domingo, 20 de novembro de 2016

O JORNALISMO

A MINHA NOTA

       Desde o século XVII que em Portugal se cultiva o jornalismo. E já não refiro Gutenberg, o inventor da tipografia.
         Inicialmente eram as folhas clandestinas, imprensas ou manuscritas, que circulavam entre as classes mais destacadas. Depois, generalizou-se e veio a surgir o grande jornalismo.
         Nas terras pequenas foram aparecendo os pequenos jornais, onde, ao lado das grandes notícias ou das questões políticas que sempre as houve, eram publicadas as notícias de mero interesse social: nascimentos, casamentos, falecimentos... E não faltava a propaganda comercial de certos produtos.
         Desde 1942 que os jornais e as folhas soltas foram objecto da “censura”oficial, para evitar que a acção governativa fosse criticada...
         Os Açores não fugiram ao aparecimento do jornalismo. Presentemente tem orgulho de possuir o mais antigo jornal português – o “Açoriano Oriental”. Embora haja passado por diversas vicissitudes, conseguiu singrar estes anos todos e hoje continua a ser um dos mais destacados órgãos da Imprensa açoriana e portuguesa.
          Por cá, mantém-se ainda o centenário ”Diário dos Açores”, e os semanários “A Crença”, já com cem anos e “O Dever”, a atingi-los em poucos meses.
Infelizmente, desapareceram, na Horta o diário “O Telégrafo” e em Angra o diário “A União”. Nas colecções arquivadas nas Bibliotecas encontra-se a história do século passado, destas ilhas, principalmente dos distritos da Horta e de Angra.
         A Ilha do Pico nunca publicou um jornal diário. Foram vários os que surgiram, desde o século XIX, nos três concelhos da Ilha mas quase todos de vida efémera e alguns deles criados e mantidos pela política partidária, o que explica a sua escassa existência. Mas outros houve de boa qualidade literária, como sejam “A Voz”e “Os Sinos da Aldeia”, do saudoso Mestre da Cultura, Padre Nunes da Rosa. O mais recente, embora com a categoria de boletim paroquial, foi “0 Bom Combate” fundado e mantido pelo P. José Fortuna, enquanto Vigário e Ouvidor da Vila da Madalena. E não deve esquecer-se o mensário “Ecos do Santuário” do P. Filipe Madruga, enquanto Pároco e Reitor do Santuário do Bom Jesus, em S. Mateus, onde colaboraram personalidades distintas do clero e onde a vida paroquial e social daquela freguesia picoense, e não só, está devidamente registada.
         Hoje a imprensa picoense tem certa estabilidade, pois, ao contrário do que se possa julgar e em certa medida aceitar, existe à margem dos Partidos. E felizmente que assim acontece.
         Além de “O Dever”, já referido, conta ainda com os semanários “ilha maior”, a atingir os trinta anos e “Jornal do Pico”, publicado em São Roque do Pico, há quase catorze anos.
Os jornais do Pico, ao que creio, não estão enfeudados à política, propriamente dita. Pertencem a grupos locais e procuram ser defensores dos direitos e das reivindicações dos respectivos territórios. E ainda bem que assim procedem.
O “Jornal do Pico”, onde são publicados alguns dos meus escritos, desde a sua fundação, já lá vão doze anos, tem procurado ser, com dignidade e persistentemente, o defensor dos interesses do seu concelho, Louvores merece, por assim continuar a olhar com dignidade para sua terra e suas gentes, sem deixar de trazer ao de cima, sempre que oportuno, os interesses picoenses em geral.

Lajes do Pico.
 18 – Outº-  2016

Ermelindo Ávila

domingo, 23 de outubro de 2016

“ARREADA EM FALSO...”

