sábado, 24 de maio de 2014

ECCE HOMO


Foi num gesto de irresponsabilidade que Pilatos apresentou Cristo à turba multa, depois de o cobrirem com um manto escarlate, O coroarem com uma coroa de espinhos e, à maneira de cetro, lhe colocarem nas mãos manietadas, uma cana verde. Afinal, um gesto de escárnio para Aquele que, sendo o Rei das gentes –Tu o disseste, respondeu a Pilatos – viera ao mundo para remir os homens da culpa de Adão.
Mas não é esta a ocasião, se bem que todas as ocasiões são apropriadas para exaltar, em palavras de retórica, a Pessoa do Divino Mestre que passou, fazendo o bem. Neste momento, desejo recordar um pouco da devoção que os povos do mundo inteiro, do Brasil e de Roma aos Açores e daqui às terras da Diáspora, principalmente Estados Unidos da América do Norte e Canadá, tributam com devoto respeito, ao Santo Cristo dos Milagres, (Ponta Delgada), ao Bom Jesus Milagroso (S. Mateus do Pico) ou ao Senhor Jesus das Preces, que tudo é o Mesmo Senhor.
Com certeza que a mais arreigada devoção daqueles que o Infante Dom Henrique mandou para estas ilhas para a povoarem, foi o Senhor Crucificado que, inicialmente, era invocado como Bom Jesus e que depois, com o aparecimento dos Crucifixos na Praia do Almoxarife, em Santa Cruz das Ribeiras e na vila das Lajes, arrojados à costa nos tempos da Reforma protestante na Inglaterra, pelos anos 1550 ou 1560, como informa Silveira de Macedo (l) passou a ser invocado como Bom Jesus das preces.
O Santo Cristo dos Milagres veio de Roma, oferecido pelo Papa a duas religiosas micaelenses, mas só foi introduzida no convento da Esperança no ano de 1541. A sua devoção foi incrementada, com a entrada de Teresa da Anunciada no convento, em 20 de Junho de l682. (2)
A devoção ao Santo Cristo dos Milagres que, actualmente, se venera no convento da Esperança, está espalhada por todo o mundo e sobretudo nas terras onde se fixaram especialmente os micaelenses que, não somente introduziram a devoção, como construíram igrejas e promovem grandes solenidades.
Mais recentemente temos, na ilha do Pico, a devoção ao Bom Jesus Milagroso, cuja imagem veio de Iguape, Estado de S. Paulo, Brasil, por volta de 1862, trazida pelo emigrante Francisco Ferreira Goulart, e cuja devoção se espalhou pelo Pico e pelas terras da Diáspora.
A propósito da Imagem, informa a Professora Dra. Maria Cecília França: “Iguape foi sem dúvida alguma o centro original da irradiação desse culto. A imagem do Bom Jesus, que é objecto da devoção dos peregrinos, que para ali afluem, vindos de tão longe, foi descoberta em 1647.” Mas antes informara: A expansão do culto ao Bom Jesus no Estado de São Paulo e fora dele é um capítulo que se prende de início à marcha do povoamento paulista desde o primeiro século da colonização portuguesa até o século XVIII. Depois, é um capítulo da história da colonização açoriana no sul do Brasil. Teve sua origem nos Açores e recebeu novo alento com a vinda dos casais açorianos para o Sul do Brasil.(3)
Certamente, nenhum outro acontecimento, no século XIX fez movimentar o povo nas ilhas centrais do Arquipélago dos Açores como a surpresa da presença da imagem do Bom Jesus Milagroso, na freguesia de São Mateus da ilha do Pico. (...) A imagem do Bom Jesus não atraiu só o povo do Pico: o Arquipélago despertou a pouco e pouco, e as romarias em Agosto, ao calor do sol, corriam com o caudal de almas sequiosas ao encontro do Senhor. Começaram a divulgar-se as graças e milagres, que chamavam a atenção dos doentes, dos fracos, das almas famintas do sobrenatural...”(4)
Na Ilha do Pico existem três imagens do Ecce Homo: Bom Jesus Milagroso de São Mateus do Pico, Bom Jesus, da Calheta de Nesquim e Bom Jesus, da Criação Velha, e ainda Santo Cristo, dos Toledos, Madalena.
Em Lajes do Pico e Santa Cruz das Ribeiras venera-se o Senhor Jesus, ou Senhor Crucificado, cujas imagens têm a origem acima referida.
Sobre a imagem do Senhor Jesus das preces, da Vila das Lajes, escreve o autor da História das Quatro Ilhas: “No princípio de 173l chegou à vila das Lajes do Pico o doutor Luiz Homem da Costa e trouxe uma relíquia do Santo Lenho numa custódia de prata com um cristal lapidado, oferecida pela condessa do Rio Grande à confraria do Bom Jesus das preces erecta na Matriz daquela vila, e juntamente o breve de aprovação da mesma relíquia passado em Roma pelo bispo Lystrense Epifânio de Nápoles, em 1730”. (4)
A referida Imagem encontra-se no altar mor da Matriz das Lajes. É uma excelente escultura e sempre foi objecto da devoção dos lajenses que, principalmente em ocasiões de tempestades marítimas, a traziam à rua e em preces públicas, pelas ruas da vila, suplicavam que o mar não invadisse as habitações, como algumas vezes aconteceu.
E era assim quase todos os invernos, enquanto a vila não foi defendida pela muralha que, actualmente, evita a invasão dos mares ciclónicos.
Santo Cristo, Bom Jesus ou Senhor Jesus é Esse Jesus de Nazaré, Rei dos Judeus que Pilatos apresentou à multidão tresloucada e condenou à morte ignominiosa da Cruz, no alto do Calvário.
Outras Imagens do Bom Jesus ou Santo Cristo existem em diversas ilhas dos Açores, onde até o denominativo Santa Cruz, é atribuído a diversas localidades: Santa Cruz das Flores, Santa Cruz da Graciosa, Santa Cruz da Lagoa, Santa Cruz das Ribeiras, que não é possível trazê-las a este escrito.
1) Macedo, A.L. Silveira , História das Quatro Ilhas que formam o distrito da Horta, 1871, I Vol. Pág.220.
2)Pinto, Agostinho, Madre Teresa da Anunciada, Autobiografia, Perfil Espiritual, 2012, pág.49
3)França, Maria Cecília, Pequenos Centros Paulistas de Função Religiosa, Universidade de S. Paulo, 1973, I Vol. Pág 45.
4)Macedo, A.L.Silveira, O. citada.

