sexta-feira, 8 de abril de 2011

A POLÍTICA DE HÁ UM SÉCULO


Era muito diferente a política praticada por estas paragens, há anos passados.

Como sempre, trabalhavam-se os actos eleitorais. Não havia comícios nem disputas públicas. Os votos eram pedidos de porta a porta e pela calada da noite. Terminados os actos eleitorais a vida das pessoas voltava à normalidade.

Os partidos não eram muitos. No princípio da República apenas dois os que por cá militavam: os democráticos e os unionistas. E bastavam. O elemento feminino não tinha direito a voto, nem mesmo os analfabeto que, aliás, representavam uma parte importante da população.

Tudo se reduzia a um pequeno ou limitado número de eleitores. E eram esses que manobravam os destinos dos povos, principalmente das câmaras municipais, pois as juntas de freguesia ou de paróquia tinham atribuições limitadas.

Os militantes políticos nada recebiam pelos cargos que exerciam. E isto durante muitos anos, até mesmo no chamado Estado Novo. Depois, tudo se modificou e hoje exercer um cargo político é ter a garantia de auferir ordenados avantajados e invejáveis, quando a grande maioria das pessoas se vê a braços com graves problemas financeiros, derivados dos parcos proventos que recebe e que estão sempre ameaçados de cortes. De realçar os chamados funcionários públicos que, recebendo seus salários dos cofres do Estado, estão sujeitos aos cortes que, dizem, vão permitir saldar os défices do Estado, os quais, segundo se julga, ninguém procura averiguar como foram contraídos…

O quinzenário As Lages, cuja publicação se iniciou nesta vila em Fevereiro de 1914 e do qual era Director, proprietário e editor, Gilberto Paulino de Castro, no seu número 103, de 15 de Abril de 1919, e sob o título “Comissão Administrativa Municipal”, traz a seguinte notícia, que nos apraz aqui transcrever como documento histórico que é, e decorridos que são quase cem anos:

“De acordo. 0s dois grupos políticos desta localidade, unionista e democrático, propuseram ao Exmº Governador Civil deste distrito a nomeação da comissão municipal administrativa deste concelho, por alvará de s. Exª sancionada e assim constituída e representada: Presidente:- Manuel Quaresma Melo, independente. Vogais: - Leonardo Xavier de Castro Amorim e Edmundo Machado Ávila, unionistas; José Francisco Pimentel e Manuel Vieira Cardoso, democráticos. - Cumprimentamos o sr.José Lopes da Silveira Gomes, digno representante do partido democrático deste concelho, pela seleccionada escolha que fez para a representação do mesmo partido na administração deste município. Desde a primeira e subsequentes sessões em que têm tomado parte, mostraram ou fizeram-lhes mostrar o que devem ser e como devem proceder os filhos dilectos do querido pai Afonso!... A César o que é de César” .

Conheci pessoalmente os indicados membros do executivo camarário. Todos eles pessoas de bem.

O Presidente, Manuel Quaresma Melo, era comerciante e oficial de baleia. Duma simpatia extrema. Teve, no entanto, morte trágica. Ele, a Filha e o Genro e dois netos foram vítimas do surto de peste que atingiu esta vila, por volta de 1922. Além do Senhor Quaresma outros mais foram tingidos pela terrível doença que só desapareceu com a construção do antigo campo de jogos, que dali retirou o matagal de junco onde as pessoas, incautamente, faziam lixeira e era pasto da ratazana.

Mas, voltemos à política de outras eras. Não era perfeita como jamais foi em tempo algum, pois as quezílias nunca deixaram de existir. Hoje separa, por vezes, as sociedades, as pessoas e as famílias. Promove, incobertamente, a vingança. Muitas vezes não tem pejo em caluniar para vencer e alcandorar-se nos lugares cimeiros do mando. Governa os povos segundo os caprichos pessoais, quantas vezes de encontro aos princípios básicos do bom senso, da seriedade e do são convívio.

Como me dizia alguém: a política é uma tristeza e uma lástima de que é vítima o Zé Povinho. Bem a definiu Bordalo Pinheiro!…

Vila das Lajes,

30-Março-2011

Ermelindo Ávila.



quarta-feira, 6 de abril de 2011

DIVAGANDO...

Quem conseguisse reunir as cartas que se trocavam entre as famílias açorianas e os familiares que emigraram para o Brasil e, mais tarde, para os Estados Unidos, ficaria de posse de um extraordinário acervo sobre a história destas ilhas.

Muito embora não fossem assíduas as cartas, pois os meios de transporte eram raros, nem por isso deixavam de levar daqui, não só as notícias da família, mas igualmente das ocorrências que se haviam dado nos tempos anteriores.

Basta ler a “Carta para Longe”, (in “Em Louvor da Humildade”- 1924) de Armando Cortes Rodrigues, para se ter uma ideia muito aproximada do que eram essas missivas cheias de saudades imensas, pois as famílias de cá não deixavam de transmitir aos que haviam partido, as notícias dos mais simples acontecimentos.

Tal como as tradicionais cartas, principiava o poema:

Maria! Estimarei / Tua saúde e dos teus/ Pois a nossa, ao fazer desta, / É boa graças a Deus”.

