sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Manhãs de Sábado - Carnaval

Carnaval ou Entrudo, é o período que antecede a Quaresma.

Por cá é habitual iniciar-se o Carnaval quatro semanas antes e em cada semana fazer-se uma comemoração amiga. Quinta-feira de amigos, de amigas, de compadres e comadres.

Recolhido como ando a este meu “retiro”, nem sei se, actualmente, esses dias são assinalados.

Há meio século passado, os jovens e aqueles menos jovens mas que não sentiam a velhice chegar, trajavam-se e mascaravam-se para visitar amigos e conhecidos e, afinal, todas as casas que se preparavam para “receber mascarados”. E isso não só às quintas-feiras, mas igualmente nos sábados e domingos das quatro semanas. E de tudo aparecia: aqueles que iam imitar algum (a) parceiro (a) que chegasse de pouco, e eram raros, ou ao qual houvesse sucedido qualquer imprevisto; ou pequenos ranchos de jovens exibindo as últimas canções nacionais. Tudo servia para passar um serão normalmente agradável.

Nos intervalos, e se a sala tinha espaço, organizava-se uma “folga,” havendo sempre quem tocasse guitarra ou viola da terra. E logo apareciam, aos primeiros dedilhares dos instrumentos, quem de fora entrasse a “deitar a sua cantiga”. Era o começo do baile que, muitas vezes, se prolongava noite dentro.

Havia mesmo quem pelas ruas escuras (não havia ainda iluminação pública, pois os candeeiros de petróleo haviam sido destruídos, anos atrás, por um indivíduo louco) deambulasse na espreita de surgir um bailarico na habituais casas que se dispunham a receber “mascarados”.

Depois, e já nos últimos tempos, foram os bailes da Filarmónica e do Grémio que vieram a acabar ou a substituir as reuniões familiares do Carnaval. Mas tudo isso teve o seu fim. Deixaram de existir esses agradáveis e singelos serões para serem, praticamente, substituídos pela TV. Afinal um modernismo que só contribuiu para, em certa medida, provocar o desagregamento das famílias e amigos. E julgo que jamais retornarão esses bons tempos...

Hoje há outras maneiras da juventude se divertir ou de ocupar a noite. Refiro as ”boîtes”que nem sempre resultam em positivo...

Não sou contra os modernos meios de divertimento. Na minha juventude também apreciava os bailes ou serões dançantes, como então eram por alguns chamados. Mas, com a minha experiência de Vida ainda sou capaz de distinguir o bem do mal.

Muitos dos modernismos actuais provocam a degradação moral e até social das pessoas, principalmente, dos jovens imaturos e impreparados para enfrentar o futuro. E, o que mais grave é, nem todos estão dispostos a aceitar a experiência e os conselhos dos mais avançados na idade.

Aí vem o Carnaval. Pois que todos o gozem a seu jeito e o passem com ordem, em paz e respeito.

