domingo, 20 de fevereiro de 2011

Comunicações e o programa “Manhãs de Sábado”

Há quinze anos foi para o ar, pela primeira vez, o programa da Antena 1, com o singelo título de “Manhãs de Sábado”.

Nada de relevante haveria se o programa se limitasse a ser igual a outros mais que aparecem diária ou semanalmente nos receptores que utilizamos. Mas “Manhãs de Sábado” era algo diferente, quer na organização quer na massa ouvinte que aos sábados de manhã o escutava com interesse e o acolhia com simpatia.

É o que tenho verificado nestes dois anos em que colaboro modesta e singelamente no Programa, dado que são diversos os radiouvintes que dele me têm falado. E se as minhas contas não falham, foram mais de 700 os programas emitidos.

De Santa Maria ao Corvo, passando pelas outras Ilhas do Arquipélago, havia alguém que falava da sua Ilha, dos seus problemas, da sua cultura, das paisagens e belezas naturais, dos acontecimentos mais relevantes, da sua própria história. É desses eventos que as pessoas gostaram sempre de ouvir e não de um simples e contínuo programa musical, que satura a maior parte das vezes. O radiouvinte folga quando ouve o nome da sua ilha, das pessoas suas conterrâneas ou da história que muitas vezes desconhece.

Julguei-me sempre um colaborador emprestado, ocupando um posto que não era ou não devia ser meu. Todavia, enquanto cá estive, procurei desempenhar o melhor que soube este lugar especial.

E, a terminar, deixo aqui este simples apontamento:

Fez ontem 54 anos que, nesta ilha, se deu início à construção da estrada longitudinal, como é conhecida, com ela terminando a construção das estradas nacionais da ilha que, durante cinco séculos por elas esperou.

A inexistência de estradas nestas ilhas dos grupos central e ocidental, S. Jorge, Pico e Flores, principalmente, é responsável directa pelo atraso económico e social que nelas se verificou, e ainda hoje tem seus reflexos, obrigando a que os naturais se refugiassem em outras ilhas, onde lhes era facilitada a vida deles e dos próprios filhos.

Enquanto os habitantes da Fronteira do Pico iam até ao Faial, os povos da Ponta da Ilha encaminhavam-se para a Terceira onde ainda hoje é notável a colónia de picoenses que por lá anda. Não poucos, já nos tempos modernos, preferiram ir até S. Miguel.

São Jorge sempre preferiu a Terceira, naturalmente, por pertencer ao antigo distrito de Angra, tal como a Graciosa. Para tais ligações muito contribuíram os antigos barcos do Pico, inicialmente iates à vela e depois motorizados. Mas são tempos passados que estão presentes na memória saudosa de quem os viveu.

A grande maioria por lá ficou e muitos dos seus descendentes, actualmente, mercê de circunstâncias diversas, mal conhecem suas origens.

Desviei-me do assunto do dia. Nada se perdeu. Isto para referir o quão difícil era a comunicação das ilhas entre si. Uma carta demorava quinze dias. Não existiam telefones e somente o Morse levava o telegrama muitas vezes em cifra, a comunicar uma noticia urgente. O isolamento era atrofiante. Só quem o viveu pode dar testemunho dessas épocas, não muito distantes. Mas, felizmente, tudo se modificou com a Rádio e, a seguir com, a Televisão, que entra em nossas casas a toda a hora, mesmo sem pedir licença, como alguém, jocosamente, me dizia.

O mutismo vai continuar a imperar nestas ilhas que, classificadas de secundárias, passam ao esquecimento.

As MANHÃS DE SÁBADO voltam ao esquecimento, depois de três lustres de actividade frutuosa em prol das gentes açorianas.

Calam-se os colaboradores, emudecem os organizadores, cai o pano e o Programa passa ao esquecimento da Instituição, que não dos radiouvintes.

Para aqueles que foram seus dedicados organizadores, Mário Jorge Pacheco e João Almeida e para a plêiade brilhante dos colaboradores, o meu Bem Hajam pelo trabalho desenvolvido a bem da Terra Açoriana.

Até sempre!


Vila das Lajes,

18 de Fevereiro de 2011.

Ermelindo Ávila



quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

ÓRGÃOS

Refiro somente os que existiram ou ainda se encontram na Ilha do Pico.

Que se saiba, poucos estão a ser utilizados, e alguns, vítima de incúrias, já os levou o tempo. Foi pena, pois eram instrumentos de grande categoria, e construídos por artistas célebres que ficaram na história.

