domingo, 21 de junho de 2015

PESCA ARTESANAL

NOTAS DO MEU CANTINHO


Em 1878, decorridos que são cerca de 140 anos, a freguesia da Santíssima Trindade, actualmente Lajes do Pico, tinha 3157 habitantes, quase tantos como hoje o próprio concelho.
Havia profissões que desapareceram praticamente, pois deixou de haver quem se interessasse por exercê-las. Basta atentar em algumas: sapateiros 16, carpinteiros 13, serradores 7, pedreiros e cabouqueiros 18 e ferreiros 12. Mas uma profissão era a mais exercida: quase só na vila havia 145 indivíduos que se dedicavam à pesca. A baleação ainda não estava em plena actividade.
No porto das Lajes, existiam diversos barcos e lanchas (barcos mais curtos e de popa traçada) que se utilizavam exclusivamente na pesca. No verão acontecia os marítimos das Lajes irem pescar para portos de ilhas vizinhas: Topo e Velas de S. Jorge, e Biscoitos da Terceira, além de outros. Iam nos próprios barcos e para que eles pudessem levar toda a palamenta e bagagens eram-lhes colocadas “bordas falsas”: alteavam o costado com tábuas suplementares. Na bagagem iam sempre sacos de “bolo de milho torrado”, para as sopas dos caldos de peixe. E este prato era normalmente cozinhado com o melhor peixe apanhado no dia.
Sempre que o mar permitia, os barcos da vila iam pescar, para as baixas conhecidas, o chamado “peixe de fundo”.
Lembro, no entanto, o Mestre Bento que saía à pesca, no seu barco, todas as manhãs para voltar cerca do meio dia com o peixe que servia para o jantar dos compradores. E não faltavam. Outros mestres iam nos seus barcos, com as respectivas companhas, durante a noite, para a pesca do “peixe de fundo”: abróteas, congros. gorazes, moreias e, quando calhava, lagostas. E muito mais.
Nas épocas próprias, era a cavala, o bonito (cachorra), o chicharro esta espécie apanhada no Limpo, (um extenso areal submerso em frente dos Biscoitos,) com uma rede, ou “enxelavar”. Quando a pesca era abundante e no porto não havia compradores, normalmente as mulheres dos marítimos levavam o pescado restante, em celhas à cabeça, para os lugares afastados, Terras ou Silveira e Almagreira, e aí faziam a troca de peixe por géneros da agricultura. Outras preparavam o peixe para salgar e secar, para ser utilizado no Inverno, ou vendido ou trocado no Pico, ou na ilha vizinha.
Com a instalação da fábrica de conservas, nos anos quarenta do século passado, surgiram as traineiras, tipo San Diego, que passaram a pescar, no mar alto, a albacora e o bonito, para serem industrializados. Nos tempos altos, o concelho das Lajes chegou a ter trinta e seis traineiras, pois em todas as freguesias se organizaram sociedades para a exploração da pesca do atum. Mas tudo desapareceu quando da falência da sociedade proprietária da fábrica. As traineiras foram vendidas para outras paragens e hoje, com o desaparecimento do pescado (bonito e albacora) nenhuma por cá existe. Por essa razão a pesca para uso doméstico desceu um pouco.
Com a proibição da caça da baleia e o encerramento da indústria conserveira, a vida do Mar diminuíu bastante, agora agravada com a criação de uma entidade que nenhum proveito trouxe a estas bandas da ilha. Refiro o serviço da Lota, organismo que praticamente aqui não existe. Depois de demolida a “Pesqueira”, - poucos anos havia que fora construída pela Câmara Municipal, - o peixe para consumo passou a ser vendido num contentor, transformado em posto de venda, sob a administração da associação de pescadores do Pico, que somente funciona nos dias úteis das 7 às 11 da manhã, vendendo o peixe trazido da Lota, pois todo o pescado tem de ser concentrado naquele serviço instalado a 35 Km, para ser distribuído refrigerado pelos postos de venda da ilha. Deixámos assim de poder saborear o “peixe fresco”, como antigamente, uma vez que os nossos marítimos têm de entregar o seu pescado naquela Lota. Afinal, uma inovação aberrante que em nada beneficiou nem a qualidade, nem o preço do pescado.
Diz-se e escreve-se que as várias espécies do peixe existente nos mares destas ilhas são da melhor qualidade. Mas quem disso beneficia?
Passando nas imediações do porto recordam-se com alguma saudade os barquinhos e o pescado vário que, quando o tempo permitia, era trazido todas as manhãs, espalhado no areal, e dividido: o “dízimo”, as “soldadas” do barco e pescadores e, por vezes, o “monte-mor”. Com o “dízimo” ali leiloado pelo guarda - fiscal, ficava pago o único imposto devido ao Estado. As “soldadas” constituíam o ganho de cada pescador e da própria embarcação. O “monte-mor” quando retirado, revertia em benefício de toda a companha...
Todos os portos de pesca tinham um membro da Guarda-Fiscal, que habitava em edifício pertencente ao Estado, junto do porto. Exercia também as funções de cabo do mar, onde esse funcionário não existia. Actualmente, os edifícios dos postos da Guarda-Fiscal estão desocupados e quase em ruínas.
Como diz o povo, “tudo o vento levou” !...


Lajes do Pico,
2-06-2015.