Vila das Lajes,

Fevereiro de 2009

Ermelindo Ávila

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2009

CAPELAS E COROS

Deve-se à Igreja Católica a existência da música polifónica ou vocal. Enquanto existiram os conventos, eram os frades que se encarregavam de ir pelas igrejas e capelas solenizar as liturgias com o então chamado “Cantochão”. No ano de 1677, foram inaugurados os melhoramentos introduzidos na primitiva ermida de São Pedro, nesta vila, incluindo a reformulação do Santo. A confraria do Apóstolo São Pedro despendeu da pregação e música aos frades (franciscanos, pois eram os únicos que existiam), a quantia de mil reis.
Com a extinção dos conventos, os próprios párocos tomaram sobre si o encargo de organizar e ensaiar capelas próprias e elas foram surgindo em todas as paróquias. Com as capelas foram aparecendo os órgãos, que acompanhavam os coros ou capelas. O órgão da Matriz das Lajes, - ainda hoje em normal funcionamento, depois do restauro do organeiro Dinarte Machado, aqui há uma dúzia de anos, - foi executado pelo organeiro António Xavier Machado Cerveira, no ano de 1804, e tem o número 66. De concluir que foi o 66º instrumento construído pelo referido Cerveira.
Outras igrejas possuíam órgãos, como a Piedade, a Calheta de Nesquim, São João, e Silveira. O da Piedade foi construído, em 1874, por Tomé Gregório, das Velas, que já havia construído, em 1874 o da Matriz daquela Vila; o da Calheta pelo mesmo organeiro, é datado de 1859. O da Piedade, porém, foi dos três, o melhor, segundo o historiador a que me reporto.
O órgão de São João foi construído em 1884 pelo organeiro António Nicolau Ferreira, de São Miguel. Tem 478 tubos.
Na Matriz das Lajes celebrizou-se como organista a professora de Instrução Primária Dona Maria Adelaide Silva, natural da Ilha Terceira e que aqui se fixou e veio a falecer. Senhora de porte distinto e grande cultura, foi a professora daquela outra distinta Senhora, que lhe havia de suceder, como organista da Matriz por largos anos, Dona Adelaide de Azevedo e Castro. Por sua vez esta Senhora transmitiu seus conhecimentos musicais a seu primo, Francisco Xavier de Azevedo e Castro, organista da Matriz durante dezenas de anos.
Antes fora organista D. Maria Xavier, quando seu pai, o Maestro Manuel Xavier Bettencourt, foi regente da capela da Matriz E lembro aqui, ainda, os regentes Gilberto Paulino de Castro, seu pai Manuel Joaquim de Azevedo e Castro e Gil Xavier Bettencourt. Bons músicos da capela foram Manuel Avelino de Castro e Manuel de Brum Quaresma.
No Seminário de Angra os futuros sacerdotes aprendiam o cantochão e a música polifónica que, depois, transmitiam nas respectivas paróquias a jovens com “voz e ouvido”...
Mais tarde, com uma reforma litúrgica, o cantochão foi substituído pelo canto gregoriano.
Nesta vila tornou-se célebre o Pe. João Pereira da Terra, do qual escreve o Pe. José Carlos:Nesta localidade (Silveira das Lajes do Pico) veio a entusiasmar pela Musica um bom número de rapazes e fundou uma esplêndida capela que regeu com acentuada mestria. Dos seus discípulos de então sobressaiu, de forma especial, o grande maestro Pe. José Silveira de Ávila.” (1)
Vários dos seus alunos foram distintos músicos de capela.
E não falo agora do notável Mestre e Maestro Pe. José d’Ávila, o introdutor dos coros ou orfeões nestas ilhas e até em Coimbra onde não pode ser esquecido o seu antigo Maestro, Raposo Marques, que foi aluno do Pe. Ávila.
Realmente, não pode falar-se em grupos corais nos Açores sem recordar aquele que foi seu iniciador – recorde-se a visita do Orfeão de Angra a Ponta Delgada em 1928 – e que havia de transmitir esse gosto e sensibilidade musical a outros que se tornaram grandes Maestros.
Na ilha do Pico, como em todas as Ilhas Açorianas, quase todas as paróquias tinham as respectivas capelas. Todavia, nas festas principais, era tradição convidarem elementos de outras paróquias para as “reforçarem”, diziam. E é assim que, em nosso tempo de juventude, festa principal que houvesse, tinha a presença de músicos valorosos, como o Dr. Garcia da Rosa, distinto organista pela Escola de Milão, e professor do Seminário que, quando em férias na freguesia de S. João, donde era natural, se dedicava à capela paroquial e à Filarmónica local, não deixando de prestar a sua valiosa colaboração, como organista, às solenidades das paróquias picoenses. No canto são de salientar o Pe. Domingos Ferreira da Rosa Ângelo, ouvidor de S. Roque, óptimo soprano e o Pe. Joaquim Vieira da Rosa, excelente baixo, o David Leal Ferreira, o João Barroso e o Tomás Ganhado, músicos com magníficas vozes e bons conhecedores de música, pertencentes à Capela de São João. O Mestre David compunha algumas músicas. Foi pena que tivessem desaparecido...
Das Lajes iam até à Piedade e Calheta, auxiliar nas festas da Padroeira e do Bom Jesus, respectivamente, o Xico (Francisco) Castro, e o Gil Xavier muito embora ali existissem bons músicos, como o Tomé Freitas e o José Laranjeira. Em Santa Cruz lembro-me do João Homem da Silveira, mestre da capela e da filarmónica, o Jacinto Homem, e outros mais. (É difícil enumerar todos aqueles que ao longo dos anos, se dedicaram à música e abrilhantaram com excelentes vozes, as solenidades religiosas). De registar também que os Párocos – e raros eram os que não sabiam música ou não cantavam – tinham a preocupação de preparar os elementos da capela, ensinando-lhes música e solfejo, segundo o método do Pe. Tomás Borba.
Alguns ainda se lembram das “Matinas” do Natal, da Conceição e da Quinta e Sexta-Feira Santas, nas quais se executavam partituras de assinalado valor. Igualmente as partituras das Missas solenes: Frei José Marques, Caghlieri(?), Homo, Perosi, e outros mais. Depois apareceu Tavoni, talvez a última partitura executada pela Capela, e que para aqui foi trazida, aquando da Missa Nova do Pe. Manuel da Rosa, pelo Maestro Emílio Porto, ainda estudante mas já distinto músico.
Hoje desapareceram, praticamente, as chamadas “capelas” e até os coretos onde se exibiam.
Substituem-nas os grupos corais que executam músicas mais ligeiras. De assinalar, por último, mas com o devido e merecido relevo,o aparecimento dos Grupos Corais, que, embora não actuando, geralmente, nas cerimónias litúrgicas, não deixam de contribuir, mercê da competência, entusiasmo e cultura dos respectivos Maestros, para o cultivo artístico da arte de cantar e de solenizar muitos eventos culturais.

(1)Carlos, Pe. JoséPadres da Ilha do Pico – 1970, pág. 55/56

Vila das Lajes, 24-Janeiro-2009

Ermelindo Ávila


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sábado, 31 de janeiro de 2009

Nota do meu cantinho - OBRAS INCOMPLETAS

Festejou-se com pompa e “circunstância” a inauguração das obras realizadas no porto desta vila, no ano findo, obras há muito reclamadas e que mereceram o aplauso dos lajenses. Embora já aqui tivessemos ocasião de registar, muito suavemente, a nossa congratulação, não deixamos de anotar o nosso reparo, não pelo projecto, mas pela sua execução, voltamos a chamar a atenção para os trabalhos realizados, embora da responsabilidade de uma creditada firma empreiteira, que deixou um tanto a desejar. É ver o que se passa com o molhe que foi construído na zona da antiga “carreira”, cujos blocos nem foram devidamente regularizados , nem mesmo o fundo da lagoa, “criada” pela muralha, foi de molde a permitir o tráfego normal de embarcações que demandam o porto interior, pelo que, se tornou indispensável colocar uma bóia de sinalização (será?).