NOTAS DO MEU CANTINHO


         Na Terra da Forca rebentou um foguetão. Alguém, no Meio da Vila, gritou: Baleia! Baleia!” Da “casa de Pasto” do Tibério saíram dois ou três mocetões e correram para a Pesqueira. Mas os outros ficaram quietos... Na Lagoa, estavam ancoradas algumas embarcações, mas a “Lourdes”, a “Margarida” e a “Zélia” não estavam lá... Entraram nas antigas “Casas dos Botes” e só viram um – o “Santa Teresinha”- que ainda hoje lá se encontra como peça do Museu. O restante espaço estava completamente transformado...
         Olharam para a “Lagoa de Cima” e ali não havia qualquer movimento. Não aparecia o oficial Domingos Inteiro, nem o José de Brum, para mestrar a “Zélia”, nem o “Portugal”, nem mesmo o grande remador “Palim”. Da Granja, da Canada de Jorge Dutra, do Cabeço do Geraldo, e de outros sítios, onde muitos tinham as suas terras de cultivo, não aparecia nenhum baleeiro, nem mesmo das habitações haviam saído pressurosas, como era costume, as mulheres dos baleeiros com a saca ou a cesta com o pão ou bolo, o peixe ou o queijo, para “matar a fome” no alto mar.
         Aqueles que haviam corrido na vila para “apanhar os primeiros botes que se fizessem ao mar”, pararam e espreitaram para a “Vigia” da “Terra da Forca” onde não havia qualquer sinal de baleia. Nem foguetes, nem bandeirolas pretas ou brancas ou as duas cores em conjunto, cujo significado toda a gente conhecia: preta - baleia à vista; branca - botes fora; preta e branca - botes fora e baleia à vista.
         A vida das pessoas, dentro da Vila e mesmo no subúrbio da Ribeira do Meio, continuava calma e sem movimentação especial. 
Pararam e reflectiram: Afinal, uma “arriada em falso”. Já não há baleação, nem se caminha, depois de correrias loucas por essas terras abaixo, para apanhar os primeiros botes, para chegar, antes dos outros, junto da baleia grande, do bule, ou do cardume (baleias pequenas).
         Hoje vai-se somente ver as baleias. Elas vêm cá bem dentro, pachorrentamente, banquetear-se nos “bancos de chicharros”, nas “marcas” das cavalas, e de outros peixe que, em cardume se aproximam da costa à procura de “ruama”.
         E não são os velhos baleeiros que aproveitam a sua aproximação. Esses não podem “tocar-lhes”. Desde 1987, ano em que se caçou, com o arpão e a lança, a última baleia (cachalote, melhor dito). É crime caçar um cetáceo, seja cachalote, golfinho ou toninha. E a lei é severa!...
         Deixou de se produzir o óleo que era exportado para países estrangeiros e trazia para a terra boas divisas. Uma actividade na qual se empregavam umas dezenas de homens do Mar, e cuja proibição a muitos deixou na penúria. Até o pequeno comércio foi prejudicado, pois era habitual vender “fiado” durante o ano para receber os créditos, quando “se faziam as contas e se distribuíam as “soldadas da baleia”.  
         Aqueles que mandam e impuseram a proibição conhecem – creio - o enorme cetáceo unicamente pelos livros... Nem pensam sequer que a Natureza se mantém em equilíbrio, quando o homem, seu “rei”, a sabe aproveitar dignamente e em proveito próprio...
         Nas ruas da vila, outrora deserta de veículos automóveis, onde o rapazio brincava, despreocupadamente, desapareceram os jogos baleeiros, aliás, como outros, Mas estes praticam-se em recintos apropriados, enquanto os baleeiros nem conhecidos são...
         Não cause espanto que volte a este assunto. Estou certo que tempo virá em que o homem terá necessidade de utilizar todos os meios que a Natureza lhe proporciona para poder subsistir. Não se vão tornar antropófagos, mas saberão colher da Natureza o que ela gratuitamente põe à sua disposição para sobreviver.
         Concedo que jamais voltará a ouvir-se o sinal de “baleia à vista”, porque outros meios estarão à disposição dos seres humanos. Creiam ou não os actuais cientistas... 
          Enquanto elas por cá andarem, haverá a prática do “whale watching”, enquanto outra modalidade “desportiva” não surgir.
          Ontem foi a caça ao moleiro, de que Ernesto Rebello nos deixou interessante descrição; depois foi a caça à baleia para fins industriais – e quanto valeu no período de guerra de 1938-45! Agora visitam-se os cardumes que chegam esfomeados ao “santuário das baleias”, como já se diz. E depois?...
         Vila Baleeira,
         25-09-2016

         Ermelindo Ávila

E DEPOIS ?...

