sábado, 21 de março de 2009

O Pico, uma Ilha "esquecida"

NOTAS DO MEU CANTINHO

É incompreensível o que está a passar-se com a ilha do Pico.

Primeiro foi a exclusão do grupo das chamadas “Ilhas de Coesão”. Depois é a quase inexistência de empreendimentos no Plano e no Orçamento Regional para o presente ano. Para quem quiser conhecê-los eles estão na respectiva página da Internet.

Lendo esses documentos oficiais, pasma-se com a estranha atitude dos órgãos governativos. E não se explica a razão. No entanto, há ilhas notoriamente beneficiadas. E igualmente “lugares ou zonas especiais”.

Na Ilha do Pico o que há de maior relevância, a chamar a nossa a tenção, é um jardim na Vila Fronteira, naturalmente para que os vizinhos possam vir descansar e passar as horas de ócio e os naturais horas de lazer, nos bancos do reduto.

Se bem soubemos ler, na zona das Lajes apenas estão consignadas verbas para escolas. ( Talvez, melhor dito, para os projectos e aquisição dos terrenos. Estaremos enganados?) E as obras prioritárias: A continuação da defesa da Vila? Já algum técnico superior reparou no molhe construído e na deslocação dos blocos?

A instalação dos Serviços Sociais, com a restauração da casa que a Câmara adquiriu há anos e cedeu à Região para esse fim? Ou espera-se pela “concentração” que acaba de anunciar-se?

No meio da Vila, ou seja, no Centro Histórico do primeiro núcleo habitacional da Ilha é uma vergonha o que ali se passa. O arcaboiço está a ruir e só isso não se vê porque uma vegetação selvagem se assenhoreou de todo o espaço em ruínas.

As estradas foram melhoradas nos pisos mas esqueceu-se de cuidar das bermas e da respectiva sinalização.

A ilha tem excelentes locais onde poderiam ser levantados miradouros a descobrir panoramas magníficos, como seria o do Caminho Largo, na Piedade, o das Pontas Negras, o do Cabeço das Terras, eu sei lá! Há tantos locais que, em outras ilhas, já estariam sinalizados. Mas esquecemo-nos que estamos no Pico, a ilha dos infortúnios?!...

E a “casa do Estado”, como é conhecida, construída provisoriamente para arrumo das ferramentas utilizadas na muralha de Defesa, há cerca de setenta anos e que continua sem um arranjo decente, ali, na zona do Museu, uma das mais frequentadas por estranhos, apesar de lá estarem instalados serviços regionais...

E a casa de apetrechos marítimos? Não é construída junto ao porto das Lajes, que também é classificado “porto de pesca”?

E a casa da Lota? Destruíram a que existia, mandada construir pela Câmara Municipal. Tornou-se necessário proceder à demolição, para que as obras junto da muralha de defesa pudessem realizar-se. E ninguém contestou. Mas não foi substituída. Antes, colocaram um contentor (!) junto do antigo campo de jogos, para a venda de pescado. Que seria situação provisória, disseram. Afinal um “provisório” que se está tornando em definitivo. Talvez porque fica melhor a concentração, na Madalena, de mistura com “alhos e bugalhos”, como é desejado? E o caso da SATA? Não interessa resolver? Até quando, Senhores responsáveis?

Não fica por aqui o rol de carências desta vila e seu concelho. E até da ilha. Mas por outras bandas há personalidades credenciadas que estão alcandoradas em posição de saberem defender suas testadas...

Está na Assembleia Regional para discussão e aprovação, o Plano e Orçamento da Região para o corrente ano, ou melhor, para os três últimos trimestres do ano... Qual vai ser a posição dos Senhores Deputados eleitos pelo Circulo Eleitoral da Ilha do Pico? Melhor: Que poderão fazer? Aguardamos...

Talvez se espere que a administração municipal mude de côr, como se apregoa, para que então se olhe melhor para o Pico. Mas isso não se compreende. A Democracia, na sua essência e pureza doutrinais, não é o desrespeito de uns em benefício de outros. Antes, o respeito e a igualdade de todos.

...o grande escolho de todo o regime fundado no sufrágio popular, é a tentação de substituir a autoridade imprescindível do direito, pela lei brutal do número e, cair assim, no pior dos despotismos que é o das maiorias.”(Manuel de Filosofia, de C. Lahr, pág. 623)

Não interessa agora lembrar os princípios filosóficos da Democracia. Importa, antes, que ela seja aplicada com isenção e justiça.

E é isso que falta por estes lados, voltados para o Atlântico, sem alguém que se lembre de por aqui passar e tomar nota, em seu canhenho, das carências desta Terra, para lhes dar a merecida solução.

Vila das Lajes, Março de 09

Ermelindo Ávila

terça-feira, 17 de março de 2009

Imprensa e Jornais na Ilha do Pico

A primeira Imprensa existente na Ilha do Pico foi trazida para as Lajes pelo professor Manuel Tomás Pereira. Nela não chegou a imprimir-se qualquer jornal. Transferido para Lisboa o proprietário vendeu a oficina para a Madalena, e, ali, nela foi impresso o primeiro jornal, “O Picoense”, fundado que foi por Urbano Prudêncio Silva, em 1874. Este indivíduo, depois foi para Coimbra formar-se em Direito e após a licenciatura veio para a Horta onde exerceu o cargo de Secretário Geral do Governo Civil até à reforma. Depois, publicaram-se os seguintes jornais:



CONCELHO DAS LAJES DO PICO


1º - O Trabalhador - 1889

2º - O Lagense - 1890

3º - O Echo do Pico – 1904

4º - As Lages - 1914

5º- A República - 1919

6º - O Dever – Fundado na Calheta de S. Jorge em 1917 passou a publicar-se nas Lajes em 1938

7º - O Estímulo – 1952 – Jornal do Ensino Secundário Particular



CONCELHO DA MADALENA



1º - O Picoense - 1874

2º - O Madalenense – 1874

3º - O Observador – 1890

4º - O Picoense – 2ª série – 1890

5º - A Notícia -1898

6º - A Voz - 1899 (P. Nunes da Rosa)