Vê-se que o pequeno troço de muro, que serviu para dar acesso ao molhe, então em construção, está a desfazer-se com o mar do Sul, não levando muito que este, quando tempestuoso, entre pelo novo molhe e venha a atingir o porto interior e, pior ainda, a própria vila.

Junto da muralha de defesa, que circunda a rua da antiga Pesqueira (actualmente avenida marginal...)foi iniciada a construção de um arruamento, - chamemos-lhe assim - de acesso às antigas casas dos botes da “Lagoa de Cima”. O piso ficou em bruto e os últimos mares de oeste já “limparam” uma parte do material de enrocamento ali depositado. Quando a obra se fizer (?) terá de ser novamente reposto, com o agravamento do respectivo custo. (E os tempos actuais não vão para brincadeiras...) Será porque o Município pretende, e já lá vão uns anos, construir o “passeio marítimo”? Mas a construir-se esse passeio, aliás de interesse turístico, partirá da zona do Clube Náutico, ao que nos é dado saber, e atingirá a zona da Ribeira do Meio, possivelmente até ao Poço. Se assim for será uma maneira inteligente e agradável de ligar, pela costa, a vila àquele subúrbio, integrando-o na parte urbana e permitindo um passeio onde as pessoas, quer as residentes, quer as que nos visitam, possam desfrutar de um dos panoramas mais atractivos da Ilha – a baía das Lajes com a Montanha em fundo, em toda a sua grandeza e esplendor.

A Vila, com a obra realizada, só ficou parcialmente defendida. A zona sul necessita, pois, ser igualmente defendida do mar do Sul e Oeste. De contrário ficará sempre ameaçada em ocasiões de enchente, o que não raro acontece.

Impõe-se que a Vila retome a sua posição de burgo de elegante aspecto, progressivo e urbano, como sempre foi considerado, mesmo sem sair da sua classificação secular: a avoenga vila picoense. E isso lhe basta. Há urgente e imperiosa necessidade de algo mais se executar. A quem cumpre, não sei nem importa. Importa, sim, que a entidade responsável olhe para esta Terra, como gestora de um todo que lhe foi confiado e merece ser, convenientemente, cuidado.

Foi por isso e para isso que o povo lhe confiou um mandato. Ao assumi-lo, voluntariamente, comprometeu-se a zelar pelo sector que passou a gerir.

Aqui não se trata de lugar de simpatia. Trata-se, somente, de organizar e trabalhar com justiça, zelando com imparcialidade e dedicação a todas as ilhas, concelhos, vilas e freguesias. Ou será que uns são filhos e outros enteados?

Confiamos nos gestores públicos. E porque neles confiamos, aqui deixamos, e mais uma vez, este simples reparo.

Vila das Lajes,

16 de Janeiro de 09

Ermelindo Ávila

domingo, 25 de janeiro de 2009

A Cultura nas Lajes

Cá estou uma vez mais com a minha croniqueta nesta manhã de sábado, por sinal a última deste mês de Janeiro.

Nem sempre os assuntos são de molde a despertar interesse nos radiouvintes. Relevem-me a falta.

Esta manhã vou trazer à consideração dos que me escutam, a cultura. Não será um historial minucioso mas um apontamento ligeiro do que representou, em tempos passados, a cultura para esta avoenga Vila.

Os primeiros sinais de cultura foram trazidos pelos frades da Ordem Franciscana que aqui se instalaram em 31 de Agosto de 1627. No convento se ensinavam as línguas mais usuais no tempo, alem do português e do latim. Extintas as ordens religiosas, em 17 de Maio de l832, foi criada a aula de Latim que compreendia retórica e francês. Como professor dessa aula tornou-se célebre o Pe. António Lúcio, professor de grande cultura.

Com a morte deste professor, em 8 de Abril de 1868, ficou vaga a aula e nunca mais foi provida pois, entretanto, havia sido criado, em 15 de Maio de 1854, o Liceu da Horta, do qual passou a ser professor António Lourenço da Silveira que, das Lajes, foi transferido para o novo estabelecimento de Ensino Secundário. Autor da História das Quatro Ilhas, havia sido professor de Latim nesta Vila.

De registar a criação do Seminário de Angra, em 15 de Maio de 1854, no qual vieram a matricular-se diversos alunos da Ilha do Pico.

Entretanto, é fundada a Filarmónica Lajense, em 14 de Fevereiro de 1864, a mais antiga da Ilha.

A Ilha do Pico tem, presentemente, um grupo de Filarmónicas de inestimável valor e já centenárias: além da Lajense que, em 1910, indo na corrente do movimento político adicionou o classificativo “Liberdade” à denominação que, assim, passou a “Filarmónica Liberdade Lajense, - existem as filarmónicas centenárias “União Artista”, de S. Roque, fundada em 1880; “Lira Fraternal Calhetense”, fundada em 1888; “Recreio Ribeirense”, fundada em 6 de Janeiro de 1900; “Recreio dos Pastores”, fundada em 23 de Junho de 1907.

