sexta-feira, 31 de outubro de 2014

OS “ MISTÉRIOS “

NOTAS DO MEU CANTINHO

Testemunhas permanentes das erupções vulcânicas de 1718 e 1720 que assolaram a Ilha do Pico, destruindo habitações e calcinando terrenos, eles ainda aí estão presentes, sem proveito algum que deles se tire, a não ser a “lenha” ou o aproveitamento de um ou outro espaço para empreendimento de utilidade pública.
É tempo de se olhar para os Mistérios da Ilha do Pico e de se lhes dar o aproveitamento necessário, para que passem a ser úteis à população picoense.
António Cordeiro ( História Insulana, 1716) traz a notícia de que “no ano de 1572, a 21 de Setembro tremeu a terra no «baixo da ilha por espaço de um terço de hora, e com tais estrondos, que pareciam grandes peças de artilharia disparadas, e logo em um lago, e por cinco bocas arrebentou tal fogo que dele , e por polme ardente correu uma ribeira por espaço de uma légua, até meter no mar do Norte, e no mesmo mar formou uma entrada nele de um tiro de arcabuz, aquele grande cais de pedraria abrazada (...) do qual se serve a Vila de São Roque , que dista dela uma légua (...)”
Silveira de Macedo, por seu lado, informa que “...a lava correu em ribeira para o mar, formando um grande cais que ainda se conserva; tendo devastado extensas planícies de terra e casas na freguesia de Nossa Senhora d’Ajuda da Prainha do Norte, onde ficou um extenso mistério, tendo sido destruída a igreja paroquial”.
Não fala Cordeiro, naturalmente, das outras erupções que assolaram a ilha, pois o seu trabalho é superiormente aprovado dois anos antes (1716).
E dessas outras erupções (1718 e 1720), ficaram os Mistérios de Santa Luzia, São João e Silveira.
Essas grandes extensões de terreno, cobertas de arborização selvagem, pouca utilidade têm. Estão, presentemente, a cargo dos Serviços Florestais que vão aproveitando os pinheiros plantados nas bermas das estradas que atravessam, cujo plantação daquela espécie arbórea se ficou a dever à antiga Junta Geral do ex-Distrito.
No Mistério da Prainha há um empreendimento de utilização local.
Junto do Mistério de Santa Luzia, nasceu o Aeroporto do Pico. Há também um parque com construções urbanas para utilização de Serviços Públicos. Antes, a Junta de Freguesia de S. João havia instalado, no mistério situado entre aquela freguesia e a Terra do Pão, e no local onde existiu a igreja paroquial subterrada pela lava, o parque denominado “São João Pequenino”. Ali colocou um pequeno monumento a recordar o primitivo templo. No mesmo Mistério foi construído o Aterro Sanitário da Ilha. Recentemente, foram instalados no Mistério da Silveira o Matadouro Industrial e a fábrica de lacticínios da Ilha – Lacto Pico.
Mas é pouco, muito puco mesmo, para as grandes extensões da ilha há quase três séculos abandonadas.
Aqui há anos uma empresa industrial iniciou, no Mistério da Silveira, a construção de um campo de golfe, que não chegou a concluir. Os terrenos, depois de revolvidos, lá ficaram e estão sem aproveitamento.
Mais do que uma vez referi, nas minhas crónicas, a necessidade da conclusão do campo de golfe. Continuo a pensar que se trata de uma estrutura indispensável ao desenvolvimento do turismo na ilha do Pico. Seria algo mais do que um campo de tiro que o Governo construíu no Mistério de Santa Luzia.
Para o campo de golfe não carece de adquirir terrenos porque eles já existem. Prepará-los não será tarefa de muita monta. Segundo julgo, os Serviços Florestais, que administram os mistérios, dispõem da maquinaria necessária para a execução das obras do campo. Construi-lo seria um serviço público prestado à população e, simultaneamente, um aproveitamento interessante daqueles terrenos.
Demais, é só ver aqueles que existem por esse mundo fora, e que a TV nos mostra quase diariamente, onde se realizam torneios desportivos que atraem os magnates da fortuna, pois o golfe é um desporto, principalmente daqueles que beneficiam do privilégio de serem os donos das fortunas mundiais. E, onde há um campo de golfe, lá estão eles, com seus “servidores”, a manejar calmamente o taco e a bola...
O turista não vem praticar qualquer desporto, e a maioria das vezes, nem se interessa pela vigia dos cetáceos, pois, vistos uma vez, não mais interessa.
O golfe é um desporto diferente, selectivo, e que os praticantes “viciados” não mais abandonam.
É preciso rentabilizar os mistérios da ilha do Pico. Nem todos os seus espaços, mas alguns podiam ser urbanizados e neles se promover a construção de edifícios para habitação, comércio ou indústria e outros até arroteados para utilização da agricultura.
A Ilha tomaria outro aspecto e seria mais atractiva, em vez de continuar a ser um espaço selvagem, sem utilidade, quase abandonado...
Não seria proveitoso para a economia da ilha, tomar a sério o aproveitamento dos mistérios e nesse aproveitamento considerar a conclusão do campo de golfe?
Lajes do Pico,
13 de Outubro de 2014

Ermelindo Ávila

quinta-feira, 23 de outubro de 2014

“LOTEAMENTO DA MARÉ”

NOTAS DO MEU CANTINHO


Na edição de 09 do corrente do semanário “ DEVER”, foi publicada a notícia da sessão da Assembleia Municipal, realizada no dia 30 de Setembro e nela se alude o Loteamento da Maré.
No mesmo texto se anuncia que “Após a aprovação por parte da Assembleia Municipal, seguir-se-á um período de apreciação e discussão pública sobre o mesmo”
Ao que julgo, trata-se do “Serrado de São Pedro”, onde está instalado há anos o “Parque de Campismo” e onde devia ter sido construído o edifício para a Escola Secundária, arredado da Vila, incompreensivelmente !...

