quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

ENCONTROS



Percorri várias das Ilhas açorianas, em encontros diversos: uns por dever da profissão que então exercia, outros por convite de amigos que me consideravam membro da mesma “confraria”.
E foi assim que tive o prazer, grato prazer, de encontrar diversas personalidades, quer destas Ilhas, quer do Continente ou até mesmo do Estrangeiro.
Recordo ainda alguns que já eram elementos festejados das Letras e que, até então, só conhecia de nome.
Em diversos desses encontros tive ocasião de apresentar, afoitadamente, alguns estudos sobre os temas a que me tenho dedicado. Vários encontram-se arquivados nos livros desses congressos, por determinação, que não minha, dos respectivos promotores.
Agora, neste meu recanto, vou recordando algumas dessas distintas personalidades que já partiram, como foi o caso mais recente do falecimento de Manuel Machado, escritor radicado em Oslo, onde foi director da respectiva Biblioteca.
Já desapareceram Pedro da Silveira, poeta florentino há muito radicado em Lisboa, Madalena Ferin, mariense, também vivendo na capital portuguesa, Dias de Melo, “velho amigo “ como me tratava, quase “de casa”. Daniel de Sá, bondoso e distinto amigo de largos tempos. À colação trago também Almeida Firmino e o P. José Idalmiro. Eu sei lá!... Uma quase infinidade deles, que já partiram...
Da carreira profissional, que bons amigos já perdi. Quase todos: - João Gabriel de Ávila, João Branco, Raul Correia da Silva, Manuel de Madeiros Resende, e outros mais. Que óptimos momentos passamos juntos nessas tertúlias “profissionais”, que mais serviam para encontros de velhos amigos...
Não posso nem devo esquecer o Dr. Carreiro da Costa, Victor Pedroso, Silva Júnior, Emanuel Felix e João Afonso, para só estes trazer à barra. Ficam outros mais que nunca serão esquecidos mas não tenho coragem, por razões várias, de aqui trazer. E que bons Amigos que foram, muito embora sempre os haja considerado como personalidades superiores, de alta craveira social e cultural. Só um lembro hoje, por ser conterrâneo e amigo de velha data: o Doutor José Enes, falecido no ano findo.
De alguns deles guardo ofertas de seus livros com deferentes autógrafos muito simpáticos e bastante amigos. Os livros para aí ficam para serem, provavelmente, apreciados mais tarde...
Dos vivos, poucos embora, não trago aqui seus nomes. Eles compreenderão o resguardo...
Conheci Manuel Machado num dos referidos encontros. Viera propositadamente da Noruega onde viveu, como acima disse, os últimos anos, depois de andar pela França e pela Inglaterra. Era natural das Lajes, ilha Terceira. Intelectual de festejado mérito, deixou uma obra literária, em português e em norueguês, de considerável valor, alguma dela publicada em Portugal.
Neste recordar saudoso dos tempos que passaram e dos Amigos que já partiram, há naturalmente lacunas que peço me relevem, pois a memória, cansada que está, já não tem possibilidades de tudo e todos referir. Fica somente este singelo apontamento a recordar Figuras e factos que passaram na minha vida e que não voltam. Uma palavra de homenagem para todos, vivos e falecidos!


Lajes do Pico,
7 de Janeiro de 2015

Ermelindo Ávila

domingo, 15 de fevereiro de 2015

SERÁ QUE NÃO É PERMITIDO ANDAR PELA BEIRA-MAR?

NOTAS DO MEU CANTINHO


Quando os navegadores do Infante chegaram a estes mares do meio do Atlântico e encontraram estes pináculos, saídos das águas profundas, por aqui se fixaram junto às costas e aí construíram suas habitações. Desses minúsculos povoados surgiram, anos após anos, as vilas e as freguesias e depois as cidades. (A lista não está ainda completa...) E foi para o mar que seus olhares curiosos se voltaram na esperança de outros mais aparecerem. E olhando esse mar largo viram passar os transatlânticos, levando e trazendo os açorianos que decidiram emigrar. Depois, alguns voltaram. E é estendendo os olhares por esses mares fora que viram e vêem os grandes monstros marinho, que ontem foi sustento de muitos e hoje é regalo para os que aqui aportam. E é sempre o mar que contemplam, para além da Montanha que domina céus e mares, não fosse hoje a sétima maravilha de Portugal.
Os ilhéus só se sentem bem “viajando” pela beira-mar para receber, em dias de calma intensa, a frescura das suas águas ou, ao entardecer, contemplar estáticos, os maravilhosos pôr do sol.
Há quarenta anos que o Arquipélago dos Açores passou a ser uma Região autónoma, com administração própria. Antes eram os Distritos Autónomos embora com limitados poderes. O distrito da Horta, constituído pelas ilhas do Pico, Faial, Corvo e Flores, tinha, a partir de 1940, uma Junta Geral Autónoma de poderes limitados. Superintendia somente nos Serviços Agro- Pecuários e pouco mais. A instrução e as obras públicas estavam a cargo do Estado, o que, mesmo assim, valeu se realizassem algumas obras de vulto, quer portuárias, quer das estradas e dos Serviços Florestais. No entanto, a vila das Lajes somente beneficiou da estrada Lajes-Piedade, do hospital sub-regional, hoje praticamente desactivado, e da muralha de defesa na zona da Lagoa, e esta porque a que existia foi derrubada pelo ciclone de 1936. E assim ficou estes anos todos.

