domingo, 17 de julho de 2016

A CAPITAL DA CULTURA BALEEIRA...

NOTAS DO MEU CANTINHO



O site de viagens do jornal espanhol El País insere a agradável notícia de que a Vila das Lajes do Pico ficou em décimo lugar das quinze localidades melhor classificadas pela sua beleza. A jubilosa notícia não vem de cá. Vem de fora. Do estrangeiro, porque dentro de portas não havia, naturalmente, a coragem para isso afirmar.
E isso acontece porque o camartelo ainda não destruiu totalmente a sua traça primitiva. Aqui e ali foram aparecendo algumas modificações, mas o essencial foi mantido e isso valeu-lhe a classificação que o “El País” lhe atribui. Afinal, trata-se, em nosso entendimento, de um aviso sério e, mais do que oportuno para que se evitem atropelos futuros às suas características urbanísticas que ainda se conservam.
         Salvaguardar tão rico património sócio-cultural é um dever, imperioso dever, de quem assumiu a responsabilidade da administração da coisa pública.
A vila, mau grado nosso, continua com duas ou três chagas, que mais não existem. São, afinal, aqueles habitações que estão em ruínas. E volto a falar na casa da Maricas do Tomé e de outras duas ou três que, mesmo assim, são o suficiente para dar um aspecto um pouco degradante à antiga Rua Direita na vila.

É tempo, mais do que suficiente, para que o camartelo restaurador entre em acção e que as entidades públicas, a quem compete tomar as medidas de salvaguarda do património público, assumam a restaurem, ou procurem auxiliar o restauro condigno desses imóveis.
Não interessa que modifique o aspecto urbanístico, modernizando-o, mas que se tomem medidas cautelares, para que se não destrua o que os artífices – que nem engenheiros eram – foram capazes de construir. Refiro, neste momento, a “Casa do Comendador” que ostenta uma placa de 1910. Não conto a história da sua construção, mas recordo somente a beleza da sua arquitectura, obra de um simples mas inteligente carpinteiro, que a projectou a seu jeito e orientou a construção, o Mestre Francisco San Miguel da Fonseca Santos. A sua descendência está praticamente extinta, só restando uma neta. Mas a sua memória não desaparecerá, ao menos, da geração. Com mais espaço poderei referir a “história” desta construção.
A Matriz das Lajes é “projecto” do antigo Vice-Vigário e Ouvidor Pe. Francisco Xavier de Azevedo e Castro, embora sofresse alguma modificação aquando da segunda fase, digamos assim, da sua construção e conclusão.
Repare-se na casa que foi de João de Deus Bettencourt, na rua P. Manuel José Lopes, antiga rua do Poço, e que pertence actualmente à família de Clarêncio Moniz da Rosa. Foram operários lajenses que a construíram e embelezaram. A pintura interior, ainda hoje, dá testemunho do grande pintor que foi o Domingos Belém. Felizmente que parou numa família que a sabe conservar, convenientemente.
Na rua Direita, está ainda em ruínas uma casa do século XVIII, que devia ser restaurada no estilo primitivo, que ainda conserva, mas que foi incompreensivelmente abandonada, ignorando-se quem seja hoje o respectivo proprietário.
         E bem cara que ela é a quem este arrazoado escreve...
Importa conservar o piso antigo de alguns arruamentos, como é o da antiga “Ladeira da Vila” que ainda liga à bacia da Maré. Deve restaurar-se o antigo piso da Rua do Saco, pois não permite trânsito automóvel que justifique o asfalto, cobrindo indevidamente a antiga calçada, que deve ser recuperada, tratando-se presentemente de uma zona bastante frequentada pelo Turismo.
         É preciso não esquecer que habitamos a DÉCIMA das quinze mais bonitas localidades de Portugal e capital da cultura da baleia.