7º - A Ordem - 1910 (P . Nunes da Rosa)

8º – Sinos d'Aldeia – (Pe Nunes da Rosa) – Bandeiras

9º – Cartão de Visita – Prof Garcia de Lemos – S.Mateus

10º -Bom Combate - 1962 – Pe José F.Fortuna - Bol.Paroquial-Madalena


11º- Ecos do Santuário- Boletim Paroquial de S.Mateus – Pe Filipe Madruga

12º - Ilha Maior - 1988


CONCELHO DE S. ROQUE DO PICO



1º - O Echo do Pico – 1878

2º - O Boletim Judicial – 1879

3º - O Picaroto – 1882

4º - O Pico - 1885

5º - O Independente – 1886

6º - O Picoense – 1890 (Teve várias séries)

7º - O Popular - 1890

8º - O Futuro - 1898 (Teve várias séries. Por último publicado na Horta sob a direcção de Francisco Ramos)

9º – Campeão – 1923 – Prainha do Norte

10º - Jornal do Pico – 2004


quarta-feira, 11 de março de 2009

Dia Internacional da Mulher

(crónica de Manhãs de Sábado da RDP-A)

O dia oito do corrente foi considerado o Dia Internacional da Mulher. Em locais diversos foi esse dia assinalado com comemorações adequadas, todas elas dedicadas à mulher. Mas, naturalmente, à mulher dos nossos dias. E ela bem o merece, pois, aqui e ali, há sinais de perseguição e de afronta à dignidade da mulher e, não raro, a agressão brutal ao seu físico débil.

A mulher continua a ser esposa dedicada e, quando o é, mãe carinhosa, muito embora as exigências da vida moderna a obriguem a sair do lar e a ter ocupações diferentes daquelas que lhe seriam mais razoáveis.

Na realidade, é de reconhecer que as famílias, para puderem promover os filhos, necessitam da ajuda monetária da mulher e esta tem de deixar o lar entregue a estranhas, e procurar ocupação convenientemente remunerada na vida política e profissional, conseguindo aumentar assim os rendimentos familiares, capazes de suportarem os encargos com as exigências sociais e a educação dos filhos.

Todavia, nem sempre os resultados são os melhores.

Limita-se o número de filhos, ou evitam-se, muito embora existam as leis de protecção à mãe, para que a mulher tenha liberdade de acção, que, apesar de tudo, estão em flagrante contradição com as facilidades concedidas para a redução do agregado familiar. E sobre este aspecto haveria tanto a escrever...

Passemos em frente e deixemos que o tempo se encarregue de encontrar a solução capaz de debelar a tremenda crise que atinge a família de hoje, crise que perniciosamente se reflecte nos próprios filhos.

Na vida de qualquer homem há sempre uma mulher. Uma mulher que o recebeu em seus braços quando ele caiu no mundo, o acarinhou com ternos beijos, o apertou em amplexos de amor. Uma mulher que tudo lhe deu, o acompanhou no crescimento, o vestiu e calçou, lhe deu o leite, o seu leite ou o leite estranho e, o fez crescer e ser homem.

Uma mulher que não mais é esquecida, embora outra venha mais tarde ocupar um lugar diferente.

Minha mãe, minha mãe!

Ai que saudade imensa

Do tempo em que ajoelhava,

orando, ao pé de ti!

E Guerra Junqueiro termina assim o poema, em “Velhice do Padre Eterno”:


A minha mãe faltou-me

era eu pequenino,

mas a sua piedade

o fulgor diamantino

ficou sempre abençoando

a minha vida inteira,

como junto dum leão

um sorriso divino,

como sobre uma forca

um ramo de oliveira!


Mas nem só a mãe, ou a sua memória saudosa, merecem ser enaltecidas neste dia que lhe é dedicado. Tantas outras foram heroínas ignoradas e hoje esquecidas.

Recordo aqui as domésticas, como eram designadas até há umas dezenas de anos passados. Não iam diariamente para os empregos, deixando a casa e os filhos entregues a outras, suas empregadas, mas por casa ficavam, no amanho dos seus lares.

Eram cozinheiras e costureiras e, nas horas vagas, bordadeiras.

Outras iam pelos campos, acompanhando os maridos, nos trabalhos da lavoura, ou caminhando, madrugada ainda, até às pastagens para tirarem o leite das vacas da sua lavra, para, depois, em casa, pela tarde, fazerem e tratarem dos queijos e quão deliciosos eram e que, de semanas a semanas, eram enviados, pelos negociantes –os queijeiros –para outras ilhas.

Eram elas que faziam, como hábeis costureiras, as roupas da família, as remendavam, as cuidavam e lavavam, em casa ou nas ribeiras e, quantas vezes nas costas do mar aproveitando os fios de água doce que brotava da terra.

E, como diz Junqueiro: à noite, antes do adormecer, ensinavam os filhos a orar ou rezar.

E as mulheres que, já envelhecidas, ajudavam, no amanho das casas, as filhas ou noras, cardando e fiando o linho e a lã para depois tecerem no tear e nele fazerem bons panos que vestiam e agasalhavam a toda família!

A mulher – mãe, também era mulher - esposa, carinhosa, meiga e submissa ao marido, mas num verdadeiro amor mútuo,

é bom não esquecer, seguindo contudo o preceito da Doutrina Cristã que aos dois foi lembrado no acto solene do Matrimónio: Amai –vos um ao outro como marido e mulher. A mulher seja submissa a seu marido!

Um compromisso que era assumido com alegria e amor a vida inteira!

Talvez por isso, é bom recordar tal um poeta nosso: Hoje Como é diferente o amor em Portugal!

Saudações respeitosas as todas as Mulheres, sejam elas esposas, mães, filhas ou avós!

domingo, 8 de março de 2009

AGRICULTURA TRADICIONAL

NOTAS DO MEU CANTINHO


Com a entrada de Portugal na CEE, hoje UE, a ilha do Pico sofreu um grande revés na sua agricultura.

