domingo, 28 de junho de 2009

As Velhas lanchas

Notas do meu cantinho

Apareceram na década de vinte do século passado, para substituir os antigos iates à vela, “São João Baptista”, “Espírito Santo e “Bom Jesus”. Naturalmente foram envelhecendo e já desapareceram.

A “Lourdes”, e um ano depois a “Hermínia”, representaram, para os lajenses e picoenses, um verdadeiro progresso. Para o lado Sul não havia estradas. Eram as lanchas da Vila que, semanalmente, ligavam a Calheta e Ribeiras (Santa Cruz) aos portos do Sul do Pico até à Horta. Iam e vinham no mesmo dia. Conduziam passageiros e carga diversa. A mais volumosa era embarcada na freguesia de São João, que exportava para a Horta o tradicional “Queijo do Pico”, recolhido pelo João dos Queijos nas freguesias da Ponta e preparados e curados pelas queijeiras daquela freguesia De São João exportavam também carvão, produzido no Mistério.

Das outras freguesias exportava-se tudo o que possível era, principalmente peixe seco, banha de porco, linguiça e outros produtos.

Da vila das Lajes enviava-se para a cidade fruta diversa, principalmente laranjas e bananas.

Toda a gente procurava “fazer dinheiro” daquilo que lhe sobrava das necessidades domésticas.

Da Horta traziam as lanchas das Lajes todo o género de mercadoria, principalmente farinha de trigo e sêmea da Moagem dos Peixotos; géneros de mercearia das Casas de atacado que lá existiam, e outros produtos, incluiindo materiais de construção.

Normalmente as lanchas saiam da Horta ao meio dia para virem entrando nos portos do Pico, onde desembarcavam passageiros e cargas: São Mateus, Prainha, São João e Lajes. Daqui seguiam até Santa Cruz e Calheta, regressando já noite dentro.

No verão as viagens eram maravilhosas e muitos aproveitavam para ir até à Horta, onde tratavam dos seus negócios. No entanto, no Inverno acontecia fazerem viagens tormentosas.

Timonadas por bons e experimentados mestres, - Francisco Machado Joaquim, João Machado Soares e José Pereira Bagaço, na “Hermínia” e José Machado “Tiaguinha”, na “Lourdes” (destes me

recordo) – felizmente nunca tiveram qualquer sinistro, nem mesmo na perigosa entrada da “Carreira” no porto das Lajes. Foram óptimos os serviços prestaram aos picoenses durante dezenas de anos.

Normalmente, por vezes alternadamente, faziam uma viagem semanal à segunda-feira. Nos restantes dias auxiliavam na caça à baleia, quando ela aparecia, e tinham também a seu cargo o serviço de passageiros e reboque dos batelões de carga dos navios da Empresa Insulana de Navegação, “Lima” e “Terceirense”, e, mais tarde dos “Carvalhinhos” que lhes seguiram.

Chegaram a fazer serviço no canal Pico - Faial, quando as lanchas dos Lourenços avariavam. E quando as lanchas das Lajes lá iam, eram as preferidas!

Depois... com a introdução da pesca do atum, a “Lourdes” foi destruída para dar lugar à traineira “Geralda” e a “Hermínia” também foi queimada, por exigências da lei vigente.

Na Calheta de Nesquim, foi criada, na década de trinta uma Cooperativa que passou a explorar um estabelecimento comercial e, a seguir, mandou construir a lancha a motor “Calheta”, destinada a viagens semanais, ligando o Faial, Pico e S. Jorge até â Terceira. Navegou alguns verões, sob o comando do Mestre José Goulart, com sucesso e óptimos serviços prestados aos habitantes das referidas ilhas. Era uma alegria para os picoenses quando, no principio do verão, a “Calheta” chegava ao porto de Angra. Muitos picoenses se juntavam no pátio da Alfandega, para receber notícias da sua ilha. Mais tarde a “Calheta” foi vendida à Empresa das Lanchas do Pico e acabou seus dias no porto da Madalena.

Foi realmente uma época de verdadeiro progresso para os picoenses, depois das tormentas causadas pela guerra (1914-18) , e que teve o mérito de promover a aproximação dos povos das ilhas do hoje chamado Grupo Central.

Nos finais da década de vinte e princípio da de trinta apareceram os iates motorizados “Ribeirense” do Mestre João Silveira Alves e compnhia e, a seguir, o “Andorinha”, do Mestre José Gaspar e outros.. Mais tarde. o “Santo Amaro”, a chalupa “Helena” o “Terra Alta”, e outros mais. Alguns deles anteriormente navegavam à vela. Tudo, porém, terminou ingloriamente.

E a “história” fica por aqui.


Vila das Lajes, 1º dia do Verão de 2009.

Ermelindo Ávila


domingo, 21 de junho de 2009

O VERÃO QUE ESTÁ A CHEGAR

NOTAS DO MEU CANTINHO


2009 está chegado ao meio. Em poucos dias teremos o verão. E muito embora o tempo ainda não nos ofereça dias completamente soalheiros e quentes, a convidar para os banhos de mar, já é tempo de algo se fazer para que nos dias mais acalorados os lajenses possam gozar a frescura do mar que rodeia a vila.