Lajes do Pico,
25 de Junho de 2016

Ermelindo Ávila

O verão já chegou

Notas do meu cantinho

      O verão vai chegando, embora com intermitências invernosas. Mas é o que temos de viver. Já que o inverno foi dos mais devastadores dos últimos anos.
         Com a entrada do Verão, vão aparecendo por aí os turistas estrangeiros a trazer um pouco de movimento, de vida à pacatez da terra picoense que não somente a este ou aquele sítio mais privilegiado. A Natureza é igual para todos, prodigalizando horas de conforto e bem-estar ou, por vezes, arremetidas tempestuosas que causam prejuízos materiais e trazem em sobressalto as pessoas, com a falta de segurança que lhes traz.
         Mas esqueçamos o Inverno e vamos aproveitando, de maneiras diversas, a estação calmosa que mais se faz sentir com o calor que nos traz e que obriga as pessoas a mudar de ambiente e a procurar refúgio nos lugares onde os climas são mais equilibrados e reconfortantes. E nestas ilhas, o Mar é o refúgio para quantos o podem aproveitar, nos banhos das suas águas temperadas e límpidas, actualmente assinaladas com a bandeira azul.
         Como disse, os turistas andam por aí, despreocupadamente, sem receios de ataques terroristas, gozando o bom clima destas ilhas. E o Pico é uma das ilhas que os turistas europeus, qualquer que seja a nação de origem, mais procuram. A muitos deles não interessam as instalações hoteleiras de muitas ou poucas estrelas. Vão aproveitando, aqui e ali, as habitações que se lhes oferecem. É o chamado turismo rural, que está a desenvolver-se, satisfatoriamente, com proveito para aqueles que o sabem explorar com seriedade e oportunidade, seja na Calheta, nas Pontas Negras, na Silveira ou agora na Terra Alta.
         No geral são pessoas simpáticas, que cumprimentam os residentes com gestos amáveis e, quando conversados, deixam as melhores impressões e as mais singelas opiniões acerca da terra e suas gentes.
         Mas os picoenses não vivem, presentemente, do turismo, embora já se faça sentir algo de positivo na economia local.
         Eles mantêm as suas tradições que guardam com sentido altruísta e as suas festas, ou religiosas e profanas, que vão celebrando todos os anos, principalmente as chamadas festas de verão. E elas já começaram no passado domingo, com a Festa de Santo Cristo. A 22, é a da Padroeira Santa Maria Madalena, com as festas da Vila Fronteira.
         A 6 de Agosto realiza-se nas paróquias de Calheta de Nesquim e São Mateus as solenidades do Bom Jesus. A 15, é a da Senhora da Assunção em São Caetano, ou da Mãe de Deus na Silveira e na Prainha do Norte, e a 16, a do Padroeiro da Vila de São Roque, e, no último domingo, a de Nossa Senhora de Lourdes da vila das Lajes.
         A 8 de Setembro a freguesia da Piedade celebra a Festa da sua Padroeira e, no fim do mês, é a festa da Senhora das Mercês, na Manhenha, onde se prova já o vinho novo. Mas, antes, e desde há três anos, a Engrade celebra a festa em honra de São João Paulo II, na sua nova ermida, a primeira construída na ilha e dedicada ao Papa Karol Wojtyla.
         Depois das vindimas e da celebração destas festas, os veraneantes recolhem às suas residências. E isto à volta da ilha, pois em todo o Pico se cultiva vinha e se fabrica vinho, normalmente tinto, e de várias castas, pois o antigo Verdelho há muito que desapareceu... E são poucas as freguesias onde, no mês de Setembro, não se vá até às adegas para apanhar os figos e as uvas que se produzem.
         De registar ainda a festa de São Mateus, onde se realiza o “Império”, o último do ano, em cumprimento do voto feito por ocasião da crise sísmica de 1718 e 1720 e que aquela paróquia continua a cumprir todos os anos, com dignidade e respeito por uma tradição de quase três séculos.
         A Ilha do Pico é uma terra muito procurada no verão. Vêm os turistas estrangeiros e igualmente os emigrantes. Estes, no geral, além das visitas aos familiares, procuram estar nas suas freguesias de origem por ocasião das festas locais, dando-lhes assim maior brilho. É o que acontece todos os anos. Felizmente.


Vila   das Lajes,
5-Julho-2016

Ermelindo Ávila

segunda-feira, 30 de maio de 2016

O PÃO NOSSO...

NOTAS DO MEU CANTINHO


        ... DE CADA DIA é por isso que o homem luta dia a dia. O seu trabalho tem como finalidade primária o seu sustento e da família a seu cargo.
          Felizmente que, por estes sítios, vamos entrar na semana maior em que, ao menos nesta ilha, a fome não existirá, porque a todos, válidos e inválidos, velhos e novos é distribuído o pão em abundância.
          Refiro-me, naturalmente, aos tradicionais e seculares Impérios do Espírito Santo em que o pão a todos é festivamente distribuído. Pão que pode ser rosquilhas, pão ou vésperas conforme o lugar onde se realiza um “Império”.
          Isso dá-nos alegria e coloca-nos por cima de outras terras onde, mesmo nestes dias festivos, desconhece-se o que seja um Império do Espírito Santo.
          Há anos bastantes, encontrava-me num domingo em Lisboa. À tarde sentei-me num dos bancos da Praça do Marquês, na Avenida da Liberdade. Era já tarde algo adiantada. O amigo que aguardava não chegava. Entretanto aproxima-se da Praça uma empregada de um dos hotéis que ficam nas imediações, com um saco. Sentou-se, abriu o saco, tirou pão (papos secos) e enviava os nacos para o jardim. Imediatamente, caiu um bando de pombas que se acoitavam nos beirais dos prédios vizinhos. E a Senhora explicou: estes papos secos vão às mesas dos comensais e não são utilizados. Quando os empregados os recolhem, são lançados nos recipientes de lixo, pois não voltam mais às mesas. Foi então que me lembrei de os guardar e destinar a estes pombinhos que por aqui andam...
          Os pombos tomavam, assim, parte nas refeições servidas aos hóspedes...
          E, além dos simpáticos bichinhos, quantos serem humanos não andam pelos depósitos de lixo, à procura dos restos das mesas dos ricos e apreciariam também o pão fresco que eles desprezam!
É por isso que a fome ataca tantos pobres e famintos, tantos seres humanos – os sem-abrigo - vivendo nas ruas e dormindo sobre os cartões que vão retirar do lixo, no vão de uma porta ou debaixo dum beiral, como os vi por essas terras por onde andei... Se bem que João de Deus, na sua Cartilha Maternal, já escrevia: : Minha Mãe! Debaixo daquela arcada / Passava-se a noite bem!
No número de Fevereiro do corrente ano a Revista “Além-Mar” informava: Um terço dos alimentos produzidos no mundo perde-se ou é desperdiçado durante os processos de produção e venda. 850 milhões de pessoas passam fome no mundo. 1,3 mil milhões de toneladas de alimentos são desperdiçadas todos os anos no mundo.
Portugal não está isento de culta. Segundo a citada revista, Portugal perde todos os anos um milhão de toneladas de alimentos. (1)
No período da Guerra de 1939-1945, os géneros  de primeira necessidade eram racionados. As pessoas adquiriam-nos mediante senha fornecida pelos serviços administrativo concelhios. Até mesmo a farinha de trigo. Uma excepção, porém, houve e que teve o aplauso da população: A cada irmão de Império do Espírito Santo foi fornecida a quantidade de farinha necessária para o seu “açafate”, ou seja, para cumprir o seu encargo da sua “conta” de pão, vésperas ou rosquilhas. E todos os “Impérios” foram realizados na ilha e a farinha não faltou!
Actualmente, não estamos, felizmente!, em guerra e os géneros produzidos localmente, praticamente não existem. Todavia os terrenos estão aí, cheios de arbustos, ervas daninhas, abandonados! E, como já referi em anteriores escritos, infelizmente, não há mão de obra,  que os trabalhe ou cultive, como antigamente.  Desapareceram os homens que “davam dias para fora”,ou sejam os trabalhadores rurais. Nem mesmo utilizando a maquinaria moderna eles se encontram, ou muito raramente.
Estamos nas festas ou, “as festas estão em casa”. A maior parte dos Impérios já têm as massas cozidas e nos “açafates”, para serem levadas no dia próprio para o local da distribuição, geralmente junto das pequenas capelas, dedicadas à Terceira Pessoa da Santíssima Trindade.
Na ilha do Pico,  ainda são uma dezenas acrescentadas.