Notas do meu cantinho


       O quase silêncio estabeleceu-se na Vila. Ainda hoje, alguém que não é de cá me fazia a pergunta: A Vila foi sempre assim? Respondi-lhe, como não podia deixar de fazer, com a realidade dos factos.
         O movimento, principalmente em certas horas do Pico, era bastante elevado. Além de outros veículos, chegavam e partiam os autocarros com bastantes passageiros e não raro havia desdobramentos. Mas essa época passou. Em certas horas do dia ninguém se encontra por aí, nem os de fora, nem os que cá residem, e bem poucos são.
         O verão passou. Os visitantes regressaram às suas terras e os estudantes, aliás bem poucos, às suas escolas. Deixou de se ver os grupos de turistas, que, despreocupadamente, passavam à nossa porta.
         Ainda existem por cá algumas repartições públicas, mas não aquelas que cá deviam estar instaladas.
         O concelho é o de maior extensão agrícola, mas os serviços respectivos foram ardilosamente de cá afastados para se fixarem em local mais agradável aos respectivos serventuários. E não foi sempre assim. Os funcionários de então já se afastaram por aposentação. Outros foram substitui-los, mas a situação gravosa continua. Não será tempo mais que suficiente para pôr as coisas nos seus devidos lugares? Os gestores públicos são outros e amanhã outros ainda serão.
         É tempo de se criarem serviços, aliás indispensáveis ao funcionamento normal da vila, e neles fixar quem deseje neles trabalhar.
         E o que vem de dizer-se não constitui novidade. Por esse País fora estão as Autarquias a criar serviços, para fixar os respectivos jovens. E são os mais diversos e promissores.
         Criem-se também aqui serviços que promovam a criação de postos de trabalho para a juventude, e não só. Reorganizem-se os existentes de maneira mais promotora de ocupação de braços que garantam o emprego e a consequente subsistência das famílias e proporcionem a fixação dos jovens porque, felizmente, ainda há alguns que desejam voltar.
         Mas tudo tem de ser promovido com acerto e isenção, não vá adoptar-se soluções erradas, como aconteceu. Como diz o velho ditado: Querer desculpar uma asneira é cometer outra! Há que criar uma legislação específica para a juventude açoriana.
         Algumas vezes tenho aqui, nos meus escritos, tratado este tema, embora sem resultado. Enquanto me for possível, a ele voltarei para que a solução devida seja encontrada. Serei importuno para alguns? Não importa. Em toda a minha vida tenho procurado, denodadamente, estar ao lado da Terra que muito amo e das suas gentes, minhas irmãs.
         Aceito que o Mundo esteja em transformação política, social e económica e que essas transformações cheguem com seus méritos e malefícios aos lugares pequenos. Demais, estamos em ilhas rodeadas de mar por todos os lados, o que condiciona demasiado o viver dos naturais. E é, sobretudo isso, que importa que governantes tenham em atenção. Não podemos, como os barcos à deriva, ficar por aqui sujeitos às intempéries que todos os Invernos assolam, de maneira desastrosa, as ilhas e os que nelas habitam, principalmente as mais carecidas de meios concretos de sobrevivência. 
         A Ilha do Pico, mercê da sua constituição geológica, tem características especiais e é isso que devem ter em atenção aqueles a quem está entregue a administração da coisa pública, para que não haja a duplicidade de filhos e enteados...
         Estarei a laborar em erro?... O tempo o dirá.
A Vila das Lajes - chamada maldosa ou graciosamente de avoenga (velha e “canoca”?...) tem legitimidade para usufruir do Direito e que o seu governo seja entregue a quem estiver disposto a pugnar, legítima e entusiasticamente, pelo progresso e desenvolvimento do seu povo.  
         Abandoná-la à sua sorte é um crime desastroso que não pode nem deve consentir-se. Os picoenses não têm só deveres, mas direitos como quaisquer ilhéus ou continentais.
E, dentro do Pico, há lugares mais beneficiados do que outros o que está a provocar (maldosamente?) o desequilíbrio económico e social. É preciso que se tenha isso em atenção e se tomem medidas de ordenamento correctas e eficazes. Mas já! Parar é morrer! E o mal pode ser contagioso...

Vila das Lajes.
22-09-2016

Ermelindo Ávila

NOVEMBRO...

NOTAS DO MEU CANTINHO


         Aproxima-se o mês de Novembro. Desde os meus afastados anos da juventude sempre o considerei um mês triste. O mês dos crisântemos, a flor que nos acompanha nas horas de tristeza...
         Hoje é diferente. Encaro o penúltimo mês do ano com a naturalidade possível e vivo os seus dias sem as preocupações de outrora.
         O dia de todos os Santos era e é ainda, na tradição popular, o “dia do pão por Deus”. Tal como hoje, ia-se bater às portas das pessoas amigas e conhecidas pedir Pão por Deus. E a saquitola nunca vinha vazia.
         Era dia santo. A Igreja Católica, e no tempo era a única, embora hoje haja um ou dois núcleos de outras “crenças”, celebrava no dia um a Festa de Todos os Santos. Segundo os Teólogos, é a festa da santidade. Evocam-se todos os santos que estão junto de Deus, mesmo aqueles que não foram canonizados. É um dia muito especial em que celebramos a santidade de Deus, a plenitude da vida cristã, a comunhão eclesial com os Apóstolos, Mártires e os santos conhecidos e anónimos. Um dia em que a Igreja chama a atenção dos fiéis para a vivência da santidade cristã, ou seja, a felicidade e a liberdade plena dos cristãos.
         Para as crianças era e continua a ser o “dia do pão por Deus”!
Logo a seguir, vem o dia dos Fiéis Defuntos. Nesse dia os sacerdotes tinham, hoje desnecessário, o privilégio de celebrar três missas, privilégio que só se repetia pelo Natal.
A igreja utilizava as vestes litúrgicas negras – hoje substituídas pelo roxo – e, geralmente, armava no corpo dos templos um cadafalso, coberto de um pano negro, e, junto dele, fazia os “responsórios” pelas almas dos defuntos.
           Ao amanhecer, celebrava-se duas Missas para os paroquianos poderem, depois, ir para os seus trabalhos agrícolas. Normalmente, já vinham preparados para seguir para os seus terrenos, pois traziam, além do trajar apropriado, os utensílios para executar as labutas do campo.
         A meio da manhã, celebrava-se a Missa cantada de requiem, quase sempre de três padres, pois o pároco da Silveira estava presente com os dois então residentes na vila.                 
          As pessoas trajavam de preto, sinal de luto, e neste seu trajar queriam recordar os familiares falecidos. Era, na realidade, um dia sombrio...
           Presentemente, tem lugar, no mês de Novembro, a Festa de Cristo Rei, cuja celebração começou na Matriz das Lajes, após a criação dos grupos da Acção Católica. A festa litúrgica iniciou-se na Diocese na década de Vinte do século passado. Era Bispo da Diocese Dom António Meireles, que depois foi transferido para Coadjutor da Diocese do Porto, onde faleceu já bispo diocesano.
           Não se celebravam no dia indicado pela Liturgia, mas no domingo seguinte, porque, antes, a freguesia de São João já celebrava a solenidade
de  Cristo-Rei e o pároco, P. Inácio Coelho, era co-celebrante permanente nas festas da Matriz das Lajes.
      Os Pe. José Vieira Soares, Pároco e Ouvidor das Lajes, P. Manuel Vieira Feliciano, cura de São Bartolomeu, da Silveira, e Pe. Inácio Coelho, Pároco de São João, constituíam um trio sacerdotal que colaborava assiduamente nas festividades das respectivas paróquias. Entendiam-se fraternalmente e as respectivas actividades paroquiais eram previamente combinadas. Mas o grupo desfez-se, quando faleceu o P. Vieira Soares e, a seguir, o P. Inácio Coelho foi residir para os Estados Unidos
         Quando ficou na situação de manência – ou reforma, sem quaisquer remunerações... - o P. João Xavier Madruga passou a residir nas Lajes e era um permanente auxiliar, principalmente na oratória, que  nunca recusava.
         O que venho de escrever faz parte da nossa história. Importa pois, registá-lo Ad perpetuam rei memoriam.             
            
