quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

SÉCULO E MEIO DE JORNALISMO

Na realidade, a existência do “Diário dos Açores” é um acontecimento histórico, não somente para a ilha de S. Miguel, onde se publica, mas para todo o Arquipélago e até para o continente português.

Os directores e redactores que o têm dirigido e mantido ao longo destes anos todos, bem merecem que os recordemos nesta ocasião com uma palavra respeitosa de homenagem e gratidão por aquilo que fizerem em prol destas ilhas do Atlântico. Mal sabia Manuel Augusto Tavares de Resende, quando, em 5 de Fevereiro de 1870, pôs nas bancas de Ponta Delgada um novo jornal que a sua vida seria tão longa e proveitosa. Mas o “Diário dos Açores” aio está, sempre rejuvenescido e actual, defendendo os problemas ilhéus com denodo, competência e galhardamente.

Razão tinha o esquecido mas sempre notável posta Osório Goulart, quando endereçou a Tavares de Resendes uma importante carta, onde dizia: “O “Diário dos Açores” não é somente um título; serve a conveniência da confraternização açoriana, que outra não tem sido a minha constante cogitação.

Está ao serviço de todos os homens de talento e de honestas intenções, inspira-se no bem da Pátria e no respeito por tudo o que é respeitável.”(1)

Bem o afirmou Osório Goulart. O “Diário” , neste quase cento e cinquenta anos, tem estado sempre ao serviço dos Açores e das suas respeitáveis gentes, servido por um elenco de directores e redactores que lhe deram brilho, dinamismo e actualidade.

Recordo, a propósito, os irmãos Carreiros, Dr. Manuel e Dr. Carlos, que dedicaram, após o falecimento do pai, Manuel Rezende Carreiro, que havia dirigido o jornal, após o falecimento do tio, Tavares Carreiro, durante 47 anos, como informa o saudoso e ilustre jornalista, que foi Manuel Jacinto de Andrade. E não esqueço Silva Júnior, que, depois de dirigir o jornal durante doze anos, foi seu “Director Honorário”. E só refiro neste arrazoado aqueles que conheci aos quais presto a minha sentida e respeitosa homenagem.

O “Diário dos Açores” é, como disse, um repositório da história micaelense nos últimos 150 anos. Compulsar a sua secular colecção é tomar conhecimento da sua história, social, económica e política.

Embora hoje os processos modernos procurem relegar a imprensa escrita, ela jamais deixará de ser um elemento importante e indispensável, da história dos povos. No jornal encontra-se a vida social, embora a mais simples e por vezes ingénua; a vida económica, com relevância para o comércio e actividades industriais das respectivas localidades; as disputas políticas, as mais inverisímeis . Tudo revela o estado ambiental da época a que se refere.

Anteriormente eram raros os livros que se encontravam à venda nas livrarias. Angra possuía a Livraria Editora Andrade, a única que nos Açores se dedicava à edição de livros. Algumas ds tipografias dos jornais editavam, de longe a longe, alguns livros de autores locais. Raros eram o que vinham do continente. Só nas últimas décadas é que se publicam livros, dos mais diversos géneros, em abundante quantidade.

O romance era o género de literatura mais procurado. Eram os jornais que se encarregavam de os tornar conhecidos através da secção “folhetim”, que quase todos inseriam, publicada em roda pé, e que eram recortados e arquivados, para ser lido aos serões de inverno. E lido que era passava a outro, para que todos conhecem o romance publicado. Os folhetins estão substituídos pelas telenovelas da TV, mas não se arquivam...

Pode dizer-se que os modernos meios de comunicação suprem com alguma vantagem, os periódicos escritos. Mas eles não enchem as prateleiras das bibliotecas e por qualquer circunstâncias desaparecem sem deixar vestígios.

Continuar o “Diário dos Açores” é um trabalho meritório que só prestigia e dignifica aqueles que o fazem dia-a-dia e o arquivam para estudo e regalo das gerações futuras.

Aos seus actuais directores e redactores aqui deixo um simples bem hajam pelo trabalho que estão a desenvolver, com votos sinceros para que o Diário nunca envelheça e continue garbosamente por muitos anos.

_________

1) Andrade, Manuel Jacinto – “Jornais Centenários dos Açores”, 1994, pág.79.


Vila das Lajes do Pico

27-Jan.-2012

Ermelindo Ávila

domingo, 12 de fevereiro de 2012

FEVEREIRO

NOTAS DO MEU CANTINHO


Fevereiro fica a meio do Inverno. Um mês nevoeirento, triste e doentio. O seu frio provoca muitas vezes constipações e outras enfermidades. Nem todos resistem aos seus impulsos tempestuosos... E é o Mês da Senhora das Candeias. Mas não aquela que, no dizer do povo, “veio com a espada na mão / para matar os filisteus, que são falsos à nação”. É outra Senhora, Mãe dos homens, que representada com uma vela na mão, para alumiar todos os filhos, sem excepção.