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1) Revista  “Além – Mar”, Fev. 2016

Vila das Lajes,
2 de Maio de 2016.
Ermelindo Ávila


sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

E UM NOVO ANO VAI CHEGAR

NOTAS DO MEU CANTINHO
                                                                                                                                                                                                                                                                                     Está no fim o ano de 2015. Um ano cheio de acontecimentos vários, como aliás são todos os anos que passam. Mas este, na realidade, foi bastante amargo para a humanidade. Basta fazer um exame retrospectivo e verificar os acontecimentos, os mais díspares e que ocorreram durante 2015. E deixo para trás os acontecimentos políticos que a bem poucos agradaram.
          Ainda agora, já no mês que está a findar, violentas tempestades assolaram algumas Ilhas açorianas, causando sérios prejuízos. Aqui no Pico, quase uma semana estivemos sem ligações para o exterior, quer marítimas quer aéreas.
          Um violento incêndio, e diga-se de passagem que sinistros dessa natureza não são muito frequentes, destruiu completamente um importante complexo comercial, em São Roque do Pico, causando sérios e avultados prejuízos.
          No Oriente, mantêm-se uma guerra fratricida, que está a causar, como acontece em todas, as mais funestas consequências, não se encontrando para ela qualquer solução. A Síria, o Irão, o Iraque, o Líbano, estão há quatro anos em permanente guerra, agora auxiliados pela Rússia, que ainda conserva as ambições diabólicas da antiga União Soviética. E, na opinião de alguns críticos internacionais, só a América do Norte pode pôr termo a tamanha carnificina, pois é sabido que nenhuma das nações da União Europeia tem influência nem capacidade militar para intervir no conflito islâmico.
          O terrorismo que já chegou à França e anos atrás se manifestou horrorosamente em New York, é uma ameaça continua, que pode a qualquer momento rebentar nas nações mais pacíficas.
          E vem a seguir a avalanche de refugiados que diariamente chegam à Europa, com certeza o maior flagelo da época actual. Viajam em condições dramáticas e não raro acontecem os naufrágios. Pedem refúgio em qualquer nação europeia. Portugal já recebeu o primeiro grupo. E se é de justiça acolher essa avalanche que diariamente aporta às nações mediterrânicas, os refugiados não deixam de ser um problema muito sério para as nações de acolhimento. Vêm aumentar o desemprego. Trazem consigo hábitos e costumes muito diferentes dos europeus. Um “modus vivendi” completamente alheio ao nosso, que se manifesta no convívio, na língua, na religião, no trajar e que revelam um autêntico atraso na civilização que praticam.
          O movimento das pessoas é um direito sagrado. E se é um gesto de simples caridade receber e acolher esses que fogem a uma guerra, com gravíssimas consequências sociais e materiais, importante é também ter alguma cautela com esses, agora denominados “refugiados”, para que não sejam eles a “impor” a sua  primitiva civilização.
          Portugal, e quem diz Portugal diz igualmente as Ilhas, embora beneficiem de um regime autónomo, está em crise política, social, económica. Deixo a primeira para trás. Fico pela social e económica, dado que esta se reflecte perfidamente naquela. As falências bancárias, o encerramento de empresas comerciais, a causar desastrosamente o desemprego, o êxodo da emigração que este provoca e, para os que ficam, o chamado custo de vida: os baixos salários, o aumento das tributações estatais, o elevado custo dos géneros de primeira necessidade, a alimentação, o vestuário, o calçado.
          Apesar disso é um acto de justiça que não deve esquecer-se, o acolhimento dos refugiados e tantos são crianças e idosos, que vêm forçados a abandonar as casas, as terras onde nasceram, os seus hábitos, costumes e até a tradicional religião, para escaparem com vida em terras estranhas.
                                                               +

          Dentro de poucas horas o calendário apresentará o novo ano de 2016. O que será ele?  Os conflitos e as guerras vão continuar. A economia com todos os seus reflexos na vida social, laboral, familiar, vai manter-se em baixo nível. O desemprego vai aumentar. A fome vai agravar-se. A doença vai-se propagando e os hospitais vão-se tornando cada vez mais incapazes de responder às solicitações das enfermidades que se vão multiplicando em razão das precárias condições de vida. O flagelo do desemprego vai manter-se ou aumentar, atingindo principalmente a classe etária mais jovem e incitando à emigração, deixando as terras abandonadas, os velhos nos asilos e as maternidades vazias…
          Até quando?
          Apesar de tudo, aqui deixo, sinceramente, os meus votos de um ano de 2016 muito feliz.

