quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Recordando Angra dos anos 20 (2)


NOTAS DO MEU CANTINHO
Estou novamente na cidade de Angra para recordar os tempos de menino e moço, mal entrado na adolescência, a viver num grupo de moços de várias idades, saídos dos mais diversos meios e, por vezes, com incorrectos tratos de civilidade. Talvez por isso um dos compêndios que mandaram adquirir para a respectiva aula, intitulava-se simplesmente EDUCAÇÃO. Mas deixo esse recordar algo saudoso para trás, porque outras vivências há que aqui trazer.
Angra tinha, ao tempo, três estabelecimentos de ensino secundário: o Liceu Jerónimo Emiliano de Andrade, a Escola Comercial e Industrial Madeira Pinto e o Seminário Episcopal, frequentados por umas centenas de alunos. Isso bastava para dar à cidade um movimento álacre e jovial. Os estudantes do liceu, principalmente, paravam pelo Jardim Público que ficava um pouco abaixo do Liceu, então instalado no antigo convento de São Francisco, ocupando as salas do antigo Seminário. Este, depois de alguns anos andar a funcionar, clandestinamente, em casas particulares com aulas nas residências dos respectivos professores, havia adquirido o palácio do Barão do Ramalho, onde passaram a funcionar as aulas, salas de estudo e refeitório.
Os dormitórios eram fora: numa casa do Pátio do Conde, em Santa Luzia, no segundo andar da casa das Senhoras Menezes (hoje casa das obras católicas) e na sala onde, actualmente, se encontra instalado o Tesouro da Sé. Já então existia um novo edifício na rua do Rego, que servia de dormitório para um grupo de internos. Era a “Camarata do Dr. Couto”, pois foi esse Senhor, quando vice-reitor, que teve a iniciativa da sua construção. Mas era ver dois grupos de      alunos, diariamente, seguir pela rua da Esperança, atravessar a rua da Sé e dirigirem-se aos respectivos dormitórios ou deles sair todos os dias às 5,30H da manhã. Aos domingos, porque havia cinema no Teatro Angrense, o percurso à noite era alterado: descia-se a rua do Marquês até à rua da Sé e por ela se seguia, espreitando as montras iluminadas dos estabelecimentos comerciais, o que não deixava de ser agradável e até uma variante à rotina da semana.
E já que trouxe, aqui, o Seminário - que no presente ano comemora cento e cinquenta anos de existência, há que lembrar que os alunos só saíam três vezes por semana a passeio, depois do jantar – actualmente seria o almoço. O rapazio e até as meninas às janelas, quando viam os alunos do seminário, gritavam: Olha os estorninhos! Amanhã temos chuva! Naturalmente, que eram outros tempos. Hoje seria diferente, até porque os hábitos talares desapareceram e, os poucos alunos do Seminário, nem andam em filas como meninas colegiais.
Como instituto de ensino secundário e superior, o Seminário foi modelar. Um elenco de professores, a quase totalidade formada na Universidade Gregoriana, em Roma, constituía o corpo docente, proporcionando à generalidade dos alunos uma elevada formação cultural. Verdadeira Universidade, pode afirmar-se.
           Atrás, fiz alusão à casa do Pátio do Conde. No final do ano lectivo e, em certo ano, aí por 1928, realizou-se uma tourada à corda em S. João de Deus. Creio que é tradicional. O touro, naturalmente, passava no Pátio do Conde. Um grupo de seminaristas resolveu ir ver a tourada, coisa desconhecida para alguns. Empoleiraram-se num dos dragoeiros que lá existia. (Devem ter desaparecido com a construção do Posto Meteorológico.) Quando o bicho ia a passar a árvore, de fraca resistência, cedeu com o peso. Resultado: Contusões e braços desmentidos. E o pior é que os exames escolares estavam à porta…
          Na cidade, havia um grupo de indivíduos, alguns ainda adolescentes, a fazer vendas de artigos dos mais variados géneros: amendoins, milho torrado, alfenins, cajadinhas, e outros mais. Alguns, não por conta própria mas de outrem… No entanto, tornou-se uma figura carismática o “Tio quentinho” pois percorria o centro da cidade apregoando:”Ó quintinho, torradinho!”. E não faltavam os engraxadores na Praça Velha e até o João dos Ovos, sempre de marrafa e trazendo o balde de lavagens, pois era o seu serviço diário… Mas dessas figuras típicas melhor nos fala Augusto Gomes no seu excelente trabalho “Filósofos da rua”
               E de Angra quanto mais haveria para dizer! Fica para depois…

*Como acima se diz, o Seminário de Angra celebra, no corrente ano, um século e meio de existência. Presto homenagem aos professores que nele serviram e que o tornaram num autêntico estabelecimento de ensino superior.

Engrade, 8 / 9/2012    

Ermelindo Ávila


segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Recordando Angra dos anos 20 (1)