Fevereiro é o mês mais pequeno do ano. Mesmo que o ano seja bissexto, não consegue alcançar os outros. Falta-lhe sempre um dia para se igualar a Abril, Junho, Setembro e Novembro.

Geralmente não permite sementeiras nem colheitas. As chuvas e os frios de Fevereiro obrigam as pessoas a recolherem-se em suas casas principalmente aos serões, muito embora os dias já vão crescendo pois, como diz o adágio popular : “Janeiro fora, cresce uma hora”.

Neste mês ocorrem, de anos a anos, as semanas do Carnaval. E é nas noites de alguns dos dias da semana, que as pessoas se juntam e convivem. E não há chuva nem frio que os prive de gozarem esses serões, antes que a Quaresma chegue. Mas isso era o que acontecia ontem... Hoje julgo que será diferente, (pois ando arredado, há muito, de tais convívios). Infelizmente, pois nem todos eram (serão ainda?) proibidos ou evitados por muitas famílias.

Nestes dias o sol mal aparece. E se surge, geralmente por entre nuvens, não tem o brilho do sol estival. Quando assim é, o povo diz na sua sabedoria ancestral que o sol vai doente. E se vai doente é porque o tempo que nos espera não será o melhor.

Pior era em tempos passados, quando as noites eram medonhas. Os labregos, diziam, andavam à solta e as pessoas tinham receio da “justiça da noite”. Não existia iluminação nas ruas e, para se ir de uma casa a outra, quando não havia lampião, um troço de lenha, retirado do lar, onde se cozinhava, servia para iluminar o percurso. Actualmente, nada disso se vê, nem os mais novos isso conhecem, porque a iluminação eléctrica cobre todos os povoados, muito embora haja ainda estradas total e incompreensivelmente às escuras, por falta de electrificação, apesar das redes de distribuição por elas passarem. Uma questão de economia agravada pela situação de penúria que está atingindo muitos povos. E, nestes tempos de carestia que nos atinge, os focos de electrificação pública estão a ser reduzidos ...

Faz lembrar o que aconteceu aqui há uns anos passados nesta vila. Depois de aparecer o petróleo, alguns municípios iluminaram as sedes de concelho com candeeiros públicos. Um dia um doente resolveu sair da sua galilé onde estava “recolhido” e, alcançando um fueiro de um carro de bois que se encontrava arrumado junto da habitação do proprietário, como era hábito e hoje fazem os automóveis, com ele partiu uma parte dos candeeiros. A Câmara, quase sem receitas, não pôde substitui-los. A iluminação que era, para aqueles tempos um sinal de progresso, deixou de existir.

Estamos em Fevereiro. O segundo mês do ano novo, que parece ter-se iniciado ontem, um ontem que, afinal, já conta trinta e um dias. Um ano que, vaticinam, será para esquecer, pelas mazelas que vai trazer aos portugueses e que nós açorianos, vamos igualmente sofrer “por tabela”.

Março, que se lhe segue, não será melhor. Há um provérbio popular que assim reza: “Março, marçagão, de manhã verão, à tarde focinho de cão”, como se os familiares animais fossem os responsáveis por todas as tempestades e carestias que vão surgir.

Mas, de devaneios, basta. Esperemos que Fevereiro nos traga bons dias e o Carnaval possa ser celebrado com eufórica alegria, para regalo, principalmente, da gente nova...



Vila das Lajes

1- 02- 2012

Ermelindo Ávila

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

AMIGOS E AMIGAS COMPADRES E COMADRES

A MINHA NOTA


Chegou a época carnavalesca. As quintas-feiras que antecedem o Entrudo são festejadas pelos açorianos, desde remotas eras, com encontros pantagruélicos.

Hoje é dia de amigos. Um dia especial em que os amigos se juntam para festejar antecipadamente o Carnaval ou Entrudo, que se aproxima. Mas mais do que isso, é motivo para uma confraternização especial, à qual ninguém se escusa. E vale a pena continuar.

Para além de tudo o que possa imaginar, as quintas-feiras, cuja “comemoração” hoje se inicia, têm o mérito de juntar as pessoas que andam normalmente afastadas por afazeres vários e que nestes dias esquecem as agruras da vida para estarem juntas e recordarem diversas etapas da vida que passou.

Não sei quando tiveram início e qual o motivo que levou os nossos antepassadas a criarem estes dias para se juntarem e divertirem um pouco, se bem que seja um tanto diferente as comemorações actuais daquelas que se praticavam há anos passados.

As ilhas, antes de se conhecer o telefone, a rádio e a televisão, e da navegação se limitar aos barcos à vela e, mais tarde, aos vapores com viagens quinzenais, viviam num completo e confrangedor isolamento. Os serões eram passados à luz da candeia, provida de óleo de toninha e de baleia e, depois das velas de estearina, enquanto o petróleo aqui não chegou. Ao Pico a electricidade só cá chegou na década de trinta do século passado e por iniciativa particular...