E continuava dando as mais simples notícias, quer da própria casa, quer da família e dos vizinhos:

“O craveiro do balcão / Já se secou, coitadinho.../ Faltou-lhe a luz dos teus olhos / E o modo do teu carinho”.

Deste jeito eram as cartas para Longe como escreveu o consagrado Poeta e Literato.

Havia escreventes habituais. Respondiam com certa graça às cartas que vinham das terras de imigração e muitas vezes aproveitavam para dar notícias da escrevente e dos acontecimentos por vezes os mais dispares. Mais assíduas eram as cartas dos Estados Unidos e do Canadá.

Do Brasil eram poucas e cada vez iam rareando mais. Até havia o ditado: O Brasil é a terra dos esquecidos. E esquecidos porque, passados uns tempos, os que lá estavam imigrados, esqueciam a terra e a própria família. Poucos eram os que voltavam à terra. Que me lembre, apenas uma ou duas famílias cá vieram. Uma por cá ficou e passou a ser conhecida pela terra para onde havia emigrado.

Uma questão psicológica, que interessante seria averiguar, pois é sabido que existem nas terras de Santa Cruz imensos descendentes de açorianos, desde os históricos Casais – cerca de quarenta – que emigraram para Santa Catarina aquando das erupções vulcânicas do século dezoito e, depois, para outras regiões. Alguns deles fixaram-se mais tarde no Uruguai, onde ainda existe uma colónia de descendentes açorianos, que há poucos anos fundou uma sociedade açoriana-uruguaia, para defesa da língua portuguesa, como rezam os respectivos estatutos.

E todos eles, quer no Brasil quer no Uruguai, têm muito orgulho em serem descendentes de gentes emigradas destas ilhas. Mas só.

Existem “Casas dos Açores” em diversas cidades do Brasil, algumas com grande actividade, como seja a “Casa dos Açores” do Rio de Janeiro.

O mesmo acontece agora no Canadá, onde se encontram dezenas de associações com sedes próprias, fundadas pelos imigrantes portugueses e açorianos. Só em Toronto, consta-me, há mais de duas dezenas.

Afinal, as Casas dos Açores proliferam por toda a parte onde se haja fixado um grupo de açorianos.

A de Lisboa, por certo a mais antiga, tinha inicialmente a denominação de “Grémio dos Açores”, fundado em Março de 1927.

Não são de esquecer as seculares sociedades, “União Portuguesa do Estado da Califórnia”, fundada em 1880 pelo picoense António Fontes e a “Sociedade do Divino Espírito Santo”, também fundada pelo picoense Pe. Manuel Fernandes, conjuntamente com outros imigrantes, em 1896, ambas da Califórnia. Em New Bedford existia o “Montepio Português”. Mas não somente estas. Outras mais há, como a “Casa da Saudade”.

Servem elas, meritoriamente, para conservar vivo o espírito e as tradições das terras de origem, desde as matanças de porco até às festividades do Espírito Santo, não esquecendo os Santos Padroeiros das respectivas localidades de origem.

E, não só as sedes sociais, algumas de grandeza enorme, tenha-se presente a de Mississauga, Canadá, como até os belos e modernos Templos, quase sempre providos de clero português.

De referir também a Imprensa portuguesa, mantida com entusiasmo em terras da Diáspora. É o caso da Califórnia e de Massachusetts. Só na Califórnia, até 1979, fundaram-se vinte e seis periódicos. Lá existem ainda jornais portugueses desde longa data. Outros, embora portugueses na sua origem, já utilizam a língua estrangeira.

E há ou houve programas portugueses na Rádio e na Televisão. Lembro aqui o programa Castelos Românticos iniciado em 1930 pelo nosso conterrâneo Arthur Ávila e esposa Celeste Ávila, o qual teve grande audiência entre a comunidade portuguesa da Califórnia.

Não posso ir mais além. O assunto, de tamanho que é, transcende os limites de um texto jornalístico.


Vila das Lajes,

20 de Março de 2011.

Ermelindo Ávila

segunda-feira, 28 de março de 2011

RETIRAR DA VILA A ESCOLA SECUNDÁRIA ?

Todas as ilhas têm as escolas secundárias nos respectivos centros urbanos, a principiar pela Ilha de São Miguel. Conheço somente uma excepção: a escola de S. Roque do Pico, construída no princípio da estrada transversal, no propósito de ligar a antiga Vila ao lugar do Cais, onde se situam os serviços públicos.

Depois de uma luta de anos, parece que a Secretária Regional da Educação, recentemente empossada, sem tomar conhecimento “in loco” da situação do actual edifício escolar, construído de raiz para aquele fim, entende dar provimento à proposta de uma facção social e construir um novo edifício afastado da zona urbana cerca de dois (2) quilómetros.

A concretizar-se tal projecto, promove-se a completa destruição da vila, dela ficando, em poucos anos, apenas as ruínas, pelo abandono que vai provocar. Será que se pretende editar, na época presente, as antigas “Ruínas de Pompeia”?

Retirar da Vila a Escola Secundária é, como disse, o maior golpe que pode dar-se no seu desenvolvimento e no seu futuro. A Vila deixará de ter movimento de pessoas, pois as duas ou três centenas de jovens que virão a frequentar a escola, não terão tempo de a ela descer nos intervalos das aulas.