No próximo ano a “Liberdade do Cais do Pico” atinge os cem anos, em 10 de Abril. Isto só para referir as centenárias pois a ilha do Pico, com cerca de 15 mil habitantes, possui actualmente treze filarmónicas, o que dá relevo à cultura musical da nossa gente. E deixo de referir o Grupo Coral das Lajes, o Coral da Madalena, as Capelas dos actos litúrgicos. Nada menos de 17 grupos.

Em 1876 por iniciativa de Dom João Paulino de Azevedo e Castro, ao tempo estudante da Universidade de Coimbra e que viria a ser Bispo de Macau, onde faleceu em 1917, foi fundado na Vila das Lajes o Gabinete de Leitura Lajense, com algumas centenas de livros recolhidos nos alfarrabistas daquela cidade. No Cais do Pico, fundou-se, em 8 de Maio de 1882, o Gabinete de Leitura Marques de Pombal.

Na década de trinta do século passado um grupo de lajenses organizou a Biblioteca Popular Lajense que, mais tarde, veio a ser integrada na Câmara Municipal, dando origem à actual Biblioteca Municipal Dias de Melo.

E que dizer do actual Museu dos Baleeiros, um organismo de cultura ímpar que vem merecendo o interesse e acolhimento de muitos cientistas nacionais e estrangeiros, bem como o Centro de Artes e Ciências do mar (antiga fábrica da baleia SIBIL) ?!

Está aberta a inscrição para a XI edição do “Festival Infantil da Canção Baleia de Marfim”, organização do Município Lajense e que, ano a ano, desperta muito interesse em várias ilhas dos Açores, donde vêm diversos concorrentes, de idades compreendidas entre os 5 e 10 anos.

E aqui termino, dado que o assunto não ficou esgotado.

Vila das Lajes, 24 de Janeiro de 2009

Ermelindo Ávila

(Crónica para o programa Manhãs de Sábado da RDP-A)

terça-feira, 20 de janeiro de 2009

OS PATOS DA LAGOA

No ano de 1981 visitei os Estados Unidos da América com minha falecida mulher, de

saudosa memória, Olga Lopes Neves, que havia sido convidada para tomar parte no festival comemorativo do cinquentenário do curso liceal (High School) do “Dartmouth High School”. Vários amigos, familiares ali residentes e antigos colegas tiveram a gentileza de nos convidar para almoços, quer nas próprias casas quer em restaurantes.

Uma antiga professora liceal, da família, convidou-nos para almoçarmos na sua residência nas margens do rio Taunton, onde foi encontrada a célebre Pedra de Dighton. Depois do almoço a nossa anfitriã dirigiu-se para a margem do rio – bastava atravessar a rua – levando um recipiente com os restos do repasto. E qual não foi o meu espanto quando vimos que, da outra margem, um bando de patos se dirigia para o local onde a Senhora se encontrava. Deitou a comida à água e os patos , que eram duas ou três dezenas, fizeram o seu repasto, voltando em seguida para a outra margem.

Passando pela ponte do rio, que ficava ali perto, fomos ver a cabine que guardava a célebre Pedra de Dighton. Os patos já faziam a sexta, no relvado do parque, sob o olhar atento do Guarda Florestal.

Em parêntesis, registo que nos foi agradável ver este cuidado, tanto da senhora como do funcionário florestal, pelos patos que, com o seu esvoaçar lento, davam uma nota de vida e alegria ao ambiente.

Não menos agradável foi estar junto da célebre Pedra que, segundo o Dr. Manuel Luciano da Silva, “Tem gravado o nome de Miguel Corte Real, as Armas de Portugal e a Cruz da Ordem de Cristo”. E uma inscrição que parece dizer que o Miguel foi ali rei dos índios. A pedra contem de facto uns arabescos. Decifrá-los?

No seu livro “Os Pioneiros Portugueses e a Pedra de Dighton”, o Dr. Manuel Luciano Da Silva informa que “Até Agosto de 1963 , a Pedra de Dighton jazia na margem esquerda do rio Taunton, mergulhada entre a corrente da praia-mar e da baixa-mar.” Em 1963, o

Departamento dos Recursos Naturais de Massachusetts pôs fim a uma tão longa controvérsia, demonstrando que a rocha era um bloco de seixo e não de recife.



A pedra foi retirada do rio e colocada sobre um paredão resguardado mas actualmente (quando a visitámos) já se encontrava recolhida numa cabine dupla, completamente fechada. No entanto, por permissão do guarda que nos acompanhava, tive o privilégio de me sentar sobre o célebre monumento.

Todavia o que mais importa neste escrito são os “nossos” patos da Lagoa do porto desta vila. Tarde soube da sua existência, mas, depois, agradava-me observá-los nas suas voltas no varadouro e rua adjacente. Interessante mesmo vê-los seguir pelo passeio da muralha e, só então, onde existe a passadeira que permite passar dali para o relvado em frente do Museu, eles atravessavam a rua para ir poisar no relvado.

Num dos meus raros passeios àquela zona, presenciei um(a) deles fazer o dito percurso com um rancho de patinhos atrás de si. Fiquei encantado. Lembrei-me dos patos do rio Taunton, e regozijei-me com aquela simpática presença. Mas foi por pouco tempo...

Mais tarde tive conhecimento, com mágoa, que um qualquer energúmeno havia destruído os simpáticos bichos e ainda a grande maioria dos adultos. E, que eu saiba, minguem se atreveu a contestou a proeza.