As “praias” não foram este ano beneficiadas com a bandeira azul. Mas, nem por isso, a qualidade das águas do mar deixam de estar apetecíveis para aqueles que têm por hábito passar umas horas no mar, na época do Verão. E para que se possa oferecer aos utentes o prazer completo algo falta ainda, e não pouco. Demais informa “O Dever” no seu último número que a zona balnear das Lajes do Pico tem qualidade de ouro, embora não lhe tenha sido atribuída a bandeira azul .

Junto das antigas casas dos botes da Lagoa de Cima, têm o clube náutico a sua sede, um modesto alpendre sem condições para que os desportistas disponham de um sítio aprazível onde passar as horas de lazer. O projecto de remodelação e ampliação daquelas instalações desportivas já está concluído e, ao que me é dado saber, foi entregue nos Serviços competentes para a aprovação e concessão do respectivo subsídio. Aguarda. No entanto, aguarda pareceres e a aprovação final.

Um atraso que mal se percebe, tratando-se, como se trata afinal, de um governo único...

O Município promoveu a construção de balneários em alguns portos do concelho. Esqueceu porém que a zona balnear desta vila é a de maior frequência, não somente dos nativos como dos visitantes, alguns, e não poucos, estrangeiros. E são estes que melhor acolhimento devem merecer, numa terra onde se deseja desenvolver a indústria do turismo, aquela que vai representar em futuro próximo, o estreio económico desta terra.

A melhoria do acesso às poças da Barra torna-se indispensável bem como o duche que, melhor seria se estivesse instalado em cabine amovível para que possa ser retirada no Inverno, afim de se evitar a sua destruição. Pequenas coisas que muito representam, para benefício dos utentes e o bom nome da terra.

É tempo de se encontrar uma solução para o antigo campo de jogos. Mais um parque de estacionamento? E porque não uma zona ajardinada, com arvores apropriadas e bancos de descanso num melhor traçado urbanístico? E igualmente os largos ajardinados, onde quase só existe relva e bem poucos bancos de descanso.

E porque não lançar um arruamento na parte Leste da Vila que, saindo da zona de S. Pedro, vá entroncar a norte no actual parque de estacionamento? Uma maneira útil de conquistar alguns terrenos para construções urbanas, evitando-se a evacuação da Vila e a fuga para os seus subúrbios.

É uma sugestão e aí poder-se-ia conquistar alguns.

E por último impõe-se que os acessos ao Posto de Turismo (Castelo) e Centro de Artes e Ciências do Mar (SIBIL) sejam melhorados pois os pisos estão a ficar em más condições de trânsito. E não são grandes as extensões.

Outros reparos havia a fazer. Ficam “em carteira”.

Vila das Lajes, 13 de Junho de 2009

Ermelindo Ávila

quarta-feira, 17 de junho de 2009

As ruínas da Vila das Lajes

NOTAS DO MEU CANTINHO


Apetecia mais intitular este arrazoado de “A Vila das Lajes em ruínas...” Fica porém assim para não ferir certas susceptibilidades. Mas, na realidade, a Vila vai caindo em ruínas. Em ruínas materiais e económico-sociais.

E princípio pela já histórica “Casa da Maricas do Tomé”, hoje propriedade do Município Lajense, que ameaça ruínas e qualquer dia poderá causar desastres irreparáveis. A seguir está a casa que foi a antiga “Pensão Velha” e que pertenceu à Família Bettencourt de Faria. Uma magnífica moradia, com um excelente alçado exterior, cujo actual proprietário desconheço. Infelizmente está já em ruínas. Perdeu o terceiro piso (torre), e o interior já desapareceu. Depois é a “nossa casa” como a classifiquei há dias, a mais antiga da Vila e com um traçado do século XVIII. Qualquer dia desaba o tecto, pois a derrocada já principiou. Também desconheço a quem hoje pertence. E outras ruínas existem em outras ruas.

Afinal, uma vil tristeza o que vai acontecendo na Vila mais antiga e mais urbana da Ilha do Pico. E não são os lajenses – seus habitantes – somente os culpados de tamanhas desgraças.

Qualquer dia acontece o mesmo à antiga casa da Alfandega, que pertenceu à Família do Visconde Borges da Silva e é actualmente propriedade do Estado. Nela esteve instalado o antigo Posto Aduaneiro, depois a Secção da Guarda Fiscal / Guarda Nacional Republicana, agora parece ser de ninguém, pois as placas indicativas dos serviços foram retiradas e a casa abandonada.

Melhor sorte teve o edifício da Delegação Marítima que, depois de certo abandono e do encerramento dos Serviços, está a ser convenientemente restaurado, naturalmente para regressar ao activo...

Por aquilo que os Políticos anunciam com desmesurado emprenho, o mesmo vai acontecer ao edifício grandioso da Escola Básica e Secundária, se for por diante a sua transferência para uma zona distante da Vila três quilómetros aproximadamente! Esse será o golpe fatal na existência da antiga vila. A sua morte certa!

Quando, na Região, se vão transformando freguesias em vilas e vilas em cidades, parece que há o empenho de retirar o estatuto de vila à mais antiga da ilha e uma das primeiras dos Açores, com um passado histórico rico e dignificante para os habitantes do concelho, que não apenas para aqueles que sempre residiram no velho burgo.

E esse desmantelar criminoso principiou com a retirada de certos Serviços Públicos, transferidos para outras terras com o propósito descarado, e sub-reptício, ao menos aparente, de engrandecer essas terras e diminuir, a pouco e pouco, as valências burocráticas e oficiais da vila, hoje cognominada “Baleeira”, uma actividade que também lhe foi retirada.