Lajes do Pico,
Maio 2014.

E. Ávila

quinta-feira, 15 de maio de 2014

POR TODO O MUNDO FALA-SE EM TURISMO

NOTAS DO MEU CANTIMNHO


É a palavra moderna que se utiliza em todo o mundo, mesmo nos países mais industrializados, como é o caso dos Estados Unidos da América. Em qualquer cidade americana, mesmo as mais modestas, encontramos os mais modernos estabelecimentos hoteleiros, quer seja em New Bedford, ou New York, quer em San Francisco ou Tulare.
A Europa também possui grandes e luxuosos hotéis. Mas a par desses, há outros de inferior categoria e qualidade, alguns classificados de hotéis, única classificação que o Turismo geralmente aceita, mas que mais parecem as antigas pensões portuguesas. E que excelentes são os hotéis das nossas antigas colónias, ou de Hong-Kong e Macau.
Isto somente para referir que a indústria do Turismo, que importa ser implantada urgentemente nesta ilha, não pode ignorar nem esquecer que, para aqui se desenvolver o turismo, e importa que se o desenvolva urgentemente como única actividade capaz de promover o progresso desta ilha, não se pode proceder a sistemas improvisados, como seja o chamado “turismo rural”, que visitantes estrangeiros, principalmente do Norte da Europa, mais aceitam.
Verdade que há um ou outro caso em que esse sistema é aceite, mas somente à falta de melhor. Para os franceses isso pode acontecer, pois muitos dos seus estabelecimentos hoteleiros, classificados de hotéis, como atrás referi, são bastante precários para uma cidade como Paris. Mas por lá não há somente o turista endinheirado, como igualmente o imigrante refugiado, ou o jovem à procura de emprego.
E deslocados há-os em todas as cidades do Mundo. Se, em Portugal, são os “sem-abrigo”, nos Estados Unidos são os “Tramps” que vivem no mesmo sistema de infortúnio e miséria. Mas isso não é Turismo. Quando muito degradação social, miséria de que, infelizmente, o mundo está cheio.
Mas voltemos ao que importa: Necessitamos atrair as divisas dos turistas. Eles apreciam estas ilhas, o seu clima ameno, as suas paisagens, o verde luxuriante das encostas, os montes e, sobretudo o pico do Pico, quer esteja coberto de neve no inverno ou esplendoroso no verão. E nesse aspecto temos algo que “vender”. Saibamos aproveitar.
Aqui há anos um casal estrangeiro, refugiado das guerras do Norte de África, instalou-se na vila das Lajes, depois de percorrer outras vila do Pico e dos Açores. Quando interrogado sobre a escolha, a resposta foi simples, mas precisa: a água, a excelência da vossa água. A canalização havia sido montada e utilizava-se exclusivamente a água do “furo” da Silveira e da fonte do Lendroal. Não necessita de mais explicações.
Importa explorar a indústria do Turismo, mas com frontalidade e segurança, para que não resulte em fracasso, o que bem pior seria. Não será de esquecer o turismo rural, e as residenciais e, em sua substituição, arranjar estabelecimentos hoteleiros com o mínimo de condições de salubridade, higiene, conforto, sem se caminhar para luxos escusados que, desnecessariamente, elevam o custo da exploração.
Estabelecimentos hoteleiros que atraiam, quer pelo ambiente, quer pelo custo, aqueles que escolham esta ilha para as suas férias ou momentos de lazer.
Falando em momentos de lazer, não se devem descurar as diversões folclóricas, que agradam a muitos turistas. E deixo para trás qualquer referência ao defunto campo de golfe, que morreu à nascença, depois de tanto entusiasmo se ter desenvolvido à sua volta...
Muito sumariamente: julgo que o turismo é a indústria do futuro mas quando preparada e instalada com os requisitos de modernidade sádia e séria.
Estarei errado? O futuro o dirá.

Vila Baleeira
28-4-2014.

