segunda-feira, 30 de junho de 2008

AS FESTAS DE SÃO PEDRO


(foto: retábulo do altar da Ermida de São Pedro, cuja imagem se encontra ao centro)
Devem ser das mais antigas da ilha, pois a sua igreja (hoje ermida) foi a primeira casa de Deus, onde se realizou o baptizado do primeiro picoense, nascido na ilha, onde teve lugar o primeiro casamento e onde se encomendou o primeiro defunto.
Foi nela que Frei Pedro Gigante celebrou a primeira Missa e consagrou as hóstias produzidas do primeiro trigo que a ilha deu. Uma história linda que até os nossos avós, quase todos desconhecendo as letra do alfabete, sabiam de cor e transmitiam a filhos e netos. Tudo por volta de 1460.
Era solene a festa do orago. Os frades do convento franciscano, enquanto D. Pedro, não extinguiu o convento de Nossa Senhora da Conceição, desta vila, por decreto de 17 de Maio de 1832,(são decorridos 176 anos), deslocavam-se à ermida de S. Pedro para solenizar os actos religiosos.
Em 1677 era mordomo da confraria de São Pedro, o Pe, Pedro Toledo. (Todos os santos de maior devoção tinham a respectiva Confraria, que arrecadava as esmolas e fazia as despesas das festas). Besse ano, a receita da confraria foi de oito mil e trinta reis. Era constituída por esmolas, rendas, um foro, do “tresmalho da rede de peixe do Barco de Francisco Lopes” e de acompanhamentos da cruz em funerais.
Nesse ano a Igreja foi restaurada. As despesas, que no livro de “Receita e Despesa” estão registadas, dizem respeito aos salários dos pedreiro, cal, telha, fretes e carretos, serragem de madeiras, canteiros, pregaduras e varões de ferro, Reformação do Santo. Pregação e Missa da Festa do Santo aos frades, despesas do junco e uma Missa perpetuo por alma de Maria da Cruz
O junco servia para atapetar o chão térreo, pois nessa época as sepulturas eram feitas dentro das próprias igrejas, por ser chão sagrado. Nesse ano o junco custou cem reis.
Pela construção do arco da capela mor, foram pagos aos pedreiros, no ano de 1780, quatro mil e oitenta reis.
Já nos finais do século dezanove, era mordomo João de Deus Macedo, comerciante e pessoa de prestígio no meio, Tanto assim que era o Provedor da Santa Casa, quase perpétuo, e Administrador do Concelho. Tinha grande emprenho nas festas que as Irmandades promoviam. Vale a pena lembrar aqui o que, acerca da Festa, escreveu neste jornal, em 7 de Novembro de 1959, Gilberto Paulino de Castro,” um dos lajenses que, apesar de estar há longos anos afastado desta vila, vivia continuamente os seus problemas e estava sempre presente em todas as iniciativas que visassem o progresso desta terra e a elas jamais furtou o seu apoio”, como estão se escrevia no jornal: Estou a ver a “malta” desse tempo, “engodada” com punhados de alfarroba que o não menos popular e típico João de Deus Macedo, nas vésperas dela (festa) apressado e trepidante, às mãos ambas, arremessava ao formigueiro do rapazio que o seguia até ao largo onde se preparava o arraial (quadrilátero compreendido entre a ‘casa da escola’, a margem Norte da Maré e muros dos quintais dos prédios Sul e Leste) enquanto aquela mocidade esfusiante, assim estimulada, despredregava febrilmente o pavimento enxurrado pelas ‘enchentes’ do último inverno, para que se não molestassem os sapatos de verniz que se ‘espelhariam’ nos vistosos arraiais da véspera e dia de festa”, aos quais não faltava o combate entre o navio e o castelo (peças de fogo de artifício).
No arraial do dia da festa, já quando abrilhantado pela Filarmónica Lajense, distribuíam-se pela assistência rosquilhas de aguardente (de pequeno formato) e na véspera havia vistosa iluminação à veneziana e fogo preso. Mas, com a entrada da República, essas tradições foram caindo no esquecimento.
Em 1940 a Nação Portuguesa celebrou o duplo centenário da Independência e Restauração de Portugal. Promoveram-se pelo País diversas comemorações. O concelho das Lajes, por iniciativa do Município, organizou um programa festivo e nele incluiu o Império de São Pedro, com a distribuição de rosquilhas idênticas às dos Impérios do Espírito Santo. Foi o início. Os lajenses, felizmente, nunca mais deixaram de celebrar a festa com o respectivo Império, Nos últimos anos a Irmandade, alem do Império, começou a distribuir um jantar “do Espírito Santo” em que tomam parte os irmãos, mais de cem, e familiares, além de diversos convidados. Algumas centenas.
Nesse ano de 1940 foi construído e inaugurado no l.º de Dezembro, o Cruzeiro da Independência e Restauração de Portugal, no novo largo, à entrada da Vila, que, felizmente, ainda hoje se conserva para prestígio dos lajenses..
E porque a festa ocorre normalmente em dia de semana – no presente ano é excepção – a Câmara Municipal solicitou superiormente para que o dia 29 de Junho fosse decretado feriado municipal, substituindo o antigo feriado que tinha lugar no dia 15 de Agosto e que, pela Concordata com a Santa Sé, passou a feriado nacional.
Creio que já estas coisas escrevi. No entanto, vale a pena recordá-las como factos históricos cuja memória importa acautelar.