Lajes do Pico
31 de Dezembro de 2015

Ermelindo Ávila

CONTINUANDO...

NOTAS DO MEU CANTINHO


          Julguei que não chegasse aqui e que ficasse pelo caminho já percorrido, mas quis o Senhor que, uma como tantas vezes, me enganasse. Bem? Mal? Que outros respondam.
          Há muito que penso nesta nota. Chegou o dia de a ela me referir nestas acolhedoras colunas. Refiro os canhões do Castelo.
          Conheci-os, durante muitos anos, a servirem de apoio no varar dos “lanchões”, quando esses batelões por cá existiram ao serviço dos barcos, “Funchal” (primeiro) e depois “Lima”, que vieram a ser substituídos pelos pequenos navios “Cedros” e “Anel” e mais tarde pelo “Ponta Delgada”.
          Como já escrevi anteriormente, no tempo da Revolução Francesa (1789), uma ordem régia determinou a construção de fortes ou castelos. Na Vila das Lajes o castelo foi construído no antigo forte de Santa Cataria, este construído por mandato régio de 15 de Maio de 1574.
          Em 1885, foi constituída uma “Sociedade do Forno da Cal” que se instalou na antiga fortaleza e nela construiu uma chaminé, que ainda lá se encontra, e que estava coberta com uma meia redoma de plástico, quando ali se instalou o “Posto de Turismo”, e que há muito se encontra partida.
          O castelo possuía uns pequenos canhões, nas sete ameias e duas vigias da pequena fortaleza.  Importa que para lá voltem e sejam recolocados. Como acima se refere, alguns esses pequenos canhões, foram trazidos para as imediações da entrada na Lagoa para servirem de apoio, outros desapareceram.
          No entanto, com a construções da Muralha de Defesa  construída após o ciclone de 1936, que derrubou o antigo muro de defesa e, mais tarde, com a construção da rampa de varagem, mais a Sul, os canhões deixaram de ser utilizados e também foram “arrumados”.
          Está a ser construído novo edifício para a instalação do Posto de Turismo, aliás há muito  reclamado, pois as instalações actuais, ficando “fora da vila“, de pouco serviam aos visitantes.
          Não conheço o projecto do novo Posto. Mas isso não importa. Interessa que o serviço de informação turística seja devidamente instalado, disponha de uma informação correcta e, consequentemente, preste um bom serviço a quem o procure, e seja, simultaneamente, um elemento positivo de propaganda da vila, seu concelho e da própria ilha, mormente entre os visitantes estrangeiros que, atraídos pelo Whale Watching, por aqui aparecem em razoável número.
          De facto é notório o número de visitantes que por aqui têm passado nos últimos anos, mas sabe-se da incompreensível concorrência que, às empresas locais, estão a fazer, com instalações em outras ilhas onde a actividade baleeira nunca foi praticada ou, se experimentada, foi de efémera existência.
          Não sei qual o destino que vai ser dado às instalações do antigo forte, um edifício classificado como imóvel de interesse público. Seja qual for, importa que se dignifique o único imóvel de natureza militar existente na ilha do Pico e que constitui um apreciável elemento da nossa história, bastante prejudicada que é por falta de sinais que, incompreensivelmente, desapareceram. E que para ele voltem os canhões, onde quer que se encontrem... E recordo aqui, não a forca de tétrica existência, mas o pelourinho que podia ter sido conservado, como em outras terras aconteceu.
          De monumentos antigos restam, quase extramuros, o convento franciscano, o maior edifício existente na ilha do Pico e que data, a primeira fase, de 1691; e a ermida de São Pedro, a primeira paroquial da ilha, e que foi construída pelos primeiros povoadores, por volta de 1460, também esta classificada como imóvel de interesse público. Falta, porém, repor a placa que lá existia, bem como colocar uma no edifício do antigo convento. São elementos indispensáveis para a sua completa identificação.
          Pequenos sinais que registam a história lajense, já que outros desapareceram com o camartelo da ignorância.