O terreno é vasto e o loteamento vai permitir, concerteza, um aproveitamento racional do mesmo. Mas, nada se refere ao bairro anexo, onde se encontra a mais antiga igreja-ermida da ilha do Pico.
Na frente da ermida há um arruamento que se desenvolve para Norte e Sul. Em 1883, era a Rua de São Pedro, assim se denominava, onde viviam trinta e nove pessoas, em nove habitações. Hoje é muito diminuto o número de pessoas que lá residem e, mesmo assim, só no lado Norte e em habitações bem conservadas. As casas do lado Sul estão em ruínas, menos aquela onde funciona a Rádio Montanha, junto da ermida.
O estreito arruamento ainda lá existe e deve ser conservado como fazendo parte do património da vila.
Trata-se da zona mais antiga do burgo, aquela que se “desenvolveu” junto da pequena igreja e onde, naturalmente, habitou Frei Pedro Gigante, capelão dos povoadores e primeiro pároco da ilha.
Um pouco além, para Leste, existia a rua da Barra, que ficava a Norte da antiga “casa da escola”, depois oficina do Mestre António Fonseca, e que desapareceu com a construção do actual edifício da Escola Secundária. Não possuía habitações essa ruela e, pelo centro, corria uma grota que escoava as águas das ruas da vila e que ia vazar na lagoa da Maré.
Toda aquela zona foi completamente alterada com a construção da rua da Ladeira ou Rua Arantes e Oliveira, já que outro nome não lhe foi atribuído...
Ainda existe um troço empedrado, com “calçada à romana”, da antiga Ladeira da Vila. Nele ainda se descobriam, aqui e ali, os sulcos deixados pelos carros de bois que ali, diariamente, transitavam. O mesmo se verifica no que restou da antiga calçada da Maré, por fora da actual muralha de suporte da nova rua.
Num pequeno espaço, junto da habitação que pertenceu aos pais do P. Manuel Vieira Feliciano e que, depois, foi de Manuel Ermelindo dos Santos, existe um poço de maré que servia a população que habitava na Ladeira. O “bocal” que o protegia, está destruído. Importa restaurá-lo. É que os poços de maré são marcos históricos da vivência dos habitantes das Lajes. Ainda existem três ou quatro que não podem, nem devem ser abandonados. O da “Rochinha”, hoje incorporado na urbanização do antigo Juncal, devia ter uma placa: “Poço do contrabando”. (Já contei a história e não vou repeti-la). Faz parte da história lajense. Pois se ainda existe, a chegar ao “Meio da Vila”, como era conhecido o actual Largo General Lacerda Machado, a antiga “Rua do Poço”, hoje Rua Pe. Manuel José Lopes!...
A zona de São Pedro não pode nem deve desaparecer. Foi a primeira habitada, muito embora Fernão Alvares, primeiro homem que aportou à ilha, se tivesse ficado pela Ribeira da Burra e que, primitivamente, era conhecida pela Ribeira de Fernão Alvares. Uma história também já aqui narrada.
O chamado “Loteamento da Maré” não é fácil. Há que respeitar a tradição histórica da zona e conservar o que ainda existe.
As velhas casas da rua de S. Pedro, hoje em ruínas, devem ser restauradas e conservadas, dando-lhes a aplicação mais conveniente.
Que nada mais se construa na avoenga vila, como alguns a tratam, mas que ao menos se conserve aquilo que faz parte e dá continuidade à sua história de quase seis séculos.

Vila das Lajes do Pico
14 de Outubro de 2014

Ermelindo Ávila 

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

D. ARQUIMÍNIO RODRIGUES DA COSTA,BISPO EMÉRITO DE MACAU

NOTAS DO MEU CANTINHO

D. ARQUIMÍNIO RODRIGUES DA COSTA
BISPO EMÉRITO DE MACAU

No dia 6 do corrente celebrou o 65º aniversário da ordenação sacerdotal, o Bispo Emérito de Macau, D. Arquimínio Rodrigues da Costa.
Nascido na freguesia de S. Mateus, desta ilha, em 8 de Julho de 1924, ingressou no Seminário de Macau em 8 de Dezembro de 1938. Segundo me informou, quando há anos o encontrei em Macau, Mons. Manuel Teixeira, professor do Seminário e Historiador, D. Arquimínio foi o aluno mais inteligente e dedicado que lhe passou nas aulas.
Ordenado sacerdote, depois de um curso brilhante, foi nomeado professor de diversas disciplinas nos dois seminários –maior e menor – e Prefeito de estudos do Seminário Menor, sendo, depois, nomeado reitor do Seminário, em 15 de Fevereiro de 1955, em cujo cargo está pouco tempo, pois no ano seguinte, vem de licença graciosa aos Açores, mais propriamente à terra natal, a Ilha do Pico, e daqui segue para a Universidade Gregoriana, em Roma, onde faz, brilhantemente, o Curso de Direito.