A eles não fará diferença a mudança da escola uma vez que o autocarro os leva a qualquer sítio onde a escola se encontre. Todavia deixa de haver a sua presença diária e a alegria louçã que emprestam à vila e dão movimento ao seu comércio.

Acresce que, construída a escola da Ponta da Ilha - para servir a Calheta, Piedade e Ribeirinha, os alunos até ao nono ano, deixarão de deslocar-se à escola das Lajes e esta ficará com a sua frequência bastante reduzida, de uma ou duas centenas de alunos.

Assim sendo, o actual edifício ficará com algumas salas desocupadas e, consequentemente, com espaços suficientes para todos os serviços, aulas e laboratórios e salas de estudo até, do Secundário.

E pergunto: Para quê, a construção de um outro edifício afastado da vila?

E qual a ocupação que vai ser dado ao actual? Demoli-lo? Deixá-lo ao abandono, como sucede ao edifício da Alfandega?

Estes e outros argumentos que podiam ser evocados, suficientes são para que a titular da Educação ou o Governo reconsidere a sua deliberação, a bem do Serviço Público e de uma terra que deseja que o seu futuro seja acautelado para que possa desenvolver-se e progredir.

Demais, se é necessário ampliar o edifício actual não falta espaço. O processo de expropriação tanto pode dar-se num local como no outro.

Sem desejar, voltei uma vez mais a este assunto. Espero ser a última vez. Somente o faço no desejo bem visível de acautelar o desenvolvimento da vila onde nasci e tanto prezo. Estou a defender o futuro desta terra. Tenho esse direito e, até, esse dever. Outros pensarão o contrário. Cada um pode pensar livremente como bem entender. Todavia, muitos se enganam e o futuro dirá quem está dentro da razão. Não se precipitem, pois... Ainda é tempo de se recuar, com brio e dignidade...


Vila das Lajes,

4 de Março de 2011.

Ermelindo Ávila

sexta-feira, 4 de março de 2011

ARTES E OFÍCIOS

Em 23 de Maio de 1506 estando juntos o Juíz ordinário, o Vereador e o procurador do concelho além de outros homens bons da Câmara, acordaram e houveram por bem, e proveito da terra, haverem um ferreiro para estar na terra, o qual concertaram (acordaram ) com Gonçalo Anes, Ferreiro, que nos servisse, e morasse na terra quatro anos ao qual temos de dar dois moios de trigo e lhe fazemos uma casa igual à casa do Concelho, e mais pagarão o frete dele e de sua família, de 500 reis.”(1)

A deliberação “foi notificada ao povo, e o povo disse que era muito contente de tudo o que os homens bons da Câmara fizeram”. E logo “lançaram as taxas para o pagamento daqueles encargos e de outras coisas”.

Nesse mesmo ano de 1506 resolveram lançar uma finta (taxa) sobre os moradores (ou fogos) da ilha que eram 45 e a finta foi fixada em 27.455 reis, destinada à construção da igreja (Matriz). Até então vinha servindo a ermida de S. Pedro.

Curiosamente, (cerca de cinquenta anos após o povoamento) na lista já se encontram um sapateiro, um carpinteiro, um pedreiro, um alfaiate, um tecelão e um cardador.

A casa que foi prometida ao ferreiro era igual à da câmara. Esta era de dois pisos e no segundo tinha duas divisões. “Situava-se na Praça e (foi) demolida em 1900 por causa das obras da matriz nova”.(2)

Em 1884 a freguesia da Santíssima Trindade tinha 3 107 habitantes, sendo 2583 maiores de sete anos e 524 crianças. Na população estavam incluídos quatro negociantes, sete carpinteiros, sete ferreiros, quatro sapateiros, um alfaiate e um calafate ou construtor de embarcações de pesca local e canoas baleeiras. (3)Convém recordar que o primeiro construtor de canoas baleeiras, em Portugal, foi o lajense Francisco José Machado (Experiente).

Em 1922 vamos encontrar, na vila das Lajes, dois alfaiates, um barbeiro, oito comerciantes, dois construtores de embarcações, duas fabricas de queijo e manteiga, uma florista um pintor - dourador, três sapatarias, e dois talhos.(4)

Decorridos trinta e três anos (1955) a vila das Lajes possuía: dois construtores navais, nove fábricas de lacticínios, uma fábrica de conservas, uma da baleia, e uma de laranjadas, três moagens de cereais, duas padarias, duas pensões, sete armações baleeiras, duas sapatarias, duas barbearias, três oficinas de ferreiro, duas bombas de combustíveis, dois depósitos de tabaco e diversos estabelecimentos comerciais.(5)

Aqueles que se destinavam ao exercício dos ofícios de alfaiate, barbeiro, carpinteiro, ferreiro ou sapateiro, ou outros, iam praticar durante meses ou ano, nas oficinas existentes, sem qualquer remuneração e, não raro, tinham de deslocar-se das respectivas residências para fora da localidade.

Presentemente não existem barbeiros, nem sapateiros, ou ferreiros. As fábricas de lacticínios estão reduzidas a uma somente. Desapareceram as sete armações baleeiras por força da proibição da caça da baleia, deixando de existir a respectiva fábrica. E fecharam, também, a fábrica de conservas e a de laranjadas. Os estabelecimentos comerciais tradicionais quase desapareceram...Todavia abriu há meses um excelente hipermercado. O mesmo vem acontecendo em toda a ilha, embora novos estabelecimentos com diversos géneros de comércio hajam surgido. E bem assim novas oficinas, especialmente de artesanato, que o turista muito procura.

