Estão a surgir na Ilha diversos estabelecimentos classificados como rurais ou destinados ao turismo rural. Julgo que se trata de empreendimentos algo insuficientes.
Se há turistas que procuram esses alojamentos, e alguns deles, ao que consta, são bastante cómodos e asseados, nem todos os visitantes que aqui chegam desejam ir para eles mas antes procuram os hotéis. Nem mesmo as residenciais ou pensões são procuradas pois essas designações ou classificações não existem nos dicionários dos idiomas estrangeiros. É pena que os industriais investidores nessa actividade não procurem adaptar-se ao regime internacional. Seria uma mais valia para eles próprios e para a ilha, uma vez que as divisas estrangeiras vêm, normalmente, desses visitantes.
Enquanto nas ilhas açorianas o turismo baixou na última época, parece que a ilha do Pico fez excepção, pois a procura de camas foi superior à das épocas anteriores. Houve estabelecimentos que, no princípio da época passada, já estavam totalmente ocupados até ao final do verão. E isso de facto aconteceu.
Se o turismo é a indústria do futuro, e será através da entrada de divisas, vindas desses visitantes estrangeiros ou mesmo nacionais, que a economia da Região se equilibrará, importa ter em consideração esse facto e estar atento ao seu desenvolvimento.
A indústria do Turismo não se reduz àquela que é praticada nas casas rurais e nos Parques. Esse é um turismo que, embora deva ser acolhido com carinho e atenção, não é suficiente para a promoção da Região e, consequentemente das suas parcelas, as ilhas. Importa estar atento e preparar a ilha com as estruturas suficientes e capazes de acolherem todas as classes de turistas, que aqui chegam, seja para percorrer a ilha pelo seu interior, utilizando as veredas e os trilhos, seja para visitar as baleias ou para gozar alguns dias de lazer.
A vila das Lajes carece imediatamente de um estabelecimento turístico classificado de hotel de duas, três ou quatro estrelas. Mas situado no interior da zona urbana. E, igualmente, de um restaurante, visto que, aquele que possuía e que de boa qualidade era, incompreensivelmente, ao que consta, acaba de encerrar as portas. Afinal um prejuízo grave para a vila das Lajes pois o “Lagoa” gozava de prestígio nacional e internacional.
Importa criar um estabelecimento congénere e estar acautelado para novas investidas que em nada prestigiam a terra.
E se não houver quem tome a iniciativa, impõe-se à Câmara Municipal, à semelhança de outros organismos congéneres por esse País fora, assumir prioritariamente, esse encargo, associando-se a outros investidores ou, depois de concluído o/os empreendimentos, associar-se ou trespassá-los em condições condignas a quem se comprometa explorá-los, quer individualmente quer em sociedade. Repito: Não será novo o sistema. Trata-se de uma iniciativa de promoção e de desenvolvimento, comercial e laboral da terra e do seu futuro. “Cruzar os braços”, como soe dizer-se, ante tão precária situação, é promover o aniquilamento, e não só, da terra lajense.
Estou uma vez mais a repisar um assunto já aqui tratado bastas vezes. Não importa. Como diz o adágio: água mole em pedra dura..
A Vila vai-se despovoando pois os visitantes já quase não existem por aí e eram eles que animavam, nos meses de estio, as ruas do Burgo.
Por outro lado teima-se afrontosamente, retirar do centro urbano serviços e pessoas. As pessoas vão desaparecendo e deixando as casas quase devolutas. Os serviços mudam-se, num gesto de desfaçatez política, retirando-nos instituições seculares que aqui se instalaram inicialmente e sempre funcionaram, mercê dos seus gestores, com ordem e equilíbrio e a contento de todos.
O mal vem de trás e a “perseguição”, entre aspas, continua. Ninguém parece ter coragem de obstar a esses desvarios políticos ou sociais.
Resulta daí que, principalmente a juventude, abala de maneira sinistra, a encontrar emprego, já que por cá os empregadores vão desaparecendo.
É desolador o que por aí vai. Há que tomar providências cautelares e imediatas para que não aconteça o pior.
Fecham estabelecimentos de utilidade pública e nem a lei nem as pessoas são capazes de impedir esse desmoronar de actividades que, além de serem instituições de emprego, beneficiavam aqueles que visitavam a vila, principalmente os turistas.
Retiram-se serviços – pelo menos anunciam-se tais medidas de mera conveniência política, esquecendo-se o bem estar e o progresso e desenvolvimento que devem merecer todas as terras, principalmente aquelas que têm tradição de séculos.
