sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

Acidente natalício

À LAIA DE CONTO
                                                 
       Um grupo de insurreptos, certa manhã, assaltou a freguesia e assumiu a administração de todas as forças vivas. Invadiram as repartições e quartéis públicos, expulsaram os dirigentes e passaram a dar ordens de comando.
Toda a gente ficou espavorida e fugiu dos seus locais de trabalho e residências e refugiou-se em outras localidades. Foi um autêntico vendaval.
Imediatamente, os chefes dos inssurreptos assumiram o centro de comando e chefia dos serviços e expediram as suas ordens aos funcionários que se mantiveram nos seus postos de trabalho. Os outros, os mais perseguidos, abandonaram a terra que ocupavam.
Os filhos, porém, solicitavam aos Pais para voltarem aos seus lugares, onde tinham deixado tudo o que lhes havia pertencido: brinquedos, familiares, e amigos e colegas de infância, todos com quem haviam crescido, frequentavam as escolas e conviviam em criança.
        Algumas mães escutavam os pedidos dos filhos com mágoa e, em suas orações, imploravam do Senhor que lhes valesse em semelhantes agruras.
        Os mais novos nunca esqueceram o presépio do Menino Jesus: o da sua Igreja, da sua casa, da sua catequese e da sua escola. 
        Um dia, porém, tudo pareceu encontrar rumos novos. Ia-se a meio do Verão.
        As forças políticas entraram em acção. Aqui e ali iam acontecendo motins revolucionários, e os chefes desses motins principiaram, em surdina, a afastar-se para outros lugares.
        Durante a noite, tiros de armas de fogo eram disparados, causando o pânico entre as populações indefesas.  Todos estavam à escuta… As mães, principalmente, ao deitar os seus meninos, rezavam com eles ao Menino Jesus, cuja festa do nascimento se aproximava, pedindo que viesse socorrê-los, em momentos tão aflictivos, e que tudo voltasse aos tempos de tranqiolidade e de ordem.
        Certo dia, porém, alta madrugada, forças do Exército vindas de paragens distantes, invadiram a localidade, ocuparam diversos serviços públicos e convocaram os antigos funcionários para as chefias e lugares que anteriormente ocupavam. Tudo foi aparentemente fácil.
        Os antigos revolucionários fugiram e os que dali haviam sido expulsos, voltaram à terra e às antigas ocupações.
        A vida citadina começou, vagamente a normalizar-se: a vida religiosa acalmou-se, as igrejas reabriram-se.
        Jorge, um dos filhos das famílias expulsas e regressadas à sua antiga residência, já um pouco crescido, dirigiu-se à Mãe e perguntou-lhe: -Como é que isto aconteceu? O ano passado não tivemos nem árvore do natal, nem Missa do Galo, nem Presépio na nossa casa, e este ano é tudo diferente? O nosso presépio voltou, na nossa antiga sala vejo muitas caixas com brinquedos e prendas, os estabelecimentos estão iluminados com muitos produtos natalícios e há todos os dias festa na Igreja...
        Foi-lhe então explicado, a ele e aos irmãozinhos, que aquilo que estava guardado nos embrulhos era um verdadeiro milagre do Menino Jesus, que assim, generosamente, atendeu às preces deles e de outros meninos, seus companheiros, que durante aqueles anos todos os escutara, acabando com a revolução.
        Na realidade, as preces dos inocentes meninos foram satisfeitas, naquele e em anos futuros. Jamais, naquela terra se falou ou houve sinal de qualquer revolta e todos os seus habitantes passaram a viver fraternalmente e em paz.
Vila Baleeira dos Açores,
Natal de 2017.

E. Ávila

O ÓRGÃO DA MATRIZ DAS LAJES

Notas simples                                                                                                                                     

          Trago hoje à liça uma figura notável da Música portuguesa - António Xavier Machado e Cerveira (1756-1828). Foi um dos mais notáveis construtores de orgãos do período do barroco.
        Os seus 103 órgãos, econtram-se dispersos por diversas igrejas portuguesas, tendo chegado aos Açores e à Ilha do Pico, 14 instrumentos.
        O primeiro órgão de Cerveira, já desaparecido, pertenceu ao Mosteiro dos Jerónimos, seguindo-se o da Igreja de São Roque e da Basílica dos Mártires, todos em Lisboa. “Com este órgão, o número 3 da sua autoria, o artista obteve grande reputação, tendo sido incumbido de construir todos os órgãos que as igrejas de Lisboa tiveram que readquirir, na reedificação da cidade, após o terramoto de 1755. 1
        Mas com o passar dos anos, uns vão desaparecendo pelo mau tratamento de conservação que os proprietários lhes foram dando no decorrer dos tempos, enquanto outros, mais cautelosos, vão tratando os instrumentos musicais com maior cuidado. Mas, infelizmente, os desastres também acontecem. 
        O histórico Órgão da Matriz das Lajes do Pico foi construído, em 1804. É o 66º exemplar e o mais pequeno de toda a obra de Machado e Cerveira, foi o sexto órgão feito para os Açores pelo Artista e o primeiro a vir para a Matriz das Lajes.2
        Que eu saiba, já teve duas intervenções que o beneficiaram. A primeira foi da responsabilidade de um organeiro continental que aqui se deslocou, propositadamente; a segunda foi no século findo, comparticipada pela Direcção Regional da Cultura, a pedido do antigo Ouvidor e Vigário Dr. António Rogério Gomes e executada pelo organeiro micaelense Dinarte Machado. Este organeiro fez a limpeza interior do instrumento e modificou-lhe o sistema de ar. 
        Actualmente, o órgão da Matriz das Lajes do Pico é um instrumento de concerto e alguns se têm nele efectuado.
        Antes da sua aquisição, o acompanhamento do canto, na antiga Igreja Matriz, era feito pelos frades franciscanos, com violoncelo e rabecão.
        Quando surgiram os órgãos, as igrejas do Pico foram das primeiras a promover a aquisição de um desses instrumentos.
        O P. Thomé Gregório, pároco da Calheta de Nesquim, deslocou-se à ilha de S. Miguel para ouvir e observar o trabalho que estava a executar o clérigo P. Joaquim Silvestre Serrão que dirigia a construção do orgão mais pequeno da Sé de Angra. E a partir daí foi lançada a construção do órgão destinado à Igreja da Calheta de Nesquim.
        Thomé Gregório de Lacerda, jorgense, tio do Maestro Francisco de Lacerda, construíu o órgão da Piedade, o primeiro das igrejas do Pico, infelizmente desaparecido.
        O órgão da Igreja de São João é um trabalho de António Nicolau Machado Ferreira, de Ponta Delgada. Tem 479 tubos e foi restaurado no ano 2000 por Dinarte Machado.
         Outras mais referências podia aqui fazer mas, por hoje, fico  por aqui.
VILA DAS LAJES,
9 de Dez.º de 2017
ERMELIND0 AVILA