Mudar a Escola para longe da Vila, é o acto político mais desastroso que se pode praticar. Quem o fizer ficará com o seu nome registado na História como um dos mais perversos gestores públicos de todos os tempos. O actual edifício, com as devidas adaptações, não terá condições pedagógicas para continuar a preparar a juventude para o futuro?

Demais, os actuais alunos, em diversos ramos do Ensino, continuam a ser bons e, alguns, dos melhores, nas escolas superiores onde prosseguem os estudos, prova de que a preparação que cá tiveram, não foi descorada.

De considerar ainda, que a população escolar vai diminuindo, com a ausência de juventude no concelho. É o que dizem as estatísticas e elas é que servem de base aos estudos demográficos e escolares. E pior será com a criação, programada, da futura escola preparatória da Piedade. Afinal, tudo isto confirma que o actual edifício ficará com espaços livres para todos os serviços escolares.

Salvem a Vila das Lajes! Mantenham os seus serviços públicos e olhem atempadamente pelo seu património; um património histórico que merece ser salvaguardado.

Quem para isso contribuir terá, esse sim, a gratidão e o reconhecimento dos lajenses, presentes e futuros.

Ainda é tempo de se recuar com tão pérfida medida política.

Tanto mais que havia a dizer sobre este caso único!...

Hoje aqui deixo um veemente apelo para que esse recuo aconteça. Da minha parte não farei muitos mais.

Vila das Lajes,

1 de Junho de 2009

Ermelindo Ávila

sábado, 6 de junho de 2009

O PE XAVIER MADRUGA E O "SEU" O DEVER

O Padre João Vieira Xavier Madruga nasceu nesta Vila a 1 de Junho de l883, filho de António Xavier Madruga e de Maria do Rosário Vieira.

Bastante jovem ingressou no Seminário de Angra onde veio a ordenar-se em 5 de Novembro de 1905, aos vinte e dois anos de idade.

Após a ordenação foi nomeado prefeito e professor do Seminário. Entretanto, desde seminarista colaborou na imprensa católica angrense.

Com a proclamação da República e promulgação da nefasta lei da separação, em Outubro de 1911 o Seminário fechou, pois o Administrador do Concelho, alegando ordens superiores, tomou conta das chaves e bem assim de todos os haveres (mobiliário, biblioteca, museu, instalações eléctricas, louças, etc.)

“Na Vila do Topo, (diz o Cónego Pereira, A Diocese de Angra e a História dos seus Prelados, 2ª parte). Quando o Revº Pe. Armelim Mendonça, que havia feito concurso para a respectiva Matriz, veio tomar posse da igreja, uma multidão, movida por caciques políticos, foi-lhe ao encontro, gritando que o não queria, ali. O Pe. Armelim retirou para S. Antão, onde veio a ser colocado.”

Dias depois, continua o Cº Pereira “ os manifestantes apagaram a lâmpada do SS. Sacramento, deixando ficar no Sacrário as Sagradas Espécies, fecharam a igreja e foram em procissão lanças as chaves ao mar”.

Foi neste ambiente de terror que o Vigário Capitular, que governava a Diocese, pediu ao Pe. Xavier Madruga para vir para a paróquia e ouvidoria do Topo, em S. Jorge.

Sempre obediente às ordens dos Superiores, o Pe. Madruga aceitou, profundamente consternado e consciente do ambiente que o aguardava. E assim aconteceu. As perseguições, as calúnias, os ataques morais não se fizeram esperar e o Pe. Madruga passou, durante os anos em que paroquiou aquela vila jorgense, os mais atrozes sofrimentos.

Todavia, não virou costas a todo esse cortejo de ataques vis e mesquinhos, de alguém que, passados anos, o procurou pessoalmente para lhe pedir perdão.

Em 2 de Junho de 1917 funda um jornal. Nele procura defender a Igreja dos ataques jacobinos de que era vítima. E o jornal continuou. Passou a ser editado na vila da Calheta para ter o apoio do colega, Pe. José Joaquim de Matos, que sempre o acompanhou até ao falecimento. O jornal foi mantido algum tempo mais na vila da Calheta com ajuda do poeta Samuel da Silveira Amorim, embora sujeito a uma censura mesquinha do respectivo administrador. Isso levou o combativo e vigoroso jornalista que era o P. Madruga, já então a residir na ilha do Pico, a pedir a transferência da Censura para a Horta, o que lhe foi concedido. Mas não ficou por aí. Em Setembro de 1938 transfere para esta vila a oficina tipográfica e a redacção do jornal. “O Dever” passou a ser um jornal lajense, em plenitude. Ele aí está.

O Pe. Madruga faleceu em 30 de Março de 1971. Antes havia transferido, por venda simbólica, a propriedade e os haveres do jornal para a Paróquia da Santíssima Trindade das Lajes do Pico. E o jornal, felizmente, continua. No dia 2 do corrente mês celebrou noventa e dois anos. Quase um século. O mais antigo jornal das ilhas do ex-distrito da Horta e o segundo semanário, em antiguidade, dos Açores. Uma relíquia de que são proprietários os lajenses a quem compete mantê-lo e conservá-lo com o mesmo entusiasmo e elevação cultural que sempre lhe imprimiu o seu Fundador.