Vila das Lajes, Pico,
6 de Janeiro de 2016

Ermelindo  Ávila

sábado, 26 de dezembro de 2015

Gloria in Excelsis Deo

Notas do meu cantinho
       
                                            Aos meus Netos e Bisnetos
                 
       Estava-se na véspera do Natal. Em casa do Mário, um miúdo à volta dos seis anos, havia uma azáfama grande a preparar a árvore do Natal, o Presépio e a casa, para o dia da Festa.  O Mário e os irmãos mais velhos, pois ele era o menino da Família, estavam cansados de trazer para a árvore os enfeites, e para o Presépio as pedras queimadas, os musgos e as outras ervinhas ajudando, assim, a Mãe a armar esses dois sinais festivos. O Mário estava cansado e logo ao anoitecer adormeceu. A Mãe tinha pensado em levá-lo à Missa do Galo, mas o miúdo não se aguentava com o sono e teve de ser metido na cama. Os outros dois manos prepararam-se para acompanhar os pais, mas o Mário não mais acordou e a solução foi deixá-lo a dormir. Não havia perigo algum pois ele não tinha por hábito acordar durante a noite e, demais, o tempo, apesar de ser Inverno, estava maravilhoso.
          Era meia noite. No campanário da Igreja Paroquial, os sinos repicavam festivamente. A igreja iluminara-se com grande esplendor. O grupo coral cantava o hino litúrgico Glória a Deus nas Alturas e paz na terra aos homens de boa vontade!
          Ao som alegre dos sinos o Mário acordou e chamou pela Mãe, mas esta não lhe respondeu. Viu-se só, àquela hora adiantada da noite, e não sabia o que fazer. Levantou-se e foi até à janela. Olhou curiosamente e viu ao longe a igreja toda iluminada e os sinos em contínuos toques festivos. Vestiu-se,  saiu para a rua, e foi andando até chegar junto da Igreja toda iluminada e entrou.
          No altar o sacerdote celebrava a Missa. A capela continuava a cantar o hino litúrgico. As pessoas, com ar alegre, ainda se cumprimentavam. O Mário foi andando pela igreja dentro e encontrou os Pais e os irmãos mais velhos que assistiam à chamada “Missa do Galo”. Naturalmente, ficaram surpreendidos com a presença do filho e irmão.
          Acolheram-no, carinhosamente, e envolveram-no numa manta, pois ele já acusava o frio que se sentia.
          Terminaram as cerimónias e o celebrante, depois de dirigir uma última saudação aos assistentes, retirou-se para a sacristia. Os miúdos correram, imediatamente, para junto do Presépio a admirar as figuras, que caminhavam pelas veredas e atalhos dos pequenos montes, e a pequena cabana onde estavam Maria e José e um Menino reclinado numa manjedoira, em frente de dois animais: a vaca e o burro. Entretanto, o povo ia saindo a pouco e pouco para as suas casas. Juntavam-se as famílias e os amigos saudavam-se, alegremente: “Boas Festas, Boas Festas!” – e caminhavam aos ranchos. O escuro da meia noite e o frio habitual do mês de Dezembro não aconselhavam que as pessoas se demorassem nos percursos.
          Rapidamente, todos chegaram às suas habitações. A casa do Mário iluminou-se e, na sala maior, uma pequena árvore que a mãe e os irmãos  haviam ali colocado, sem que ele se apercebesse quando saíu da cama, para ir junto da janela e descobriu a igreja iluminada; junto dela  vários pacotes, atados com fitas de cores e o nome de cada membro da família. Depois veio o grande momento: ao Mário entregaram um grande pacote que ele, sofregamente, desfez e, aos gritinhos, encontrou um pequeno avião, “tripulado” por dois “aviadores”. Rodando uma pequena chave ele iluminava-se e as hélices começavam a girar. Quando atingiam maior velocidade o pequeno avião levantava voo para descer um pouco além. Foi a grande surpresa e a alegria maior do Mário.
          Seguiu-se a habitual consoada, mas o Mário nem disso se interessou. E quando foi novamente para a cama, apesar da recomendação da Mãe que lhe havia retirado o precioso brinquedo, nem dormia a pensar na “viagem” que, no dia  seguinte, faria no seu avião. Por fim, o sono chegou. No dia seguinte, quando acordou, voltou a admirar, com enorme alegria, a oferta do Pai Natal. De todos os brinquedos que lhe ofereceram naquele dia nenhum outro foi capaz de despertar a alegria e o entusiasmo que lhe proporcionava a posse de tão interessante brinquedo - uma coisa rara que a poucos era dado usufruir.
          As festas continuaram. Os Pais e irmãos do Mário mantinham os velhos costumes. Ao almoço do dia de Natal tiveram como convidados os seus pais e outros familiares. Não faltaram o “bolo do Natal” e outros manjares tradicionais. A “caçoilha” foi o prato forte, como era costume na família. Foi, na realidade, um grande dia.
          Mas, para o nosso “herói”, nada mais lhe interessou. O avião, que subia e descia por alguns instantes, era o seu enlevo, a sua grande alegria.