1   https://pt.wikipedia.org/wiki/Ant%C3%B3nio_Xavier_Machado_e_Cerveira
2           CODERNIZ, José Nelson Leonardo, “OS ÓRGÃOS DE TUBOS DE ANTÓNIO XAVIER MACHADO E CERVEIRA NOS AÇORES”, Dissertação de mestrado em Ciências Musicais, FCSH, 2010

ABERTURA DAS COMEMORAÇÕES DO 5º. CENTENÁRIO DO CONCELHO DAS LAJES DO PICO - 28Jan2001


ABERTURA DAS COMEMORAÇÕES DO 5º. CENTENÁRIO DO CONCELHO
DAS LAJES DO PICO


          Alegro-me em ter chegado aqui e poder celebrar o 5º Centenário do nosso Concelho e, simultaneamente, da nossa Ilha do Pico. É .um acontecimento ímpar que bem merece ser lembrado por esta geração homenageando aqueles dos nossos Maiores que um dia aqui chegaram, desbravaram as terras, abriram os caboucos, construíram, ao longo dos tempos, as moradias, modestas ou mais artísticas, fundaram as vilas e povoações, e aqui se fixaram heroicamente. Hoje somos  apenas uns escassos dezasseis mil. Todavia, muitos mais fomos, atingindo cerca de trinta e cinco mil em tempos passados, quando a emigração ainda não constituía um  fenómeno inquietante e perturbado da nossa estabilidade social. E é pela emigração, que hoje, espalhados por terras da Diáspora, ontem em Santa Catarina do Brasil, onde até fundaram um povoado que se denomina cidade LAJES, e também no Uruguai, onde se fixaram alguns casais idos na época da crise sísmica do século l8, para depois se encaminharem para a América e  recentemente para o Canadá; somos centenas de milhar e constituímos Comunidades fortes, cheias de prestígio, respeitadas e consideradas.
       Essas gentes estão connosco, vivendo os nossos problemas sociais e económicos, numa saudade permanente que as faz transportar muitas das nossas tradições, da nossa religiosidade e da nossa própria língua, para as terras da Diáspora, onde se radicaram, num culto exemplar pelos valores da terra mãe
           No entanto, para nós que aqui fi0camos e teimosamente aqui vivemos ,    
vale a pena o sacrifício da vida pelas belezas das paisagens verdejantes; pelo ar ainda puro que respiramos; pelos aromas deliciosos dos pomares e vinhedos que haurimos; pela imponência da nossa Montanha, envolta em mantos diáfanos ou embranquecida pela neve que por vezes nela se fixa; pelo sol que nos ilumina e aquece e que, ao fim do dia, nos poentes multicolores de uma beleza magnificente, quando se aproxima do horizonte e por detrás dele se some, oferece, aos que aqui vivem, espectáculos sempre belos e inéditos.
           Afinal, quem sou eu para tentar enaltecer as belezas desta ilha que saindo das entranhas do monstro marinho, um dia se ergueu, por entre estrondos  e uivos medonhos, em labaredas de fogo, para passar além das nuvens , num desafio constante, já lá vão uns milhares de anos!
            Mas, vamos ao que importa aqui trazer nesta ocasião solene.
            Valendo-me da expressão de Ferreira Deusdado, não ficará mal dizer que a nobiliárquica Vila das Lajes do Pico, que outrora foi assinalada com este evento festivo, celebra cinco séculos de vida administrativa.
                  Na  realidade, o primeiro documento oficial que a História regista, foi um Alvará do Capitão-Donatário das Ilhas do Faial e Pico, datado de l4 de Maio de l501, que conferia poder e autoridade a Fernão Alvares para dar licenças diversas aos povoadores.
                  Antes, porém, na opinião de Lacerda Machado , probo e erudito historiador lajense, a Vila das Lajes, que havia sido povoada cerca de l460, não possuía alvará, pois os homens que o Infante para cá enviou, vieram comissionados com os poderes indispensáveis à governação da Ilha. Só por volta de l500 se há procedido à eleição da primeira vereação, que não deixou
de prestar ao astuto Capitão-Donatário sua vassalagem.
              Crê-se que os primeiros povoadores vieram da Ilha Terceira, já então
povoada. Segundo Frei Diogo das Chagas, que o primeiro foi a escrever a história destas ilhas   -   o   “Espelho Cristalino em Jardim de Várias Flores” -
que só veio a ser publicado há poucos anos, muito embora fosse já conhecido o Capítulo referente à ilha do Pico, publicado  pelo escritor Ferreira de Serpa, -
-Fernão Alvares Evangelho desembarcou com o seu cão no “Penedo Negro”, no fundo da pequena enseada do Castelete, ao sul da que viria a ser a Vila das Lajes.
            Não vou repetir o interessante episódio, já conhecido dos Lajenses. Referirei, porém, que Fernão Alvares, vendo-se só na ilha, pois os companheiros voltaram meses  passados,- procurou um sítio capaz de se fixar.  Encontrou-o junto da Ribeira que corria ao norte do monte de Santa Catarina. Aí construiu uma minúscula casa que, segundo a tradição, ainda ali se encontra e cujas ruínas, recente e plausivelmente, foram adquiridas pelo Município.
           E valho-me ainda de Frei Diogo das Chagas, frade florentino e irmão  do guardião do convento franciscano desta vila, que aqui se demorou alguns meses, de visita ao irmão e na qualidade de Visitador da Ordem, o que lhe permitiu recolher muitos documentos dos arquivos oficiais e noticias da  tradição  popular.
           Diz  Diogo das Chagas que “!... muitos annos não teve esta ilha outra freguesia mais que esta, e de todas as partes aonde moravam os povoadores vinham a ella, que foi uma pequena Igreja do Apóstolo São Pedro (que hoje é ermida), sua paróchia, que fica a um cabo da Villa a nordeste da barra, e porto d’ella, pegado a um braço de mar, que ahi entra, & faz rio morto, a qual por ser pequena trataram de fazer outra em o meio da Villa, como de efeito fizeram, no logar em que está, do orago da Santíssima Trindade,para cujo efeito lançaram finta em todos os moradores da Ilha e nas fazendas dos Auzentes , conformne cada um tinha de cabedal, a qual taixa por bem mostrar o que no artigo proponho boto aqui como em seus livros achei fielmente tresladados.”