As matanças dos porcos, normalmente nos meses de Dezembro, Janeiro e Fevereiro, mas sempre antes do Carnaval, eram motivo para as famílias de juntarem e confraternizarem. Por vezes, na noite do “dia de derreter”, os novos, com a ajuda dos velhos, organizavam um bailarico, melhor uma chamarrita, ao toque da viola da terra. Mas era no Carnaval que tinham lugar as grandes folgas, com tocadores convidados e bailadores experimentados.

Novos e velhos divertiam-se “à grande” (como soe dizer-se) pois os que não bailavam, jogavam às cartas, em partidas renhidas.

O Carnaval, porém, era diferente. As famílias e os amigos reuniam-se para “ver máscaras” e, nos intervalos da sua passagem, bailavam a chamarrita e por vezes a valsa. Nas salas dos abastados, onde havia piano, dançavam-se as valsas, mais tarde os tangos, e as quadrilhas, um baile artístico, dirigido em francês. Porém, à meia-noite da terça-feira de Entrudo tudo terminava porque, no dia seguinte – quarta-feira de Cinzas – era Quaresma, tempo de recolhimento e penitência. E todos ou quase todos cumpriam porque eram católicos praticantes!

No resto do ano só se realizava uma folga para homenagear algum emigrante de visita à terra. Mas, esses bailes, com tocadores escolhidos, eram destinados normalmente a convidados.

Hoje é tudo tão diferente!...


Vila das Lajes,

27 – Jan. – 2012

Ermelindo Ávila

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

HISTÓRIAS DO SÉCULO PASSADO

Notas do meu cantinho


Decorria a segundas guerra mundial, (1939-1945). Portugal mantinha-se em situação neutral, embora se temesse a todo o momento a invasão da Península Ibérica por uma das potencias beligerantes.
Em 1940 constou que Hitler ia assenhorear-se da Espanha e de Portugal, depois de ocupar a França. O Governo Português, embora fizesse todos os esforços para evitar uma invasão do território continental, temia que as forças germânicas não respeitassem a nossa neutralidade e preparou-se para evitar o pior.
As Ilhas adjacentes estavam “ocupadas” pelas forças portugueses. Constava que só na Ilha do Faial estavam estacionados cinco mil militares, muito embora os ingleses tivessem nela estabelecida uma base naval para apoio aos barcos de guerra dos Aliados.
A nossa História já registava a invasão francesa que obrigara o Rei Dom João VI a refugiar-se no Brasil.
O Governo Português já não podia refugiar-se no Brasil e escolhe as ilhas açorianas para residência do Presidente.
Num dado momento os Governadores dos distritos açorianos são chamados a Lisboa com urgência. A navegação era escassa e só a Horta tinha comunicações aéreas, através dos Clipper’s, nas viagens da América para Lisboa. Num deles foram os governadores “convidar” o Presidente Óscar Carmona para “visitar” o Arquipélago. O convite foi naturalmente aceite. A viagem iniciou-se a 26 de Julho de 1941. Acompanhavam o Presidente, alem da Família, os Ministros do Interior Pais de Sousa e da Marinha Ortins Bettencourt, natural da Graciosa.
A visita à Ilha do Pico ia ter lugar na Madalena. O Presidente da Câmara, Manuel Cristiano de Sousa e Simas, recebera do Governador uma verba de l0.000$ (salvo erro), para preparar o edifício dos Paços do Concelho e a recepção. E de facto assim aconteceu. O largo da Matriz fora transformado num verdadeiro jardim. Mas tudo ia ficando baldado....
O Presidente Carmona, ao ser recebido na Câmara Municipal de Ponta Delgada, condecorou o respectivo Presidente. Sabido que ia condecorar os presidentes dos Municípios visitados deu-se ordem para que a visita ao Pico se fizesse por S. Roque, afim de ser agraciado o Presidente, Celestino Augusto de Freitas, preterindo-se o presidente da Madalena, que não andava nas boas graças da política distrital. Numa noite preparou-se o Cais do Pico e o desembarque e a visita ali se deu. Depois, o Presidente Carmona dirigiu-se para a Madalena, afim de embarcar para o Faial. O trajecto foi desviado para as ruas traseiras, para não passar no centro da Vila. No entanto, chegado ao cais de embarque, o Capitão João Costa, comandante distrital da Legião, dirigiu-se ao Presidente Carmona e lamentou que ele não tivesse passado junto do edifício da Câmara, onde se encontrava o Batalhão da Legião, vindo da Horta, para lhe prestar a guarda de honra. O chefe do protocolo queria evitar que o Presidente fosse até aos Paços do Concelho mas Carmona resolveu ir, e foi a pé, do Cais até à Câmara, onde passou revista ao Batalhão da Legião. E novamente o Capitão Costa convida o General Carmona, em nome do presidente do Município, a entrar nos Paços do Concelho, onde estavam as ofertas que lhe eram destinadas e à Comitiva. Embora com a oposição do Protocolo, o Presidente entrou e descansou alguns momentos no gabinete recebendo, ele e a comitiva, as ofertas do Município, mas já não foi ao salão. Daí ficar o Presidente Cristiano com o discurso no bolso e não receber a condecoração que lhe era devida...
São decorridos 70 anos! O resto fica para mais tarde...

