sábado, 20 de julho de 2013

AS FESTAS DA SILVEIRA

NOTAS DO MEU CANTINHO


          Até ao falecimento do Pe. Vigário e Ouvidor José Vieira Soares, em 12 de Abril de 1948, o Pe. Manuel Vieira Feliciano era cura - capelão do curato de São Bartolomeu da Silveira, sufragânio da Matriz das Lajes.
          No entanto, dada a amizade fraternal que unia os dois sacerdotes, ambos naturais da vila das Lajes e colegas do mesmo curso do Seminário de Angra, nunca se notou entre os dois qualquer desentendimento. O P. Feliciano, como era tratado, geria, sem reparo, a sua igreja com total autonomia administrativa. E foi assim que, tomando posse do lugar, em 1 de Junho de 1905, com o falecimento do anterior cura, P. Jerónimo Brum da Silveira, ali se manteve até ao falecimento, tendo conseguido antes, que, por decreto diocesano de 8 de Janeiro de 1957, o curato fosse elevado a paróquia.
          Mesmo assim não foi fácil, para o P. Vieira Feliciano, a administração do curato. A igreja paroquial, iniciada em 1878, levou dez anos a ser concluída. Todavia, ao Pe. Feliciano coube ultimar a decoração e pintura interiores, que não duraram000 muito tempo, pois um violento incêndio, ocorrido na noite de 24 de Junho de 1923, - decorria a novena preparatória para a festa de Santo Cristo - tudo destruiu. E foi o P. Feliciano que teve a coragem de reconstruir o templo, do qual só ficaram as paredes: fechá-lo, construir novos altares, o coro alto e o púlpito, e  pintá-los e dourá-los e adquirir as Imagens de devoção tradicional no antigo curato. (1) Recordo que os trabalhos de entalhamento foram executados pelo Mestre Contente, da Horta e a pintura e douramento pelo Mestre Virgínio de Simas Belém, desta vila.
          Três eram as festas principais que se realizavam na Silveira: Santo Cristo, no primeiro domingo de Julho, Mãe de Deus, a 15 de Agosto e São Bartolomeu (orago), a 24 do mesmo mês. Depois, com a aquisição das imagens de Santa Teresinha e de Nossa Senhora de Fátima - a primeira que veio para o Pico -   as respectivas festas tinham lugar  no mês de Setembro.
          Pelas Festas da Silveira tinham os lajenses uma especial dedicação. E tanto assim que, a Festa de São Bartolomeu obrigava a que a novena de Lourdes, desse dia, fosse rezada e realizada de manhã, para não evitar que os lajenses fossem à Silveira assistir à Missa solene e procissão e arraial, de tarde, abrilhantado pela Filarmónica das Lajes.
As Missa festivas eram cantadas pela Capela local, tendo a colaboração de músicos das capelas de S. João e Lajes. Tudo era feito com brilho e dignidade. Depois do incêndio foi adquirido um novo órgão. Veio de S. Jorge. Sobre o órgão diz o P. Manuel Azevedo da Cunha: ”O órgão dos Biscoitos, feito por Manuel de Serpa da Silva (da Horta) por 600$000 e chegado em 20 de Maio de 1890 (...) foi ultimamente (1924) vendido para a Silveira, Lajes do Pico.(2)
Os arraiais da Silveira eram sempre muito concorridos, principalmente pelas ofertas que os paroquianos levavam à igreja, sobressaindo as frutas diversas – uvas, maçãs, peras, etc. –eram as primeiras a aparecer e muito disputadas nas arrematações.
Na primeira festa já apareciam alguns “veraneantes”, principalmente da Horta, que na Silveira tinham suas vivendas. Os lajenses não faltavam e embora não fossem para as arrematações, iam às Missas solenes, onde apareciam oradores distintos que tinham a seu cargo o sermão da solenidade. Lembro-me de ali pregarem o Dr. Cardoso do Couto, o Dr. Garcia da Rosa, Mons. José Pereira da Silva, o ouvidor de S. Roque, Domingos Ferreira da Rosa Ângelo, o Cónego José Maria Fernandes, e outros mais. Alguns deles trazidos até à Silveira pelo Pe. António Cardoso Machado, que paroquiava na Terceira mas que, todos os anos, vinha à Silveira, sua terra natal, passar as férias.
Actualmente parece que todo esse entusiasmo dos silveirenses pelas suas festas  esfriou, deixando de realizar algumas das  tradicionais.
A terminar este arrazoado, repito o que já escrevi: Para os lajenses a Silveira passou a ser um lugar de eleição. Era ali que as famílias mais abastadas tinham suas vinhas e pomares e as respectivas casas de verão. Eram os terrenos do Sr. Faria, ali por detrás da Igreja; as casas de verão no Caminho de Baixo, da Família Machado Soares, do João de Deus, mais tarde  do comendador Fernando da Costa, da Horta, de Gilberto Castro, no Mirante, e outros mais. Quem não possuía casa de verão alojava-se em casa de amigos e conhecidos, pois o espírito de hospitalidade e de acolhimento foi sempre uma das nobres qualidades dos silveirenses. (3)
_________
1)      E. Ávila, “Figuras & Factos” (1º Vol.), pág.14 – 1993
2)       Cunha, P. Manuel de Azevedo – “Notas Históricas”, Vol.I, pág391. 1924.
3)       E. Ávila, “Crónicas da Minha Ilha”, Vol. II, pág.76, 2002



Vila das Lajes do Pico,
9 de Julho de 2013

Ermelindo Ávila

quinta-feira, 4 de julho de 2013

Cartas para longe...



Quem escreve é que sabe a dificuldade que encontra quando “lança a mão à pena...” Mas isso era antigamente...Hoje é colocar as mãos sobre o teclado do computador, já não da máquina de escrever, e deixar correr... Pois que seja.

A propósito daquele “lança a mão à pena”, veio-me à lembrança a “Carta para longe” de Armando Cortes-Rodriguesi. Actualmente, já não se escrevem cartas para as Américas e quase para parte nenhuma. Até as de negócios foram substituídas pela Internet.

