sábado, 2 de outubro de 2010

OUTONO

O mês que antecede o Inverno ele aí está com o seu clima ameno, a permitir ainda os derradeiros banhos de mar. O Sol, liberto de nuvens, continua a aquecer os campos e permite o caminhar despreocupado pelas ruas e vielas em horas de lazer ou pelos atalhos e veredas quando se tem de ir para os campos, pois está-se na época das colheitas: dos milhos e das uvas. Dos cereais já pouco se fala, pois os terrenos destinados a essa cultura estão ocupados por milhos para o sustento dos gados. Não se fala, pois, em colheitas, que poucas se fazem, mas nas silagens que hão-de alimentar os bois e as vacas durante o inverno. É ver as centenas de molhos de milho verde enfardados em sacos plásticos, uns brancos outros pretos, aos cantos dos serrados, para serem utilizados na época das chuvas.

O ano foi muito triste para a produção de uvas. A quebra, como diz o povo, foi enorme. Prédios houve que não deram um cacho, outros uns reduzidos cestos. Quando se classificam certos terrenos de património mundial eles são um testemunho amargo da carestia que vai por aí.

Não só os prédios de semeadura e vinha estão quase improdutivos. As pastagens não apresentam melhores perspectivas. É espraiar a vista por esses montes e planícies do alto da Ilha para se ficar com uma visão triste do seu aspecto desolador. As zonas verdes, onde vicejavam as ervagens que alimentavam as manadas que por lá pastavam, e muitas lá continuam, apresentam-se praticamente secas, dando-nos a ilusão de serem cearas de trigo maduro.

Num estudo do antigo Ministério da Agricultura, de 1932, pode ler-se: “ Na altitude de 700 a 800 metros principia a região das pastagens –os baldios – como lá dizem, zona de terrenos riquíssimos em que, principalmente durante o verão, é apascentada a grande parte do gado da ilha”.

Infelizmente a lavoura, outrora a riqueza da ilha, está em crise. Anuncia-se a abolição das quotas leiteiras, um sistema que inicialmente foi contestado mas que, estabilizado, estava a dar, ao que se julga, resultados vantajosos. E assim sendo, a produção de lacticínios volta a entrar em crise.

A Ilha do Pico não pode continuar a viver horas incertas e amargas como aquelas que suportou em anos passados.

A exportação de lacticínios nunca se operou com segurança. De inicio o queijo era produzido pelo próprio lavrador e criou fama. Havia quem o recebia ainda fresco e o preparava para, depois, proceder à sua venda. E que excelente era!

Depois vieram as fábricas que produziam, não o queijo do Pico mas um queijo tipo S. Jorge, como era conhecido. Mas, mesmo assim, nunca pôde competir com o produzido naquela ilha. Mais tarde apareceu um industrial continental que tomou conta da produção de lacticínios da ilha do Pico – queijo e manteiga – mas também desistiu, nem sabemos a razão.

Entretanto apareceram, há pouco mais de uma dezena de anos, as chamadas “queijarias”, ou seja fabriquetas familiares, ao que julgo, para dar execução ao Despacho do Secretário da Agricultura e Pescas (de 11-10-1996), que novamente regulamentou a Denominação de origem “Queijo do Pico”. Parece que estão todas encerradas. E assim vai correndo.

O sector dos lacticínios nesta ilha, onde sempre teve fama o “Queijo do Pico “ como diz o citado estudo de 1932: “No Pico, particularmente nas freguesias das Lajes e das Ribeiras, fabrica-se também um tipo sui generis de queijo mole, conhecido por isso sob a designação de queijo do Pico, com formato de 10 centímetros de diâmetro e 3 de altura, com cerca de meio quilograma, o qual lembra o Camembert no paladar. - Produto exclusivo da industria doméstica, largamente utilizado e muito apreciado em todas as ilhas, susceptível de maior consumo, este queijo é comprado fresco pelos negociantes da freguesia de S. João, que lhe fazem a cura e o expor sobretudo para o Faial, Terceira e S. Miguel”.

Todavia o seu fabrico já fora regulado pelo Decreto nº 19:669, de 30 de Abril de 1931, quando era Ministro da Agricultura o picoense, Coronel Henrique Linhares de Lima, o qual estabelece no seu art.º. 4º: “À indústria caseira da ilha do Pico é permitido o fabrico de queijo completo, tipo Pico (S. João)”.


Vila das Lajes,

26 -09-2010

Ermelindo Ávila

1 comentário:

Humberto disse...

Oi!
Entrei no seu blogue por acaso, achei muito interessante mesmo, não queria sair sem dizê-lo.
Aproveito para convidá-lo a visitar o meu que é de literatura.
Um abraço desde Argentina.
Humberto.

www.humbertodib.blogspot.com