domingo, 14 de dezembro de 2008

A AVIAÇÃO QUE NOS SERVE - 2

Importa lembrar o que foi a construção da pista da Ilha do Pico. O valoroso empreendimento também tem a sua pequena história que aqui registo, muito singelamente, mas com a verdade toda.
De longa data vinha-se falando numa pista para o Pico. A ilha oferecia zonas especiais que poderiam ser satisfatoriamente aproveitadas, se não fosse a contestação permanente que se fazia para que os picoenses não dispusessem de uma pista moderna e capaz de servir a sua população. Certo é que foi escolhida a zona de Santa Luzia. O projecto foi elaborado, somente em planta, e andou pelas Câmaras Municipais da Ilha.
Entretanto, na década de sessenta do século passado, os Presidentes dos Municípios açorianos foram a Fátima, tomando parte numa peregrinação nacional. Ao regressar, os autarcas do ex-distrito da Horta, acompanhados do Governador, em visita de cortesia, foram cumprimentar o Presidente do Conselho. Ao ser apresentado o de São Roque do Pico, Salazar felicita-o porque ia ter o campo de aviação. Interveio, imediatamente, o Governador para informar o Presidente que o campo era na Ilha do Faial. E assim aconteceu.
A inauguração do Aeroporto da Horta realizou-se a 24 de Agosto de 1971. Para o inaugurar deslocou-se ao Faial o Presidente da República, Almirante Américo Tomaz. A Horta não dispunha de hotéis e o almoço foi servido ao Presidente, comitiva e numerosos convidados, na Estalagem de Santa Cruz (antigo castelo de Santa Cruz).
Todavia, os Presidentes dos Municípios picoenses não se aquietaram. Aproveitando o projecto elaborado para o Pico, dirigiram uma petição ao Ministro respectivo solicitando a aprovação do projecto e pedindo para que fossem as Câmaras Municipais autorizadas a proceder à construção da pista. Estava em Lisboa o Governador que, ao tomar conhecimento da atitude dos Presidentes pensou em demiti-los. Mas ficou por aí. Cerca de um ano decorrido, recebiam os Municípios peticionários a cópia do parecer dos Serviços da Aeronáutica e a solicitada autorização para a construção da pista, sem encargos para o Estado. Mas os presidentes peticionários já tinham sido substituídos por haverem terminado o mandato e tudo ficou como dantes...
Entretanto, veio a Revolução Nacional. Para o Pico foi destacada uma força de sargento. O respectivo comandante, no intuito de dar ocupação “aos seus homens”, procurou descobrir uma obra de interesse público em que os pudesse ocupar. Numa das reuniões militares, expôs o seu plano e, por indicação de um dos Militares presentes, natural desta Ilha, ficou resolvido iniciar as terraplanagens para a construção de uma pista, nos campos de Santa Luzia, aproveitando-se o projecto existente . A obra começou com a colaboração dos Serviços Florestais instalados na Ilha. Com certa lentidão os trabalhos foram prosseguindo até que o Governo Regional, então formado, chamou a si o empreendimento. O aeroporto (depois classificaram-no de aeródromo) acabou por ser inaugurado ,com pompa e circunstância, no dia 25 de Abril de 1982. Quase vinte anos depois!...