Com a instituição do Governo Regional pouco mais se adiantou. A registar todavia o muro quebra-mar da Carreira para o Poção. E este sem qualquer aspecto “urbanístico”.
O que tem acontecido é a sede do concelho, paulatinamente, vir a ser despovoada de Serviços – e hoje não os cito - obrigando os jovens a uma emigração “interna” desastrosa, promotora de uma defraudação aniquilante e que impede o desenvolvimento e progresso da primeira povoação picoense.
A beira-mar era, e é, para os lajenses, a zona mais apetecida. Contemplar a baía com a esbelta Montanha a dominá-la; ver a diminuta navegação que passa, já que retiraram para outras bandas a que, normalmente, aproava ao porto das Lajes; o esvoaçar das aves marinhas no enorme Juncal – a “Ban baixe muro”(1) – plataforma costeira sem aproveitamento embora, mas onde proliferam espécies biológicas as mais raras e variadas; e, utilizando o “muro do caneiro” que circunda a Lagoa pelo Sul, percorrê-lo, em passeios matinais ou tardes calmas, para admirar o encanto que é o pôr do Sol, ao lado de montanha, por lajenses e não só.
Em certa ocasião, alguns anos decorridos, um artista Pintor que nos visitava, disse-me, muito espontaneamente, que o pôr do Sol visto das Lajes era belo mas difícil de pintar pelas continuas mudanças das cores que apresentava.
Pois, até dessa pequena dádiva da Natureza nos querem privar, ao que por aí consta, proibindo o livre trânsito até ao Caneiro!
E quem vai admirar o Monumento aos Baleeiros, lá erguido há anos em homenagem aos homens que, à perigosa faina, se dedicaram em anos idos?
Nas outras terras implantam-se, junto do mar, as mais variadas construções. Sejam as “portas do mar”, sejam as “salas” de embarque e desembarque. Aqui, utilizando uma autonomia administrativa que aos lajenses bem pouco beneficiou, pretende-se fechar um passeio que tanto é do seu agrado e largamento utilizado pela suavidade do piso e pela paisagem que oferece, já que mais não têm...
As zonas marítimas sempre foram espaços livres onde as populações se juntavam, por vezes, para as merendas, para a pesca “de pedra”, para gozar o ambiente suave e ameno. O mesmo acontecia no Caneiro, durante muitos anos, porto de embarque de cargas e passageiros, dos barcos da Insulana e até das “lanchas do Faial”. Nunca foi, pois seria uma verdadeira aberração, tributada essa utilização. Fazê-lo agora é o que de mais anacrónico pode acontecer.
Deixem a terra livre, deixem que as pessoas façam os seus passeios, de pé ou de automóvel, pelo “muro do Caneiro”, para admirarem as belezas naturais que a Natureza lhes oferece, já que outras não possuem, que nenhum prejuízo trarão aos serviços públicos que, segundo julgo, nem a iluminação pagam. Aliás um direito que usufruem desde remotas eras.
Só pagando uma taxa será permitido ir até ao Caneiro?
- Valha-nos Deus!
____________________
1) Ávila,Sérgio e Outros – “Lajes do Pico Ban baxe Muro´”-2011

Lajes do Pico,
Fevereiro de 2015
Ermelindo Ávila


CARNAVAL

A MINHA NOTA


Chegados somos ao Carnaval ou Entrudo, os três dias que precedem a quarta-feira de cinzas ou entrada na Quaresma.
E os dicionários definem o Entrudo ou carnaval como dias de praticar jogos com água, talco, tinta, etc. Dias de folguedos – mascarados, em que se comem viandas e guisados de carne.
Por aqui eram as filhós, as fatias douradas; os torresmos e a linguiça, para aqueles que matavam porcos.
Mas esses hábitos tradicionais de comemorar o carnaval hoje são raros ou mesmo já quase desapareceram.
Ponta Delgada ainda há poucos anos conservava a “batalha das limas e água”. E, naturalmente, mantém esse “violento” desporto. Nas outras ilhas, ao menos no Pico, é costume que há muito desapareceu. Conservavam as máscaras e o enfarinhar, com farinha de trigo ou pó de arroz ou talco, mas isso também foi a pouco e pouco, desaparecendo. Aliás era, por vezes, uma maneira grosseira de festejar o carnaval. Foi substituído, e bem, pelos bailes de fantasias nas sociedades recreativas ou em algumas, poucas, casas particulares.
Na freguesia da Piedade havia o “bando”, um pregão pouco cortês, onde eram apresentadas, entre “chacotas”, as mazelas ocorridas durante o ano e que, na terça-feira de Entrudo eram apregoadas, e ainda são, de cima de um muro, aos muitos curiosos que lá apareciam e que, dada a maneira como eram apresentadas, eram motivo de grande hilaridade. Chamavam-lhe o“testamento do burro”, embora o animal tivesse caído de uma rocha e morrido há vários anos.
Há meio século, o carnaval era comemorado nas quatro semanas que antecediam a Quaresma. Não passavam de simpáticas e acolhedoras reuniões familiares, nas quintas-feiras de amigos e amigas, compadres e comadres e nos sábados e domingos seguintes. Essas reuniões familiares serviam para ver algum mascarado que aparecia com seus entremezes a divertir os assistentes. Numa ou noutra sala, se o espaço permitia, bailava-se, a tradicional chama-rita nos intervalos das passagens dos mascarados. Depois, foram aparecendo as sociedades recreativas e era nelas que os bailes passaram a realizar-se, com notória frequência e com alguns figurantes fantasiados. Uma maneira, aliás simpática, de festejar a quadra, e passar o serão dentro daquele espírito de fraterna convivência que era tradicional.
Presentemente, com as transformações sociais que se operaram, nem se sabe se estamos na época carnavalesca muito embora nas últimas quintas-feiras os amigos e as amigas, os compadres e as comadres se hajam reunido para uma “jantarada” que, outrora, seria a ceia.
Estamos, pois, chegados à Quaresma. Um tempo forte para os católicos que os demais nem a isso ”ligam”, como dizem empavonadamente.
Mais um carnaval está a decorrer. Que todos se divirtam com ordem, paz e harmonia.