Vila das Lajes
7-01-2012
Ermelindo Ávila

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

AGRICULTURA ECOLÓGICA


Fala-se muito, na época actual, em agricultura ecológica. Afinal, trata-se da agricultura tradicional, aquela que contribuía em larga escala para a sustentação das pessoas. E todos procuravam ter uma horta onde semeassem ou plantassem: batatas brancas e doces, cebolas e alhos, couves e nabos, açaflor e pimentos ou malaguetas, e outros primores agrícolas, indispensáveis à cozinha tradicional. E que excelentes eram os cozinhados das nossas avós!

Nos campos, há longos anos arroteados, semeava-se o trigo e, mais tarde o milho, base da alimentação. Quando o chefe de família tinha armazenado, no Outono, o milho necessário ao sustento da família durante o ano, sentia-se um homem feliz.

Os primeiros povoadores trouxeram em suas bagagens, além das alfaias agrícolas, as sementes de trigo, pois o milho não era conhecido. Só chegou aos Açores em 1670, trazido por Dinis Gregório de Melo. O mesmo aconteceu com a batata doce que apareceu na ilha do Pico em 1860. (Mas não posso aqui continuar com a História...)

Havia os hortelões que só se dedicavam ao cultivo das hortas, tendo a seu cuidado várias, de proprietários diferentes. Eles desapareceram e deixou de haver quem os substituísse. A emigração e a facilidade de estudar e tirar cursos secundários e superiores, afastou a juventude dos trabalhos agrícolas, considerados desprimorosos ou terciários. (Esquece-se que muitos emigrantes foram para o Canadá trabalhar nas matas e nos jardins...)

E não só as hortas. Os campos, antigamente destinados à cultura do milho, pois a do trigo quase desapareceu, deixaram de ser trabalhados, à falta de mão-de-obra, muito embora o emprego da maquinaria moderna tenha facilitado a preparação dos terrenos.

No entanto, só estão praticamente aproveitados na produção de milhos para silagem, pois desenvolveu-se extraordinariamente a cultura da vaca. Principalmente os terrenos de mais difícil acesso foram abandonados e a arborização selvagem apossou-se deles. Essas lenhas, como eram conhecidas, serviam para alimentar as lareiras, e até muita era exportada para a Horta para as caldeiras da central eléctrica. As primeiras eram transformadas em “achas”. A que era utilizada na caldeira, diariamente transportadas pelos barcos do Canal, era conhecida por “cacetes”.

Todo esse negócio desapareceu com a introdução dos combustíveis.

Até os “mistérios” do Pico estavam livres. Quase não existiam espécies arbóreas. Hoje são matagais impenetráveis.

É doloroso olhar para as encostas. As faias e os incensos quase chegam junto das habitações, sem qualquer utilidade. Os terrenos, que outrora produziam grandes quantidades de milho, já não se vêm, cobertos que estão pelos matagais.

Importa voltar atrás. Limpar os terrenos, cultivar o milho e o trigo, as couves, as cebolas e as batatas, deixando de os importar a preços elevados. Será uma maneira prática de enfrentar a crise e providenciar sobre o sustento de uma população que cada dia mais sofre com as dificuldades que se lhe deparam.

O Governo tem uma Secretaria que só trata da agricultura. Não basta dedicar-se à selecção e desenvolvimento das manadas.

Tem de enfrentar a situação gravosa com que se debate a agricultura e ajudar os proprietários a voltar para os seus terrenos abandonados e deles extrair os elementos essenciais à sua sobrevivência.

Já algumas vezes abordei este inquietante assunto. Sem resultado. Importa trazê-lo novamente aqui, pois a sua solução não pode ser menosprezada.


Vila das Lajes

11-01-2012

Ermelindo Ávila

domingo, 22 de janeiro de 2012

A VILA QUE NOS RESTA...


Há dias, em sucintas palavras, trouxe à ribalta as obras que estão projectadas para a parte Oeste da vila. Se não o disse, congratulei-me com as acções empreendidas pelo Município para levar a cabo um projecto que dá resposta a “alvitres” com cerca de um século.

Mas a vila mais precisa para se modernizar e acompanhar, com justiça, o progresso que se verifica em outras “colegas”, como dizia há anos passados um jornalista profissional...

Refiro a chamada parte histórica ou, como antigamente se dizia, a Rua Direita e o Meio da Vila onde, em tempos, existiu o edifício da Câmara Municipal, a igreja da Misericórdia, o pelourinho e a cadeia.

O edifício municipal foi retirado para alargamento do largo. A igreja da Misericórdia, já em ruínas, também foi retirada e a respectiva pedra utilizada na Matriz nova. O sítio onde se encontrava é hoje um reduto abandonado... O pelourinho, onde apenas, que se saiba e a dar fé no que relata o historiador Lacerda Machado, apenas serviu uma vez para dar uns açoites numa mulher que tinha roubado uma galinha, desapareceu naturalmente... O local onde estava a cadeia foi ocupado, felizmente, pelo edifício da Junta de Freguesia.