           Os moradores eram 45 e a população, segundo os cálculos de Lacerda Machado, devia andar à volta de  250 almas ou pessoas. Estava-se no ano de l506.
            A igreja nova foi construída no centro da vila, no local onde se ergue a actual Matriz. Na frente situava-se a  Casa da Câmara e, ainda, no meio da Praça, o Pelourinho. Dedicaram-na os povoadores à Santíssima Trindade, naturalmente porque Fernão Alvares ou os companheiros, aqui chegaram em dia da Santíssima Trindade, como aconteceu em Santa Maria, São Miguel e São Jorge.
            Ao longo destes cinco séculos a ilha do Pico tem sofrido diversos revezes, e já não falo na erupção vulcânica de 1562 no chamado “Pico dos Cavaleiros”  e, depois, nas de 1718 e 1720 que deram  origem aos “Mistérios” de Santa Luzia , São João e Silveira.
                O mais gravoso, porém, deve ter sido o facto de Álvaro de Ornelas haver recusado a capitania do Pico, ficando-se pela Madeira onde residia, o que permitiu ao Donatário do Faial pedir ao Rei a Capitania da Ilha do Pico, sendo, pois, o primeiro Capitão do Faial e o segundo  da ilha do Pico. Afinal, uma pecha que, drasticamente,  atingiu a ilha durante este meio milénio. E o Pico nunca mais foi capaz de reabilitar-se de tamanha afronta.
                A Câmara era eleita anualmente, num dos meses de verão e a ela competia velar pelos interesses dos seus munícipes. Foi assim que em 4 de
Novembro de 1583 acordaram “Os homens bons“ da Câmara (assim se denominavam os respectivos membros) em que nenhum cristão novo  pudesse viver na terra e nela vender suas mercadorias.
                 De recordar que a antiga “Casa da Câmara” já existia em 1503 e media l2 varas de comprimento e 5 de largo. No piso superior, servido por duas   escadarias de pedra com um alpendre ao centro, onde se situava a porta de entrada, ficava a secretaria e a sala das sessões. O rés-do-chão servia de arrecadação e de “curral do concelho” onde eram arrecadados os animais vadios. Ao lado, no canto da rua da “Família Xavier”, vulgo da Cadeia, existia o edifício da Cadeia.
                 Os serviços  municipais foram transferidos para este edifício dos franciscanos em 1840, mediante portaria da Rainha, datada de 3 de Janeiro daquele ano.
                  Com o desenvolvimento da população, uma parte fixou-se no lado Norte da Ilha, onde existiam  excelentes terrenos de cultivo. Ai fundaram importantes núcleos populacionais.
                  E foi assim que, um século decorrido após o povoamento, os povos daqueles lados pediram ao Rei a criação do seu concelho. Não foi fácil a solução, pois duas das principais povoações  reivindicavam a elevação a cabeça do novo concelho. A Câmara das Lajes, naturalmente pelos laços familiares existentes entre os dois povos, superiormente consultada, decidiu-se por São Roque, ficando preterida a Prainha, que só muito tarde perdoou o agravo.
                O concelho das Lajes é constituído, actualmente pelas  freguesias de:
            - São João, que passou a paróquia independente em 1616 e cuja igreja, então situada no lugar da Arruda, foi destruída pelas erupções de 1720;
              - Santíssima Trindade, primeira povoação da Ilha;
              - Santa Bárbara das Ribeiras, a segunda mais antiga da Ilha, fundada por Jordão Alvares Carauta, companheiro de Fernão Alvares Evangelho;
             - Calheta de Nesquim (ou de Morro Cão), já existente em 1506 e cuja primitiva igreja (uma capela) existia no século XVI.  O edifício actual é já do século XIX.;
                - Freguesia de Nossa Senhora da Piedade, ou da Ponta do Calhau Gordo, como refere Gaspar Frutuoso, uma das mais ricas em produção agrícola. A primitiva igreja foi destruída pelo sismo de 1755. Situava-se no lugar do Império. A construção da actual paroquial foi iniciada em 1758. É tradição que ficou concluída oito anos depois; e,
             - a actual freguesia da Ribeirinha . Uma das localidades mais antigas
do concelho, Gaspar Frutuoso, em crónica do Século XVI a ela se refere. A actual igreja já existia em 1762. Foi elevada a freguesia por Decreto Legislativo Regional de 15 de Setembro de 1980.
               São estes e outros factos que, durante o ano, a Câmara Municipal pretende recordar, assinalando, com eventos diversificados, que hoje se iniciam, os cinco séculos de existência do concelho que o primeiro foi e, durante um século, o único da Ilha do Pico. No entanto, não deixou de apoiar a criação dos outros dois: São Roque em 10 de Novembro de 1542 e a Madalena em 8 de Março de 1723. Sendo este extinto em 1895, representou a Câmara das Lajes ao Governo de Sua Magestade para que o concelho fosse restaurado, o que veio a acontecer por Decreto de 13 de Janeiro de 1898.
               É meio milénio de trabalhos e sacrifícios, de lutas e dores, de crises e de fomes, por vezes (a História regista alguns “anos da fome”), de sismos e vulcões, de ciclones e enchentes de mar... que o povo suportou heroicamente. Mas, também, de momentos felizes, de vitórias e alegrias que lhe deram seus varões ilustres, aqueles que,  nas artes e letras, quer no Ocidente quer no Oriente, na pátria ou em terras da Diáspora se tornaram notáveis por feitos assinalados.
              Gente ilustre  “... que por obras valerosas / se vão (ou foram) - ontem e hoje - da lei da Morte libertando ...” como diria Camões.                    