Lajes do Pico,
Fevereiro de 2015

Ermelindo Ávila

sábado, 10 de janeiro de 2015

E AS FESTAS CONTINUAM...(ou a festa da Matança do porco)

NOTAS DO MEU CANTINHO

E AS FESTAS CONTINUAM...
agora, com caris diferente. São as festas das famílias com origem nas “matanças”.
Em tempos passados, eram essas festanças que, todos os anos, depois do Natal e antes do Entrudo, reuniam familiares e amigos para “celebrar” as matanças dos porcos. Quase todas as casas criavam um suíno para abater antes do Entrudo. No entanto, freguesias havia, em que o abate tinha lugar antes do Natal para permitir refeições mais substanciais durante a época festiva. Por aqui dava-se o contrário. No Natal usava-se na “caçoilha” a carne de vaca e, por isso, o abate nos talhos eram avultado. O peru apareceu mais tarde. Tal como no continente acontecia, antes da Páscoa.
O abate dava-se nas semanas que antecediam o Entrudo ou Carnaval, em dias acertados com os vizinhos e familiares, para que cada família tivesse o seu dia e a inter-ajuda fosse facilitada.
Era um dia festivo, principalmente para a miudagem, pois para os adultos exigia preparação e trabalho fora do vulgar serviço doméstico.
Semanas antes colhiam-se nos matos a urze que, ficava a secar junto das paredes dos quintais. (Alguns, poucos, subiam o Castelete e lá colhiam as “vassouras” para o chamusco do animal, ou animais abatidos. Hoje, o Castelete está a tornar-se uma mata vicejante.)
Dois ou três dias antes, apanhavam-se as cebolas para as morcelas. E faziam-se as cozeduras de pão de milho e trigo e de bolo, suficientes para as largas refeições dos dias da matança.
Não havia matadouro industrial, como agora, e os animais eram abatidos nos quintais, e aí chamuscados e depois rapados, trabalhos que exigiam certa habilidade e arte. Era feito de madrugada, para que, ao raiar do dia, já os homens que haviam colaborado, tivessem almoçado. Um repasto abundante e variado. É que, a quase totalidade era baleeira e, ao romper do dia, podia a vigia dar sinal de baleia e eles, almoçados ou não, tinham de partir para a dura faina.
As mulheres, familiares e amigas, encarregavam-se, depois, de todos os trabalhos que se seguiam: lavar as tripas, (quase sempre na costa, em maré corrente) encher nas tripas as morcelas, preparar as carnes ou para a linguiça ou para as salgadeiras, enquanto a dona da casa ia separando os produtos, já no dia seguinte, para os “presentes” a amigos e pessoas a quem se deviam “favores”. Os miúdos aguardavam delirantemente esse dia pelas gorjetas, simples ou avantajadas, raras, que recebiam...
No próprio dia da matança eram feitas as morcelas: com cebolas, quase só os talos brancos, alguma salsa, alhos, pimenta ou malagueta, sal e alguns outros condimentos, como canela moída e jamaica.
Normalmente, as morcelas tinham trinta a quarenta centímetros de comprimento e os dois extremos eram unidos com barbante. Depois, eram cozidas em grandes caldeirões e a seguir penduradas sobre a lareira para secarem. Na refeição da ceia já se podiam “provar” as morcelas.
A carcaça do animal estava cerca de vinte e quatro horas pendurada a secar. Depois era retirada a capa de toucinho e o restante desfeito em pequenas peças que tinham diversos destinos: uma parte destinada à linguiça, a outra era derretida para se extrair a gordura e os “torresmos de sal”, e a ossatura guardada na salgadeira para ser usada durante o ano. A gordura servia e serve para os cozinhados, substituindo o óleo de azeitona.
A feitura da linguiça era trabalhosa e exigente. A carne ficava cerca de quatro a cinco dias num recipiente de barro, em calda de laranja azeda, vinho e alhos e limão, peças de gordura do “véu” do animal, com sal e pimenta e alho q.b., para ficar “curtida”. Findo esse tempo era enchida em tripas do porco e de vaca, previamente adquiridas e preparadas e, depois, colocada no fumeiro durante alguns dias a curtir. Era guardada em recipiente de barro –barça - coberta de banha e abafada durava um ano.
Tudo exigia experiência, pois eram produtos que necessitavam de um bom tratamento para ficarem com qualidade e sabor.
Hoje a maioria das casas deixou de fazer criação de suínos, por razões várias, entre elas a necessidade de retirar dos centros urbanos as pocilgas ou currais de porcos que conspurcavam os ambientes principalmente pelas cheiros nauseabundos que exalavam.
Certo, no entanto, que as linguiças e as morcelas que aparecem nos mercados deixaram de ter, por vezes, a qualidade da chamada “linguiça caseira”.
E por aqui fico, recordando uma época que não volta...