Fiquei contristado e só tive pena de não existir por cá uma sociedade protectora dos animais, como os há em outras terras civilizadas, que velasse pela existência dos patos da Lagoa, e promovesse as acções necessárias à penalização de quantos lhes causassem dano.

Deixem viver e “fazer a sua vida” os patinhos da Lagoa, que ali apareceram nem sei como, mas que são um sinal de civilização. Já foram a S. Francisco da Califórnia, como aliás a outras cidades americanas, e já se encontraram, na beira rio, com as centenas de aves que andam nos largos e ruas, sem que haja alguém que se atreva a molestá-las? E se o fizer conte com a acção enérgica da Polícia que por lá anda. Disso dou testemunho.

Vila das Lajes, 8 de Janeiro de 2009

Ermelindo Ávila

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Moinhos de Vento

Já foi assunto aqui tratado em anterior crónica. (15-11-2001). Todavia nem todos os leitores se lembram do escrito. Vale a pena, por isso tão somente, repeti-lo. Tanto mais que, um velho Amigo, há muito desaparecido do n úmero dos vivos, escrevia-me, a propósito de uma crónica então publicada neste Semanário, e citava o velho e conhecido adágio: “Água mole em pedra dura...”

A paisagem picoense alterou-se imenso nos últimos anos. Desapareceram os moinhos de vento que tanta graça lhe emprestava e a arborização selvagem veio descendo as encostas da ilha, assenhoreando-se dos sítios mais aprazíveis. É o caso das criptomérias que, tomando “posse” das velgas lavradias, se vai aproximando das habitações conjuntamente com as faias e os incensos. (Não serão estes os nomes técnicos mas são aqueles pelos quais as populações conhecem a arborização da Ilha.)
Não digo que se restaurem os antigos moinhos de vento para voltarem à sua actividade de farinação do milho. Até porque o milho já é muito escasso e as poucas moagens motorizadas que existem são suficientes para atender aos que a elas recorrem.

Interessa antes restaurar os moinhos como elementos atractivos de um turismo que cada vez mais nos visita a procura de sítios, construções ou imóveis diferentes da aqueles que habitualmente encontram em outras terras e lugares.


Na periferia da Vila era interessante, aqui há meio século, ver os moinhos do mistério, da Ladeira Nova (Biscoitos), do Juncal e da Terra da Forca, de velas (ou panos) enfunados, e escutar, aqui perto o búzio a chamar os interessados para a moenda. Do que estava no Mistério ficou o “monte”. Desapareceram os outros. Há poucos anos foi retirada a pedra do “monte” do moinho do Juncal”(...)”Não digo que se restaurem todos estes instrumentos de vitalidade, mas mal não ficaria que o da “Terra da Forca” fosse restaurado para enriquecimento da paisagem, dando-se-lhe uma utilidade turística. Outras terras estão a restaurar os seus moinhos e até em algumas nações da Europa isso acontece.”

(Crónicas da Minha Ilha, II Vol. 2002)
Já houve quem pensasse em reconstruir o moinho do Juncal. O monte em pedra podia ser substituído por cimento com revestimento em pedra. Sendo redondo o mar não tem possibilidade de o destruir, como se verificou antes com o que ali existia. Era uma maneira simples de “dar vida”, digamos, aquele descampado que hoje não passa de verdadeiro pasto de ratazana que é necessário eliminar.
Mas não esqueçamos o moinho da “Terra da Forca”. Que agradável era aquele pequeno promontório, que desapareceu quase com uma terraplanagem que ali fizeram para a implantação de uma garagem que , praticamente, não funciona.
O pequeno monte, que fica na continuação do Castelete, era local aprazível, com um maravilhoso panorama em frente, donde se desfrutava a beleza da encosta da ilha, com a vila no sopé, e, depois, a Ribeira do Meio, a Almagreira, a Silveira e ao norte da baia, a freguesia de São João, já na encosta da Montanha, sempre bela, a dominar todo o espaço.

Tudo mudou. Tudo se muda ou, melhor, se destruí. Para melhor? Não creio.Julgo que não é utópica a ideia da reconstrução de alguns dos moinhos, que existiram – e eram dezenas - ao redor da Ilha. Não será empreendimento muito dispendioso. Não estou a sonhar. Ainda possuo a faculdade de pensar...
A Ilha do Pico tem de se voltar a sério para o Turismo, uma actividade que promete ter futuro, se for explorada com seriedade e entusiasmo. Mas a ilha do Pico deve ser tratada como um todo importante e não apenas parcelarmente. E mais não adianto.

Vale a pena os picoenses, aqueles que o são de raiz e de sentimento, pensarem a sério e maduramente no futuro da ilha. E esse futuro será tanto mais promissor para as gerações vindouras quando, todos unidos, procurarmos proporcionar o necessário e indispensável desenvolvimento sócio – económico a esta Terra e às suas gentes.

Vila das Lajes, 2 de Janº de 2009

Ermelindo Ávila


MANHÃS DE SÁBADO

(Programa da RDP-Açores)

MATANÇA DO PORCO


O mês de Janeiro, que há pouco teve inicio, era, em anos passados, o grande mês das famílias rurais, principalmente. E por um acontecimento simples: “a morte desejada, como a classificou um articulista da antiga revista “O Eco Cedrense”, na edição de 25 de Dezembro de 1929 – há quase oitenta nos. Nem mais nem menos do que a matança do porco. E escrevia:

...na morte do porco não há tristezas, nem choros, nem lágrimas, mas sim uma sincera e franca satisfação, que aquela morte é de há muito desejada."