Segundo um estudo levado a efeito por Nuno Mimoso, Grafismo de António José Ferreira, (publicado na http://www.meloteca.com, datada de 04-03-2008), a Região Autónoma dos Açores possuía cinquenta e três órgãos, quatro dos quais se situavam na Ilha do Pico.

Mas o Pico possuiu muitos mais órgãos que, infelizmente, foram desaparecendo, destruídos por incêndios, como foi o caso da Silveira, ou pela incúria dos homens.

Um dos órgãos mais antigo que existe pertence à Matriz das Lajes, construído em 1804 por António Xavier Machado e Cerveira. Foi restaurado em Junho de 1990 pelo distinto organeiro Comendador Dinarte Machado. É um excelente instrumento, tendo sido já utilizado em vários concertos de órgão, por organistas profissionais.

Segundo Nuno Mimoso, doze dos órgãos existentes nos Açores foram construídos pelo referido Cerveira.

Na igreja paroquial da Piedade existiu um órgão, o melhor construído em 1874 por Thomé Gregório de Lacerda, da Ilha de S. Jorge, tio do Maestro Francisco de Lacerda. “Sem estudo algum prévio , e somente por sua habilidade construiu o órgão da (sua) freguesia. Indo depois a S. Miguel para ouvir a respeito o célebre Pe. Joaquim Silvestre Serrão, que dirigiu a construção do órgão mais pequeno da Sé de Angra, abalançou-se a maiores empresas, construindo o órgão da Calheta de Nesquim, da ilha do Pico, o órgão da vila das Velas desta ilha de São Jorge e o da igreja de Nª. Sª. da Piedade da Ponta do Pico – que é um bom instrumento o melhor construído por Thomé Gregório de Lacerda.” (Pe. Manuel de Azevedo da Cunha, Notas Históricas).

O órgão da Calheta de Nesquim, igualmente desaparecido, havia sido construído em 1859.

A igreja de São João Baptista possuí um órgão, construído no ano de 1884 pelo organeiro António Nicolau Ferreira, de Ponta Delgada. Foi restaurado por Dinarte Machado, em 2006.

Na Matriz de S. Roque do Pico existiu um órgão, ali colocado em 1819, e construído por Marcelino Lima da cidade da Horta.

Na igreja de S. Bartolomeu, da Silveira, houve um órgão também construído em S. Jorge, que desapareceu no incêndio de 23 de Junho de 1924, que destruiu aquele templo. Depois de restaurada a igreja foi adquirido um outro órgão pertencente à igreja dos Biscoitos, S. Jorge, e que havia sido construído por Manuel Serpa da Silva, em 1890. Este órgão ficou totalmente danificado por um novo incêndio que se deu naquela igreja na noite de 16 de Agosto de 1966, e que destruiu a capela-mór.

Em Santo António (S. Roque) existe um órgão muito antigo, ultimamente restaurado pelo referido organeiro Dinarte Machado, e que julgo ser peça única existente nestas ilhas. É tradição que pertenceu à igreja do convento de S. Francisco, do Cais do Pico.

Presentemente estão a ser utilizados, acompanhando os cantos e hinos litúrgicos, harmónios electrónicos que, apesar de todos os esforços, não conseguem imprimir aos actos litúrgicos a solenidade que lhes era tradicional.

No entanto, sabido é que as paróquias, despovoadas como vão ficando, não podem reunir os fundos necessários para a aquisição de instrumento de tão elevado custo.

Basta ter em atenção que o órgão da igreja da Piedade, adquirido em 1874, custou 900$000, uma quantia bastante elevada para a época, quando o salário diário de um trabalhador oscilava entre $200 (reis). Pois, se em 1940 um funcionário tinha o ordenado mensal entre 500$00 e 600$000... E só mais esta referência: quando as obras da Matriz foram iniciadas o orçamento era de 1.000$00 e quando recomeçadas, em 1954, foi de mil contos, ( 5.000 euros).


Vila das Lajes,

Fev. 2011

Ermelindo Ávila

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Do Natal ao Carnaval

Há dias celebramos, com ruidosas festas de variados temas, o Natal e, a seguir, o ano novo.

Em poucas semanas chegará o Carnaval ou Entrudo.

Todavia, nas famílias, entre o Natal e o Carnaval, os dias maiores eram os das “matanças do porco”.

Rara era a casa que não criava um suíno ou dois, para serem abatidos entre o Natal e a Quaresma. Deles vinha uma parte substancial da alimentação das famílias durante quase todo o ano.