Voltando a Macau, depois de concluído o curso universitário, é novamente nomeado Reitor e professor de várias disciplina.
Aquando do Concílio Vaticano II, substitui o Bispo da Diocese, D. Paulo Tavares, como Governador do Bispado, passando, em 1968, a reitor do Seminário Maior de Hong Kong.
Com o falecimento de D. Paulo, é eleito Vigário Capitular de Macau. A seguir vem aos Açores celebrar as Bodas de Prata sacerdotais e, no regresso, é nomeado Bispo de Macau, a 21 de Janeiro de 1976.
Dom Arquimínio continua a ocupar o seu pequeno quarto no Seminário,
O P. Tomás Bettencourt Cardoso, que teve o grande mérito de recolher, ao longo da sua estada na Diocese Macaense, como professor do Ensino Secundário, os textos de todos os Bispos açorianos que governaram aquela Diocese, durante o Século XX, escreve no que se refere a D. Arquimínio: “Padre - Bispo. Quando foi eleito, uma empregada do Seminário de S. José, passou a chamar-lhe Sanfou Chi Cau (Sanfou padre, Chi Cau –bispo)” .
É que ele não modificou em nada o seu modus vivendi. Continuou a residir no Seminário, aqui ao lado, num quarto modesto, como este em que me encontro. Em metros lineares,4 por 4.”
A propósito da promoção a Bispo de Macau, escreveu Dom José da Costa Nunes, já então cardeal da Santa Igreja :
A Diocese de Macau acaba de ser provida de Chefe na pessoa do Pe. Arquimínio. Acertadíssima nomeação. O nomeado não é do mesmo parecer. Deve estar aterrado com o sucedido, mas dentro de pouco conformar-se-á. Sem dúvida levará a efeito uma obra de valor, mas, possivelmente, ficará na História como último Prelado do Padroado do Oriente. -J. C. Nunes (23.01.1976)”
E ficou, de facto, na História.
Em 1983, vem de férias aos Açores e preside à Sagração da Igreja Matriz das Lajes do Pico. Depois volta a Macau.
Entretanto, em 10 de Junho de 1984, é agraciado com o grau de Grande Oficial da Ordem de Benemerência, pelo residente da República Portuguesa.
Em 13 de Setembro de 1986, a Universidade da Ásia Oriental de Macau confere-lhe o titulo de Doutor “Honoris Causa” em Filosofia; em 7 de Novembro de 1988 o Presidente da República Portuguesa condecora-o com o grau de Grã-Cruz da Ordem de Mérito.
A Santa Sé havia já aceitado o pedido de resignação do Senhor D. Arquimínio de Bispo de Macau, sendo substituído pelo bispo Coadjutor D. Domingos Lam.
D. Arquimínio Rodrigues da Costa regressa ao Pico, após a resignação, mas não deixa de voltar algumas vezes ao oriente a presidir a Conferências Episcopais, por solicitação e insistência dos Bispos respectivos.
Enquanto a saúde lhe permitiu, D. Arquimínio prestou as mais relevantes ajudas ao clero do Pico, confessando, pregando, celebrando e até servindo de organista quando o titular faltava. Por delegação do Bispo da Diocese administrou o crisma em diversas paróquias e por alguns anos.
Em Junho de 2012, a Assembleia Regional dos Açores atribui-lhe a Insígnia autonómica de reconhecimento. Nesse mesmo ano, no dia 6 de Agosto, Festa do Bom Jesus, é descerrado um busto, em sua homenagem, no adro da Igreja do Santuário um busto, oferecido pela Junta de Freguesia de São Mateus.
Mas, a doença chegou. Hoje é um enfermo, um santo enfermo, retido no leito da sua casa de São Mateus e entregue aos cuidados e carinhos familiares. Mesmo assim o clero do Pico não deixa de o visitar e assistir, e foi com sentimento e brilho que, no dia 6 celebrou com D. Arquimínio, os 65 anos de vida sacerdotal do notável e benemérito Homem do Pico e da Igreja.
Tive sempre por D. Arquimínio um respeito muito sincero e uma veneração muito elevada e sei e senti que ele me dispensava com muito carinho a sua benevolente amizade.
Justas, pois, as palavras respeitosas que aqui deixo a recordar uma vida tão operosa e benéfica como foi a do ilustre Bispo Picoense. Um Bispo de que o Pico muito se orgulha. O Última de uma geração que, durante o século XX, andou pelas terras do Oriente, em Macau, Timor, Goa: o Bispo Dom João Paulino de Azevedo e Castro, o Cardeal D. José da Costa Nunes, o Bispo Dom Jaime Garcia Goulart, o Patriarca Dom José Vieira Alvernaz, e o Bispo D. Arquimínio R. Costa, de facto o último, como vaticinou D. José da Costa Nunes.
Mas, durante o século passado, dois bispos micaelenses também andaram pelo oriente; o Bispo Dom Paulo Tavares, Bispo de Macau, onde faleceu, a 14 de Junho de 1973 e D. Manuel de Medeiros Guerreiro, primeiro Bispo de Miliapor e, depois, em Nampula - Moçambique, vindo a falecer à sua terra natal, a Lagoa.
_________

As notas biográficas aqui referidas foram recolhidas, com a devida vénia, do livro: Texos de D. Arquimínio Rodrigues da Costa, Macau, 1999, coordenação do Pe. Tomás Bettencourt Cardoso,

Lajes do Pico, 6 de Outubro de 2914.

Ermelindo Ávila

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

ANO NOVO...