E o articulista descreve minuciosamente as diversas fases, preparatórias e subsequentes, do desejado evento, tal como sucedia por estas ilhas. E acontecia com certa normalidade. Havia mesmo o dito: “Ano em que não se mata porco é um ano de fome.” Mas hoje são quase raras as matanças.

Se ainda as há em casa de algum lavrador, elas são realizadas no Matadouro Industrial, evitando-se o trabalho, que não era pouco, da apanha e secagem das “vassouras” ou ramos de mato – urze – e além de preparativos trabalhosos mas indispensáveis.

O que mais interessava à gente miúda era, propriamente, os dois dias destinados ao festim. Pedia-se dispensa na escola e, no primeiro dia – o dia da matança – era a ida para a costa do mar assistir à lavagem e preparação das tripas do animal , necessárias aos enchidos e a própria bexiga que, cheia de ar, servia por algum tempo, ou instantes, conforme a duração..., de bola de jogo.

No segundo dia era a distribuição dos “presentes” –uma travessa com toucinho, carne e uma morcela – por pessoas amigas, ou familiares, ou até por algum “senhor” a quem o dono da casa devia favor. E todos os miúdos procuravam escolher os destinatários, pelas ofertas que recebiam.

Não raro seguia-se a pequena folga. Não faltavam o tocador de viola e velhos e novos com seus pés de dança.

Por estes lados em todo o mês, do Natal ao Carnaval, era o tempo das matanças. Sinal de abundância nos meses de Inverno, quando escasseavam outros produtos, principalmente o peixe, devido ao mau estado do mar, que não permitia não apenas a pesca mas também os trabalhos do campo

Tempos diferentes. Tempos de paz, de harmonia familiar, convívio fraterno, alegria franca e bom viver, como dizia o povo.

Se a crónica não é a narração completa de um acontecimento familiar, ocorrido ao longo dos anos, é, todavia, um recordar de tempos de uma vivência simples e harmoniosa que não volta.


7 de Janeiro de 2009

Ermelindo Ávila



sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

ANO VELHO - ANO NOVO

NOTAS DO MEU CANTINHO

Ainda ontem, um ontem que já vai distante, estávamos no segundo século da era cristã. Todavia, foi já há oito anos que entrámos no terceiro milénio. Hoje iniciamos o primeiro dia do ano de 2009. O tempo passa com uma velocidade tremenda.

Na última edição deste semanário (O DEVER) um ilustre articulista recordou um trabalho que havíamos publicado em 1962. Não foi há muito, julgava eu, que escrevi e publiquei esse trabalho. No entanto, já se passaram 46 anos!

E durante este tempo, quantos acontecimentos se deram, uns maravilhosos outros bem tristes e amargos! Mas não vou recordá-los porque seria fastidioso. Ficam só para mim... É bom que esqueçamos algo do passado mau que aconteceu. Melhor ficar pelo ano de 2008 que ontem findou. Dá matéria de sobra para que possa ser analisado com calma e serenidade e dessa analise se tirarem as ilações devidas. Mas não é trabalho para este escrito, que, afinal, não pode referir tudo o que há acontecido nestes 366 dias (foi ano bissexto...) que ontem terminaram.

Em diversas nações está na rua uma onda de terrorismo que provoca a destruição e a morte de milhares de vítimas inocentes. É a guerra em toda a sua desenfreada acção criminosa contra povos indefesos: adultos e crianças indefesas.

São os atentados bombistas a causar a morte e a destruição .

Uma crise tremenda instalou-se na sociedade mundial, provocando malefícios sem conto. A fome atinge muitos povos, até mesmo neste Pais “à beira mar plantado”. São os bancos com depósitos sem cobertura... São as empresas, sem puderem acorrer ao crédito, a caírem em falência. São, daí, os operários e serventuários a caminhar desastrosamente para o desemprego.

São as famílias “espoliadas” das suas casas que adquiriram com certo entusiasmo embora com enormes sacrifícios e que delas ficam desapossadas, porque não tem capacidade financeira para saldar as prestações vencidas e com os juros em ascensão desmedida.

São os professores em luta permanente contra inexplicáveis medidas governamentais que exigem, aos respectivos serviços, avaliações que reputam vexatórias.

São os operários despedidos das fábricas que encerram às dezenas ou centenas por ruptura financeira.

São os preços dos géneros de primeira necessidade, a subirem drasticamente, impossibilitando as famílias de minguados recursos de os puderem adquirir, consoante as respectivas necessidades.

É uma pobreza envergonhada que se vai instalando a pouco e pouco atingindo, sobretudo, as crianças e os velhos, que têm de valer-se – quantas vezes !...- dos caixotes do lixo para recuperarem algum alimento, ali deixado por outros mais abastados...

E pior vai ser o ano que hoje se inicia dizem os economistas e analistas .

Na realidade, uma crise tenebrosa se instalou, mesmo nos países ricos, como é o caso dos Estados Unidos da América, que a todos atinge e que dificilmente será debelada.