Vila das Lajes, Ilha do Pico,

28 de Janeiro de 2001

domingo, 10 de dezembro de 2017

SOLENIDADE DE CRISTO-REI

Notas do meu cantinho


Ao terminar o ano litúrgico, o tempo comum da Liturgia Católica, escreve


um autor a seguinte nota:



No final do ano litúrgico, a Igreja Católica celebra o triunfo de 

Cristo Rei. Uma celebração que tem algo de estranho para os critérios 

do mundo, porque o trono do rei não é de ouro mas o patíbulo da cruz , 

na qual Pilatos mandou escrever”. Este é o Rei dos Judeus”. O próprio 

Jesus falou aos discípulos daquela “hora eterna” de reinado, quando 

lhes explicou:”Quando eu for levantado da terra, atrairei todos a mim. 

“Liturgia diária - a missa de cada dia. Calendário litúrgico”. Edições 

Paulistas.
A Igreja Católica acaba de celebrar a solenidade de Cristo-Rei. Trata-se de uma festa que encerra o ano litúrgico e foi estabelecida pelo Papa Pio XI, na década de vinte do século passado. Ganhou grande entusiasmo entre os cristãos e foi integrada nos organismos da Acção Católica.
Realiza-se no último domingo do Tempo Comum e reveste-se, normalmente, de grande solenidade litúrgica.
Deve-se ao P. Inácio Coelho, ao tempo Pároco da freguesia de São João, o início da realização da grande solenidade que teve sempre como orador o P. Xavier Madruga.
Logo a seguir foram criados na Diocese os diversos organismos da Acção Católica (A.C.). A Matriz das Lajes acolheu com entusiasmo esse movimento. Criaram-se, pois, a JOC masculina, a JIC e a LIC femininas pois tratavam-se de movimentos cristãos com mais influência da Paróquia. Tomaram eles à sua responsabilidade, além de outras actividades, a Festa do Senhor que se realizava no domingo seguinte para aproveitar o orador exímio que era o nosso antigo director e fundador, P. Xavier Madruga. A sua fala era sempre brilhante e atraía, por vezes, à Matriz, alguns admiradores que o escutavam com muito interesse.
A festa era, normalmente, precedida de tríduo preparatório. Apesar dos organismos da A.C. se haverem, praticamente, extinto, a festa de Cristo-Rei nunca deixou de se realizar, com homilia e Eucaristia cantada.
(A Matriz das Lajes possui um dos órgãos mais antigos da Diocese, de boa qualidade e de que é autor um notável Mestre e não lhe faltaram boas e bons organistas. Recordo D. Maria Adelaide Silva (a D Maria Mestra, professora Primária), D. Adelaide de Azevedo e Castro, D. Maria Xavier, Francisco Xavier de Azevedo e Castro além de outros mais. Na festa de Lourdes tocava o órgão o distinto organista Dr. Garcia da Rosa e as suas exibições eram autênticos concertos.)
A Matriz da Santíssima Trindade das Lajes do Pico, todos os anos vem realizando, com esplendor próprio, as festas do Calendário Litúrgico. Este ano e uma vez mais, cumpriu a solenidade de Cristo Rei, com Missa cantada e homilia.
Cristo Vence! Cristo Reina! Cristo Impera! Aleluia!