Ermelindo Ávila

SANTOS POPULARES

A MINHA NOTA


Chegamos ao mês de Junho tradicionalmente conhecido como o mês dos Santos Populares, pois celebram-se Santo António no dia 13, São João no dia 24 e São Pedro a 29.
Santo António de Lisboa, assim conhecido, é o feriado municipal de Lisboa e o dia dos casamentos patrocinados pelo Município da Capital.
São João é festejado, de diversos modos, em várias ilhas açorianas e no continente. Igualmente com S. Pedro. Além de ser o feriado municipal das Lajes é dia em que a cidade da Ribeira Grande celebra, com pompa e entusiasmo, as tradicionais Cavalhadas, e não sei se em outras localidades.
São João é o mais popular, tanto assim é que cerca de meia dúzia de concelho açorianos escolheram esse dia para feriado municipal.
Desde remotas eras, a Horta festeja o São João, com romaria à Caldeira e “merendas” nas matas sobranceiras. Por essa razão, foi ali construída uma ermida dedicada ao Santo Precursor.
Mas, na realidade, as maiores festas realizam-se em Angra – as festas da cidade – com cortejos, marchas e danças que atraem à cidade património mundial milhares de forasteiros e emigrantes.
Iguais danças ou marchas realizam-se em Vila Franca do Campo, embora hajam sido transferidas para um dia mais próximo.
Em anos passados o São João era festejado, de modo diferente, em todas as ilhas. Predominavam as “fogueiras”, na noite da véspera, que a rapaziada percorria a saltar, mesmo que elas estivessem bem “espertas”. Havia comerciantes que guardavam as embalagens desse dia para as fogueiras. As ruas eram térreas e nada impedia que nelas se fizessem as “fogueiras”. Depois de passar a ser utilizado o asfalto na sua cobertura, tornou-se impossível fazer fogueiras.
No dia de S. João, normalmente, as famílias ou grupos de amigos reuniam-se nas adegas, na costa – quando o tempo permitia - ou nos montes sobranceiros à respectivas localidades para as “merendas” abundantes e apetitosas.
Hoje não há fogueiras nem merendas. Nem as moças fazem as “advinhas” durante a noite para saber o noivo que lhes caberia. Não se torna necessário recorrer ao santo casamenteiro...
Vale a TV a transmitir o que em outras terras se realiza com as danças e marchas, aliás, por vezes bastante artísticas e coloridas.
Elas já principiaram no ano corrente e são de molde a agradar aos mais exigentes, que muitos e de diversas terras são.
Em anos passados, a noite de S. Pedro era festejada com arraial na Maré. João de Deus Macedo tinha isso a seu cuidado e nas vésperas do dia da festa aliciava o rapazio com alfarrobas para irem limpar o areal da Maré do lixo que ali se acumulava durante o ano, quando o mar bravo não vinha fazer “essa limpeza”, para que o sítio estivesse aprazível para o dia da festa. Presentemente, a festa tomou um cariz diferente com a realização do “Império”, no largo da Matriz, antes conhecido por “Meio da Vila” e que, actualmente, tem a denominação de “Largo General Lacerda Machado”.
E deixo um voto: Que as festas decorram com ordem, paz e harmonia e que todos as gozem, alegremente.

Lajes do Pico,
Junho de 2015

Ermelindo Ávila

QUOTAS LEITEIRAS

NOTAS DO MEU CANTINHO



Bem longe vão os tempos em que era agradável ver passar pela rua principal da vila, grupos de moças da Silveira e Almagreira, levando à cabeça ou aos ombros, como era então usual, grandes canecas com leite, tirado das vacas que pastavam nos terrenos da Queimada e Terras.
Caminhavam aos grupos, normalmente ocupando a largura da rua, pois nessa época não havia trânsito que as impedisse, nem existia a estrada que mais tarde veio a ser construída entre esta vila e a freguesia da Piedade e que afastou o trânsito da artéria principal da vila.
Normalmente, paravam a descansar junto ao Passo que existia em frente da rua nova e que foi ocupado por construções urbanas. Aí vendiam algumas canadas de leite a quem o procurasse e o restante era levado para casa.
O leite colhido, diariamente, era utilizado na alimentação doméstica e no fabrico de queijos, o celebérrimo queijo do Pico, como era conhecido. O soro que era apurado do fabrico do queijo era, normalmente, aproveitado na alimentação de suínos. No tempo não existiam fábricas onde o leite pudesse ser laborado.
Em 10 de Julho de 1930, foi publicado o decreto que criou a Comissão de Fomento dos Lacticínios do Distrito da Horta, que tudo alterou e nada trouxe de benéfico. Um ano não era decorrido e essa comissão propunha ao governo a regulamentação do fabrico de queijo e manteiga, o qual, em decreto n.º 19.669, de 30 de Abril de 1931, estabeleceu: “À indústria caseira da ilha do Pico é permitido o fabrico de queijo completo, tipo Pico (São João).
E no parágrafo único do artº 4º decreta ainda: A comissão de fomento de lacticínios do distrito da Horta indicará à indústria caseira da Ilha do Pico o local para o fabrico do referido queijo e bem assim o limite da quantidade de leite que pode empregar nesse fabrico.
Foi o que de pior podia ter acontecido. Alguns lavradores, principalmente da freguesia de S. João, onde estava mais desenvolvido o fabrico do queijo caseiro, chegaram a preparar compartimentos das respectivas residências para funcionarem exclusivamente como pequenas fábricas, mas sem grandes resultados. Daí surgiram as fábricas de Manuel de Brum Bett., Bernardo e Furtado e, depois, a Sociedade de Produção de Lacticínios, que se manteve alguns anos e creio que ainda funciona. Mas o fabrico do apreciado queijo do Pico praticamente desapareceu.
Anos decorridos, estabeleceu-se na Silveira a firma continental Martins & Rebello que aproveitou uma fábrica já ali existente e prosperou. Laborou durante vários anos o leite recolhido, duas vezes ao dia, em toda a ilha.
Com o desaparecimento de M. & R. surgiram, por iniciativa já então do governo regional, as queijarias, cerca de uma dúzia em toda a ilha, mas algumas acabaram por encerrar. Praticamente o típico e histórico queijo do Pico desapareceu. Aquele produto que se adquire no mercado livre está longe de ter a qualidade do antigo que, sem fiscalização nem exigências de local de fabrico, criou fama pela excelente qualidade.
Sobre o queijo do Pico escreve o Dr. Manuel Alexandre Madruga:
“A indústria do queijo, originária da própria freguesia, pois foi ali que se fabricou o primeiro queijo do Pico, deve ter-se desenvolvido paralelamente à tecelagem por serem ambas produto da actividade pastoril tão do gosto daquele povo. (...)No fabrico do queijo havia, e ainda há, segredos próprios e especiais cuidados higiénicos (um simples argueiro encontrado num queijo desacreditava uma casa por muito tempo). Mercê do seu sabor inconfundível e da sua apresentação cuidada, o queijo de S. João (ou do Pico como também é conhecido) conseguiu merecida fama por quase todas as ilhas dos Açores e até no Continente.”(1) E até do estrangeiro, acrescento.
O desenvolvimento das manadas provocou, naturalmente, e até satisfatoriamente, a grande produção de leite que actualmente não possui as qualidades naturais devido, ao que parece, à alimentação dos animais produtores. E isso não pode deixar de ter grande influência no sistema industrializado que foi introduzido no fabrico.
O Pico possui, actualmente, uma unidade fabril com moderno equipamento de notável valor industrial, que produz manteiga e queijo de boa qualidade. Mas para que tal continuasse era indispensável que as quotas leiteiras, criadas pela UE se mantivessem pois, só assim, a qualidade do leite produzido poderia ser assegurada.
Quanto ao antigo queijo do Pico, tipo S. João, esse pertence ao passado.