Toda a minha vida, que já vai no fim e que não deixou de ser longa, tenho pugnado pelo desenvolvimento e progresso desta terra. O meu vozear nem tem merecido a escuta de quem tem a responsabilidade de promover e acautelar o desenvolvimento harmónico do todo regional. Basta olhar para o que nos rodeia, no dia-a-dia, para termos a amarga certeza de que somos um povo quase ignorado e esquecido, E até, ao que consta, muito fazem sorriso alarve do nosso reclamar e do pugnar pelos nossos direitos legítimos. Não importa. Continuaremos a bradar, até que os homens nos escutem e atendam aos nossos clamores.
E hoje ficamos por aqui, esperando que haja alguém que nos escute e pense a sério nos nossos direitos de povo simples mas honesto e trabalhador. Ou continuaremos a clamar no deserto?
Vila das Lajes, 9 de Novembro de 2009
E.-A.
(Crónica lida nas "Manhãs de sábado da RDP-Açores)
Nesta época que decorre, era sempre agradável assistir às apanhas dos milhos e às desfolhadas. Eram autênticos dias de festa nas casas dos lavradores.
Quando os milhos estavam maduros e o pasto seco, era a ocasião própria para proceder à apanha e recolha das maçarocas nas “atafonas” ou lojas das residências. E esse dia era um dia especial. Grados e miúdos, todos se dedicavam à derrocada das maçarocas, ao preparar os carros de bois com as sebes bem acauteladas para as receberem e ao trazer os carros, normalmente tirados por dois bovinos, por caminhos algo perigosos, até ao local da recolha. Era um dia grande com jantar (hoje seria almoço) melhorado, preparado em casa e levado, na hora certa, até ao serrado onde se colhia o milho.
Mas, antes, haviam os trabalhos preparatórios. Cortavam-se as espigas que eram encostadas às paredes para secar ao sol, pois construíam bom alimento do gado, no Inverno. Esperava-se, depois, que as maçarocas secassem e era então o tempo da recolha, ou apanha dos milhos, antes que viessem as chuvas.
Aí principiava um trabalho doméstico, de grande importância. Era o descascar das maçarocas. Aproveitava-se o serão e a ajuda de amigos e vizinhos. Para essa ocasião preparavam-se os figos passados ao sol, ou secos no forno, e uma ou mais garrafas de genebra ou aguardente, geralmente de produção caseira. E, quando aparecia uma maçaroca de grãos vermelhos, era uma festa rija, principalmente se havia gente nova no ajuntamento.
Embora no meio de esganiços a praxe tinha de cumprir-se... Não era correcto negar o beijo ao feliz contemplado.
Manhã cedo, a dona da casa acendia o forno da cozinha e preparava a massa de milho, algumas vezes de trigo, para o bolo ou pão para o sustento da família e, depois, aproveitava o calor para secar o milho. Por cá não havia o hábito de deixarem as maçarocas com as capas ou folhas, em burras, no quintal, como é tradição em algumas ilhas do Arquipélago.
Antigamente, quando tudo era cozinhado no lar de fogo e as cozinhas (pequenos casebres construídos fora das habitações, para evitar os incêndios) eram providas de fornos, algumas das casas dos lavradores mais abastados, tinham dois fornos: um para as cozeduras domésticas e um outro maior para a secagem dos milhos ou, mais raramente, para as cozeduras do pão e das rosquilhas, nos gastos do Espírito Santo. Com a modernização das cozinhas, e utilização dos fogões e máquinas eléctricas ou a gás e outros electrodomésticos, vão rareando esses fornos de cozer.
Retiradas as maçarocas do forno, era a debulha, o joeirar o grão no crivo e, depois, arrumá-lo em barricas, arquibancos ou, mais modernamente, em depósitos de latão. E estava, normalmente, garantido o sustento da família durante o ano. Por vezes a produção era fraca e isso colocava o dono da casa em apuros...
Um pormenor é de registar: Quando se procedia à descasca das maçarocas, escolhiam-se aquelas que eram mais sadias e eram dependuradas geralmente nos tirantes dos quartos superiores para aí se conservarem, sem perderem o viço. O milho assim conservado era utilizado no ano seguinte nas sementeiras.
Presentemente, quase ninguém semeia milhos. A quase totalidade do que se consome, é importada. Desmantelaram-se as atafonas, os moinhos de vento que tanto alegravam a paisagem, e as moagens quase não existem. É caso para se dizer: Tudo o vento levou! Ficou-nos a saudade dos tempos da juventude distante.
Quão diferente são os hábitos e os costumes da vida de hoje!