No verão anterior aparecia na ilha o Raúl da ilha Terceira com uma vara de leitões, transportados nos iates do Pico, e que ele ia vendendo de terra em terra, destinados à matança do ano seguinte. Alguns, porém, tratavam-nos durante dois anos, para obterem melhor proveito: gordura ou banha, linguiça e morcelas, torresmos e carnes conservadas em salmoura, para as diversas refeições. Uma fartura. E triste da casa que não matava porco, porque tinha um ano amargurado...

O dia da matança era um dia de festa para grados e miúdos. Principalmente as crianças esperavam o dia da matança com ansiedade. Não iam à escola. Portanto um dia de folga para se divertirem com os amigos e vizinhos, com a bexiga do animal transformada em bola de futebol. No dia seguinte era o dia dos presentes e aí se arrecadavam alguns escudos para o migalheiro.

Nesse dia recebiam-se os parentes e alguns convidados para a ceia, na qual, normalmente, eram servidas as morcelas e o fígado do animal, preparado a gosto e um dos pratos mais apreciados.

Geralmente à noite, um grupo de vizinhos ia “cantar as morcelas”: – “Senhor dono da casa / está direito, não está torto / tivemos a notícia / que estava de porco morto”.

Depois de uma, por vezes prolongada lengalenga, eram convidados a entrar e a seguir servidos com aguardente e bolachas caseiras.

Mas se era dia de mascarados – quinta-feira de amigos, amigas, compadres ou comadres, ou sábado e domingo – a casa era visitada por grupos de novos e idosos mascarados, que habitualmente percorriam as casas que “recebiam mascarados” e eram todos os anos as mesmas, exibindo trajes grotescos a imitar certos indivíduos da localidade. Umas vezes iam, isoladamente, outras em grupos. A porta da sala estava aberta e todos eram recebidos cortesmente.

É, actualmente, muito raro haver matança. Nos meios urbanos deixou de criar-se porco por exigências de salubridade pública e, mesmo nas zonas rurais, algumas famílias mantém essa tradição mas, geralmente, o animal é abatido e trabalhado no Matadouro Industrial.

Assim, a pouco e pouco, vão desaparecendo, com proveito ou sem ele, as antigas tradições.

Novos tempos...


Vila das Lajes,

17 – 01 – 2011.

Ermelindo Ávila.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

O Pe XAVIER MADRUGA e as suas “CARTAS DA AMÉRICA”


Nos anos de 1947-49 esteve de visita, nos Estados Unidos da América do Norte, onde tinha familiares, o Pe. João Vieira XAVIER MADRUGA, natural desta vila e fundador (em S. Jorge, onde então paroquiava) do Semanário “O Dever”. Dali enviou ,semanalmente, “Cartas da América” que foram publicadas no “seu jornal”.

No dizer de um ilustre escritor faialense, Florêncio Terra, palavras que se encontram transcritas no número especial de “O Dever”, de 5 de Novembro de 1955, “Xavier Madruga, pelo conhecimento que possui da língua, pelo altíssimo talento que Deus lhe deu, pelo brilho de expressão verbal ou escrita, é um escritor da maior distinção no meio açoriano e pode acrescentar-se, afoitamente, que no meio português. Artista da palavra falada, mas sobretudo da palavra escrita que ele domina com segurança, Xavier Madruga é honra indiscutível das letras açorianas ocidentais”.

Vem isto a propósito das “Cartas da América”.

São mais de uma centena. Tratam dos mais variados assuntos, desde a referência a imigrantes de vulto no Estado da Califórnia, até a uma análise, por vezes profunda, da política americana, no após guerra de 1939-45.

Decorridos alguns meses, após a publicação no jornal, o Núcleo Cultural da Horta solicitou ao Pe. X. Madruga a necessária autorização para editar em livro as referidas cartas.

Sei que o Pe. Madruga não demorou a resposta. Concedendo a indispensável autorização, o mesmo será dizer que transferiu os direitos de publicidade ao NCH. Só impôs uma condição: não ter qualquer responsabilidade monetária. É pois o Núcleo que detêm os “direitos de autor” da publicação. Publicação que, até hoje, não foi concretizada, pela falta de meios financeiros do NCH, segundo me informou algumas vezes o fundador e, por vários anos seu Presidente, Monsenhor Júlio da Rosa.

Creio que sou um dos sócios fundadores do NCH. Recebo, normalmente, o respectivo Boletim que, ultimamente, tomou uma feição diferente, alargando a colaboração a Personalidades distintas. Mas, porque se trata de um organismo criado para a defesa da história e da cultura do antigo Distrito, não interessaria que desse um mais regular acolhimento àqueles que viveram por estas paragens?