Lajes do Pico,
Junho - 2015
Ermelindo Ávila

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1) Madruga, Manuel Alexandre, “A Freguesia de S. João da Ilha do Pico na Tradição Oral dos seus Habitantes”, in Boletim do Núcleo Cultural da Horta Vol.1, Nº2, 1957.



DIAS SANTOS E FERIADOS

NOTAS DO MEU CANTINHO



Estamos no mês de Junho. A meio do ano. Já. Em poucos dias chega a estação calmosa – o verão.
Igualmente, no mês dos feriados por excelência.
Hoje, porém, não tantos como antigamente. Mesmo assim alguns dos feriados são assinalados como feriados municipais. É o caso de Santo António, a 13, em Lisboa, e de São João, a 24, em diversos concelhos do continente e dos Açores. Nas ilhas, contam-se mais de meia dúzia de feriados municipais no mês de Junho.
Antes da Concordata com a Santa Sé, existiam nove dias santos de guarda, além dos domingos: 1 e 6 de Janeiro, 19 de Março, 30 de Maio, 29 de Junho, 15 de Agosto, 1 de Novembro, 8 e 25 de Dezembro, respectivamente: da Circuncisão do Senhor, Reis Magos, S. José, Ascensão, S. Pedro e S. Paulo, Assunção da Virgem, Todos os Santos e Natal.
Eram seis os feriados nacionais: 1 de Janeiro, Dia Mundial da Paz, 31 de Janeiro, consagrado aos Precursores e Mártires da Pátria, 3 de Maio, da Descoberta do Brasil, 10 de Junho, dia de Portugal, 5 de Outubro comemorativo da Implantação do Regime Republicano, 1 de Dezembro, da Restauração de Portugal em 1640, e 25 de Dezembro consagrado à família.
Com a Concordata de 1940 entre Portugal e a Santa Sé, os dias santos de guarda foram considerados feriados nacionais mas reduzido o seu número. E com a nova concordata, depois da Revolução do 25 de Abril, mais se alteraram os feriados e dias santos de guarda. Actualmente, não são considerados dias santos, o dia da Epifania, o de S. José, o do Corpo de Deus, o de São Pedro e São Paulo e Todos os Santos, cujas comemorações passaram para o domingo seguinte.
Os feriados nacionais foram também alterados. Desapareceram o 31 de Janeiro e 3 de Maio. A partir de 2013, ficaram somente dez: 1 de Janeiro, 25 de Abril, 6ª feira Santa e Domingo de Páscoa, 1 de Maio, 10 de Junho, 15 de Agosto, 5 de Outubro, 8 e 25 de Dezembro.
No entanto, em cada concelho resta o feriado municipal escolhido pela respectiva Câmara Municipal.
No concelho das Lajes do Pico, antes da Concordata de 1940, era feriado municipal o 15 de Agosto dedicado à Assunção da Virgem Maria. Nesse dias o Curato (hoje Paróquia) da Silveira celebrava a festa da Mãe de Deus. Os residentes na vila, que sempre mantiveram grandes afinidades com os da Silveira, iam até ali, onde aliás alguns conservavam casas de verão, para