Lajes do Pico
11-Outubro-2016
Ermelindo Ávila                  

OUTONO: O TEMPO DAS COLHEITAS

NOTAS DO MEU CANTINHO                                        


         Outrora assim era. Hoje é bastante diferente. Os hábitos e costumes vão-se modificando com o decorrer dos tempos e as pessoas vão-se adaptando aos novos sistemas de vida. E os mais antigos, que ainda recordam os velhos tempos, têm de se ir habituando aos poucos, sem apelo nem agravo.
         Semeava-se o milho geralmente na Primavera e colhia-se no Outono. Uma cultura que exigia grandes trabalhos: o semear, sachar, abarbar, desbastar, cortar a espiga e, depois, a colheita. Tudo tinha as suas épocas próprias e precisava de uma atenção especial da parte do Lavrador.
         O trigo, embora fosse e ainda é um cereal menos produtivo, não necessitava que o Lavrador lhe dispensasse tantos cuidados, a não ser, no período da maturação, vigiá-lo da praga (pássaros diversos, principalmente o canário) que o perseguia para lhe retirar o grão... E foi certamente, por isso que o lavrador o substituiu pelo milho, quando o cereal apareceu.
         O milho passou a ser o sustento principal das famílias pois era e é um cereal muito mais substancial. Grandes extensões de milho eram cultivadas. E foi assim que se procedeu à arroteia de muitos terrenos que estavam ainda abandonados, principalmente no alto da ilha.
         Presentemente, essas terras estão a ficar abandonadas ou transformadas em relvados para apascentação de gados domésticos.
         Mas, com a cultura do milho, o mesmo vai acontecendo. Deixou de haver a “desfolhada”, tal como a descreve Júlio Dinis, e passou a fazer-se a “ensilagem” destinada ao sustento do gado doméstico. (A ensilagem é feita em grandes sacos de plástico e não em silos, de dispendiosa construção)
Quando na ilha não existiam estradas (a estrada Lajes-Piedade foi inaugurada em 1943), eram os tradicionais “carros de bois” que faziam o transporte do milho, geralmente em maçarocas. Passavam pelas ruas da vila, fazendo uma grande chiadeira, que por vezes causava incómodo principalmente às pessoas doentes. Isso levou a Autoridade Administrativa a publicar editais proibindo o estridente ruído que foi evitado com a aplicação de qualquer produto nos eixos.

         A esfolhada, ou retirada da casca da maçaroca, reunia velhos e novos. Não faltava mesmo o elemento feminino. Era sempre um serão agradável, onde se contavam “casos”, anedotas, ditos jocosos, por vezes. Um alvoroço quando aparecia o festejado “milho rei”.
Chegaram – e felizmente! – as estradas. Depois as carrinhas motorizadas substituíram os carros de um boi ou de dois bois. Praticamente desapareceram as esfolhadas, feitas nas casas rurais dos próprios terrenos de cultivo. São poucas as Casas de lavoura que cultivam ainda este cereal. Era uma cultura trabalhosa e hoje não há, quase, mão-de-obra. A população diminuiu bastante e a juventude actualmente não vai para o trabalho rural. Ou estuda ou sai da ilha à procura de emprego nas cidades. Isto mesmo já escrevi tantas vezes que, suponho, vai-se tornando talvez fastidioso ler, uma vez mais, estas pequenas crónicas. Agora são as ensilagens que para comodidade do lavrador, ficam arrecadadas nos próprios terrenos de produção e servem, principalmente no Inverno, para sustento dos animais bovinos ou “gado da porta” como é conhecido.
         Talvez por isso, o dia da ensilagem é um dia especial. Geralmente, reúnem-se os familiares e os amigos e no final há a tradicional “merenda” que mais não é do que uma pantagruélica e abundante refeição especial preparada para aquele dia.
         O pão de milho e o bolo são raridades que praticamente se encontram, em pequenas quantidades, embora de fabrico caseiro, nos mini e super mercados.
         Actualmente o maior consumo vai para o pão de trigo fabricado nas Padarias licenciadas. Mas, mesmo assim, as pessoas vão-se habituando a substituir o pão por outros produtos que, dizem, são mais saudáveis.
         Hoje, é tudo tão diferente. A vida familiar vai-se modificando, gradualmente.