Portugal está também em crise pois não podia fazer excepção... Por reflexo não tardará que essa crise chegue aos Açores onde, aliás, já se nota a subida de preços de vários géneros de utilização doméstica. Já está anunciada a subida dos preços da electricidade...

Antigamente publicavam-se nestas Ilhas almanaques, onde vinham diversas informações do tempo e presságios dos sucessos que poderiam vir a acontecer. E terminavam “Deus super omnia”.

Assim digo eu neste meu primeiro escrito de 2009: Que o Senhor a todos ampare e proteja na hecatombe que se avizinha. Que a paz se mantenha e que os mais abastados olhem pela sociedade que os rodeia, promovendo eventos que permitam dar trabalho aos desempregados e conforto aos que, dia-a-dia lhes prestam serviços, num esforço por vezes sobre-humano, para garantirem a sua sobrevivência e dos seus familiares.

Vila das Lajes, 1 de Janeiro de 2009

Ermelindo Ávila


domingo, 28 de dezembro de 2008

Crónica sem título

Acontece às vezes...
Nem sempre é fácil encontrar um título que resuma o texto daquilo que se escreve, e aquele que se utiliza geralmente a isso não corresponde com a clareza necessária.

Vamos escrever hoje uma crónica daquelas que o título não aparece. E que crónica?

Os assuntos, umas vezes abundam outras escasseiam e deixam de ter interesse para o leitor.

Não que o tempo que decorre não abunde em assuntos variados mas fica a dúvida da escolha...

Quem escreve é que sabe a dificuldade que encontra quando “lança a mão à pena...” Mas isso era antigamente...Hoje é colocar as mãos sobre o teclado do computador, já não da máquina de escrever, e deixar correr... Pois que seja.

A propósito daquele “lança a mão à pena”, veio-me à lembrança a “Carta para longe” de Armando Cortes-Rodrigues. Actualmente já não se escrevem cartas para as Américas e quase para parte nenhuma. Até as de negócios foram substituídas pela Internet..

No entanto vale a pena lembrar o que escreveu o Poeta :


Maria manda dizer/

o que por tens passado

Triste velhice de quem

Não tem os seus a seu lado.


Não te esqueças de teu pai

lembra-te sempre de mim

Adeus...adeus...que as saudades

Só à vista terão fim!”


Triste velhice de quem

não tem os seus a seu lado!


E quantos partiram para não mais voltarem... Viveram envoltos numa saudade permanente, recordando “o craveiro do balcão” ou a figueira do quintal...

A saudade era tamanha que nem a língua da nova pátria quiseram aprender. A terra pequena e humilde estava sempre presente. Recordavam os feitos de criança, os irmãos e os pais com uma saudade amarga. Aos filhos ensinaram a língua materna para que, em casa, só esse idioma se falasse... E nunca puderam voltar às pedras negras do cantinho natal...

Por cá os pais viveram, e partiram para sempre, embalados na esperança de um dia eles regressarem, porque


Depois que daqui saíste

Nunca mais houve alegria,

Que do céu da nossa vida

Veio a noite e foi-se o dia”.


Tantos que partiram para a terra ficar mais pobre de gente. E essa gente que ficou foi envelhecendo, sempre a olhar para o horizonte, na esperança de um dia o barco voltar ao porto e trazer o seu Manuel, rico e bem trajado, a espalhar alegria e lembranças aos que deixara num dia longínquo. Mas isso raro aconteceu. O Manuel não mais voltou... Todavia ,


A tua cadeira baixa

Lá está (ainda) junto à janela

Como quem ainda espera

Que te venhas sentar nela.”


Muitas crónicas semelhantes se podiam escrever, sobre tantos e tantos que partiram um dia, e foram enriquecer, com o seu trabalho duro, de escravo, as terras da Diáspora. E nunca mais voltaram... E os pais foram envelhecendo, sempre na esperança de um encontro que não se realizou!....

E o Poeta continuou a registar a :


Saudade é como o luar

Que só de noite é que brilha... “


É simples mas repleta de encanto a prece final:


A bênção de Deus te cubra

Com amor, paz e saúde

E lembra-te que a riqueza

Verdadeira é a virtude.”


A crónica acabou. “Até à vista...”


Vila das Lajes,5 de Dezembro de 2008.

Ermelindo Ávila

sábado, 20 de dezembro de 2008

Notas do meu cantinho - O NATAL EM CASA

O Natal está em casa. Mas como era diferente o Natal da minha distante juventude. Simples, modesto, mas não deixava de nos trazer uma alegria sã e comunicativa.

E a 13 de Dezembro era o dia em que normalmente principiava o Natal, com o preparar dos pratinhos ou taças e a colocação neles do trigo a grelar, para estar crescido e viçoso quando se “armava” o altarzinho do Menino Jesus. Começava também a retirar das gavetas ou arcas as toalhas e, dos oratórios, as imagens do Menino para preparar, na véspera do grande dia, o seu trono. um pequeno altar. com dois ou três degraus, feitos de caixas de madeira ou cartão rijo, e coberto com lençol ou toalha branca.