tomar parte na festa. Daí a razão do feriado. Todavia, como a Concordata de 1940 considerou feriado os dias santificados, e o dia de São Pedro deixou de ser dia santo de guarda, a Câmara Municipal, num sentido histórico de que o primeiro templo da ilha fora dedicado ao Apóstolo S. Pedro, cuja festa se celebra todos os anos com Império de distribuição de rosquilhas, deliberou que o feriado municipal passasse a ser comemorado nesse dia, o que ainda hoje acontece.
Iguais deliberações tomaram os municípios de São Roque e da Madalena, passando os feriados municipais daqueles concelhos a celebrar-se a 16 de Agosto e 22 de Julho, respectivamente, dias em que acontecem as festas dos Padroeiros.
De estranhar a abolição de alguns feriados nacionais, que assinalavam feitos históricos de relevância como é o primeiro de Dezembro, dia em que, no ano de 1640, Portugal voltou a ser independente, abolindo o domínio castelhano. É triste que haja quem isso ignore. Revela somente um desconhecimento crasso da história pátria ou, então, um alheamento dos feitos extraordinários dos nossos antepassados que, “entre perigos e guerras esforçados” legaram aos seus compatriotas, um “novo reino que tanto sublimaram”, como nos narra o Épico.
No corrente mês o concelho das Lajes do Pico, o mais antigo porque o primeiro foi a ser povoado, celebra o seu feriado municipal na última segunda-feira, dia 29, em que, na sua antiga ermida, primeiro templo da ilha, se festeja o patrono, São Pedro, nome do primeiro pároco, frei Pedro Alvares Gigante. Depois do almoço, já tradicional, servido a centenas de irmãos e convidados, haverá a procissão e o arraial para a distribuição das rosquilhas, à semelhança do que se faz nos impérios do Espírito Santo.


LAJES DO PICO
Junho de 2015-
Ermelindo Ávila


domingo, 7 de junho de 2015

WHALE WATCHING

NOTAS DO MEU CANTINHO


Depois da inopinada proibição da caça à baleia que, afinal, os lajenses não inventaram mas que destemidamente souberam continuar, depois de alguns deles haverem andado por esses mares, nunca dantes navegados, surgiu a observação dos cetáceos ou o Whale Watching.
Foi ontem, mas já decorreu quase um quarto de século. Precisamente em 1991, Serge Viallelle chegou a esta vila para estabelecer a nova actividade de ver baleias. Anos, bem poucos haviam decorrido, quando se tentou montar a actividade que os baleeiros lajenses recusaram em sessão pública realizada no salão nobre dos Paços do Concelho. Muitos se devem lembrar ainda, pois foi grande a afluência a esse acto, promovido pelo Deputado Europeu, de então, Doutor Vasco Garcia. Não sortiu efeitos, mas aquele citado cidadão francês soube aproveitar o “vazio”, salvo erro.
Hoje a “observação de baleias” está bastante desenvolvida, e, no porto das Lajes, exercem essa actividade dez empresas que, algumas, nem sedeadas cá estão...
Mesmo assim o Whale Watching traz a esta vila – que conserva o epíteto de “Vila Baleeira”, - notável número de estrangeiros interessados, principalmente, em ver, bem de perto, a vida calma dos monstros marinhos. É por isso que a Baía das Lajes e o sul da Ilha já são considerados o santuário das baleias, tantas são as que, quase diariamente, aqui “vivem”, muito calmamente, sem receio que alguém se lembre de as perseguir...
E por aqui não aparece somente o cachalote. Outras mais espécies por cá andam a despertar a curiosidade dos amantes do mar.
Pode dizer-se que o Whale Watching constitui hoje uma
atracção turística, mas por enquanto só interessa aos empresários que exploram essa actividade, quando algo mais se podia desenvolver, quer na restauração, quer em actividades de animação. Chegar às Lajes e aguardar o sinal da Vigia para ir ver os golfinhos e as baleias, é pouco ainda. Importa algo mais criar para dar emprego à juventude e interessar uma população quase inactiva.
Não posso acompanhar nem esta, nem outras actividades. Limito-me a tomar conhecimento, aliás bastante superficial, do que por aí vai ocorrendo. Trago aqui somente algo das informações, julgo que fidedignas, que chegam a este cantinho onde permaneço muitos dias, sem vêr ou conviver com as pessoas que por aí passam. Todavia dou “graças a Deus” de ainda por cá andar, quando outros de muito menos idade, partem, quantas vezes inesperadamente...
Estou, porém, certo que há muita gente interessada pela sua e nossa terra e que vai estudando, criteriosamente, a maneira adequada de fazer progredir as potencialidades naturais que por aí existem. Demais, pensar hoje em emigrar é uma autêntica utopia, pois a crise económica que nos atinge não anda apenas por cá. Ela abarca o mundo nos seus diversos sectores de actividade e desenvolvimento. Seja na Grécia, na Turquia, ou em outras mais...
Repito o que já algumas vezes lembrei. Importa ao Governo fomentar, aturadamente, o desenvolvimento de todas as ilhas, que não apenas de duas ou de três. E não apenas numa ou em duas áreas ou sectores; ou, o que é mais dramático, privar algumas ilhas de serviços públicos. E não os refiro hoje.
O ar que respiramos não está, felizmente, inquinado, nem as moléstias crónicas ou eventuais por aqui têm passado. Há idosos e doentes, como em qualquer parte, mas isso não será motivo de afastamento de estranhos. Os que por cá aparecem creio que não se dão mal...
A emigração não é meio adequado, nos tempos que decorrem, para a juventude procurar emprego. O desemprego atinge todas as nações, mesmo aquelas que se conhecem como importantes centros económicos – comerciais e/ou industriais.
Há muita juventude que vai e volta, porque foram frustrantes os projectos que levava...É bom que se pense, maduramente, no futuro e se tomem as melhores soluções para os momentos incertos que a todos atingem.
Fiquemos por aqui...