NOTAS DO MEU CANTINHO

Estou longe do meu cantinho a recordar um passado distante, na pequena casa onde me alberguei estes dias de um verão ameno. O céu está límpido e o sol brilhante. Na minha frente as ilhas de São Jorge e da Terceira que se vêem distintamente.
Lembro-me de Angra, oitenta anos passados. Uma cidade calma e de vivência pacata. Quase não existia movimento interno a não ser nos dias de “São Vapor” – o “Lima” a meio do mês e o “São Miguel” (depois o “Carvalho Araújo”) no final do mês, na vinda de Lisboa e no regresso das “Ilhas de Baixo”, como eram designadas as restantes ilhas dos grupos Central e Ocidental, se bem que as Flores só eram visitadas no final do mês e o Corvo quatro vezes no ano.
Recordo-me da chegada a Angra do primeiro automóvel – uma baratinha, como diziam que, em certa ocasião, subindo a ladeira da Miragaia (para Santa Luzia) caiu num valado da empinada ladeira…
Uma moto, de escape aberto, todos os dias descia a rua da Sé vinda de S. Pedro, com o seu proprietário, comerciante de fazendas, com estabelecimento na Praça Velha. De resto os transportes eram feitos em carros de bestas, em charabans e coches, alguns com certo luxo, que ao domingo levavam as respectivas donas à Missa da Sé. Ficavam os veículos - coches luxuosos, normalmente puxados por fugosos cavalos, no adro da Sé aguardando que a dama cumprisse o preceito dominical. Os pobres animais não paravam a espantar os mosquedo que os atormentavam.
No cais eram os carros de um só boi, que durante o dia recebiam as mercadorias vindas de Lisboa e, no seu andar vagaroso e compassado, as conduziam aos estabelecimentos comerciais: José Júlio da Rocha Abreu, Basílio Simões e Irmãos e outros, depois de passarem pelo piquete da Alfandega, pois, enquanto estiveram em vigor as “barreiras alfandegárias” toda a mercadoria era sujeita ao pagamento de impostos, uma parte dos quais destinada às Câmaras Municipais que, neles, tinham as suas principais receitas. A cidade tinha boas indústrias e comércio.
Todavia, passados os dias de vapor, o movimento da cidade só se verificava quando havia tourada à corda, raramente de praça, em alguma “freguesia do campo”. Em certas touradas a cidade quase se despovoava.
Nos restantes dias eram os passeios ao Monte Brasil, à Memória, ao Cais da Alfandega ou ao Jardim Público, aliás, um excelente recinto arborizado e florido, onde apetecia estar durante as tardes de Primavera e Verão. À noite valia o Pátio da Alfandega, transformado em esplanada do Café Atlântico, que ficava superlotado.
Na realidade os habitantes citadinos quase não sentiam o isolamento. Tinham uma vida própria e uma convivência amistosa. Na sociedade principal era no Clube Musical Angrense que se reunia a velha aristocracia, que ainda existia, mas suas principais festas realizavam-se pelo Carnaval. Outras mais existiam como a Recreio, a Fanfarra, a Confederação Operária, e ainda outras que agora não recordo.
Angra possuía um escol de personalidades distintas. E só lembro o Dr. Luís Ribeiro, o Dr. Henrique Brás, o Dr. Henrique Flores e o Dr. Manuel de Sousa Menezes, o Dr. Manuel Almada, o Dr. Moniz Bettencourt, o Dr. Cardoso do Couto e o Dr. Garcia da Rosa, para só estes lembrar. Mas muitos havia a exercer as suas actividades liberais, comerciais e industriais.
O Teatro Angrense só exibia filmes mudos ao domingo. Por esses anos apareceu o filme sonoro “A Severa”, que constituiu um sucesso.
Notável era a Orquestra Henrique Vieira, como constituía um sucesso o Orfeão de Angra, do Pe. José de Ávila, sempre que se exibia em público.
A Livraria Editora Andrade era, nos Açores, um caso especial. Os poucos escritores açorianos a ela recorriam para a publicação dos seus trabalhos. Alguns, em número mais limitado, também utilizavam os serviços de “A União”.
Em chegando o mês de Maio esperava-se que chegassem os barcos do Pico nas suas viagens semanais, com notícias, passageiros e mercadorias – lenhas e vinhos e, mais no verão, ameixas e outras frutas. De início era a “Calheta”, uma lancha a motor que todas as semanas viajava do Faial, passando no Pico e São Jorge, para chegar a Angra, ao fim da tarde. E que agradável era vê-la costear o Monte Brasil, entrar na ampla baía para vir acostar ao cais da Alfândega, onde era aguardada por numerosos picoenses e jorgenses que em Angra residiam.
Sentado à sombra da pequena varanda, olhando o horizonte e descobrindo para Leste a Terceira distante, vivi os tempos da juventude que não volta, passados na Cidade (era assim que, para os picoenses da Ponta da Ilha, era conhecida Angra). Demais, hoje a cidade de Angra é tão diferente!
Engrade, 6-Setº-2012
Ermelindo Ávila