Lajes do Pico, Capital da Cultura da Baleia,
27-XI-2017

Ermelindo Ávila

FESTAS NATALÍCIAS

Notas Soltas

Cheira a Natal, dizem os mais antigos, que os novos vão-se entretendo em outras actividades.
O Natal hoje é muito diferente.
As crianças esperavam ansiosas pela noite do Menino que lhes havia-de deixar debaixo do travesseiro a sua oferta do Natal, e tão modesta que por vezes era ela: um boneco de pano, um carrinho de bois de madeira, uns rebuçados ou uns figos passados, que tudo era apreciado, e de que maneira!
Depois, a vida foi-se modificando. A economia doméstica foi-se melhorando, os pais puderam ter melhores possibilidades de compra, o comércio passou a importar grandes quantidades de brinquedos, dos mais sofisticados, desde o carro eléctrico aos aviões que se movem nos ares. Não faltam as confecções, das mais artísticas e tecidos ricos, os casacos de corte moderno, um sem número de vestuários das mais variadas e ricas cores. Para uns, é o crédito que se utiliza e se esgota, para outros é a riqueza e o luxo que se exibe. E, por vezes, no comércio ficam as dívidas a aguardar que se saldem…
Cedo vêm os pantagruélicos almoços de compadres e comadres, de conhecidos e amigos, de primos e outros familiares, que se tornaram numa quase tradição de bons manjares e melhores beberes.
Felizmente que ainda se guarda para o dia de Natal os repastos com os parentes mais íntimos, onde continuam a aparecer a massa sovada e a carne de caçoila, cuja tradição, felizmente, ainda se mantêm.
Quase caíram em desuso as visitas aos parentes e amigos.
Os serões vão desaparecendo e só restam bem poucos nas sociedades culturais e recreativas para os respectivos associados.
***
O mês de Dezembro tinha, em anos passados, um tom especial. Era o mês do Natal. O mês da grande festa. Toda a gente se preparava, material e espiritualmente, para as grandes celebrações litúrgicas. Todavia, com as normas estabelecidas pelo Concílio Vaticano II, a liturgia alterou-se bastante. O cerimonial simplificou-se de maneira a não torná-lo muito prolongado, mantendo, no entanto, diversas partes essenciais.
As principais festas eram normalmente precedidas de devoções preparatórias, as Novenas cantadas e com pregação especial. Ainda hoje, na Matriz das Lajes, são realizadas as Novena da festa de Nossa Senhora de Lourdes. As do Natal e de Nossa Senhora da Conceição há muito deixaram de se fazer.

As novenas do Natal tinham liturgia própria. Eram realizadas de madrugada, cantadas e com Missa solene.

Os fiéis, levantavam-se de madrugada para assistir à novena antes de irem para os seus trabalhos de campo. Chegados ao adro, deixavam os seus casacos e utensílios de trabalho rural e assistiam à Missa e cerimónia próprias das Novenas. No final, no adro, substituíam os fatos e caminhavam, com os respectivos utensílios agrícolas, para os seus trabalhos de campo. Ao entardecer regressavam a suas casas e era então que tomavam a refeição quente da noite.

Era assim durante os nove dias que precedia o Natal. Hoje a novena não é feita à noite e a frequência não é tanta…Outros tempos…

Lajes do Pico,
3 de Dezº de 2017

Ermelindo Ávila

O MÊS DAS TRADIÇÕES

Respingos

No fim do mês, para não dizer em todo o mês, comem-se as castanhas, acompanhadas do vinho novo.
Chegámos já ao penúltimo mês do ano. Desde longos tempos é o mês de maiores tradições. Ontem, um ontem que vem de séculos, as pessoas cumpriam, com seriedade, as diversas tradições do ano.
Não refiro o mês dos Santos nem dos Defuntos tão presentes nos costumes populares que foram e continuam a ser respeitadas Daí o manter-se os ditos e provérbios bastante antigos nas tradições mais populares, que o povo sempre respeitou, como seja o dia de São Martinho, a 11 do mês: “No dia de São Martinho, vai à adega e prova o vinho”. Mas há muitos mais que não padece serem repetidos. Fico-me apenas pelas castanhas.
O castanheiro não se desenvolve em todas as zonas da ilha. É uma árvore de difícil desenvolvimento e mesmo assim, só dá boa produção para o Norte da ilha. É por isso que, no Outono, era vulgar, grupos de moças da banda do Sul, muitas delas levando sacolas de milho à cabeça, atravessavam a Serra, ou seja, iam das bandas do Sul (Lajes, Ribeira do Meio, Almagreira, e Silveira), até à Prainha do Norte, e naquela zona trocavam milho por castanhas.
Algumas castanhas vinham do continente para os estabelecimentos comerciais já piladas, o que lhes dava um gosto de aperitivo muito apreciado. As aqui produzidas e comidas, ao serão, eram cozidas na grelha ou assadas nas brasas do lar, pois o fogão não era conhecido ainda.
Cada fruto tinha a sua época e era com ele que se “celebravam” tempos idos à maneira popular. Mesmo assim, quem não apreciava um punhado de castanhas? Pois, se não havia outros pitéos (petisco ou goludice)? Quem não apreciava as castanhas do mês de Novembro?
O viver das nossas gentes quase só se limitava àquele que para cá trouxeram os primeiros que aqui chegaram, e o mantiveram por largos anos ou séculos. Viviam longe da Mãe-Pátria, sem comunicações regulares e os veleiros que por aqui passavam, faziam-no de longe em longe e sem escalas regulares. Só algum barco estrangeiro, as baleeiras ou os veleiros que ligavam a Europa à América, do Norte ou do Sul e que normalmente eram aproveitados para o conhecido “embarcar de salto”, como aconteceu a tantos que nesse rudimentares meios de transporte, sofriam sobretudo as brutalidades dos oficiais e mestres. E quando chegavam àqueles inóspitos e desconhecidos continentes,“punham-se ao fresco”e “iam por terra dentro”...
Volvidos muitos anos sem que os pais tivessem notícias dos filhos ausentes, voltavam...
Vários escritores açorianos, não muitos mas dos melhores, aproveitaram o tempo do “Salto” para nos deixarem páginas literárias, das melhores da nossa literatura insular. Recordo, v.g. o conto de Nunes da Rosa, sobre o “Salto”, no “Gente das IIhas” que, nos primeiros anos do seu passado, fez sucesso e foi muito apreciado. Mais alguns mais tomaram a emigração de salto como tema das suas produções literárias e não se saíram mal. Ainda hoje os seus trabalhos não lidos, apreciados e até estudados pelos actuais críticos literários, que os há em relativa abundância.
Mas quem não aprecia um punhado de boas e saborosas castanhas, daquelas que os picoenses cultivam nas bandas do Norte?
É bom não esquecer que a ilha, a segunda em área do Arquipélago, tem as suas características especiais, nas produções diversas: os cereais, as frutas, as vinhas. E aqui e ali vão aparecendo as especialidades que, aliás, são o vinho verdelho, as laranjas, os ananazes, os figos, e outras produções e que, esquecidos durante alguns anos, voltam a ser produzidos e exportados.
Para os apreciadores não será de recusar um prato de castanhas e um cálice (dos grandes) da velha “Angelica”.
Estamos no mês de isso experimentar. Bons apreciadores não faltarão. Figos passados ao sol, castanhas cozidas ou assadas, angelica velha, vinho, tinto ou branco de alguns anos e as velhas aguardentes de vinho ou de figo, não se compram mas trazem-se da adega, pois lá estão meses ou anos à espera do amigo que passa…
A vida rural do lavrador do Pico, com suas alegrias e trabalheiras, não tem quem a iguale. Não utilizo nem aprecio bebidas. Estarei, pois, errado?
Vila –Capital da Baleia.
Novº de 2017