A Igreja Católica celebra no dia 11 do corrente mês a memória do Bispo São Martinho, nascido na Hungria no ano de 316 e falecido em Tours, em 397 da Era Cristã.
Porque a celebração do dia de São Martinho ocorre a meio do mês de Novembro, o povo, na sua tradição popular, instituiu esse dia como aquele em que devia provar o vinho da colheita anterior. Daí o provérbio popular: “No São Martinho vai à adega e prova o vinho”.
Verdade que o Santo Bispo nada tem a ver com as colheitas dos vinhos mas tão somente porque o seu dia litúrgico ocorre a meio de Novembro, época das provas é que assim lembrado.
Já o mesmo não acontece com o nosso Frei Pedro Gigante. Como refere o escritor faialense Ernesto Rebello, numa das suas crónicas de ficção, publicadas no “Arquivo dos Açores”, sobre as Uvas da Ilha do Pico: Dizem que foi um padre, Fr. Pedro Gigante, que há muitos anos introduziu no Pico, nos terrenos mais próprios para semelhante cultura, alguns bacelos de vinha proveniente da ilha Madeira.
Este padre foi, efectivamente, um grande gigante no nome e na ideia um filósofo às direitas. Viu que a ilha do Pico era extensíssima, ainda pouco povoada e todos os casais dispersos à beira mar: - quis secundar a poderosa acção química dos mariscos sobre a organização humana, aumentar o nervosismo, o amor, (...), reconhecia a necessidade de mais gente na nova ilha e disse de si para si: - Se aqui houvesse bastante vinho, mas bom, dum certo que eu conheço, daquele que dá força e vida, realizava-se o milagre.
As cepas vieram, uns dizem que da Madeira, outros da ilha de Chipre, propagaram, cresceram, espalharam-se por toda a parte, chegando a dar-se com mais facilidade um copo de vinho do que de água, e, efectivamente, o Pico povoou-se, apesar da sua extenção, rápida e poderosamente.
Eram milhares de pipas que anualmente se produziam e exportavam para o estrangeiro.
Mas um dia a desgraça aconteceu. O oidium destruiu as vinhas e houve que importar novas castas. E assim vieram outras castas, de menor valor mas não menos produtivas.
O Pico continua a produzir bons vinhos. A orla costeira está cheia de pequenos currais onde se abrigam as videiras da
“Isabela” ou americana. E junto se construíram as adegas, ou pequenas casas de veraneio, onde os proprietários se acolhem na época estival para gozarem a amenidade do clima e tratarem das vinhas, limpando-as, levantando-as e colhendo, depois, os belos cachos, para serem esmagados e guardado o seu sumo nos balceiros, onde permanecem alguns dias, sendo depois o vinho armazenado nas barricas – quintos, meias pipas ou pipas, conforme a produção.
E é então que, pelo São Martinho, se vai à adega e se prova o vinho, uma prova que se estende aos amigos e vizinhos.
A meados do século passado os vinhateiros da Criação Velha iniciaram a festa de São Martinho, numa capela improvisada, no ramal que liga aquela freguesia à Areia Larga. Hoje já ali está construída uma pequena capela para, no seu dia próprio, ser festejado o santo protector das vinhas e dos vinhateiros.
Bom seria que não se esquecesse também Frei Pedro Gigante, o introdutor da vinha na ilha do Pico, ali no lugar da Silveira, desta vila.
É o título de um opúsculo publicado em Angra em 1927 pela Comissão Aloisiana que promoveu na Igreja de São Francisco daquela cidade, as comemorações do 2º Centenário da Canonização de São Luís Gonzaga.
A Comissão era constituída por alunos finalistas do Seminário e por outros jovens angrenses. Dela faziam parte, entre outros, os futuros Sacerdotes ordenados nesse ano: Francisco Vieira Soares, e Manuel Azevedo, picoenses, António Correia de Escobar, faialense, Manuel Rocha graciosense, Luís Cota Vieira, terceirense, além de outros que já não me foi possível identificar na foto que vem incerta no opúsculo citado. Lá está o Sargento Ferreira e António Machado Bettencourt, também picoense.
Manuel Rocha, terminado o curso, seguiu para Roma, onde se formou em Teologia e, depois, esteve em Lovaina a estagiar com o Cónego Cardijn para, depois, vir fundar em Lisboa a JOC. No entanto, acabou por deixar o Patriarcado e emigrar para os Estados Unidos da América, fundando ali uma paróquia junto de uma das Comunidades Portuguesas.