Lajes do Pico:
 19-10-2016

Ermelindo Ávila

quinta-feira, 29 de setembro de 2016

Turismo Rural

Notas do meu cantinho

Há dias ofereceram-me um passeio pela ponta Leste da Ilha. Estive em três ou quatro freguesias e admirei o surto de desenvolvimento urbano que me foi dado apreciar ao longo do percurso. Sobretudo causou-me surpresa agradável alguns dos prédios recentemente edificados, com a particularidade de serem construídos em pedra lavrada, sem quaisquer vestígios de cimento ou cal. Uma autêntica maravilha, a fazer recordar os prédios antigos, onde a cal e muito menos o cimento entravam, mas apenas o barro da terra a segurar as taliscas
Uma das proprietárias informou-me que tinha vinte e oito camas à disposição dos visitantes e que naquele momento estavam quase todas ocupadas. Mas outros prédios, ao redor desta ilha, foram preparados para o chamado turismo Rural, uma nova modalidade que está a ser posta à disposição, principalmente do turista europeu. Disso dá testemunho o número das viagens que, durante o verão, se fizeram da Holanda para o Pico e que, sem explicação, a dar crédito à comunicação social, deixou de viajar para esta ilha, ficando somente pelas de S. Miguel e Terceira. Mas essa atitude inesperada da TUI não põe fim aos que viajam da Europa e da América para a Ilha Montanha. Há qualquer coisa de agradável que os atrai, sem grandes propagandas, a não ser aquela que transmite para o exterior a Internet.
Certo é que, não raro, quando passamos pelas estradas picoenses, do litoral ou mesmo do interior, frequentemente nos cruzamos, normalmente com casais estranhos à ilha. E examinando os mapa da ilha de que são portadores, atravessam não somente as estradas, como os caminhos vicinais e até as canadas e os trilhos, admirando as árvores, as paisagens e os panoramas, e gozando, ao que bem se julga, o clima ameno que envolve a ilha.
É interessante esta nova modalidade do turismo rural, que se está a desenvolver em todas as freguesias da ilha, mas principalmente naquelas em que a emigração deixou muitas casas desabitadas e que agora estão a ser louvavelmente aproveitadas.
O Pico, porém, não pode limitar-se unicamente ao TURISMO RURAL, pois o seu rendimento pouco mais vai além dos alugueres das camas e de uma ou outra refeição tomada nos pequenos restaurantes que todas, ou quase todas a freguesias já possuem. É interessante ver por aí, num deambular pacífico, os simpáticos turistas, mas importa retirar dessa nova actividade industrial maiores rendimentos, que beneficiem os jovens com empregos estáveis e, consequentemente, promotores de progresso e e desenvolvimento da própria economia.
É tempo de se pensar a sério na indústria hoteleira, pois não bastam os estabelecimentos de categoria diversa, que existem.
A Vila das Lajes do Pico necessita, sem demora, de estabelecimentos hoteleiros que promovam o turismo “clássico”, que possa responder às exigências de visitantes titulares de poder económico, e muitos são.
Temos restaurantes de boa categoria, mas não existem ainda, na vila e seu centro histórico, estabelecimentos que possam receber os turistas com as comunidades que alguns exigem e, para os satisfazer, necessita-se de, pelo menos, um estabelecimento hoteleiro de três ou quatro estrelas.
Vai ficar vago o edifício da Escola Secundária, com a transferência daquele serviço para as novas instalações dos Biscoitos -extra-muros, digamos.
Não será tempo de se pensar na utilização daquele grande imóvel?
Porque não utilizá-lo para um estabelecimento hoteleiro condigno? Espaço não falta. Nele podia ser instalada, ao menos, uma POUSADA DA JUVENTUDE…
Fica o alvitre.
Engrade, 12-09-2016