Mas a pista inaugurada não era aquela de que necessitava e reclamava a ilha. Importava ampliá-la e dar-lhe as infra-estruturas indispensáveis. Decorreram outros vinte anos para que o Governo Regional resolvesse ampliar, em comprimento e largura, a pista do Pico.
Construiu-se nova aerogare, ampla e funcional, mas ainda não se instalaram os depósitos para o fornecimento de combustível às aeronaves...
Depois de muito insistir e reclamar, apareceu um dia o avião da TAP a aterrar no aeroporto do Pico para, semanalmente, fazer uma paragem no Pico, no voo normal para a Terceira. Mas não basta. Muito se reclama, mas nada se consegue. O Pico continua a dispôr somente de um toque semanal...
As férias do Natal estão a chegar. Ao contrário de antigamente, os estudantes que frequentam as Universidades vêm habitualmente passar essa quadra festiva com as famílias. Raros são os que conseguem vir ou regressar directamente de Lisboa para o Pico ou vice-versa. Habitualmente, têm de viajar para o Faial porque a TAP, naquela época, aumentou de doze voos extraordinários as viagens parta Castelo Branco, deixando o Pico apenas com o toque normal.
E pergunta-se: Porquê esta descriminação? As últimas estatísticas publicadas na Imprensa regional informavam que setenta e tal estudantes do Pico frequentavam cursos superiores enquanto a Ilha vizinha tinha cinquenta e tal. E aqueles passageiros do Pico que se vêm forçados a viajar pelo Faial, porque as reservas do avião que sai do Pico andam sempre ocupadas? E quantas serão?
Afinal, o avião não vem para o Pico em escala directa. Passa no Pico em viagem para a Terceira e dali segue para Lisboa. Não será naquela Ilha que as reservas são ocupadas?
Alguém já teve o cuidado de fazer a estatística (hoje a estatística é que é base de todos os estudos e soluções...) dos passageiros do Pico que são obrigados a tomar o avião no aeroporto de Castelo Branco, porque, ou não há avião, ou as reservas estão antecipadamente ocupadas ?
Mas há ainda outra anomalia a registar: Se o aeroporto do Pico não está praticável, os passageiros ou ficam no Faial ou vão para a Terceira. Se o contrário acontece, o avião desconhece o aeroporto do Pico e segue a outra rota. O aeroporto do Pico nunca é alternativa.
O delegado da TAP no Faial – creio que é o mesmo que superintende nos serviços da TAP no Pico – desconhece estes factos? Se deles sabe porque não dá conhecimento à respectiva administração?
Neste sector como em outros mais não há bairrismos doentios nem separatistas. Há somente a realidade dos factos e a constatação de um desprezo que chega a ser vexatório.
E, já agora: Não há bairrismo em São Jorge, na Terceira, ou São Miguel ou nas Flores? Valha-nos Deus...
Porque são votados os picoenses a esta situação humilhante ?
Analisem - se desapaixonadamente os factos e veja-se de que lado está a razão.
Os picoenses, (das albarcas quase desaparecidas) são tão dignos e têm os mesmos direitos que os outros ilhéus - açorianos.
Desculpe o leitor o desabafo, mas há verdades que têm de ser ditas...