Tive o prazer de assistir à Missa Nova do Pe. Francisco V. Soares que, embora natural desta Vila, a celebrou no dia 31 de Julho de 1927, na freguesia da Piedade onde era pároco o tio Pe. Francisco Soares. Mas voltemos a Angra. Um dos números das comemorações centenárias foi a apresentação, no Teatro Angrense, do orfeão ensaiado e dirigido pelo Padre José de Ávila.
Acerca desse acontecimento artístico escreveu para o “Correio dos Açores” o Dr. Luís Ribeiro, jurisconsulto e grande crítico musical, além de ser um bom executante de violino (fazia parte da Orquestra que acompanhava o Te Deum do fim do ano, na Sé):
“O Padre Ávila mais uma vez adivinhou, mais uma vez achou a interpretação conveniente e justa sem ninguém lha ensinar nem nunca a ter ouvido!” (Aqui um simples reparo: O Padre José de Ávila, na sua juventude, foi aluno aproveitado do notável maestro Padre João Pereira da Terra que a vários ensinou a arte de Euterpe, mas nenhum soube aproveitar os ensinamentos como o Padre Ávila).
E só mais esta transcrição: “E pena é que este isolamento a que cada ilha está condenada pela força das circunstâncias, não permita a açorianos de todo o arquipélago virem gozar o raro prazer que o Orfeão proporcionou aos terceirenses.”
Enganou-se o erudito Dr. Luís Ribeiro. No ano seguinte o Padre José de Ávila preparou o Orfeão de Angra, com alunos do Seminário e outros jovens angrenses, cerca de oitenta elementos, e rumou a Ponta Delgada, onde a actuação do Orfeão foi um autêntico êxito cultural e artístico.
Antes da chegada do orfeão a Ponta Delgada, a Imprensa fez largas referências às qualidades artísticas do agrupamento.
O referido Dr. Luís Ribeiro publicou no “Correio dos Açores” um excelente artigo referindo a execução, pelo Orfeão, do “Aleluia” do compositor alemão Félix Mendelssohn.
Em Ponta Delgada, foi constituída uma “Comissão de Recepção” pelas seguintes personalidades: Pe. Herculano Romão Ferreira, Vigário de São Pedro, Anibal Bettencourt Barbosa, Rodrigo Rodrigues, Artur J.V. May, Dr. Manuel C. Pereira, Dr. Armando Côrtes Rodrigues, Domingos Rebelo, Aníbal Bicudo, Dr. António Melo, José da Luz Celeste do Nascimento, Pe. Dr. José Vieira Alvernaz, Luís Maria Xavier, Licino Costa, Augusto Correia de Teves, Pe. Francisco José Ferreira, Prior da Matriz, Capitão-capelão José Cabral Lino e Pe. José Augusto Pacheco.
Com o grupo seguiram, também, de Angra diversas personalidades. Entre elas o Dr. Garcia da Rosa, que pronunciou no primeiro concerto, realizado no antigo Teatro Micaelense, uma conferência sobre “Origem, Decadência e Restauração da Polifonia Sacra”, com apresentação do Dr. Guilherme de Morais.
No segundo concerto o Tenente-Coronel Frederico Lopes, fez uma conferência cuja apresentação esteve a cargo do Dr. Agnelo Casemiro.
Antes da terceira parte do último concerto o Vice-Reitor do Seminário, Dr. Manuel Cardoso do Couto agradeceu o acolhimento dispensado ao orfeão de Angra.
O terceiro concerto realizou-se no Coliseu Micaelense, tendo a Imprensa classificado o mesmo de “apoteóse triunfal”.
Depois desta digressão triunfal, repito, o orfeão nunca mais saiu da Terceira, ficando limitado ao Seminário. Que eu saiba, apenas uma vez foi ao Teatro Angrense, em 1932, para fazer a primeira parte do espectáculo dos alunos do Terceiro Ano Médico de Coimbra, em digressão pelos Açores. E que difícil foi demover o somítico vice-reitor de então!...
Só muito mais tarde, na década de sessenta e sob a regência do Maestro ribeiragrandense Edmundo M. Oliveira, o Orfeon do Seminário de Angra voltou a São Miguel, numa digressão, igualmente, memorável.
Estão a terminar, no corrente ano, as visitas às Baleias. Não sei quantos foram os visitantes, pois não tive oportunidade de investigar junto dos respectivos armadores, se isso permitissem, quantos foram aqueles que, aproveitando a frota local, foram junto dos cetáceos que abundam na baía das Lajes. Mas, a julgar pelo movimento diário que se observava no porto das Lajes do Pico, devem ter atingido alguns milhares.
É uma nova modalidade de turismo que está a valorizar esta terra, há cerca de duas dezenas de anos. Aliás um turismo com força cultural e que vem reforçar o ambiente que se vive desde há muito poresta ilha picoense.