Ermelindo Ávila

AS FOLIAS

NOTAS DO MEU CANTINHO


Não é depreciativo o título. Traz-nos à lembrança a época festiva que se seguia à Ressurreição. Era a entrada nas chamadas Domingas ou sejam os domingos que antecediam o Pentecostes, isto é, cinquenta dias após a Páscoa, dia que os Judeus solenizavam, pois tratava-se da festa das searas. Para os cristãos, a celebração do Pentecostes, na Liturgia da Igreja Católica, recorda aquele dia em que os Apóstolos, reunidos no Cenáculo, aquela sala onde Cristo celebrou com os Doze a última ceia e instituiu o Sacramento da Eucaristia, receberam o Espírito Santo.
Os Actos dos Apóstolos assim narram o grande Acontecimento:
Quando chegou o dia do Pentecostes, encontravam-se todos reunidos no mesmo lugar. Subitamente ressoou, vindo do céu, um som comparável ao de forte rajada de vento, que encheu toda a casa onde se encontravam. Viram, então, aparecer uma línguas de fogo, que se iam dividindo, e poisou uma sobre cada um deles. Todos ficaram cheios do Espírito Santo e começaram a falar outras línguas, conforme o Espírito lhes inspirava que se exprimissem.
Ao contrário do que muitos julgam, a Coroa não representa a Terceira Pessoa da Santíssima Trindade, pois, só em dois momentos, apareceu o Espírito Santo. A primeira, quando Jesus Cristo estava a ser baptizado por João Baptista. Nesse momento, uma voz vinda do Céu proclamou: Este é o “Meu Filho Muito Amado” e o Espírito Santo, em forma de pomba, desceu sobre Jesus Cristo.(São Mateus 4,16) Uma vez baptizado, Jesus saiu da água e eis que os céus se lhe abriram e viu o Espírito de Deus descer como uma pomba e vir sobre Ele. E uma voz vinda do céu dizia: “Este é o Meu Filho muito amado, no Qual pus toda a Minha complacência”.
A coroa está presente nas solenidades dedicadas ao Espírito Santo, a recordar aquele gesto brilhante da Rainha Santa que, retirando a coroa da cabeça, a colocou na cabeça dos pobres seus convivas.
No centro da coroa e no cruzamento dos arcos, está uma pequena pomba a recordar aquela que apareceu no Baptismo de Jesus Cristo, no rio Jordão. No estandarte, encontram-se “línguas de fogo”, a recordar aquelas outras que, no dia de Pentecostes, poisaram sobre as cabeças dos Apóstolos.
E não se duvida que, de facto, seja o Espírito Santo, em forma de línguas de fogo, que iluminou os cérebros dos Apóstolos, pois continuam a narrar os Actos dos Apóstolos: “Todos ficaram cheios do Espírito Santo e começaram a falar outras línguas, conforme o Espírito inspirava que se exprimissem.”
E descrevendo a prédica de Pedro à multidão que naqueles dias estava em Jerusalém, concluem os Actos: “Os que aceitaram a Sua palavra receberam o baptismo, e naquele dia juntaram-se aos crentes cerca de três mil almas.”
Cedo, nas ilhas açorianas, começaram a invocar o Espírito Santo nas horas de angústia e sofrimento.
“As folias do Espírito Santo, conquanto pareçam ter tido uma origem pagã, foram introduzidas em Portugal e nas ilhas dos Açores com a maior devoção e piedade.”
“Os primeiros impérios do Espírito Santo, com as suas populares folias, tiveram princípio na vila de Alenquer, sendo seus fundadores a Rainha Santa Isabel e El-Rei D. Dinis.”
No ano de 1523, desenvolveu-se na ilha de São Miguel uma desoladora peste que ocasionou 2.000 vítimas e se comunicou ao Faial no mês de Julho. O pânico foi geral em todas as ilhas e os povos aterrados recorreram a preces publicas, procissões e invocaram em especial o Espírito Santo, prometendo distribuir pelos pobres, anualmente, pela festa do Pentecostes, as primícias de seus frutos, se escapassem ao terrível flagelo, que se não comunicou ao Pico.
Instituíram-se irmandades em honra do Espírito Santo, celebrando em seu louvor bodos solenes, com folias e bailes, ao uso do tempo.
Tal foi a origem, no Faial e no Pico, das populares festas do Espírito Santo,...”(1)
E terminada a Páscoa, principiam a “domingas” do Espírito Santo. Os convites já se vão fazendo.
__________
(1) Lacerda Machado,F.S. – Historia do Concelho das Lages, 1936, pág.127.


Lajes do Pico, Abril de 2014.
Ermelindo Ávila


A HISTÓRIA VAI REPETIR-SE?


Preocupa-me o futuro da ilha. Para alguns isso será uma situação algo irrisória, mas outros haverá que não deixarão de reflectir, por momentos, a situação angustiosa em que se encontra a ilha com uma população envelhecida e a diminuir, consequentemente, dia após dia e com uma economia débil em algumas zonas territoriais.
Isto já foi dito e escrito bastantes vezes, não apenas por mim mas por aqueles outros, e vários são, que têm presente a situação dramática que a ilha atravessa.
A Vila das Lajes, a mais antiga e só por si um património rico de história, atravessa um período de verdadeira calamidade social, com uma população diminuída e desprovida, - propositadamente? – de instituições e serviços que, antes, lhe garantiam estabilidade económica, social e até política.
E essa é a causa, senão única, a mais dramática e responsável. E responsáveis são, simultaneamente, aqueles que a provocaram.
Estão continuamente a diminuir os serviços. Ainda agora são os de saúde. Ontem foram os portuários, os aduaneiros, os judiciais, e de fiscalização e até os agro-pecuários !... Não vale a pena enumerá-los. Basta reflectir um pouco e chegar à triste conclusão de que foi afastada de cá a quase totalidade dos serviços públicos, arrastando a quase totalidade dos seus servidores. Eles foram e levaram os familiares, muitos deles ainda, ignorando onde tinham visto a luz do dia...
E isto não é história de outros tempos. São verdades autênticas da época actual. Intencionalmente ou não, a verdade é que foi-se promovendo o desenvolvimento de outros sítios com prejuízo nítido da vila mais antiga. E a realidade está aí bem patente…
Quando medidas drásticas forem tomadas, quem vai tomar posição defensiva a favor desta terra?
Há mais de um século, em 1895, foi promulgado o Código Administrativo e, mercê do novo sistema, instituído por esse diploma legislativo, extintos os concelhos do Topo, em S. Jorge, de S. Sebastião, na ilha Terceira, de Água de Pau, em S. Miguel e da Madalena do Pico, e não sei se mais. Com excepção da Madalena, os outros extintos nunca mais foram restaurados e as respectivas localidades passaram ao esquecimento. No Topo restou o Notariado que se manteve até ao falecimento do respectivo titular. Nas outras vilas, a “vida” morreu e passaram a simples e ignoradas localidades. Apenas a antiga vila de S. Sebastião é hoje recordado pela artística Matriz, que de lá não pode ser arrancada e que foi classificada como Monumento Nacional. Melhor sorte teve a Madalena do Pico. Após a extinção, as câmaras municipais de São Roque e das Lajes (consta das actas das respectivas Vereações) representaram ao Governo de Sua Majestade para que o concelho fosse restaurado e os respectivos funcionários voltassem aos seus lugares de origem. E isso aconteceu por Decreto de 13 de Janeiro de 1898, três anos após a extinção.
Hoje...O Governo Regional, que actualmente domina este sector público, está a proceder tal como há cem anos. Vai, aos poucos e paulatinamente, retirando de cá os serviços públicos e, depois, virá alegar que a população diminuiu e, por essa razão, não se justifica a manutenção desses mesmos serviços, como é o caso, presentemente em execução, dos Serviços de Saúde.
Amanhã serão outros... E os lajenses que se contentem com os epítetos de vila avoenga, vila baleeira, e quejandos.
A História irá repetir-se, mas em sentido oposto?
Não estarei cá para o testemunhar.