Mas tudo isto uma vez mais é recordado, com o recente caso dos “Estaleiros da Madalena”. E a eles fazendo alusão ligeira, recordo os estaleiros de Santo Amaro, ou o Arsenal de Santo Amaro, como os classificou o Pe. José Maria das Neves:

Presentemente (1970), há três estaleiros navais equipados com maquinismo moderno; o de Manuel Joaquim de Melo, dirigido por João Alberto Neves(...) o de José Teixeira Costa e o de Júlio Matos de Melo. – Nos últimos 20 anos, aproximadamente, foram construídas de novo, ou reconstruídas e ampliadas 70 traineiras da albacora, não falando das muitas outras feitas nesse período, como a ampliação do iate Espírito Santo, da lancha Espalamaca, etc.” – “E isto bastará para se julgar do volume deste arsenal, o maior dos Açores, e do valor de que são credores estes briosos construtores...” (6)

E pergunta-se: Porque não se aproveitam os estaleiros de S. Amaro? Retirar daquela freguesia uma actividade, que era a única, para a arrastar para onde nunca houve tradição da construção naval ? ! Pois se até as lanchas do Canal eram construídas ou beneficiadas naqueles estaleiros...

E deste jeito vão ficando as terras despovoadas e, consequentemente, mais empobrecidas, sem ninguém que lhes acuda.

Mas havia mais que se dissesse.

Vila das Lajes,

17 de Fevereiro de 2011.

Ermelindo Ávila

http://domeuretiro.blogspot.com


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1)Lacerda Machado, F.S., “História do Concelho das Lages”, 1936 ;

- Frei Diogo das Chagas, “Espelho Cristalino em Jardim de Várias Flores”, 1989

  1. Lacerda Machado,F.S., “História do Concelho das Lajes”, 1936

  2. Matriz das Lajes do Pico – “Rol dos Confessados,” 1884

4)Almanaque Açores – 1922

5) Almanaque Açores - 1955

6) Neves, Pe. José Maria – “Para a História de Santo Amaro da Ilha do Pico” - 1970

quinta-feira, 3 de março de 2011

O CARNAVAL DE OUTRAS ERAS


Passaram as quintas-feiras de amigos de amigas. Chegados somos à quinta-feira de compadres. Depois é a quinta-feira de comadres e estamos nos dias de Entrudo ou Carnaval.

E logo a seguir vem a Quaresma, com início na quarta-feira de cinzas.

Ainda há dias celebrámos o NATAL e, dentro em pouco, é a Quaresma. Isto referido para o povo cristão que, na generalidade, é todo aquele que habita esta ilha.

E porque assim é, atrevo-me a trazer este assunto à crónica de hoje. Não virá mal algum o recordar estes tempos que Igreja Católica, anualmente, comemora.

Mas recuemos no tempo.

Quatro semanas antes do Carnaval celebravam-se as quintas-feiras de amigos, amigas, compadres e comadres. Eram dias de confraternização e de convívio ameno. As ceias eram, normalmente, frugais, predominando a linguiça quando a matança já tinha ocorrido. Os doces que se levava à mesa não passavam de filhós ou de fatias douradas. E só. Mas bastavam para que o convívio decorresse alegre e feliz.

Entretanto, apareciam os “mascarados”, com imitações, graçolas e “sketchs”, alguns com certa dose de humor, sem deixarem de ter uns resquícios de arte.

Nas salas das “casas que recebiam mascarados”, enquanto eles não apareciam, havia alguém que dedilhava a viola ou a guitarra, tocando a chamarrita. Era então que, novos e velhos, iam para o meio da casa bailando alegremente, enquanto os mais afoitos “deitavam cantigas ao desafio”.

Tudo simples, mas sem deixar de ser alegre e comunicativo. E o serão decorria, normalmente, até à meia noite, não mais, porque o dia seguinte era de trabalho.

Aproximando-se o Carnaval, os sábados e domingos também eram destinados a “ver mascarados”, quando eles apareciam, e a bailar uma ou mais chamarritas.

Anos depois, apareceram os bailes nos salões da Filarmónica e do Grémio. A assistência era grande, vinda de diversas partes da ilha. A música era executada por bandas, quase sempre improvisadas, e constituídas por alguns artistas. Daí terem os bailes um ar mais solene e uma frequência maior e, nalguns casos, mais selecta, embora ninguém deles fosse excluído.

Eram tradição as “danças do Carnaval”, que se exibiam nos largos, das freguesias e que voltavam à rua pela Páscoa e, igualmente, nos dias do Espírito Santo. Normalmente, apresentavam uma narração em estilo de drama ou comédia. E nelas, homens vestiam de mulher porque não era permitido o elemento feminino tomar parte em semelhantes divertimentos. Eram bastante apreciadas e arrastavam consigo dezenas ou centenas de entusiastas assistentes. Ignoro se alguma freguesia da ilha ainda as apresenta.