No entanto, vale a pena lembrar o que escreveu o Poeta :

“Maria manda dizer
o que por aí tens passado
Triste velhice de quem
Não tem os seus a seu lado.

“ Não te esqueças de teu pai
lembra-te sempre de mim
Adeus...adeus...que as saudades
Só à vista terão fim!”
“Triste velhice de quem
não tem os seus a seu lado!

E quantos partiram para não mais voltar...Viveram envoltos numa saudade permanente, recordando “o craveiro do balcão” ou a figueira do quintal...

A saudade era tamanha que, nem a língua da nova pátria, quiseram aprender. A terra pequena e humilde, bastante distante, estava sempre presente. Recordavam os feitos de criança, os irmãos e os pais com uma saudade amarga. Aos filhos ensinaram a língua materna para que, em casa, só esse idioma se falasse...E nunca puderam voltar às pedras negras do cantinho natal...

Por c á os pais viveram, e partiram para sempre, embalados na esperança de um dia eles regressarem, porque,

”Depois que daqui saíste
Nunca mais houve alegria,
Que do céu da nossa vida
Veio a noite e foi-se o dia”.

Essa gente que ficou foi envelhecendo, sempre a olhar para o horizonte, na esperança de um dia o barco voltar ao porto e trazer o seu Manuel, rico e bem trajado, a espalhar alegria e lembranças aos que deixara num dia longínquo. Mas isso raro aconteceu. O Manuel não mais voltou... Todavia,

“A tua cadeira baixa
Lá está (ainda) junto à janela
Como quem ainda espera
Que te venhas sentar nela.”

Quem conseguisse reunir as cartas que se trocavam entre as famílias açorianas e os familiares que emigraram para o Brasil e, mais tarde, para os Estados Unidos, ficaria de posse de um extraordinário acervo sobre a história destas ilhas.
Muito embora não fossem assíduas as cartas, pois os meios de transporte eram raros, nem por isso deixavam de levar daqui, não só as notícias da família mas igualmente das ocorrências que se haviam dado nos tempos anteriores.
Havia escreventes habituais. Respondiam com certa graça às cartas que vinham das terras de imigração e muitas vezes aproveitavam para dar notícias da escrevente e dos acontecimentos por vezes os mais dispares. Mais assíduas eram as cartas dos Estados Unidos e do Canadá. Do Brasil eram poucas e cada vez iam rareando mais. Até havia o ditado: O Brasil é a terra dos esquecidos. E esquecidos porque, passados uns tempos, os que lá estavam imigrados, esqueciam a terra e a própria família. Poucos eram os que voltavam à terra. Que me lembre, apenas uma ou duas famílias cá vieram. Uma por cá ficou e passou a ser conhecida pela terra para onde havia emigrado.
Uma questão psicológica, que interessante seria averiguar, pois é sabido que existem nas terras de Santa Cruz imensos descendentes de açorianos, desde os históricos Casais – cerca de quarenta – que emigraram para Santa Catarina aquando das erupções vulcânicas do século dezoito e, depois, para outras regiões. Alguns deles fixaram-se mais tarde no Uruguai,
onde ainda existe uma colónia de descendentes açorianos, que há poucos anos fundou uma sociedade açoriana-uruguaia, para defesa da língua portuguesa, como rezam os respectivos estatutos.
E todos eles, quer no Brasil quer no Uruguai, tem muito orgulho em serem descendentes de gentes emigradas destas ilhas. Mas só.
Existem “Casas dos Açores” em diversas cidades do Brasil, algumas com grande actividade, como seja a “Casa dos Açores” do Rio de Janeiro.
O mesmo acontece agora no Canadá, onde se encontram dezenas de associações com sedes próprias as quais foram fundadas pelos imigrantes portugueses e açorianos. Só em Toronto, consta-me, há mais de duas dezenas.
Afinal, as Casas dos Açores proliferam por toda a parte onde se haja fixado um grupo de açorianos. A de Lisboa, por certo a mais antiga, tinha, inicialmente, a denominação de “Grémio dos Açores”, fundado em Março de 1927.
Não são de esquecer as seculares sociedades, “União Portuguesa do Estado da Califórnia”, fundada em 1880 pelo picoense António Fontes, e a “Sociedade do Divino Espírito Santo”, também fundada pelo picoense Pe. Manuel Fernandes, conjuntamente com outros imigrantes, em 1896, ambas da Califórnia. Em New Bedford existia o “Montepio Português”. Mas não somente estas. Outras mais há, como a “Casa da Saudade”.
Servem elas, meritoriamente, para conservar vivo o espírito e as tradições das terras de origem, desde as matanças de porco até às festividades do Espírito Santo, não esquecendo os Santos Padroeiros das respectivas localidades de origem.
E, não só as sedes sociais, algumas de grandeza enorme, tenha-se presente a de Mississauga, Canadá, como até os belos e modernos Templos, quase sempre providos de clero português.
De referir também a Imprensa portuguesa, mantida com entusiasmo em terras da Diáspora. É o caso da Califórnia e de Massachusetts. Só na Califórnia, até 1979, fundaram-se vinte e seis periódicos. Lá existem ainda jornais portugueses desde longa data. Outros, embora portugueses na sua origem, já utilizam a língua estrangeira.
E há ou houve programas portugueses na Rádio e na Televisão. Lembro aqui o programa Castelos Românticos iniciado em 1930 pelo nosso conterrâneo Arthur Ávila e esposa Celeste Ávila, o qual teve grande audiência entre a comunidade portuguesa da Califórnia.
E nunca mais voltaram... E os pais foram envelhecendo, sempre na esperança de um encontro que não se realizou!...

E o referido Poeta continuou a registar:

”Saudade é como o luar
Que só de noite é que brilha... “

É simples mas repleta de encanto a prece final:

“A bênção de Deus te cubra
Com amor, paz e saúde
E lembra-te que a riqueza
Verdadeira é a virtude.”

A crónica acabou. “Até à vista...”