Antes, todos os nacos de terra eram aproveitados com culturas diversas e o milho era a principal base da alimentação dos povos. Quem tinha o arquibanco ou a barricas cheias de milho – mais tarde foram os latões – tinha garantido o sustento no ano da própria família.

Era agradável olhar para essas encostas e ver os “serrados” cuidados e verdejantes e, nas épocas próprias, as culturas tratadas tratadas como verdadeiras plantas de jardins.

As chamadas “Ladeiras”, com os serrados limpos, tudo produziam. Os serrados junto das habitações, ou “hortas”, eram destinados, ao menos uma parte voltada a Norte, por abrigada pela parede divisória, à cultura dos “primores” agrícolas: o feijão, a ervilha, a fava, a cenoura, o alho, a cebola, a couve e o nabo, a açafroa, hoje substituído pelo colorau, a batata branca, etc. Afinal, tudo o que era indispensável na cozinha. As “velgas” ou serrados a seguir, eram quase sempre destinados à sementeira do trigo e os outros ao cimo da ladeira, destinados às sementeiras de milho. E quando este se colhia, nos meses de Outubro, os Lavradores (aqueles que, não sendo os proprietários, tinham a seu cuidado a lavoura das terras) semeavam as “ervagens de Outono”, para alimentação dos seus animais nos meses de Primavera.

Nos cimos das “Ladeiras” da Vila sempre existiram pequenas matas de faias e incensos que forneciam a lenha para a cozinha dos próprios proprietários. Até 1940 existiam fios de verga, que ligavam os cimos as Ladeiras aos quintais das casas da parte leste e conduziam, em roletas, pequenos feixes de lenha utilizada nas cozinhas, pois a electricidade e o gaz não eram ainda por cá conhecidos. Normalmente um trabalho feito ao fim do dia e que constituía regalo para a petizada Mas com a passagem da estrada havia que retirá-los...

Tudo foi abandonado. A mão-de-obra faltou. Deixou de haver o clássico “homem de fora”, ou aquele que a soldo trabalhava os campos estranhos.

Havia nas Lajes um bom homem, já um tanto idoso, que tinha a seu cuidado os quintais das habitações de certos habitantes. E tratava-os como autênticos jardins, com um cuidado como seus fossem. Era o João Francisco dos Passos. Com certeza que já ninguém dele se lembra. Um excelente contador de estórias, que eram o enlevo dos miúdos, aos serões das noites de Inverno.

Todos os géneros passaram a ser importados, da Espanha ou da América Central, e as terras foram, a pouco e pouco, abandonadas. O resultado está à vista.

É uma tristeza olhar para essas encostas e vê-las cheias de matas selvagens, sem qualquer utilidade, quase até às portas das cozinhas, pois até as criptomérias que alguns proprietários nelas plantaram, apresentam um desenvolvimento atrofiado e nenhuma utilidade terão.

A guerra mundial de 1938-1945 obrigou à arroteia de muitos terrenos do alto, para a produção de cereais, impossível de serem importados. E foi excelente o resultado. A Junta - Geral de então criou subsídios para a arroteia e despedrega que foram utilizados por alguns proprietários.

Os terrenos que passaram a pastagem de gado leiteiro, não terão de voltar ao primitivo estado de utilização? O trigo e o milho podem neles ser produzidos com vantagem e debelar a crise que dizem, existir na exploração leiteira, com a célebre questão das “quotas”, inicialmente bastante contestadas e hoje a serem abandonadas.

Com a crise económica que nos está a atingir, julgo que haverá necessidade de voltar aos tempos antigos e desbravar os terrenos abandonados, muitos deles que eram boas terras de pão, como se dizia. E se nos falta a mão-de-obra, pode ser substituída por pequenas máquinas agrícolas, ou importada das ilhas onde abunda, como acontecia em tempos passados. A Lavoura é uma arte que a ninguém desonra. Tal como a exploração das pastagens onde só se cria o gado leiteiro.

Posso estar errado neste meu pensar, mas a maturidade da vida ensinou-me que devemos aproveitar ao máximo as nossas potencialidades e, só depois, aproveitar os recursos estranhos.

Vila das Lajes,

1 de Março de 2009

Ermelindo Ávila

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Nota do meu retiro

Salvo dos antropófagos


Jovem ainda, embarcou numa noite escura, da costa atrás do Castelete, para um barquinho, que saíra do porto da vila para a pesca de fundo, no alto mar.

Tinha havido a habitual combinação, com a antecedência indispensável, com o individuo (engajador), que se entendera na Horta com o comandante da Baleeira, que àquela cidade aportara para fazer aguada.

Outras baleeiras lá estavam no habitual descanso, mas aquela é que fora a escolhida, visto o comandante ser já conhecido do engajador. Além disso e não era a primeira vez que transportava rapazes, alguns para complemento da tripulação, outros somente com o destino de alcançarem as costas do Novo Mundo.

Cá em terra, só o pai sabia das intenções do José, que há muito desejava dar “o salto”, e caminhar para as Terras do ouro, pois por nada desejava servir o Rei.

Um dos tripulantes do barquinho, que fez a ligação, era também jovem mas nunca pensou “dar o salto”, pois o pai era um doente e necessitava da sua ajuda nos trabalhos do campo.

Aqueles que , naquela noite, fugiam à pobreza da terra e às obrigações militares, insistiram com o António para que os acompanhasse, mas ele resistiu ao convite até que, já junto da baleeira, se resolveu a embarcar também. Descalçou as albarcas que levava e pediu aos companheiros do barco que as trouxessem ao Pai, porque resolvera também embarcar. E lá foi... A mãe nunca lhe perdoou aquela aventura e chorou a vida inteira pelo seu António. E foi uma vida longa de cem anos...

O António ficou pela América. Constituiu família e nunca mais voltou. Seus descendentes por lá andam, integrados na vida Americana, como verdadeiros naturais da grande nação. Mas este caso verídico é igual ao de tantos outros jovens que daqui partiram para não mais voltar. As suas descendências, em muitos casos, desconhecem as origens. Outros vão por aí aparecendo, interessados em conhecer os parentes, que nem sempre encontram.