Nas festas de Verão têm aparecido danças, à semelhança daqueles que se realizam nas festas das Sanjoaninas de Angra, em Vila Franca do Campo, ou pelas de festas de Santo António, em Lisboa.

Felizmente desapareceu o estardalhaço do Entrudo, com água e farinha, por vezes uma brutalidade insuportável para festejar o rei momo. Resta ainda o “Bando” da Piedade que ali atrai muita gente de fora da freguesia. Alguns, na versalhada que utilizam, têm certa jocosidade; outros aproveitam a ocasião para “pôr a calva à mostra”, como dizem, daqueles que lhes são menos afeitos, aproveitando quase sempre, como motivo, uma hipotética “morte da burra”. Atitudes carnavalescas somente...

Depois, a quarta-feira de Cinzas dá início à Quaresma.

Até lá.


Vila das Lajes,

21 – 2 – 2011.

Ermelindo Ávila

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

QUAL O TURISMO QUE VAMOS EXPLORAR ?


Há um provérbio que assim diz: ”Depois da tempestade vem a bonança”. É a esperança que nos resta. Depois deste inverno tempestuoso e frio, de “quebrar ossos”, como refere outro ditado popular, estamos quase chegados ao verão.

Não tarda que por aí apareçam os grupos de visitantes estrangeiros, e igualmente nacionais, interessados principalmente em ver baleias – intensificando a exploração do Whale Watching, - que circulam pelos mares fronteiriços. Elas, na época invernosa, também por aqui aparecem, quando o mar permite, mas em quantidades mínimas. Mas não só as baleias para aqui os chamam nos tempos de estio. Igualmente outros atractivos os trazem a estas paragens... No presente ano ainda cá não chegaram, naturalmente pelo tempo invernoso que tem assolado todos os continentes.

Todas as ilhas do Arquipélago têm as suas características próprias e as suas belezas naturais. Consequentemente, a chamada indústria do Turismo tem de desenvolver-se, não apenas em uma, duas ou três delas, mas em todas. Sabido é que muitos dos forasteiros que por aí aparecem não se contentam em ficar “isolados” numa delas, por mais atractivos que possua. Quer andar pelas nove e tudo ver, campos e vales, utilizando os trilhos que restam do passado, infelizmente alguns deles quase intransitáveis. No entanto eles lá caminham, calcorreando montes e vales. Mas, naturalmente, não dispensam o hotel para descansar e pernoitar.

Interessa que por aí apareçam os visitantes, pois, segundo se anuncia, o turismo constitui o maior factor de progresso de que possam dispor os empresários dedicados à exploração dessa actividade económica.

Indispensável, todavia, que disponhamos de estruturas suficientes e capazes de receber esses visitantes especiais, quase sempre muito exigentes quando fora das suas terras.

Dos três restaurantes existentes na área urbana um foi há pouco galardoado pelo excelente serviço que presta. Mas é pouco. Terras há em que os estabelecimentos dessa natureza são muitos mais e facilitam, pela variedade das ementas e serviço prestado, a estadia daqueles que nos procuram.

Creio que tudo se resolveria se já existisse uma unidade hoteleira – um hotel de qualquer categoria, pouco interessa o número de estrelas - que funcionasse diariamente dentro da zona urbana. É talvez por isso que um assinalado número de visitantes ocupa o Parque de Campismo, instalado no perímetro urbano da vila.

Bem longe vão os tempos em que a hospedaria da Maria José bastava para receber uma dúzia de visitantes no ano, entre eles a Junta de Inspecção Militar que aqui se deslocava para a selecção dos mancebos destinados à Tropa. Outros tempos, dirão alguns.

Actualmente, existem estabelecimentos hoteleiros em quase todas as vilas açorianas. E embora, na chamada época baixa, seja diminuto o número de utilizadores, a época alta - o verão - recompõe as carências do inverno.

Na vila está em aberto um espaço que, salvo melhor solução, podia e devia ser utilizado para a implantação de um edifício hoteleiro. Fica optimamente situado e seria uma das diversas formas de o ocupar, acabando com o seu aspecto degradante, que só provoca a admiração de quem nos visita e a repulsa dos lajenses em geral. Refiro, uma vez mais, as ruínas da casa da Maricas do Tomé, que já entrou na história, de tanto nela se falar, e o terreno anexo, ambos propriedade da Câmara Municipal.

Há anos que se vem chamando a atenção do Município para aquele autêntico escárnio, que é vergonha nossa e que, por vezes, provoca riso aos estranhos que por ali circulam e o olham com ar interrogativo. O taipal que há meses foi colocado para impedir a aproximação dos transeuntes, só tem esse efeito. Não evita que as ruínas e as plantas trepadeiras que o rodeiam, - algumas secam no inverno, - deixem de ser observadas e ridicularizadas.

O Município tem de assumir aquela obra como prioritária no concelho. Está em causa o bom nome, o prestígio e o futuro económico desta terra.

E, em modesto entendimento, duas soluções há: Ou põe em hasta pública aquele espaço, com as devidas exigências técnicas, urbanísticas e fim; ou ele próprio, ou em parceria com algum particular, constrói um edifício hoteleiro, como outras câmaras açorianas já o fizeram ou estão a executar, e cuja exploração poderá vir a ser entregue a uma empresa particular, salvaguardando no entanto os interesses municipais, que são os de todos nós.