A MINHA NOTA



Dois meses mais e o ano de 2014 estará no fim. Há cem anos a Nação vivia períodos atribulados, provocados pela abolição da Monarquia, que vinha de quase oito séculos, e pelo periclitante sistema republicano implantado cinco anos antes.
O regime parlamentarista, então estabelecido, era instável. Os governos sucediam-se, constantemente, e as revoluções eram quase uma prática diária. O sistema financeiro atravessava períodos graves que, aliás, já vinham da Monarquia.
Em 18 de Agosto de 1911, era aprovada pela Assembleia Nacional Constituinte, a nova Constituição que não evitou a instabilidade governativa e as escaramuças entre os partidos. E até, - pasmai!...- dentro dos próprios partidos!...
A Assembleia funcionava em contínuos sobressaltos e até em lutas agressivas entre os próprios deputados. Nem faltou o assassinato do Presidente da República Sidónio Pais, em 14 de Dezembro de 1918, e do qual Egas Moniz havia de dizer: “Homem cheio de virtudes e extraordinárias qualidades que um desvario messiânico perdeu”.
E foi nesta atribulada situação que surgiu a ditadura militar inteiramente entregue nas mãos dos militares, com um comando de baixo para cima, na expressão de um jornalista francês. (José Hermano Saraiva, in “HISTÓRIA concisa DE PORTUGAL”)
*
Parece que o País voltou aos primeiros anos da República. Não há, felizmente, revoluções armadas mas as manifestações de rua são contínuas. Os governos, apoiados nos partidos vencedores, não conseguem manter a estabilidade normal de um sistema democrático que foi a esperança dos portugueses.
As reformas implantadas são desastrosas e só estabelecem o pânico e empobrecimento da Nação. Dá-se o encerramento de estabelecimentos comerciais e industriais. Encerram-se serviços. Cresce o custo de vida. Consequentemente, surge um desemprego assustador. A juventude mais afoita emigra para qualquer parte onde encontre trabalho. Aqui há dias, a comunicação social trouxe a público o caso de uma licenciada numa Universidade que trabalhava em serviço de limpeza por não encontrar outro meio de vida para prover o seu sustento !...
Encerram as escolas, por falta de frequência. Centralizam-se os serviços judiciais, daí resultando a situação anárquica em que se encontra a Justiça, a dar fé pelo que os noticiários diariamente nos informam... Fecham-se os serviços de saúde, obrigando os doentes a procurar alívios em estabelecimentos situados a dezenas ou centenas de quilómetros de distância. Além disso aumentam-se as taxas moderadoras e diminuem-se os reembolsos aos doentes. Encerram-se os bancos e provoca-se a bancarrota com o “desaparecimento” das economias familiares. De tudo resulta a confusão económica que só provoca a fome e a miséria.
Há “buracos” por toda a parte e o país não consegue encontrar solução para os seus múltiplos problemas financeiros, sociais e económicos que atrofiam a vida dos portugueses.
Aparece uma Troika que, não conhecendo embora o País, impõe ao governo medidas desastrosas e asfixiantes como garantia do financiamento para que Portugal pudesse saldar o deficit internacional. Uma situação dramática com reflexos perniciosos em todos os sectores das vidas pública e particular.
E é nesta situação dramática que Portugal vai entrar em 2015 !...

Lajes do Pico,
Outubro de 2014
Ermelindo Ávila


A ERMIDA DAS TERRAS

NOTAS DO MEU CANTINHO




Vai caminhando para meio século de existência a Ermida do Imaculado Coração de Maria, vulgarmente conhecida por ERMIDA DAS TERRAS.
Como qualquer outro evento também tem a sua história. Há muito que representava uma necessidade flagrante, pois o lugar das Terras, subúrbio da vila das Lajes, constitui um núcleo habitacional com mais de duas centenas de habitantes.
Apesar da distância que a separa da sede da Paróquia, o povo das Terras foi sempre o primeiro a estar presente nos actos religiosos que se realizavam na Matriz, como ainda hoje acontece com as solenidades litúrgicas mais relevantes. Daí a necessidade da construção de uma ermida onde pudessem realizar os acto de culto. Foi em 3 de Abril de l970 que o então Ouvidor das Lajes (no tempo ainda existiam em funcionamento as três seculares ouvidorias do Pico...) procedeu à Bênção solene da nova ermida, por comissão do Bispo da Diocese, D. Manuel Afonso de Carvalho. Quase meio século é decorrido.
O primeiro casamento realizado na Ermida, construída em terreno doado por Luiza Silveira Furtado, foi celebrado em 31 de Outubro de 1970.
Os nubentes foram Manuel Moniz Cardoso Soares, natural daquele lugar e Maria Luiza Silveira, neta da doadora do terreno, onde foi implantada a ermida. É natural de Santa Bárbara mas, felizmente ambos encontram-se vivos e residem no lugar das Terras.
O primeiro baptizado, celebrado naquela ermida, no dia 3 de Agosto de l975, foi de um filho de José Adelino dos Santos Fagundes e de Maria de Fátima Simas Fagundes, natural da vizinha freguesia das Ribeiras e residentes também nas Terras. Recebeu o nome de Marco Aurélio.
É tradição realizar-se num dos domingos de Setembro a festa da titular, Imaculado Coração de Maria. Uma festa largamente concorrida e em cujo arraial aparecem normalmente muitos habitantes da vila.
Há imensas ofertas para arrematação a favor da ermida, sobressaindo as de batata-doce, um tubérculo originário da América e por cá muito apreciado.
No presente ano, a festa da titular da ermida das Terras, uma das mais esbeltas da ilha e com capacidade razoável para a população do lugar, vai realizar-se, com o mesmo entusiasmo e respeito de sempre, no dia 12 do corrente mês.
Creio que, em anterior nota já fiz referência circunstanciada ao lugar das Terras da antiga freguesia e paróquia da Santíssima Trindade, hoje somente das Lajes do Pico, ao modus vivendi do seu laborioso povo. Volto ao tema, sempre aliciante e oportuno, pois trata-se de um núcleo populacional em contínuo progresso. Excelentes moradias e uma vida social muito diferente daquela que se conhecia aqui há cinco ou seis dezenas de anos.
Perdeu a escola primária, por motivos demográficos, mas o respectivo edifício, construído de raiz, está entregue ao grupo do Corpo Nacional de Escuteiros, que lhe dá boa aplicação.
No centro do lugar, formando um núcleo importante de urbanização, conjuntamente com a ermida, foi construído um grandioso e óptimo edifício para sede da Sociedade Recreativa Alegria no Campo que tem fins recreativos, culturais e sociais. Ali convivem as pessoas do lugar, realizam as suas festas familiares e é no vasto salão, um dos mais amplos e esbeltos da ilha do Pico, onde são servidos, de cinco em cinco anos, os jantares do Espírito Santo, durante as chamadas “Domingas”, no seguimento de uma tradição que é quase única na ilha e que as famílias vêm mantendo, embora com sacrifício, mas com entusiasmo e respeito. Mas, normalmente, ali se servem as “Sopas do Espírito Santo” por motivos votivos dos residentes ou dos emigrantes que, para cumprir promessas, voltam à terra-mãe.
Como atrás referi, as habitações, na generalidade, foram modernizadas. Desapareceram os tradicionais carros de bois e quase todas, senão todas, as habitações possuem veículos motorizados como, afinal, está acontecendo em quase toda a ilha.
Um lugar pacífico onde não se conhecem causas dirimentes judiciais.
Localmente, não existe comércio de qualquer espécie. Mas as Terras tem uma Lavoura desenvolvida, que permite às suas laboriosas gentes um viver desafogado e feliz, dos melhores da ilha.
E por aqui fico, com uma saudação amiga e fraterna, ao povo das Terras como é conhecido.