O José não mais deixou a baleeira. Viajou pelo Pacífico onde abundavam os cardumes de baleias. Dizem Donalde Warrin e Geoffrey Gomes (“Os Portugueses no Faroeste – Terra a Perder de Vista” 2008, p. 351), que “Em meados da década de 1850, os próprios portugueses estabeleceram uma correnteza de pequenos portos de caça à baleia ao longo da costa da Califórnia...”.” Foi pois a actividade baleeira que providenciou o impulso para que os homens e os rapazes abandonassem as ilhas do Atlântico...”

O escritor Manuel Greaves, (embora, naturalmente por lapso, trocando o nome do herói pelo do genro deste), diz que “Houve um antigo baleeiro, de apelido Domingos (afinal trata-se de José Vicente, sogro de José Domingos), natural das Lajes do Pico, que contava a sua aventura numa ilha do Pacífico, onde o seu navio aportou para aguada. Habitavam-na selvagens, pretos como amora madura. Extensos areais cercavam a ilha.”

Alguns dos tripulantes desembarcaram na ilha, entre eles o José Vicente. Penetrando na Ilha foram encontrar um grupo de pretos antropófagos, que os prenderam e ataram com tiras de filamento a uma árvore, para com eles se banquetearam no dia seguinte. Entretanto, para festejar a presa, iniciaram danças macabras e quando já era noite alta, adormeceram. Foi então que os prisioneiros conseguiram soltar-se e correram para o areal, onde os esperavam os companheiros. Estavam salvos de serem comidos pelos selvagens.

O Vicente regressou mais tarde às Lajes, onde constituiu família. E nas tardes solarengas, ao abrigo dos salgueiros que rodeavam a entrada do Porto, contava a sua aventura.

José Vicente era filho de Manuel Vicente Pedro e de Maria Perpétua. Um dos filhos, Francisco, que também emigrou para a Califórnia, regressou viúvo e sem filhos. Por cá ficaram D. Maria Olímpia, que casou com José Domingos e Manuel Vicente, casado com Maria Silva. Parece que um outro filho do José Vicente emigrou para o Brasil. Nesta Vila o nosso herói tem larga descendência.

Não é fácil narrar em pormenor o acontecimento nem a todos os descendentes referir, pois tornaria muito extenso este texto.

Vila Baleeira,

20-Fevº.- 2009

Ermelindo Ávila

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Muralha de defesa da Vila das Lajes

Deram-se por concluídas as obras do molhe de defesa da vila das Lajes. Na generalidade as pessoas ficaram algo satisfeitas com os trabalhos realizados, se bem que uma dúvida a algumas continuasse. E dela já aqui nos fizemos eco. A defesa da vila não ficou completa. Importa tomar isso em consideração.

O projecto, que foi apresentado aos lajenses, incluía mais do que uma hipótese de execução dos molhes. Aceitou-se a que foi construída, se bem que sempre se considerou que não era o suficiente para a defesa da vila. E até mesmo o troço de muralha de ligação ao molhe construído e que serviu para o empreiteiro transportar os materiais, ficou como que abandonado. Pelo lado sul foram deixados blocos, sem qualquer alinhamento ou segurança e aquele percurso vai-se desfazendo aos poucos. No entanto, a JAP colocou uma placa, no seu início, avisando que era proibido por ele passar.

Julgámos que o Plano e Orçamento da Região previsse a conclusão da defesa da vila mas isso não acontece. Nada ali se refere às Lajes. Não admira. O Pico, e especialmente o concelho das Lajes, não está considerado no programa das ilhas de coesão. Nem sei porquê, se é uma das mais atrasadas da Região...

Papel decisivo cabe aos representantes do povo no Parlamento. Foram eleitos para velar e defender os interesses dos eleitores. Mas, passemos adiante...

A Muralha de defesa da Vila ocupa as coluna dos jornais locais há quase dois séculos. Algo se tem feito, após tanto reclamar, mas nem sempre com presteza nem mesmo com a técnica desejadas. E as reclamações não vão mais atrás, porque a vila, anteriormente, estendia-se para o Juncal e a costa era resguardada por uma cortina de pedra que, a pouco e pouco, foi desaparecendo.

Mas tenhamos um pouco de atenção para o que diz a “História das Lages”:

A veiga magnifica sobre que assenta a vila das Lages era então sensivelmente dupla; e a floresta virgem que vicejava nesses terrenos fecundos, estendia-se até ao mar, segundo uma linha de penedias que o ciclone de 1893 arrasou.

Nos bens da casa morganática do capitão Manuel Machado Soares, ainda em 1 de Março de 1641 foram incluídos ‘a terra do Juncal, a partir com a terça de André Rodrigues’ e ‘dois cerrados de terra com uma eira, detrás desta vila no Biscoito dos juncos’, que o testador houve de compra ao padre Pedro Rodrigues Vieira, a Jerónimo Pereira e Gaspar de Azevedo. Hoje só existe o Lagedo da eira, para os lados da Lagoa do Cão

A confirmar o que diz o autor, General Lacerda Machado, (l936) existe ainda um postal muito antigo (1900 ?), daquela zona, onde se descobrem alguns cerrados que já desapareceram. E muito mais destruíram os temporais de Inverno que assolaram a vila.

A Câmara Municipal reclamou, em diversas ocasiões, a construção de uma muralha em torno da Vila. (sic). Silveira de Macedo, in História das Quatro Ilhas... (vol. 2, pág 175), diz que em 1848 a Câmara das Lages fez essa reclamação. E pelos anos fora as reclamações foram contínuas.

Em 1849 começou-se a construir uma muralha no sítio de Santa Catarina, sainte da Vila das Lajes; e por alvará de 18 de Setembro de 1851 foi mandado continuar a muralha.