Mas, como já aqui referi algumas vezes e novamente o faço, seguindo o velho adágio água mole em pedra dura tanto bate até que fura, cá estou de novo a chamar a atenção para o lastimoso estado em que se encontra, e repito, o centro histórico da vila.

É que não posso deixar de lembrar três prédios, de traça histórica, que estão abandonados e votados à completa ruína. Refiro, uma vez mais, a Casa da Maricas do Tomé, construída no século XVIII por João Pereira de Lacerda, a antiga Pensão Velha, que pertenceu à Família Bettencourt de Faria e a casa mais antiga do burgo, que pertenceu à família Santos Madruga.

A esta última ligam-me fortes laços familiares muito ternos (foi nela que nasci há quase um século) e custa-me imenso, como é compreensível, por ela passar e vê-la dia-a-dia caminhar para a ruína total e para um desaparecimento inglório. E essa habitação, tal como as outras, faz parte do património histórico da avoenga vila, já hoje muito delapidado. Nela viveu Pedro Pereira Madruga e lhe nasceram os filhos, entre eles o meu bisavô, Joaquim Maria dos Santos, em 1787. O primeiro, porém, nasceu em 1777. Quase três séculos são decorridos!

Hoje não pertence à família Santos Madruga, por razões diversas. Mas não deixa de pertencer a um património colectivo que importa perseverar, tal como as outras, de rica traça arquitectónica.

Já muito desapareceu da vila. É tempo de se pôr cobro a tantos actos de autêntico vandalismo. Por aqui e por ali há prédios em degradação. É importante salvá-los a tempo de uma derrocada final. E, no que se refere às ruas do burgo, há que tomar providências para se evitar a descaracterização da vila. Com a onda de progresso de há meio século, alguns pavimentos antigos, principalmente as antigas calçadas romanas, desapareceram. Uma delas foi coberta pelo moderno asfalto. Porque não fazer uma limpeza e restaurar convenientemente a calçada, sem prejuízo do transito de peões. E o mesmo digo do que resta da antiga “Ladeira da Vila, junto à Maré, onde ainda existe um troço de calçada que importa, igualmente, acautelar.

Caturrices de um ultrapassado na idade? – Talvez não!

Vila das Lajes

4.1.12

Ermelindo Ávila

sábado, 21 de janeiro de 2012

FAÇA-SE !


Com a presença de dois arquitectos, um deles o lajense Arq. Miguel Machado, que deram as explicações do trabalho executado, a um público bastante interessado, nos últimos dias do ano findo o Município Lajense apresentou, no Auditório municipal, o projecto de arranjo da zona oeste da Vila.
Por deficiência auditiva, não acompanhei as exposições feitas pelo distintos técnicos, mas tive, posteriormente, de as escutar através da internet.
Em 15 de Outubro de 1914 o jornal “As Lages”, publicava um artigo intitulado “Pelo embelezamento da nossa Vila”. Em certa altura e depois de considerações pertinentes, o articulista que assina com as iniciais F.C. e que bem cremos ser o jovem lajense Fernando Castro, falecido no alvor da vida, escreveu: “O assunto que vimos tratar hoje refere-se à execução da planta feita e oferecida à câmara municipal deste concelho pelo nosso ilustre patrício, capitão Francisco S. de Lacerda Machado, sobre a projectada avenida que acompanha o muro que circunda esta vila. É certo que as vereações transactas se descuraram no embelezamento da nossa vila, mas também não convém que estas e as outras que virão, sigam pelo mesmo trilho”.
Respondendo ao articulista, na edição de 15 de Novembro do mesmo ano, Lacerda Machado, em artigo intitulado “A Modernização da Vila”, escreve: “Li a local com o maior interesse, Não para lisongiar o meu amor-próprio, mas por ver que nessa terra nem todos se desinteressam da causa comum. Não se trata de aprovar este ou aquele projecto, mas um qualquer, que seja maduramente ponderado e que dê unidade de sequência a tudo que de futuro se construir ou modificar”.
E depois de várias considerações, escreve o douto lajense: Desde já podia fazer-se muito: marcando-se o alinhamento da avenida marginal e a sua ligação com as ruas transversais, o que não custa dinheiro, pôr-se-iam em hasta pública os terrenos disponíveis. Os arrematantes seriam obrigados a tapá-los convenientemente. Ficariam assim delimitadas as novas vias, restando apenas a cargo da câmara os pavimentos, para o que poderia servir-se de fachinas, honestamente lançadas, com absoluta igualdade para todos.
E diz ainda o erudito lajense: A venda proveniente da venda dos terrenos poderia ser aplicada, por exemplo, na abertura das Ruas do Saco e da Miragaia, ligando-as com a Rua Nova, como está no projecto ou ainda no alinhamento da Rua Direita, em direcção à casa do falecido sr. padre Ouvidor, como também se vê traçado no referido plano”.
Em vários artigos, talvez incipientes, tentei chamar a atenção para o projecto daquele que viria a ser o Gen. Lacerda Machado, mas sem quaisquer resultados positivos.
Sobre a apresentação do projecto de Lacerda Machado já decorreram, praticamente, cem anos. Agora, novamente, se debate a modernização da Vila. Que ela venha, rapidamente. Estar novamente a discuti-la é prolongar a sua execução. Mais cem anos? Faça-se o que agora se projecta e que aqueles que cá estiverem daqui a cem anos, que o corrijam.
Um século decorreu e os lajenses a esperar que a sua terra acompanhasse a onda de progresso que atingiu as suas vilas irmãs! Não será tempo demais?
E fico por aqui...
3 -1-2012
Ermelindo Ávila

quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

“Troikinices...”