Vila das Lajes do Pico,
Outº, de 2014
Ermelindo Ávila.


A ÁGUA

NOTAS DO MEU CANTINHO



A água foi sempre um elemento vital para o homem.
Quando os povoadores aqui aportaram, meteram-se por terra dentro à procura de poços de água. Só a encontraram nos poços das ribeiras. Daí, Fernão Alvares Evangelho, quando ficou abandonado na ilha, caminhou por entre montes e valados e descobriu a ribeira que havia de ficar denominada “ribeira de Fernão Alvares”, até que mais tarde foi designada por “ribeira da burra”, ali ao saínte da vila, e no princípio da Ribeira do Meio.
Confirmando esta tradição, conservou sempre o nome de Ribeira de Fernando Alvares a que, desde algumas dezenas de anos, estupidamente se chama da burra fazendo-se desaparecer da toponímia local uma expressão que representava apreciável vestígio histórico e veneração em memória do primeiro povoador, fundador da vila.” (1)
Como a ilha é falha de água nativa, colhiam-na das árvores, praticando um sulco em volta do tronco, com certa obliquidade relativamente ao eixo e no ponto mais baixo, com uma folha de árvore, improvisavam uma bica, por onde a água da chuva corria em cabaças e tinas.(...) As quartas de água, as bilhas, cântaros e infusas, foram substituídas pelos potes, canecas e canequinhas de cedro, ainda em uso...”(2) Isso hoje não seria possível, pela inexplicável proibição do uso do cedro que continua a abundar na ilha...
A partir de certa época, apareceram os oleiros a utilizar o barro, importado de Santa Maria.
Mais tarde, todas ou quase todas as habitações passaram a ter cisternas onde era recolhida a água para uso doméstico. Se construídas no campo eram providas com eirado. Algumas tinham os eirados com elevação ao centro. Daí serem conhecidos como “tanques de burra”. A maioria era junto das habitações e recebia a água que caía nos telhados.
Mas a carestia da água foi sempre um sério problema até meados do século passado. Utilizava-se nas cozinhas a água salobra extraída dos poços que, entretanto, se foram abrindo. Na vila das Lajes, quase todas as casas de moradia tinham poços de maré, como eram conhecidos. Havia-os, e ainda existem alguns poços públicos: na Maré, junto da ermida de S. Pedro e na Rochinha, junto ao actual Jardim da Baleia, na Pesqueira. Mas o mais procurado era o poço da Ribeira do Meio donde se extraía, com certas marés, água bebível que até servia para a lavagem de roupas. O mesmo acontecia com a água que brotava do muro da Mouraria.
Na vila das Lajes ainda existe uma rua vulgarmente conhecida por “Rua do Poço”. Mas o poço desapareceu “milagrosamente”, absorvido por uma construção efectuada no século XIX... Ficou a denominação...
Em outros lugares, como nas Terras, quase até às pastagens, utilizava-se a água que ficava nas ribeiras, quando estas corriam, depois de grandes chuvadas.
Depois veio-se a descobrir algumas fontes, nas zonas altas, que passaram a ser aproveitadas para uso culinário, e das quais ficou, junto à costa da Silveira, a Fonte, cuja análise laboratorial indica ter composição medicinal. A do Lendroal, que existia num terreno baldio adquirido, em leilão, por um particular, veio a ser expropriada pelo Município, nos anos sessenta, para ser utilizada na rede pública domiciliária que, entretanto, foi instalada.
No interessante trabalho As Lavadeiras, Suas Lidas e Maluqueiras a sua autora informa quais eram os locais, neste lado Sul da Ilha, que as populações utilizavam para a lavagem de roupas:
...a freguesia das Ribeiras, assim chamada por ser notório grande número de ribeiras ali existentes... Nas Lajes, recordo-me da Mouraria... Próximo do Portinho, durante a maré baixa, também corre um torno de água doce. Na Maré, ao lado do poço, havia uma pia que era outro local de lavar. Na Ribeira do Meio havia o poço de água salobra com uma área de lavar ao lado. Ainda lá existe. Na Silveira havia a Fonte ...e muito próximo o pólo do Rego. (3)
O Poço da Aguada, junto da casa do Beleza, na Silveira, ainda existe. E tantos outros poços, por esse Pico fora, cuja água servia, igualmente, para a lavagem de roupas.
Nos primeiros tempos do povoamento, recolhia-se, como atrás se indica, transcrevendo Lacerda Machado, a água da chuva. Ainda conheci grandes talhões de barro onde ela era armazenada somente para ser utilizada em casos de doença, como me dizia minha bisavó: Quando queríamos fazer um chá de ervas para algum doente, íamos a casa do Sr. Joaquim Maria, pois ela tinha grandes talhões onde guardava a água da chuva. Ainda conheci dois desses talhões.
Felizmente que tudo se modificou na década de sessenta do século passado. Estudos preliminares permitiram abrir furos artesianos, de dezenas de metros de profundidade, e colher a água que passou a ser distribuída pelas redes subterrâneas, entretanto instaladas. E hoje todas as habitações da ilha, salvo erro, dispõem de água canalizada, própria para consumo.