Vila das Lajes,
Junho de 2013
Ermelindo Ávila

i Côrtes Rodrigues, Armando, “Em Louvor da Humildade”- 1924

domingo, 9 de junho de 2013

OS ANTIGOS MANJARES

NOTAS DO MEU CANTINHO


Quando os primeiros povoadores aqui chegaram, tudo tiveram de improvisar para garantirem a sua subsistência.
“À falta de forno, cozeram na lage o pão rudimentar das suas refeições frugais, e mais tarde o bolo (...).; assavam a carne no borralho, o funcho substituiu a hortaliça que ainda não houvera tempo de cultivar, posto que raramente; inventaram molhos, gratos ao paladar, para suprir a falta de azeite de oliveira, tardia em frutos, costume que perdura, pois só recentemente se começou a tentar a sua cultura. “(1)
E foi assim durante muito anos. As comunicações com o continente foram sempre muito raras e os fretes dispendiosos, o que evitava a importação de certos géneros. Daí que a alimentação fosse sempre frugal.
Mas, mesmo assim, não deixaram os povos de inventar uma cozinha apetitosa e agradável ao paladar.
Lembro aqui o caldo de peixe que os nossos pescadores sabiam, como ninguém, cozinhar e que ainda hoje constitui um dos pratos fortes da cozinha picoense.
Continuaram a fazer molhos apetitosos para as carnes e o peixe. Cultivavam os alhos, as cebolas, a salsa, as pimentas ou malaguetas e o “açaflôr” ou colorau de hoje.
A banha de porco é sempre utilizada, substituindo o azeite. São os chamados “molhos fervidos” que acompanhavam, e ainda hoje isso acontece, o peixe seco, cozido ou assado. E como acompanhamento a batata doce.
Para as sopas, cultivava-se a ervilha e o feijão, este de várias qualidades, branco ou castanho.
Um prato ainda hoje muito procurado é o do polvo. Tinha e tem um segredo o seu cozinhar que poucos conhecem. Quão procurado era aquele que, no século passado, fornecia o antigo e memorável “Restaurante 1.º de Maio” de Edmundo Ávila!
O arroz de lapas era uma especialidade do fundador e primeiro proprietário do “Restaurante Lagoa”, procurado por quantos vinham às Lajes.
O bolo de lage foi substituído pelo bolo do tijolo, mesmo depois de aparecer o bolo do forno. No entanto, há que recordar que, inicialmente, era o trigo que se usava pois o milho chegou por muitos anos mais tarde, tal como a batata branca. O inhame é mais antigo.
Com o desenvolvimento das manadas, apareceu o leite e, deste, o célebre queijo do Pico, fabricado nas próprias famílias e para uso das mesmas. Mais tarde iniciaram o comércio, levando o queijo para as outras ilhas, onde sempre e até hoje, é muito apreciado.
“A indústria do queijo, originária da própria freguesia (São João) pois ali que se fabricou o primeiro queijo do Pico, deve ter-se desenvolvido paralelamente à da tecelagem ...” (2)
A caçoilha de carne de vaca ou de carneiro era cozinhada para celebrar os acontecimentos familiares: casamentos e baptizados, principalmente. Além disso, nas famílias era o prato principal da festa do Natal.
A linguiça, os torresmos de sal e de vinho-de-alhos acompanhados com inhames, são pratos fortes que, vindos de séculos passados, ainda hoje são muito apreciados.
E tudo regado com o secular vinho do Pico!...
Bem andou Frei Pedro Gigante quando, vindo com os primeiros povoadores como seu capelão, se fez acompanhar dos bacelos do vinho verdelho que plantou numa horta que arroteou no local que hoje é a Silveira. E o vinho Verdelho não ficou por cá. Correu o mundo conhecido de então.
As “sopas do Espírito Santo” ainda hoje são especiais e estão a servir, não apenas para as chamadas “funções” como para a angariação de fundos para obras sociais. E com elas a carne assada e o arroz doce. E que excelentes são!
Escreve ainda Lacerda Machado: “em casa de meus avós, ainda velhas criadas especializadas (...) peneiravam as farinhas moídas em atafonas da casa, faziam o pão de trigo, o bolo de milho, as bolachas, os biscoitos, o pão de ló, as queijadas, as rosquilhas de aguardente, os folares, os esquecidos, os suspiros, as morcelas, as linguiças, os queijos, a manteiga, etc.(...)”. (3)
O “pão leve” era o doce especial dos almoços de casamento. Hoje apareceram outras espécies, que o substituem, a maioria trazida dos Estados Unidos pelos emigrantes retornados.
Mas basta de tanto recordar.
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1) Machado, Lacerda - História do Concelho das Lages, 1936, pág. 78
2) Madruga, Manuel Alexandre – A Freguesia de S. João da Ilha do Pico, na Tradição Oral dos seus Habitantes, 2012. Pág.32
3) Machado, Lacerda, ibidem, pág.80

Vila das Lajes, Pico.
Maio-2013.

Ermelindo Ávila

sábado, 1 de junho de 2013

AS REGATAS E NÃO SÓ...