Lajes do Pico.
2 de Maio de 2014.

Ermelindo Ávila

terça-feira, 29 de abril de 2014

AS FESTAS E OUTRAS COISAS MAIS

A MINHA NOTA


Entramos na época das Festas. Toda a gente as prepara com mais ou menos entusiasmo. O povo anónimo, que todos somos, não as esquece, ano após ano. Vive-as com grande interesse, embora nos tempos passados, porque eram quase as únicas, as sentisse com um entusiasmo quase infantil.
E as festas aconteciam em todas as domingas. Eram as chamadas coroações do Espírito Santo, que se seguiam à Páscoa. As freguesias estavam organizadas por classes ou misteres: Havia a coroa dos nobres, a dos marítimos, as dos lavradores, etc.
Na tarde do domingo de Páscoa, depois das celebrações litúrgicas do dia, os irmãos reuniam-se para tirar as sortes, ou seja o domingo em que cada um devia “levar a Coroa”, ou festejar a Terceira Pessoa da Santíssima Trindade, com a coroação e missa solene, na paroquial e um jantar aos irmãos e doze pobres. E estes, como era tradicional, sentavam-se à mesa do mordomo. Só estes!. Além dos familiares, e dos “irmãos” das domingas, reduzido era o número dos convidados.
Por estas bandas, e que se saiba, as “domingas” só são celebradas, de cinco em cinco anos, nos subúrbios das Terras e da Almagreira, da antiga freguesia da Santíssima Trindade e que incoerentemente passou, em 1940, a somente Lajes do Pico, denominação da Vila, numa abrangência de todo o território. Por outros lados isso não se verificou porque os gestores administrativos tinham uma noção correcta da tradição histórica. Mas deixemos isso para os historiadores profissionais.
Enquanto as moedas correntes eram o escudo (moeda forte no continente ) e o real (moeda fraca nos Açores), o ágio, ou troca da moeda estrangeira pela nacional ou açoriana, permitia aos emigrantes, que aqui vinham com alguma afluência, voltar à terra natal, principalmente na época das domingas ou do Espírito Santo. A equiparação, quase, do Euro com o Dólar, impede o emigrante de cá vir com a frequência anterior para tomar parte ou mesmo promover as “Coroações”. E é pena, pois a vinda desses nossos “irmãos “ ausentes trazia, normalmente, uma lufada de alegria e um certo e útil desafogo económico, ao menos durante a estadia, às respectivas famílias e não apenas.
As festas do Espírito Santo ou Coroações, ou Gastos como é termo usual em algumas ilhas, que aqui se celebram com ritual próprio e muito antigo, vieram a ter algumas modificações, ou modernismos direi, trazidas pelos emigrantes das terras de acolhimento, como seja o caso das “rainhas”, introduzido em Santa Cruz das Ribeiras pelo emigrante Manuel Cabral na década de trinta do século passado, e espalhado principalmente pelas freguesias do Sul do Pico. Mas deixo isso atrás, pois o seu estudo pertence aos etnógrafos e historiadores, que não passo de um simples rabiscador ou curioso destas matérias.
E como tal, por aqui fico.


Vila das Lajes do Pico,
Abril de 2014

Ermelindo Ávila

A ILHA DO PICO EM COLAPSO...

NOTAS DO MEU CANTINHO

Tal como as coisas vão correndo, pode afirmar-se que a Ilha do Pico viveu o seu período de maior desenvolvimento na primeira metade do século passado.
Apesar de algumas crises provocadas pelas duas grandes guerras mundiais (1914-18 e 1939-45) a economia da ilha recompôs-se em razão das actividades industriais que nela se instalaram e do comércio que, simultaneamente, se desenvolveu.
Na edição do “Jornal do Pico” de 10 do corrente mês, o seu dedicado e ilustre colaborador Francisco Medeiros, em oportuna crónica sobre “Cooperativas de Lacticínios da ilha do Pico” referia muito judiciosamente que “em 55, notava-se uma certa qualidade de vida das populações, que viviam com algum desafogo, pois os salários para a época, embora não fossem muito elevados, eram convidativos para os profissionais dos estaleiros, para as muitas mulheres e jovens empregados nas conserveiras. Hoje muitas daquelas que o fizeram beneficiam de uma pequena reforma que, como se sabe, não sendo muito larga, é uma ajuda no conjunto familiar.”
Estou plenamente de acordo com o ilustre articulista e já algumas vezes fiz referência à situação calamitosa em que, actualmente, vive a generalidade da população picoense, motivada pela “falência” de muitas actividades industriais e algumas comerciais.
De acentuar que a estabilidade económica, embora pareça um paradoxo, surgiu para estas bandas do Sul com a construção da muralha de defesa da vila das Lajes que havia sido derrubada pelo ciclone de Abril de 1936, e, a seguir com a construção da estrada Lajes - Piedade que, durante quatro anos (1939-1943) empregou, diariamente, mais de cem operários. Alguns deles vieram da Graciosa e de S. Miguel, e por cá ficaram.
O Pico desenvolveu o seu comércio e algumas empresas beneficiaram de um notável crescimento, como sejam: a Casa Ancora, no Cais do Pico, a firma Manuel Pereira do Amaral, na Madalena, e Edmundo Machado Ávila e Filhos, nas Lajes, além de outros estabelecimentos espalhados nas freguesias. Destes recordo o Francisco Rodrigues das Neves, na Candelária; os Gomes, na Ribeirinha; José Ávila de Melo, e António Pereira e Irmão, na Calheta; Francisco Soares Mariante e António Fernandes Ávila, em Santa Cruz; Manuel José Bernardo Riqueza e sobrinho, em S, João; Manuel Correia da Silva, em S. Caetano; Manuel José de Simas, em S. Mateus e tantos outros espalhados pela Ilha.
Em 1954, existiam no concelho das Lajes 11 fabriquetas de lacticínios, uma de conservas e uma de óleo de baleia, cinco moagens de cereais, l0 armações baleeiras e duas sociedades de navegação. Nos outros dois concelhos da ilha, existiam, igualmente, construtores navais, fabricantes de lacticínios e outras actividades industriais. Nesse ano, já havia no concelho cinco traineiras de pesca do atum. Mas o concelho chegou a possuir trinta e quatro traineiras.
Com o desaparecimento das fábricas a crise chegou. A população diminuiu, porque a emigração levou uma grande parte da juventude, e não somente.
A ilha do Pico ficou, praticamente, entregue à quase terceira geração.
Valeu, durante alguns anos, a indústria de lacticínios a cargo de Martins & Rebello. Mas também esta daqui saiu. Substituiu-a a Cooperativa da Lacto-Pico, presentemente em estado de falência. E somente nos resta o matadouro industrial e pouco mais.
Há que iniciar e incentivar novas actividades, que criem postos de trabalho e estimulem a juventude a permanecer na Ilha, para que esta não fique entregue à bicharada...
Daqui aplaudo o trabalho de Francisco Medeiros. Pena é que outros mais, dentro da mesma orientação social, não o apoiem. Importa que surja uma campanha estimulante a provocar o concreto e eficaz desenvolvimento da Ilha no seu todo, que não apenas numa parte limitada
No Pico há ainda, felizmente, quem não pode nem deve continuar no seu dolce fare niente.