domingo, 2 de setembro de 2012

SETEMBRO, O MÊS DAS VINDIMAS



          Está a terminar o mês de Agosto e somos chegados ao mês de Setembro.  Em poucos dias entramos no  Outono. Outrora era o mês das vindimas  e das colheitas. Uma azafama que ocupava todas as famílias na  recolha das uvas e dos cereais que, se eram abundantes, garantiam o sustento de toda a família durante o ano e, por vezes, servia de moeda de troca para a aquisição de géneros nos comércios e não só.
          A Ilha do Pico vivia em Setembro o mês mais trabalhoso do ano. Antes havia a preparação das adegas: o lagar vigiado para não vazar o mosto, o recolher das uvas, a escolha, o pisar, o recolher o néctar precioso nos balseiros, o estar atento à fermentação.
          Nos campos de semeadura era a desfolhada, o descascar, secar e debulhar e a recolha nas “vasilhas”, inicialmente de madeira e mais tarde de zinco, os chamados latões ou depósitos de milho. Não se fazem “burras” como em outras ilhas pois, naturalmente o  clima húmido não permitia deixar a maçaroca em casca ao ar livre. “Cada terra com seu uso”, diz o adágio popular.
          Em anos ou mesmo séculos passados o vinho de verdelho era a grande produção e riqueza da ilha. Vários Historiadores se referem a esse néctar precioso que, embarcado para  a Europa, principalmente, era rei nas mesas dos czares russos.
      “No ano de 1658 houve tanto vinho no Pico e em S. Jorge que se “averiguou que deu a Ilha do Pico quase quarenta mil pipas e se houvesse aproveitado toda a novidade o que se não fez por falta de piparias, excederia com vantagem. Veio esta abundância suprir as faltas de 1662 e 1663 em que para as celebrações de missas vinha do Faial.” (In “Fénix Angranse,2º V. P.368)-
          Em “Notas Faialenses” (Arqº dos Açores, V.VII, pág 65  ) escreve Ernesto Rebello (1842-1890): “Dizem que foi um padre, Fr. Pedro Gigante, que há muitos anos introduziu, nos terrenos mais próprios da semelhante cultura, alguns bacelos de vinha proveniente da ilha Madeira. – Este padre foi, efectivamente, um gigante do nome e na ideia, um filósofo às direitas. Viu que ilha do Pico era extensíssima, ainda pouco povoada e todos os casais dispersos à beira mar; quis secundar a poderosa acção química dos mariscos sobre a organização humana, aumentar o nervosismo, o amor dum para outro sexo, via já formigar crianças por toda a parte, mas ainda achava que o crescite et multiplicamine da Escritura não estava bem realizado, queria, desconhecia a necessidade de mais gente na nova ilha e disse de si para si: Se aqui houvesse bastante vinho, mas bem, dum certo que eu conheço, daquele que dá força e vida, realizava-se o milagre”. Desculpa-se o devaneio filosófico, pela  palavra de incentivo à cultura que foi a riqueza da ilha.
          Informa o autor citado, no seu extenso trabalho sobre as uvas  do Pico  que “Dotar uma ilha com a produção anual de 12 a 15 mil pipas de excelente vinho, dando uma receita aproximadamente de 300:000$000 de rs. não é um facto que deva passar desapercebido”. No tempo em que escreveu as Notas, a Ilha do Pico tinha 27 mil habitantes. O concelho mais populoso era o das Lajes com 10.658 habitantes e a vila das Lajes com 3.215 h.     
No seu erudito trabalho acrescenta E.R.: Em quanto às castas de uva, temos: Verdelho, Verdelho Silvestre, Boal, Bastardo, Dedo de Demo, Terrantês, Alicante, Moscatel, Uva tinta, Gallega, Isabel – Casta americana, recentemente (1870 ?) importada, bago grande, cor preta, um só bagulho, casca grossa, doce e fresca, produz abundantemente...substituindo talvez o antigo Verdelho.”
          E a concluir diz o autor citado: Mais algumas diversidades de uva existem na ilha do Pico, tais como o Moscatel de Jesus – Diagalves – Uva do Monte – Ferral, etc. Mas isto mais por curiosidade do que propriamente para produção, como mais abundosas, eram essas diversidades antes da moléstia, em que os agricultores a par do lucrativo e geral Verdelho, gostavam de apresentar outras espécies, quase sempre para mesa.
        Hoje, as vindimas são poucas e as adegas passaram a ser vivendas de verão dos respectivos proprietários.
       

Ermelindo Ávila

segunda-feira, 20 de agosto de 2012

O CULTO DA VIRGEM DE LOURDES


Notas do meu cantinho

O estabelecimento do culto de Nossa Senhora de Lourdes na vila das Lajes era da máxima oportunidade. Apesar dos perseverantes esforço de seus párocos, notava-se há muito, no espírito religioso da população, um marasmo desolador bem patenteado no definhamento das associações de piedade, na pobreza das igrejas, no abandono dumas e desabamento doutros.
Isto escreveu Dom João Paulino no “Peregrino de Lourdes” de 6 de Julho de 1889. Todavia, importa referir que, antes que se desse o acontecimento que Mons. António Maria Ferreira, narra no seu livro “Perfumes de Lourdes”(1892), já os lajenses tinham uma devoção especial pela Virgem aparecida em Lourdes à Vidente, hoje Santa Bernardete.
Em 1882, uma tremenda tempestade se levantou impedindo que os botes baleeiros que haviam partido de manhã para mais uma caçada à baleia, se vissem impedidos de entrar no porto. O povo reunido junto ao porto, vivia momentos de grande aflição. “Nos momentos de maior angústia aparece ali um filho da localidade que era considerado por todos como tendo sido objecto de uma insigne graça de Nossa Senhora de Lourdes (...) que de envolta com os gritos de angústias que continuo irrompiam de todos os peitos eram repetidamente ouvidas de diferentes pontos da multidão as exclamações:- Nossa Senhora de Lourdes livrai-os do perigo – Nossa Senhora de Lourdes salvai-os!”- “O facto é que a tempestade serenou, as embarcações entraram, a salvo no porto e da tripulação ninguém sofreu o menor dano.” (1)
E o Autor , ao iniciar a narração da devoção à Virgem de Lourdes nas Lajes do Pico, diz: “Foi também o primeiro lugar dos Açores onde Nossa Senhora de Lourdes começou a ser publicamente invocada...”(1) Conclui-se, facilmente, que a Devoção à Virgem aparecida em 11 de Fevereiro de 1858 – cerca de vinte e cinco anos haviam decorrido – estava já enraizada na alma dos lajenses, se bem que um quarto de século houvesse decorrido sobre o faustoso acontecimento, que foram as Aparições da Virgem na Gruta de Massabielle. Demais, é o próprio Mons. Ferreira que informa: “A esse tempo (1882) já alguns devotos tinham tido o feliz pensamento de removerem uma subscrição para a aquisição de uma imagem de Nª Senhora de Lourdes, destinada à matriz daquela vila.“(1) A subscrição realizou-se, imediatamente, após os acontecimentos do porto, em 1882. E é D. João Paulino que nos dá a lista dos subscritores: Pe. António Ribeiro Homem da Costa (vigário da Matriz), Pe. Manuel d´Ávila Leal Ferreira, P. João Pereira da Terra, P. Francisco Xavier de Azevedo e Castro (todos curas da Matriz), Pe. João Paulino de Azevedo e Castro (reitor do Seminário de Angra), Manuel Paulino da Silveira Bettencourt, D. Maria Angélica de Azevedo Bettencourt, António Homem da Costa, José de Faria, António Rodrigues, António da Rosa Vieira, Manuel Pereira de Macedo, Manuel Vieira Rodrigues, José de Brum Bettencourt, Francisco Vieira da Rosa, João Filipe, Tomás Garcia, Manuel Silveira Carvão, António Xavier da Silveira Bettencourt, Manuel Joaquim Machado, Manuel Cardoso Machado Bettencourt, D. Laureana de Azevedo Castro Neves, a empresa baleeira de que é director Amaro Adrião de Azevedo e Castro e Dr. João Soares de Lacerda.
A Imagem chegou às Lajes em 4 de Setembro de 1883 e a primeira festa teve lugar no final desse mês, para nos anos seguintes se realizar no último domingo de Agosto, e está enriquecida com indulgências plenária e parciais, concedidas no ano de 1884 pelo Papa Leão XIII.
A festa continua com o mesmo programa de 1883: Novenário solene, Missa de comunhão geral e Missa Solene e Procissão a percorrer as ruas principais da Vila com paragem na Pesqueira, onde os baleeiros postavam as respectivas canoas de velas alçadas e lhe prestavam, e prestam ainda, suas homenagens.
No sábado havia arraial nocturno, com concertos pelas filarmónicas, normalmente vinha uma do Faial, e iluminação chinesa e fogo preso. Actualmente, é um pouco diferente a parte externa que evoluiu com o rodar dos tempos. Mantêm-se as solenidades litúrgicas, com o mesmo esquema de 1883 ( há 130 anos), e nessas nada há a alterar. Os povos, de perto e de longe, que não apenas os paroquianos lajenses, respeitam e vivem, sentidamente, estes dez dias de culto sincero e místico, dedicados à Virgem de Lourdes, padroeira dos lajenses, dos baleeiros e de quantos à Senhora recorrem!