NOTAS DO MEU CANTINHO


Terminou definitivamente a caça à baleia e ficaram as canoas abandonadas nas respectivas “casas dos botes”, dos portos açorianos. E açorianos porque, nos Estados Unidos, onde a baleação teve o seu início e foi escola para muitos emigrantes, somente ficou a recordação desses tempos áureos e o New Bedford Whalling Museum que arrecada o espólio riquíssimo dessa actividade marítima naquelas paragens. Parece que hoje, talvez pelo estímulo dado pelos açorianos que baleeiros foram e por lá se fixaram, estão a implementar a prática da regata desportiva, não com as antigas baleeiras americanas mas com as canoas importadas ou ali construídas por um picaroto e que foram criação de um lajense. A canoa açoriana é hoje considerada a mais bela embarcação do mundo. Muitos esquecem porém que foi o lajense Francisco José Machado, o Experiente, o inventor do novo estilo da canoa baleeira, iniciado com a embarcação que ele construiu e denominou de “São José”. Infelizmente, porém, o nome do grande lajense anda esquecido. Nem existe uma placa junto da canoa que está arrecadada no Museu lajense, esta construída pelo filho, Manuel José Machado que, com os irmãos, continuou a construção de canoas que ficaram espalhadas pelas diversas ilhas açorianas e até pelo porto de Setúbal onde existiu uma empresa baleeira.
A Horta chamou a si, e bem fez, a organização das regatas com botes baleeiros e está entendida com New Bedford para a realização de regatas internacionais, alternadamente na Horta e naquela cidade americana.
New Bedford foi realmente um grande centro baleeiro. Em meados do século XIX possuía mais de 300 navios, tantos como o resto dos Estados Unidos, dedicados à baleação. Nessa época houve nos Açores, melhor dito no porto das Lajes, uma tentativa com um brigue armado em baleeira, que não resultou.(1)
Não se esquece que a actividade baleeira, costeira, chegou aos Açores, trazida pelos emigrantes retornados, aqueles que antes haviam partido “de salto”. Teve, no entanto o patrocínio da Casa Dabney, estabelecida na Horta no principio do século XIX. O primeiro contrato escrito de baleação, que se conhece, é de 28 de Abril de 1876, entre Anselmo Silveira, da Calheta de Nesquim, duma parte, e Samuel Dabney e George Oliver, americanos residentes na Horta, de outra.
New Bedford, decorridos quase dois séculos, conserva nas suas ruas placas com o indicativo “Cidade Baleeira”. Nas próprias habitações existem muitos “souvenirs” da baleação. E até no Museu de Mistic Port, onde ainda se encontra uma antiga barca baleeira, constantemente beneficiada, além das antigas e intactas instalações que constituem as actuais secções do Museu, há um artesão, que eu saiba, a fazer lembranças da baleação mas... em osso de vaca, segundo ele próprio me informou. Demais os habitantes daquela cidade americana têm orgulho da sua ascendência, conservando a tradição baleeira com muito respeito. As regatas, como disse, continuam nos Açores. Nos vários portos do Pico, v.g., estacionam canoas baleeiras, levadas dos portos onde se praticava a actividade, e entregues a várias entidades, que as vão conservando e no verão promovem, pelas suas festas, regatas à vela e/ou a remos. E a juventude, tanto masculina como feminina, lá vai praticando esse novo desporto, com entusiasmo. Ainda bem que isso acontece, pois é a maneira mais prática de se recordar, ainda por muitos anos, uma actividade que, durante mais de um século, foi promotora de algum desafogo económico, de muitas famílias picoenses, principalmente, pois eram os picoenses os grandes baleeiros que, como oficiais ou trancadores, se deslocavam para todas as ilhas e até para o continente, a praticar a baleação.
A Vila das Lajes, que foi o principal centro baleeiro dos Açores, possui o Museu mais visitado dos Açores, e algumas canoas, das que ficaram, para as regatas. Restam as “casas dos botes”, onde foi instalado o Museu e as “casas dos botes da Ribeira do Meio”, onde se guardam as canoas hoje utilizadas nas competições. Mais nada indica o seu passado histórico. O Museu deixou de ser um organismo autónomo para ser uma “extensão” do hipotético Museu do Pico que, afinal, não tem qualquer estrutura física, Como se, nos Açores, só pudesse existir um museu – o Museu dos Açores- sem qualquer significação histórica.
Importa sinalizar, convenientemente, os espaços da vila ligados à antiga actividade baleeira. As “Casas dos Botes” carecem de um indicativo visível. O monumento aos baleeiros, além dos nomes dos antigos oficiais e trancadores que lá existem, e muito bem, carece de ser assinalado, com uma placa identificativa. Monumento ou homenagem aos baleeiros , como julgarem mais acertado. Restam ainda uma ou duas “Vigias”, hoje utilizadas para ajudar a prática do whale watching.
O comércio, principalmente aquele que se dedica à venda de scrimshaw, deve utilizar e valorizar a identificação da baleação pois não basta somente uma rua dedicada aos baleeiros. Toda a Vila é a Vila Baleeira. Nas entradas da Vila é indispensável que sejam colocadas placas com o indicativo VILA BALEEIRA.
As empresas que exploram actualmente a observação de cetáceos deviam referir que se trata de uma actividade que se seguiu à proibição da caça à baleia, actividade que ainda hoje se praticaria se não fosse a descoberta do petróleo e de outros produtos e sistemas mais sofisticados e que levou os governos a decretarem a proibição da antiga e secular caça à baleia ou cachalote.
Tudo isto já foi dito. ( Ver “Album da Ilha do Pico”, do autor, pág. 94 a 118). Convém, porém, repetir.
Orgulhemo-nos do nosso passado!

Lajes do Pico,
Vila Baleeira
13-04-2013
Ermelindo Ávila
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  1. Refiro a tentativa de João Paulino Laureano Narciso da Silveira que, cerca de 1850, armou um brigue para a caça da baleia, o qual não deu o resultado desejado .Ver “Figuras & Factos”, pág. 107 e 121, do Autor.