Lajes do Pico,
20 de Maio de 2015

Ermelindo Ávila

sábado, 9 de maio de 2015

VEREDAS, CAMINHOS E ESTRADAS

NOTAS DO MEU CANTINHIO


Há dias, citando o escritor faialense Ernesto Rebelo, fiz referência à primitiva ligação terrestre que havia entre as vilas da Madalena e Lajes. Nove horas levou o dito faialense a percorrer a distância entre Madalena e Lajes, subindo e descendo montes e vales, por atalhos e veredas que só era possível atravessar de burro, péssimo burro que montava, o classificou.
Referindo-se à estrada, escreve Lacerda Machado: Quem conhece a morosidade ritual das obras públicas, enche-se de pasmo perante a actividade prodigiosa com que o reduzido número dos primeiros povoadores conseguiu, em poucos anos, realizar tal intento ( a ligação da Vila com o porto da futura freguesia da Madalena) construindo o caminho dos ilhéus que, prolongado, deu a volta completa à ilha. E passados cinco séculos de dízimos, fintas e contribuições, há ainda (em 1936) o caminho feito pelos infatigáveis colonos de Fernando Alvares o único que serve grande parte da ilha, a partir da mesma vila, da ermida de S. Pedro para a Piedade, a mais importante freguesia do concelho.(1) Em nota de roda pé refere o distinto lajense a nova estrada pela qual muito se interessou e cuja construção estava já a concurso.
Na realidade, a estrada Lajes-Piedade, como ficou conhecida, veio a ser inaugurada em 1943. Seguiu-se depois a construção da estrada Piedade-S. Roque e, um pouco mais tarde, a transversal Lajes-S. Roque, esta a justificar a extinção do antigo Julgado Municipal das Lajes, segundo a opinião do engenheiro projectista que a classificava de estrada política. Política ou não, veio notavelmente beneficiar a economia da ilha, quer com a ligação entre as duas vilas, quer com o aproveitamento das pastagens do alto. Hoje tem apreciável movimento.
Depois foi construída a estrada longitudinal que ligou o interior da Ilha, no sítio do Corre Água, à Madalena.
Poucos anos depois os Serviços Florestais foram criados e instalados na ilha, sob a direcção do falecido Engenheiro Manuel José de Simas, um nome que parece andar esquecido, quando bem merecia que houvesse ficado registado mesmo em pedra balsáltica a recordar o notável obreiro de tão grandioso empreendimento. Foram construído 47 caminhos de penetração, numa extensão de 275 quilómetros. Um benefício de extraordinária valia, que veio beneficiar o desenvolvimento agro-pecuário e, simultaneamente, o turismo, dando a conhecer o diferenciado e, por vezes, deslumbrante interior da ilha, até então quase desconhecido.
O escritor faialense, ao visitar a vila das Lajes, diz que levou nove horas a percorrer o espaço entre a Madalena e Lajes. Naturalmente que uma grande parte do antigo caminho dos ilhéus já não existia por ter sido destruído pelas erupções vulcânicas de 1718 e 1720 das quais restavam os mistérios de São Caetano - S. João e de S. João - Silveira. A actual estrada que atravessa este segundo mistério tem mais de três quilómetros de extensão.
A última ponte nela construída, foi sobre a da ribeira da burra, ou de Fernando Alvares e está datada de 1877.
A propósito, Frei Diogo das Chagas diz: Dos quaes os dois principais povoadores, foram o dito Fernando Alavares, e jurdão Alvares Caralta: Este ficou povoando aly aonde saltou ( Santa Cruz das Ribeiras) e Fernando Alvares começou a sua polla parte aonde se diz a Ribr.ª do Meio. (2)
E Lacerda Machado comenta: Confirmando esta tradição, conservou sempre o nome de Ribeira de Fernando Alvares a que, desde algumas dezenas de anos, estúpidamente se chama da burra, fazendo-se desaparecer da toponímia local uma expressão que representava apreciável vestígio histórico e veneração pela memória do primeiro povoador, fundador da vila. (3)
As ruínas da casa de Fernando Alvares ainda existem junto da Ribeira, ao lado da actual estrada. Foram adquiridas há poucos anos pelo Município Lajense, mas disso se não passou. Era tempo de as acautelar convenientemente. E não carece de grandes obras. Foi assim que se procedeu com o Coliseu de Roma, com as capelas imperfeitas do Mosteiro da Batalha, com o Templo de Diana, em Évora. Por cá, tem-se conservado a igreja-ermida de São Pedro, primeira catedral da ilha, o antigo Forte de Santa Catarina e até o convento franciscano.
Infelizmente desapareceram as igrejas da Misericórdia e a ermida dos Remédios. O camartelo é apressado. Mesmo assim, a avoenga vila conserva restos de um passado de grande valor histórico. Mas isso não impede que se acuda à primeira casa da ilha, uma relíquia que muitas terras se orgulhariam de possuir. E basta limpar a figueira, acautelar as paredes que restam e colocar uma placa onde se identifique tão precioso monumento histórico. Não basta fazer coisas novas para deixar aos vindouros. Acautele-se o que já se possui.

1)Machado,F. S. Lacerda, “Historia do Concelho das Lages”, 1991, pág. 104.
2) Chagas, Frei Diogo, Espelho Cristalino em Jardim de Várias Flores, 1989, pág 124.
3) Machado, F.S. Lacerda, o.c., pág 60.