Natal de 2015

Ermelindo Ávila

PE. DOMINGOS F. R. ANGELO

A MINHA NOTA

Recordo com o devido respeito a personalidade inconfundível do Padre Ouvidor  Domingos Ferreira da Rosa Ângelo. Lembro-o ainda quando paroquiava Santa Cruz das Ribeiras, principalmente agora que a respectiva paróquia vai celebrar com brilhantismo, como é tradição daquele lugar, o primeiro centenário da erecção do antigo curato a paróquia.
O Padre Domingos havia sucedido, ao antigo Cura, Pe. José Silveira Peixoto, natural desta vila e que ali fora colocado em 10 de Abril de 1899, passando, depois, à situação de manente.
O Pe. Domingos, como sempre foi conhecido, em 1916, entendeu elevar o curado a Paróquia. O processo foi organizado com a aquiescência do Vigário de S.ta Bárbara, Pe. Manuel José Alves, natural das Velas, a cuja paróquia estava sujeito o Curato de Santa Cruz, e foi este que, com o seu parecer, o enviou à Cúria Diocesana, não sem informar que “o povo não tem por costume receber bons despachos” o que não deixou de causar veemente protesto do cabido.
O processo foi despachado favoravelmente e o P. Domingos nomeado Vigário da nova paróquia, onde se conservou até 1927, ano em que foi transferido para Vigário e Ouvidor da Matriz de S. Roque do Pico, onde se manteve até ao falecimento .
Excelente músico, com voz brilhante de soprano, estava presente nas principais festas da ilha, quer como músico notável a auxiliar as respectivas capelas, quer como orador sacro, cujos sermões eram verdadeiras peças oratórias.
Conheci-o de perto e ainda recordo a sua estada em S.ta Cruz das Ribeiras e, depois, em S. Roque do Pico. É que ele, amigo íntimo do Pároco e Ouvidor do Pároco das Lajes, não faltava aqui nas festas maiores, principalmente a de Nossa Senhora de Lourdes e da Semana Santa.                                                                                                                                                                            
Quando se instituiu a festa de Santa Teresinha, após a sua canonização em  1925, o Pe. Domingos era o orador permanente, assim como o ouvidor das Lajes não faltava à festa instituída, depois, na Matriz de S. Roque.
Raramente, o P. Domingos se fazia substituir pelo seu colega e amigo, Pe. José Maria Fernandes, apesar deste ser igualmente um excelente orador sacro.
O P. Domingos, como atrás se refere, foi transferido de Santa Cruz para S. Roque, onde se conservou até ao falecimento. Como notável músico que era, foi o quarto regente da Filarmónica de S.ta Cruz, Recreio Ribeirense, até à transferência para a Matriz de S. Roque.
Dele escreve o P. José Idalmiro Ávila Ferreira, também natural de S. Roque e seu pároco e ouvidor: Difícil ao tempo encontrar alguém que se disponibilizasse a assumir esse cargo (Presidente da Câmara) pois ele teria de ser exercido gratuitamente e com a agravante de a ele estar anexa a administração do Concelho, com os poderes policiais alargados à prisão dos supostos delinquentes, o que naturalmente trazia sérios dissabores numa terra onde todos são conhecidos, muitos deles parentes, vizinhos e amigos...(1)
O exercício do cargo acarretou-lhe sérios dissabores de que se livrou com a ajuda dos seus paroquianos, numa ocasião em que, falando em momento solene, respondendo ao Governador do Distrito, que visitava o concelho, não se escusou de afirmar, e cito:
“Pois, Exa., o sentimento generalizado do meu povo do qual faço eco, é este: “Isto não é governo de Deus, mas do diabo...) (2)
E mais se poderia dizer do P. Domingos Ferreira da Rosa Ângelo, uma das mais relevantes figuras da Igreja, no século que passou. O referido basta para pôr em destaque tão distinta personalidade eclesiástica e civil.

________
1) FERREIRA, Idalmiro, Esta Terra – Esta Gente, 2002, pág,245.
2) idem, pag. 246

Lajes do Pico, 26-11-2015
Ermelindo Ávila



A FESTA QUE O GUIDO NÃO TEVE


          Guido foi um menino feliz na sua infância e adolescência. Os pais eram pessoas da sociedade, na cidade em que viviam. Eles e os irmãos tinham uma vida sem dificuldades. Na escola distinguiam-se pelo seu trajar, pelos utensílios que utilizavam. Eram, mesmo, bastante considerados e estimados pelos professores e companheiros. Pois se nada lhes faltava...
          Viviam numa das cidades mais prósperas do seu País. O pai era um industrial rico e a Mãe professora num colégio estrangeiro. Viviam numa excelente moradia, ricamente mobilada e a mesa era abundante e servida por pessoal especializado.
Mas um dia, sem saber como, a infelicidade bateu-lhes à porta. Tudo se transformou e o Guido viu-se numa situação muito triste: um atentado terrorista levou-lhe os pais e os irmãos.
Na cidade rebentou, entretanto, uma revolta entre os diversos partidos políticos. Reforçou-se a Polícia, mas foi incapaz de suster os revoltosos. Vieram reforços do Exército e começaram a bombardear a cidade para repor a ordem. Os canhões, as metralhadoras, as armas ligeiras, os carros de assalto, toda a máquina de guerra foi posta a funcionar. A pouco e pouco foram atingidos edifícios, os habitantes foram sendo mortos e as ruas ficaram intransitáveis com os escombros das casas demolidas pelo fogo da artilharia. O fogo começou a propalar-se e não houve corporação de bombeiros que fosse capaz de extingui-lo.
Os que escaparam, conseguiram fugir para os campos. Separaram-se e nunca mais se encontraram.
Guido, encontrando-se sozinho, caminhou por terra dentro. Há dias que andava a divagar, sem encontrar alguém que o acolhesse. As roupas iam ficando esfrangalhadas. A fome era muita e valia-se da fruta que, aqui e ali, encontrava em alguns campos de fruta, por onde passava. Certo dia, porém, ao cair da noite, achou-se numa pequena povoação.
Aproximou-se de uma casa modesta, bateu à porta e gritou que o acudissem. Não tardou o socorro da velha dona da casa, uma senhora, já entrada em idade, que vivia só, pois o marido tinha falecido e os filhos haviam emigrado. Recebeu o pobre pedinte e indagou da sua vida. Ficou triste e condoída com a situação calamitosa que o Guido lhe contou. Acolheu-o com carinho, lavou-o, arranjou-lhe umas roupinhas que ainda guardava dos filhos e preparou-lhe uma singela refeição quente.
Quando o Guido se encontrava algo reconfortado, a Senhora quis aprofundar a “história”. A custo, emocionado e muito saudoso dos pais e irmãos, contou-lhe como tudo acontecera.
Estava-se na semana do Natal. A mãe já havia preparado a casa, armado o Presépio e coberto de luzes e outros adereços, a tradicional árvore do Natal. Tudo, porém, desaparecera com os bombardeamentos. A casa transformou-se num montão de ruínas, sem nada que se aproveitasse, e os pais e irmãos, aqueles que não puderam fugir, cadáveres cobertos pelos escombros do prédio. E outras mais famílias havia naquele triste estado. Até a igreja da sua paróquia fora atingida. Uma grande parte da cidade estava no chão.
Os que escaparam à tremenda tragédia, diziam que eram actos de terrorismo, praticados por pessoas estranhas à cidade. Mas ele, pequeno como era, nem sabia o que era o terrorismo.
A Senhora, ouviu a triste e horripilante narração e tudo procurou fazer para que o Guido esquecesse um pouco o seu drama e tivesse uma festa de Natal, com algum conforto.
E assim aconteceu. Na noite de Natal o Guido, ao ir deitar-se, encontrou, no quarto onde havia sido albergado, um pequeno altar com a imagem do Menino Jesus, ao lado Sua Mãe e S. José, e, junto da janela, uma arvorezinha enfeitada com fitas coloridas. Debaixo dela, no chão, uma pequena caixa com um carrinho de corrida e dentro dele um bilhete onde alguém, naturalmente a senhora que o acolhera, havia escrito: Presente do Menino Jesus.