Lajes do Pico,
29-Dezº- 2914

Ermelindo Ávila

quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

NOVO ANO


NOTAS DO MEU CANTINHO


Ano Novo! Um ano que nos espera cheio de surpresas e, certamente, de dificuldades tamanhas...
A herança que nos ficou do ano que há pouco terminou não permite antever muitas facilidades e felicidades. Antes, é um mundo de surpresas mortificantes e de angústias que, naturalmente, a todos espera.
Mas vale a pena ter confiança. O velho ditado diz: “Deus ajuda quem se ajuda” E se Deus ajuda, importa não desanimar. Mas, na realidade, é preciso ter coragem e força anímica para suportar os tempos incertos que se aproximam.
O mundo todo, incluindo naturalmente a nação portuguesa, vive uma situação caótica. Ninguém sabe o que será o dia de amanhã; mas, pelas premissas se advinham facilmente as conclusões, ou, como se diz no Brasil, “Pela casca se conhece o pau”. E a casca não se apresenta de aspecto sadio, mas bastante avariada.
“Ano novo, vida nova”, era o ditado comum que todos citavam e repetiam. Agora, chega-nos o ano novo, sem se vislumbrar uma vida diferente daquela que arrastamos, penosamente, de há anos a esta parte. E por isso é de perguntar: Quando será que todo este estado decrépito vai acabar?
Presentemente, a vida não se modifica com a entrada de um novo ano. Continua, pois os homens não são capazes de suster o andamento epiléptico dos anacrónicos sistemas sociais e políticos que dominam, mediocremente, os povos indefesos.
Por mais que se tente, não será fácil promover, eficazmente, a mudança dos sistemas vigentes. Há que suportá-los, embora isso acarrete agonias e mal-estar aos povos indefesos.
Num mundo assim estruturado e orientado, o habitante normal tem que avançar com medidas conciliatórias e promocionais de forma que o estado anacrónico que se vive, seja modificado e o progresso, a prosperidade, a economia sã e o bem-estar social voltem para as pessoas e para as famílias, mesmo aquelas que hoje são as grandes vítimas da situação que se instalou por toda a parte. E não vale concretizá-la. Todos a vivem, a conhecem, suficientemente, e a sofrem, atrozmente.
Mas, no mundo, nada é perpétuo. Tudo tem o seu fim. Consequentemente, tudo pode ser atempadamente modificado. Basta que haja inteligência e boa vontade. Que haja disponibilidade de um serviço dedicado ao outro, aquele que está a nosso lado e que, por razões sociais, políticas ou financeiras, precisa de ser ajudado e amparado, para não cair no charco. E não será preciso estender a mão à caridade publica. Bastará que aquele que possui o mando tenha o discernimento suficiente para ver e analisar onde se encontra o vértice do problema e saber encontrar, como se faz em aritmética, a raiz do problema e dar-lhe a solução certa e adequada.
Vamos entrar no novo ano. Que se encontrem, rapidamente, as premissas adequadas e se chegue a justas conclusões. O povo não pode esperar mais. Definha, injustamente, a cada dia que passa.
É tempo de se acabar com tanta anarquia social e política e enveredar pelo caminho da honestidade política, social e económica. Já basta de tanto esperar e sofrer.
Não será fácil endireitar o que torto está. Esperamos, todavia, que haja a coragem precisa e a força política eficaz para tomar, com coragem e dedicação, as medidas que se impõem para que tudo o que está mal seja corajosamente modificado. E não se aguarda que seja o povo contribuinte a suportar uma vez mais as tropelias e medidas absurdas que se foram promulgando, caprichosamente. Nas zonas ricas e pobres.
Os direitos e deveres dos povos são iguais. O homem é o mesmo em toda a parte. Foi criado à imagem e semelhança do Criador e não é, consequentemente, um ser qualquer cuja natureza se possa modificar ou alterar através de medidas científicas. O ser humano nunca será nem ovelha, nem carneiro. Será sempre homem, dotada da inteligência e da razão à Imagem de Deus. O contrário seria uma aberração e uma anomalia.
Há um princípio no catecismo de Pio X, que, mais ou menos, assim reza: “Deus cuida e tem providência pelas coisas criadas; conserva-as e dirige-as ao próprio fim, com amor, bondade e sabedoria infinitas.”
É esta a verdade insofismável que ninguém, por mais astuto e inteligente que seja, poderá negar.
Não deixa saudades o ano que findou. Um novo ano se inicia.
Que seja próspero e feliz para todos !