Louvável foi a publicação das “Posturas da Câmara Municipal da Horta”. Fez-se ressuscitar um documento histórico que servirá para uma analise dos hábitos e costumes do respectivo concelho, durante os séculos passados. Outros concelhos poderiam tomar idêntica iniciativa se lhes fosse proporcionada a necessária cobertura financeira, ao que suponho.

Hoje, porem, fico pelas “Cartas da América”, para lembrar que a oportunidade da publicação não passou. Importa fazê-la porque será um apreciável elemento de estudo e da própria história luso-americana. Tanta gente nossa que nelas é recordada...

Julgo que o NCH está, actualmente, em condições de fazê-lo. Pelo que me é dado saber, tem os meios necessários, materiais e em pessoal, para tirar do esquecimento – já se passou meio século! – tão importantes escritos.

Que eu saiba, poucos terão realizado um estudo tão profundo sobre os portugueses nos Estados Unidos como o notável jornalista e escritor Xavier Madruga, uma personalidade que anda esquecida, apesar do seu nome ainda se encontrar no “cabeçalho” do “seu” jornal. Um jornal que ele fundou há 97 (noventa e sete anos) e que cedeu à Paróquia da sua naturalidade por uma quantia simbólica, para que jamais fosse extinto.

Mas isso é assunto para outra ocasião.

Vila das Lajes, Janeiro, 2011.

Ermelindo Ávila

segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

MANHÃS DE SÁBADO nº. 117-

29-Janeiro-2011


Amanhã, na sua ermida própria, na Ribeira do Meio, subúrbio desta Vila das Lajes, celebra-se a festa de São Sebastião, Um acontecimento litúrgico que vem de remotas eras, pois a primitiva ermida já existia em 1592, um pouco mais de um século após o povoamento, dado que, nesse ano, uma tal Bárbara Gaspar testava a favor da ermida, então situada no cimo da Almagreira, também subúrbio das Lajes.

Várias foram as ermidas construídas nesta zona pelos primeiros habitantes da ilha. Além da primitiva, dedicada ao Apóstolo São Pedro, nome do primeiro pároco da Ilha, e que serviu de paroquial quinhentos anos, - “catedral ingénua” lhe chamou o historiador Lacerda Machado, - existiram a de Nossa Senhora dos Remédios e a Igreja da Misericórdia, aqui erguida em cumprimento do voto feito a quando da crise vulcânica de 1718-1720. Ambas já são desaparecidas. Mantém-se, felizmente, a dedicada a S. Pedro, bem como a referida ermida de São Sebastião e a de Santa Catarina. E isso porque , por estes lados, há grande devoção pelos Santos titulares. E não só.

De lembrar também uma ermida dedicada a Nossa Senhora da Conceição, construída por uma tal Maria Pereira, no local onde hoje se encontram a Igreja Nossa Senhora da Conceição e o convento franciscano, um dos mais grandiosos edifícios da Ilha, a servir actualmente de Paços do Concelho e cujas construções foram iniciadas em 1629.

Santa Catarina é a protectora dos doentes mentais e S. Sebastião, o santo invocado contra a peste, doença que nos anos vinte do século passado atingiu e fez várias vítimas quer na vila da Madalena quer nesta igualmente. Ainda hoje, passados três quartos de século, muitos recordam as horas de angústia e de sofrimento então vividos.

Mas, como disse, amanhã terá lugar a festa do santo protector das doenças pestosas e por isso, apesar da época invernosa, há sempre boa afluência de pessoas que, durante a tarde, assistem ao pequeno arraial para arrematar as ofertas ou promessas levadas a São Sebastião.

São igualmente vulgares as ofertas de carnes e outros produtos dos suínos abatidos, durante a semana antecedente, para uso doméstico. Velhos costumes que, infelizmente, estão a desaparecer e que vindo de remotas tempos, - primícias da terra e do trabalho do homem – contribuíam para a manutenção do culto católico.

A ermida de São Sebastião é um pequeno monumento histórico. Substitui, como referi, aquela que existia em 1592, e que recebeu várias visitas dos Prelados ou seus Visitadores - delegados e que dá denominação ao sítio que hoje se conhece como São Sebastião – o - velho.

E hoje por aqui fico.

Bom, dia!