Vila das Lajes,
Junho de 2008
Ermelindo Ávila

quarta-feira, 18 de junho de 2008

OBRAS MARÍTIMAS

No dia 8 do corrente mês foram solenemente inauguradas, pelo Presidente do Governo Regional e com a presença de diversos Secretários Regionais, da Presidente do Município Lajense, outras entidades oficiais, e muitos picoenses, as obras de construção do quebra-mar para a protecção da Vila; o canal de entrada no Porto das Lajes, dragado e alargado; e a construção do núcleo de recreio náutico, na Lagoa (Porto interior) desta vila. Cerimónia que coincidiu “com a evocação do Dia Mundial dos Oceanos”.
Nesta ocasião vale a pena recordar um pouco, num enquadramento histórico que vem a propósito, o que os lajenses têm sofrido e lutado pela defesa da sua Vila.
“O ano de 1725 foi memorável para os habitantes da Vila das Lajes, por uma tempestade marítima que lhes inundou a Vila, causando muitos estragos, nos dias 14 a 20 de Abril. (Hist. 4 Ilhas, Vol. I. pág.219). Nessa ocasião fizeram um voto ao Senhor Jesus das Preces, (cuja imagem tem em muita veneração).”
No dia 26 de Agosto de 1893 um grande ciclone assolou a Vila das Lajes, invadindo o mar alteroso a vila, destruindo as culturas e fazendo outros grandes prejuízos em toda a Ilha. A Família Dabney, ao tempo na Horta, importou dos E. U. muitas toneladas de milho cujo cereal foi distribuído pelos povos sinistrados destas ilhas.
Um jornal da época, “Cartão de Visita”, citado pelo historiador Francisco Borba (Boletim do Museu Etn. da Ilha Graciosa, vol. n.º 5, pág. 107), narra esse acontecimento, dizendo que o povo se reuniu na igreja a fazer preces e concluídas estas, saiu em procissão levando o vigário a pesada imagem do Sr. Bom Jesus. E acrescenta: “Estavam ancorados na Lagoa o hiate S. João Baptista, o cahique Espírito Santo e o Barco Bom Jesus.” As tripulações conseguiram ir a bordo acautelar as amarrações mas, no “Bom Jesus” ficou um jovem de 20 anos, Manuel Machado, que, por não saber nadar, acabou por ser levado pelas vagas não mais sendo visto.
Construído o muro de acesso ao caneiro, a bacia interior era utilizada como ancoradouro das embarcações locais, principalmente no verão, onde permaneciam, ainda em nosso tempo, as lanchas a motor “Lourdes” e “Hermínia”, que faziam o tráfego de carga e passageiros entre os portos da ilha e a Horta. Depois foram também as baleeiras “Margarida”, “Zélia”, “Aliança”, “Gigana”, “Rosa Maria” e os batelões de descarga da E.I.N. que faziam serviço, primeiro ao velhinho “Funchal” e, depois, aos navios “Lima”, “Corvo”, “Terceirense” e a outros cargueiros. Mais tarde foram as traineiras da pesca do atum, enquanto a malfadada fábrica de conservas funcionou…
Em 1936 um violento ciclone derrubou a muralha que suportava a rua marginal da Pesqueira. As obras de reconstrução foram imediatamente iniciadas e, dois anos depois, estavam concluídas. Era Director das Obras Públicas o Engenheiro Angelo Corbal Hernandez que, apesar do seu esforço e da técnica utilizada, não deixou de ser acusado de estar a fazer uma obra onde gastava imenso dinheiro. Não demorou a inspecção que só serviu para louvar o distinto técnico.
(Nessa altura consolidou o muro de acesso ao caneiro de entrada na Lagoa, que nunca fora concluído, muito embora a sua construção fosse autorizada por alvará de 17 de Setembro de 1851.Com o remanescente orçamental, alargou a plataforma da entrada do caneiro, pelo lado mar, pois tencionava instalar aí o porto de desembarque, na zona do Poção. Foi afastado pela política que então aqui se implantara e nunca mais o Engenheiro Angelo Corbal voltou às Lajes. “Voltou-se”,antes, para a Calheta de Nesquim e Ribeiras…)
Em 1843, segundo a “História das Quatro Ilhas”, a Câmara Municipal das Lajes reclamava já a construção de uma muralha em torno da Vila das Lajes. Quase um século decorrido, é iniciado, em 1914, o muro de defesa da Vila, mas o alinhamento que lhe deram não foi aquele que os lajenses desejavam e tecnicamente o mais aconselhável. Lacerda Machado, em artigo publicado no jornal “As Lages”, escreveu que a muralha devia ter sido construída a partir do redondo do muro do caneiro, junto da orla marítima, até ao “Calhau Grosso”. E o mesmo quinzenário, sob o título “Obras da Muralha”, em 15 de Maio de 1914, escreveu: “A largura da muralha que ia seguindo 2 metros, passou para 1,50 portanto menos de meio metro. “
E foi decorrer, novamente, quase cem anos, para que o quebra mar de protecção da Vila fosse construído. No entanto, parece que só vai impedir a entrada do mar bravo na parte norte da Vila, permitindo mesmo assim maior segurança na entrada e no porto interior (Lagoa). Todos se congratulam, pois, com as obras – quebra-mar e construção do núcleo de recreio náutico realizadas – agora inauguradas. Mas parece que não bastam. A parte sul da Vila fica ainda sem segurança. O tempo poderá vir a demonstrar que, as obras agora realizadas são insuficientes para a defesa total da Vila. E a Vila não se pode ser mudada… Já sofreu bastante delapidações. Não continuem com as mutilações que lhe têm imposto e continua a sofrer.
Congratulo-me com as obras realizadas, que trouxeram alguma segurança e valorização à minha terra. Mas espero que não se fique por aí. Algo mais há a realizar. É indispensável continuar com a obra que agora foi principiada. Os lajenses não podem esperar mais um século por novos empreendimentos de fomento e desenvolvimento.
Por hoje mais não adianto.
Vila Baleeira,
13 de Junho de 2008
Ermelindo Ávila