Lajes do Pico,
Dezembro de 2015

Ermelindo Ávila

domingo, 21 de dezembro de 2014

A MENINA RAQUEL

 A MINHA NOTA


Aproximava-se a festa do Menino Jesus. Raquel era uma menina de poucos anos. Loirinha do cabelo, de olhos azuis, mãos papudas e andar saltitante. Vivia quase só, pois era a filha única de um casal já entrado em idade e que não aguardava outros filhos. Daí ser o “aí-Jesus” da família, que não apenas dos pais.
Tinha umas tias, relativamente novas, que lhe faziam todas as vontades. Nunca a contrariavam para que a menina andasse sempre alegre e bem disposta.
Na escola - Raquel já frequentava o primeiro ciclo - as colegas faziam-lhe todas as vontades, pois ela era amiga de todas as companheiras e normalmente distribuía por elas daquilo que levava para o seu lanche.
Um dia Raquel faltou à escola e as colegas foram procurá-la em casa e saber do motivo da ausência. A razão era simples: tinha-se magoado num pé, quando fora à praia tomar banho com os pais e por esse motivo não podia calçar sapatos. E descalça não saía de casa.
Todos os anos, quando se aproximava a festa do Natal, os pais, em segredo, tinham por hábito preparar uma grande festa. A pouco e pouco, costumavam adquirir objectos vários, para esse dia que era celebrado com muitas festinhas, principalmente depois que a Raquel deixara de ser bebé.
Contudo os brinquedos iam ficando para trás pois a menina interessava-se agora muito mais por livros de histórias. E lia com interesse as histórias do Tio Patinhas e outras mais. Mas não guardava os livros. Tinha por hábito distribuí-los pelas amigas que muito os apreciavam, dado que algumas delas eram pobres e os pais não podiam comprar-lhes livros de estórias e era talvez por isso que as amigas não lhe faltavam.
Raquel melhorou e voltou à escola e a brincar com as companheiras amigas.
Mas um dia, quando menos se esperava, a fatalidade chegou. A fábrica de lanifícios onde trabalhava o pai faliu e todos os empregados foram despedidos. Só restou ao pai de Raquel e companheiros, irem para o desemprego, uma situação angustiosa e triste que nunca esperara. A mãe nunca trabalhara pois só se dedicava ao serviço doméstico.
Escusado será dizer que nesse ano tudo foi diferente.
Quando chegou a Noite de Natal, quase nenhuns brinquedos foram destinados à Raquel. Os livros de histórias ficaram na Livraria, e a Raquel não recebeu nenhum. Como é natural, ficou muito triste.
As colegas de escola, desconheciam a situação familiar da amiga e andavam surpreendidas e sem compreender a atitude da Raquel. Ela, nesse ano, como é compreensível, não teve os livros de histórias para lhes dar, e na escola, já não repartia com as amigas o pequeno lanche que a mãe lhe preparava com sacrifício. Naturalmente que ficaram sentidas e afastaram-na um pouco.
Quando a Professora soube a razão da atitude das alunas, interveio muito discretamente. Fez às colegas uma larga explicação da situação em que se encontravam os pais da Raquel e outros mais, que haviam ficado desempregados, e aconselhou-as a continuarem com a mesma amizade, pois ela estava a ser vítima de uma situação muito amarga que atingia já muitas famílias daquela zona.
E mais lhes disse: Que, como católicas que eram, todas ou quase todas, pedissem ao Menino Jesus que interviesse na situação amarga porque se estava a passar, para que os homens soubessem encontrar soluções condignas e o emprego voltasse àqueles que só dele viviam e sustentavam as famílias.
Mas foi então que o imprevisto aconteceu: Aceitando os conselhos da Mestra, as colegas da Raquel resolveram juntar alguns euros e com eles comprar um pequeno livro de histórias, que ela tanto apreciava, uma pequena boneca e alguns doces, organizando assim um pequeno cabaz de Natal que, na véspera do grande dia, foram levar à Raquel. Escusado será dizer a comoção que dela se apossou e dos próprios Pais, que não sabiam como agradecer àquelas meninas o seu gesto tão carinhoso e simpático e em dia tão lembrado.
E o Natal daquele ano não deixou de trazer à Raquel alguma alegria, embora não tanta como nos anos anteriores.
Que o MENINO JESUS a todos traga um Natal Feliz, são os votos sinceros que aqui deixamos.
Novembro, 2014