Segundo informa o jornal “As Lages”, de 15 de Maio de 1914, (noventa e quatro anos são decorridos) a muralha já estava em construção. No entanto, o articulista diz que “Seguindo vagarosamente por cima do último lanço de alicerces (nessa época não era proibido visitarem-se obras publicas...) e de pouco a pouco fomos notando o estreitamento sensível da muralha; chegados que fomos ao fim da mesma , deparou-se-nos um murosito que nos pareceu uma destas paredes de vedação de quintais. Para satisfazer a nossa curiosidade e a dos leitores, arranjamos uma fita métrica e medimos: largura da muralha que ia seguindo 2 m., largura da muralha que vai seguir, 1,50m. Portanto uma diferença de meio metro a menos.”

No projecto de modernização da Vila apresentado à Câmara Municipal pelo General Lacerda Machado, em sessão da C.M. de 14 de Julho de 1913, alvitrava o seu Autor que a muralha tivesse início no redondo do muro do caneiro, conquistando-se assim uma grande parcela de terreno, outrora arável, e que estava a ser ocupado pelo junco. Demais permitia-se o lançamento da avenida e um novo arruamento a ligar as ruas transversais. Tudo foi esquecido.

No jornal “As Lages”, já citado, nº 163 de 15 de Abril de 1919, encontramos esta simples local que muito nos diz:” Procede-se à reparação do muro da Lagoa, desta Vila, cujo estado há muito reclama tal benefício. A Propósito: quando é que uns olhos de misericórdia se volverão sobre nós e atentem sobre o estado estacionário da muralha de defesa desta Vila, que em alguns sítios ameaça ruína?”

Nascendo defeituosa, a muralha de 1914 nunca foi de defesa da Vila. Servia, quase só, para bancada dos assistentes aos jogos realizados no campo, construído pelos lajenses em 1925.

Em 9 de Fevereiro de 1936 um violento ciclone destrui a muralha que circundava a Lagoa. Duarte Pacheco, Ministro das Obras Públicas, a pedido do Governador de então, Dr. Freitas Pimentel e com o empenho do lajense Gen. Lacerda Machado, determinou que a obra tivesse imediato início, concedendo para o efeito 500 contos ao Director das O.P. Eng. Ângelo Corbal. Entretanto o projecto eorçamento foram elaborados, as verbas complementares chegaram e a obra conclui-se em dois anos, salvo erro. Ela ali está e representa de verdadeiro monumento em obras hidráulicas. Mas foi só!

Na década de 1960, houve quem tivesse a peregrina ideia de construir, a meio do juncal, uns muretes (o tal muro da vergonha, como o classificou o povo) que os enchentes do ano seguinte derrubaram. Veio depois o alteamento do muro construído em 1914, que pouco resolveu.

Agora a engenharia optou pela construção de um molhe no exterior e dele, sem projecto, nasceu uma lagoa. Mas tudo continua incompleto. O lanço de muro de ligação àquele molhe foi improvisado pelo empreiteiro para permitir o acesso dos seus veículos às obras e, apesar de se reconhecer que a sua manutenção éra importante para garantir a eficiência do molhe, nada se faz.

O Plano e Orçamento da Região nenhuma verba prevêem para o porto desta Vila. Naturalmente não é esquecimento mas com certeza o propósito de considerar a defesa da Vila completa. Se assim é, continuamos como dantes a ficar com obras incompletas e a sofrer os efeitos desastrosos dos temporais que vierem. Será que haverá o propósito de nos reduzir à “ínfima espécie?” Não acredito!


Vila das Lajes,

9 de Fev. de 2009

Ermelindo Ávila

domingo, 22 de fevereiro de 2009

Gabinete de Leitura

O Centro de Artes e Culturas do Mar, está a promover um ciclo de palestras, conferências colóquios e mesas-redondas sobre aspectos actuais, vinculados à história e ao presente açoriano, bem como de outras geografias e temáticas – da política ao desporto, passando pela ciência, arte e cultura - Conferências das Lajes, retomando uma tradição do Concelho.

No passado dia 14 o conferencista, Dr. Carlos Martins, do Algarve, tratou do tema “Tendências e oportunidades no Turismo”, que foi bastante apreciado, uma vez que o conferencista soube enquadrar o aliciante tema na realidade da ilha do Pico.

Estão anunciadas outras conferências para os meses seguintes. Desta forma o Centro vai cumprindo o seu programa, largamente distribuído e que, apesar de tudo, tem merecido bom acolhimento da população.

Realmente a Vila das Lajes tem uma tradição cultural. Já o dissemos diversas vezes, apoiados nos documentos que nos chegaram até agora. O Arquivo dos Açores, no volume nono, diz que o Gabinete de Leitura Lajense data de 1876. O gabinete foi aberto com livros cedidos, temporariamente, pelos frequentadores do mesmo e a Câmara Municipal, desejando patrocinar, quanto ao seu alcance, aquele útil melhoramento, concedeu-lhe o subsídio anual de dezoito mil reis.

E continua a notícia do Arquivo dos Açores: Como estivesse em Coimbra, a cursar a Universidade, um distinto e talentoso lajense, o actual Dr. João Paulino de Azevedo e Castro, hoje lente do Seminário de Angra do Heroísmo e sacerdote respeitado pelas suas virtudes e erudição, secundou, poderosamente, os esforços literários dos seus conterrâneos, angariando dádivas de alguns centros de volumes, que para as Lajes do Pico foram logo remetidos.

E acrescenta o Arquivo dos Açores: Durante alguns anos manteve-se com regularidade este Gabinete de Leitura, mas a falta de uma casa apropriada ao fim a que se destinava, foi-lhe afrouxando a concorrência, até passar quase desapercebido.

Mo entanto, em 28 de Outubro de 1895 era fundado uma nova instituição cultural, embora também recreativa, o “Grémio Literário Lajense.”

Hoje a vila das Lajes possui algumas instituições de carácter cultural, que muito a prestigiam: Além da Filarmónica Lajense, fundada em 14 de Fevereiro de 1864, do Museu dos Baleeiros, Biblioteca Municipal Dias de Melo, Posto de Cultura e Turismo, no antigo Forte de Santa Catarina, o Centro de Artes e de Ciências do ar, aonde não faltam os acervos literários quer ara leitura quer para aquisição pelos interessados.