Vila das Lajes,
26 de Nov. De 2008
Ermelindo Ávila

domingo, 7 de dezembro de 2008

Poetas do Pico

Uma nova manhã de sábado surge nas manhãs da nossa vida. E Elas são sempre esperadas com grande ansiedade. Despertamos para um dia novo, onde não faltam as surpresas. Elas aparecem quando menos as esperamos. Mas importa estarmos sempre preparados para as receber. São os ventos que sopram, sem que a Meteorologia os anuncie. São as chuvas e os frios que aparecem mais cedo do que o habitual. São as tempestades que assolam o mundo, aqui e ali deixando a morte, a fome, o frio... São as desgraças e calamidades. É a destruição dos bens materiais e a morte de inofensivas pessoas. São os problemas internos que, por vezes, quantas !, nos atormentam.
Todavia nem tudo são tristezas, angústias e penares. Há também alegrias e esperanças, que uma manhã diferente nos anuncia com o raiar esplendoroso do sol nascente. E como sabe bem, consola a alma e o espírito, nesses dias, quase primaveris, olhar a nossa montanha, límpida, imponente, onde os primeiros raios do sol se reflectem , numa beleza ímpar, plena de encanto e magia. Mesmo que seja a estação invernosa porque a Montanha, como disse um Poeta nosso , Doutor José Enes - : o Pico é a
Montanha do meu segredo,
Montanha do meu destino:
Montanha da minha dor;
Montanha do meu chorar;
Da minha louca ambição;
Montanha da minha sorte;.
Ilha de poetas. Abundam as produções literárias do género. E se esses aqui não nasceram que, tão inspiradamente, souberam enaltecer a ilha em versos delicados, pela ilha se enamoraram, e, até, quantos aqui ficaram!
Ilha Maior”, a cognominou o malogrado poeta Almeida Firmino que, nascido em terras alentejanas, no Pico veio terminar uma vida curta, com uma alma repleta de Poesia, deixando uma obra de inestimável valor.
Roberto de Mesquita, consagrado poeta florentino, aqui principiou sua vida profissional, e, talvez no isolamento da ilha, por cá nascesse a verve da sua inspiração poética, fazendo dele um dos maiores Poetas portugueses.
E que dizer de Josefina Canto e Castro? Uma poetisa que, quer em prosa quer em verso, tinha palavras belas quando referia o Pico, a ilha do seu encantamento?!
Amélia Ernestina de Avelar, nasceu na Vila da Madalena em l de Maio de 1949 e faleceu em Angra em 1887, apenas com 38 anos.
Ensaios Poéticos, que a neta Maria Avelar Medeiros Leonardo publicou em 1949, (62 anos após o falecimento da Poetisa) é o seu livro de poesia. Vale a pena escutar algumas passagens do poema Meu Pico:
Pico, meu Pico, eis-te agora
como eu gosto de te ver,
a fronte dominadora
sem tristes véus a erguer
........................................
Ó Pico, assim imponente,
que graça tens a ostentar,
quando a luz do sol poente
vem tua fronte dourar!...
...........................................
Quando a madrugada apenas
principia a alvorecer,
entre jasmins e açucenas
gosto tanto de o entrever...
............................................
No prefácio destes “Ensaios Poéticos”, escreveu outro festejado Poeta faialense, Osório Goularte, e cito: No livro desta Poetisa há um poema consagrado à sua pequena pátria – O MEU PICO – em que ela descreve os vários aspectos daquela montanha com indicações barométricas de estado atmosférico, pois muitas vezes: “Profectiza o temporal, - a guerra dos elementos, - a fúria solta dos ventos”.
E, referindo-se à poetisa, diz ainda Osório Goulart: “Amélia Ernestina Avelar viveu na época da literatura romântica e, por isso, todos os seus poemas têm a feição sentimental, mas como foi, na sua época, uma Poetisa de merecimento, é louvável a intenção dos seus descendentes, prestando-lhe homenagem nesta data comemorativa e recordando uma étape da evolução da Poesia Portuguesa."
Outros Poetas houve que mereceriam ser lembrados. Mas hoje fico por aqui.
BOM DIA!
(crónica lida em Manhãs de Sábado, da RDP-Açores)
Vila das Lajes, 1-Dezº-2008
Ermelindo Ávila