Vila das Lajes,

24-Janeiro-2011

Ermelindo Ávila

sexta-feira, 21 de janeiro de 2011

Morte desejada - a matança do porco


Não julguem que se trata da Matança de São Bartolomeu, aquela que ocorreu na noite de 23-24 de Agosto de 1752, em França. É ou são outras mais simples e utilitárias que, nesta época do ano, principalmente, eram – e em algumas terras ainda são - a alegria e a fartura de muitas famílias: a matança do porco.

Aqui há bastantes anos, o Pe. Francisco Vieira Soares, nosso conterrâneo, fundou na freguesia dos Cedros, onde exercia o seu munus sacerdotal, a revista “Eco Cedrense”. Não teve o prazer de a dirigir por muito tempo pois o Prelado que chegara à Diocese, transferiu-o para a Lomba das Flores. E aí não se aquietou. Fundou uma filarmónica e construiu um passal. E idênticos na freguesia de Ponta Delgada para onde, poucos anos decorridos, foi transferido.

Mas, neste arrazoado, não quero hoje falar do saudoso conterrâneo e amigo, falecido precocemente. Referi, e a propósito, o “Eco Cedrense”, que continuou a publicar-se sob a Direcção do Pároco, Pe. José da Rosa Dutra, e no qual colaborava um grupo de redactores muito distinto, que exerciam sua actividade didáctica naquela freguesia faialense.

E foi o Prof. João Pereira Dutra, homem de invulgares qualidades literárias e artísta de gravações ímpar quem,(ao que julgo) na revista nos deixou um texto muito interessante sobre as “matanças dos porcos”, ou, “morte desejada”.

Vale a pena trazer aqui um naco dessa narração, aliás muito semelhante à que se praticava (ainda se pratica?) em algumas localidades picoenses.

E diz o citado Autor:”Quando a morte entra numa casa foi-se a alegria, aí só há choros, aí só há lágrimas, mas na morte do porco não há tristeza, nem choro nem lágrimas, mas sim uma sincera e franca “satisfação” que aquela morte é, desde há muito, desejada”.

E a findar: “É interessante como, de freguesia para freguesia é diferente a maneira de pôr os porcos a enxugar. Há freguesias que os penduram de focinho para o chão , como se estivesse fazendo ginástica e ainda outros com as bandas separadas em cima do arquibanco, para enxugar mais depressa.

Por cá as matanças realizavam-se de madrugada. A família que “matava porco” quase não dormia na noite da matança, para poder preparar tudo e avisar o matador e companheiros, para estarem a horas no local onde era abatido o suino. Estava-se na época da baleação. Normalmente, o “Vigia” descobria os cetáceos logo ao amanhecer, lá para o horizonte. O sinal de “baleia à vista” era dado, imediatamente, pois as baleias podiam tomar outro rumo ou, também, serem descobertas pelos “Vigias” de outros portos. E assim o porco tinha de estar preparado e pendurado (aqui era pela cabeça) e os homens já almoçados ao romper do dia, para não serem surpreendidos pelo “sinal de baleia.”

Hoje não há essa preocupação. Já não se caçam baleias. E até mesmo as matanças não se fazem em casa, mas no Matadouro. Tudo simples mas menos interessante e nada tradicional.

A semana da matança era de “dias de lida”. Cozia-se o pão de diversos tipos: pão de milho (ou de duas farinhas – trigo e milho -) caspiadas, “rosquilhas de água ardente”, bolo do forno.

Na véspera preparavam-se as cebolas e picavam-se para, misturadas com o sangue do animal, se fazerem as morcelas. Limpava-se e ornamentava-se a casa para receber os convidados e as visitas que sempre apareciam a ver o porco e se tinha muita grossura de toucinho. Os convidados ceavam com o dono da casa já os miúdos do porco (bifes do fígado e morcelas, além de outros manjares.

O dia seguinte era para desmanchar o porco e dividir as carnes: para cozer, para derreter e fazer os saborosos torresmos, para pôr a curtir a carne para a linguiça, e para os “presentes” às pessoas amigas ou a quem eram devidos favores. E que prazer tinham os miúdos em levar esses presentes para receberem uns trocos – 2$50 era uma fortuna – que guardavam ciosamente nos pequenos mialheiros. Tudo feito com ordem e atempadamente para que não houvesse descuidos, nem sempre bem aceites...

A civilização moderna afastou dos centros urbanos a criação de suínos. Se por um lado essa medida tem justificação pela defesa e higiene da salubridade públicas, por outro veio afastar desses animais uma alimentação caseira, muito mais saudável do que a que se importa, fabricada nem sabemos com que “matérias primas”.

Velhas tradições a recordar com alguma saudade.