(Como mero registo, aqui deixo esta simples informação: Iniciei a minha modesta colaboração no jornal em Abril de l932. São decorridos setenta e sete (77) anos ! Fui seu editor desde a chegada às Lajes, seu redactor principal e administrador durante algumas dezenas de anos. Durante a estada nos Estados Unidos do Pe. Xavier Madruga, de 1945 a 1948 assumi a responsabilidade da direcção do jornal. Agora sou um mero rabiscador de singelas crónica).


Vila das Lajes, Junho de 2009

Ermelindo Ávila

sábado, 30 de maio de 2009

AS FOLIAS

NOTAS DO MEU CANTINHO


Assim eram conhecidas as Festas do Espírito Santo. Elas iniciavam-se no primeiro domingo a seguir ao Domingo de Pascoa e iam até o Domingo da Trindade.

Em todas as chamadas Domingas realizavam-se as Coroações - solenidades promovidas por irmãos, que haviam escolhido a sua “sorte” no ano anterior. Em cada Paróquia havia mais do que uma irmandade, as quais preenchiam as Domingas. Hoje mantém-se ainda essa tradição, que se cumpre, de cinco em cinco anos, como já escrevi, nos lugares das Terras e da Almagreira.

Antigamente, o mordomo levava a Coroa à Igreja, acompanhado pela Irmandade, por doze pobres, por alguns convidados, e pelos familiares. E só.

Eram recebidos, à porta da igreja, pelo sacerdote celebrante, normalmente o pároco, que, a seguir, dava inicio à Missa cantada. No coreto já estavam os músicos, com o organista, para executarem, quase sempre, a “Missa de três sustenidos”, partitura muito antiga, cantada por dois ou três músicos, que mais não havia.

No cortejo actuavam os foliões com seus tambores, pandaretas e ferrinhos. Um dos foliões era portador da bandeira, na qual colocavam pães ou meios pães, três ou quatro, daqueles que eram servidos às mesas. Esse costume ainda hoje é mantido.

Os foliões não entravam na Igreja para tocar e cantar as loas apropriadas porque isso lhes foi proibido pelo Bispo de Angra, D. Jerónimo Teixeira Cabral, 9º Bispo da Diocese, (1600 – 1612). Segundo o Cónego Pereira (“A Diocese de Angra na História dos seus Prelados”), “Dom Jerónimo tinha um carácter enérgico e exigente mesmo; e em nada cedia perante a Lei e os direitos da Igreja...”. "Foi esse Prelado que proibiu que os foliões das festas do Espírito Santo bailassem na capela-mor das igreja ao serem coroados os imperadores...”)

Os foliões tinham – e ainda hoje, quando os há – por missão cantar umas loas apropriadas nos trajectos, nos intervalos das filarmónicas, depois que estas apareceram em meados do século XIX, e à chegada a casa do mordomo e durante o jantar. No final deste cantavam a “Despedida”.

Era um momento de saudade e de emoção. Até as cozinheiras (hoje são também cozinheiros) vinham à porta do salão para tomar parte nessa cerimónia da despedida e deitar a sua lágrima de saudade, pois a coroa ia partir para o cortejo de “juntar as rosquilhas, ou vésperas”, quando era dia de “Império”, ou para casa do mordomo do domingo seguinte; e não voltava. Ficava na capela do Império para, à noite, seguir para a casa do novo mordomo.

Não havia rainhas nem damas de honor. Era o elemento masculino que, quase só, tomava parte nos cortejos. Nele iam algumas crianças a lançar pétalas de flores. O portador da Coroa levava uma estola vermelha, traçada no ombro, a qual era transferida, depois da coroação, para aquele que coroava. Normalmente o mordomo da função ou um seu representante.

Cada irmão possuía uma vara pintada de vermelho e que, no topo, ostentava e também pintada, uma coroazinha. Comparecia sempre com ela e formava os chamados quadros do cortejo. Mais tarde principiou a aparecer penas, com cestos de flores .

(Excepção fazia a Irmandade de Santo António. cuja fundação é do princípio do século XX, cujas varas eram e julgo que ainda são pintadas de branco).

A vara era um símbolo sagrado. O irmão guardava-a durante o ano à sua cabeceira e quando falecia ela lá continuava respeitosamente. (Ainda me lembro de ver a vara de meu bisavó paterno junto à cama da minha bisavó. E ela não consentia que alguém a tocasse. “Era a vara do nosso António”, dizia.)

No princípio da década de trinta do século passado, há cerca de oitenta anos, foi trazido dos Estados Unidos da América o estilo da “Rainha” e, a partir daí, muita coisa foi alterada. Poucas são as localidades que conservam as cerimónias das Coroações no seu estilo primitivo.

Presentemente há muita bibliografia publicada sobre as festas do Espírito Santo nos Açores. A “Casa dos Açores de Lisboa” promoveu há alguns anos um Congresso sobre o Espírito Santo nos Açores mas,

mesmo assim, apesar da erudição dos conferencistas, creio que não se penetrou intrinsecamente na origem, manutenção e finalidades destas festas tão caras ao povo açoriano. Exigem um estudo imparcial, profundo e aturado. Fica para outro.