A VILA EM RUÍNAS

NOTAS DO MEU CANTINHO


Estão a terminar as obras de construção da avenida marginal (a denominação é minha) e do jardim anexo. Um espaço abandonado que, em boa hora e felizmente entendeu o Município recuperar, depois da saída do campo de jogos. Uma atitude de aplaudir e que bastante vem dignificar a parte Oeste da Vila. Há muito que se impunha mas, como diz o velho adágio, “tarda é o que nunca chega”. E ainda bem que chegou . Os lajenses, na generalidade, estão satisfeitos, pelo menos aqueles com quem tenho trocado impressões acerca do novo empreendimento. Mas não basta ficar por aqui. Iniciou-se uma obra que há que continuar. Naturalmente que os técnicos trabalham na elaboração dos respectivos projectos. No entanto há que algo lembrar do muito que se tem dito e escrito sobre a parte histórica, é assim que agora se diz por toda a parte, da vila mais antiga da ilha.
Refiro os monstrengos que para aí existem abandonados e a causar perigo aos transeuntes.
A casa da Maricas do Tomé já está entaipada mas isso não evitará uma derrocada e as pessoas que possam ser atingidas. O mesmo acontece com as duas casas que pertenceram ou pertencem à “Planipico”, ambas já sem tecto, uma delas de traça do século XVII/XVIII. E não menos perigosas são as ruínas da casa que da Feliciana, em cuja empena sul existe um “Passo”, propriedade da Misericórdia, como são todos os outros. Outras casas vão caminhando para esse inglório destino. Na rua principal da vila há a antiga “Casa da Alfandega”, propriedade do Estado, há anos encerrada. O que lhe vai acontecer? E já não refiro as ruas transversais...
Julgo que, segundo a legislação, a autarquia tem competência para impor obras ao proprietário ou expropriar o prédio e, depois, dar-lhe o destino que julgar mais acertado.
Mas expropriar para ficar abandonada como a da já histórica “casa da Maricas do Tomé” que, ao que sei, pertence hoje ao Município, não vale a pena.
Sei que não apenas nas Lajes do Pico existem prédios em ruínas e abandonados. Outras terras há, em Portugal, que nos centros de várias cidades, existem igualmente prédios degradados e abandonados. Mas isso pouco nos importa. Tratemos do que é nosso, pois nas eras que passam, a “inter-ajuda” é somente uma palavra de retórica.
Com a construção do novo arruamento há que promover a melhor regulamentação do trânsito, retirando o estacionamento de viaturas da rua principal (não se compreende o estacionamento em espinha em frente da Casa da Maricas do Tomé) e fazendo nela a circulação nos dois sentidos, para que os visitantes possam admirar o centro histórico e bons prédios que ainda existem.
No novo arruamento (chamo-lhe assim porque ainda não tem denominação) o trânsito deve ser regulamentando não se permitindo o estacionamento de veículos de carga, como já vai acontecendo, o que retira a beleza daquele espaço e a vista sobre o futuro jardim. Para os veículos pesados ou de carga pode destinar-se o parque da rua Direita, por detrás da Caixa Geral de Depósito, ou em outro que melhor convenha.
Afinal, pequenas coisas de grandes efeitos, ao que julgo.
E por hoje apenas estes reparos, para que a tempo, e antes de se criarem hábitos, tudo seja convenientemente regulamentado.
Há anos fui à Europa. Passei por várias cidades que, anos antes, haviam sido destruídas pela metralha da guerra. Estavam completamente recuperadas e nada “diziam” do seu passado bélico.
Por cá não houve guerras nem revoluções que destruíssem os prédios urbanos. Felizmente!
Mas a incúria e o abandono têm feito destruições enormes. Causa pena!


Vila das Lajes do Pico,
Maio de 2013.


Ermelindo Ávila

domingo, 26 de maio de 2013

SANTÍSSIMA TRINDADE


Notas do meu cantinho


A Liturgia Católica celebra, este domingo, a solenidade da Santíssima Trindade, que as gentes açorianas, especialmente na ilha do Pico, aproveitam para “prolongar” os Impérios do Espírito Santo.

Para os lajenses um motivo especial existe para solenizar o dia do seu Orago.

Os povoadores, quando aqui chegaram, construíram uma pequena Ermida dedicada ao Apóstolo S. Pedro, nome do capelão e primeiro pároco da Ilha – Frei Pedro Alvares Gigante. Essa pequena ermida foi a primeira paróquia da ilha, que “muitos anos não teve esta Ilha outra freguesia mais que esta, e de todas as partes aonde moravam os povoadores vinham a ela, que foi uma pequena Igreja do Apóstolo São Pedro (que hoje é ermida) sua paróquia”.

Em 1506 “trataram de fazer outra em o meio da Vila, como de efeito fizeram, no lugar em que agora está do Orago da Santíssima Trindade, para cujo efeito lançaram finta em todos os moradores da Ilha, e nas fazendas dos Ausentes, conforme cada um tinha de Cabedal”.(1) Somavam os moradores 45. Segundo Lacerda Machado, “Por moradores deve entender-se fogos, chefes de família com propriedade colectável”. Deduz daí que a população, nessa época devia ser de 250 habitantes na ilha.” (2)


Não nos dizem os historiadores porque seria que a paróquia que, até à construção da nova Matriz, se denominava de São Pedro, aliás como acima se refere, o nome do primeiro Pároco, passaria a chamar-se, cerca de cinquenta anos após o povoamento, de Santíssima Trindade.

Quase todas as ilhas tomaram o nome do Santo do dia da chegada dos seus povoadores. Assim acontece em Santa Maria, S. Miguel, etc. O Pico, apesar de algumas divergências iniciais, ficou a chamar-se somente Pico em razão da alta montanha que domina a ilha. Todavia, a primeira igreja foi dedicada ao Apóstolo S. Pedro por ser, naturalmente, o nome do capelão que veio com os primeiros habitantes.

A Igreja celebra a festa da Santíssima Trindade no final do período pascal, que acontece no fim da Primavera. E nessa época o mar já se apresenta calmo e propício à navegação. E foi, possivelmente, nesse dia que os povoadores aportaram à ilha, tentando desembarcar junto ao Castelete, local onde as águas são revoltas devido às mudanças da maré. Apenas cá ficou, como é sabido, Fernando Alvares Evangelho pois “vindo no barco buscar a costa saltou em terra, aonde se diz o penedo negro, e com ele um cão que trazia, e o mar se levantou de modo que não deu lugar a ninguém mais saltar em terra, e aquela noite se levantou vendo do modo que a caravela ao outro dia não apareceu e ele ficou na ilha com o seu companheiro o cão e nela esteve um ano(...) No cabo do ano tornaram os Companheiros a buscar a Ilha pela mesma parte, e ainda com melhor maré (...) (3)

Fernando Alvares fixou-se junto à Ribeira, que durante anos teve o seu nome e que, depois, passou a ser conhecida por Ribeira da Burra. Ali construiu a sua habitação, cujas ruínas ainda lá se encontram. Ele que já conhecia esta parte da ilha, quando os companheiros, passado um ano, cá voltaram, encaminhou-os para a pequena baía de Santa Cruz, onde desembarcaram.