Vila das Lajes,
18 de Abril de 2015

Ermelindo Ávila

quinta-feira, 30 de abril de 2015

PLANO DIRECTOR MUNICIPAL

NOTAS DO MEU CANTINHO


Andou em “discussão pública” o Plano Director Municipal. O segundo, porque o primeiro foi elaborado e aprovado há anos.
Trata-se, afinal, de um documento de interesse para os munícipes pois através dele se acautelam os valores patrimoniais do concelho, o que bastante importante é. Mas, nem sempre os documentos dessa natureza são respeitados, alterando-se, aqui e ali, os princípios basilares.
Aqui há anos, era o Plano de Urbanização de cada localidade que os Municípios elaboravam para que as construções não fossem implantadas a capricho dos seus proprietários e não ficassem, aqui e ali, autênticos monstrengos que ainda hoje existem.
Durante vários anos, esteve no salão e sala das sessões da Câmara, um projecto de modernização da vila onde o seu autor, entre outras sugestões, indicava um arruamento que, ligando a rua do Saco com a rua da Miragaia, vinha sair no centro da vila, permitindo, além da possibilidade de construções urbanas, que houvesse um “escoamento” das pessoas em ocasiões de “enchentes de mar”, vulgares naqueles recuados anos. Além disso, propunha a urbanização da zona do Juncal onde, durante muitos anos, esteve instalado o campo de jogos. Mas isso não aconteceu. Só nos últimos anos se procedeu ao arranjo daquele largo espaço. Mas parece que algo mais há ainda a fazer.
O projecto da autoria de Lacerda Machado, que estava exposto em quadro, desapareceu há vários anos. Nem dele me lembro. E, em vez do arruamento previsto, foi permitida a construção de prédios urbanos nas entrada e saída, impossibilitando-se que mais uma rua valorizasse o traçado urbano da vila.
Há prédios urbanos, na antiga Rua Direita que, pela sua antiguidade, deviam ter sido classificados como imóveis de interesse público, e que acabaram por ser abandonados, caindo em ruínas. Um deles vem do século XVIII e é o prédio mais antigo da vila. Os outros são do século XIX. (Segundo a tradição, para a construção de um desses prédios o proprietário contratou um ferreiro e, no fim do dia, contava os pregos que ele havia feito, pois sabia quantas pancadas do martelo na bigorna eram precisas para fazer um prego...)
Mas, segundo informações que vieram a público, a vila parece que vai deixar de ser o centro urbano, tal como aconteceu há anos, com a vila de S. Roque, que transferiu a sede para o Cais. O mais antigo centro urbano da ilha e com melhor traçado arquitectónico, na opinião de urbanistas consagrados que por aqui hão passado, vai tornar-se um simples subúrbio?
Em artigo publicado no antigo jornal “As Lages”, o articulista que se acoberta com as iniciais F.C. (Fernando Castro ?) escreve: “O assunto de que vamos tratar hoje, refere-se à execução da planta feita e oferecida à câmara municipal deste concelho, pelo nosso ilustre patrício, capitão Francisco S. de Lacerda Machado, sobre a projectada avenida que acompanha o muro que circunda a vila. É certo que as vereações transactas se descuraram no embelezamento da vila, mas também não convém que estas e as outras que virão, sigam pelo mesmo trilho.1) E no jornal de 15 de Novembro de 1914 - um século é decorrido ! – escreve Lacerda Machado: “Não se trata de aprovar este ou aquele projecto, mas um qualquer, que seja maduramente ponderado e que dê unidade de sequencia a tudo o que de futuro se construir ou modificar”. E depois de referir o alinhamento da avenida marginal e a arrematação dos terrenos sobrantes, propõe: A verba proveniente da venda dos terrenos poderia ser aplicada, por exemplo, na abertura das Ruas do Saco e da Miragaia, ligando-as com a rua Nova e no alinhamento da Rua Direita “. 2)
O próprio jornal, a 15 de Março de 1915, (ocorrem hoje cem anos) em artigo da Redacção, analisa o assunto de maneira contundente, escrevendo: “É inacreditável que nada de bom se pode fazer, no intuito de modificar e melhorar as deficiências da planta actual da nossa vila, sem que tudo obedeça a plano conscienciosamente elaborado. Fora desta norma, nunca se poderá atingir o grau de beleza tão desejado para a nossa vila, que como sede do concelho, de que tem o nome¸ é merecedora de mais alguns benefícios e atenções.” 3)
Como disse, um século é decorrido. Verdade que os municípios viveram horas atribuladas, sem receitas e com dificuldades diversas, incluindo as alterações políticas que os atingiram. Mas esse tempo já passou há muito.
Será que, decorridos estes anos todos, o PDM vai permitir um cuidado mais atempado da mais antiga povoação da Ilha e sede de concelho ou, pelo contrário, abandoná-la para criar outros centros urbanos? A ver vamos.
________
  1. “As Lages”, nº13, de 13-10-1914
  2. Ibidem, nº 15 de 15-11-1914
  3. Ibidem, nº 23 de 15-3-1915