quarta-feira, 11 de junho de 2008

O PICO - A QUINTA ILHA MUNDIAL

Estão a chegar ao fim, pelo que nos é dado observar, os trabalhos de construção da futura marina – porquê, somente “porto de recreio” ? -- do porto das Lajes do Pico. Tudo faz crer que aquele espaço, conquistado à lagoa interior, com óptimo resultado, poderá ser utilizado pela navegação de recreio ainda no corrente ano, o que não deixa de ser uma excelente valia para a Vila Baleeira dos Açores.
Está também a concluir-se a ampliação do Museu dos Baleeiros, que vai trazer àquele instituição melhores condições de funcionalidade.
Mas, para que o turismo se possa implantar nesta terra e venha a ser um factor económico de assinalada valia, importa que outros empreendimentos se realizem com brevidade, pois só assim, todo o conjunto estrutural poderá ser convenientemente utilizado e ser um forte elemento de progresso e desenvolvimento a renovar a economia local.
Interessante o que no Pico se tem feito no sector hoteleiro, principalmente no chamado turismo rural e nas residenciais, já que os hotéis, infelizmente, andam daqui arredados, (propositadamente?) evitando que até as entidades regionais daqui se afastem pela carência de camas condizentes com a categoria dos ocupantes…
Porque se tem protelado a construção do Hotel previsto para o Mistério? Porque se evitou a construção de um estabelecimento hoteleiro junto do parque de campismo?
Um parque jamais poderá substituir um hotel. Demais os ocupantes, durante o verão, são grupos de estudantes, nacionais ou estrangeiros, ou outros visitantes de recursos económicos limitados e que pouco contribuem para a economia local.?!
Afastar qualquer construção de interesse público do meio urbano da vila é contribuir para o seu atrofiamento e aniquilamento. É preciso que isso se compreenda e se tenha em consideração, sem prejuízo do seu património artístico e da sua classificação de zona urbana histórica.
Todavia o turismo não exige somente bons hotéis, devidamente classificados e equipados, servidos por profissionais experientes e simpáticos.
O Whale Watching é uma atracção de comprovados êxitos, mal grado a concorrência de que vai sofrendo. Mas até esses que vêm para observar baleias e outros animais marinhos que aqui, na nossa frente, estacionam meses e anos, pouco se demoram, ou raramente pernoitam, na sua quase totalidade por falta de hotel nas Lajes. Isto sem esquecer a “Aldeia da Fonte”, algo desviada.
O turista deseja, também, ocupar os chamados tempos livres. Aqui recorda-se uma vez mais a necessidade de concluir o campo de golfe. A propósito, chega-nos a notícia de que a empresa “Picogolfe” encontrou novo proprietário que adquiriu “uma participação na Picogolfe com vista ao desenvolvimento de um campo de golfe e um Resort nas Lajes do Pico…”
Mas não há somente que providenciar sobre os momentos de lazer. Algo mais há que ter em atenção, como ainda há dias diziam os intervenientes no programa semanal da RTP, “Prós e Contras”. Cada ilha deve dispor de serviços de saúde capazes de atenderem não somente os casos resultantes de sinistros ocasionais como de outras doenças que surjam ao visitante durante a sua estadia na ilha. E esses serviços não devem ficar simplesmente pela transferência, (embora rápida), em transporte adequado, para uma das ilhas “capitais”. Isso não aceita o visitante estrangeiro, habituado a ter junto da residência a assistência imediata para qualquer caso de doença que lhe surja.
Tudo isso deve ter-se em consideração, se queremos promover as ilhas da Região e nela explorar um turismo eficiente e positivamente promotor de melhoria económica.
A Ilha do Pico, com um potencial turístico enorme, que quase desconhecido e mal aproveitado anda, tem de ser considerada com medidas, embora de excepção, eficientes e rápidas, se não desejamos ver passar ao largo um bem que à Ilha pertence.
Sabemos que “Roma e Pavia não se fizeram num dia”, mas cruzar os braços perante um potencial que, noutras bandas, seria avaramente aproveitado, não deixa de nos causar pena e angústia. Há quantos anos estamos a alertar os Poderes Públicos, sem que haja alguém que nos dê atenção!
Saibamos “vender” por bom preço aquilo que é nosso, que muito é e muito vale: as paisagens, dominadas pela alta montanha, os pôr de sol, o ar que respiramos, a água que bebemos e usamos, o clima ameno e confortável, as frutas deliciosas que mal aproveitadas são, esses mairoços que se espalham pelas terras e que são um testemunho eloquente dos muitos penares e canseiras dos nossos avós que tanto lutaram para nos deixarem os campos verdejantes, as vinhas e as pastagens que ainda desfrutamos… afinal, esse extraordinário património que aí está, agora mal aproveitado e quase abandonado.
Todavia chega-nos a notícia de que o Pico é a 5ª Ilha Mundial em potencialidades turísticas. Será por isso que investidores estrangeiros estão a adquirir terrenos na ilha, por interpostos compradores? Ao menos consta…
Vila Baleeira dos Açores,
Abril de 2008
Ermelindo Ávila

sábado, 31 de maio de 2008

OBRAS EM DESTAQUE

A propósito da utilização do antigo edifício do matadouro, tive ocasião de trazer aqui algumas das obras executadas pelo Município, naquela zona da vila das Lajes. Nesse texto fiz alguns reparos sem destinatário aparente, muito embora as entidades responsáveis hajam, naturalmente, “enfiado a carapuça”, como soe dizer-se…
Deixei de referir a velha “Casa da Maricas do Tomé”, não por esquecimento, porque esse lapso não seria possível perante um mamarracho que, todos os dias, está na nossa frente. É que não compreendi ainda qual a entidade responsável por tão dramática situação. O prédio foi adquirido, há anos passados, pelo Município, para, ao que constou, ali serem instalados serviços públicos, parte deles da responsabilidade da Região. Hoje desconhece-se qual o destino que lhe vai ser dado, pois parece que a Região, por aquilo que se vai vendo por aí, não está interessada em ocupar aquele e nele construir qualquer imóvel.
Demais, há edifícios que, embora pertencentes à Região ou ao Estado(?) estão igualmente a caminhar para o abandono. Concretamente, refiro a antiga casa da Alfândega, adquirida na década de trinta para instalação do Posto Aduaneiro. Extinto este, com a abolição das barreiras alfandegárias, para ali foi a Secção da Guarda-Fiscal, posteriormente extinta, concentrando-se os respectivos guardas em São Roque do Pico .
Quando o edifício foi adquirido, o Estado restaurou-o e mobilou-o. Não faltaram os utensílios de cozinha, as louças e outros equipamentos da sala de jantar, as roupas dos quartos, etc. Qualquer funcionário que para aqui fosse transferido encontrava a residência completamente recheada do necessário para a sua vida doméstica. Onde tudo isso foi parar?
Naquele “rico” imóvel, agora desocupado, porque não instalar os Serviços de Finanças, que ainda ocupam instalações acanhadas do antigo Convento Franciscano? Centralizavam-se esses serviços no centro da vila, com grande comodidade para os contribuintes, tal como aconteceu recentemente com os Serviços dos Registos e Notariado, e dava-se uma ocupação condigna a um edifício de excelente traça, construído no século dezanove por família morgadia.
E a casa da Maricas do Tomé? Um óptimo imóvel do princípio do século dezanove, mandado construir por João Pereira de Lacerda, pai do Dr. João Soares de Lacerda. Foi, depois, adquirido por José Joaquim Machado, pai da referida Maricas do Tomé, assim conhecida por haver casado com Tomé Vieira Alves. Neste prédio, na ala do Norte funcionou durante muitos anos a escola primária do sexo masculino e, depois, do sexo feminino. No rés-do-chão esteve a oficina de funileiro de Arnaldo Silva.
Situada, como fica, no centro histórico da Vila, bem merece um melhor tratamento. Causa pena o abandono e o aspecto que apresenta. Pelo que nos é dado observar, parece ameaçar ruína. E quando esta se der, vítimas haverá a lamentar! Que me engane no presságio…
E aqui deixo uma sugestão: Porque não construir no local, embora aproveitando a traça primitiva, edifício condigno para instalação dos Paços do Concelho, já que o edifício do antigo Convento Franciscano é propriedade do Estado, ao que se sabe? Uma maneira excelente de trazer para a Vila os Serviços Municipais, com grandes vantagens para o respectivo funcionamento. (A Câmara voltava, assim, ao “Meio da Vila”, onde foi construída, pelos povoadores, a primeira Casa da Câmara.)
Nas “Grandes Opções do Plano do Município para 2008”, constato que estão previstas diversos empreendimentos não apenas para a sede do concelho mas sobretudo para as outras freguesias. Congratulo-me. Nas vila das Lajes está prevista “a construção de um Mercado Municipal (centro de comércio de produtos locais e estrutura de apoio à realização de feiras ou mercados de produtos locais em diferentes pontos do Concelho); projecto com execução em 2008 e construção a iniciar-se em 2009”. Onde ficará situado? É a pergunta que deixo. No Plano é referido o “Teatro na Vila”. Já está definido o local? E porque não sujeitar o projecto ao debate público?
E as indústrias hoteleiras, estruturas básicas do desenvolvimento turístico?
A Vila é a sala de visitas do concelho e, como tal, merece um tratamento adequado. Não se esqueça…
Vila das Lajes,
Maio de 2008
Ermelindo Ávila