(crónica lida em 21-02-2009, no programa Manhãs de sábado da RDP-A


quarta-feira, 18 de fevereiro de 2009

OS ANTIGOS PREGADORES

Todas as antigas igrejas e capelas ou ermidas eram providas de púlpitos, destinados à pregação em cerimónias litúrgicas solenes. Muitas delas, aquelas que vêm de séculos passados, ainda hoje os conservam. Algumas tinham dois púlpitos, como era o caso da Sé de Angra, antes do incêndio. E até um, em estilo de pedestal, era colocado quase no centro do templo, para melhor ser ouvido o pregador.

A tradição dos púlpitos foi abandonada e até, alguns, retirados sem nenhuma valia para a arquitectura do conjunto do templo respectivo, como foi o caso da Matriz da Santíssima Trindade, desta Vila, cujo púlpito estava já numa das colunas, em pedra de basalto mas tinha somente os degraus de acesso e o patamar.

O celebrante, nas missas dominicais, fazia “à grade” as homilías.

Com a reforma litúrgica introduzida pelo Concílio Vaticano II, surgiram os ambãos, retomando-se o antigo móvel das “primitivas igrejas cristãs com função decorativa e litúrgica, pousado sobre o pavimento e que servia para o canto e predicação”. Mas, porque dali a audição do orador é, normalmente, diminuta, vá de instalar-se em quase todas as igrejas, aparelhagens sonoras.

Os pregadores, para as solenidades, eram escolhidos entre os melhores oradores sacros. Recordo Mons. José Pereira da Silva, um dos mais distintos oradores do seu tempo. Lembro-me da homilía que fez, em francês, dedicada a tripulantes de um barco de guerra francês, que aportou à Horta durante a II Grande Guerra mundial e que, de véspera, procuraram saber a hora da missa dominical. Um feito que causou certo assombro na cidade.

Na primeira metade do século passado tornaram-se célebres pela sua pregação erudita e linguagem vernácula, o Pe. Ouvidor Nunes da Rosa, pároco das Bandeiras, o Pe. José Maria Fernandes, que esteve alguns anos em Macau e foi Deão da respectiva Sé, o Pe. Ouvidor Domingos Ângelo, o Pe. Xavier Madruga, o Pe. Ouvidor José Vieira Soares e o Pe. Manuel Vieira Feliciano. Igualmente, embora um pouco mais tarde, o Pe. Francisco Vieira Soares e depois o Pe. José Idalmiro Ávila Ferreira.

Os sermões, para alguns, eram escritos e decorados, para outros, estudados e apenas elaborados ou esboçados os tópicos que levavam para o púlpito, como era o caso do Pe. Xavier Madruga.

Pe. Feliciano era bom orador, de linguagem correntia mas elegante. Os seus sermões eram escritos e decorados, pois tinha memória privilegiada. Poucos fazia. Decorava-os e repetia-os em ocasiões oportunas. Normalmente, pregava na Matriz das Lajes o sermão de Enterro, na sexta-feira santa.

De S. Jorge vinha ao Pico, em tempos idos, e pregava em diversas solenidades um padre que era conhecido pelo “Padre bebe-água”, simplesmente porque, quando ia para o púlpito, levava um copo de água para se dessedentar durante a pregação, atitude que hoje qualquer orador assume.

De vários pregadores a peça oratória era, geralmente, escrita e decorada ipsis verbis e constituída pelo exórdio, corpo do discurso e súplica final. No entanto, a maioria dos pregadores somente escrevia o exórdio , em sermões de maior responsabilidade.

O Pe. Dr. Fernando Maciel fez o curso do Seminário em Macau e a licenciatura em Filosofia na Universidade Gregoriana de Roma. Completado o curso veio para esta vila, onde vivia a Família, afim de ser ordenado presbítero e celebrar a Missa Nova, na antiga igreja de São Francisco a servir de Matriz. Ordenou-o o então Bispo de Macau, Dom José da Costa Nunes. O Pe. Dr. Fernando Maciel ficou por cá mais algum tempo. Na festa de Cristo-Rei, foi convidado para pregar na solenidade e aceitou. Escreveu todo o discurso e, no púlpito fez a sua leitura, declamando-o com emoção e vivacidade. Mas, infelizmente, as críticas não lhe faltaram. O povo não estava habituado a ver o pregador ler um sermão...

Era tão importante a pregação das solenidades principais que, v.g., na festa de Lourdes era quase sempre convidado um orador estranho, muitas vezes do continente, que fazia a pregação do novenário e da festa solene.

Um antigo orador, dos mais célebres da ilha, dizia nos últimos anos de vida, que estava arrependido de pregar com tanto floreado e eloquência, deixando muitas vezes a parte doutrinaria na penumbra...

Bons oradores por aqui passaram, principalmente nas festas de verão, quando eles para cá vinham em férias, como era o caso do Pe. Dr. Francisco Garcia da Rosa, do Pe. António Cardoso Machado, do Pe. João Goulart e outros mais.

E só mais esta referência: Havia um sacerdote que era várias vezes convidado para o serviço da sexta-feira Santa, nas paróquias da ilha, que celebravam os Mistérios da Paixão do Senhor. Quando novo, havia escrito dois sermões para a ocasião, um mais extenso (levava mais de uma hora) outro menor. Na ocasião do convite, perguntava sempre: Queres o sermão grande ou o pequeno? E era assim, sempre que recebia um convite.

Afinal, tempos diferentes que não deixaram de ser BONS TEMPOS!


Ermelindo Ávila


terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Centro de Artes e Ciências do Mar


No dia 27 de Janeiro o Centro de Artes e de Ciências do Mar, da Empresa Municipal CULTURPICO, desta Vila Baleeira comemorou festivamente o seu primeiro aniversário. Afinal um acontecimento cultural que teve a presença de bom numero de convidados.

Trata-se de uma instituição que, como o nome indica, se dedica às Artes e Ciências do Mar, no seguimento de uma actividade que tanto prestígio e valor trouxe à terra picoense – a baleação.