___________
1) Machado, D.S. Lacerda Machado, na “História do Concelho
das Lages”. 1936, pag.s 79/80
2) Ibidem
3) Simões, Maria Fernanda, “As Lavadeiras, Suas Lidas e Maluqueiras” E.U.A. 2008, pág.13-14

Lajes do Pico, 30-09-2014

Ermelindo Ávila

quinta-feira, 11 de setembro de 2014

NAUFRÁGIOS

A MINHA NOTA


Muita gente naufraga na vida. É bom quando esse “cataclismo” é somente individual. Quando arrasta outros, é muito penoso de suportar e normalmente deixa chagas profundas, quando não mortíferas.
Mas hoje não quero “descer” aos naufrágios individuais - colectivos. Antes quero referir-me àqueles que mares atlânticos arrastavam vidas e haveres: os naufrágios marítimos, e não poucos foram no decorrer dos séculos.
No seu caminhar por esses mares “nunca dantes navegados”, quantas caravelas não ficaram no fundo dos mares atlânticos!... Dizem que a baía de Angra onde, geralmente, aportavam as naus do Infante nas suas rotas marítimas, muitas delas acabavam por ficar nos fundos da baía e que hoje ela é um depósito precioso de riquezas da Índia.
Mas não só na baía de Angra aconteceram naufrágios das caravelas, que ali chegavam cansadas e quase destruídas das longas viagens.
Os naufrágios sempre aconteceram. Ainda hoje se recorda o do “Titanic”, que tantas vias ceifou nos mares entre a América, para onde se dirigia e a Europa. Foi, de certo, o mais aparatoso do século XX. E aqueles que as guerras provocaram?!... Nos mares dos Açores vários aconteceram.
O malogrado escritor Amílcar Quaresma, numa série de notáveis artigos publicados no semanário “O Dever” e que, depois, reuniu em volumes sob o título único de “Maresias”, relata-nos alguns desses naufrágios, principalmente de iates picoenses e de lanchas do Canal. A ele me reporto com a devida vénia e com a minha sincera homenagem pelo excelente trabalho que nos deixou.
No primeiro volume, relata-nos o naufrágio do “Caroline”, um Clipper na Rota do Salitre, e que naufragou no dia 3 de Setembro de 1901 no canal Pico-Faial, no mar da “Meia-Broa”, costa do Pico. Era uma barca de quatro mastros, construída em aço. O acontecimento, decorrido mais de um século, está a merecer a atenção dos governantes portugueses.
No dia 14 de Março de 1910, dá-se, no porto da Madalena, a tragédia do “Amigo do Povo”, barco de boca aberta e de doze toneladas de arqueação. Seguia viagem para a Horta, levando carga diversa e 57 pessoas, das quais 28 morreram. Uma tragédia que enlutou uma grande parte das famílias da Fronteira. Serviu de necrópole acidental a Matriz da Madalena que recolheu os cadáveres dos falecidos na tragédia.
Na costa do Lagedo, Flores, dá-se o encalhe do “Savónia” a 10 de Junho de 1909. Ninguém pereceu mas o barco lá ficou e, os seus pertences estão espalhados pelas ilhas dos Açores.
A “Patriota”, uma chalupa de 19 metros de comprimento, construída em 1925, encalhou, na Baía da Areia na noite de 27 de Setembro de 1926, e ficou totalmente destruída. Era seu proprietário Manuel Joaquim Ávila que, na construção, despendeu 80 contos de reis.
Para afastar os iates do Pico do tráfego entre as ilhas açorianas a Empresa Insulana de Navegação, detentora do tráfego Lisboa-Madeira-Açores, com os navios “Funchal” e São Miguel” substituídos pelo “Lima” e “Carvalho Araújo”, pôs ao serviço do tráfego nos Açores, o “Arnel” e o “Cedros”. O primeiro navegou poucos anos pois encalhou, na noite de 19 de Setembro de 1958 na Baía dos Anjos, em Santa Maria, morrendo 14 pessoas. O navio ficou totalmente destruído e foi abandonado pela Empresa proprietária.
Em 17 de Janeiro de 1969 afundou-se junto do Ilhéu da Praia, na Graciosa, o cargueiro “Terceirense” da E.I.N.. Não fez vítimas, mas toda a carga e equipamento – podia transportar 12 passageiros – se perdeu.
Nos anos vinte, encalhou na Ponta da Prainha do Galeão um cargueiro americano, que viajava da América para a Europa. Não houve vítimas, mas o barco ficou destruído e naufragou. A Alfândega tomou conta do caso e procedeu à arrematação dos salvados. Recordo que a primeira máquina de escrever pertenceu àquela barco e veio para um comerciante desta vila. Foi a primeira máquina de escrever existente nesta zona do Pico. Não sei se ainda existe. Outros haveres foram arrematados pelos picoenses e sucateiros que acorreram ao Pico para adquirir muitos dos salvados. Ainda na década de sessenta conheci um negociante que, com mergulhadores especializados, retirou do fundo do mar muito ferro daquela naufragado navio.
Agora recorda-se o naufrágio do “Cartoline”. Ainda bem!
Lajes do Pico,
Agosto de 2014
Ermelindo Ávila