quinta-feira, 15 de maio de 2008

QUAL O DESTINO DO ANTIGO MATADOURO?

Encontra –se a funcionar, com bons resultados, embora haja quem se atreva a achar-lhe defeitos de concepção e funcionamento, o novo Matadouro Regional da Ilha do Pico. Daí ter sido desactivado o Matadouro, instalado na antiga fábrica de conservas, para o efeito devidamente adaptada.
Creio que até aqui não há quaisquer objecções a opor ao novo estabelecimento construído numa zona morta e que merecia ser aproveitada, como o foi, não somente com o matadouro como ainda com a Fabrica de Lacticínios , actualmente pertencente à sociedade LAZA- Produtos Lacteos, Lda. também instalada no Mistério da Silveira. Foi na realidade uma forma inteligente de aproveitar aquela zona, completamente abandonada desde os vulcões de 1718 e 1720.
Nos terrenos confinantes com o Mistério, pelo Sul, diz-se há muito que a respectiva proprietária pretende construir um complexo turístico, tendo o respectivo projecto sido já apresentado à entidade licenciadora. Não se compreende, pois, a demora em aprovar o projecto ou, se aprovado, iniciar a construção. É tempo de o fazer pois, na época que decorre, um marcar-passo pode ser fatal, dado que há sempre quem esteja à espreita para ocupar o lugar…
E deixo de referir, por hoje, o famigerado campo de golfe…
Mas, voltando ao antigo edifício do matadouro: que destino lhe vai ser dado? Aquele espaço, segundo estou certo, pertence ao património regional. Assim sendo, importa que lhe seja encontrada uma aplicação condizente com o local.
A zona de Santa Catarina está a ser convenientemente ocupada. Primeiro, foi o quartel dos Bombeiros. A seguir, veio o restauro do antigo castelo, transformado acertadamente num espaço turístico. Depois, foi a recuperação da velha fábrica da baleia, SIBIL, que, sem alteração das respectivas instalações industriais, foi transformada em Centro de Artes e de Ciências do Mar. Já está a ser utilizado o novo campo de jogos, também instalado nos terrenos de Santa Catarina e que, dizem os que disso entendem, é um dos melhores da Região para a sua categoria. Na mesma zona está há anos em construção o edifício para a instalação de um super-mercado. Resta olhar pelas ruínas da casa, já adquirida pelo Município que pertenceu a Fernão Alvares Evangelho, primeiro povoador da ilha, e que bem perto fica…
E é ainda nesta zona que se situa o desocupado edifício onde esteve instalado o matadouro. Que destino lhe vai ser dado, volto a repetir?
Nas outras sedes de concelho da Ilha está o Governo a construir, ao que consta, edifícios de natureza turística. Na Madalena foi deitado a baixo o edifício do Hotel Pico para no local ser construído um novo hotel de quatro ou cinco estrelas. Mas naquela vila já existe um outro hotel que foi construído pela Região…
Nesta Vila limitaram-se os gestores regionais a adquirir uma parcela de terreno para um hotel, ou casa de hóspedes, mas por aí se ficou e ao terreno não foi dado nenhuma ocupação. Parece que é zona protegida pelo Ambiente…
Não será viável adaptar o edifício do matadouro a hotel, seja qual for o número de estrelas? A Vila não tem um estabelecimento hoteleiro classificado como tal. Na Silveira existe a “Aldeia da Fonte”, mas fica extra-muros. Disso resulta serem os visitantes encaminhados ou mantidos noutros locais, pois só desejam instalar-se em hotéis e não em simples casas de hóspedes, apesar de existirem excelentes residenciais .
As Lajes dispõem actualmente do melhor porto de recreio da Ilha. Mesmo hoje vi um barco de recreio, originário de Lisboa, tripulado por um casal que teve de sair porque a zona do porto de recreio, cujas obras parece que estão concluídas, ainda não foram entregues pela empresa empreiteira à respectiva entidade tutelar. E lá saiu o barquinho, mar fora, até ao horizonte…
Só a exploração da indústria turística pode equilibrar a nossa decrépita economia. E, embora não esteja o Pico incluído nas ilhas de coesão, não pode nem deve ser esquecido pelas instâncias governamentais.