E já agora convém recordar: A Vila das Lajes possui alguns estabelecimentos de leitura importantes pelo seu recheio e pelo número de obras que neles se consultam.
E principiemos pela Escola Secundária cuja biblioteca já atingiu cerca de 6.700 exemplares.
O Museu dos Baleeiros, nas Lajes do Pico, possui uma biblioteca especializada com algumas centenas de exemplares de obras clássicas, nacionais e estrangeiras.
A Biblioteca Municipal é bastante antiga e conta com cerca de 10 mil volumes. Mas tem uma história que vale a pena recordar.
Entre 1874 e 1879 andou por Coimbra a estudar Teologia aquele que , depois, seria Bisco de Macau, Dom João Paulino de Azevedo e Castro. Durante esses anos conseguiu recolher, nos alfarrabistas, algumas centenas de livros que enviou para a Vila das Lajes, sua terra natal, ao irmão Manuel Joaquim de Azevedo e Castro. Este, amante da leitura, havia solicitado a alguns cavalheiros a sua colaboração no sentido de fundar um Gabinete de Leitura. E foi para este gabinete que o irmão João enviou os “centos de livros” que havia recolhido. A Câmara Municipal de então concedeu ao Gabinete o subsídio de 18$000.
O Gabinete funcionou com regularidade durante vários anos até que, em 28 de Outubro de 1895, foi fundado o “Grémio Literário Lajense”, instituição de recreio, para o qual transitou o espólio do Gabinete. (Por exigências legais da Ditadura, o Grémio teve de alterar a denominação para Sociedade Literária e Recreativa Lajense, já nos anos quarenta do século 20.
A biblioteca do Grémio foi passando de instituição para instituição, chegando a nossos dias já bastante diminuída. Essa circunstância levou um pequeno grupo de jovens lajenses, na década de trinta, a fundar a Biblioteca Popular Lajense que, para garantia da sua existência viria a ser entregue, nos princípios dos anos quarenta, à Câmara Municipal das Lajes do Pico.
Actualmente denomina-seBiblioteca Municipal Dias de Melo em homenagem ao escritor picoense, recentemente falecido. Possui uma existência superior a dez mil exemplares. Dela faz parte uma biblioteca infantil, muito frequentada.
Em formação e contando já algumas centenas de exemplares existem os núcleos do Posto de Turismo Municipal, ao Castelo, e o Centro de Ciências do Mar, na antiga SIBIL.
Além das indicadas, encontram-se na vila das Lajes algumas pequenas bibliotecas particulares que acrescentam uma nota de verdadeira cultura ao velho e secular burgo.
Na Madalena, existe uma Biblioteca Municipal, fundada com os restos da biblioteca do escritor Nunes da Rosa, mas agora bastante enriquecida com mais de 15.000 volumes da biblioteca particular do falecido Dr. Lopes Correia e que o Filho, num gesto altruísta, acaba de doar ao Município da sua terra. Fica assim a Vila da Madalena a possuir uma das maiores bibliotecas picoenses.
Em S. Roque do Pico um grupo de cavalheiros, tendo à cabeça o notável João Bento de Lima, criou o Gabinete de Leitura Marques de Pombal, inaugurado em 8 de Maio de 1882.
A nossos dias pouco ou nada chegou da antiga biblioteca. No final do século XX, a Família do malogrado Poeta Almeida Firmino entendeu entregar à Câmara Municipal de São Roque a biblioteca do Poeta. Hoje a instituição possui mais de 3.600 volumes e está devidamente instalada, em edifício próprio.
Afinal um ambiente cultural que importa perseverar com cuidado e esmero pois só valoriza e em muitos aspectos a terra picoense.
O Porto das Lajes tem óptimas condições naturais para ali se construir um porto de abrigo. Basta fechar o “Poção”, a Sul e aprofundar o meio da nova lagoa retirando-lhe a rocha que impede as embarcações de circularem livremente, sem necessidade de ali se “implantar” uma boa a sinalizar o cabeço submerso.
No principio do corrente ano tive ocasião de trazer a estas colunas o momentoso problema das obras do porto das Lajes. Estava em conclusão o molhe de defesa construído na zona da antiga Carreira” e chamava a atenção para a necessidade de se manter o troço de ligação do muro do caneiro ao novo molhe.
O ano está quase no fim, o inverno está a chegar e nada se fez para que o muro de ligação do caneiro ao molhe exterior fosse uma realidade. O que resta do antigo passadouro o mar vai-se encarregando de destruir. E é pena, pois podia ter sido o alicerce do futuro muro de ligação e resguardo do Poção.