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

A AVIAÇÃO QUE NOS SERVE - 1

Há quase oitenta anos – 13 de Maio de 1927 – o aviador italiano, Pinedo portou à Horta, vindo de New York, no hidroavião Santa Maria. Foi um acontecimento notável que serviu de ensaio a outros pilotos aviadores que se seguiram. No entanto vale recordar que, antes de partir da América, Pinedo avisou para estarem preparadas as baÍas da Horta e, em alternativa, a baÍa das Lajes do Pico, pois eram as únicas que reuniam condições para uma amerissagem segura.
Depois foi o Junkers alemão. Mas outras experiências se seguiram. Em 1933, é a vez da esquadrilha do italiano Italo Balbo, composta de 24 hidros, nove dos quais amerissaram no porto da Horta, seguindo os restantes para Ponta Delgada, onde um deles se perdeu, morrendo o respectivo piloto. (Uma revista ilustrada, da época, chegou a dar o desastre como acontecido na baia da Horta...)
De recordar Lindbergh, com a esposa, viajando no Lockheed Sirius (diziam que era, ao que constou, um jipe anfíbio) e que chegou à Horta em 21 de Novembro de 1933. Pertencia à companhia Pan American, que viria a estabelecer carreiras regulares com os famosos Clipper’s, desde 1939, entre New York e Horta - Lisboa e as mantiveram durante a Segunda Guerra Mundial. Na Horta estabeleceram uma estação de serviço que ali se manteve enquanto os hidros Clipper’s navegaram. Quando passaram a utilizar os aviões terrestres, construíram uma pista em Santa Maria, para onde transferiram os serviços de apoio.
Os Clipper’s fizeram história no porto da Horta. As viagens eram regulares para Lisboa, se o tempo permitia. (1)
Ao contrário do que, posteriormente, veio a suceder, os açorianos que desejavam viajar, via aérea, para Lisboa, tinham de deslocar-se à Horta, para tomar o Clipper, na sua viagem semanal.
Estava-se em plena Guerra Mundial. Chegou a Portugal a notícia de que Hitler pretendia tomar Lisboa. Imediatamente o Governo resolveu transferir-se para os Açores. O primeiro a vir foi o Presidente da República, Óscar Carmona. Mas, para dar ao acontecimento um aspecto natural, resolveram que os Governadores Civis se deslocassem a Lisboa a formalizar o convite para uma “visita” às Ilhas Açorianas. Os Governadores de Ponta Delgada e Angra viajaram até à Horta, numa viagem directa do antigo iate-motor “Ribeirense” e ali tomaram o hidro que os levou à Capital.
Feito o convite, que foi aceite, naturalmente, o Presidente, com a esposa, uma filha e marido, este ajudante de campo do Presidente, e um neto, seu secretário, embarcaram no Carvalho Araújo, com os Ministros da Marinha e do Interior.
O itinerário da Visita Presidencial previa o desembarque na Madalena, donde o Presidente e Comitiva seguiria, depois, para a Horta. O Presidente da Câmara, Manuel Cristiano de Sousa e Simas, esmerara-se para que a Vila apresentasse um aspecto festivo e condigno. Nomeou comissões que tomaram a seu cargo a decoração da Vila. E recordo até que, no largo, existia um poço para abastecimento público. Francisco Machado Joaquim tomou a seu cargo a “construção” de um cesto florido em cima do bocal, onde um grupo de donzelas, trajando roupas regionais, enviava flores à passagem do cortejo. O Presidente apreciou e dirigiu-lhes palavras de gentil cortesia. Um arco triunfal foi erguido à entrada do largo. Tudo metodicamente preparado. Até os Paços do Concelho haviam sido excelentemente decorados com ricas mobílias orientais. Mas, o imprevisto aconteceu.
Soube-se que o Presidente condecorava o Presidente da Câmara que o recebia. Daí o alterar o itinerário da visita... E Carmona foi desembarcar no Cais do Pico, que à pressa se preparou durante a véspera e noite. Ali foi condecorado o Presidente Celestino Freitas.
Por terra, veio o General Carmona para a Madalena, afim de embarcar para a Horta. O Comandante da Legião Portuguesa, Capitão João Costa, que estava de mal com o Governador, o Capitão Moreira de Carvalho, trouxe da Horta para a Madalena o corpo de legionários e postou-o junto dos Paços do Concelho. À Chegada do Presidente ao Cais de embarque, informou-o de que a guarda de honra estava em frente à Câmara Municipal. O Chefe do Protocolo interveio logo dizendo que não era protocolar o Presidente deslocar-se ao local mas o General Carmona respondeu que iria, e foi. Passou revista ao Batalhão legionário e, depois, o Comandante João Costa convidou-o a entrar nos Paços do Concelho, ao que, novamente, se opôs o Protocolo. Carmona aceitou o convite e subiu até ao Gabinete onde lhe foram entregues e à comitiva, as ofertas previamente preparadas. Só não houve condecoração do Presidente do Município...
A seguir o Presidente tomou lugar na tribuna, que foi levantada a meio do Largo, para assistir à passagem do cortejo de rosquilhas do Espírito Santo e depois encaminhou-se para o Cais para embarcar.
Mas a história não fica por aqui. O resto virá depois.
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1) Neste escrito servi-me, com a devida vénia, de “Apontamentos para a História da Aviação nos Açores”, por Carlos Ramos da Silveira e Fernando Faria – 1985.
Vila das Lajes, 25-XI-08 Ermelindo Ávila