Lajes do Pico
3 de Maio de 2008
Ermelindo Ávila

domingo, 4 de maio de 2008

O CENTENÁRIO DO NASCIMENTO DE DOM JAIME GARCIA GOULART

Foi a 8 de Janeiro de 1908 que, na freguesia da Candelária desta Ilha do Pico, nasceu o emérito Bispo de Timor, Dom Jaime Garcia Goulart.
Devo à memória de tão distinto Filho da Ilha do Pico uma referência homenageante, não só pela amizade que sempre me dispensou mas, sobretudo, pela obra de extraordinário vulto que nos deixou, principalmente na Diocese de Timor, de que foi o primeiro Bispo, e igualmente pelos notáveis dotes de Bispo e de Homem de Deus.
Dom Jaime foi para Macau, afim de ingressar no respectivo Seminário de São José, em 1921.Nesse ano havia sido sagrado Bispo de Macau, na Matriz da Horta, seu tio, que viria a ser o Cardeal Dom José da Costa Nunes-
Ainda seminarista, acompanhou Dom José na sua viagem aos Açores, em 1930. Trazia o terceiro ano de Teologia e, no Seminário de Angra, completou o Curso. Foi aí que nos conhecemos. O Seminário vivia um período de transformação pouco adequado à formação dos alunos. Era um ambiente pesado, fiscalizado constantemente por um reitor ao qual faltavam talvez qualidades diria pedagógicas e humanas, para dirigir e orientar cerca de cento e cinquenta jovens das mais diversas idades.
O Seminarista Jaime Goulart vinha de um estabelecimento muito diferente, aberto e humano, sem deixar de ser disciplinado. Desconhecendo o ambiente, passou a viver dentro das normas da casa mas, aqui e ali, procurava expandir-se nos contactos com os colegas, no confraternizar amigo com todos, embora respeitando a disciplina e as separações dos cursos em prefeituras. Nos recreios, jogava, saltava a vara e praticava desportos com alegria e jovialidade, passando a ser uma referência que todos admiravam e respeitavam. ( Presentemente, sou talvez o único “sobrevivente” a dar este testemunho.)
Ordenado em 10 de Maio de 1931 na Paroquial da Candelária pelo tio Dom José, seguiu no fim do verão para Macau, viajando de barco, único transporte que então havia. A viagem, pelo Cabo da Boa Esperança, durava algumas semanas, tempo que, para uns era de férias e, para outros, de algum martírio. Ao partir recebeu do seu Bispo instruções para, semanalmente, enviar para “O Dever”, - que então se publicava em São Jorge sempre sob a direcção Pe. Xavier Madruga, antigo colega de curso e intimo amigo de Dom José - crónicas da viagem que ia fazer. E assim cumpriu. Elas aí estão nas páginas já amarelecidas do jornal, a revelarem já o que viria a ser “a acção pastoral de J.G.G. como padre e Bispo missionário – acção pautada pelo comando do cérebro, nos compromissos livremente assumidos e fielmente cumpridos”. Isto escreveu o Padre Tomás Bettencourt Cardoso na “Nota prévia” de “Textos de D. Jaime Garcia Goulart” por ele coordenados e publicados a quando da sua estada em Macau, em 1999.
E é ainda do P. Tomás este excelente comentário: “A simplicidade e subtileza destas linhas – o começo da VI crónica de Em viagem para a China – são o suficiente para se ficar ciente de que tais crónicas são de um valor inestimável, porque, antes de mais, fruto do esforço ingente do A. para as dar à estampa”.
Ao chegar a Macau o então Pe. Jaime Goulart assumiu as funções de professor de Latim no Seminário e no Liceu, até que, em 1933 foi destacado para Timor onde se conservou até 1937. Voltou a Macau para ser secretário do Prelado, e professor no Liceu e no Colégio de Santa Rosa de Lima. Decorridos dois anos, foi novamente destacado para Timor, primeiro como Vigário Geral e, a seguir, como Administrador Apostólico da nova Diocese, criada em 1940 pelo Papa Pio XII. E aí ficou, para sofrer o doloroso calvário que foi a invasão japonesa, que o obrigou a refugiar-se na Austrália. Penosa e arriscada foi a fuga de Timor pois, além de ser obrigado a descer por rochas altas até ao local de embarque, teve ainda de amparar uma religiosa já de avançada idade e doente. Uma odisseia que D. Jaime contava com algum humor.
Na Austrália recebe a notícia da eleição para Bispo da mesma Diocese. É sagrado na Capela do Colégio Eclesiástico de S. Patrício em Manly, Sydney, na Austrália, no dia 30 de Outubro de 1945, pelo Delegado Apostólico, D. João Panico, com a assistência do Arcebispo de Sidney, D. Normano Gilroy e o Bispo de Armidale, D. João Colemau. Na cerimónia estiveram presentes os Cônsules de Portugal e do Brasil, além de outras entidades civis e religiosas. (A crónica do faustoso acontecimento está em “O Dever” de 12 de Janeiro de 1946 e é da autoria do Pe. Ezequiel Pascoal. )
Dom Jaime governou a Diocese de Timor desde 1940 a 1967, ano em que resignou devido a problemas de saúde. Passou então a residir nos Açores, primeiro na Candelária e Horta e, depois, em Ponta Delgada onde se fixou definitivamente e veio a falecer em 15 de Abril de 1997. Está sepultado no Cemitério de São Joaquim, daquela cidade.
Em 1964 recebeu do Governo Português a Ordem do Infante, no grau de Oficial, modesto galardão para quem levou uma vida a trabalhar, em Terras do Oriente, procurando sempre engrandecer o Padroado, e, sobretudo a ainda terra portuguesa de Timor. Bem mais merecia.
A freguesia natal, a Candelária do Pico, erigiu-lhe uma estátua junto da Paroquial, onde Dom Jaime foi baptizado, fez a profissão de fé, foi ordenado e celebrou a primeira Missa.
Falta a derradeira homenagem: a trasladação dos seus restos mortais para a Candelária, “cuja humilde pacatez não trocava por nada deste mundo”. Este ano centenário seria a ocasião propícia para se promover esse acto de elementar justiça a Alguém que tanto prestigiou e engrandeceu, com a sua nobilitante acção missionária Portugal e, sobretudo, esta Ilha que sempre o respeitou e admirou e orgulho sentia por esse “barão assinalado”, que “em perigos esforçados”, “edificou Novo Reino, que tanto sublimou”, parafraseando Camões..