A celebração da Festa da Santíssima Trindade está incorporada no ciclo festivo do Espírito Santo. Nesse dia, em diversas localidades da Ilha do Pico, realizam-se Impérios com larga concorrência. O Império das Lajes caiu em desuso e hoje nem o Orago é por cá lembrado, e é pena, pois a denominação de Santíssima Trindade foi considerada oficial até à promulgação do Código Administrativo em 1940. E o mesmo vai acontecendo na área diocesana. Em diversos documentos, esquecem a freguesia da Santíssima Trindade, para só indicarem a denominação de Lajes do Pico que, até há pouco, foi o nome da Ouvidoria, ora extinta. Que ao menos a Freguesia da Santíssima Trindade se mantenha a lembrar aos presentes e aos vindouros, o nome secular da primeira Paróquia da Ilha.



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  1. Frei Diogo das Chagas – “Espelho Cristalino em Jardim de Várias Flores” 1646 – Direcção e Prefácio do Dr. Artur Teodoro de Matos,1989.
  2. História do Concelho das Lages, 1936.
  3. Frei Diogo das Chagas, Ibidem.





Lajes do Pico,

Maio de 2013

Ermelindo Ávila


terça-feira, 14 de maio de 2013

As Festas


NOTAS DO MEU CANTINHO


Estamos na época das Festas. Este ano, o calendário litúrgico coloca-as mais cedo. Mesmo assim todos se preparam afanosamente para a celebração das maiores Festas destas ilhas, hoje denominadas de Região.
Não há ninguém que não fale nas festas e nos convites recebidos para as coroações e jantares da Semana do Espírito Santo. E foi sempre assim. Desde remotas eras, quando para aqui vieram os povoadores enviados pelo Infante. Há que tempo que isso aconteceu! E as Festas têm continuado. Ou por tradição ou em cumprimento de promessas, elas aí estão todos os anos, nem que sejam anos de crise como aqueles que estamos a viver. O Senhor Espírito Santo, a Terceira Pessoa da Santíssima Trindade, faz milagres contínuos.
Não há data certa da chegada das Festas a estas ilhas.
No continente, elas surgiram com a criação das Misericórdias, e chegaram aos Açores no século dezasseis. O alvará de criação da Misericórdia das Lajes do Pico é datado de 14 de Novembro de 1592, e concede “ao provedor e irmãos da Misericórdia da Vila das Lajes da ilha do Pico todos os privilégios e liberdades de que gozam e usam o provedor e irmãos das confrarias das misericórdias da cidade de Angra e da ilha do Faial”.
A igreja da Misericórdia já existia no ano de 1645, pois Frei Diogo das Chagas, ao referir a ilha do Pico, no seu Espelho Cristalino, diz que nela existiam treze paróquias e quinze ermidas, uma casa da Misericórdia e o convento de frades franciscanos, “que na mesma vila se fundou em 1641”.
A igreja da Misericórdia, restaurada em 1720, aquando das erupções vulcânicas daquele ano, já estava em ruínas e incapaz de nela se exercer o culto em 1914, ano em que o local onde se encontrava foi posto em arrematação e adquirido por um particular.
Sobre a constituição da devoção ao Divino Espírito Santo, Lacerda Machado informa (1): “No ano de 1523 desenvolveu-se na ilha de S. Miguel uma desoladora peste que ocasionou 2.000 vítimas e se comunicou ao Faial no mês de Julho. O pânico foi geral em todas as ilhas e os povos aterrados recorreram a preces públicas, procissões e invocaram em especial o Espírito Santo, prometendo distribuir pelos pobres anualmente, pela festa do Pentecostes, as primícias de seus frutos, se escapassem do terrível flagelo, que se não comunicou ao Pico. – Instituíram-se irmandades em honra do Espírito Santo, celebrando em seu louvor todos solenes, com folias e bailes, ao uso do tempo.”
A ilha do Pico, na devoção ao Divino Espírito Santo, quase constitui uma excepção entre as outras ilhas. Segundo um “Roteiro do Espírito Santo”, elaborado pelo “Jornal do Pico” no último ano (2012), realizam-se na ilha do Pico, ao longo do ano, desde o sábado do Espírito Santo até ao dia de são Mateus (21 de Setembro), 53 Impérios com a distribuição, a todas as pessoas que aparecem, de rosquilhas ou bolos de vésperas, conforme a tradição.
São, na realidade, as grandes festas da ilha, que se vêm mantendo com o mesmo entusiasmo, estes séculos todos em que a ilha está povoada.
A vila das Lajes celebra o seu império no dia de São Pedro. Reatou a tradição em 1940 e, felizmente, tem mantido. Antes realizava impérios no Domingo do Espírito Santo, segunda-feira do Espírito Santo (dos marítimos ) e terça-feira ( dos nobres).
No princípio do século XX houve um desentendimento entre os irmãos do Domingo e os da Ribeira do Meio, que a ele pertenciam, foram realizar o Império para o Caminho Novo. Os das Lajes vieram para o largo do Meio da Vila, até que os Impérios aqui acabaram: o dos lavradores, no domingo, depois da separação dos irmãos, como ficou dito; o dos nobres porque estes foram desaparecendo; o dos marítimos porque os irmãos foram reduzindo e os que ficaram foram insuficientes para que o império se realizasse.
Mais tarde ainda se tentou, na vila, o Império da Trindade mas durou poucos anos. Veio em 1940, como atrás disse, o de S. Pedro e ficou, felizmente.

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  1. História do Concelho das Lages, 1936, pág. 136.