_______
1) Ferreira, António Maria, Perfumes de Lourdes, 1892.

Vila das Lajes,
16 de Agosto de 2012
Ermelindo Ávila
(Escrito de harmonia com o antigo acordo ortográfico.)  

quinta-feira, 2 de agosto de 2012

BALEIA ! BALEIA !



        Era o grito que mais se ouvia nos meses de Julho e Agosto de há cinquenta anos atrás e muitos mais. Em aparecendo o sinal na vigia, um foguete e uma pequena bandeira, preta ou branca ou preta e branca, sinal de baleia à vista, botes fora, ou botes fora e baleia à vista, um código que toda a gente conhecia, de tão antigo que era, E até o papagaio do Tomé, imitando a voz da mulher, gritava: Baleia, Tomé!

Toda a gente corria para as imediações do porto, mesmo aqueles que se encontravam nas terras altas a trabalhar e que, em vez de aproveitarem os caminhos e canadas, saltavam muros e paredes divisórias, por mais perto, para chegarem a tempo ao seu, que já se encontrava na rampa de varagem, trazido da “casa dos botes” para que não demorasse a arriada.
         Completa a tripulação – oficial, trancador e cinco remadores, todos eles ocupando lugares certos no bote, lá seguiam caneiro fora, alguns deles recebendo aí as sacas ou cestas com a comida que as mulheres ou filhas haviam trazido de casa, também em corrida louca.
Inicialmente, não havia lanchas de reboque. Elas apareceram mais tarde, na década de vinte do século passado. A “Margarida”, destinada a recreio e as “Lourdes” e “Hermínia”, a cabotagem e que passaram a auxiliar na baleação.
Só em 1929 apareceu a “Zélia”. A propósito lê-se em “O Dever” (18-05-1929): No dia 21 de Abril foi lançada à água uma linda lancha com motor de grande força, destinada à pesca da baleia. Foi construída nesta Vila pelos habilíssimos artistas Manuel, Joaquim e António Francisco Machado, filhos do falecido artista Francisco José Machado.”
Mas voltemos à arreada: As lanchas de reboque tinham sido, entretanto, ocupadas pela tripulação respectiva: mestre, maquinista e marinheiro, e já aguardavam, a maioria das vezes, fora da carreira, os seus botes para os levar à zona onde haviam sido vistas as baleias, normalmente para os lados da Ponta da Ilha, guiadas pelos Vigias que, com um pano brando estendido na relva e uma fogueira, lhes davam a direcção certa da baleia ou do cardume, ou mesmo dos botes dos outros portos: Santa Cruz ou Calheta. E refiro-me ao tempo em que ainda não existiam os rádios que passaram a permitir a comunicação entre o Vigia e o Mestre da Lancha de reboque.
Foi a 15 de Agosto de 1948, quando a Silveira celebrava a Festa da Mãe de Deus.
A inauguração das comunicações radiofónicas , uma novidade para a época, levara à vigia da “Terra da Forca” imensas pessoas, interessadas em acompanhar as manobras da baleação.
Foi uma horrível decepção e uma angústia tremenda quando o Mestre da lancha comunicou ao Vigia que o Francisco Pereira Machado desaparecera levado pela linha do arpão que trancara uma baleia.
Mais tarde comunica o Mestre que a baleia acabara de ser trancada por outra canoa e, recolhendo a linha que ela arrastava, no final vinha o corpo do infeliz baleeiro.
Uma tragédia como algumas outras que aconteceram durante a actividade baleeira, que, apesar de se ter deixado de balear nestas ilhas, ainda se recordam com um misto de pesar.
Todavia, a actividade baleeira não parou. Infelizmente, já outros desastres mortais haviam acontecido. Uma actividade arriscada, praticada com certo heroísmo, e que teve um contributo notável na economia desta terra.