Todavia o pior que podia acontecer foi a forma aligeirada como se construiu o molhe, se é que isso representa, por um montão de blocos de cimento, sem qualquer ligação que o segure, permitindo que as ondas de Oeste se encarreguem de os mover a seu belo prazer.
Não será tempo de se olhar com mais cuidado para as obras marítimas – e não só – que se realizam no porto das Lajes? (E até no concelho, segundo as notícias que nos chegam do porto da Manhenha).
O Porto das Lajes tem óptimas condições naturais para ali se construir um porto de abrigo. Basta fechar o “Poção”, a Sul e aprofundar o meio da nova lagoa retirando-lhe a rocha que impede as embarcações de circularem livremente, sem necessidade de ali se “implantar” uma boa a sinalizar o cabeço submerso.
E quando isso acontecer, podem transferir-se para o “Poção” as amaras das embarcações de recreio – não lhe querem chamar marina - que demandam o porto e que mais seriam se espaço houvesse para ali permanecerem durante o tempo de descanso dos respectivos tripulantes.
Por outro lado permitia-se uma mais ampla e segura movimentação das embarcações destinadas ao Whale-Watching, pois o porto das Lajes é hoje o principal centro de observação de baleias, e igualmente das embarcações de pesca.
E aqui trazendo as embarcações de pesca, que já são várias, importa considerar não só as casas de aprestos como acontece em porto de diminuto tráfego, mas ainda um edifício capaz para a Lota, evitando-se as viagens diárias, de ida e volta, do pescado que para ser consumido nesta vila, tem de fazer um percurso de setenta quilómetros! Uma modernice só justificável para movimentar e dar importância a sítios que o não têm.
Quando da construção da muralha de defesa da Lagoa, derrubada pelo ciclone de 1936, o então director das Obras Públicas, Eng.º Angelo Corbal Hernandez, não só procedeu à regulamentação do piso do muro de acesso ao caneiro como, neste local, construiu uma grande plataforma, deixando, do lado do Poção, tudo preparado para a construção de escadarias, que serviriam o tráfego de pessoas, quando aquela zona estivesse devidamente protegida. E tudo lá está à espera de ser utilizado, embora mais de setenta anos hajam decorrido!...
Agora era a ocasião aprazada para se dar execução ao projecto do notável Engenheiro, beneficiando-se a vila das Lajes com uma estrutura capaz de contribuir satisfatória e plausivelmente para o seu desenvolvimento e progresso.
Quem terá a coragem de se voltar para a Vila das Lajes e encontrar a solução devida e merecida para tão momentoso problema?
Não é possível trazer todos os pormenores dos cataclismos ocorridos no Pico nos anos de 1718 e 1720 que atingiram, principalmente, as freguesias de Santa Luzia e de São João, levando D. João V a decretar a transferência de quarenta casais para o Sul do Brasil
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Várias vezes tenho referido o assunto. Nunca é demais lembrar as horas trágicas que os picoenses hão sofrido ao redor dos tempos. O mês de Setembro não deixou saudades aos picoenses. Grandes e funestas erupções vulcânicas assolaram a ilha, causando a desolação, a morte e a destruição de freguesias e haveres de muitos picoenses. A um simples arrazoado não é possível trazer todos os pormenores dos cataclismos ocorridos no Pico nos anos de 1718 e 1720 que atingiram, principalmente, as freguesias de Santa Luzia e de São João, levando D. João V a decretar a transferência de quarenta casais para o Sul do Brasil. E lá estão no Estado de Santa Catarina os descendentes desses picoenses que nunca esqueceram a terra-mater, ainda hoje bem presente nos hábitos e costumes, na cozinha e nas festas tradicionais e até nas próprias embarcações – uma cópia autêntica das velhas e históricas canoas baleeiras. Dos sismos do século XVIII ficaram os mistérios, que hoje são extensas matas de arvoredo bravio. Convém, no entanto, recordar o que se encontra registado numa memória arquivada no livro de tombo da Igreja Matriz das Lajes, que Silveira de Macedo transcreveu na sua obra, “História das Quatro Ilhas...”, livro há muito desaparecido: “No dia 1º de Fevereiro de 1718 tremeu a terra em horríveis convulsões, e abriram quatro bocas na montanha do Pico entre as freguesias de Santa Luzia e Bandeiras”. Foi nessa ocasião que os lajenses se lembraram de fundar a sua Igreja da Misericórdia, cuja irmandade existia nesta vila desde remota antiguidade. A segunda crise