Lajes do Pico,
Maio de 2013-05-09
Ermelindo Ávila


domingo, 5 de maio de 2013

MONSENHOR CÓNEGO JACINTO ALMEIDA


Duas Palavras de Homenagem

Quando Ponta Delgada se prepara para celebrar uma vez mais a sua festa maior em honra e louvor de Santo Cristo dos Milagres que ali se venera, desde o recuado século dezassete, importa recordar aqui uma Figura Notável que àquelas solenidades e à devoção ao Ecce Homo dedicou uma parte importante da sua exemplar actividade sacerdotal. Refiro Monsenhor Cónego Jacinto da Costa Almeida que, nos derradeiros anos da sua vida, foi Reitor do Santuário da Esperança.
Recordo o Padre Jacinto, como era conhecido vulgarmente, com alguma saudade. Fomos condiscípulos nos distantes anos da juventude e sempre tivemos uma amizade discreta e singular. E era um companheiro diferente. Calmo, amável, tratando os companheiros com uma certa fraternidade, o que nem em todos acontecia. Distinguia-se por isso, o que o levou a exercer uma parte da sua vida sacerdotal no estabelecimento onde se formara e, mais tarde, em Ponta Delgada, donde transitou para Reitor do Santuário.
Em Ponta Delgada, encontrámo-nos, quase regularmente, quando ele passou a exercer as suas funções no Santuário. Era num café próximo da Igreja da Esperança que passávamos alguns momentos. Recordávamos um passado distante, quando ali íamos, depois do almoço, tomar a habitual “bica”. Um dia, ele perguntou-me se conhecia o tesouro de Santo Cristo. Naturalmente que a minha resposta foi negativa. Ficou combinado que, no dia seguinte, iria até ao Santuário. E assim aconteceu.
Uma Irmã, creio que a responsável pela guarda do sumptuoso Tesouro, havia exposto num mesão, que se encontrava no recinto, todas as jóias - ex-votos – oferecidas a Santo Cristo, em cumprimento de promessas por favores alcançados. E ali estavam, e concerteza estarão, desde as alianças de casamento até aos vasos sagrados do maior valor e riqueza material. Nas paredes as capas que a Veneranda Imagem usa e que são igualmente resultado de promessas feitas em horas de angústia e sofrimento. E várias são, algumas de notável riqueza.
Levou-me ao escritório e aí mostrou-me a correspondência que, diariamente, recebia de todo o mundo de devotos de Santo Cristo, à qual dava resposta, obrigando-o a um trabalho diário de algumas horas.
Fiquei, naturalmente, encantado. Mais nada poderei acrescentar. Não é fácil descrever o que se encontra naquele “tesouro”, único nestas ilhas, apesar de ser de muito valor o tesouro da Sé e os de algumas igrejas paroquiais açorianas.
Mons. Jacinto Almeida morreu cedo. A sua vida operosa podia prolongar-se por muitos anos mais. O Senhor quis, porém, levá-lo a gozar o prémio das suas virtudes e benemerências. Ficou a ser recordada pelos admiradores a sua vida de autêntico asceta. E muitos, concerteza, dele ainda se recordam.
Quando superior do Seminário – Prefeito, professor e por fim Reitor – procurava conduzir os alunos com humanidade o que nem outros colegas eram capazes de praticar. Por vezes austero, mas sempre dedicado e compreensivo. Disso alguns deram-me testemunho.
Na vida social era um homem simples, nada arrogante, incapaz de ofender quem quer que fosse. Estimava e respeitava o semelhante como poucos o faziam. Creio que a cidade toda, que o conhecia, o respeitava.
Não vivia em Ponta Delgada mas pelo que notava, quando por lá passava, ficou-me sempre o respeito cortês e amável que os micaelenses tributavam ao Mons. Cónego Jacinto, e uma grande estima pelo humilde sacerdote.
Ponta Delgada perdeu um grande Homem e um Sacerdote dedicado, simples e humilde mas com uma grandeza de alma tal que a todos estimava e por todos se repartia.
Como acima digo, foi dos poucos colegas que me ficaram na memória e na recordação saudosa de uma amizade simples mas humana e cristã, que não mais esquecerei.
Deixo, pois, estas modestas palavras, à memória de Monsenhor Cónego Jacinto da Costa Almeida, com a gratidão pela amizade que sempre me dispensou.

Lajes do Pico
22 de Abril de 2013
Ermelindo Ávila

segunda-feira, 29 de abril de 2013

OS JOGOS


NOTAS DO MEU CANTINHO


São diversos os significados que os dicionários nos apresentam da palavra jogo. Desde o divertimento à exploração em benefício próprio, o jogo tudo acoberta.
Mas fico-me pela “prática de divertimento, em geral com outrem”. Recordo, assim, os jogos da infância e juventude, que poucos eram mas que bastavam para entreter a mocidade desse tempo distante e que hoje recordo com alguma saudade.
Lembro o jogo da baleia, aqui “inventado” e praticado com grande entusiasmo: duas canas presas nas extremidades e afastadas a meio por um pequeno troço do mesmo material e aí estava uma “canoa”, conduzida por um “marinheiro”ao centro a levar a “embarcação”. Um “oficial” à popa, com o “remo de esparrela” e o “trancador” à frente, com uma pequena cana, presa a um cordel a servir de arpão. As baleias eram várias, quantos os que entravam na brincadeira. Não havia trânsito automóvel e o grupo podia andar pelas ruas da vila, à vontade, em correria, que ninguém o impedia. Na época da Páscoa havia o pião, jogado por miúdos e graúdos. Estes com grande entusiasmo, utilizando piões com cerca de oito a dez centímetros de altura. E para eles, também, os bilros e a “rachinha” ou os jogos de cartas, principalmente, aos serões ou nas tardes invernosas. E qualquer local servia, até mesmo os baixos de uma “casa de atafona”...
Para os miúdos, no Inverno, era o jogo de “apanhar”, a “barra” e o jogo de “esconder”. Para o jogo de esconder e para os mais afoitos, o local preferido era a Matriz em construção e cujas obras estavam suspensas há anos.
Não se conhecia o Futebol que só aqui apareceu em 1922, nem o voleibol, que veio para os Açores alguns anos depois. Do continente chegou à ilha Terceira e desta ilha ao Pico, desenvolvendo-se com certo entusiasmo na Terra do Pão. Um dos jogadores, deslocando-se para o continente a continuar estudos, o Dr. José de Brum, depois de formado, se bem me recordo, foi selecionador nacional.
Hoje não há os jogos de rua... O trânsito intenso não os permite. Prendem a atenção das pessoas os jogos de futebol que a Televisão apresenta e que, em todo o mundo, têm assistência de muitos milhares ou mesmo milhões de adeptos.
Mas eu quero somente recordar, com natural saudade, os jogos da infância, aqueles que eram conhecidos e que se praticavam com grande entusiasmo, principalmente, o jogo do pião. Havia quem vertesse lágrimas quando perdia e o vencedor picava o pião vencido com grandes ferroadas. Um desgosto tremendo pois o pião era, normalmente, uma peça artística, fabricada pelos carpinteiros que tinham torno e os faziam com muito cuidado. Guardavam-se de ano para ano e utilizavam-se, para os movimentar, fios de pesca que alguns emigrantes retornados traziam dos Estados Unidos e que as esposas lá iam fornecendo aos miúdos vizinhos. Eram as chamadas “fieiras”.
Foi também dos Estados Unidos que cá chegou o jogo do bilro. Para isso houve que proceder à limpeza de junco e entulho do largo que fica em frente à Rua Dom João Paulino (Rua Nova).
Aí se iniciou, a seguir, o futebol, utilizando uma bola trazida da Horta, onde esta modalidade de jogo já era praticada há anos, principalmente, pelos funcionários das companhias estrangeiras dos cabos submarinos que estavam instaladas naquela cidade. Dado o grande entusiasmo que o futebol despertou, procedeu-se à limpeza do “Juncal”, e aí ficou o campo de jogos durante umas dezenas de anos.
Já não se praticam, como disse, os jogos de rua. Praticamente, ficou-se pelo futebol. E o Lajense, este ano, está a dar boa conta de si. Folgo com isso pois não esqueço que do velho Clube Desportivo Lajense sou o sócio mais antigo, desde a sua fundação.