Lajes do Pico,
Abril de 2014.
Ermelindo Ávila



segunda-feira, 14 de abril de 2014

NA PÁSCOA ESTAMOS

NOTAS DO MEU CANTINHO

A Quaresma está a findar. No próximo domingo, celebra a Igreja Católica o dia em que Jesus Cristo entrou triunfalmente em Jerusalém, depois haver jejuado quarenta dias no deserto.
Antigamente, o povo cristão denominava as domingas da Quaresma com títulos mal definidos e cujo significado não nos foi possível averiguar: Ana, Bagana, Rabeca, Susana, Lázaro, Ramos, na Páscoa estamos. Seja como for, os cristãos respeitavam o tempo quaresmal, com jejuns e abstinência de carnes; um tempo forte de penitência, preparatório para a Festa da Ressurreição. Era, sobretudo, o tempo da desobriga pascal: Confessar-se ao menos uma vez cada ano (Cânone 989) “ e receber a Eucaristia ao menos uma vez em cada ano, se possível no tempo pascal...” (Catecismo da Igreja Católica, nº 1319).
No primeiro domingo de Quaresma era tradicional a Procissão de Penitência, com as imagens do Bom Jesus, ou Senhor Jesus das Preces, como tradicionalmente é conhecida a imagem do Senhor Crucificado que, segundo a história, foi arrojada à praia desta vila aquando da reforma protestante da Inglaterra, por volta de 1550-1560 (1). De recordar também que foi em 1864 que, - no primeiro domingo de Quaresma que nesse ano ocorreu no dia 14 de Fevereiro, - saiu pela primeira vez a Filarmónica Lajense. (No corrente ano celebra 150 anos de existência.)
Na procissão de Penitência incorporava-se o andor duplo com Santo Elisiarco e Santa Delfina, (os bem-casados, dizia o povo) e o andor de S. Francisco de Assis. Terminada a procissão havia o Sermão de Calvário. Na Igreja armava-se um “calvário” em verdura de cedro, na Capela mor, onde era colocado um Crucifixo, e sobre o estrado de verdura as insígnias da Paixão do Senhor: a lança, o escadote, a corda. No terceiro domingo, realizava-se a procissão de Passos. Na vila existiam cinco passos, pertencentes à Misericórdia. Dois desapareceram na rua Direita, com as construções urbanas ali realizadas.
Nos outros domingos de Quaresma havia na igreja, à tarde, a Via-Sacra cantada e com a leitura de extensa “meditação”. A afluência de fiéis era sempre grande.
Durante a Quaresma não se realizavam divertimentos de quaisquer espécies. Quando muito, alguns grupos ensaiavam as “danças” dos pedreiros, dos arcos, ou dos cadarços, para saírem no domingo de Páscoa e/ou de Espírito Santo. Alguns homens faziam de mulher, pois era vedado ao elemento feminino tomar parte nestes divertimentos. Mas essas danças há muito caíram em desuso.
À Semana Santa, o povo chamava-lhe a ”semana dos nove dias”, porque fazia dias santos na parte da manhã da quinta-feira e da sexta-feira. Da quinta para a sexta-feira, o Santíssimo ficava exposto no trono e era “velado” toda a noite pelos irmãos da confraria do Santíssimo, que era numerosa, com as respectivas opas vermelhas.
Na Quinta-feira e na Sexta-feira, à noite, realizavam-se as Matinas, cantadas, usando a Capela partituras clássicas. Tinham grande afluência de fiéis. Nelas usava-se o candelabro, cujos círios eram apagados quando iam terminando os “nocturnos”.
O sábado era o grande dia para a rapaziada. Quando os sinos tocavam festivamente, a anunciar a Ressurreição, era a ocasião de estrear os piões novos, no meio de grande alegria.
Na igreja, por vezes, uma das filarmónicas, postada no coro alto, executava um passo - dobrado, após as campainhas tocarem depois do Glória. Os sinos repicavam, festivamente, e um dos turiferários distribuía pelos sacerdotes e elementos da capela, raminhos de flores, artisticamente arranjados pela florista D. Virgínia de Lacerda.
As amêndoas eram raras mas, nas mesas de pobres e remediados, porque ricos eram bem poucos, não faltava, no dia de Páscoa, o folar com um ovo para cada membro.
As festas pascais, no domingo, terminavam com a procissão da Ressurreição, pelas ruas da vila, acompanhada pela Filarmónica, seguindo-se a Missa solene. E, na Segunda-feira, considerada dia-santo, o Senhor era levado aos enfermos, em solene procissão.
Hoje a liturgia pascal está muito simplificada com as normas estabelecidas pelo Concílio Vaticano II.
________
1) Silveira de Macedo, A.L. – História Quatro Ilhas..., Vol.I, 1871, pág.220.