Ermelindo Ávila

SERVIÇOS DE SAÚDE EM BOLANDAS

NOTAS DO MEU CANTINHO


Não acreditamos !!!
E volto a dizer: Não era de acreditar que algum governante pensasse em retirar aos antigos hospitais das Lajes do Pico e de S. Roque do Pico, actuais Centros de Saúde, os serviços que vêm plausivelmente prestando desde o seu início, em 1960, às populações dos dois concelhos e não só.
Retiraram, incompreensivelmente, aos estabelecimentos hospitalares da Ilha do Pico os serviços de obstetrícia, julgando que prestavam um bom cuidado à população picoense. O resultado tem vindo a demonstrar que evitar nascer na ilha não beneficia a populações, antes lhes trouxe arrelias tamanhas e sobressaltos inimagináveis.
Que lucram as mães a andar de ilha para ilha, muitas vezes em situações aflitivas para, de vez em quando, acontecerem casos bizarros de se nascer a meio canal, ou em viagem para a lancha, como há dias aconteceu com uma senhora do lado Norte, que teve de acolher-se ao centro de saúde da Madalena, onde ocorreu o nascimento normal do filho?
Durante cinco séculos – quinhentos anos - os picoenses nasceram na sua ilha, valendo às mães as senhoras que, em cada freguesia, se prestavam a cuidar da assistência, com alguma competência e sentido caritativo. E não eram remuneradas!
Num dos primeiros anos de funcionamento, nasceram no então hospital sub-regional das Lajes do Pico, propriedade da Santa Casa da Misericórdia, mais de cem crianças sem que nenhuma delas perdesse a vida. E nos anos anteriores e posteriores o mesmo havia acontecido, até que as sábias reformas apareceram e, na ilha do Pio, foram abruptamente encerradas as Maternidades!
Aceito que haja clínicos que acatem, plausivelmente, as ordens governamentais, mas sabe-se que só em casos anormais, os senhores médicos assistem ao nascimento de qualquer criança. E enfermeiras com especialidade de obstetrícia havia-as em quase todos os estabelecimentos hospitalares.
A natalidade picoense desapareceu e só num ou noutro caso é que o Pico regista um natural da ilha, muito embora se haja legislado – e quem faz a lei fá-la como bem entende... – que a naturalidade do nascido é ou pode ser a da mãe. Mas, queiram ou não, quando esse infante for homem poderá dizer: eu não nasci no Pico, mas no Faial. Isto para dizer, queiram ou não, que nenhuma lei jamais poderá alterar as condições naturais da vida humana. (E vão surgir novos casos à semelhança do Dr. Manuel de Arriaga...) Mas o corte das chamadas valências hospitalares, ao que parece, não terminou. Chega-nos a macabra notícia de que, aos actuais centros de saúde de São Roque e Lajes vão subtrair-lhes, - sub-repticiamente, se isso acontecer – diversas valências entre elas o internamento de doentes e as urgências. Concretamente, ao que tudo indica, passarão a ser simples consultórios para atendimento ambulatório de doentes.
Se isso é para acontecer, e vai acontecer segundo noticia a comunicação social, desde já aqui lavro o meu PROTESTO de picoense ainda bastante consciente dos direitos que devem ser mantidos e respeitados aos povos da ilha.
E é por essa arbitrária medida e por outras, que o Pico se vai despovoando e não levará muito para que alguém pergunte aos governantes políticos: Quando pensam em extinguir o concelho-mãe, com mais de quinhentos anos, da Ilha Pico? Pelo andar da carroça chegamos à triste conclusão de que isso também vai acontecer em outras ilhas, incluindo o Corvo que, pela primeira vez, depois de cinco séculos de povoamento, ficará anexado às Flores.
Mas antes, terá a população picoense de tomar a atitude que se impõe e protestar com civismo, mas energicamente, contra essa medida discricionária e altamente prejudicial, principalmente à terceira idade. E, trazendo aqui a terceira idade: Quando um internado dos Lares de idosos de S. Roque, Piedade ou Lajes necessitar de tratamento médico-hospitalar, onde vai ser internado? Ou não merecerá tratamento?
Não será a vida o maior bem que usufrui o homem? Ou este será um boneco que se deita à lixeira quando está estragado ?
Tudo isto faz supor que há para aí alguém que se faz candidato a um novo Prémio Nobel.
Aqui há meses, tratei deste gritante assunto e pensei não voltar mais a dele me ocupar. Com as notícias vindas a público estou tão triste e magoado que não resisti em lançar a mão à pena e aqui deixar uma palavra de protesto por tamanha arbitrariedade. Não esqueci nunca o quão difícil foi, para mim e companheiros, promover a construção do edifício hospitalar desta vila, equipá-lo com um recheio moderno e excelente e abri-lo, no dia 1 de Janeiro de 1960, são decorridos, portanto, quase cinquenta e cinco anos.
A Misericórdia das Lajes do Pico, cujos privilégios e liberdades lhe foram concedidos por alvará régio de 14 de Novembro de 1592, lutou quase quinhentos anos para possuir um estabelecimento hospitalar, para em menos de cinquenta anos, dele ser desapossada, e agora transformado quase em simples consultório clínico.
É simplesmente lamentável.

Lajes do Pico, Dezº de 2014

Ermelindo Ávila

O SÉCULO DAS REVOLUÇÕES


NOTAS DO MEU CANTINHO



Quando algum historiador se dispuser a estudar, com imparcialidade e honestidade, o Século XX, terá forçosamente de o considerar o século das guerras e revoluções e, consequentemente, da desorganização política, social e, um tanto, religiosa.
Um ou outro movimento revolucionário teve os seus méritos; outros houve, a quase totalidade, que só provocaram a desorganização e o caos social e político. Mas essa análise não a desejo fazer, porque não me pertence. Os eruditos da História dela se ocuparão a seu tempo. Somente aqui as trago como quem faz a relação discriminativa dos acontecimentos ocorridos.
E principio pela revolução de 5 de Outubro de 1910 que aboliu o secular regime monárquico e implantou a República, para não aludir ao regicídio de 1908. Depois, decorridos dezasseis anos, vem de Braga a revolução do 28 de Maio, em regime ditatorial que durou quase cinquenta anos; e, a 25 de Abril de 1974, a revolução democrática. Entretanto, na década de sessenta, surgem as revoluções ou guerras ultramarinas de Angola, Moçambique, Guiné e Timor, que tantas vítimas causaram. Lá perderam a vida alguns soldados picoenses que estavam incorporados nas forças expedicionárias.
Dessas revoluções, patrocinadas por potências estrangeiras, veio a resultar a independência das antigas colónias ou províncias ultramarinas, ficando Portugal reduzido a uma limitada faixa da Península Ibérica. Nesta ilha do Pico, existem placas com os nomes dos antigos combatentes e daqueles, não poucos, que por lá ficaram...
Na vizinha Espanha, dá-se, na década de trinta, a longa revolução franquista, que tantos mártires portugueses provocou, entre eles, um oficial da força aérea portuguesa, natural desta vila.
Na Europa, rebentou em 1914, decorrem agora cem anos, a primeira Grande Guerra, que durou quatro anos envolvendo várias nações, entre as quais os Estados Unidos da América. E lá ficou nos campos da Flandres um soldado do Exército americano natural da Vila das Lajes do Pico, José Moniz de Melo.
Depois vem a segunda grande guerra, nos anos trinta/quarenta, provocada por Hitler, e que tanto devastou a Europa e o Mundo.
E houve as revoluções da Abissínia, de Cuba, da Índia. E outras mais. Algumas delas ainda fazem sentir as suas nefastas consequências, pois não é com facilidade que as nações atingidas se refazem.
Da primeira Grande Guerra resultou a Sociedade das Nações, de vida efémera; e, da segunda, as Nações Unidas, com sede nos Estados Unidos e, depois, a União Europeia, uma organização que está a dominar financeira e economicamente, com algum êxito, as diversas nações filiadas.
Nesta singela nota, não posso deixar de referir a nefasta revolução russa, com os esbirros Lenine e Estaline e seus sequazes, que espalhou pelo mundo o comunismo, uma doutrina ateísta de pérfidas consequências. E, apesar da Rússia ter mudado de sistema político, com uma abertura a todas as nações vizinhas e não só, o sistema implantado por Lenine continua, em diversas nações, organizado em partido político.
Outras revoluções houve e ainda acontecem por esse mundo fora, provocando o desequilíbrio económico e social dos povos atingidos e, de uma maneira geral, do mundo inteiro pois os efeitos, bons ou maus, de uma parte atingem normalmente o todo.
E quando viverá o Mundo em paz total ?
Os dirigentes políticos mal compreendem que novos conflitos estão à porta, como ainda há pouco aconteceu na Alemanha e na Ucrânia.
Há 374 anos, deu-se em Portugal a Revolução que lhe trouxe a restauração da Independência, um feito notável que todos os anos vinha sendo comemorado com actos solenes. Era feriado nacional, o 1º de Dezembro, para assinalar aquele mesmo dia de 1640. Mas isso passou ao esquecimento dos governantes actuais, preocupados que andam com a consolidação, bastante precária, de uma democracia que não chega a todos... E é pena que os relevantes acontecimentos, de oito séculos de independência, iniciada em Guimarães em 1143, por Afonso Henriques, ( há quem duvide hoje, que seja aquela cidade minhota o berço da Pátria...) passem tão saloiamente ao esquecimento.
Apesar de tudo houve, felizmente, quem soube enaltecer os feitos heróicos dos barões assinalados / Que, (...) Em perigos e guerras esforçados (...) foram dilatando / A Fé e o Império...
Ao menos resta a Portugal essa bíblia histórica que se espalhou pelo Mundo e que os seus mais notáveis historiadores e literatos conhecem, estudam e admiram – OS LUSÍADAS.