Chegou ao fim o ano de 2011. Um ano autenticamente aziago, como diz o povo. Pouco de bom a recordar, pois as mazelas que nos legou são as piores que podiam acontecer. E o Pico, a Ilha, já por muitas passou. Tivemos sismos e enchentes de mar, ciclones e tempestades que tudo arrasaram, anos de fome e de infortúnio. Quando no horizonte, se visionava a silhueta de algum navio, parecia a todos que era o navio do trigo, que vinha da América. Quantas vezes não passava de uma mera ilusão. As raízes dos fetos continuavam a enganar a fome... Todavia, tudo suportamos com estoicismos e coragem.

Mas esta “tempestade” que agora nos assola é diferente. Leva-nos tudo – coiro e cabelo - e deixa-nos na penúria e na miséria.

No entanto, os Leaders e os Vips nada sofrem e continuam a usufruir o bem estar das suas elevadas carreiras, a manter os seus vencimentos chorudos, a viver no desafogo e na abundância das lautas mesas, e a viajar nas classes de luxo.

Descem os salários e as reformas. As reformas que são resultantes dos descontos efectuados nos ordenados e vencimentos durante uma vida inteira. E quantas delas não chegaram a ser usufruídas pelos titulares, por razões várias até mesmo por falecimentos!

Por imposição de uma Troika que os actuais gestores europeus inventaram, Portugal e outras nações mais, estão a atravessar um período agudo da sua história.

Depois das nefastas guerras de 1914 e 1939, que milhões de vítimas causaram, criou-se a União Europeia para que novas guerras não acontecessem. Mas uma guerra diferente nos efeitos perversos surgiu. Se desapareceram os campos nazis, nem as actuais potências deixam de dominar a Europa, embora sem armas bélicas mas com a terrível Troika por eles inventada para impor restrições financeiras aos parceiros economicamente debilitados; a promover o encerramento de indústrias, a reduzir os quadros dos serviços, a eliminar carreiras de transportes, a encerrar serviços oficiais e estabelecimentos bancários, a transferir para potências económicas estrangeiras empresas nacionais, e outras actividades económicas, a pôr no desemprego tantos servidores capazes, muitos deles chefes de família, que o mesmo é enviar para a miséria tanta gente válida.

Cresce, pavorosamente, o número dos sem abrigo. Abundam aqueles que, nas grandes cidades, diariamente vão aos contentores do lixo procurar os restos que neles depositaram os serventuários dos restaurantes e hotéis e neles escolher os cartões que lhes hão-se servir de enxerga debaixo de uma arcada ou num canto de rua. Mas não se deixa de dar publicidade a um jantar que, em época natalícia, lhes é distribuído por qualquer instituição, das poucas que conseguem subsistir.

O “poder de compra” quase desaparece. O comércio, principalmente o comércio tradicional, vai encerrando à falta de compradores.

São estas as pavorosas notícias que diariamente nos chegam através dos chamados órgãos da comunicação social.

A Europa está sobre um autêntico vulcão que, não muito tarde, pode rebentar e tudo destruir. E aí, nem o parlamento de Estrasburgo nem o governo de Bruxelas escaparão.

Deus queira que esteja enganado...

Todavia, importa ter esperança e confiança no futuro. O Senhor está connosco. A última palavra será a Sua.


31-12-2011

Ermelindo Ávila

quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

O NASCIMENTO DO MENINO


Maria estava para ser Mãe. O Menino nasceu quando estava em Belém. As estalagens estavam cheias daqueles que, descendentes da Casa de David, se tinham ido recensear, tal como José. E não havendo lugar nas hospedarias, recolheram-se numa casa de animais. O Menino aí nasceu e teve como berço a manjedoura que lá existia. E no meio desta pobreza e desconforto, Maria envolveu o Filho em panos. Era o enxoval que possuía.

No entanto, o Céu iluminou-se. Um coro de anjos entoou o “Gloria in excelsis Deo” e os pastores que andavam pelos montes a guardar os rebanhos, acordaram sobressaltados. Uma estrela lhes apareceu e lhes indicou o caminho até junto do Menino e Seus Pais.

E o dia do Nascimento do Menino, que era o Filho de Deus, hoje, decorridos 2011 anos, ainda se celebra.