Vila das Lajes,
15 de Abril de 2008
Ermelindo Ávila.

quinta-feira, 1 de maio de 2008

UM GESTO NOBRE

Emigrou bastante novo para a Califórnia. Por lá andou a vigiar ovelhas e, depois, em ranchos a tratar de vacas.
Não frequentava festas nem mesmo ia ao “Taum” ao domingo, seu dia de folga. Ficava na pequena casa, que o “bosse” lhe havia distribuído, a descansar, para retomar o trabalho na madrugada da segunda-feira.
A sua vida de trabalho era igual à de tantos outros imigrados, só com uma diferença: enquanto eles aproveitavam o domingo para ir divertir-se na cidade ele ficava a retemperar forças para o trabalho da semana seguinte. E assim continuou pelos anos fora.
O dinheiro da féria quase nem lhe tocava. Apenas uns “pesos” para algum fato mais estragado, e só quando o patrão lhe pagava alguma hora extraordinária, porque o cheque da semana ia inteirinho para o Banco.
Fora à América juntar uns dólares para, depois, regressar à sua terra. Tinha deixado moça apalavrada e não queria faltar à sua palavra.
De tempos a tempos, pois os correios eram demorados, recebia carta da família, que, aqui e ali lhe davam notícias da Maria. E por aí ficava.
Foram decorrendo os anos. A saúde não lhe faltou, felizmente, o que lhe permitiu trabalhar sempre. Mas um dia, deu contas à vida. Pediu ao “bosse” autorização para ir ao “taum”, para ver a quantas andava a sua conta no Banco.
Recebido cortezmente pelo funcionário do balcão, disse o que desejava. Foi levado ao gerente que o recebeu com todas as amabilidades, pois era um dos melhores depositantes do Banco. Nem sabia quanto tinha mas, pelas suas contas, devia andar por alguns centos. Afinal, não eram centos mas milhares que lá estavam na sua conta bancária.
Sabia já qual o preço do dólar na sua ilha. Fez contas e concluiu que tinha já um bom pé-de-meia que lhe permitia comprar umas terrinhas e viver sem muito trabalho.
A partir daí começou a preparar-se para regressar. Comprou na “estoa” algumas roupas para si e outras para os pais e irmãos, uns “alvarozes” e umas navalhas para oferecer aos amigos. Pediu à patroa que o auxiliasse na compra de alguns vestidos para a sua Maria. Encheu dois ou três baús. Não se esqueceu de comprar sementes de arvoredo, pois sempre teve intenção de fazer uma mata com madeiras exóticas (americanas). Tudo emalado, com a devida segurança, fez as despedidas e tomou o carro de fogo (comboio) para o Leste, até “Bastão” (Boston). Ali embarcou num navio da Fabre Line, única companhia que navegava para as ilhas. A viagem durou oito dias, até chegar ao Faial. Ninguém o esperava.
Despachada a bagagem na Alfândega da Horta, sem grandes dificuldades (não trazia contrabando), foi até ao cais para fazer viagem no barco do Pico. Na Madalena tomou o carro do Caetano e seguiu para a sua terra. Escusado será dizer que, quando alguém o viu e o reconheceu, foi um alvoroço na freguesia. Improvisou-se em casa dos pais uma grande festa, pois era preciso festejar a chegada do filho que há anos partira dali e poucas notícias dava.
Deu-se depois o encontro com a Maria. Foi acertado o dia do casamento e a boda foi motivo para reunir toda a família.
Entretanto, o nosso Frank não descansou. Principiou logo a indagar onde comprar algumas terras para pão e outras para pastagem, além de terrenos abandonados, nos matos, onde faria a sua “mata”.
Fora da freguesia comprou dos melhores terrenos para semeadura. Para as pastagens adquiriu gado do melhor que havia: vacas de bom leite e bois do Faial.
Estava organizada a sua vida. E tudo passou a decorrer normalmente embora com muito trabalho. Ainda lhe restaram alguns dólares que depositou no Banco. Mas, com esses, teve pouca sorte porque, passados poucos anos, o banco faliu. Valeram-lhe os terrenos comprados em boa ocasião e a mata que ia desbastando e vendendo a madeira para construções.
Os prédios de longe foram arrendados, não por dinheiro mas por milho: um alqueire de terreno, tantos alqueires de milho. E assim foi vivendo sem dificuldades. Cresceram os filhos. Alguns estudaram, o que só era possível a pessoas de rendimentos.
Os rendeiros, pessoas honestas e sérias, cumpriam escrupulosamente seus contratos.
Certo ano, porém, a produção foi muito baixa, pois um grande vendaval estragou os milheiros quando eles estavam ainda verdes. O pobre do rendeiro viu-se aflito, sem ter novidade com que pagar a renda. Mesmo assim, não desanimou. Não queria perder os prédios que lhe davam grande jeito e resolveu, embora com sacrifício, comprar o milho necessário para o pagamento da renda.
No dia habitual, deitou os sacos com milho no carro de bois e seguiu o seu destino até à casa do dono dos prédios, a alguns quilómetros de distância. Quando lá chegou o Frank ficou admirado de ele lhe trazer o milho, pois sabia que, naquele ano, os prédios nada tinham produzido. E assim sendo, não deixou que o rendeiro descarregasse o milho. “Não tiveste culpa do temporal. O prejuízo deve ser para nós os dois. Volta com o milho para a tua casa e para o ano pagarás a renda deste ano que vai correr.”
E assim aconteceu. E a amizade entre aqueles dois homens durou até à morte.
O facto é real. Os nomes são fictícios. Os lugares nem os indico.

Vila das Lajes,
16 de Abril de 2008
Ermelindo Ávila

segunda-feira, 14 de abril de 2008

A VILA BALEEIRA TEM O SEU LUGAR NO CONTEXTO PICOENSE!

