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terça-feira, 11 de julho de 2017

COOPERATIVAS

 NOTAS DO MEU CANTINHO
                                               
         Em anos passados, conheci algumas do género de mercearia, a funcionar nesta ilha. Uma delas, na Calheta de Nesquim, desempenhou, durante alguns anos, uma actividade muito proveitosa, não só para os seus associados, mas sobretudo para os faialenses, picoenses, jorgenses e terceirenses, com as carreiras semanais no verão, da lancha “Calheta”, construída em Sto Amaro, em 1925, e que está a terminar seus dias no varadouro da Madalena, desde 1996. E que óptimos serviços prestou! Foi a primeira embarcação motorizada a fazer, semanalmente, a carreira entre as ditas ilhas. Depois, por razões que desconheço, foi vendida a um armador da Horta, que, um ano depois, a vendeu à Empresa Açoriana de Navegação e Pescas, Lda. Foi considerada a “Rainha das Lanchas” no dizer de Amílcar Goulart. (1)
A “Calheta” foi construída para fazer viagens, na época estival, entre as ilhas do grupo central – Faial, Pico, São Jorge e Terceira. Inicialmente, que me lembre, chegava ao porto de Angra, todas as semanas. Era uma alegria ver o facho do Monte Brasil dar sinal de embarcação, vinda de S. Jorge e a encaminhar-se para baía. No pátio da Alfândega aguardávamos, com ansiedade, a chegada ao cais e lá íamos saber, junto da tripulação, notícias do Pico. Uma tripulação simpática que conhecíamos de há muito: Mestre José Goulart, maquinista Alziro, que depois foi para S.ta Maria como faroleiro, e os tripulantes João da Antonica, dos Fetais, José Trindade, da Calheta e Francisco Homem, de Santa Cruz das Ribeiras. Simpáticos e serviçais que eles eram. (2)         
         A Cooperativa Calhetense de Navegação e Pescas, exerceu a sua actividade, além da exploração do tráfego marítimo, no comércio de fazendas, materiais de construção civil e mercearias.
A “Espalamaca”, a mais emblemática “lancha do Canal”, denominava-se, primitivamente, “Maria Utília”. Não passava de uma canoa motorizada, construída nas Velas, em 1919, com 9,70 m de comprimento. Renovada em 1944, passou a ter 13,44 metros de comprimento. Beneficiou de três modificações, a última em 1976, e depois de estar vários anos abandonada no varadouro da Madalena, é agora restaurada nos estaleiros de Sto Amaro. Inicialmente, (em 1949) tinha 14,57m de comprimento e, actualmente, o seu comprimento é de 17,46 m.            
         E voltamos à “Calheta” para deixar a pergunta: Porque não é restaurada, tal como foi a “Espalamaca”?
         Nas Lajes, além de outras que ainda existem - houve duas cooperativas, cada uma delas a explorar o comércio de mercearia. Uma outra existiu em Santa Cruz das Ribeiras. Mais próximo houve cooperativas de lacticínios na Ribeirinha e na Almagreira.
É pena que as cooperativas não tenham uma organização mais sólida, promovendo um comércio de produtos que só beneficiaria os seus associados e contribuiria para a consolidação dos preços dos géneros.
Verdade seja que estamos a atravessar um período de grande carestia.
No entanto, é de realçar a actividade dos super e hipermercados, com uma estabilização de preços aceitável, embora não deixem de aparecer, em determinadas épocas, géneros de elevado custo o que representa um sério agravamento da modesta economia das famílias picoenses.
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1)   Quaresma, Goulart, “Maresias”, III volume
2)    Ibidem
Lajes do Pico,
1-7-2017

Ermelindo Ávila

domingo, 23 de novembro de 2014

AS LANCHAS DO PICO

A MINHA NOTA


Fizeram história as “Lanchas do Pico”. E não somente as que trafegaram nos portos de Horta e Madalena. Nas década de vinte - trinta do século passado, contribuíram, igualmente, para a prática do comércio e da indústria das ilhas do grupo central do Arquipélago. Hoje, praticamente, deixaram de existir e passaram ao esquecimento. Outros transportes modernizados, os “Cruzeiros” as substituíram.
Há dias, porém, a comunicação social trouxe a público a notícia de que a “Espalamaca”, -antiga lancha do Canal - estacionada no porto da Madalena, conjuntamente com a “Calheta”, ia ser recuperada para servir de museu ou, talvez de peça de mais um liliputiano “museu” da ilha.
Ambas as lanchas citadas fizeram parte da frota da “Empresa das Lanchas do Pico”, com óptimos serviços prestados às populações das ilhas do Pico e do Faial. Não merecem, pois, o abandono a que têm sido votadas, depois que as lanchas do canal, como referi, foram substituídas pelos “Cruzeiros” e, agora, por novos barcos.
No entanto, afigura-se-me que, mais interessante do que a história da “Espalamaca”, é a da “Calheta”.
Segundo Amílcar Goulart Quaresma, em “Maresias”, a “Calheta” foi construída nos estaleiros de S. Amaro por Mestre Manuel Bento, para a Empresa Calhetense de Navegação e Pesca, Lda., com sede na Calheta de Nesquim. Navegou vários anos entre as ilhas Terceira, S. Jorge, Pico e Faial, com viagens regulares todas as semanas. Em 1931, foi adquirida por Miguel Zeferino, das Angústias e, em 1932, passou a pertencer à Empresa Açoriana de Navegação e Pescas, L.da, que a transferiu, em 1950, para a Empresa das Lanchas do Pico, que a incorporou na sua frota. Desde 1996, encontra-se estacionada no porto da Madalena, até que desapareça totalmente.
Cheguei a navegar da Terceira para o Pico na “Calheta”. Tinha uma tripulação cortez, sob o comando do mestre José Goulart, um marítimo destemido e uma figura simpática, apesar do seu aspecto fortemente másculo e impulsivo. Afinal, um bom homem como soe dizer-se.
Foi a primeira embarcação motorizada que fez serviço de passageiros e carga entre as ilhas do grupo Central, mesmo antes do antigo “Ribeirense” iniciar o seu benemérito serviço de passageiros e carga, durante os meses de verão, entre S. Miguel e Faial, passando pelas restantes ilhas do percurso, excepto a Graciosa, por ficar mais afastada, “fora de mão”, como se diz.
Tenho pena que a lancha “Calheta”, uma das poucas que conservou sempre a sua denominação, acabe tão ingloriamente seus dias, pois não deixaria de ser um testemunho forte da intrepidez dos marinheiros do Pico e dos óptimos serviços que prestou ao seu Povo, durante uma boa parte do séc. XX.
Não é, gratuitamente, que Goulart Quaresma, no seu excelente trabalho, a classifica de “Rainha das Lanchas”.
O mesmo aconteceu com as lanchas do porto das Lajes, “Lourdes” e “Hermínia”, construídas, respectivamente, em 192l e 1922, pelo célebre Francisco José Machado, o “Experiente”, e que acabaram por ser abatidas para serem substituídas por traineiras da pesca do atum.
Já antes a primeira lancha baleeira “Margarida”, uma vedeta construída em 1921 pelo Mestre António da Fonseca Santos, para recreio e que, depois, foi utilizada na caça da baleia, também acabou seus dias junto ao muro da rua da Pesqueira, desfeita por um grande temporal marítimo, deixando de ser arrecadada no Museu, como estava projectado.
Lajes do Pico,
1 de Novembro de 2014-11-01

Ermelindo Ávila