deu-se em 1720, entre Prainha e São João e esta freguesia e a da Santíssima Trindade. O Povo foi obrigado a evacuar a freguesia fixando-se, principalmente, no sítio da Almagreira, da última freguesia. A freguesia de São João Baptista ficou completamente arrasada. Um pequeno monumento assinala o local onde se supõe ter existido a antiga igreja. Serenada a crise, a população voltou à freguesia, instalando-se nas casas que restavam e passando a exercer o culto na antiga capela de Santo António, na Ponta Rasa, recentemente restaurada pela actual família proprietária. Na noite de 9 para 10 de Julho de 1757 um violento terramoto atingiu a freguesia da Piedade, destruindo a respectiva igreja paroquial e outras habitações e fazendo doze vítimas. O mesmo terramoto fez grandes estragos na ilha de S. Jorge, vitimando 1.034 pessoas nos concelhos da Calheta e Topo. A actual igreja da Piedade, que estava concluída oito anos após o sismo, é um dos mais valiosos templos da ilha. Foi, recentemente, restaurada na sua primitiva traça o que bastante a valorizou. O “magnifico templo, que é um dos maiores da ilha, nada sofreu com o sismo de 1926...tem de comprimento 42 metros e 16 de largura, possui um bonito frontispício em pedra lavrada e uma só torre”. E o Prof. Ávila Coelho na sua monografia “A Freguesia de N. Senhora da Piedade na Ilha do Pico” (Boletim do Núcleo Cultural da Horta, Vol. 2, nº 3, 1961), escreve que aquela igreja possuía um admirável conjunto de imagens, entre elas a da Padroeira. Estas imagens devem vir do tempo da construção do templo uma vez que as que existiam na anterior igreja ficaram totalmente destruídas. (Pena é que a Imagem da Padroeira, embora restaurada na pintura somente, não tivesse sido conservada ao culto.) A 23 de Novembro de 1973, um novo sismo foi sentido no Pico, fazendo muitos estragos em S. Mateus, o que obrigou uma parte da população a refugiar-se na vila das Lajes, onde foram carinhosamente recebidos. Mais destruidor foi o sismo de 9 de Julho de 1998 que danificou, grandemente, diversas igrejas e algumas centenas de habitações da Ilha, o que obrigou ao dispêndio de avultadas quantias, quer dos Serviços públicos quer dos próprios proprietários. E por aí ainda se encontram alguns prédios arruinados e sem possibilidade de restauro o que não deixa de ser agravante para o aspecto urbanístico da própria ilha. A freguesia de São Mateus celebra, no dia 21, a festa do Padroeiro. Nesse dia, e segundo a tradição, cumpre o voto de distribuir vésperas (rosquilhas) em gesto de gratidão, pelos vulcões de 1718 e 1720 não terem atingido a freguesia.
O Pe. Francisco Soares era um excelente músico e regente de capela. Por onde passava, organizava as respectivas capelas paroquiais e ele próprio as regia enquanto outro não preparava para as reger
Poeta de grande sensibilidade e jornalista combativo, era ainda “apreciado orador sacro, possuía um estilo tão acessível aos auditórios populares que o escutavam com prazer”.
Sacerdote de uma notável acção pastorale responsável inteligente e culto, modesto e dedicado.
Quando rabisco estas notas decorre na freguesia da Piedade, da Ponta, a festa da Padroeira. Uma festa que traz à lembrança bons momentos vividos, em tempos passados, naquele extremo da Ilha, celeiro abundante e, outrora, fértil em vinhos de casta nobre, como hoje lhe chamam.
A primeira vez que fui à Piedade, na companhia de meu saudoso Pai, foi em Julho de 1927, para assistir, a seu convite, à Missa Nova do Padre Francisco Vieira Soares. Voltei, alguns anos depois, para colaborar na capela local, nas festas de Nossa Senhora da Piedade. E não era fácil lá chegar, pois a estrada ainda não havia sido construída. Do porto das Lajes íamos até ao da Calheta, numa das lanchas locais – Lourdes ou Hermínia - e seguíamos a pé, normalmente o Sr. Chico Castro, organista, e eu próprio, pelos velhos caminhos, até à Piedade, Recebia-nos o velho e simpático Pároco, Pe. Francisco Soares. Da capela faziam parte, entre outros, o José Laranjeira e o Tomé Freitas, que possuíam boas vozes de tenor. E só destes me lembro.
Mais tarde passei a ir anualmente na camioneta da carreira, até à Ponta da Ilha, já então a estrada estava concluída. E que bons e saudosos momentos ali passei, na companhia da Olga, saudosa e querida esposa, e dos nossos filhos, que, felizmente, não mais esqueceram o lugar da Engrade onde ainda existe a nossa secular adega ou casa de verão.