Chegou há dias a Primavera, Num gesto de simpatia apareceu o Sol a brilhar e a aquecer. Mas pouco durou. Hoje apareceu a chuva. A montanha do Pico está encoberta por um denso lençol de nuvens escuras. Nem apetece chegar à janela, pois as ruas estão desertas. Parece que o inverno voltou. E cá ficamos “amarrados” a esta cadeira que está em frente da mesa onde rabisco estas linhas para dar um pouco de expansão a este isolamento que me atrofia constantemente.
Quero escrever a crónica que prometi mas não me chega o assunto que desejo. O espírito paira em outros campos, que desconheço, porque por lá nunca passei.
Do correio chega a correspondência. Não é muita. Também mais não esperava, pois os meus velhos correspondentes vão desaparecendo aos poucos. Os que restam não têm por hábito escrever-me mas apenas telefonam, de tempos a tempos. Alguns jornais chegam, mas também o que trazem pouco interesse me desperta. São os crimes, as desavenças políticas, as revoltas em certas nações, os impostos que ora sobem ora descem para tornar a subir, as eleições que ocorrem ou se preparam em determinados países, e já a campanha anda na rua para o próximo acto eleitoral. E os bilhetes que os políticos vão enviando uns aos outros, demonstrando a sua incapacidade de governar com seriedade as nações que habitam. Presidentes que desfazem o lar por motivos de lana caprina, são capazes de governar uma nação? São capazes de publicar leis justas e de defesa da moral e dos sãos costumes? Mas isso acontece naquelas nações que outrora eram conhecidas como exemplares .
Deixemos, porém, essa política brejeira com os seus mentores que, embora se considerem os barões da ciência e da intelectualidade, não passam de aventureiros inexperientes, sequiosos do mando e das alcavalas que possam usufruir.
Os políticos de ontem, que por acaso morreram pobres e andaram de solas rotas, porque os proventos dos cargos mal davam para socorrer algum necessitado que a eles recorria, são classificados de destruidores da Nação que governaram. Os de agora são os grandes beneméritos e os salvadores da Pátria. Esquecem que encontraram os cofres cheios de ouro e que o esbanjaram, para agora andarem na pedincha…
Eu volto à minha janela. Olho o céu e aqui e ali descubro uns raios de sol. Lembro-me que hoje é sábado e que, segundo o velho ditado popular, “não há sábado sem sol…” Não continuo porque, infelizmente, hoje a parte final já não tem aplicação… O horizonte vai desanuviando e daqui a pouco teremos o pôr do sol. Será belo e esplendoroso como são habitualmente os pôr do sol primaveris e outonais?
Estou e sempre estive, desde o recuado momento em que vim ao mundo, numa ilha. Na frente tenho o Oceano, manso e belo no verão mas bravo e impetuoso no inverno. Além apresenta-se a bela montanha, que, durante o dia, oferece diversos aspectos, ora belos ora anunciando tempo agreste. A montanha que mal sabemos apreciar mas que os outros, nossos visitantes, param e nela se extasiam, está hoje coberta com o seu habitual manto de neve, branco, espelhento, a dar vida e encanto a quem a contempla. Depois, esses montes e vales verdejantes, outrora férteis no pão abundante que nos ofereciam, embora com algum trabalho e, que hoje são matagais abandonados onde viceja toda a casta de espécies daninhas. Mas, no seu conjunto, não deixam de nos dar paisagens luxuriantes e amenas, onde a vista se recreia e o espírito descansa na sua contemplação .
Nas encostas, um pouco distantes, por entre os arvoredos, descobrem-se as risonhas habitações dos nativos que por lá se fixaram há séculos e que, mercê do seu trabalho duro e cansativo, transformaram os lugares abandonados, alguns deles ainda com a vala vulcânica fumegante, em sítios de prazer onde levantaram as habitações, os centros de recreio, as pequenas igrejas onde se recolhem, em prece de agradecimento e petição. São as nossas pequenas aldeias, dispersas pelas encostas da ilha, onde vivem povos trabalhadores, sérios e honestos que, em trabalhos de mutua ajuda, vão fazendo progredir exemplarmente os lugares que habitam e deles não querem sair.
Hoje é sábado, como acima disse. Nas ruas não circulam os alunos da Escola Preparatória e Secundária. Ficaram pelas suas terras para voltarem na segunda-feira e para novamente circularem nos próximos cinco dias da semana escolar, como acontece durante todo o ano lectivo. Como eles alegram e dão vida a estas ruas e praças, que diariamente percorrem nos intervalos das aulas! E são os estabelecimentos comerciais – o supermercado, os cafés, as pastelarias e até os restaurantes que têm uma vida nova, que a todos eles empresta essa juventude brincalhona e hilariante. E são as ruas que se enchem de veículos dos funcionários dos diversos Serviços, que estacionam durante o dia enquanto os proprietários cumprem nos serviços os respectivos horários. Entristeço, porém, quando penso que todo esse movimento um dia desaparecerá e a vila irá entrar, maldosamente, nos estertores da morte…Principalmente quando a juventude for aliciada para outras zonas…


Vila das Lajes,
5 de Abril de 08
Ermelindo Ávila

sábado, 5 de abril de 2008

MODERNISMOS...