          Nesta Festa que se aproxima quantos mais Guidos, não haverá por esse mundo que se diz civilizado? Encontrarão eles uma mãe adoptiva que os acolha maternalmente ?

Natal de 2015


Ermelindo Ávila

OS ANTIGOS TRAJOS

NOTAS DO MEU CANTINHO

OS ANTIGOS TRAJOS

          Os picoenses – ou picarotos, como queiram -  sempre usaram, no decorrer dos tempos, um trajo característico, mas não tanto como alguns passaram por vezes, exageradamente, a descrevê-lo.
Os irmãos Joseph e Henry Bullar, que por aqui andaram a meados do século XIX,  deixaram uma descrição algo picaresca do homem do Pico que  ao Faial se deslocava a negociar os produtos da terra.
E assim o descrevem: Alguns aldeões do Pico vestem-se inteiramente de vermelho. Usam jaqueta curta de estamenha, vermelha, colete e calções do mesmo tecido e cor, com polainas abotoadas sobre os pés. Estes andam descalços ou cobertos de sandálias de coiro (onde não raras vezes ficaram restos do pelo do boi) por sobre o dedo grande. Todavia não  deixaram de lhes dar o  trato de “gentleman da velha guarda”.
Andarem os trabalhadores da terra, ou agricultores, de sandálias ou “albarcas” de coiro de boi mal curtido ou, mais tarde, de “albarcas” de borracha de pneu, quando começaram a aparecer os automóveis já a meio do  primeiro quartel do século XX, conheci-os eu, mas nunca de trajos de cor vermelha.
Os agricultores vestiam , geralmente, calças de cotim e camisas e casacos (sueras ou frocas) de cor cinzenta, tecidos de lã de ovelha, nos teares domésticos.
Depois, quando começaram a vir da América do Norte as “sacas de roupa”, enviadas pelos parentes (irmãos, filhos, amigos ou conhecidos,) passaram a usar as calças ou alvaroses (calças com uma pala a cobrir o peito) de angrim, que hoje são um luxo para as senhoras.
Curioso que os trabalhadores rurais, quando andavam pelos campos, amarravam um atilho na altura dos joelhos, como medida de precaução, para evitar que o pó da terra lhe subisse pelas pernas.
A camisola de lã não era dispensada, mesmo no verão, embora provocasse grande calor, pois absorvia a transpiração e evitava as constipações.
Para assistir aos actos religiosos o picoense, de qualquer categoria social, vestia o seu fato preto e punha gravata – o fato domingueiro como diziam.
O trajo da mulher era bastante diferente daquele que agora usam.  Durante a semana trajava saia abaixo do joelho e, normalmente, calçava galochas com piso ou sola de madeira de cedro por ser leve e nada porosa, Vestia uma blusa de tecido leve com manga a cobrir todo o braço, e, na cabeça, usava lenço de qualquer cor ou chapéu de palha no verão. Sobre os ombros um xaile de qualquer cor, conforme as circunstâncias.
Ao domingo, as mais jovens, usavam vestido de tecido leve, para o que havia costureiras em quase todas as freguesias, e punham chapéu, de diversos feitios conforme a moda corrente. À igreja nenhuma pessoa do sexo feminino ia sem ter a cabeça coberta. Hoje é ao contrário: as mulheres baniram o chapéu e os homens, com chapéu ou boné entram em qualquer parte.
Se estava de luto ou tinha marido ausente (nesses tempos o marido emigrava por poucos anos) o xaile era de cor preta. O luto durava meses ou ano, conforme o grau de parentesco com o falecido, mas se era marido ou mulher o luto durava a vida inteira a menos que mudasse de estado.
Uma das minhas bisavós - faleceu no ano em que atingiria um século – dizia-me que usava sete saias, que iam dos joelhos aos pés. A saia de fora era provida de algibeiras. Quando estas não existiam, tinha uma bolsa pequena, ou matrona, que ligava à cintura, onde guardava os “cobres” e pequenos objectos. 
De registar que, normalmente, quando algum indivíduo das freguesias, durante a semana, descia à Vila para tratar de qualquer assunto, ou até pagar as contribuições ao Estado, vinha com trajo domingueiro, pelo respeito que lhe mereciam as repartições públicas e os respectivos funcionários.
As pessoas cumprimentavam-se quando se cruzavam na via pública, e os mais novos tinham por obrigação ou hábito tirar o chapéu ou boné quando se cruzavam com qualquer mais idoso e não só.
Os hábitos e costumes eram bastante diferentes e o respeito pelos parentes e/ou mais idosos uma obrigação.
 Com certeza que os irmãos Bullar veriam os picoenses e açorianos de maneira diferente...