Vila das Lajes,
27-07-2012
Ermelindo Ávila

(Escrito de acordo com a ortografia antiga.)

CENTROS DE CULTO DO BOM JESUS


Notas do meu cantinho

As devoções à Segunda Pessoa da Santíssima Trindade, tal como a da Terceira Pessoa – o Divino Espírito Santo – são muito antigas nestas ilhas. Chegou, naturalmente, com os que estas ilhas vieram povoar. E tudo trouxeram: a devoção que alimentavam nas almas crentes, e até o pároco que as dirigia e confortava. Construíram para eles a primeira igreja a que deram o nome do Santo onomástico do seu pároco ou capelão. Todavia deve realçar-se que a primeira paróquia da Ilha foi dedicada à Santíssima Trindade, título que conserva ao longo destes cinco séculos
O Brasil foi descoberto depois de, nestas ilhas, ter sido iniciado o povoamento. Quando isso aconteceu, com certeza, alguns daqui partiram para o novo mundo. Uma sina dos portugueses que, tendo um rectângulo bastante limitado, no extremo oeste da Europa, andou à procura de novos mundos. A Professora Maria Cecília França, do Instituto de culto da Universidade de São Paulo, dedicou a sua tese de doutoramento aos “Pequenos Centros Paulistas de Função Religiosa”. Referindo-se à cidade de Iguape, escreve: “Iguape foi, sem dúvida alguma, o centro original de irradiação desse culto. A imagem do Bom Jesus, que é hoje objecto da devoção dos peregrinos que para ali afluem vindos de tão longe, foi descoberta em 1647. De todas as cidades que no Brasil se constituem em centros de peregrinação religiosa expressivos, Iguape é a que possui a imagem mais antiga. Além disso, Iguape é anterior, mais de um século, à data de descoberta do Santo, e como tal participou de todo o processo povoador difundido a partir de São Vicente e do planalto paulista.” (pág.45) 
Como se verifica a imagem do Bom Jesus, objecto da devoção dos peregrinos, foi descoberta em 1647. E descoberta naquele ano, naturalmente, porque já existira, anteriormente. 
O culto do Bom Jesus de Iguape irradiou por todo o Estado de S. Paulo e chegou ao Estado de Santa Catarina onde se veio a fixar o grupo de quarenta casais picoenses, depois dos sismos ocorridos na Ilha do Pico em 1718 e 1720. 
Curiosamente, a festa anual tem lugar, nos diversos Centros do Brasil, como na Ilha do Pico, no dia 6 de Agosto.
A devoção ao Bom Jesus de Braga é também bastante antiga. No entanto, a Doutora França diz: ”Não temos conhecimento do culto à imagem do Ecce Homo em Portugal mas sabemos que é essa a representação mais difundida do Bom Jesus no arquipélago dos Açores e que a sua introdução foi ali feita na ilha de S. Miguel. É verdade que a imagem do Ecce Homo nos Açores não é exactamente a imagem do Brasil, com excepção daquela que é cultuada na Freguesia de S. Mateus, na ilha do Pico. O Ecce Homo açoriano é mais comummente representado pelo tronco, daí derivando a cognominação que lhe é dada em Santa Catarina. (…) No Brasil a imagem é de corpo inteiro. Frequentemente o Cristo possui uma cana entre as mãos, o que justifica a denominação de Bom Jesus da Cana Verde (…)”(pág.67)
A imagem do Bom Jesus de S. Mateus, como é sabido, para ali trazida em 1862, pelo emigrante retornado Francisco Ferreira Goulart é, precisamente, a do Bom Jesus da Cana Verde, cópia fiel daquelas que se veneram no Brasil.
Veio de Iguape, onde idêntica Imagem do Bom Jesus da Cana Verde havia sido descoberta em 1647, como acima se refere. Aqui passou a ser venerada como Bom Jesus Milagroso, mercê das inúmeras graças alcançadas do Senhor.
Iguape é uma pequena cidade fundada em 1538. Foi elevada a vila entre 1600 e 1614. A Igreja Matriz foi iniciada nesse último ano. Porque era um centro importante do culto ao Bom Jesus, quando foi elevada a cidade em 1848 tomou o nome de Bom Jesus da Ribeira.
As imagens do Ecce Homo existentes na ilha do Pico (S. Mateus, em 1862, Calheta de Nesquim, em 1906, Criação Velha, em 1914) são cópia fiel da existente em Iguape, ao passo que as outras que se veneram nas diversas igrejas açorianas, a principiar pelo Santo Cristo de Ponta Delgada, são em busto. 
Num folheto publicado pela Paroquial de S. Mateus, de que era pároco o falecido Pe. António Filipe Madruga, pode ler-se na “Nota de Abertura”: “Em Agosto de 1962 o saudoso Sr. Pe. Joaquim Vieira da Rosa, o 1º Reitor deste Santuário do Senhor Bom Jesus Milagroso do Pico e pároco durante várias décadas na paróquia de São Mateus, quis assinalar de forma singular o 1º centenário deste extraordinário “Caminho de Luz” aberto às almas pela devoção a Cristo através da Imagem do Ecce Homo. E entre o muito mais que, longo seria enumerar, deixou como padrão imorredouro a elevação da paroquial de São Mateus a Santuário diocesano.“
Anteriormente, porém, existiam Imagens do Bom Jesus que eram e são a representação de Jesus Crucificado. 
Em 1731, o doutor Luís Homem da Costa entregou à confraria do Bom Jesus das Preces, erecta na Matriz das Lajes, uma relíquia do santo Lenho numa custódia de prata com um cristal lapidado, oferta da condessa do Rio Grande. Na Vila das Lajes, pelo mesmo tempo da que existe na Praia do Almoxarife, Faial, já se encontrava a Imagem do Bom Jesus das Preces. Segundo Silveira de Macedo, (História das quatro Ilhas, vol. I, pág 220), “consta que esta imagem foi arrojada pelo mar à Praia, o que faz crer terem (as duas) a mesma proveniência, ou seja que foram imagens lançadas ao rio na Inglaterra por ocasião da reforma protestante.” São imagens de grande devoção, invocadas principalmente em ocasiões de ciclones ou tempestades marítimas.
A Santa Cruz das Ribeiras também foi arrojada uma imagem idêntica, ali venerada hoje por Senhor Jesus. É o Padroeiro da Paróquia. Diz-se que foi encontrada sobre uma pedra – a Pedra do Senhor Jesus - que se encontrava no meio do porto e que, há anos, dali foi retirada e transferida para o jardim do passal.
Devemos referir que uma identidade de devoção se apresenta entre o Bom Jesus de Iguape e o Bom Jesus venerado em S. Mateus, cuja imagem, afinal, dali veio. Não menos de assinalar que a festividade do Ecce Homo, quer no Brasil quer no Pico tenha lugar a 6 de Agosto, dia em que a Igreja celebra  a Transfiguração do Senhor.
Vila das Lajes,
1º dia do Novenário de 2012
Ermelindo Ávila