Estão chegados os novos tempos. Até as horas do relógio já se adiantaram. Tudo vai mudando. As pessoas, o seu trajar, as suas vivências. O mundo que as rodeia.
Todas têm receio dos novos tempos que se aproximam. Mas, afinal, o que é que muda? Os lugares, as paisagens, os campos e as suas produções hortícolas e as sementeiras; o sol que ilumina e aquece, a lua que quebra a escuridão da noite, o mar e os peixes que nele habitam, as aves que enxameiam os parques e os jardins e aproveitam as copas das árvores para nelas instalarem seus ninhos; enfim, todo o mundo habitado pelo ser humano, o próprio homem que, utilizando a inteligência com que foi dotado, procura alterar, dia a dia, os sistemas que estão à sua disposição ?!
Os homens mudam a cada momento que passa. Aceitam de bom grado as pesquisas, as invenções, as descobertas científicas e os novos sistemas de actuação cultural e social. Desprezam, quase sempre, o passado e enveredam por novas vias nem sempre as mais seguras para os levar a um futuro promissor.
A pratica da moral toma novos contornos e tudo se aceita como inovação das ciências.
Os tradicionais, chamados “bons costumes”, são esquecidos ou mesmo desprezados.
A maneira de trajar modifica-se. O vestuário toma novas formas e, das antigas saias caídas até aos tornozelos, passaram as mulheres a usar as mini-saias e saias fingidas, à descoberta do umbigo e, agora, aos próprios seios…Uma modernice que se me afigura sinal de devassidão e despudor.
Os homens ainda mantém as calças e as camisas porque, naturalmente, não lhes será cómodo imitar os ocupantes das selvas africanas e amazónicas. Mas, mesmo assim, substituíram os tradicionais fatos de bom tecido pelas calças de ganga, trajes que, antigamente, só se utilizavam nas fábricas e oficinas e nos trabalhos dos campos. Então, que apreciados eram os “alvaroses”( over all) e as calças de “angrin”, vindos dos E.U. E quanto mais velhos e coçados, mais “elegantes” se tornam para se apresentarem em qualquer acto público. Mais vulgar é agora o abandono da gravata, que passou a “moda elegante”, para acompanhar o progresso. Tudo uma maneira nova de renovar os hábitos clássicos, que, para muitos, se tornaram antiquados e bafientos.
Afinal, um retrocesso que exterioriza o desprezo de alguns por normas e sistemas de sóbrio mas elegante viver.
Estou a ver que algum leitor me vai alcunhar de atrasado, de velho do Restelo. Esquecem-se que a evolução das modas, dos sistemas devem ser feitos cautelosamente, sem apresentarem inovações gritantes e provocantes, num conflito desordenado com um passado recente, digno e respeitável.
Nunca me furtei à evolução das artes, das ciências e dos hábitos e costumes. Antes, sempre os aproveitei, com ordem e tranquilidade, evitando que chocassem e desprezassem a maneira antiga de viver. Tudo tem seu peso e medida. Não desejo voltar aos trajes dos antigos reis e cortesões que, vestindo cedas e brocados, nada cuidavam da higiene corporal. Mas o trajar decente, cómodo e elegante não deve ser desprezado.
E, falando do trajar corporal, recordo os hábitos e costumes que até há bem pouco tempo se praticavam e que hoje são simplesmente esquecidos.
A prática religiosa, está a ser abandonada para dar lugar a um viver mórbido e sensual. Desfazem-se as famílias, abandonam-se os filhos. O que era escândalo passou a ser normal. O crime anda constantemente na rua. Os tribunais enchem-se de processos que, à falta de pessoal, dizem, se vão amontoando nas prateleiras, sem que na rua haja quem evite tanta desordem, tantas arruaças, tantas agressões, tantos assaltos e roubos…
Mas, se as leis ignoram hoje actos de vandalismo, de práticas desonestas, de sensualismo e de atitudes imorais que antes constituíam crimes…
Desapareceu a vergonha e banalizou-se a moral. Qual será o futuro da humanidade?
É caso para se dizer e escrever: Deus super omnia!

Vil das Lajes,
30 de Março de 2008
Ermelindo Ávila

quinta-feira, 3 de abril de 2008

CEM ANOS!

No dia 25 de Março, corrente, celebrou a linda idade de cem anos, a Senhora D. Maria da Encarnação Bettencourt, natural das Lajes do Pico e actualmente residente na cidade da Horta, com sua filha, D. Antónia Bettencourt Xavier.
Presentemente encontra-se recolhida a casa, mas conservando a maior lucidez de espirito. Uma relíquia que muito consideramos e respeitamos desde os recuados tempos da nossa adolescência e juventude.
D. Maria da Encarnação residiu na sua casa da Ribeira do Meio, desta Vila enquanto a saúde lho permitiu.
Foi uma senhora de assinaladas qualidades artísticas. Como alguém me dizia há dias, quando lembrava o centenário de tão distinta lajense, D. Maria da Encarnação tinha umas mãos de ouro. Tudo fazia com gosto artístico e aprimorada beleza. Fabricava primorosamente flores artificiais, as mais variadas, com muita arte. Com elas se adornavam as igrejas, como era habitual até ao principio do século passado. E o requinte artístico era tão esmerado que até as rosas, das mais variadas espécies, eram perfumadas, o que lhes dava a sensação de serem naturais. Os arranjos de flores, para noivas, festas religiosas ou funerais eram de aprimorado feitio e gosto. Pintava a carvão, retratos ou paisagens, com elegância e beleza artística. Além de outros trabalhos manuais.
Tudo sabia executar com arte e perfeição.
Como mestras teve a antiga professora D. Maria de Lourdes e a artista D. Virgínia de Lacerda.
Era conhecida por Maria Caxetinha e foi casada com Manuel Bettencourt. É mãe do Engenheiro José Maria Bettencourt e de D. Antónia Bettencourt Xavier, viuva do Engº Tec. Raúl Pedro Xavier.
Falar de D. Maria da Encarnação Bettencourt é recordar Alguém que, nesta vila, era muito querida e estimada pelos seus dotes morais e intelectuais. Uma Senhora que todos respeitavam e admiravam. Com o marido emigrou há anos para os Estados Unidos, onde tinha familiares muito chegados. Depois regressou a Portugal, na década de 90, esteve alguns anos em Lisboa, com o filho, Eng. José Maria. Algum tempo depois, voltou aos Açores e fizou residência na Horta, em casa da filha, D.António, onde vive, presentemente, rodeada do carinho e desvelados cuidados da filha e netas.

Deixámos de a ver e de com ela contactar mas a sua Figura distinta não mais nos esqueceu. Recordamo-la com muito respeito e aquela amizade que nasce na juventude e nunca mais esquece. Valeu-me, porém, para este escrito, a amiga comum, Dra Luisa Machado Rodrigues, que sei, vai estar também presente no centenário da nossa querida e venerável conterrânea.
Não desejo exagerar as qualidades invulgares de D. Maria da Encarnação Bettencourt. Estou somente a lembrar uma Lajense que marcou uma época artística na nossa terra, e que agora celebra cem anos de existência. Um acontecimento invulgar para a maioria dos mortais.
E neste recordar de tantos anos passados, presto aqui a minha homenagem sentida e amiga a tão distinta Senhora que, apesar das suas extraordinárias qualidades e valências artísticas, sempre viveu recolhida e como que apagada, não passando para alguns de uma simples mas exemplar esposa e mãe.
Sei que os filhos, D. Maria Antónia Brum Xavier e Engenheiro José Maria Bettencourt, Netos e mais familiares, se sentem orgulhosos do Pai, da Mãe e dos Avós que tiveram. Nesta hora jubilar, junto da Mãe e Avó, recebem por isso dos parentes, amigos e conhecidos, efusivas felicitações por tão faustoso acontecimento.
Parabéns, por este dia, à Veneranda Aniversariante e aos respeitáveis Filhos e Netos, com os votos de que o Senhor Ressuscitado, conserve , para alegria de todos, a D. Maria da Encarnação Bettencourt.
Vila das Lajes,
25 de Março de 2008
Ermelindo Ávila