SEMANA DOS BALEEIROS

NOTAS DO MEU CANTINHO


É agradável para os lajenses viverem estas semanas de Agosto. São as suas semanas maiores, porque nelas se realizam as suas maiores festas do ano.
Em suas casas recebem os familiares que, durante o ano, por razões diversas, estão ausentes. Nas ruas da vila, de momento a momento, encontra-se cara diferentes e, além, delas, amigos e conhecidos que aqui vieram para tomar parte nas suas festas.
É todo um ambiente de amizade, de alegria, de bem-estar numa confraternização contínua que retempera e tonifica.
Recordam-se épocas passadas, amigos que já partiram, acontecimentos que ficaram na história, embora não escrita, mas nas memórias das gentes.
É pois, repito, agradável e saudável, viver estes dias na velha vila picoense, normalmente triste e misantropa, recordando o seu passado de vivências várias, umas alegres e felizes, outras menos risonhas, consoante o estado de espírito de cada um.
Uns recordam com um misto de saudade as antigas festas, embora externamente reduzidas ao sábado da véspera. Mesmo assim não esquecem a noite de concertos, iluminação e fogo preso. E, a propósito deste, há quem ainda se lembre da “batalha” entre o castelo e os soldados, duas peças de bonito efeito.
Normalmente, os concertos tinham a colaboração de uma banda da Horta que aqui chegava ao principio da tarde do sábado, viajando a bordo de uma das antigas lanchas dos Lourenços que, durante as festas, ficava na Lagoa aguardado o regresso da banda, ou Artista Faialense ou Artista Flamenguense, na tarde do domingo, depois da Procissão. Esmeravam-se as bandas, incluindo a “Liberdade Lajense” por executar peças de autores clássicos sendo largamente aplaudidos os solos de cornetim ou trompete e de clarinete.
E falando da Procissão é de recordar o espectáculo que era o queimar de algumas grosas de foguetes, na Ponta do Caneiro, enquanto o andor da Veneranda Imagem de Nossa Senhora de Lourdes, ia percorrendo as canoas baleeiras, cerca de vinte, postadas em frente ao porto e de velas alçadas, se o vento permitia. Mas, não somente na Pesqueira, pois as armações da Ribeira do Meio, situadas, como ainda estão, ao norte da Lagoa, também queimavam algumas dúzias de foguetes à passagem do andor, muito embora já o tivessem feito na Ponta do Caneiro.
Outros, mais novos, têm presentes as festas externas que se iniciaram com a criação da “Semana dos Baleeiros”, em 1983, ano em que se comemorou o primeiro centenário da instituição da Festa de Nossa Senhora de Lourdes.
A “Semana do Baleeiros” tem continuado, embora com programas mais voltados para os espectáculos nocturnos, recreativos, que, aliás, são bastante do agrado da juventude.
A parte cultural, com a série de conferências, foi assim praticamente substituída, não deixando a “Semana” de ter os seus atractivos.
A caça à baleia foi proibida e deixou de praticar-se. No entanto, o que não se pôde proibir é que o povo celebre a sua “Semana dos Baleeiros” com alegria recordando, com saudade, embora, os tempos passados.
As Lajes não deixará de ser a vila baleeira única no Arquipélago e os lajenses, embora muito poucos hajam praticado a arriscada arte, porque era uma verdadeira arte, jamais deixarão de ser baleeiros de tradição e de sangue.
Estamos a viver as festas das Lajes, as suas maiores festas.
Que todos, naturais, residentes ou visitantes as gozem com alegria e que a Senhora de Lourdes, Padroeira dos lajenses, a todos prodigalize as maiores felicidades.