O Centro foi instalado na antiga fábrica da baleia, como é ainda hoje conhecida, pertencente que foi à antiga Sociedade SIBIL.

As instalações fabris, cuja construção se iniciou em 1947, com projecto de arquitectura do engenheiro Mário Jorge ao tempo chefe dos Serviços das Obras Públicas na Ilha, não foi em nada alterado. No entanto, os espaços vazios foram objecto de uma artística adaptação que mereceu uma Menção Honrosa da Categoria de Novo Projecto Público, no âmbito dos Prémios de Turismo de Portugal de 2008, entregue na última Bolsa de Turismo realizada em Lisboa.

O equipamento da antiga Fábrica mantém-se inalterável e nos respectivos locais: Caldeira, guinchos, auto claves, secção de farinação e até a respectiva chaminé, com mais de duas dezenas de metros de altura, construída em pedra basáltica e que por si só constitui quase um autêntico monumento.

O Centro dispõe de recepção, bar, livraria, sala de conferências e convívio e exposições.

No ano findo foi visitado por cerca de dez mil pessoas, e nele se realizaram diversos inventos: lançamento de livros, conferências, serões de arte e visitas de estudo. É realmente umlocal aprazível e que, para além da sua actual função artística, nos trás à lembrança, lembrança saudosa, os antigos tempos da baleação em que a Vila das Lajes foi escola e oficina. Daí ser actualmente cognominada de Vila Baleeira. Um título que, podem crer, muito nos enaltece.

Na realidade foi um período de relativa prosperidade aquele que, em cerca de uma centena de anos, viveram os lajenses, mensageiros de uma actividade que outros quiseram igualmente explorar, nas diversas ilhas, dos Açores, na Madeira e em Setúbal, no continente.

Agora ficou o Centro de Artes e Ciências do Mar, como ficou o Museu dos Baleeiros, (nas antigas casas dos botes) o mais visitado estabelecimento museológico da Região e que foi acertadamente ampliado, cujas obras foram, há meses, inauguradas.

A culminar este conjunto de arte e de interesse turístico impõe-se trazer aqui o antigo Forte de Santa Catarina, adaptado a posto de turismo com esplanada para eventos culturais e recreativos. Ficou assim restaurada, e bem, a única edificação de natureza militar existente na Ilha do Pico.

E foi também a recuperação de um passado de certo esplendor, que se projecta no futuro, para prestígio e louvor das gentes desta avoenga vila baleeira.

BOM DIA!

Ermelindo Ávila

14-Fevereiro-09

(Crónica para Manhãs de Sábado da RDP-A)

NOTAS DIVERSAS


LOJA DA CULTURA

O Director Regional da Cultura, através da RTP-Açores, anunciou há dias a criação de diversas Lojas da Cultura, em algumas Ilhas da Região. A Ilha do Pico é uma das que vai beneficiar da instalação, muito em breve, de uma dessas instituição que, segundo a mesma comunicação, ficará instalada nas Lajes do Pico. Não foi indicada a localidade mas cremos que se trata da vila sede do concelho.

Segundo os técnicos trata-se do centro com maior vocação cultural da ilha. Afinal, uma prerrogativa que não é nova mas que lhe vem do século dezanove ou mesmo, mais de trás.

Primeiro foram os frades franciscanos que estimularam a cultura, ensinando a juventude que desejava adquirir os conhecimentos das letras e ciências. Com a extinção do convento, a aula de latim teve uma função muito meritória, preparando aqueles que desejavam seguir cursos universitários. A propósito, lê-se no Arquivo dos Açores (Vol. IX, págs. 54) a propósito da criação do Gabinete de Leitura das Lajes do Pico: “Como estivesse, então, em Coimbra, a cursar a Universidade, um distinto e talentoso lajense, o eventual Dr. João Paulino de Azevedo e Castro, hoje lente no Seminário de’Angra do Heroísmo e sacerdote respeitado, pelas suas virtudes e erudição, secundou, poderosamente, os esforços literários dos seus conterrâneos, angariando dádivas de alguns centos de volumes, que para as Lajes do Pico foram logo remetidos.” E acrescenta: “Durante alguns anos manteve-se com regularidade este Gabinete de leitura, mas a falta de uma casa apropriada ao fim a que se destinava. Foi-lhe afrouxando a concorrência, até passar quase desaparecido”.

Igual Gabinete foi criado ma vila de São Roque, o qual teve também viva efémera.

Em sessão extraordinária de l de Maio de 1876 a Câmara Municipal, então presidida pelo negociante José Silveira Peixoto, “deliberou atribuir, por proposta do Presidente, ao Gabinete de Leitura Popular Lajense, por julgar ser uma instituição civilizadora, e que, possuindo à roda de 500 volumes, de muito pode servir à mocidade estudiosa da freguesia, principalmente quando for Lei do Estado, a reforma da instrução pública.”

Nos anos de 1881 e 1882 a Câmara deliberou conceder ao Gabinete o subsídio de 18$000, em cada um desses anos.

Ao Gabinete de Leitura, fundado por Manuel Joaquim de Azevedo e Castro, irmão do Dr. João Paulino, que viria a ser Bispo de Macau, sucedeu o Grémio Literário Lajense, fundado em 28 de Outubro de 1895, e onde foram recolhidos os livros do Gabinete.

O Grémio continuou, passando, na década de trinta do século findo, a denominar-se Sociedade Literária e Recreativa Lajense, a qual deixou de funcionar nos anos setenta por falta de sede.

Entretanto em Setembro de 1935 a Imprensa distrital anunciava a fundação da Biblioteca Popular Lajense, que recebeu uma parte do espólio literário do P. António Ávila, da Horta, e funcionou até à sua integração, em 1940, na Biblioteca Municipal. Interessante registar os nomes dos jovens que constituíam a Comissão organizadora da biblioteca: Raul Xavier, João José de Azevedo e Castro, Francisco António Rodrigues de Simas Melo Ferreira, Manuel Vitorino Nunes Júnior e E. S. Machado Ávila. Este o único vivo

A Biblioteca Municipal, que recebeu também, o depósito da Biblioteca Gulbenkian, existente nesta vila, está em funcionando, em edifício próprio, mas tem-se dedicado ultimamente, com maior interesse, à juventude infantil .