Lajes do Pico, 7-4-2014
Ermelindo Ávila


BELAMENTE

A MINHA NOTA


Não foi jogo de muitos anos. No entanto, nos anos em que vigorou, era entusiasmante. É só lembrar que atingiu novos e velhos.
Quando os parceiros se encontravam a primeira vez no dia, o primeiro que esse “belamente” exclamasse, ganhava a aposta. E no fim da Quaresma, aquele que contasse mais apostas ganhava uma quantidade de amêndoas, bem poucas por vezes, pagas pelo que perdia.
E, no ano seguinte, lá estavam de novo a combinar o jogo. Mas não deixava de ser interessante assistir a certas manobras que, no princípio do dia, os parceiros faziam para ser o primeiro a descobrir o outro. Escondiam-se em saguões, nos cantos das ruas, em casas particulares, em qualquer sítio onde não fossem descobertos, para verem o parceiro contrário passar e, de surpresa, lhe dar o grito -chave: belamente!
Hoje, a Quaresma passa quase no esquecimento. A vida diária continua, infelizmente, cheia de preocupações de toda a ordem, e ninguém se lembra de jogar seja o que fôr, para passar o tempo, pois este não resta a ninguém, nem mesmo que, no fim da Quaresma é o tempo tradicional das amêndoas.
Nem as crianças, pois raramente aparece uma ou outra... E os velhos não estão para esses “cuidados”. Até mesmo porque os idosos estão recolhidos nos lares e, aqueles que “ainda se mexem”, não estão para dispersar o tempo que ainda lhes resta.
Uma vida que tão rapidamente mudou. Um mundo que se transforma dia-a-dia, quase sem proveito para ninguém.
Aflige assistir a este panorama macabro que, em poucos anos, nos atingiu.
Valem, por enquanto, as jornadas de futebol que a TV quase diariamente nos transmite, de quase todas as nações do mundo. Mas, ao que nos informam os noticiários televisivos, nem sempre o desporto rei corre bem. Mesmo agora que se disputa o chamado “mundial”, as coisas vão bem pelo Brasil, país organizador do certame.
Demais, o futebol deixou de ser um desporto, para ser uma indústria, concerteza bastante rendosa para os empresários e, igualmente, para os praticantes, poucos talvez.
E porque não voltar ao inofensivo, e algo divertido, belamente, que se jogava com entusiasmo, e quando se perdia, custava meia dúzia de amêndoas, ou pouco mais?
Apetece cantar aquela canção que tinha como estribilho: oh! tempo volta para trás...
Mas, infelizmente, o tempo não volta. Queiramos ou não, corre velozmente para o fim. E ele está bem próximo...

Lajes do Pico,
7 de Abril de 2014.

Ermelindo Ávila

sábado, 22 de março de 2014

Os Poentes...

NOTAS DO MEU CANTINHO


Vivo voltado para o Poente... Para o horizonte, onde o Sol se põe. Para o poente da vida que se vai aproximando...
Vivi sempre voltado ao poente. Por aqui passavam, no meses de estio, os transatlânticos que, saídos dos portos europeus, iam a caminho das Américas.
Navegavam junto das costas pois o mar estava em calmia e as “lavadias de Agosto” só em Agosto chegavam. Mesmo assim não impunham a alteração dos percursos marítimos.
Por aqui andou o “Andrea Dória” que, infelizmente, terminou seus dias ao chegar, da última viagem, nos mares de New York. Mas também outros mais. E todos eles costeavam a ilha, navegavam a baía para que os seus utentes pudessem ver e admirar a beleza encantadora que, destes lados, nos oferece a Montanha mais alta de Portugal.
E, quando não passavam os grandes transatlânticos, as canoas baleeiras faziam-se ao mar na perseguição do monstro marinho que era o pão dos pobres.
Hoje é tudo tão diferente! Desapareceu a navegação transatlântica. Abateram as traineiras do atum, cuja frota foi importante para este lado Sul. Distribuíram as airosas canoas baleeiras picoenses, para darem fim a uma actividade secular.
Criaram um outro sistema de ver baleias. interessa, porque dá interesse aos exploradores. E o mar continua na sua calmia, à espera que voltem os barcos de açúcar do outro lado do Atlântico, ou os navios italianos – o “Sinaia”, o “Saturnia”, “o Vulcania”, o “Sebastián Elcano”, ou mesmo um novo “Andrea Dória”, voltem a sulcá-lo como o faziam no século passado.
A montanha, branca de neve no Inverno, vai-se tornando bela e flamejante, nesta Primavera que se aproxima, para assim ficar até aos primeiros dia de Outono, que não tardará. É que o tempo corre veloz e, quando menos se espera, a estação passou...
Mas, não somente a navegação transatlântica desapareceu, substituída que foi pelas aeronaves que sulcam o céu que nos cobre.
Por onde ficaram os antigos “Barcos do Pico” tão úteis que eram à economia dos picoenses e até mesmo da generalidade dos açorianos? Eles levavam daqui os saborosos queijos do Pico, a lenha para as cozinhas, a fruta saborosa para as mesas dos pobres, que os ricos tinham outros manjares apetecidos. E levavam também as pessoas que, na época de calmia, iam de ilha em ilha, fazer “negócios” ou visitar familiares. Ou traziam, no verão, aqueles picoenses que, havendo emigrado, voltavam à ilha, colher as uvas e fabricar o vinho de suas pequenas jeiras, ou gozar o fresco da ilha, nas casas que por cá ficaram. E muitos eram esses picoenses.
Naveguei na “Calheta”, quando iniciou as viagens semanais, pelas ilha do chamado Grupo Central. Recordo o mestre José Goulart e os marinheiros, simpáticos homens do Pico que a todos acolhiam com lhaneza e simpatia. Como um pouco mais adiante, no “Ribeirense”, do inesquecível Amigo Mestre João Silveira Alves e no “antigo “Andorinha” do Mestre José Gaspar...
A vida do Sul do Pico era intensa. Todos estavam de olhos voltados para o mar e todos sabiam os horários das lanchas das Lajes e dos barcos do Pico que passavam, semanalmente, nos portos do Sul, desde a Calheta a S. Mateus, para se encaminharem para a Horta ou, no regresso, para Angra, via S. Jorge. Um tempo que foi e não volta.
O Sul do Pico foi abandonado, ardilosamente (?) e deixou de figurar nos mapas de navegação... Mas a vida das gentes do Pico não melhorou. Asfixiou-se e desapareceu. As terras foram sendo abandonadas pela juventude e mais velhos “armazenados” nos “Lares”. As terras abandonadas e as vivências definhadas...
É este o Pico que nos deixaram e do qual se lembram nas ocasiões em que os votos ainda existentes são apetecidos.
Mas esses que por cá teimosamente ficaram, continuam a olhar o horizonte, a gozar a beleza da montanha, a desfrutar o encanto que é, em dias estivais, o poente, multicolor e indicativo do dia que se segue...
Da minha janela, diariamente, olho a Montanha e nela “leio”, mal embora, o dia que vamos ter... E quedo-me na contemplação desse gigante que não nos causa temor mas nos oferece belezas tamanhas e encantos sem medida.