Semana dos Baleeiros de 2014

Ermelindo Ávila  

ERMIDAS E CAPELAS

Notas do meu cantinho

O Pico, desde o seu início ou povoamento, praticou intensamente a religião católica. Nem que tivessem de atravessar a serra ou os baldios para vir às Lajes, primeira povoação da ilha, para se casarem ou baptizarem.
Sabido é que o primeiro templo foi a actual ermida de São Pedro que, na vila das Lajes, serviu de igreja Paroquial de toda a Ilha, enquanto não se construiu a antiga Matriz no princípio do século XVI.
Depois foram aparecendo outras ermidas. Só na paróquia da Santíssima Trindade, além da igreja do convento franciscano, já no seculo XVIII, surgiu a ermida de São Sebastião-o-velho, ao cimo da Almagreira, mais tarde transferida para S. Sebastião, na Ribeira do Meio. De remota era a ermida dos Remédios, demolida a meados do século passado, por se encontrar totalmente arruinada.
Presentemente, existe na Almagreira a igreja-ermida da Rainha Santa Isabel.
Após os sismos de 1718 e 1720, foi reconstruída a igreja da Misericórdia que, decorrido um século, já estava em ruínas.
Resta a ermida de Santa Catarina, num promontório à saída da vila, e que durante centenas de anos esteve ao cuidado da família do antigo morgado.
Ainda pertencente à paróquia da SS.ma Trindade foi construída, nos anos 70, a ermida-igreja do Coração de Maria, no lugar das erras, subúrbio da vila das Lajes.
Tanto na ermida da Almagreira, como na das Terras, exerce-se o culto, quase semanalmente.
Outras ermidas há na área da antiga Ouvidoria.
Nas Ribeiras, existe a secular ermida da Senhora do Socorro, que já serviu de paroquial em Santa Bárbara.
Recentemente, foi construída no Caminho de Baixo das Ribeiras, uma pequena ermida na qual as paróquias de S.ta Cruz e de S.ta Bárbara exercem o culto.
No lugar das Pontas Negras, foi construída, a meados do século passado, uma boa igreja/ermida dedicada a Nossa Senhora de Fátima, onde é exercido o culto, semanalmente, para os paroquianos de Pontas Negras e Ribeira Seca.
No lugar da Ribeira Grande desta freguesia, foi construída uma ermida dedicada a São João Baptista.
Nos Fetais da Piedade, no último século, foi construída uma pequena ermida, dedicada a Santo António, que serve a população local. Na Manhenha, da Piedade existe, de longa data, a ermida de São Tomé onde é venerada e festejada também Nossa Senhora das Mercês. No Calhau da mesma freguesia existe a ermida de Nossa Senhora da Conceição, presentemente restaurada e que data do século XIX.
No mesmo lugar foi construída, há anos, uma pequena ermida dedicada a Nossa Senhora da Boa Viagem.
Na Paróquia da Ribeirinha existe há anos, no sítio da Baixa, uma ermida dedicada ao Apóstolo São Pedro.
Na freguesia da Piedade vai ser inaugurada no dia 14, no lugar da Engrade, uma nova ermida dedicada a São João Paulo II, construída pelos habitantes e veraneantes daquele lugar. Uma pequena ermida onde não faltam as alfaias litúrgicas necessárias uma celebração eucarística.
Fica assim muito valorizado o património católico edificado da zona e da própria Ilha do Pico.
Engrade, Setembro de 2014
Ermelindo Ávila



FESTAS MAIORES

A MINHA NOTA



Todas as localidade celebram as suas festas maiores. Normalmente, são as festas dos Padroeiros ou dos santos de maior devoção. E nisto estou somente a referir as festas de carácter religioso, pois outras se realizam sem que haja qualquer referência à religiosidade local. É o caso da Maré de Agosto, da Semana do Mar, do Cais Agosto, ou da Festa do Chicharro.
Mas, nesta ocasião, refiro somente as solenidades religiosas que se celebram com mais ou menos brilhantismo nas diversas paróquias da Ilha. Ontem, foram as festas de Santa Maria Madalena, depois a do Senhor Bom Jesus Milagroso, em São Mateus, na Calheta de Nesquim e, agora é do orago São Roque. No fim do mês, Nossa Senhora de Lourdes, nas Lajes do Pico.
Na generalidade, em todas elas os católicos, e não somente, primam por fazer das suas festas as melhores de todas no desejo de as tornar atrativas dos forasteiros.
E bom será, enquanto as populações se interessarem pelas festas das suas terras, sinal de que o espírito religioso e cristão não desapareceu da ilha.
Em tempos passados, quando a ilha não dispunha de estradas mas somente de caminhos rurais, que não permitiam o trânsito automóvel, as pessoas deslocavam-se a pé para as freguesias mais próximas, a fim de assistirem às festas locais e aos respetivos arraiais. E a festas consistiam, geralmente, de Missa solene, cantada, procissão e arraial abrilhantado por uma filarmónica, quando esta existia na própria freguesia ou nas freguesias próximas. Uma ou outra festa incluía um arraial nocturno, com um concerto pela filarmónica e fogo preso. O fogo vinha, com a devida antecedência, nos barcos do Pico, construído pelos pirotécnicos que existiam na Ilha Terceira. Mais tarde, fixou-se no Pico o pirotécnico MAMEDE que passou a fazer fogo de artifício de excelente qualidade e não menor efeito. A iluminação era feita com candeeiros com velas, pois, nesses tempos, a electricidade ainda cá não chegara. E a que trabalhos obrigava essa primitiva iluminação! Durante semanas, nas tardes dos domingos, grupos de senhoras, reuniam-se para restaurar as lanternas, com papel transparente e de diversas cores pois, nos arraiais, muitas lanternas ardiam.
Em certa ocasião, dizia-me uma Senhora que vivia numa das freguesias do Sul do Pico: Eu, com meu marido e os nossos filhos vamos a todas as festas e arraiais das vizinhanças, pois não temos outros divertimentos ou distrações.
Hoje, como acima escrevo, é tudo tão diferente. A facilidade de transportes, algum desafogo económico, o estilo que se imprimiu aos festejos, com programas excepcionais de cultura e recreio, atraem, normalmente, grande número de forasteiros, principalmente, a juventude.
Mas as festas maiores dos Açores são as Festas do Espírito Santo, que têm lugar na época do Pentecostes e que juntam milhares de pessoas. Ainda no corrente ano, num notável trabalho de investigação realizado pelo Jornal do Pico, nos tradicionais jantares do Espírito Santo devem ter-se reunido mais de vinte mil convivas, além dos muitos milhares de pães, rosquilhas e vésperas distribuídos não só as pessoas que estão nos «Impérios«, mas igualmente aqueles que por eles passam.
E, no presente ano, estão a terminar as festas. Aquelas que faltam realizar que sejam vividas com alegria, ordem e paz.


Povoação,
7-08-2014
Ermelindo Ávila