Vila das Lajes, 28 de Maio de 2009

Ermelindo Ávila

quarta-feira, 27 de maio de 2009

SÃO NUNO ÁLVARES PEREIRA

NOTAS DO MEU CANTINHO


No último domingo, de Abril, a Igreja Romana elevou às honras dos Altares, o Beato Nuno de Santa Maria, figura portuguesa de grande projecção nacional e histórica e da própria Igreja Católica que já o havia declarado Beato pelo Papa Bento XV, em 23 de Janeiro de 1918.

D. Nuno Alvares Pereira nasceu em Cernache do Bomjardim, Santarém, em 24 de Junho de l360, filho do Prior da Ordem Hospitaleira de S. João, D. Álvaro Gonçalves Pereira e da dama do Paço, D. Iria Gonçalves Carvalhal. Casou aos quinze anos, com D. Leonor do Alvim, de quem teve uma filha, D. Beatriz, a qual viria a casar em 1401 com D. Afonso, conde de Barcelos. D. Beatriz faleceu em 1414, deixando alguns filhos.
Comandou as tropas portuguesas, como Condestável do Reino.

No Alentejo, Nun’Alvares começava o ciclo das proezas, em que se fundiam o amor terreno da Pátria e o amor místico de Deus, batendo nos Atoleiros, em 6 de Abril de l384, mercê de um famoso quadro de infantaria as tropas castelhanas”(1) .

Um ano depois, a 14 de Agosto de 1385, dá-se a batalha de Aljubarrota. Nela as tropas do Condestável destroçam as de Castela, novamente. A meados de Outubro de 1411 Nun’Alvares Pereira ganha a terceira batalha de Valverde. E termina a sua actividade no mundo.
Em 1393 partilha com os companheiros de armas numerosas terras que lhe foram doadas; em 1393 instala no convento de Lisboa os frades da Ordem do Carmo, com os quais estreitou relações de especial afecto. Consorcia-se em 1401 sua filha D. Beatriz com D. Afonso, conde de Barcelos, filho natural de D. João I. Quando do falecimento, em 1414, da condessa de Barcelos, sua filha, o pai projecta recolher-se à clausura monástica.(2)

Ainda participa na expedição a Ceuta mas em 1422 reparte com os netos os seus títulos de domínio, despojando-se de todos os bens materiais e recolhendo-se ao convento onde professa no dia 15 de Agosto de 1423, dia consagrado pela Igreja à Assunção de Nossa Senhora ao Céu.

Deixa de ser O Condestável do Reino para ser somente um frade carmelita sujeito à regra monástica, onde termina seus dias a 1 de Novembro de 1431.

O povo desde logo dirige-lhe preces e os poderes reais solicitam ao Papa Urbano VIII para que proceda à sua beatificação. Em 1674 é renovado o pedido a Clemente X. No entanto, só a 23 de Janeiro de 1918 o Papa Bento XV deliberou elevar Nuno de Santa Maria às honras dos altares, o que veio agora a ser confirmado por Bento XVI, com a canonização solene, a 26 de Abril de 2009. Haviam decorrido quase quinhentos e setenta e oito anos sobre a morte gloriosa do extraordinário Santo Português.

Certo é que a sua memória nunca deixou de ser invocada e os milagres alcançados por seu intermédio são às dezenas.

Nuno Alvares “trouxe sempre fundidos no seu coração o amor de Deus e o amor da Pátria. Foi Monge e foi Soldado; foi Santo e foi Herói. Teve o duplo misticismo – o do Céu, e o da sua terra. Na hora mais aguda das batalhas, esquecido de tudo, ajoelhava e rezava. E, como os maiores místicos, possuía o sentido rectilínio do equilíbrio e das realidades. Era um espírito positivo de patriota, animado pela fé mais viva da crença mais alta.”...”Nuno Alvares é a encarnação suprema da Pátria portuguesa: está nos altares, porque a Igreja o reconheceu merecedor do culto; e está nos corações dos portugueses fiéis que vêem nele o símbolo do seu amor pátrio.
Sem a sua espada vigorosa e sã, Portugal teria caído possivelmente na órbita de Castela, e tudo quanto fez em prol da civilização, andaria hoje escrito em língua estranha.” (3)

Estava já o Santo Contestável recolhido ao Convento do Carmo quando foi celebrado ,em Medina, no dia 30 de Outubro de 1431, o tratado de Paz com Castela. No dia imediato (?) “a morte arrebatava aquele que da demorada e viva luta entre Portugal e Castela, tanto se celebrizara o Condestável Nuno Alvares Pereira morria no catre humilde de uma estreita cela do seu convento do Carmo, em Lisboa...”( 4)

Viveu na Terra pouco mais de setenta anos.

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1)-Pimenta, Alberto – “Elementos de História de Portugal,”, 1836 – pág. 90

2)-“Enciclopédio Luso-Brasileira de Cultura”.1973, Vol. 14º

3)-Pimenta, Alberto, o.c. pág. 105

4)-“História de Portugal” por Damião Peres e outros. Vol. III. pág. 25.


Vila das Lajes, 2 de Maio de 2009

Ermelindo Ávila



segunda-feira, 25 de maio de 2009

Genuíno Madruga

Estava agendada para o próximo sábado a chegada, ao porto das Lajes do Pico, do intrépido navegador solitário GENUÍNO MADRUGA, célebre picoense e açoriano pelo seu feito histórico de haver dado, pela segunda vez, a volta ao mundo no pequeno iate “Hemingway”.