Lajes do Pico,
Março de 2014

Ermelindo Ávila

segunda-feira, 17 de fevereiro de 2014

OS SACERDOTES DA SILVEIRA

NOTAS DO MEU CANTINHO


Não deixa de ser notável o número de sacerdotes ordenados no século passado, pertencentes ao antigo curato da Silveira, sufragânio da Matriz da SS. Trindade das Lajes do Pico, e presentemente paróquia independente de S. Bartolomeu.
Vale a pena recordá-los porque alguns deles foram figuras marcantes quer da Igreja quer da actividade cultural.
Conheci-os quase todos e com a maioria tive relações de amizade que muito me honraram. De todos eles apenas se encontram ainda vivos os Padres Tomás Bettencourt Cardoso e José Carlos Vieira Simplício, infelizmente, ambos fora do activo e sofrendo de graves enfermidades.
I - Que se saiba, o primeiro sacerdote natural da Silveira foi o Pe. Jerónimo Brum da Silveira que ali nasceu, em 20 de Janeiro de 1842. O pai era natural de Santa Bárbara das Ribeiras. Iniciou o seu curso de Teologia aos 36 anos, depois de habilitar-se, em particular, nos estudos preparatórios. Foi capelão da Sé e, depois de várias colocações, veio a ser colocado como cura capelão da Silveira, em 29 de Outubro de 1895, onde faleceu a 25 de Março 1905. Sucedeu-lhe o Pe. Manuel Vieira Feliciano, natural desta vila.
II - O Pe. Filipe José Madruga nasceu na Silveira, em 1876. Foi colocado nas Flores, após a ordenação, ali passou a Vigário e ouvidor das Lajes, daquela ilha, em 1904, falecendo na cidade de Ponta Delgada, onde fora submeter-se a uma operação cirúrgica, aos 49 anos de idade, em 7 de Junho de 1926.
III – O Pe. António Cardoso Machado nasceu na Silveira. Após a ordenação foi colocado na Ilha Graciosa, onde permaneceu até cerca de 1930, passando depois para pároco de Doze Ribeiras, na Ilha Terceira, onde veio a falecer decorridos vários anos.
IV - Os P.es Ávila, dois irmãos, também nasceram na Silveira.
O Pe. Manuel Silveira de Ávila, em 8 de Setembro de 1893. Disse Missa Nova na Silveira, a 22 de Junho de 1919. Foi pároco de Castelo Branco, no Faial, e chancelar da Cúria Diocesana de Angra. Faleceu em Lisboa, onde passou a residir com o irmão, em 20 de Julho de 1979. Contava, portanto, 86 anos. Nos últimos tempos estava acamado.
V - O irmão, Pe. José Silveira de Ávila, nasceu também na Silveira, em 9 de Outubro de 1895. Depois de frequentar o Seminário de Angra, celebrou a Missa Nova , em 4 de Julho de 1920, em S. Bartolomeu da Silveira e a seguir foi colocado como Prefeito do Seminário e Professor de Música. Organizou o Orfeão de Angra, que teve grande êxito nas suas actuações em Angra e em Ponta Delgada. Em Angra, fundou os Escuteiros católicos e foi também professor de Música do Liceu. Depois transferiu-se para Lisboa e foi professor de Música no Liceu Camões. Faleceu na freguesia de N.ª Senhora de Fátima, em 4 de Dezembro de 1977.
VI – O Doutor José Enes Pereira Cardoso nasceu na Silveira, donde era natural o Pai, em 18 de Agosto de 1922. Ali fez a instrução primária e depois ingressou no Seminário de Angra, onde sempre se revelou aluno distinto. Terminado o curso de Teologia foi para Roma frequentar a Universidade Gregoriana, licenciando-se em Filosofia e Teologia. Mais tarde doutorou-se em Filosofia naquela Universidade. No Seminário de Angra foi Prefeito, professor e Reitor. A ele se ficou a dever a realização das célebres “Semanas de Estudo”, que se realizaram em Angra, Ponta Delgada e Horta. Quando se realizava a III Semana fez as despedidas e seguiu para Lisboa para professor de Filosofia da Universidade Católica. Em 1972 foi para a Angola leccionar na respectiva Universidade. Com a descolonização voltou aos Açores e foi então um dos fundadores do Instituto Universitário, mais tarde Universidade dos Açores, de que foi Reitor.
Voltou a Lisboa onde prosseguiu a carreira como professor universitário, ali se reformando.
Tinha as seguintes condecorações: Oficial da Ordem do Infante (1964), e Grande Oficial da Ordem de Instrução Pública (1983); Cidadão Honorário de Ponta Delgada, em 1992 e das Lajes do Pico, em 1999. Tinha diversos livros publicados de natureza científica. Faleceu em 2013.