Ermelindo Ávila

A grande lição

Notas do meu cantinho


         Procurei, no último domingo, estar bastante calmo e aguardar o desfecho da grande “contenda”, sem sobressaltos.
Gosto de futebol. É o único desporto que me provoca certo entusiasmo, mas procuro assistir às competições que a TV nos “oferece” sem preocupações de espécie alguma. A minha idade já bastante avançada e a caminhar para o ocaso, não aconselha e nem permite grandes entusiasmos. E domingo, dispus-me a não ser diferente.
         Nunca pratiquei qualquer desporto embora saiba apreciar alguns. Nem na minha infância. Quando foi organizado o Clube Desportivo Lajense, uma instituição lajense a caminhar para o século, - criado por alvará de 28 de Abril de 1924, 92 anos são decorridos - limitava-me a ir de fugida ao “juncal” ajudar a carrear material, com outros miúdos, para a terraplanagem do futuro campo. Mas isso passou, pois outras andanças percorri...
         Nem mesmo quando andei ausente da terra-mater, por razão de estudos... Jogava o Lusitânia, o Sport Angrense, o Marítimo, entre si ou com os grupos que passavam, vindos de S. Miguel ou Madeira, mas muita vezes nem sabia o resultado, pois ver os jogos era pecado de bradar aos céus. Mas isso fica para trás, entregue ao esquecimento...
         Domingo, Portugal viveu um grande dia de futebol. A vitória da selecção nacional portuguesa empolgou toda a Nação, desde os mais altos dirigentes, e os milhares e milhares de portuguesas da Diáspora. O Mundo inteiro que acompanhava o desenrolar do Campeonato Europeu vibrou, como jamais se viu.  As bandeiras de Portugal flutuavam, em progressão, por toda a parte. As estações da Rádio e da TV transmitiam o Hino Nacional, que todos os portugueses, sem qualquer distinção – social ou política – acompanhavam com vibrante entusiasmo. Uma festa! Uma grande festa, como há muito não se via em Portugal! Aquele golo de Éder jamais será esquecido!
         O entusiasmo delirante, mas comedido, dos portugueses foi uma autêntica lição, que não pode nem deve ser esquecida. Portugal esteve unido, aos milhares, por toda a parte. Os verde-vermelho da Bandeira das Quinas, os cachecóis, os galhardetes, flutuavam, ordeiramente, em manifestação festiva. E não havia uma voz discordante: Só se ouvia PORTUGAL! Era lindo. Uma lição magnífica para toda a gente de todas as idades. Uma lição ímpar, como há muito não se via em Portugal, repito.
         Nada parecido com as manifestações arruaceiras que, de dias-a-dias, saem às ruas das cidades portuguesas, gritando “slogans” há muito “estafados” e que, por vezes, causam pejo e vergonha...
         É preciso que os portugueses não esqueçam a lição, grande lição de Domingo, que principiou ao anoitecer de domingo em Paris e continuou vinte e quatro horas depois, em terras de Santa Maria: PORTUGAL! PORTGAL! PORTUGAL!


LAJES DO PICO,
14-8-2016.

Ermelindo Ávila

Memórias da baleação

NOTAS DO MEU CANTINHO

Estão quase desaparecidos os velhos e audaciosos baleeiros que outrora tanto prestigiaram e engrandeceram esta terra. Eles andaram por toda a parte onde se estabeleceu a indústria da baleação, e agora estão esquecidos. Recordo alguns, pois de todos não é possível lembrar seus nomes: Francisco Alves, (Pé-Leve), e António Joaquim Madruga, no Cais do Pico; José Silveira Machado (Gatinho), em São Mateus do Pico; José Martiniano (Caramujo), em Santa Cruz das Flores; Manuel Carvão, na Graciosa e depois na Madeira; Manuel Moniz Barreto, na Bretanha, S. Miguel, e outros estiveram na Terceira e Santa Maria. Até em Setúbal esteve o Manuel Machadinho e o António Flores.
Restam o Museu dos Baleeiros, aqui e noutras terras, onde se praticou a actividade e algumas das elegantes baleeiras que um dia o Mestre Experiente criou, sem esquecer as regatas das antigas canoas baleeiras que vão fazendo parte dos programas das semanas festivas de diversas localidades.
Esquece-se, porém, o que representou a actividade baleeira em algumas das Ilhas e o seu importante contributo para a economia do arquipélago. Como não pode deixar de ter-se em consideração a actividade da observação de baleias - o Whale Watching -, muito embora se não a tenha em consideração, como devia, os graves prejuízos que causa às costas e aos bancos ou “marcas” de pesca local, onde esses cetáceos se vêm alimentar e absorvem toneladas de chicharros, cavalas, bonitos e outras espécies. E são os pescadores e os consumidores que estão a sofrer a falta de pexe de consumo, que se vem notando. Um alimento indispensável à subsistência dos povos e que hoje mal aparece, depois do seu comércio estar controlado por um organismo que fica à distância.
É só lembrar que o peixe pescado no porto das Lajes tem de ir à Lota, e para voltar ao posto de vendas das Lajes percorre a mínima distância de setenta quilómetros…Além disso, o pescado atingiu, com todas essas voltas, preços exorbitantes, impossíveis de serem suportados por muitas bolsas
.É tempo de serem reconsideradas todas as medidas tomadas anteriormente e, são causa permanente de todos esses atropelos prejudiciais às economias da maioria das famílias açorianas.
Deixo o momentoso problema à esclarecida consideração das entidades competentes.
A maioria do espólio baleeiro, principalmente as canoas, foram distribuídas pelos clubes navais e até por algumas juntas de Freguesia da Região, depois de adquirido pelo. Governo Regional.
Andam por aí as belas embarcações em competições desportivas, integradas nas festividades principais de cidades, vilas e freguesias.
Realmente faz gosto vê-las, em números por vezes elevados, a competir umas com as outras a ver quem chega primeiro à meta.
A febre já chegou a New Bedford, nos Estados Unidos, outrora o principal centro baleeiro do mundo, donde os picoenses trouxeram a indústria que, durante mais de um século, disse-se e repete-se, tanto valorizou a nossa economia e onde se realizam as regatas com as notáveis canoas, algumas delas recentemente construídas.
Engrade, 9 de Setembro de 2016