Não faltávamos à Festa de Nossa Senhora da Piedade!
Mas, voltando ao Padre Soares (o Novo como era conhecido), importa mais dizer.
Como já referi em anterior escrito (1), o Padre Francisco Vieira Soares nasceu nas Lajes do Pico em 26 de Julho de 1902.
Com o falecimento da Mãe, era ele criança ainda, foi para a Piedade aos cuidados da avó e do tio Pe. Francisco Soares, também natural desta Vila, pároco daquela freguesia. Ali cresceu e dali foi para o Seminário de Angra, onde se ordenou em 1927.Como primeira colocação teve a Redacção da “Democracia”, da Horta, jornal que havia sido comprado pela Diocese. Com a chegada do novo Prelado, o jornal é vendido e o Pe. Soares é nomeado Cura dos Cedros, do Faial. Ali chegado, funda, com um grupo de professores da freguesia, entre os quais Manuel de Ávila Coelho, natural da Piedade, a revista“O Eco Cedrense”. O Bispo Diocesano, inesperadamente, retira o Pe. Soares dos Cedros e coloca-o na Prainha do Norte, Pico, apenas por alguns meses, pois, logo a seguir, transfere-o para a paróquia da Lomba, na Ilha das Flores.
O Pe. Soares não era pessoa para cruzar braços. Logo que chegou à nova paróquia, e verificando a carência de uma moradia para o Pároco, toma a arrojada iniciativa de construir uma casa para passal. E ela lá ficou.
A ele se ficou a dever também a fundação da Filarmónica local. E quando outros projectos tinha em mente, para não falar na cooperativa de lacticínios, é transferido para a freguesia de Ponta Delgada da mesma ilha.
Naquela importante freguesia florentina funda a filarmónica local. Mas isso implicava a preparação dos tocadores, os ensaios, a escolha dos reportórios adequados, etc., tal como já acontecera na Lomba. ( E aqui um pequeno reparo: é estranho que os historiadores florentinos – aqueles que me é dado conhecer – ignorem a actividade do Pe. Francisco Soares naquela ilha).
Não muito tempo decorrido, o padre Francisco Vieira Soares é transferido para S. Caetano do Pico, onde organizou uma sociedade para a pesca da albacora, então em franco desenvolvimento.
“Quando o trabalho estava a frutificar, é convidado a voltar às Flores. Não aceita. O tio, Pe. Francisco Soares, há longos anos vigário da Piedade ,ia naturalmente envelhecendo. O Pe. Francisco era o único parente válido. Tornava-se imperioso regressar para junto daquele que o amparara na juventude. E fica na Piedade de coadjutor do tio Padre. Depois, este pede a manência e o Pe. Soares é nomeado vigário.”(2)
A actividade desenvolvida pelo Pe. Francisco Vieira Soares, na Paróquia da Piedade, está ainda bem presente. O Salão Paroquial ostenta o seu nome pois foi ele quem adquiriu um antigo edifício e o transformou no actual salão. Substituiu o tecto da ampla igreja e nela fez outras importantes reparações.
Em 1944 compra, em S. Mateus, com auxilio do Dr. Eduardo Machado Soares, o instrumental da antiga “Lira Picoense” que ali existira e havia sido fundada pelo Pe. Manuel José Lopes, e funda, na Piedade a “União Musical da Piedade”. Ensinou música aos futuros tocadores e entregou a regência a Manuel José (Racha). Com a saída do Manuela Racha para a Praia da Vitória, onde chegou a reger a Filarmónica daquela então vila e hoje cidade, passou a reger a “União Musical” Manuel Francisco Soares. E outros foram sucedendo.
O Pe. Francisco, que era um excelente músico e regente de capela, ( não tivesse sido aluno do Pe. José d´Ávila), por onde passava, organizava as respectivas capelas paroquiais e ele próprio as regia enquanto outro não preparava para as reger
Poeta de grande sensibilidade e jornalista combativo, era ainda “apreciado orador sacro, possuía um estilo tão acessível aos auditórios populares que o escutavam com prazer”.(3)
Sacerdote de uma notável acção pastorale responsável inteligente e culto, modesto e dedicado, era uma “personalidade de nítida vocação literária que viveu numa contínua contradição imposta por quem foi incapaz de o compreender e de aceitar os rasgos intelectuais e mortais de tão brilhante espírito”.- (4).
A Piedade está na sua semana de festa. Que nestes dias não esqueça os seus maiores, que tantos são!