VII - Pe. João Silveira Domingos
Aquando do falecimento, escreveu um seu biógrafo: Pela sua piedade e modestia foi sacerdote estimado em toda a ilha do Pico, nomeadamente nos locais onde desenvolveu modelar acção pastoral.
O P. João Domingos nasceu na Silveira, em 12 de Junho de 1912 e faleceu na Ribeirinha, onde paroquiava, em 8 de Março de 1975. Depois de frequentar o Seminário de Angra foi ordenado sacerdote, em 12 de Junho de 1938, precisamente no dia do seu aniversário natalício e a seguir foi colocado como vigário-coadjutor de São Mateus, desta ilha. Em 1953, é transferido para a Matriz da Madalena e, em 30 de Junho de 1954, é nomeado pároco da Ribeirinha, onde veio a falecer. Naquela paróquia desenvolveu grande actividade sacerdotal e ainda hoje é recordado com saudade. Junto da Igreja foi levantado o seu busto em bronze.
VIII – Padre António Filipe Madruga. Nasceu na Silveira, em 23 de Setembro de 1922. Foi ordenado sacerdote, na Sé de Angra, em 23 de Junho de 1946, sendo, a seguir, nomeado vigário-cooperador da Matriz das Lajes. Aqui se conservou, após o falecimento do Padre Ouvidor José Vieira Soares, até à sua nomeação para pároco de S. Caetano onde se conservou, até à sua nomeação para S. Mateus, em 11 de Julho de 1964. E foi quando se encontrava em Angra para assistir à ordenação de diácono de um seu seminarista, que foi vítima de um colapso cardíaco, vindo a falecer no Hospital daquela cidade, em 4 de Novembro de 1984. Desenvolveu, em S. Mateus, uma notável acção pastoral. Fundou e dirigiu um excelente boletim paroquial – Ecos do Santuário – publicado durante dezasseis anos e que se extinguiu com o seu falecimento, mas que, ainda hoje, é um elemento histórico de consulta para a história daquela freguesia.
IX - Pe Tomás Bettencourt Cardoso. Nasceu, também, na Silveira, em 22 de Outubro de 1930. Depois de fazer a Instrução Primária, ingressou no Seminário de Angra, onde veio a ordenar-se, em 15 de Junho de 1958. Foi vigário-coadjutor da Matriz da Horta e, depois, pároco e ouvidor de S. Roque do Pico. Na década de noventa do século passado, foi transferido para o Liceu de Macau, onde leccionou vários anos. Aí dedicou-se à pesquisa e publicação dos textos oficiais dos Bispos picoenses que governaram aquela Diocese, desde Julho de 1903: D. João Paulino, D. José da Costa Nunes, D. José Vieira Alvernaz e D. Arquimínio Rodrigues da Costa. Um meritório trabalho que permitiu reunir vinte oito volumes, publicados com o patrocínio da “Fundação Macau” e que estariam condenados ao desaparecimento se não fosse a atitude hercúlea e a vontade indomável do Pe. Tomás Bettencourt Cardoso. Só os textos do Cardeal Costa Nunes, enquanto Bispo daquela antiga Diocese portuguesa, ocupam dezassete volumes. O Pe Tomás regressou de Macau antes da anexação daquele Território. Embora retirado de qualquer actividade, encontra-se, felizmente, entre nós.
X - Está inactivo, numa casa de saúde em Ponta Delgada, o Pe José Carlos Vieira Simplício. Nasceu na Almagreira, pertencente ao então curato de S. Bartolomeu da Silveira, o P. José Carlos, em 4 de Agosto de 1937. Depois de cursar o Externato desta vila, onde chegou a publicar o jornal académico “Estímulo”, e o Liceu da Horta, onde concluiu o Curso Geral, ingressou no Seminário de Angra como aluno da Diocese de Timor. Foi ordenado na Igreja de S. Mateus, da qual viria a ser mais tarde Reitor, em 1 de Julho de 1965, e celebrou a Missa Nova na ermida de Santa Isabel, na Almagreira, no dia seguinte.
Seguiu para Timor, onde se manteve de 1965 a 1968. Foi Secretário do Bispo D. Jaime, chefe da Redacção e director do semanário diocesano “Seara”, professor do Liceu de Díli, e responsável pela pastoral da Juventude no ensino secundário. Regressado à Metrópole, via Califórnia, aí se manteve, a pedido de Monsenhor Vieira Alvernaz, fundando o Centro Cultural Português, conjuntamente com o colega, hoje Monsenhor Ivo Rocha e construindo a igreja de Nossa Senhora dos Portugueses, em Turlok. Vindo para os Açores em 1979, foi pároco da Conceição da Horta e, depois, pároco de São Mateus do Pico, até 2010. Nesse ano foi colocado na Ribeira Chã, na Ilha de S. Miguel, onde permaneceu um ano, até que, devido ao precário estado de saúde, teve de passar à situação de manente, encontrando-se, actualmente, internado numa clínica em Ponta Delgada. Poeta, jornalista, investigador histórico e profundo conhecedor da História da Diocese, tem vários trabalhos publicados e, ao que consta, vários inéditos, hoje abandonados em lugar desconhecido. Uma pena! Mesmo assim tem publicados dez livros e opúsculos de muito interesse. É o autor da letra “Nossa Senhora Ilha à Roda”, da “Cantata Mariana” cuja composição musical se ficou a dever ao malogrado Maestro Emílio Porto.
XI - O último sacerdote da Silveira foi o Pe. Manuel Damião Bettencourt. Nasceu em 1942. Fez o curso no seminário de Angra. Ordenou-se a 29 de Agosto de 1966 e celebrou Missa Nova, na Igreja de S. Bartolomeu, na Silveira, e seguiu depois, como Missionário, para a Diocese de Nampula, em Moçambique, onde exerceu a sua actividade sacerdotal até 1972. Após três anos em Angola, onde exerce a actividade lectiva, regressa à Silveira, em 1975. Dedicou-se ao Ensino Secundário no Externato desta vila, até que foi vítima de um acidente vascular, em 1988. Era uma pessoa de trato fácil e grande simpatia, gozando da maior estima popular.


Vila das Lajes do Pico
14 de Janº de 2014

Ermelindo Ávila