Os templos católicos iluminam-se e revestem as melhores alfaias para festejar a histórica data e o mais assombroso acontecimento da Humanidade.

O Nascimento de Jesus é um facto histórico que se encontra narrado nos Evangelhos. Celebra-se no dia 25 de Dezembro. Não importa que seja a data exacta. Importa celebrar o festivo evento.

Diz Ariel Alvarez Valdês (1): Jesus Cristo não nasceu no dia 25 de Dezembro. Esta é uma data simbólica. Porém, não podia ter sido escolhido um dia melhor para festejar o seu Nascimento. E se alguma vez, com eventuais descobertas, se viesse a conhecer exactamente o dia em que Jesus nasceu, não faria sentido mudar a data. Deveria continuar a celebrar-se a 25 de Dezembro. Porquê? Porque aquilo que se pretendeu, ao fixar esse dia, mais do que evocar um facto histórico, foi transmitir uma excelente mensagem.

E escreve o mesmo douto articulista: Nenhuma outra celebração religiosa – nem sequer a Páscoa, que é a mais importante das festas cristãs tem a carga de ternura e recolhimento que o Natal encerra.(2)

Até ontem havia quem celebrasse o Natal das mais diversas e díspares maneiras. Eram os jantares de colegas e amigos, com a distribuição mútua de prendas; as reuniões familiares junto das esplendorosas árvores do Natal e as mais diversas ofertas distribuídas por um improvisado “Pai Natal” para uns ou o São Nicolau para outros. As casas enfeitavam-se, e nelas não faltavam as vistosas “árvores de Natal”; as ruas principais iluminavam-se; e até os concursos dos Presépios se faziam aqui e ali.

Havia quem, para celebrar o grande acontecimento, se lembrasse dos pobres e necessitados. Todavia, no presente ano e, com certeza, nos que se lhe vão seguir, talvez isso não aconteça. Mas importa que haja quem socorra não só esses pobres, como igualmente aqueles que agora são privados de algum rendimento do seu trabalho, para que, ao menos no dia de Natal, encontrem uma mesa onde o pão chegue para todos os familiares, principalmente os idosos e as crianças, pois, para estas, nem talvez um brinquedo haja, como era tradição.

*

Ao trazer aqui algo do que é, ainda hoje, a comemoração do Nascimento do Menino Jesus em Belém, recordo o Natal da minha adolescência e juventude, dezenas de anos são passados.

Dias antes eram as novenas, celebradas com esplendor litúrgico, já noite dentro, e com largo concurso de fiéis. Anteriormente, era a novena, incluída na Missa diária, ao amanhecer, para que os trabalhadores nela tomassem parte entes de seguirem para os seus trabalhos agrícolas. E muitos compareciam com as respectivas famílias.

Ainda tenho presente os cânticos entoados pela Capela, no antigo coreto da igreja de S. Francisco das Lajes, a servir de Matriz. O que encerrava a cerimónia tinha para nós um significado especial:

Ó Infante suavíssimo / Ó meu amado Jesus / Vinde alumiar minh’alma / Vinde dar ao mundo luz.

Esperávamos, ansiosamente, a Missa do Galo, à meia noite. Toda a gente corria para a Igreja. Não havia iluminação pública. Utilizavam-se no percurso os candeeiros as velas de estearina e, mais tarde a petróleo. O templo também era iluminado com candeeiros (lamparinas) a petróleo e, depois, com candeeiros incandescentes, quando estes apareceram.

O Presépio estava “escondido” com uma cortina, e só era desvendado quando o celebrante entoava o Gloria in excelsis Deo! As campainhas tocavam e os sinos repicavam, anunciando a Boa Nova. Não se batiam palmas mas havia um desusado sussurro na assistência, principalmente entre as crianças, a levantar as cabecinhas, no desejo de melhor verem o Presépio e a gruta onde se encontrava a manjedoira com o Menino reclinado e, junto, Seus Pais. Embeveciam-nos também o repuxo de água que, saindo de algures, caía no pequeno “lago”. Tudo eram surpresas e motivos de alegria.

As prendas do Menino Jesus, de mistura com figos passados, alguns deles das próprias figueiras da horta, eram bem singelas mas encantavam as crianças. Todavia, só apareciam quando eles acordavam no dia de Natal e as procuravam debaixo do travesseiro ou em sítios mais recônditos. Fosse o que fosse, eram essas modestas prendas motivo de grandes alegrias e enorme prazer para a miudagem.

Depois, tudo se modificou. Apareceram as árvores de Natal, enfeitadas e iluminadas (quando apareceu a electricidade) e nelas as prendas destinadas não só aos miúdos da casa como, igualmente, aos adultos. Uma maneira mais magnificente de celebrar o Natal. E, em algumas habitações, de mais elevados rendimentos, surgia o “Pai Natal” a substituir o Menino Jesus que, antes, era quem deixava as prendas ... Uma maneira paganizada de celebrar o Nascimento do Redentor...

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1)Ariel Alvarez Valdês, in Revista “Bíblica”, ano 57/Nº337. Tradução de Lopes Morgado.