sábado, 28 de julho de 2012

EMBELEZAMENTO DA VILA


 
          Vão caminhando regularmente os trabalhos de alargamento do muro de defesa da vila, junto ao antigo campo de jogos. Não são muitos os trabalhadores que a empresa empreiteira ali tem mas, mesmo assim, não vale a pena ficarmos na apreciação do caso, pois desconhecemos as clausulas contratuais estabelecidas entre o Município e o empreiteiro.
          Julgo que a obra tem garantida a ajuda financeira da Comunidade Europeia e, consequentemente, é para ir até ao fim.
          Com a execução daquela obra fica a parte marítima da vila um tanto embelezada. Mas importa promover um arranjo conveniente junto da escola primária, abrindo-se um pequeno arruamento da rua Família Xavier até à rua P. Xavier Madruga, o que virá a permitir a construção de alguns prédios urbanos, além de um conveniente traçado urbano. Pena é que fossem permitidas construções urbanas que agora impedem a ligação da rua do Saco e rua Nova (Rua D. João Paulino) com o actual largo Edmundo Machado Ávila.
          Mas a rua Direita (Capitão-Mór Garcia Gonçalves Madruga) também carece que sobre ela se lhe lance um “olhar de misericórdia. Alguns prédios estão em ruína total. E eles têm a sua história. Um deles é o prédio mais antigo da vila. No princípio do século XVIII já residia nele uma Família que só o deixou de habitar a meados do século passado. Consequentemente tem mais de trezentos anos. Pertence ao património histórico da vila e merece um tratamento condizente com a sua  ancestralidade.
          Um pouco a seguir encontram-se as ruínas, assim lhe pudemos chamar, da antiga “Pensão Velha”. Perdeu a torre e o tecto há poucos anos. O frontispício, ou alçado principal, ainda conserva um aspecto razoável.  Impõe-se o seu restauro. Julgo que a Câmara, utilizando os poderes que lhe confere (ia) a Lei, podia tomar as necessárias providências para acabar com aquela triste situação.     
Neste semanário foi publicado, em 10 de Maio do corrente ano o Edital n.º 30/2012, da Câmara Municipal deste concelho anunciando o “Concurso público para a alienação do imóvel globalmente identificado como a “Casa Mariquinhas Tomé”. As propostas dos possíveis interessados deveriam ser entregues no Município até ao dia 28 de Junho. Não sei nem procurei saber se houve ou não concorrentes. Se os houve, folgo com isso pois será uma das soluções para tão gritante problema urbano da Vila. Se os não houve, o assunto é de grande melindre e só a Câmara Municipal pode, e deve, encontrar  os meios necessários para que aquela monstruosidade se transforme num prédio elegante, útil e a servir  a vila com dignidade. Não deve ser demolido, mas restaurado. Foi construído nos finais do séculos XVIII, princípios do século XIX por João Pereira de Lacerda e, depois, adquirido por  José Joaquim Machado, pai da Maricas do Tomé (Tomé, do marido Tomé Vieira Alves), que já nela vivia em 1888.
          E tão “rica” de cantaria é que perdeu há anos o tecto, mas as paredes exteriores e os alçados interiores conservam-se inalteráveis. E para o Leste não lhe falta espaço para uma possível ampliação.
          Para alugar a casa restaurada não faltariam, com certeza, interessados.
          A antiga “Casa da Feliciana”, a meio da rua Machado Serpa, fazendo canto com a rua de Olivença, está em ruínas. O lado norte perdeu o tecto há poucos anos e a parede do Sul há muito que está em ruínas. Impõe-se o apeamento e o arranjo do espaço onde se encontra  um dos “Passos” que ainda existem na vila, utilizados durante a procissão anual do Senhor dos Passos.  Tal como na “Pensão Velha”, a Câmara também pode aqui usar dos meios legais para  exigir o melhoramento que se impõe.
          O taipal que “esconde” a “Casa da Maricas do Tomé”, não pode nem deve continuar. Demais, aquele taipal só embaraça o trânsito, permitindo o estabelecimento de veículos em “espinha”, uma situação incompreensível na época que decorre.         
          A vila merece outra dignidade. Não foi aqui que o Pico começou?

Vila das Lajes,
16-Julho-2912
Ermelindo Ávila
        

domingo, 22 de julho de 2012

Quando é homenageada a memória do Pe. António Cardoso ?