Vila das Lajes,

17 de Janeiro de 2011

Ermelindo Ávila


domingo, 16 de janeiro de 2011

BATATA BRANCA

A batata branca chegou aos Açores depois da batata doce, aí por 1775. Um século depois do milho. É um tubérculo muito apreciado e até mesmo indispensável nas ementas alimentares.

Pelo menos na Ilha do Pico, até meados do século passado, era cultivada em pequena escala. Apenas nas hortas junto das habitações e servia, principalmente, para aumentar as sopas.

Aí pelos anos vinte do século passado, apareceu na Candelária uma qualidade de batata muito produtiva, parece que importada por José da Costa Nunes, pai do que viria a ser Cardeal Dom José da Costa Nunes. E tanto assim que, espalhando-se pela ilha, pois passou a ser comercializada pela população daquela freguesia, o povo a denominou de batata bispa, ou batata da Candelária. Passou a ser cultivada em larga escala e era muito produtiva. Agradável era, no princípio do verão, andar perto dos terrenos baixos e admirar extensos batatais verdejantes e floridos. Hoje são raros.

Decorridos alguns anos, aquele tubérculo foi atingido por uma doença que lhe produzia uma espécie de caroço preto, que a tornava incapaz de ser utilizada.

Habituados como estavam os picarotos ao uso da batata, e aproveitando os iates do Pico que semanalmente viajavam até S. Miguel, passaram a importar daquela ilha em pequenas quantidades o apreciado tubérculo.

Mais tarde apareceram batatas de semente arran baner e ut to date, importadas da Europa. Foi então que se começaram a semear grandes extensões de terreno das novas espécies que se reproduziam em larga escala, e que constituíam uma parte importante da alimentação das pessoas como acompanhamento de diversos pratos. Era o que o povo chamava “batatas escoadas”, porque cozidas em água, em apreciáveis quantidades.

Presentemente, principalmente os restaurantes fazem acompanhar certos pratos de “batatas fritas”, ou seja batatas cortadas em pequenas tiras e passadas na sertã. Já não se encontram grandes batatais. Já não existe mão-de-obra e por essa razão os terrenos vão ficando abandonados.

O mesmo acontece com a batata doce, um pouco mais trabalhosa no seu cultivo, mas de grande produção e muito utilizada na alimentação quer das pessoas quer ainda dos suínos de engorda.

Uma época extraordinária que passou ingloriamente à história desta ilha.


Vila das Lajes, Dezembro de 2010


Ermelindo Ávila


domingo, 9 de janeiro de 2011

OS REIS


Por razões de ordem litúrgica, a Igreja Católica transferiu a festa dos Reis Magos, ou Epifania, para o domingo a seguir ao primeiro do ano, entre 2 e 8 de Janeiro

Anteriormente a celebração tinha lugar no dia 6 e embora não fosse “dia santo de guarda”, era guardado pelo povo cristão que aproveitava esse dia para, nos chamados ranchos dos Reis, ir de porta em porta saudar os amigos e conhecidos.

A acompanhar os Reis Magos junta-se, normalmente, um grupo de jovens que, nos cantares apropriados, fazia o coro.

Os reis trajavam a rigor, não faltando as coroas reais (em cartão vistosamente pintado), fazendo lembrar os nobres daqueles tempos de há dois mil anos, quando eles, vendo um astro estranho, se dispuseram a caminhar para Belém, trazendo como ofertas, ao Menino recém-nascido, ouro, incenso e mirra.

Os Magos, ao chegar a Jerusalém, perguntaram onde s6ava o Rei dos Judeus que acabara de nascer. Esta pergunta perturbou o Rei Herodes e não apenas ele mas toda a cidade de Jerusalém. Interrogando os sumos sacerdotes e os escribas do povo, eles foram unânimes: “Em Belém de Judá.” Herodes mandou chamar secretamente os Magos e pediu-lhes informações precisas sobre o tempo em aparecera a estrela.”

Quando chegaram a Belém entraram na casa onde a Sagrada Família se alojara e caindo de joelhos, adoraram o Menino.

Avisados em sonho de que não voltassem à presença de Herodes, voltaram por outros caminhos para as suas terras.

É esse grande acontecimento que o povo cristão comemora nesta ocasião. Um feito extraordinário que, passando-se em terras do Oriente, jamais deixou de ser recordado, até com manifestações populares.

Hoje, dada a vida agitada e tumultuosa do povo de Deus, quase passa esquecida a visita dos sábios do Oriente ao Senhor dos Céus e da Terra. E é pena.