Na Matriz, já noite, iluminada com candeeiros de petróleo e, mais tarde com petromax, principiava no dia 16 –nove dias antes – a devoção da Novena preparatória para a grande Noite. Anos antes, mas ainda no princípio do século vinte, a novena tinha lugar antes de amanhecer, o que obrigava as pessoas a caminhar com os lampiões de velas a alumiar o caminho. Os homens iam preparados, com suas alfaias para dali seguirem para os trabalhos de campo. Bem poucos dispensavam a Novena do Menino Jesus, e a Missa que se celebrava. A Capela lá estava também para executar os cânticos e antífonas próprias da Liturgia daqueles dias.

Depois passou a novena para a noite. Mesmo assim e embora não se houvesse Missa – ainda não havia acontecido o Vaticano II – a Novena era celebrada com a maior solenidade: Veni Santo Spíritus, Oração preparatória, Ladainha de Nossa Senhora, Tota Pulcra es Maria, e Cântico final Ó Infante Suavíssimo... Terminada a novena lá regressavam, novos e velhos, a suas casas para, no dia seguinte, voltarem.

No último dia, a Novena era incorporada nas Matinas cantadas. Uma partitura antiga, quase de música clássica, executada pela Capela e acompanhada a Órgão. A Igreja ficava completamente cheia de fieis que assistiam a todos os actos com o maior respeito e devoção.

(Na Noite de Natal, para evitar qualquer desacato provocado por algum que teria fumos da ceia pantagruélica da noite anterior, - a noite da Calhandra - o Regedor levava em sua companhia dois ou três “cabos de polícia” que dispersava pelo templo. Velhas tradições que cedo acabaram... Actualmente quem fica pelas ceias não vai às novenas...).

A miudagem havia sido deitada ao anoitecer para se levantar a tempo de ir com os pais e mais familiares às Matinas e Missa da Meia Noite. Mas todos iam dispersos e alegres, na esperança de, ao regressar, a casa encontrarem, alguma prenda do Menino Jesus. E bem poucas que eram...

Pela Meia-Noite dava-se início à “Missa do Galo”, cantada pela Capela. Solene e emocionante o Cântico do Glória in excelsis Deo entoado pelo celebrante. As campainhas e os sinos tocavam festivamente, crianças, no coro e no coreto, espalhavam flores pelos assistentes e a capela dava, depois, início à execução de uma partitura de autor célebre.

No final cumprimentava-se, na sacristia, em primeiro lugar o Celebrante e depois as pessoas em redor. E voltava-se a casa com a alma cheia de alegria, e um bem estar confortante.

Os mais novos corriam para descobrir aquilo que o Menino Jesus lhes havia trazido enquanto haviam decorrido as cerimónias na Igreja. E contentes e alegres ficavam quando descobriam qualquer coisa: uns rebuçados, figos passados, um brinquedo, feito artesanalmente pelos pais, durante os dias anteriores, mas sempre de maneira reservada para que não fossem vistos ou descobertos...

Mas que lindo era o Natal daqueles tempos!...

Hoje é tão diferente!


Vila das Lajes, 13 –Dezº - 2008

Ermelindo Ávila

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

O Natal era assim...

Chegado o mês de Dezembro, todos, novos e velhos, se preparam para celebrar o Natal. Pelas ruas e praças do burgo já há sinais festivos da época que está em casa. Aqui e ali, lâmpadas multicolores embelezam as fachadas dos edifícios públicos e de alguns particulares. Os pinheirinhos já se vão colocando na sala principal e adornando com flores, lâmpadas e outros adornos.

Todos se preparam para o grande Dia. Uns com maior esplendor outros com modestos adereços, já vindos de anos passados.

Hoje, dia 13, dia de Santa Luzia, como é velha tradição, na maioria das casas são colocados em pequenas taças de vidro, os grão de trigo a grelar, afim de estarem despontados e viçosos no dia do Natal. Com eles vai ser enfeitado o pequeno altar, à maneira de trono, armado com caixas e coberto de bonitas toalhas brancas ou de um simples lençol, onde será entronizada a pequena imagem do Menino, uma preciosa relíquia já vinda dos tempos dos avós.

O altar era, em tempos não muito recuados, a preocupação principal. Camélias do jardim, laranjas “americanas” do pomar, os pratinhos de trigo a recordar as antigas searas – agora usa-se o milho em sua substituição - tudo servia para tornar o pequeno trono um mimo de graça, de frescura e encanto, em louvor do Menino.

Nos anos trinta chegou dos Estados Unidos o pinheiro que hoje todos colocam nas suas casas e enfeitam com lampadas eléctricas de variegadas cores, e fitas e adereços coloridos, e, aqui e ali, pequenas imagens do novo “São Nicolau”. Mas, mesmo assim, ainda poucos são os que dispensam o antigo presépio ou altarzinho.

De recordar igualmente as Novenas do Natal, aquelas de que me lembro com alguma saudade, realizadas ao princípio da noite, quando não havia luz eléctrica a iluminar os caminhos.

As famílias – novos e velhos, vinham aos grupos, de perto e de longe, trazendo um lampião a petróleo ou vela – depois vieram os petromax - a iluminar os caminhos do percurso. A Igreja também era iluminada a petróleo.

Aquele crepúsculo dava uma certa interioridade mística, e as músicas ainda em latim, sempre iguais mas sempre belas, eram escutadas com enlevo.

E já não falo na Noite do Natal, com o templo melhor iluminado e os cânticos executados pela Capela, a despertar os mais sonolentos. Que bons , esses tempos idos!
(crónica lida no dia 13-12-08, no Programa manhã de Sábado da RDP-Açores)