Lajes do Pico,
15-Março-2015
Ermelindo Ávila


A CAÇA AO BOTO

A MINHA NOTA


Ernesto Rebello, escritor faialense dos finais do século XIX, deixou-nos uma interessante narrativa da caça ao boto na vila das Lajes.
Escreve o douto faialense sobre “Botos e pombas”, uma excelente crónica sobre a visita que fez à Vila das Lagens (sic) e narra uma caçada ao boto a que assistiu.
Na costa a multidão era enorme, homens, mulheres, creanças, todos com verdadeira ancia esperando o bom ou mau succedimento da pesca. – O cardume de bôtos, afinal já perto da estreita passagem que o queriam obrigar a transpôr, pareceu ter consciencia do perigo que o ameaçava e tentava retroceder, levantando uma grandiosa salseirada. – As lanchas, porém, à força de remos, de gritos e de pedras, conseguiram tornar a reunir os peixes, que ainda assim, temerosos, pararam à entrada do canal, que ladeado de rochedos conduzia para o interior da grande bacia. As pedras choveram então com mais força sobre os resistentes cetaceos. / Afinal um dos maiores peixes, medindo talvez quatro metros de comprimento, possante e luzidio, como uma lamina de aço, encaminhou-se bufando de desespero, para o começo da garganta da Lagôa, e deixando um sulco de escuma na sua passagem, desapareceu, em breve, na direcção da terra. / (...) A pesca estava bem segura, tanto pela disposição dos rochedos, como pela estreiteza da passagem. A este tempo na Matriz soava meio dia.(...) Os lajenses dão certa solemnidade a esta pesca.
E depois de descrever a rendosa caça e a transformação do toucinho em azeite, narra uma caçada aos pombos da costa, onde não foi menor a colheita.
Realmente, era um autêntico espectáculo que atraía toda a população às cercanias da lagoa o arpoar dos botos. Ainda me lembro de uma ou duas caçadas, depois de rodeados os botos, ou moleiros, para o “poção”. Era um trabalho árduo pois exigia valentia e esforço por parte daqueles que arpoavam os animais como, antes, dos que os rodeavam para o poção onde eram “guardados” com redes até serem arpoados e mortos, aproveitando-se as capas de toucinho para azeite de iluminação. O petróleo era de preço elevado e ainda cá não chegara a electricidade. Mas a operação do derretimento só se podia fazer durante a noite, dado o insuportável mau cheiro que exalava. Havia um edital do Administrador do Concelho que regulamentava essa operação.
No fim de dois dias, regressou Ernesto Rebello à sua ilha. Havia empreendido uma viagem longa e temerosa. Ele próprio a narra no princípio da crónica: “Depois de nove horas de jornada, de haver atravessado a serra, subido e descido muitas ladeiras e cruzado os grandes descampados de pedra roliça e requeimada, entremeada aqui e além por moutas de rasteiras faias, descampados a que se dá o nome de mysterios, por serem estes os sítios por onde passaram as ribeiras de refervente lava das antigas erupções vulcânicas do Pico, chegamos, ao cair da noite, à Vila das Lajes.” E acrescenta: “Os nossos companheiros de jornada eram um rapaz da vila, que tinha ido ao Fayal, donde regressava, por causa do recrutamento, um homem da Magdalena, que tinha a seu cargo os dois péssimos burros que montávamos e um cão, rateiro, de raça ordinaríssima, que durante todo o caminho matara, na serra, dois coelhos, dos quais o arrieiro logo se apoderara, e pela estrada vários ratos de enormes proporções.” (1)
Uma descrição viva e interessante a revelar-nos o que era a ilha do Pico, há quase duzentos anos.
O Pico hoje tem estradas, tem transportes colectivos e dezenas de carros ligeiros, mas por aí ficou. O progresso parece que estagnou e os que nela habitam quase só vegetam...
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l) Arquivo dos Açores, Vol. VIII, pág.295

Vila das Lajes,
Abril de 2015

Ermelindo Ávila

O VIVER DE OUTROS TEMPOS

Notas do meu cantinho



Notas do meu cantinho

       