A não se tomarem medidas urgentes para a solução deste e doutros casos pendentes, o concelho fica com o seu futuro muito incerto e duvidoso. E então a exploração da indústria turística de nada valerá aos lajenses.

Estes e outros problemas locais tenho debatido em ocasiões várias, umas com algum êxito, outras ficando ignorados de quem de direito. E faço-o por me doer o estado de autêntico abandono em que se encontram certos problemas vitais desta terra.

Um dia alguém, que já partiu há anos, escrevia-me, a propósito de um escrito reivindicativo: “Não desanime. Continue. Água mole em pedra dura...”



Vila Baleeira,

2 – 2 – 2011

Ermelindo Ávila

domingo, 20 de fevereiro de 2011

Comunicações e o programa “Manhãs de Sábado”

Há quinze anos foi para o ar, pela primeira vez, o programa da Antena 1, com o singelo título de “Manhãs de Sábado”.

Nada de relevante haveria se o programa se limitasse a ser igual a outros mais que aparecem diária ou semanalmente nos receptores que utilizamos. Mas “Manhãs de Sábado” era algo diferente, quer na organização quer na massa ouvinte que aos sábados de manhã o escutava com interesse e o acolhia com simpatia.

É o que tenho verificado nestes dois anos em que colaboro modesta e singelamente no Programa, dado que são diversos os radiouvintes que dele me têm falado. E se as minhas contas não falham, foram mais de 700 os programas emitidos.

De Santa Maria ao Corvo, passando pelas outras Ilhas do Arquipélago, havia alguém que falava da sua Ilha, dos seus problemas, da sua cultura, das paisagens e belezas naturais, dos acontecimentos mais relevantes, da sua própria história. É desses eventos que as pessoas gostaram sempre de ouvir e não de um simples e contínuo programa musical, que satura a maior parte das vezes. O radiouvinte folga quando ouve o nome da sua ilha, das pessoas suas conterrâneas ou da história que muitas vezes desconhece.

Julguei-me sempre um colaborador emprestado, ocupando um posto que não era ou não devia ser meu. Todavia, enquanto cá estive, procurei desempenhar o melhor que soube este lugar especial.

E, a terminar, deixo aqui este simples apontamento:

Fez ontem 54 anos que, nesta ilha, se deu início à construção da estrada longitudinal, como é conhecida, com ela terminando a construção das estradas nacionais da ilha que, durante cinco séculos por elas esperou.

A inexistência de estradas nestas ilhas dos grupos central e ocidental, S. Jorge, Pico e Flores, principalmente, é responsável directa pelo atraso económico e social que nelas se verificou, e ainda hoje tem seus reflexos, obrigando a que os naturais se refugiassem em outras ilhas, onde lhes era facilitada a vida deles e dos próprios filhos.

Enquanto os habitantes da Fronteira do Pico iam até ao Faial, os povos da Ponta da Ilha encaminhavam-se para a Terceira onde ainda hoje é notável a colónia de picoenses que por lá anda. Não poucos, já nos tempos modernos, preferiram ir até S. Miguel.

São Jorge sempre preferiu a Terceira, naturalmente, por pertencer ao antigo distrito de Angra, tal como a Graciosa. Para tais ligações muito contribuíram os antigos barcos do Pico, inicialmente iates à vela e depois motorizados. Mas são tempos passados que estão presentes na memória saudosa de quem os viveu.

A grande maioria por lá ficou e muitos dos seus descendentes, actualmente, mercê de circunstâncias diversas, mal conhecem suas origens.

Desviei-me do assunto do dia. Nada se perdeu. Isto para referir o quão difícil era a comunicação das ilhas entre si. Uma carta demorava quinze dias. Não existiam telefones e somente o Morse levava o telegrama muitas vezes em cifra, a comunicar uma noticia urgente. O isolamento era atrofiante. Só quem o viveu pode dar testemunho dessas épocas, não muito distantes. Mas, felizmente, tudo se modificou com a Rádio e, a seguir com, a Televisão, que entra em nossas casas a toda a hora, mesmo sem pedir licença, como alguém, jocosamente, me dizia.

O mutismo vai continuar a imperar nestas ilhas que, classificadas de secundárias, passam ao esquecimento.

As MANHÃS DE SÁBADO voltam ao esquecimento, depois de três lustres de actividade frutuosa em prol das gentes açorianas.

Calam-se os colaboradores, emudecem os organizadores, cai o pano e o Programa passa ao esquecimento da Instituição, que não dos radiouvintes.

Para aqueles que foram seus dedicados organizadores, Mário Jorge Pacheco e João Almeida e para a plêiade brilhante dos colaboradores, o meu Bem Hajam pelo trabalho desenvolvido a bem da Terra Açoriana.

Até sempre!


Vila das Lajes,

18 de Fevereiro de 2011.

Ermelindo Ávila



quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

ÓRGÃOS

Refiro somente os que existiram ou ainda se encontram na Ilha do Pico.

Que se saiba, poucos estão a ser utilizados, e alguns, vítima de incúrias, já os levou o tempo. Foi pena, pois eram instrumentos de grande categoria, e construídos por artistas célebres que ficaram na história.