Há muito que trago em mente a figura do Pe. António Cardoso, antigo condiscípulo e pároco e ouvidor que foi da Matriz da Santíssima Trindade desta vila.
        Chegou o momento de quebrar o silêncio. E recordo-o aqui como acto de justiça que merece a sua memória.
        O Pe. António Cardoso era natural da freguesia da Criação Velha, onde nasceu a 7 de Julho de 1919. Desta ilha, mas criança passou a residir na Matriz da Horta, para onde mudou a residência e a família.
        Frequentou o Seminário de Angra e foi ordenado sacerdote em 16 de Junho de 1940. Celebrou a primeira Missa na Matriz da Horta e aí ficou de coadjutor de Mons. José Pereira da Silva até à nomeação para pároco da freguesia de S. Caetano, desta ilha.
        Em Junho de 1950 foi nomeado Pároco da Matriz das Lajes e ouvidor do concelho. Aqui vem encontrar as obras da nova Matriz paradas desde 1910.
“O Dever”, em ocasiões várias, mas principalmente depois da visita do Subsecretário das Obras Públicas, em Setembro de 1945, não mais deixa de chamar a atenção dos lajenses para a necessidade da conclusão das obras.
É reorganizada a Comissão dos Bens Culturais, constituída anos antes pelo falecido Pe. José Vieira Soares. E a obra recomeçou em 1954. O P. António Cardoso  não mais descansou.
        Em 28 Maio de 1967 (há 45 anos), era inaugurada a nova Matriz  e benzida pelo Bispo da Diocese D. Manuel Afonso de Carvalho. Foi sagrada pelo Bispo Dom Arquimínio Rodrigues da Costa, em 26 de Agosto de 1983. Era então pároco o Dr. António Rogério Gomes.
        Na Matriz das Lajes existe, desde 1882, a veneranda imagem de Nossa Senhora de Lourdes, de grande devoção não somente dos lajenses mas de uma boa parte dos picoenses e dos nossos conterrâneos da Diáspora. Foi por isso que, a quando da sagração, foi solicitada, ao Bispo diocesano a declaração de Santuário da Virgem, que é na realidade, para a Matriz das Lajes, pedido que aquele Prelado (já não era D. Manuel) rejeitou sem que apresentasse quaisquer razões...
O custo total das obras, na segunda fase de conclusão, foi de 1.205.689$45. Em 1970, era pago o empréstimo de 20.000$00, que havia sido contraído para liquidação total das despesas da obra, ficando tudo saldado.
        Em Dezembro de 1969, o Pe. Cardoso adquiriu para a Paróquia, com autorização do Bispo D. Manuel, a propriedade de “O Dever”, do qual passou a ser director.
Durante a sua estadia na Paróquia é construída a ermida do Coração de Maria, no lugar das Terras, a qual lhe mereceu o mais desvelado cuidado e atenção, embora contasse sempre com um dedicado grupo de paroquianos daquele lugar, que assumiram o financiamento das obras.
        E depois, vê-se quase compelido a deixar a paróquia, sendo nomeado capelão do Hospital de Angra, em 3 de Novembro de 1976 e pároco de São Bento da mesma cidade, em 14 de Dezembro de 1979. Ali faleceu, em 7 de Julho de 1999.
        Nos Estados Unidos da América do Norte, quando qualquer pároco constrói uma igreja recebe de Roma o título de Monsenhor. Por cá não há essa tradição. O titulo de Monsenhor é reservado aos sacerdotes que, normalmente, exercem funções junto da cúria diocesana, pois foram raros os que, não o sendo, receberam essa dignidade.
        O Padre António Cardoso já não pode receber o título de Monsenhor. A sua memória pode, no entanto, ser recordada por qualquer outro meio condigno. Nunca é tarde para se fazer justiça.
        A Igreja Matriz das Lajes tem dois sacerdotes a ela ligados que jamais poderão ser olvidados: o Padre Manuel José Lopes que a iniciou e o Padre António Cardoso que a concluiu, com abnegação e sacrifício. Além do Pe. Francisco Xavier de Azevedo e Castro, vice - vigário e ouvidor do concelho, que foi o autor do magnifico projecto. É um templo majestoso que honra e dignifica a vila das Lajes. Importa que isso não se esqueça.