Genuíno Madruga partiu do porto das Lajes do Pico no sábado de Lourdes de 2007. Deu a volta ao Mundo, passando pelo cabo Horn, um feito que poucos tiveram a ousada coragem de realizar. Registe-se que foi ele o 1º português a passar do Oceano Atlântico para o Pacífico – Leste - Oeste . Uma proeza ímpar!

Contava aqui chegar no próximo sábado do Espírito Santo a 30 do corrente mês. Infelizmente, depois de sair do S. Luís do Maranhão no Brasil, rumo à Ilha do Pico, foi atingido por um violento temporal que lhe partiu o mastro e esfrangalhou a vela, provocando o atraso na viagem. Não se sabe, pois, quando chegará. Naturalmente com alguns dias de atraso.

De rija tempera, determinado e destemido, GENUÍNO MADRUGA é o representante altamente categorizado duma Família distinta da Ilha do Pico, que nunca soube voltar as costas a qualquer revés da vida!

Conheci os avós, os pais, os tios e primos. De alguns fui amigo sincero e leal. Uma amizade que ainda hoje perdura nos descendentes.

A Família Madruga, de São João do Pico, distinguiu-se sempre pela sua conduta irrepreensível, pela sua tenacidade e de uma maneira notável pelo saber estar na vida. Todos eles inteligentes, persistentes e mestres em todas as artes que entendiam cultivar, formavam um clã especial, admirado e respeitado, sem menosprezar ou afastar amizades, que sempre souberam manter com simpatia e admiração.

Genuíno Madruga está de volta. Espero que em poucos dias o seu “Hemingway” dê entrada no porto das Lajes do Pico, donde partiu há cerca de 22 meses.

Estou a vê-lo partir, velas enfunadas, rumo ao horizonte, onde se foi “escondendo” nas doiradas nuvens de um poente maravilhoso, outrora caminho certo da navegação que, da Europa, partia para as Américas.

Agora esperamo-lo com muito entusiasmo e alegria para lhe tributarmos a homenagem do nosso reconhecimento pelo feito heróico, semelhante àqueles que praticaram os portugueses de Quinhentos e que passaram ao esquecimento. Bem vindo!

20-5-09
(Crónica lida no programa da RDP-Açores - Manhãs de Sábado)

– Ermelindo Avila

sexta-feira, 22 de maio de 2009

Serviços judiciais

Notas do Meu Cantinho


Há mais de cinquenta anos tratei deste mesmo assunto. Dez anos antes tinha sido extinto, pelo Dec. nº. 37047, o Segundo Julgado Municipal, que havia existido neste concelho.

Uma história algo rocambolesca que deixei em branco, apesar dos enormes prejuízos que causou ao povo do concelho.

Está em curso mais uma reforma judicial, de tantas que tem havido ao longo da existência de Portugal.

Narra a História que nos primeiros séculos de vida portuguesa a Justiça era irregular. Valiam os chamados homens bons que assistiam aos juízes nomeados ou eleitos.

No século XIX existiam ainda os Juízes de fora que administravam a Justiça nos próprios concelhos e presidiam aos Municípios.

Já em 1862 a Câmara havia mandado preparar algumas salas (celas) do Antigo Convento para a instalação do Tribunal que estava prometido. A seguir foi construída a cadeia, nos baixos do mesmo edifício, uma para cada sexo, na zona do rés-do-chão, onde actualmente se encontram instalados os serviços da PSP.

Mas o Tribunal não passou de mera promessa. Mais tarde foi criado, por Decreto de 29 de Dezembro de 1899, o Julgado Municipal, que só veio a ser instalado em 4 de Maio de 1902 sob a presidência do juiz doutor Sebastião d’Ávila Furtado. Foi um acontecimento notável que trouxe a esta Vila diversas individualidades distritais entre elas o Governador Civil, Visconde de Leite Perry. Nem durou três décadas pois, com a revolução de Maio de 1926, o Julgado foi extinto, sendo o Escrivão transferido para a Comarca de Santa Cruz das Flores e o Oficial de Diligências para o Comando da PSP da Horta.

Os arquivos foram recolhidos na Sede da Comarca, no Cais do Pico.

Na Câmara dos Deputados, o deputado Teófilo Ferreira, do distrito da Horta, havia proposto, em longo discurso, a criação de uma comarca de terceira classe na Vila das Lajes, a solicitação da Câmara Municipal, mas nada conseguiu, muito embora um projecto de Lei nº 81 – 1, de 31 de Janeiro de 1880, obtivesse parecer favorável das Comissões de Legislação Civil e Fazenda.

Em 1933 foi o Julgado Municipal das Lajes, restaurado pelo Decreto nº. 19900, e inaugurado solenemente, em 1 de Outubro daquele ano. Ficou instalado nas antigas salas dos Paços do Concelho, que sempre se encontraram aptas a receber os respectivos serviços e dispondo ainda do antigo mobiliário, de natureza especial, da Sala de Audiências.

Porque estava vago o lugar de Conservador de Registo Civil, Juiz nato, presidiu à Sessão de Abertura o Presidente da Câmara de então, Leonardo Xavier de Castro Amorim que, no respectivo discurso, afirmou: “A instalação do Julgado Municipal deste concelho das Lajes do Pico representa a satisfação plena de uma das maiores aspirações dos seus habitantes”.