Segundo um estudo levado a efeito por Nuno Mimoso, Grafismo de António José Ferreira, (publicado na http://www.meloteca.com, datada de 04-03-2008), a Região Autónoma dos Açores possuía cinquenta e três órgãos, quatro dos quais se situavam na Ilha do Pico.

Mas o Pico possuiu muitos mais órgãos que, infelizmente, foram desaparecendo, destruídos por incêndios, como foi o caso da Silveira, ou pela incúria dos homens.

Um dos órgãos mais antigo que existe pertence à Matriz das Lajes, construído em 1804 por António Xavier Machado e Cerveira. Foi restaurado em Junho de 1990 pelo distinto organeiro Comendador Dinarte Machado. É um excelente instrumento, tendo sido já utilizado em vários concertos de órgão, por organistas profissionais.

Segundo Nuno Mimoso, doze dos órgãos existentes nos Açores foram construídos pelo referido Cerveira.

Na igreja paroquial da Piedade existiu um órgão, o melhor construído em 1874 por Thomé Gregório de Lacerda, da Ilha de S. Jorge, tio do Maestro Francisco de Lacerda. “Sem estudo algum prévio , e somente por sua habilidade construiu o órgão da (sua) freguesia. Indo depois a S. Miguel para ouvir a respeito o célebre Pe. Joaquim Silvestre Serrão, que dirigiu a construção do órgão mais pequeno da Sé de Angra, abalançou-se a maiores empresas, construindo o órgão da Calheta de Nesquim, da ilha do Pico, o órgão da vila das Velas desta ilha de São Jorge e o da igreja de Nª. Sª. da Piedade da Ponta do Pico – que é um bom instrumento o melhor construído por Thomé Gregório de Lacerda.” (Pe. Manuel de Azevedo da Cunha, Notas Históricas).

O órgão da Calheta de Nesquim, igualmente desaparecido, havia sido construído em 1859.

A igreja de São João Baptista possuí um órgão, construído no ano de 1884 pelo organeiro António Nicolau Ferreira, de Ponta Delgada. Foi restaurado por Dinarte Machado, em 2006.

Na Matriz de S. Roque do Pico existiu um órgão, ali colocado em 1819, e construído por Marcelino Lima da cidade da Horta.

Na igreja de S. Bartolomeu, da Silveira, houve um órgão também construído em S. Jorge, que desapareceu no incêndio de 23 de Junho de 1924, que destruiu aquele templo. Depois de restaurada a igreja foi adquirido um outro órgão pertencente à igreja dos Biscoitos, S. Jorge, e que havia sido construído por Manuel Serpa da Silva, em 1890. Este órgão ficou totalmente danificado por um novo incêndio que se deu naquela igreja na noite de 16 de Agosto de 1966, e que destruiu a capela-mór.

Em Santo António (S. Roque) existe um órgão muito antigo, ultimamente restaurado pelo referido organeiro Dinarte Machado, e que julgo ser peça única existente nestas ilhas. É tradição que pertenceu à igreja do convento de S. Francisco, do Cais do Pico.

Presentemente estão a ser utilizados, acompanhando os cantos e hinos litúrgicos, harmónios electrónicos que, apesar de todos os esforços, não conseguem imprimir aos actos litúrgicos a solenidade que lhes era tradicional.

No entanto, sabido é que as paróquias, despovoadas como vão ficando, não podem reunir os fundos necessários para a aquisição de instrumento de tão elevado custo.

Basta ter em atenção que o órgão da igreja da Piedade, adquirido em 1874, custou 900$000, uma quantia bastante elevada para a época, quando o salário diário de um trabalhador oscilava entre $200 (reis). Pois, se em 1940 um funcionário tinha o ordenado mensal entre 500$00 e 600$000... E só mais esta referência: quando as obras da Matriz foram iniciadas o orçamento era de 1.000$00 e quando recomeçadas, em 1954, foi de mil contos, ( 5.000 euros).


Vila das Lajes,

Fev. 2011

Ermelindo Ávila

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Do Natal ao Carnaval

Há dias celebramos, com ruidosas festas de variados temas, o Natal e, a seguir, o ano novo.

Em poucas semanas chegará o Carnaval ou Entrudo.

Todavia, nas famílias, entre o Natal e o Carnaval, os dias maiores eram os das “matanças do porco”.

Rara era a casa que não criava um suíno ou dois, para serem abatidos entre o Natal e a Quaresma. Deles vinha uma parte substancial da alimentação das famílias durante quase todo o ano.

No verão anterior aparecia na ilha o Raúl da ilha Terceira com uma vara de leitões, transportados nos iates do Pico, e que ele ia vendendo de terra em terra, destinados à matança do ano seguinte. Alguns, porém, tratavam-nos durante dois anos, para obterem melhor proveito: gordura ou banha, linguiça e morcelas, torresmos e carnes conservadas em salmoura, para as diversas refeições. Uma fartura. E triste da casa que não matava porco, porque tinha um ano amargurado...

O dia da matança era um dia de festa para grados e miúdos. Principalmente as crianças esperavam o dia da matança com ansiedade. Não iam à escola. Portanto um dia de folga para se divertirem com os amigos e vizinhos, com a bexiga do animal transformada em bola de futebol. No dia seguinte era o dia dos presentes e aí se arrecadavam alguns escudos para o migalheiro.