Ermelindo Ávila

AS FÉRIAS

NOTAS DO MEU CANTINHO

                               
         Está a chegar o mês de Agosto, anualmente dedicada a férias escolares ou profissionais. E porque de férias é o tempo normalmente destinado, durante o ano, para visitar a terra-mater, os familiares e os amigos, ou simples conhecidos. Afinal, um tempo especial, que muitos desejam aproveitar, mas que nem sempre têm possibilidades materiais para o fazer. E é pena, pois a visita à terra é sempre agradável, retemperante e  reconfortante.
         Os estudantes vão chegando de visita às famílias. Vêm de algumas ilhas dos Açores e do continente, onde frequentam as diversas faculdades e escolas superiores: Coimbra, Lisboa, Porto, Ponta Delgada, e outras mais.
          Antigamente, falar em Universidade era lembrar Coimbra dos fadistas. Actualmente, as escolas superiores estão instaladas em várias cidades onde se ministram os mais variados cursos, que não apenas medicina, direito, letras, engenharia, como há dezenas de anos.
          Os estudantes andam por aí. Vão à “praia” ou a uma pequena baía tomar banhos de mar e de sol, onde passam uma boa parte do dia. À noite frequentam as esplanadas dos restaurantes, que se abrem no verão para acolher os visitantes, ou frequentam algum festival musical que, aqui ou ali, por vezes aparece. E bem poucos se interessam pelos problemas locais. Trazem no pensamento, a colega escolhida, a profissão que pretendem exercer, a terra onde, feito o curso, desejam fixar-se. A terra-mater não interessa, pois não lhe pode oferecer uma colocação estável.
           Normalmente, quando casam, deixam de visitar a terra natal, pois há outros interesses a defender...
           Não levo a mal que a juventude de hoje, por uma razão forte da vida actual, assim pense e assim prepare o seu futuro. Mas lamento que estas ilhas, as chamadas “secundárias”, porque não têm serviços regionais dirigentes, estejam a ser “paulatinamente” abandonadas pelas respectivas populações que procuram, nos meios urbanos desenvolvidos, estabilidade social e profissional.
           Quando se criou a Região Autónoma, o projecto de Estatuto então discutido, indicava cada ilha como um todo administrativo, com organismo dirigente próprio, existindo uma entidade superior que permanecia em cada ilha durante algum tempo a presidir a esse organismo. Uma reedição do antigo juiz de fora. Julgo que seria assim. No entanto, outros pensaram diferente e a chamada maioria encontrou uma forma de manter a hegemonia política que vinha dos antigos distritos administrativos e, depois, autónomos... O resultado está à vista: o despovoamento e o atrofiamento de algumas das ilhas que só servirão para visitar na estação calmosa, está bem presente...
            Andam já por aí alguns dos estudantes picoenses, e muitos são, pois o seu número aumenta, enquanto a população diminui. Um paradoxo autêntico que  mal se sabe explicar, mas que não deixa de ser uma realidade, atestada com as dezenas, ou já centenas de casas desabitadas por essa ilha além.
            Mas não apenas os estudantes. Outros mais, jovens ou já trintões, deixam a terra para se fixarem em outros meios mais movimentados ou evoluídos, onde o andar pelas ruas pejadas de gentes, locais ou estranhas, já é uma festa... 
             O mês de Agosto, apesar da alegria dos encontros que nos proporciona, é um mês de reflexão... Devia sê-lo pelo menos. E isso pertence mais às entidades oficiais a quem incumbe encontrar o bem-estar, a prosperidade económica, o progresso e o desenvolvimento harmónico das terras que administram. Uma missão altruísta, mas por vezes bem difícil de alcançar...
             Já várias vezes abordei em escritos passados, este mesmo tema. Não faz mal repeti-lo. Água mole...