Ainda recordo a ânsia com que, meninos e moços, aguardávamos a visita dos Reis, envoltos em seus mantos

coloridos, de cetro na mão, e coroa real, no meio dos quais vinha sempre o Rei preto, que era por vezes o terror da pequenada.

Depois das saudações ao Menino, colocado em altar com trono erguido no meio da sala, onde não faltavam os pratinhos de trigo verdejante e as laranjas “americanas” ou as tangerinas, os donos casa serviam figos passados, licores e outros acepipes, sempre bastante apreciados.

Particularmente para a miudagem, era uma noite especial, sempre aguardada com grande alvoroço e entusiasmo, embora os cantares fossem sempre os mesmos repetidos de ano a ano.

Creio que vale a pena recordar estas singelas comemorações, que tinham um sentido de singeleza mas sobretudo de respeito e sinceridade pelos acontecimentos de há dois mil anos: o Nascimento do Menino Jesus numa reclinado numa manjedoura no estábulo de animais; a visita dos pastores que, na serra, foram avisados pelos anjos; e, decorridos alguns dias, a adoração dos santos Reis Magos.

A propósito, escreve um comentarista : “”Sublinhando, de modo expressivo, a universalidade da Mensagem cristã, dirigida a todos os homens, mesmo aqueles que, segundo as concepções estreitas do judaísmo, viviam fora da Geografia e da História da Salvação, o evangelista mostra como na visita dos Magos se realizam as profecias do Antigo Testamento.”



Janeiro de 2011

Ermelindo Ávila

sábado, 1 de janeiro de 2011

ANO NOVO

NOTAS DO MEU CANTINHO


Estamos já no ano novo. “Há dias” entrámos no século 21 e já passaram dez anos. Uma velocidade que ultrapassa o som...

Chegamos ao ano de 2011 e nada sabemos do que nos espera. Como sempre as surpresas serão tamanhas. O Mundo está em permanente evolução e numa ebulição tremenda. Não há por aí, mesmo o governante mais esperto, que seja capaz de prever o futuro. E não faltam os projectos. Mas uma certeza fica: a incapacidade da sua realização.

Terminou o décimo ano deste terceiro milénio. Não deixou saudades. Os povos viveram horas amargas. Por toda a parte. Temos presente, apenas como exemplo, a situação dos mineiros do Chile, que, felizmente, não resultou em tragédia mas que, nem por isso, deixou de abalar o mundo, (ia a escrever civilizado mas não vale a pena...)

Há dias terminou em Lisboa a Cimeira da NATO. Uma cimeira que nem durou vinte e quatro horas mas que, mesmo assim, reuniu os maiores senhores do Mundo. E não durou tanto tempo porque, segundo a opinião de alguns órgãos da Comunicação Social, os problemas já iam estudados e praticamente resolvidos. Apenas uma formalidade do processo.

Portugal teve praticamente dois dias de descanso, com a Cimeira, pois os assuntos nacionais foram relegados para plano secundário. Mas voltaram depressa à ribalta. E continuam.

A greve nada resolveu. Os salários e ordenados baixaram e a economia do País continua numa corda bamba.

“Aperta-se o cinto” e continua a promover-se em força o “banco alimentar”. É que a fome anda por aí, embora em alguns casos, encoberta. É, em muitos casos, a pobreza envergonhada.

Portugal vive presentemente uma situação terceiro-mundista. Se não por estas ilhas, pela maior parte do velho País.

Estão em curso processos de averiguações de irregularidades cometidas em vários sectores. Mas não aqueles que deviam ser instaurados... Não na chamada classe média e muito menos na pobre mas naqueles magnates que , em diversos sectores, dominam o país. Um País que se engrandeceu há quinhentos anos com as descobertas e conquistas e que, de um momento para o outro, foi reduzido à mínima expressão territorial e ao descalabro económico, para ser “um jardim à beira mar plantado”, sem árvores nem arbustos, até porque os que restaram os incêndios (casuais ou criminosos?), vão todos os anos destruindo.

Com o cinto apertado, para que os trapos não caiam aos pés, vamos entrar no novo ano. Esperanças e promessas não faltam. Mas quais? Temos uma economia de restos. As empresas vão falindo e os despedimentos vão engrossando o desemprego.

Como disse, os salários e ordenados vão diminuindo e os investimentos em actividades que poderiam ser produtivas não aparecem.