domingo, 30 de novembro de 2008

Prémio DARDOS



Esta distinção foi-nos atribuída pelo Lajense Dr. Paulo Pereira no seu Basalto Negro, considerando-nos "um caso de verticalidade e clarividência pouco comuns no nosso meio". Tanto o comentário como a distinção são encómios que aceitamos mais pela simpatia de um conterrâneo, que pela justeza das palavras.

A publicação na internet destas Notas que, semanalmente, publicamos no semanário O DEVER e algumas no Diário dos Açores e RDP-Açores, pretendeu, apenas, arquivar esses escritos e simultaneamente facilitar aos lajenses e a outros interessados a nossa opinião e perspectivas de acontecimentos e questões que respeitam à Ilha do Pico e à avoenga Vila das Lajes, a primeira povoação picoense.

Se contribuirmos para a divulgação da nossa terra e o seu desenvolvimento, valerá a pena continuar a utilizar este portentoso meio de comunicação.

domingo, 23 de novembro de 2008

SANTA CECÍLIA - PADROEIRA DOS MÚSICOS

A Igreja Católica celebra hoje a festa de Santa Cecília, Padroeira dos Músicos.
Desde longos tempos que os músicos comemoram a festa da sua Padroeira. Todavia, que eu saiba, foi o Dr. Francisco Garcia da Rosa que, ao chegar de Roma, onde fez estudos universitários, e sendo nomeado Vigário da Matriz da Horta, ali instituiu a festa da Padroeira dos Músicos; festa que tem continuado desde os recuados anos vinte do século passado.
A Horta tem uma tradição musical muito notável e importante.
A Filarmónica Artista Faialense é a mais antiga do ex-distrito e viveu momentos de elevada craveira sob a regência do célebre Mastro Francisco Simaria.
A Ilha do Pico possui um assinalado número de sociedades filarmónicas, algumas delas já centenárias, como é o caso da Liberdade Lajense, fundada em l4 de Fevereiro de 1864; a União Artista, de S. Roque do Pico, fundada em 1880; a Lira Fraternal Calhetense, fundada na Calheta de Nesquim em 1888; a Recreio Ribeirense, de S. Cruz das Ribeiras, fundada em 1900; e a Recreio dos Pastores, fundada na freguesia de S. João, em 1904. Outras mais vão a caminho do século, como é a União e Progresso Madalenense, da Madalena, fundada em 15 de Janeiro de 1917.
A Ilha do Pico possui, actualmente , treze filarmónicas, algumas tunas e vários ranchos folclóricos.
A tradição musical, nos Açores, vem de longa data. E os açorianos souberam mantê-la e levá-la para as terras da Diáspora, onde fundaram excelentes bandas, como é o caso da Califórnia, o Leste americano e o Canadá.
E já não aludo aos coros ou conjuntos orfeónicos, excelentes agrupamentos que estão a causar sucesso pelas terras por onde passam. Regista-se o Grupo Coral da Terra Chã, na Ilha Terceira, o Grupo Coral das Lajes do Pico, o Grupo Coral de São José e o Orfeão Dr. Edmundo Machado Oliveira, de Ponta Delgada, o Grupo Coral da Horta e muitos mais, pois quase todas as Ilhas mantêm com brilho os seus grupos corais. E não refiro, pois a crónica torna-se extensa em demasia, as capelas existentes em quase todas as igrejas paroquiais, algumas delas de excelente qualidade.
No entanto, falar destes conjuntos impõem-se também falar dos grandes mestres que, há mais de cem anos, vem instituindo esses agrupamentos, ensinando alguma música aos seus componentes e estes a outros mais por essas ilhas além.
Da Ilha de São Miguel recordo o Padre Serrão, autor de várias composições sacras de grande valor artístico e clássico, depois outros mais, dos quais destaco o Tenente José Dias.
Da Ilha Terceira não pode esquecer-se o celebrado Padre Borba, autor do Solfejo com que nas Escolas se ensinavam os rudimentos musicais. E muitas partituras espalhadas pelas igrejas açorianas
São Jorge, orgulha-se do célebre maestro e compositor Francisco de Lacerda, que arrebatou os auditórios de Paris.
Nesta Ilha do Pico recordo o Padre João Pereira da Terra que, no então curato da Silveira da Matriz das Lajes, hoje paróquia de S. Bartolomeu, ensinou um bom número de rapazes e fundou uma esplêndida capela que regeu com acentuada mestria. "Dos seus discípulos de então sobressaiu, de forma especial, o grande maestro Pe. José de Ávila”, (como regista o Pe. José Carlos no seu “Padres da Ilha do Pico”). E foi o Pe. José de Ávila o grande impulsionador dos grupos corais dos Açores e não só, e professor de outros que também são ou foram Maestros. De elevada craveira.
Na Matriz das Lajes do Pico, pelas 6 horas da tarde, realiza-se a festividade de CRISTO-REI, SENDO INCORPORADA A Memória da Padroeira dos Músicos, Santa Cecília. Nesta solenidade tomam parte, além da Capela da Matriz, o Grupo Coral das Lajes do Pico e a Filarmónica Liberdade Lajense.
22 de Novembro de 2008
Ermelindo Ávila
(crónica lida no programa MANHÃS DE SÁBADO DA RDP-AÇORES)