Presente esteve como Sub-Delegado do Procurador da República, o Doutor Raposo de Oliveira, Advogado na Horta.

Curiosamente, vindo do Continente, encontrava-se nesta Vila o Escrivão nomeado para o Julgado, um tal Barbosa, que aguardava há meses a instalação do Tribunal Municipal...

O Julgado entrou em funcionamento e chegou a ter movimento superior à própria Comarca, que, não só abrangia os concelhos de São Roque e Madalena, como ainda tratavam dos processos, cujos valores excediam a alçada respectiva, muito embora aqui começassem os actos iniciais.

Uma nova Reforma Judicial extinguiu novamente todos os Julgados Municipais do País. Registe-se todavia que, devido a grandes influências políticas de um natural do concelho, residente na capital do País, foi restaurado o Julgado Municipal da Calheta de São Jorge, mas pouco tempo depois voltou a ser extinto.

Com a anunciada reforma judicial parece que algumas Comarcas vão ser extintas. Prevê-se, no entanto, a criação de Juízos de Paz, entidade que já existiu mas acabou por extinguir-se, embora previsto no Estatuto Judiciário. E não era de somenos importância a sua criação.

Pelo que se sabe, através dos meios de comunicação social, a Justiça em Portugal deve ser a Organização mais bem desorganizada, dada a morosidade com que os processos são resolvidos.

Vila das Lajes, Maio 2009

Ermelindo Ávila

domingo, 17 de maio de 2009

SANTO CRISTO

Segundo o Catecismo da Igreja Católica, “...a fé é uma adesão pessoal do homem a Deus. Ao mesmo tempo e inseparavelmente, é o assentimento livre a toda a verdade revelada por Deus.” É um sentimento intrínseco. Difere de pessoa para pessoa. Cada qual, consequentemente, tem o direito de a praticar livremente, de crer em Deus e nas Três Pessoas da Santíssima Trindade. Crer, pois, no Filho é crer igual e simultaneamente no Pai e no Espírito Santo. Deus é Trino e Uno.

Assim se explica a devoção, particular e pessoal, ao Filho de Deus, Jesus Cristo, sob as mais diversas invocações, mas especialmente aquelas que recordam a Sua Paixão.

Na generalidade, para os Açorianos, quer vivam nestas ilhas, e de um modo afectivo em São Miguel, quer estejam radicados na Diáspora, a grande devoção é tributada ao SANTO CRISTO DOS MILAGES, cuja imagem foi oferecida pelo Papa Paulo III e é venerada no Seu Santuário da Esperança, desde 1541. O mesmo Senhor é também invocado nestas ilhas, em Imagens idênticas que recordam a apresentação do “Ecce Homo” no Pretório de Pilados: - Santo Cristo, na Paróquia da Silveira e na ermida dos Toledos, na Ilha do Pico; Santo Cristo em Santa Cruz da Graciosa; Santo Cristo na Caldeira de S. Jorge e na Praia do Almoxarife, do Faial; ou, ainda, Senhor da Pedra, em Vila Franca do Campo; Senhor Jesus em Santa Cruz das Ribeiras; Senhor Jesus das Preces, na Matriz das Lajes do Pico, além do Santo Cristo da Misericórdia de Angra. No Seu Santuário de São Mateus, venera-se a imagem do Bom Jesus, trazida do Brasil, em 1862 pelo emigrante Francisco Ferreira Goulart; e também nas Paróquia da Calheta de Nesquim e da Criação Velha. Recordem-se igualmente as paróquias de Santa Cruz da Lagoa, em São Miguel; Matriz da Praia da Vitória; Matriz de Santa Cruz da Graciosa; Paróquia de Santa Cruz das Ribeiras; e Matriz de Santa Cruz das Flores.

Como já referi, a devoção ao Santo Cristo dos Milagres está arreigada na alma do Povo Açoriano, em qualquer parte onde se encontre. Isso explica que, no Brasil, há diversos Centros de Culto dedicados ao Bom Jesus. Nos Estados Unidos e no Canada existem paróquias e igrejas cujo titular é o Santo Cristo, e Imagens da mesma invocação em diversas igrejas portuguesas.

Poetas e Prosadores têm produzido excelentes trabalhos, de seus estros brilhantes, como é o caso do recente livro do escritor Daniel de Sá, de temática cristológica.

E dos Poetas só deixo esta quadra:

Santo Cristo! Esperança Bendita!

Do cristão que vos ama e adora

A Minh’alma vagueia aflita

Glória a Cristo na última hora.

E esta outra do hino do Bom Jesus da Calheta de Nesquim:

Viva o Bom Jesus!

Viva o Rei que nos remiu!

Seu Sangue Divino

As portas do céu abriu.

Nestes dias solenes o povo cristão está voltado para o Santuário de Santo Cristo dos Milagres, de Ponta Delgada. Ali, sem respeitos humanos, se ora ao Senhor, implorando graças diversas: a cura de um doente, a solução de um problema familiar, o emprego de um filho ou do marido... E tantos mais!

C á de longe, também nos permitimos endereçar nossas preces ao Senhor do Pretório:

Santo Cristo dos Milagres volvei Vosso olhar de misericórdia para este Mundo em crise; atendei as preces de Vossos filhos e acudi a todos, com a solução dos seus problemas. A saúde dos que sofrem, e, sobretudo, a paz que anda arredia das famílias e da própria sociedade.