Lajes do Pico,
Julho de 2016,

Ermelindo Ávila

DOM ARQUIMÍNIO

NOTAS DO MEU CANTINHO

     

         Bem amarga foi a notícia que recebi, do falecimento do notável Bispo Dom Arquimínio Rodrigues da Costa, Prelado Emérito de Macau, e distinto picoense.
         Afinal, com o seu falecimento, fecha-se o ciclo honroso dos Bispos Picoenses que estiveram à frente da Diocese do antigo Padroado Português do Oriente, como era conhecido.
         Os católicos macaenses jamais o poderão esquecer, pois foi notável a sua acção missionária desenvolvida na antiga Cidade do Santo Nome de Deus.
          Como aluno do Seminário, desde 8 de Dezembro de 1938, revelou-se sempre estudante, sacerdote, professor e Bispo de invulgares qualidades e excepcionais dotes intelectuais. Escrevi um dia o que um seu antigo professor, Mons. Teixeira me disse no distante de 1992, e repito: ”o melhor aluno do seu curso!” Era Licenciado em Direito Canónico pela Universidade Gregoriana de Roma.
         Dom Arquimínio saiu de Macau, para dar lugar a um Bispo chinês que, ao assumir funções, quase se “apossou” do governo da Diocese. Mas voltou algumas vezes ao Oriente para tomar parte nas Conferencias Episcopais a que pertencera e a convite dos respectivos Bispos que lhe ofereciam as passagens, se bem sei. Os colegas do Episcopado não dispensavam a sua presença e a sua extraordinária competência.
         O Governo Português, ciente do Seu valor e da Obra realizada, em diversos domínios, agraciou Dom Arquimínio, com o grau de Grande Oficial da Ordem de Benemerência, em 1984, e com a Grã-Cruz da Ordem de Mérito, em 1988.
Em 13 de Setembro de 1986, a Universidade da Ásia Oriental de Macau concedeu-lhe o título de Doutor “Honoris Causa” em Filosofia.
Recolheu-se no Pico, em casa de familiares, mas estava sempre disponível para prestar qualquer serviço, mesmo que fosse de simples padre, como aconteceu durante muito tempo no curato de Santa Margarida, na freguesia vizinha de São Caetano, onde Dom Arquimínio se deslocava todas as semanas para celebrar a Missa Dominical e, antes, ensaiar a respectiva capela que executava os cantos litúrgicos. Na própria freguesia de São Mateus, sua paróquia, substituía o organista durante os actos litúrgicos, numa disponibilidade impressionante.
Mas não só. Sempre que o Prelado Diocesano estava impedido de ir a qualquer Paróquia delegava em D. Arquimínio as respectivas funções, que ele jamais recusava. E foi assim que foi o Bispo Sagrante da Matriz da Santíssima Trindade das Lajes e, em várias paróquias, ministrou o Sacramento do Crisma. Mas uma particularidade há a registar: a sua presença nas festas principais das paróquias picoenses, onde presidia às Concelebrações e, várias vezes, tinha a missão da Proclamação da Palavra. Entretanto, um dia recolheu-se a casa. A doença atingiu-o dolorosamente e manteve-o no leite alguns anos, sofrendo sem nunca o revelar. Era um santo, na prática e no exemplo de fé que nos legou.
         Dom Arquimínio, além das elevadas Funções Prelatícias, era um intelectual, orador, escritor e poeta. Não publicou livros mas o que nos deixou e a Imprensa arquivou revela, na realidade, a Sua invulgar inteligência e cultura.
         A quase totalidade do que escreveu – pastorais e outros escritos – foi recolhida, felizmente, pelo Pe. Tomás Bettencourt, no volume “Textos de D. Arquimínio Rodrigues da Costa. Bispo de Macau” devendo salientar-se um notável trabalho, arquivado no mesmo volume e que havia sido publicado no jornal “O Dever”: - “Questões Actuais -75 perguntas e 75 respostas” que principia por  “A religião diminui nas pessoas a capacidade de lutar pelos seus direitos?”
Ao Cardeal Dom José da Costa Nunes, seu antigo Bispo, dedicou alguns sonetos. Só este a revelar o estro poético do já saudoso Dom Arquimínio:
     Pérola do Oriente! Doce estância! / Como passaram céleres os dias/
     Em que a meus olhos, meiga, tu sorrias / Revestida de luz e fulgurância
    
   Parti... Mas a beleza que irradias, / Venceu dos horizontes a distância:
     Seguiu-me tua mágica fragância / E, ao longe, tu presente em mim vivias

E agora, que de novo te contemplo, / A meus olhos refulges como um templo/
Onde, ajoelhada, reza e canta a História...

Transponho teus umbrais e fico ouvindo/ O passado ao presente repetindo /
O hino triunfal da tua glória...
      (Macau, Dezembro de 1964) (1)

       Com o desaparecimento de Dom Arquimínio Rodrigues da Costa, aos noventa e dois anos – sessenta e seis de sacerdócio, e destes quarenta como Bispo – a Igreja sofre um rude golpe e a sua terra natal fica mais empobrecida de valores.
         Nestas singelas palavras, escritas com muito respeito e admiração indizível, presto humilde homenagem a um dos grandes Senhores da Igreja e da Pátria Portuguesa.

21 de Setº  de 2016
Ermelindo Ávila.
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1) Textos de D. Arquimínio Rodrigues da Costa , 1999, Coordenação de Pe. Tomás Bettencourt Cardoso, pág. 464.