Por estas ilhas a situação económica não será tão dramática. Mas não deixa de ser preocupante. Os terrenos foram abandonados. As indústrias estão em decadência. Tudo se importa , como sejam os géneros alimentícios, os materiais de construção, o vestuário e calçado. Pois se não há quem trabalhe os prédios agrícolas, nem faça o vestuário e o calçado e tudo o mais...

Desapareceram os alfaiates e as costureiras, os sapateiros, os serralheiros e os funileiros...

O milho e o trigo, as batatas, as laranjas e as maçãs vêm de longes terras. Ou da Espanha ou da América central.

E os nossos terrenos, outrora férteis e de fácil cultivo, estão abandonados. Povoam-nos os arvoredos selvagens e o silvado. Restam as chamadas criações mas estão a entrar em crise com a falta de escoamento do gado, uma vez que o Matadouro Industrial já não tem capacidade para trabalhar todo o gado que por lá aparece. Mas este é caso para outra ocasião.


Dezembro de 2010

Ermelindo Ávila

UMA PRENDA ESPECIAL

Aproximava-se o Natal. Na escola todos os alunos procuravam escrever cartas ao Pai Natal ou ao Menino Jesus, conforme a formação que tinha, a pedir os brinquedos mais diversos.

Delmiro, um dos alunos, o mais aplicado e distinto da aula, nada escrevia. Sabia, pelos anos anteriores, que nada conseguiria e preferia ficar quieto, preparando as suas lições.

Nunca faltava às aulas e não só ia com as lições sabidas como ainda ajudava os companheiros nos seus trabalhos escolares.

Os pais, embora pobres, procuravam que os filhos não faltassem à escola, muito embora isso, por vezes, lhe fosse penoso, principalmente no inverno, quando o mau tempo não deixava enxugar as roupinhas, lavadas ao sábado, para os filhos levarem para a escola na segunda-feira. Mas tudo ia decorrendo muito embora com certa dificuldade.

Os dias iam passando. As férias do Natal aproximavam-se. Todas as famílias procuravam enfeitar suas casas com arvores de Natal, com iluminações multicolores e decorações diversas , prateadas e douradas. Não faltavam as prendas para novos e velhos. Os pais do Delmiro nada podiam preparar dada a sua extrema pobreza.

Na escola a professora, uma jovem que ali estava a leccionar há dois anos, anunciou que, naquele ano, iam fazer uma festa escolar muito especial. E com os alunos iam preparando as singelas decorações. Para isso distribui folhas de cartolina para que cada um fizesse um desenho, a seu gosto, para ser exposto. Delmiro recolheu-se na carteira e começou a fazer o seu desenho. Levou alguns dias e, como é natural, evitava que fosse visto pelos colegas e pela Mestra. Só o entregou no momento próprio para ser exposto. Uma paisagem, com árvores, arbustos e flores várias. Em fundo um pôr de sol maravilhoso, com nuvens multicolores a espargirem junto dos raios solares, as mais belas cores. Um encanto, que causou admiração a todos.

No dia escolhido para a realização da festa, apareceram na escola os pais dos alunos e outros convidados. Todos admiraram as decorações. Todos ficaram encantados com as recitações de versos próprios da quadra e com as canções que um grupo de alunos, ensaiado pela Professora, cantou. Uma linda festa do Natal, afinal. Mas não foi tudo.

Quando chegou a ocasião própria, a Professora falou para anunciar que, naquele ano, ia ser entregue uma prenda muito especial a um aluno da última classe, que naquele ano terminava a instrução primária, e, com muito pesar seu, ia deixar a escola. Tratava-se, nem mais nem menos, do Delmiro, o mais distinto aluno, que por isso ia receber a prenda anunciada: uma bolsa de estudos para puder continuar a estudar no liceu e, posteriormente, se assim o entendessem, tirar um curso superior. Era uma oferta de uma instituição de solidariedade social que quis premiar um aluno brilhante, com uma inteligência fora do comum.

Alguns pais dos outros alunos entregaram também ao Delmiro suas prendas em agradecimento pelas ajudas que ele prestava aos filhos, na preparação das matérias estudadas.

Escusado será dizer que os pais do Delmiro ficaram muito sensibilizados e reconhecidos. Ele chorava de alegria, o que era natural para a sua idade.

Na realidade, era para si a melhor prenda do Natal que jamais podia ter. Todos, professora, alunos e pais destes o felicitaram muito entusiasticamente, dando vivas ao Pai Natal pelo que acabara de acontecer. E para o Delmiro e para os pais e irmãos, aquele Natal foi diferente e nunca mais foi esquecido nas suas vidas.


Natal de 2010.

Ermelindo Ávila