E. Ávila

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

PICO

Respingos

O Pico. A Ilha onde nasci, vivi os primeiros anos e, depois, os anos mais que Deus me tem dado. Mas nunca deixei de viver no Pico, quer estivesse ausente por dias, semanas, meses ou anos. É uma ilha que está sempre presente no meu espírito, no melhor do meu ser.
Mesmo ausente da terra, os seus projectos, os seus problemas, as suas iniciativas, o seu progresso vivem comigo. Recordo os meus anos de juventude, cujos estudos me afastaram meses seguidos da terra… Como era enleante subir aquele magnífico monte que defende a cidade e ver ao longe o pico do Pico. Que nostalgia… que saudades da terra. Que desejos tinha de atravessar o mar imenso que nos separava e vir somente, por um instante que fosse, pisar as “pedras negras “ do Pico.

Ainda agora é a soberba montanha que, ao amanhecer, vigio da minha janela, para que me indique o estado do tempo que vamos ter. E lá no alto, no cimo do pico do Pico vejo a direcção das nuvens… os reflexos do Sol nascente… as nuvens encapeladas… tudo indicativo do tempo que vamos ter... E o poente do Astro Rei?!...
Deixem-me que escreva, hoje, prosa solta, talvez sem nexo, somente para exaltar a beleza maravilhosa deste Pico que um dia remoto, que a História não registou, emergiu das salsas ondas para ficar no meio deste Atlântico.
O marinheiro e o agricultor, de madrugada, quando saíam do leito e espreitavam o tempo para um novo dia de trabalho, era pelo rodar das nuvens ao redor da montanha, que sabiam o tempo que os esperava: Lã crameada, chuva grada; raivas no poente, coze massa e mete gente; raivas no nascente, toca os bois e anda sempre. E tantos mais que a sabedoria popular criou e utilizou durante tantas décadas...
Mas o Pico é mais do que o barómetro natural que os naturais sabem observar e “ler”.
É, igualmente, inspiração poética para muitos que deixaram, ao redor dos tempos, poemas maravilhosos que, ainda hoje, são o encanto de quantos nele se inspiram.
Recordo Manuel de Arriaga (não discuto, por agora, a naturalidade, e podia fazê-lo…) amante do seu Pico, como tantos outros e lembro somente o saudoso Doutor José Enes, (1) com o excelente poema ao Pico, que outro saudoso picoense, o maestro Emílio Porto, inspiradamente musicou.
Fico-me pelos poentes outonais que os pintores estrangeiros e vários são os que por aqui têm passado, aproveitam para deixar impressões em suas telas artísticas.
Nunca subi à maravilhosa montanha. Um dia, por acaso, em que tive a ventura de viajar num avião da SATA, ao aproximar-se do Pico, uma hospedeira de bordo anuncia que o Comandante ia mostrar aos passageiros um espectáculo inédito: O pico do Pico. E fê-lo de maneira distinta fazendo o avião circular sobre o “eirado” e dando a volva ao Pico. Naturalmente, nós os passageiros que viajávamos da Terceira para o Faial, ficámos maravilhados com o espectáculo que não mais se me foi dado apreciar. Ao longe, a Terceira, e depois: a Graciosa, São Jorge, o Faial e o Pico…a nossos pés. Noutra ocasião, e foi só, Minha Mulher, de saudosa memória, e eu, viajávamos quase madrugada ainda, de São Miguel para o Pico. Ao aproximar-se o avião (SATA) da Ponta da Ferraria, quando se preparava para deixar S. Miguel e sobrevoar o Atlântico, Minha Mulher chama-me a atenção para o que via no horizonte, a Oeste: O Pico do Pico, um triângulo bem definido sobre o Oceano. Uma maravilha que desapareceu quando a aeronave fez rumo à Terceira. Depois só vim a descobrir entre nuvens o meu Pico, quando me aproximava da minha ilha. Fenómenos maravilhosos!
Fenómenos que não se repetem…
Lajes do Pico, Capital da Cultura da Baleia
10-Novembro- 2017
E.Ávila