Nesse dia recebiam-se os parentes e alguns convidados para a ceia, na qual, normalmente, eram servidas as morcelas e o fígado do animal, preparado a gosto e um dos pratos mais apreciados.

Geralmente à noite, um grupo de vizinhos ia “cantar as morcelas”: – “Senhor dono da casa / está direito, não está torto / tivemos a notícia / que estava de porco morto”.

Depois de uma, por vezes prolongada lengalenga, eram convidados a entrar e a seguir servidos com aguardente e bolachas caseiras.

Mas se era dia de mascarados – quinta-feira de amigos, amigas, compadres ou comadres, ou sábado e domingo – a casa era visitada por grupos de novos e idosos mascarados, que habitualmente percorriam as casas que “recebiam mascarados” e eram todos os anos as mesmas, exibindo trajes grotescos a imitar certos indivíduos da localidade. Umas vezes iam, isoladamente, outras em grupos. A porta da sala estava aberta e todos eram recebidos cortesmente.

É, actualmente, muito raro haver matança. Nos meios urbanos deixou de criar-se porco por exigências de salubridade pública e, mesmo nas zonas rurais, algumas famílias mantém essa tradição mas, geralmente, o animal é abatido e trabalhado no Matadouro Industrial.

Assim, a pouco e pouco, vão desaparecendo, com proveito ou sem ele, as antigas tradições.

Novos tempos...


Vila das Lajes,

17 – 01 – 2011.

Ermelindo Ávila.

terça-feira, 8 de fevereiro de 2011

O Pe XAVIER MADRUGA e as suas “CARTAS DA AMÉRICA”


Nos anos de 1947-49 esteve de visita, nos Estados Unidos da América do Norte, onde tinha familiares, o Pe. João Vieira XAVIER MADRUGA, natural desta vila e fundador (em S. Jorge, onde então paroquiava) do Semanário “O Dever”. Dali enviou ,semanalmente, “Cartas da América” que foram publicadas no “seu jornal”.

No dizer de um ilustre escritor faialense, Florêncio Terra, palavras que se encontram transcritas no número especial de “O Dever”, de 5 de Novembro de 1955, “Xavier Madruga, pelo conhecimento que possui da língua, pelo altíssimo talento que Deus lhe deu, pelo brilho de expressão verbal ou escrita, é um escritor da maior distinção no meio açoriano e pode acrescentar-se, afoitamente, que no meio português. Artista da palavra falada, mas sobretudo da palavra escrita que ele domina com segurança, Xavier Madruga é honra indiscutível das letras açorianas ocidentais”.

Vem isto a propósito das “Cartas da América”.

São mais de uma centena. Tratam dos mais variados assuntos, desde a referência a imigrantes de vulto no Estado da Califórnia, até a uma análise, por vezes profunda, da política americana, no após guerra de 1939-45.

Decorridos alguns meses, após a publicação no jornal, o Núcleo Cultural da Horta solicitou ao Pe. X. Madruga a necessária autorização para editar em livro as referidas cartas.

Sei que o Pe. Madruga não demorou a resposta. Concedendo a indispensável autorização, o mesmo será dizer que transferiu os direitos de publicidade ao NCH. Só impôs uma condição: não ter qualquer responsabilidade monetária. É pois o Núcleo que detêm os “direitos de autor” da publicação. Publicação que, até hoje, não foi concretizada, pela falta de meios financeiros do NCH, segundo me informou algumas vezes o fundador e, por vários anos seu Presidente, Monsenhor Júlio da Rosa.

Creio que sou um dos sócios fundadores do NCH. Recebo, normalmente, o respectivo Boletim que, ultimamente, tomou uma feição diferente, alargando a colaboração a Personalidades distintas. Mas, porque se trata de um organismo criado para a defesa da história e da cultura do antigo Distrito, não interessaria que desse um mais regular acolhimento àqueles que viveram por estas paragens?

Louvável foi a publicação das “Posturas da Câmara Municipal da Horta”. Fez-se ressuscitar um documento histórico que servirá para uma analise dos hábitos e costumes do respectivo concelho, durante os séculos passados. Outros concelhos poderiam tomar idêntica iniciativa se lhes fosse proporcionada a necessária cobertura financeira, ao que suponho.

Hoje, porem, fico pelas “Cartas da América”, para lembrar que a oportunidade da publicação não passou. Importa fazê-la porque será um apreciável elemento de estudo e da própria história luso-americana. Tanta gente nossa que nelas é recordada...

Julgo que o NCH está, actualmente, em condições de fazê-lo. Pelo que me é dado saber, tem os meios necessários, materiais e em pessoal, para tirar do esquecimento – já se passou meio século! – tão importantes escritos.

Que eu saiba, poucos terão realizado um estudo tão profundo sobre os portugueses nos Estados Unidos como o notável jornalista e escritor Xavier Madruga, uma personalidade que anda esquecida, apesar do seu nome ainda se encontrar no “cabeçalho” do “seu” jornal. Um jornal que ele fundou há 97 (noventa e sete anos) e que cedeu à Paróquia da sua naturalidade por uma quantia simbólica, para que jamais fosse extinto.

Mas isso é assunto para outra ocasião.

Vila das Lajes, Janeiro, 2011.

Ermelindo Ávila