Lajes do Pico,
1º de Dezembro de 2014

Ermelindo Ávila

ESTE PICO...

A MINHA NOTA

ESTE PICO...

Os jornais da Ilha, de vez em quando, afloram os problemas, não somente do seu concelho, mas igualmente dos concelhos vizinhos. Por vezes, só são conhecidos esses problemas pelo jornal estranho, o que não deixa de ser simpático e demonstrativo de que os jornalistas picoenses estão atentos aos problemas da Ilha, que são bastantes.
Demais, a ilha é um todo que deve ser considerado. Quem anda pelas estradas do Pico, mal se apercebe de uma ou outra placa toponímica indicativa do início do doutro concelho, ou mesmo freguesia, onde se acaba de “entrar”.
A atenção dispensada pelos homens da Comunicação Social a todo o território picoense não deixa de ser saudável, pois é demonstrativo de que vai desaparecendo o discutível bairrismo de que muitos se serviram para rebaixar os direitos vitais dos vizinhos.
Há mesmo problemas que deviam ser resolvidos, de comum acordo entre as autarquias, para que a sua solução fosse rápida e eficaz.
Um exemplo ficou da criação da Federação dos Municípios picoenses para a exploração dos serviços eléctricos que, pouco depois foi absorvida pela, então, recentemente criada EDA – Empresa de Electricidade dos Açores. E foi pena que as outras duas federações previstas não tivessem logrado alcançar êxito. Mas isso são histórias que a História nem registará, porque já passaram ao esquecimento. Surgiu depois a Associação dos Municípios Picoenses, de poderes limitados ao saneamento básico, segundo creio, pois há muitos anos que estou afastado desse sector da vida picoense.
Julgo que outras iniciativas semelhantes se deviam tomar e as suas resoluções acatadas, num equilíbrio de justiça, respeito, dedicação e de serviço público...
Em anos passados, os Baldios eram comuns aos Municípios de Lajes e São Roque. As populações dos dois lados da ilha exploravam-nos, principalmente, criando neles gado ovelhum. Era de festa o dia em que, de comum acordo, se reuniam carneiros e ovelhas num sítio que se denominava “arrodeio” e onde os proprietários escolhiam, pelos sinais atempadamente ligados, os seus animais, procediam à tosquia e confraternizavam, cantavam e bailavam com muitos dos visitantes, as chamarritas regionais. E daí surgiram até futuros casamentos...
Hoje o sistema social modificou-se. Os casamentos são raros, a natalidade quase não acontece e a ilha vai envelhecendo...
Mas isso não é o melhor sistema para caminhar para o futuro. A ilha não pode nem deve ficar deserta ou somente entregue à passarada e ao gado bravio.