Aplaudo às duas mãos a criação da Loja da Cultura, nesta Vila, onde não existe uma Livraria que permita aos interessados a aquisição, além de outros, principalmente de edições de autores açorianos. É um acto de valorização cultural, que muito dignifica a Direcção Regional da Cultura e, com certeza, vai prestar inestimável contributo para a formação cultural dos novos e mesmo velhos desta terra a qual, assim, vai poder continuar a manter a sua prestigiosa acção cultural.

É bom que o Governo Regional traga até nós iniciativas em todos os sectores - culturais, científicos, sociais e económicos, promovendo o desenvolvimento, como lhe cumpre, das terras que estão sob a sua jurisdição administrativa. Só assim a Região Autónoma dos Açores conseguirá o crescimento harmónico de todas as Ilhas, como um todo. Demais, foi esse o slogan que esteve na base da instituição da Autonomia.

Vila das Lajes,

Janeiro de 2008

Ermelindo Ávila




segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

"NASCIDO DO MAGMA - Por Ruben Rodrigues"

Há muito que este livro devia estar à disposição dos leitores, nas vitrinas das Livrarias. Este e outros mais.

O seu Autor tem se escusado a público trabalhos literários do género de “Nascido do Magma” ou outros de temas diferentes. É que (opinião minha)não basta escrever, e tão bem como o Prof. Rúben Rodrigues sabe, apenas para jornais de diminuta tiragem. E que grande fosse.! Os jornais passam. No dia seguinte à publicação são “guardados” nos recipientes do lixo. Poucos ou raros são os leitores que os conservam. E, mesmo assim, com o perigo de lhes encherem as estantes ou baús de ruim traça...

Modestamente desejo incentivar – se isso me é permitido - o ilustre Jornalista - escritor à publicação dos seus escritos, embora muitos deles conservados cuidadosamente com o método que é peculiar ao seu Autor, a aguardar um “despacho de deferimento”.

Conheço há muitos anos o professor Ruben Rodrigues. Sei do que é , literalmente, capaz. Não me surpreendeu aparecimento de “NASCIDO DO MAGMA”.

Admirei a maneira simples mas brilhante, atenta e precisa, como soube desenvolver o tema do seu trabalho: observador atento e escritor brilhante, tratando um tema aliciante mas que nem todos aqueles que vem escrevendo tiveram, até agora, a coragem e talvez a competência para o fazer. Bem haja por isso!

Mas, mais do que estas “mal notadas regras”, vamos tentar debruçarmo-nos sobre o “Nascido do Magma”.

O livro não “nasceu”, com certeza, de uma “miscelânea confusa” mas de uma realidade concreta que se vai descobrindo à maneira que voltamos cada uma das suas recheadas 259 páginas. E só pode compreender todo o entrecho quem um dia teve oportunidade de viver na Fronteira, conviver com as suas gentes e interiorizar os seus problemas, a sua vida dura mas singela nesta ilha em que habitam, porque aqui nasceram, aqui viveram e aqui desejam – a grande maioria – terminar seus dias.

O trabalho duro do corte dos cacetes e das achas; o transporte em cestos à cabeça de homens e mulheres, de novos e velhos, para os primitivos carros de bois que os hão - de despejar no cais; os transportes em “barcos de boca aberta”

para a outra banda e, ali, o descarregar, tudo isso é uma parte dura da vivência do trabalhador que, neste mister, arrecada (va) valiosa importância da subsistência familiar.

Nas épocas próprias as deslocações para a ilha vizinha, onde se cultivava o milho, por contra própria (bastante limitada), ou dando dias para fora, por conta dos senhores nem sempre correctos no trato e no pagar o soldo. Quando o Outono chegava era o transporte do milho, em maçaroca, para o cais da Fronteira.

E, por entre todo este penar, o idílio de um tal Manuel que, apaixonado por nova moça, prefere fugir rocambolescamente para um dia poder voltar à terra e realizar o seu sonho de juventude.

Entusiasma e comove por vezes a leitura deste livro – romance, muito embora não deixe de pesar o abandono da primeira namorada – a Fátima - , aquela que lhe havia conquistado o coração desde os tempos da adolescência... Mas o mundo tantas voltas dá...


De realçar o velho pároco, há tantos anos a exercer o seu múnus na freguesia e muito querido pela generalidade dos paroquianos…

Agora era a Felicidade aquela que ocupava o coração e foi por ela que, aproveitando a oportunidade única da estadia no porto da cidade, onde havia estabelecido base, o Manuel fez o propósito de partir para junto dos tios.

A guerra, “aquele monstro...” estava a chegar ao fim. A cidade vivia quase só dos negócios escuros do porto... E Manuel, habilmente preparada a fuga, partiu... Não nas antigas baleeiras, como tantos o haviam feito dezenas de anos decorridos, mas num dos “Liberty” americanos que à cidade aportavam com certa regularidade.

Já instalado, junto dos tios, nas Terras do Tio Sam, escreveu à Felicidade. Justificou a “fuga” e prometeu que havia de voltar.

A “estória” do Manuel é, afinal, a de tantos outros que um dia, pela calada da noite, abalaram ... Uns por lá ficaram para sempre... Outros voltaram a cumprir a promessa com determinação.

Afinal um tema de gritante acuidade que só agora aparece tratado com mestria, em vernácula linguagem romanesca.

*

Um bem haja, ex corde, ao Professor Ruben Rodrigues pela gentileza da oferta de “NASCIDO DO MAGMA” e, mais do que isso, a deferência gentil de se deslocar a este “cantinho” e aqui autografar o livro, deixando nele palavras amigas mas imerecidas.

Reconhecidamente!


Vila das Lajes,

Janº de 2009

Ermelindo Ávila