(1) “Montanha do meu destino”, José Enes
Montanha do meu segredo
Montanha do meu destino
Tocaste-me com um dedo
Imprimindo em mim um signo
Quando me viste nascer

Montanha da minha dor
Montanha do meu chorar
Olhaste-me com amor
Com um fundo e puro olhar
Quando me viste nascer

Montanha dos meus desejos
Da minha louca ambição
Encheste-me a alma com beijos
Do fogo do teu vulcão
Quando me viste nascer

Montanha da minha sorte
Oh génio do meu viver
Encomenda-me na morte
Quando me vires morrer




domingo, 12 de novembro de 2017

PÃO POR DEUS

RESPINGOS

É um tema simpático para este início do chamado Ano Litúrgico.
Outrora, todos os fiéis cristãos respeitavam os ciclos litúrgicos estabelecidos pela Igreja, cumprindo as suas normas com respeito e fidelidade. Com o desenvolvimento da Sociedade moderna, tudo se modificou e hoje, nem todos estão dispostos a cumprir essas normas que de mal nada tinham.
Apesar das novas formas de vida, que alguns querem classificar de nova civilização, há lugares e terras (núcleos habitacionais antigos) que mantêm os costumes e os hábitos trazidos dos tempos, algo distantes, de seus avós.
Felizmente que isso acontece nalgumas terras destas ilhas, onde as antigas tradições se conservam com respeito.
Ontem foi dia de Finados. A Igreja Católica recorda, de modo particular, aqueles de seus fiéis que já partiram para o Pai. Fê-lo, como habitualmente, sufragando as almas dos mortos, com actos litúrgicos, por cá bastante concorridos. E não deixou de visitar as campas dos falecidos…
No dia anterior, foi o dia de PÃO POR DEUS. Um velho costume que as crianças ainda trazem até hoje: Pão por Deus! Por amor de Deus! Para as avós, eram elas que se dedicavam a esse trabalhinho, faziam umas pequenas sacolas onde os miúdos recolhiam as dádivas: moedas, doces, géneros (cambadas de milho, punhados de batatas), enfim, tudo o que fosse útil para as crianças e até adultos.
Conheci terras nos Açores em que algumas instituições criaram o sistema de, ao sábado, destinar umas tantas moedas para os pobres mendigos que lhes batiam à porta. Assisti um dia, casualmente, a um acto desses e fiquei chocado com a maneira brusca como o pobre foi recebido.
Por cá ainda se mantém o pão por Deus. Um dia diferente que é lembrado e respeitado.
Pouco ou muito, todos dão e são vários os que pedem: alguns por necessidade, outros para manter uma tradição.
Depois da colheita, porta-a-porta, era a partilha pelos companheiros. Ninguém refilava…
Talvez, outros tempos.
Vila-Capital da Cultura Baleeira
Nov. 2017