                                        Em pescado, o porto das Lajes era o mais importante do Sul do Pico. Os pescadores muitos, e os batéis de pesca, quando em terra, enchiam o antigo varadoiro.
Parte da população só vivia do mar. E a actividade marítima, quase bastava para a subsistência das respectivas famílias.
Quando o mar permitia, os batéis - barcos e lanchas, saíam ao amanhecer, a pescar garoupas nas “marcas” que ficavam perto pois, ao meio dia, estavam de volta com o peixe para o jantar. O horário das refeições era diferente do de hoje.
O pescado era quase só a garoupa, conhecida por “galinha do mar”, a abrótea, o rocaz e poucas espécies mais. Polvo e lagosta só para “especialistas”-.
Se o tempo não permitia a saída do porto, e por vezes era difícil devido à agitação na “Carreira”, alguns pescadores iam à noite ou de madrugada para a costa, ou mesmo para o “caneiro”, na entrada da Lagoa interior, pescar sargos, que eram vendidos logo de manhã a fregueses habituais. No inverno, uma ou outra vez, deitava-se a rede na Maré, onde abundava o peixe miúdo.
No Outono apanhava-se, de rede, o chicharro. A pesca, normalmente abundante, permitia a venda imediata ou a salga, para ser consumido no Inverno.
Descarregado o peixe era retirado o “dízimo” e dividido em soldadas pelos pescadores. O “dízimo” era leiloado pelo Guarda-fiscal, sempre presente à chegada dos barcos. Havia Guardas-fiscais em S. João, S Cruz das Ribeiras, Calheta e Calhau da Piedade, que viviam em casas do Estado. Nas Lajes estava fixada a secção da G.F. sob o comando de um sargento que, após a extinção das chamadas “barreiras alfandegárias”, passou a viver no antigo edifício da Alfandega. Depois a Secção foi transferida para o Cais do Pico e incorporada na Guarda Republicana. Ficaram abandonadas, nas Lajes a casa da Alfandega e nas freguesias indicadas os respectivos postos da G.F., propriedade do Estado. Quer a casa da alfândega quer os antigos postos estão hoje abandonados, incompreensivelmente, quando podiam ter sido entregues a outro serviço público ou distribuídos por casais carenciados. Em pouco serão ruínas a remover...
 Voltando ao pescado, algum era levado pelos familiares dos pescadores, ao interior da ilha, quase só para ser trocado por produtos da terra. Mas verdade, um viver simples que, mesmo assim, garantia a subsistência de muitas famílias. 
Não há muitos anos, várias famílias das zonas agrícolas viviam da troca de produtos. Até mesmo nos pequenos estabelecimentos de mercearia, que sempre os houve, os géneros eram trocados por milho, batatas, cebolas, hortaliças ou ovos, que depois eram vendidos a outros fregueses. Era um estilo de vida autenticamente comunitário e que não deixava de ser útil e proveitoso.
Os lavradores trabalhavam as terras com as ajudas de uns e outros companheiros pois não havia dinheiro para salários. 
Até nas roças, ou limpeza das pastagens isso acontecia e, nesses terrenos do alto, muitos ficavam em abrigos improvisados durante a noite, para evitarem as longas caminhadas e haver mais horas para o trabalho.
Mas, há três ou quatro décadas os Serviços Florestais foram instalados na ilha e abriram cerca de 275 quilómetros de caminhos florestais e de penetração, depois de construídas a estrada de volta da ilha e as transversal e longitudinal, melhoramentos pelos quais a ilha esperou mais de cinco séculos!
 Não deve esquecer-se a caça da baleia que, embora iniciada a meados do século XIX, teve o seu período de maior desenvolvimento nas décadas de trinta/quarenta do século passado para, pouco depois, terminar abruptamente, sem outra actividade que a substituísse, pois aquela que apareceu a seguir está limitada a dois ou três industriais locais sem grandes ou notórios efeitos económicos no meio. Não se esquece o período em que aqui foi instalada e funcionou a indústria de conserva de peixe. Uma actividade que foi algo florescente mas que não resistiu, por razões várias e que importa esquecer.            E referindo a baleação, não eram somente os pescadores profissionais que se dedicavam a ir à baleia, mas todos aqueles que conseguiam uma “cédula marítima”: carpinteiro, ferreiro ou pedreiro, ou mesmo (e até) funcionário público, que alguns havia... A baleação proporcionou certo bem-estar a uma parte da população, embora nem um século durasse. Tarde virá outra que a ela se iguale.
Apesar da vida modesta dos anos passados, o concelho das Lajes caiu numa verdadeira penúria e a juventude, que adquiriu outros hábitos de vida mais modernos, não encontra aqui ocupações. Vê-se por isso obrigada a emigrar para outros meios nacionais ou para o estrangeiro.
Uma tristeza de vida dir-me-ia um velho amigo aqui há uns anos passados...
Presentemente transformado quase só em porto de recreio, o porto das Lajes do Pico nem mesmo assim oferece as condições indispensáveis à permanência de embarcações de outros portos e muito menos estrangeiras.

Lajes do Pico.
13 de Abril de 2015

 Ermelindo Ávila

quinta-feira, 2 de abril de 2015

O JOGO DO PIÃO

A MINHA NOTA


       O jogo do pião tinha a sua época, como qual qualquer outro jogo. Mas este era considerado de maneira especial, para se respeitar as épocas litúrgicas que, aliás, toda a gente nesta ilha cumpria, cinquenta anos atrás...
       Não havia trânsito nas ruas, cujos pavimentos eram de simples bagacina, ou macadame, embora nos últimos anos prensada. Depois vieram os automóveis e a seguir a asfaltagem das estradas e ruas e tudo se modificou. As pessoas já não podem permanecer nos leitos das ruas e estas, actualmente, estão calcetadas, embora por vezes com um piso algo irregular...
       O jogo do pião só se realizava após o toque dos sinos a anunciar a Ressurreição de Cristo, no sábado de Aleluia.
E tinha um “cerimonial” próprio. Normalmente, isso acontecia ao meio-dia e aqueles que não iam às cerimónias ficavam-se pela vila a aguardar o sinal do sino, já com os piões enfileirados para iniciarem os jogos.
       Jogar o pião, antes daquele momento festivo, era ofensivo para os crentes, pois, diziam os pais aos filhos, era picar a cara de Nosso Senhor. Na realidade, outros tempos em que a religião católica era, para os açorianos, quase todos, a orientadora de toda a vida social, que não somente religiosa. E não era um atraso de vida, como hoje diriam.
       Até os homens jogavam, na frente das mercearias e tabernas, nas tardes dos domingos, o pião e, depois, o “vinte e cinco”, porque a malha era uma antiga moeda de vinte e cinco reis, já fora de uso.
       Durante a época da Páscoa o jogo do pião era o entretenimento quase exclusivo dos adolescentes e jovens.
       Os miúdos usavam um pião pequeno. Os mais crescidos um pião pouco maior e os adultos tinham piões de oito e dez centímetros de diâmetro.
       Quando algum miúdo perdia o jogo, o pião era sujeito a umas tantas “ferroadas” que, muitas vezes o inutilizavam, provocando um choro inconsolável ao seu dono.
       Sistemas de uma vida simples que, nestes tempos actuais, não seriam realizáveis ou até mesmo algo ridicularizados.
       Hoje, nem o pião se joga. Há outros sistemas de divertimento. Ninguém se lembra do pião, da “caça à baleia”, da “barra”, do “esconder”, do jogo de “apanhar outro” em longas correrias; e até do “jogo do botão” este que algumas vezes levava os miúdos a retirar às mães os botões que ela guardava para substituírem os que os vestuários perdiam, quando, algumas vezes, não se arrancavam do próprio vestuário para pagar “a dívida” ao ganhador...
       Mais tarde, apareceu o jogo do “belamente”, mas já esse recordei em uma destas talvez incipientes notas.
       Fico por aqui, desejando ao possível leitor uma Páscoa alegre e feliz.

Lajes do Pico,
Março de 2015

Ermelindo Ávila