Senhor Santo Cristo, tende piedade da humanidade aflicta!

BOAS FESTAS

17 de Maio de 2009

Ermelindo Ávila

(Crónica para o programa da RDP-A Manhãs de Sábado)


sábado, 16 de maio de 2009

TURISMO: O FUTURO

Esgotadas as potencialidades agro-pecuárias e industriais da ilha do Pico, só resta, segundo os economistas, a também indústria do Turismo, única que poderá trazer a esta ilha e à Região divisas estrangeiras.

Julgo que a ilha tem duas actividades que sempre, desde os inícios destas ilhas como terras habitadas, foram exercidas pelas suas populações e delas retiraram os meios de subsistência e sobrevivência. Tornaram, mesmo, os seus habitantes conhecidos como os melhores das restantes ilhas do ARQUIPÉLAGO.

O Padre António Cordeiro, falando do Pico na sua obra “História Insulana”, escreve (pág. 473): “...é tão húmida em seus fundos esta ilha, que seus frutos não necessitam de rega, nem de mais agua os gados, pois dá toda a hortaliça, e muito bela, e há homem que de abóboras recolhe mil e duzentas; e há tão grandes nabos, que chega cada um a meia arroba de peso; e há tanta carneirada, que um só homem dá oitenta carneiros ao dízimo, e cento e trinta pedras de lã; e dá fruta de espinho confessa Frutuoso que é a melhor de todas as Ilhas; e de pêssegos, marmelos, figos, e maçãs é (e com excelência) fertilíssima, como também gados de toda a casta, e vacas, porcos, ovelhas e cabras;...”

O maior fruto, e o mais célebre desta grande ilha do Pico é o seu muito, e excelente vinho, e quantas mil pipas de cada ano, bem se colhe, que da tal ilha se provêm em grande parte as outras ilhas, as armadas, e frotas, que a ela vão, os Estrangeiros que o vão buscar, e muito que vai para o Brasil, e também vem para Portugal...” –

E o mesmo douto historiador diz ainda: “E não só a terra, mas também o seu mar em roda, é muito frutífero, porque além de em todo o circulo ser mar de muito pescado, é de peixes mui selectos e de estima, como de Salmonetes, Escolares e de outros que há em outras ilhas, e muito mais do que se colhem no Fayal, ilha tão vizinha sua...”.

Nem é fruto menos estimável a muita e singular madeira desta ilha.” E refere o Teixo e o Cedro, exportadas especialmente para a ilha Terceira.

Cordeiro, na sua “História Insulana”, da era setecentista, não fala em peixes monstros, como Frutuoso. Estes viriam mais tarde, como é o caso da baleia, cuja exploração da sua caça apenas durou um século...Não refere igualmente a fabricação do queijo que depois viria a tornar-se um dos produtos mais excelentes e célebres da ilha. O afamado “Queijo do Pico”!.

Segundo o Dr. Manuel Alexandre Madruga, na Monografia sobre a freguesia de São João, o queijo do Pico é fabricado na ilha, mas principalmente naquela freguesia, desde remotas eras. Todavia, o seu fabrico, só veio a ser regulamentado pelo Decreto nº 19 669, de 30 de Abril de 1931, quando era Ministro da Agricultura o picoense, Coronel Henrique Linhares de Andrade.

Presentemente a ilha do Pico dispõe de duas unidades industriais ligadas à agro-pecuária: a fábrica de lacticínios do Mistério (Picolaze) e o matadouro industrial. Aqui refira-se que já em 1932 era publicado, no Boletim do Ministério da Agricultura, (Ano XIII, Nasal a 4), um estudo sobre a “Agricultura no Distrito da Horta”, dos Engenheiros José Augusto Fragoso e Jácome de Ornelas Bruges e do Médico-veterinário Joaquim Tiago Ferreira, no qual se preconizava que era “indispensável um matadouro industrial para abater o gado dos grupos central e oriental, destinado ao mercado de Lisboa, economizando-se assim a favor das ilhas uma verba anual importantíssima com as despesas de transporte para o Continente,...”

Não escrevo que o Matadouro chegou tarde, como aconteceu, mas, antes, que ele ainda não tem a actividade desejada para que a Lavoura se desenvolva satisfatoriamente.

Todavia, todas essas actividades, mercê de circunstâncias várias, estão a ser ultrapassadas. Urge, pois, que outras actividades se instalem convenientemente, para que se possibilite o desenvolvimento da ilha e se faculte mão-de-obra à juventude, não só àquela que ainda por cá anda mas principalmente para aqueles jovens que saíram da Ilha e cá ainda não voltaram por carência de emprego.

É por isso indispensável desenvolver a industria de Turismo, alargando-a aos mais diversos sectores sociais. O que existe na ilha é precário e limitado. O Turismo não é somente a oferta de camas, e estas são necessárias, mas, igualmente, outras actividades – e volto a falar no Campo de Golfe que tarda em chegar – que sejam aliciantes para aqueles que venham a escolher a Ilha para repouso ou lazer, ou mesmo para aqueles outros que aqui chegam nos meses de Verão para vigiar baleias – Whale Watching – como já acontece.

Retardar é permitir que outros avancem e ocupem o lugar que à Ilha pertence!.


Vila das Lajes,

24 de Abril de 2009

Ermelindo Ávila