regalo, principalmente, da gente nova...



Vila das Lajes

1- 02- 2012

Ermelindo Ávila

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

AMIGOS E AMIGAS COMPADRES E COMADRES

A MINHA NOTA


Chegou a época carnavalesca. As quintas-feiras que antecedem o Entrudo são festejadas pelos açorianos, desde remotas eras, com encontros pantagruélicos.

Hoje é dia de amigos. Um dia especial em que os amigos se juntam para festejar antecipadamente o Carnaval ou Entrudo, que se aproxima. Mas mais do que isso, é motivo para uma confraternização especial, à qual ninguém se escusa. E vale a pena continuar.

Para além de tudo o que possa imaginar, as quintas-feiras, cuja “comemoração” hoje se inicia, têm o mérito de juntar as pessoas que andam normalmente afastadas por afazeres vários e que nestes dias esquecem as agruras da vida para estarem juntas e recordarem diversas etapas da vida que passou.

Não sei quando tiveram início e qual o motivo que levou os nossos antepassadas a criarem estes dias para se juntarem e divertirem um pouco, se bem que seja um tanto diferente as comemorações actuais daquelas que se praticavam há anos passados.

As ilhas, antes de se conhecer o telefone, a rádio e a televisão, e da navegação se limitar aos barcos à vela e, mais tarde, aos vapores com viagens quinzenais, viviam num completo e confrangedor isolamento. Os serões eram passados à luz da candeia, provida de óleo de toninha e de baleia e, depois das velas de estearina, enquanto o petróleo aqui não chegou. Ao Pico a electricidade só cá chegou na década de trinta do século passado e por iniciativa particular...

As matanças dos porcos, normalmente nos meses de Dezembro, Janeiro e Fevereiro, mas sempre antes do Carnaval, eram motivo para as famílias de juntarem e confraternizarem. Por vezes, na noite do “dia de derreter”, os novos, com a ajuda dos velhos, organizavam um bailarico, melhor uma chamarrita, ao toque da viola da terra. Mas era no Carnaval que tinham lugar as grandes folgas, com tocadores convidados e bailadores experimentados.

Novos e velhos divertiam-se “à grande” (como soe dizer-se) pois os que não bailavam, jogavam às cartas, em partidas renhidas.

O Carnaval, porém, era diferente. As famílias e os amigos reuniam-se para “ver máscaras” e, nos intervalos da sua passagem, bailavam a chamarrita e por vezes a valsa. Nas salas dos abastados, onde havia piano, dançavam-se as valsas, mais tarde os tangos, e as quadrilhas, um baile artístico, dirigido em francês. Porém, à meia-noite da terça-feira de Entrudo tudo terminava porque, no dia seguinte – quarta-feira de Cinzas – era Quaresma, tempo de recolhimento e penitência. E todos ou quase todos cumpriam porque eram católicos praticantes!

No resto do ano só se realizava uma folga para homenagear algum emigrante de visita à terra. Mas, esses bailes, com tocadores escolhidos, eram destinados normalmente a convidados.

Hoje é tudo tão diferente!...


Vila das Lajes,

27 – Jan. – 2012

Ermelindo Ávila

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

HISTÓRIAS DO SÉCULO PASSADO

Notas do meu cantinho


Decorria a segundas guerra mundial, (1939-1945). Portugal mantinha-se em situação neutral, embora se temesse a todo o momento a invasão da Península Ibérica por uma das potencias beligerantes.
Em 1940 constou que Hitler ia assenhorear-se da Espanha e de Portugal, depois de ocupar a França. O Governo Português, embora fizesse todos os esforços para evitar uma invasão do território continental, temia que as forças germânicas não respeitassem a nossa neutralidade e preparou-se para evitar o pior.
As Ilhas adjacentes estavam “ocupadas” pelas forças portugueses. Constava que só na Ilha do Faial estavam estacionados cinco mil militares, muito embora os ingleses tivessem nela estabelecida uma base naval para apoio aos barcos de guerra dos Aliados.
A nossa História já registava a invasão francesa que obrigara o Rei Dom João VI a refugiar-se no Brasil.
O Governo Português já não podia refugiar-se no Brasil e escolhe as ilhas açorianas para residência do Presidente.
Num dado momento os Governadores dos distritos açorianos são chamados a Lisboa com urgência. A navegação era escassa e só a Horta tinha comunicações aéreas, através dos Clipper’s, nas viagens da América para Lisboa. Num deles foram os governadores “convidar” o Presidente Óscar Carmona para “visitar” o Arquipélago. O convite foi naturalmente aceite. A viagem iniciou-se a 26 de Julho de 1941. Acompanhavam o Presidente, alem da Família, os Ministros do Interior Pais de Sousa e da Marinha Ortins Bettencourt, natural da Graciosa.
A visita à Ilha do Pico ia ter lugar na Madalena. O Presidente da Câmara, Manuel Cristiano de Sousa e Simas, recebera do Governador uma verba de l0.000$ (salvo erro), para preparar o edifício dos Paços do Concelho e a recepção. E de facto assim aconteceu. O largo da Matriz fora transformado num verdadeiro jardim. Mas tudo ia ficando baldado....
O Presidente Carmona, ao ser recebido na Câmara Municipal de Ponta Delgada, condecorou o respectivo Presidente. Sabido que ia condecorar os presidentes dos Municípios visitados deu-se ordem para que a visita ao Pico se fizesse por S. Roque, afim de ser agraciado o Presidente, Celestino Augusto de Freitas, preterindo-se o presidente da Madalena, que não andava nas boas graças da política distrital. Numa noite preparou-se o Cais do Pico e o desembarque e a visita ali se deu. Depois, o Presidente Carmona dirigiu-se para a Madalena, afim de embarcar para o Faial. O trajecto foi desviado para as ruas traseiras, para não passar no centro da Vila. No entanto, chegado ao cais de embarque, o Capitão João Costa, comandante distrital da Legião, dirigiu-se ao Presidente Carmona e lamentou que ele não tivesse passado junto do edifício da Câmara, onde se encontrava o Batalhão da Legião, vindo da Horta, para lhe prestar a guarda de honra. O chefe do protocolo queria evitar que o Presidente fosse até aos Paços do Concelho mas Carmona resolveu ir, e foi a pé, do Cais até à Câmara, onde passou revista ao Batalhão da Legião. E novamente o Capitão Costa convida o General Carmona, em nome do presidente do Município, a entrar nos Paços do Concelho, onde estavam as ofertas que lhe eram destinadas e à Comitiva. Embora com a oposição do Protocolo, o Presidente entrou e descansou alguns momentos no gabinete recebendo, ele e a comitiva, as ofertas do Município, mas já não foi ao salão. Daí ficar o Presidente Cristiano com o discurso no bolso e não receber a condecoração que lhe era devida...
São decorridos 70 anos! O resto fica para mais tarde...

Vila das Lajes
7-01-2012
Ermelindo Ávila