Há que encarar a tempo a situação. Há que preparar o futuro, aproveitando o potencial de que dispõe a ilha. E não se julgue que é diminuto ou de pouca valia.
Na revista “Cofre”, escreve C. Brandão Lucas, em artigo intitulado: Carta a um amigo que nunca foi ao Pico: “...De resto já deves saber ao que vimos. Enfeitar os olhos com a ilha é a proposta. Descobri-la por detrás das nuvens é a ideia. Não propriamente as freguesias, os lugares e as vilas, como Madalena, Terra do Pão ou Piedade. Mas um outro Pico...mais paisagem e mais mistério”. E a concluir: “Em todo o caso, meu amigo, não tem sentido vir ao Pico sem descer à Vila das Lajes. Lajes do Pico. Foi, em tempos não muito recuados, importante vila baleeira.”(...)“O certo, no entanto, é que cada casa virada para o mar...cada janela à espreita no horizonte...cada vidraça dependurada no telhado...cada lugar posto à beira d´água... cada objecto arrimado no pontão...cada chaminé plantada na falésia...guarda no seu silêncio o rebentar de um foguete de aviso...e o grito de “baleia à vista” que então ia pelas ruas.”(1)
E como escreveu um dia um antigo camarada: “No continente sou açoriano... Nos Açores, sou da ilha do Pico...”
É o quanto basta.

1 Lucas,Carlos Brandão, Carta a um amigo que nunca foi ao Pico – in COFRE, Revista do Cofre de Previdência, Set.Out. 2014.

Lajes do Pico,
14-11-2014

Ermelindo Ávila

domingo, 23 de novembro de 2014

FILHOS E ENTEADOS?

NOTAS DO MEU CANTINHO


Somos tratados por enteados a quem o padrasto dá uma sopa mal cozinhada. Não, isso não é a realidade, mas assim parece.
O governo esteve em visita de desobriga na ilha do Pico. Numa parte da ilha do Pico. Visitou obras e departamentos regionais. Todavia, parece ter ignorado que o Pico é constituído por três concelhos, dado que deixou de visitar “oficialmente” um deles. Afinal, o mais esquecido e abandonado, mas que existiu antes dos outros e onde não faltam problemas para resolver. Verdade que um ou outro membro do Governo saltou, aqui e ali, a espreitar casos pontuais, mas somente.
Julgo que não é esse o espírito da Lei que assim reza: “O Governo Regional visita cada uma das ilhas da Região pelo menos uma vez por ano”. (nº l do Artº 87º do Estatuto da Região Autónoma). Mas ao referir cada uma das ilhas, pelo menos uma vez por ano, deduz-se, facilmente, que foi intenção do legislador impor que o Governo visitasse todos os concelhos da Ilha, e consequentemente da Região, que não somente um ou dois em cada ano. Demais, quando foi estudada por diversas comissões a organização administrativa dos Açores, esteve sempre presente o concelho, como instituto independente, considerando-se a ilha uma parcela autónoma da Região. Não se previa um governo único sedeado numa das ilhas, como veio a acontecer. E foi daí que nasceu a obrigatoriedade da visita anual.
Assim, e tal como se vem praticando, só de longe em longe se resolvem os assuntos de toda a ilha, o que, julga-se, não estava no entendimento dos legisladores. Mas, e como diz o ditado popular: mudam-se os ventos, mudam-se os pensamentos...
Há tempos passados, um temporal com chuvas violentas, atingiu a zona de Santa Cruz das Ribeiras, danificando a estrada e o ramal de acesso ao porto. Depois de muitos meses de espera, a estrada acabou por ser reparada e aberto ao trânsito. O mesmo não sucedeu ao Ramal que, aliás, pertence à mesma entidade administrativa. O trânsito continua vedado às camionetas da carreira urbana que, para irem ao centro de Santa Cruz, tem de utilizar o ramal de acesso a Santa Bárbara e o caminho municipal de Santa Bárbara a Santa Cruz. Não se compreende porque não foram incluídas, no projecto de restauro, os dois troços danificados.
Aqui há anos, não muitos, foi construído um paredão que fechou a “Carreira” e evitou que o mar galgasse mais frequentemente a vila. Uma obra que todos aplaudiram. Dessa construção resultou uma pequena enseada que, tornando-se abrigada, permite à navegação por ali passar com certa segurança. E refiro “certa segurança” porque não se fez então a limpeza do fundo, passando a sinalizar-se depois os “cabeços” encobertos para evitar que provoquem qualquer naufrágio. Na altura da construção do molhe de defesa teria sido fácil eliminar esses obstáculos sem grandes agravamentos de verbas.
Não precisa ser-se técnico para perceber que o “pátio” do caneiro (denominemo-lo assim), poderia servir de cais de embarque, se tivesse sido concluída a escada que nele ficou esboçada pelo lado Oeste, quando construído.
A nova “lagoa” que resultou da construção do paredão de defesa poderia – devia – ser preparada para receber a navegação de recreio – marina – desimpedindo a lagoa interior que ficaria somente para os barcos de pesca, que são ainda alguns.
E, aqui, apetece deixar a pergunta: Quando é construída a nova “pesqueira” ou lota para substituir aquela que foi destruída quando da construção da rampa interior?
Ou será que o “monopólio” do pescado é para manter à distância e “ad aeternum” ?
Não será por estas e por outras atitudes ininteligíveis que o Sul e a sede do respectivo concelho se vão despovoando, talvez com gáudio de outros?...
Quando o “mundo” era diferente, não se estranhavam situações similares. Mas nos tempos actuais, em que se espalha aos quatro ventos que tudo será resolvido se o povo soberano (?) quiser, é estranho que o abandono dos sítios degradados continuem esquecidos ou ignorados.
Seja como for, porque todos somos contribuintes, todos temos iguais direitos; e governar não é distribuir benesses, mas repartir o bem com justeza, equilíbrio e atempadamente, para que o povo acredite e possa fazer justiça nos momentos próprios.


Vila das Lajes do Pico,
12-XI-2014
Ermelindo Ávila


P.S. Já depois de escrita esta crónica foi anunciado o início das obras no Ramal de Sta Cruz.