2) ibidem

Vila das Lajes,

25 Novº.2011

Ermelindo Ávila

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

OS ANTIGOS BOLIEIROS

O Caetano e o José das Cruzes eram duas figuras típicas que, no primeiro quartel do século passado, percorriam, diariamente, a estrada que vai das Lajes à Madalena, ou vice-versa.

Conduziam o carro da mala, como era conhecido. Um carro de bestas que fazia o transporte da mala do correio e de passageiros entre as duas vila, principalmente, aqueles que viajavam até à ilha do Faial.

As mulas, já envelhecidas e cansadas, faziam o trajecto, pausadamente, havendo ocasiões em que os passageiros eram forçados a sair dos seus lugares para subirem a pé as ladeiras do percurso. E esses tradicionais transportes não tinham espaço para muitos passageiros. Nem uma dúzia sequer. É por isso que andavam sempre lotados. Raramente, alguns dos passageiros que neles transitavam, ficavam pelas freguesias do percurso, o que permitia a outros ocuparem os lugares então vazios.

Os boleeiros ou cocheiros não tinham grandes pressas. Deixavam os animais seguir o seu caminho, vagarosamente, pois sabiam que deles não podiam exigir mais.

Enquanto uma parelha ficava no final do percurso, a descansar, outra tomava o lugar. E assim, alternadamente.

Os carros eram pouco cómodos. Deviam ter iniciado a carreira quando a estrada Madalena -Lajes ficou completa. E as pontes da Ribeira do Meio tem as datas de 1877 e 1879. Os acentos estavam gastos de tantos anos de uso e não ofereciam nenhum conforto aos utentes.

No entanto, já em 1920 existiam na Madalena carros de aluguer pertencentes a Manuel Garcia da Costa, Manuel Francisco da Silva e José da Silva Telheiros. Estes deviam ser carros de bestas como eram conhecidos, pois, além desses, havia dois automóveis pertencentes, respectivamente, a António Moniz Furtado de Simas e Estevam Garcia da Costa.

Nos princípios dos anos vinte do século passado, fundaram-se as empresas de camionagem Cristiano, Lda. e Empresa União Automobilística Madalense. Esta teve pouca duração e o respectivo património foi incorporado na Cristiano, Lda. que hoje se mantém e explora a actividade em toda a ilha.

As lanchas do canal faziam duas viagens, uma de manhã e outra ao meio dia. As camionetas, respeitando aquele horário, partiam das Lajes às quatro horas da madrugada para “apanharem” a lancha e regressavam, depois de ela chegar ao porto da Madalena, no princípio da tarde. O movimento de passageiros, de diminuto que era, não aconselhava outros horários, como actualmente.

Era sempre uma festa quando, no início, as camionetas chegavam às Lajes, meia tarde, vindas da Madalena, transportando alguma carga, mala do correio e passageiros. Um dos primeiros condutores foi Flamínio d’Oliveira Frayão, da Horta, que aqui fixou residência com a esposa e filhos e foi um dos introdutores do futebol, nesta Vila, em 1924. É mesmo um dos subscritores dos primeiros e únicos estatutos do Clube Desportivo Lajense (Alvará de 28-4-1924). A primeira bola de futebol que existiu nas Lajes foi por ele trazida da Horta.

Simpáticos, atenciosos e serviçais eram, e são, os condutores das camionetas do Pico. Podia lembrar o Manuel Prudêncio, o Luís Caetano das Neves, o Manuel Fernandes, o Emílio Azevedo e outros mais, como igualmente, os respectivos ajudantes, como o José Luís e o António de São João. Durante estes anos todos a lista seria avantajada. No canal foi o Caetano e o histórico Gilberto.

O Caetano, que foi um dos bolieiros dos carros de bestas, ficou pela Madalena e dedicou-se a fazer “mandaletes” entre os portos do Pico e Faial nas lanchas do Canal. E quando já não podia fazer as viagens, era vê-lo sempre no cais, já envelhecido e alquebrado, à chegada das lanchas...para tomar o cabo e receber algumas moedas de antigos “fregueses”. Causava pena vê-lo por ali, já sem quase ninguém que lhe prestasse atenção.

O José das Cruzes desapareceu cedo e pouco o conheci. E outros mais houve, bons serviçais que se distinguiam pela sua seriedade e honestidade.

Por esta Ilha além, outras figuras houve que ficaram esquecidas para sempre e que, no entanto, nos seus tempos, tiveram alguma projecção nas sociedades onde viveram. Recordo o Manuel Joaquim (Búzio), o João da Joaquina e outros mais que faziam o percurso a pé, às segundas e quintas-feiras, da Piedade à Lajes, conduzindo a mala do correio para todas as freguesias e lugares, onde existiam postos do correio a cargo de comerciantes idóneos. É pena que assim aconteça e que esses servidores hajam passado ao esquecimento das gerações que se lhes seguiram. A todos presto a minha singela homenagem.


Vila das Lajes,

15-11-2011

Ermelindo Ávila