Lajes do Pico,
12 de Abril de 2013
Ermelindo Ávila

sábado, 20 de abril de 2013

TEMPESTADES MARÍTIMAS


NOTAS DO MEU CANTINHO

E não apenas. Estavam na mente de todos os picoenses as erupções vulcânicas de 1718 e 1720, quando, em 1725, um ciclone marítimo assolou a Vila das Lajes. Assim o descreve Silveira de Macedo: O ano de 1725 foi memorável para os habitantes da villa das Lages do Pico por uma tempestade marítima que lhes inundou a villa causando muitos estragos nos dias 14 a 20 de abril, por cujo motivo fizeram aquelles povos um solene voto ao Bom Jesus das preces (cuja imagem tem em muita devoção) o qual ainda hoje (1871) cumprem no dia 25 de março (deve referir-se a 19 de Abril). (1)
Referenciando a Imagem do Bom Jesus das Preces, diz ainda, em nota de roda-pé: Consta que esta Imagem fora também arrojada pelo mar à praia daquella villa pelo mesmo tempo que fora a outra simelhante à Praia do Almoxarife na ilha do Fayal o que faz julgar terem ambas a mesma procedência. (2)
Segundo a tradição, o mesmo aconteceu com a imagem que se venera na igreja paroquial de Santa Cruz das Ribeiras.
Realmente, a vila das Lajes passou a ser invadida pelo mar, quando tempestuoso, porque lhe foram retirando, ao longo do tempo, os calhaus que circundavam a costa, para as construções urbanas e outras que se foram construindo ao longo dos tempos.
Ficou registado na memória dos picoenses o ciclone de 31 de Agosto de 1893, que provocou grandes estragos e destruíu as culturas da ilha, provocando a fome em muitos lares. Valeu nessa altura a benemerência de muitas pessoas estranhas, entre elas D. Rosa Dabney, residente na Horta, que importou grandes quantidades de milho dos Estados Unidos e o fez distribuir pelas populações famintas.
Já em nossos dias foi bastante violento o ciclone de 9 de Agosto de 1935(?), que destruiu a muralha de defesa que circundava a Lagoa, levando o Governo de então a construir a excelente muralha em basalto trabalhado, o que veio dar maior segurança àquela zona. Mas o resto da Vila ficou aberto às tempestades cíclicas que no Inverno acontecem com frequência, e que causam muitas preocupações e angústias. Os lajenses nunca deixaram de reclamar uma maior segurança para seus bens e haveres, especialmente as habitações fronteiriças ao mar.
De tanto reclamar resultou, a meados do século passado, a construção de quatro “quebra-mares” a meio do chamado Juncal, que, afinal, nenhum efeito deram. O mar, quando bravo, umas das vezes “veio cá acima”, como diz o povo, e andou a “bailar” com os molhes. Valeu a decisiva visão do Ministro Arantes e Oliveira que ordenou o alteamento do muro de defesa que havia sido construído em 1914.
Antes da Câmara Municipal abrir o ramal de saída pelo Sul e, conjuntamente, a muralha que rodeia actualmente a lagoa da Maré, o mar invadia com frequência aquela parte da Vila, chegando, por vezes, quase ao Largo Gen. Lacerda Machado.
Consta mesmo que a antiga igreja Matriz, construída por volta de 1506, e que ocupava o local onde se encontra a actual, ficou muito danificada pelas várias invasões de mar, chegando, não raro, a deixar peixes em cima dos altares. (A minha avó assim m’o dizia).
Agora chegou o embelezamento ou urbanização da zona Oeste da Vila, que deixou de ser utilizada, depois do campo de jogos ter sido transferido para Santa Catarina. Esperamos que o mar não volte a fazer das suas proezas, invadindo de novo a parte baixa da Vila.
Aquando do ciclone de 1935, atrás referido, que destruiu a muralha e algumas casas do Portinho, Ribeira do Meio, a Imagem do Senhor Jesus das Preces, saiu em procissão de penitência pelas ruas da vila, trazida pelo Vigário e Ouvidor de então, Pe. José Vieira Soares, de saudosa memória, a implorar a clemência divina. E durante muitos anos, até cerca de 1960, fazia-se a secular procissão das Preces, no dia 19 de Abril. Acabou quando num certo ano não houve quem conduzisse o andor. Hoje a veneranda Imagem encontra-se no altar principal da Matriz.

Lajes do Pico,
Abril de 2013
Ermelindo Ávila


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  1. Macedo, António L. Silveira de – “História das Quatro Ilhas q. Formam o Distrito da Horta” -1871, pág.219.
  2. Ibidem, 220