Vila das Lajes,
7 de Julho de 2012.
Ermelindo Ávila

domingo, 8 de julho de 2012

TRILHOS OU CANADAS



        Foram os caminhos primitivos. Atravessava-se  a ilha, para ir do sul ao norte, pelas veredas, canadas ou trilhos que a “cortavam”, em todos os sentidos.
Para ir para os lados da Fronteira, caminhava-se pelo Caminho dos Ilhéus. “Quem conhece a morosidade ritual das obras públicas, enche-se de pasmo perante a actividade prodigiosa com que o reduzido número dos primeiros povoadores conseguiu, em poucos anos, realizar tal intento, construindo o caminho dos ilhéos que, prolongado, deu a volta completa à ilha. (1)
        “Ernesto Rebello , que visitou a Vila das Lajes, em “Notas Açorianas”, escreve: “Depois de nove horas de jornada, de haver atravessado a serra, subido e descido muita ladeira e cruzado os grandes descampados de pedra roliça e requeimada, entremeada aqui e alem por montes de rasteiras  faias, descampados a que se dá o nome de mysterios, por serem estes os sítios por onde passaram as ribeiras de refervente lava das antigas erupções vulcânicas do Pico, chegamos afinal, ao cair da noite, à Vila das Lajes.” (2)
        Para se sair da vila, pelo lado norte, seguia-se o caminho dos ilhéus, pelo lado sul a ladeira da Vila e para os terrenos do alto, a canada do Manuel Velho ou a Canada das Cruzes. A canada do Tomé (depois conhecida por canada da Maricas do Tomé) servia para dar acesso aos terrenos das ladeiras dó lado Leste. É pena que estes velhos caminhos não estejam devidamente sinalizados, limpos e iluminados para permitirem o trânsito nocturno.
        Na Ribeira do Meio havia o caminho dos Castanhos e a canada do Touril, para os matos. Na Almagreira  um caminho que atravessava o lugar e, pela canada Ana de Vargas, dava acesso à Silveira, onde havia diversas canadas, entre elas a canada do Ajudante, e o caminho de Baixo. Ainda ali existe o caminho Velho e outros mais. 
A estrada real, entre as Lajes e S. Roque, passando pela Madalena, foi construída na segunda metade do século dezanove. Nas pontes  da Ribeira do Meio estão as datas de 1877 e 1879. Todavia a estrada que liga as Lajes à Piedade e, desta, à Prainha, só foram construídas na década de quarenta do século XX. Até aí continuaram os povos do Sul a trilhar as íngremes ladeiras e inóspitos caminhos de calçada bruta e irregular, que não permitia o trânsito de veículos motorizados. E já no século XX! Quem por ele teve de passar pode dar testemunho do que difícil era o viajar pelo caminho da Ponta.
        O tempo que se levava a subir as ladeiras de tão terrível caminho – ainda me lembro da horrível Ladeira do Barriga e de outras mais, pois também utilizei o antigo caminho, saindo das Lajes ao romper do dia para chegar à Ribeirinha ao anoitecer...
        Felizmente que tudo isso se modificou e, hoje, a ilha é circundada por boa estrada asfaltada, diga-se de passagem. A estrada Lajes - Piedade, quando construída, nos anos quarenta do século XX, foi considerada a melhor dos Açores. Mas já não é.
        Os turistas apreciam hoje as longas caminhadas pelas canadas e caminhos rurais para desfrutar das paisagens, do intenso arvoredo e do ar que se respira. Urge, portanto, ter em condições aceitáveis esses velhos caminhos da ilha, que vários são, para proporcionar àqueles que visitam a ilha, os meios indispensáveis a uma boa estadia. Se é que interessa à ilha o desenvolvimento da nova actividade industrial...
__________________     
1) F.S.Lacerda Machado, “História do Concelho das Lages”, 1236, pág.124.
2) Arquivo dos Açores, Vol.VIII,  1982, pág. 295.
Vila das Lajes.
20-6-2012
Ermelindo Ávila

sábado, 7 de julho de 2012

AO ACASO...



          O Verão chegou. Os campos estão verdejantes. O mar está calmo. As neblinas e as nuvens raramente surgem pois o vento parece que se mudou para outras paragens. É chegado o mês de  Julho, o mês mais calmo do ano. .
       Nas escolas  terminaram as aulas e andam agora os alunos preocupados com os exames que têm de fazer para ser avaliado, bem ou mal, um ano de trabalhos. Uns estão confiantes outros  mostram-se preocupados, pois, durante o tempo de aulas, nem sempre se dedicaram ao estudo das matérias com a devida atenção e preocupação.  
        As “piscinas” marítimas  abriram e algumas delas ostentam, orgulhosamente, as bandeiras que a entidade respectiva lhes distribuiu, depois de analisadas as respectivas águas. E já se vêem por aí os banhistas. Afinal eles nunca faltaram, mesmo na estação invernosa, pois para alguns, é de bom tom afrontar as águas frias do Inverno.
        As chamadas “Festas do Verão” vão aparecendo por essas ilhas  e os emigrantes, para  nelas tomarem parte, já chegam.
         São as Sanjoaninas, na cidade de Angra e em Vila Franca do Campo. Depois, as festas  da cidade da Praia, as Festa do Espírito Santo em Ponta Delgada e, muitas outras sem cunho religioso, como “A Maré de Agosto”, em Santa Maria, “A Semana do Mar” na Horta, o “Cais Agosto”, em S. Roque do Pico, a Festa do Emigrante, na ilha das Flores e tantas  mais nas restantes ilhas.
        Verdade seja que as ditas festas religiosas são as que mais atraem os emigrantes: Santa Maria Madalena, Bom Jesus, S. Roque, Nossa Senhora de Lourdes, Nossa Senhora da Ajuda e Nossa Senhora da Piedade. Terminada esta, é o regresso, com as saudades mais vivas e o desejo de voltar, o que nem sempre acontece ...
         Os veraneantes, -  propriamente dito, aqueles que, mais do que  assistir às festas, vêm para repousar depois de um ano de trabalho e cuidar de alguns  bens que cá deixaram, e esses já são muito poucos,  ou simplesmente visitar os familiares, e gozar um pouco do ambiente calmo e reconfortante da terra natal, - vão sendo raros. Demais, nos tempos que decorrem, torna-se difícil viajar só ou acompanhado da família, dado o elevado custo das passagens pouco acessível a quem aufere ordenados de baixo montante. E a situação agora mais se agrava com a carestia da vida actual; da crise que atinge todos os lares, quer pelos contínuos despedimentos, quer pelos baixos salários agravados com  o  corte dos subsídios de férias que a visão esclarecida de um governante criou, aqui há anos,  mas que agora a Troika impede de serem abonados.  Um sinal evidente de que a soberania quase não existe e os mandões estrangeiros, pois praticamente são eles que governam a nação,  proíbem a atribuição dos subsídios àqueles que deles bem carecem e a que têm direito.
        Um momento histórico, mas muito aflitivo para os portugueses e, de modo especial, para os açorianos, que continuam a ser portugueses, embora parece, por vezes, pertencerem a uma classe secundária. E neste âmbito, muito havia a dizer, pois, por vezes, as esferas superiores esquecem que aqui também é Portugal!...
        Mas. afinal, valerá a pena  isto escrever?  Há tantos anos que o faço, numa luta inglória, que apetece parar... Demais, um dia isso vai acontecer...

        Vila das Lajes,
        2-Julho-2012
        Ermelindo Ávila.