E. Ávila

NA ÉPOCA DAS COLHETAS

RESPINGOS


Não havia estradas pelo lado Sul da Ilha do Pico. Os terrenos, os melhores da ilha – diziam - eram explorados normalmente pelo sistema braçal. Quando a colheita era maior utilizavam-se carros “tirados”1 por um ou dois bovinos, no mês nas colheitas dos milhos.
Agradável era o trânsito dos carros de dois bois, atravessando as ruas da vila das Lajes, carregados, geralmente, de maçarocas de milho, das colheitas das Terras de Baixo, Granja, Estreito, ou mesma da Canada de Jorge Dutra, onde se situavam os melhores terrenos dos proprietários da Silveira, Almagreira ou Ribeira do Meio, pois era junto das respectivas habitações ou em terrenos próximos que tinham as “casas de atafona” ou de albegoaria.
E era um gosto o passar dos carros, ao anoitecer, a chilrear, enquanto a autoridade municipal não proibiu esse sistema, pois, diziam, era incómodo principalmente para as pessoas doentes.
Quando em 1943 foi inaugurada a estrada regional, a ligação entre a Vila das Lajes e o centro da freguesia da Piedade passou a ser feita em veículos motorizados, e “ficaram para o lado” os carros de bois. Estes animais, “gado da porta” como era conhecido, praticamente, era utilizado em atafonas e nos trabalhos de lavoura nos prédios “da casa”. Hoje, praticamente desapareceram e quase só existe o “gado de leite”. Trata-se, afinal, de um sistema quase prejudicial, dado que se alterou substancialmente a utilização do gado bovino e o sistema de praticar a antiga agricultura.
Nas casas do lavrador já não há, ao que creio, as noites de desfolhada, como tão bem a descreveu o Escritor Júlio Dinis. Hoje, se vivo fosse, outros assuntos encontraria para as suas saborosas crónicas.
Costumes antigos, vindos de nossos avós, que não se repetem. E tantos eles eram. Relacionavam-se entre si, constituindo “um todo” dos hábitos e costumes das gentes antigas, aquelas que foram nossos Avós.
A quase totalidade dos picoenses tinha cédula marítima para poder ir ao mar, em qualquer barco de pesca: “chata”, lancha, embarcação de pesca costeira, ou mesmo do mar alto, pescar o peixe para o inverno ou, quando profissional, fazer a “soldada” para o sustento da Família, pois esse seu quinhão, como também era conhecido, era a “moeda de troca” dos géneros, tecidos, e o mais necessário com que se mantinha a Família.
O Homem do Pico tanto exercia a profissão de agricultor de braço, como à tarde ia às vejas, ao serão aos sargos, ou, na época própria, ia ao “mar do limpo ”deitar o estremalho para apanhar o chicharro que recolhia ao amanhecer. Nessa altura, feitas as divisões, as mulheres levavam-no numa cesta até ao campo (aldeia vizinha) para trocar por milho, batatas ou outros géneros. Não se passava fome, muito embora houvesse épocas de algumas dificuldades. E quem não se lembra da matança de porco e do dia alegre que era?!...
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Em certos anos, era costume os barcos de pesca deslocarem-se para outras ilhas e fazer ”pescas de fundo”, ou até mesmo nos bancos “Dom João de Castro” e “Princesa Alice”. Preparavam-se com “bordas falsas”- aumento do costado – e na companhia das Lanchas “Lourdes” ou “Hermínia”. E por lá estavam cerca de uma semana, se a pesca era boa.
Quando se deslocavam para os mares de S. Jorge, normalmente, iam para o Norte Pequeno, outros para os Biscoitos da Terceira e outras mais ilhas, onde o peixe abundava. Esse sistema terminou, creio, com a pesca da albacora e a instalação de fábricas de conservas.
Quando a caça à baleia estava no seu auge os baleeiros lajenses eram contratados como mestres ou trancadores pelos armadores e aproveitavam as horas de vazio para a apanha de peixe para seu sustento, da família que o acompanhava, ou para venda...
Hoje tudo não passa de um sonho…
Lajes do Pico - Vila Capital da Cultura da Baleia,

Ermelindo Ávila.

1Puxados, (expressão popular)

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

A VILA QUE TEMOS E QUE PODÍAMOS TER...

Respingos

Trago há tempos em pensamento uma referência singular à organização urbanística da vila, que foi capital da Ilha e ainda hoje, é aquela que a possui em melhores condições, apesar de, ao longo dos anos, diversos atropelos e fortes atrocidades do camartelo ter sofrido…não lhe permitindo usufruir de melhores traçados urbanos.
Nem sempre assim se tem entendido. Nem todos os gestores que têm passado pela administração da Autarquia se hão apercebido dessa realidade. E talvez por isso, atropelam ou destroem um património que muitos desejariam possuir. Razão essa que, apesar de todas as vicissitudes, não impede de estar presente, sempre que possível, neste obscuro cantinho.
Muito embora não esteja possuidor das potencialidades físicas que me permitiriam trazer a esta nota o que julgo ser um dever de todos os cidadãos, aqui estou, no entanto, a cumprir um singelo dever.
Bem ou mal, pouco importa.
Quem alguma vez teve a oportunidade, eu diria felicidade de sobrevoar a avoenga vila picoense, ficou com uma impressão admirável do seu aspecto urbanístico e, igualmente, das diversas muralhas que separam a parte urbana do mar circundante.
Posso estar a fantasiar um pouco, pelo muito que quero a esta terra que foi o meu berço natal. Não Importa. A responsabilidade é somente do escriba.
Até meados do século dezanove a vila não possuía muralhas de defesa. Estava sujeita ao mar e às suas tempestades ciclónicas. Na memória de alguns ainda se mantem o ciclone de 1893, com as suas vítimas e desastres materiais.
A vila ficou em desastroso estado e a partir daí as entidades tiveram de fazer algumas obras de defesa. Uma delas, se não erro, foi uma muralha por cima do lajido, que foi iniciada, mas não continuada, porque os marítimos julgaram que era prejudicial à defesa da Vila e provocaria, em ocasião de temporal, o enchente da Lagoa e a impossibilidade do escoamento das águas. As obras foram suspensas e o início do alicerce lá está há mais de cem anos.
Nos primeiros anos do século passado, o Historiador Lacerda Machado apresentou na Câmara Municipal um projecto para a “modernização da Vila”, com a respectiva memória descritiva. O projecto foi aprovado e, depois de exposto alguns anos na sala das sessões, deixou de ser visto.
Em 1936, um violento ciclone derrubou o muro da Lagoa, entre as casas dos botes do Ribeira do Meio, ou “degráus do José da Emília” e a Rua Nova. Os técnicos e dirigentes da Direcção Distrital de Obras Publicas (Engenheiro Angelo Corbal) receberam instruções imediatas e as obras foram iniciadas. Um ano depois estavam concluídas, incluindo o alteamento, regularização do piso e aumento da plataforma exterior, onde agora está o monumento ao Baleeiro, até à zona do antigo Juncal - aplicação alvitrada pelo General Lacerda Machado - espaço que esteve muitos anos a servir de lixeira e “pasto” da ratazana, com graves prejuízos para a saúde publica, até que foi ocupado, com algum custo, pelo campo de jogos. Transferido este para outro local, o campo, transformado em “Jardim da Baleia”, está em conclusão com os anexos: Recepção do Turismo e outros imóveis. Quando ficará concluido (apesar de inaugurado…) e integrado na CAPITAL DA CULTURA DA BALEIA, ao serviço do público?!
Vila das Lajes, Outº. 2017

E.Ávila