Lajes do Pico,
22-XI-2015

Ermelindo Ávila

sexta-feira, 13 de novembro de 2015

PROFESSOR DOUTOR JOSÉ ENES

NOTAS DO MEU CANTINHO


Num gesto singelo de profunda e respeitosa homenagem, trago hoje a este “Cantinho” a personalidade inconfundível do Professor Doutor José Enes, de seu nome completo José Enes Pereira Cardoso, que nasceu nesta ilha, melhor nas Lajes do Pico, em 1924 e faleceu em Lisboa, quase aos noventa anos, em 2013.
Conhecíamo-nos desde a infância, e sempre mantivemos uma amizade simples, mas bastante sincera. Conservo do Professor Doutor José Enes, com muito respeito, algumas das cartas que me escreveu, principalmente de Luanda, onde tive o privilégio de com ele passar uma manhã na Universidade daquela cidade ultramarina. Já lá vão mais de quarenta anos.
A recordar o seu “Pensamento e Obra”, realizou-se em Outubro passado um Colóquio na Universidade dos Açores, nos dias 26 e 27, continuado em Lisboa nos dias 29 e 30, com o alto patrocínio do Cardeal Patriarca de Lisboa D. Manuel Clemente. Nada mais sei desse acontecimento científico e já histórico, porque não tive o grato prazer de a ele assistir, até porque foi reservado, ao que sei, a altas personalidades culturais e científicas. (A Imprensa quase ignorou o notável evento...) No entanto, foi-me possível adquirir o livro póstumo lançado nessa ocasião, em Ponta Delgada, “Portugal Atlântico”, - Estudos de Fenomenologia Política, com Prefácio do Prof. Doutor Carlos E. Pacheco Amaral e Nota Introdutória da Prof.ª Doutora Maria Fernanda Diniz Teixeira Enes, esposa do Doutor José Enes. Em Anexo, entre outros, o discurso pronunciado nesta vila aquando da Homenagem que a Câmara Municipal, da presidência do Eng. Cláudio Lopes, prestou ao insigne lajense, na celebração do quinto centenário da instauração do concelho.
E transcrevo, com a devida vénia e o maior respeito: “Olhei de relance para o horizonte distante dos meus trabalhos literários, históricos, culturais, sociológicos, de desenvolvimento económico e social, de política e de relações internacionais a ver se divisava alguma memória abordável para a inesperada rota deste cais baleeiro. (...) E foi na ânsia desta angústia que me surgiu a ideia salvadora. Já que o Pico e suas gentes a homenageavam pela originária autoridade histórica da Vila das Lajes, por onde começou o seu povoamento e sua primeira capital, então esta conferência oferecia-me a oportunidade de retribuir prestando a minha homenagem ao Pico e às suas gentes. (...) O que na ansiedade da resposta à segunda pergunta do Sr. Engenheiro Cláudio relampejou no meu intuito foi a evocação vivencial do que devo ao Pico e às suas gentes no que sou e no que tenho feito.”
Recordou os baleeiros, os marítimos, os ferreiros e aqueles que até foram poetas, como Amélia Ernestina Avelar, ou Diasde Melo e José Carlos. Mas antes recorda o Pico, - “A montanha do meu destino”, poema maravilhoso de que é Autor. E não esquece alguns notáveis, que por aqui passaram como Nemésio, Chateaubriand, Sarmento Rodrigues e outros mais. A conferência que aqui pronunciou no dia dos quinhentos anos da criação da Vila e, simultaneamente, da homenagem que o Município, ainda a tempo, prestou ao emérito lajense, é toda ela um verdadeiro hino de glorificação: “a evocação vivencial do que devo – diz – ao Pico e às suas gentes no que sou e no que tenho feito”
No final da sua Nota Introdutória escreve a Doutora Maria Fernanda Enes: “Quando em 2010 sofreu o enfarte do miocárdio e foi contaminado por uma bactéria hospitalar, recuperou muito pela ajuda da leitura dos seus poemas, marcados pela insularidade, e com a audição constante do seu poema “MONTANHA DO MEU DESTINO” (escrito em Roma em Setembro de 1946 e que ele titulara simplesmente “Pico”), musicado por um dos seus alunos – Emílio Porto, de saudosa memória – e cantado pelo Coro da sua terra natal. As Lajes.”
E com estas referências – e outras poderia fazer se de maior espaço dispusesse - expresso com o maior respeito a minha homenagem sentida e indelével à memória do erudito e notável lajense, excelente e erudito Amigo (pois assim sempre e benevolamente me tratou), Doutor José Enes, uma das personalidades mais distintas, e porque não das mais agigantadas - - não somente do Pico, sua e nossa ilha querida, mas dos Açores e de Portugal.
Vila das Lajes,
Ilha do Pico,
Novembro de 2015

Ermelindo Ávila