terça-feira, 18 de novembro de 2008

A ANTIGA CASA DA CÂMARA

A quase totalidade da actual geração de lajenses ignora que a Câmara Municipal teve uma sede própria – a Casa da Câmara – situada no centro da Vila. Foi assim que procederam todos os concelhos. Era nos centros das Vilas e Cidades que se situavam os edifícios públicos e os particulares de maior relevo ou importância.
Para corroborar a afirmação basta ter presente as actuais cidades de Ponta Delgada, Ribeira Grande, Praia da Vitória e Angra do Heroísmo, onde ainda existem as antigas casas dos Municípios.
No “Meio da Vila” ficavam a velha Igreja Matriz, a “Casa da Câmara”, a Igreja da Misericórdia e as residências dos Morgados.
A Casa da Câmara situava-se ao norte da Matriz. Esta tinha a empena principal – altar mor – voltada para Leste. A Casa da Câmara ficava com a frente voltada a norte e o acesso ao piso superior era feito por duas escadas de pedra, em sentido oposto. No cimo havia um alpendre semelhante ao da Praia da Vitória, embora de menores dimensões. O edifício da Câmara só tinha duas salas. No primeiro piso ficavam as cadeias. Na parte exterior existia um pequeno muro com o sino que, às 9 horas da noite, tocava a recolher.
Na acta da Vereação de 5 de Abril de 1826 consta: “Visto o definhamento que se mostra estar esta casa e sala da Câmara “foi deliberado proceder aos reparos do edifício “correndo este diminuto reparo de conta do Procurador do Concelho...”
Depois, anos decorridos: “Dada a pobreza do concelho e a necessidade de reparar o estado totalmente de ruína em que se acham esta casa do concelho e as cadeias, por proposta do Juiz de Fora, José Prudêncio Telles d’Utra Machado, (que presidia à Vereação), foram convidados os proprietários que se achavam presentes para concorrerem para as obras com o que lhes parecesse.” E logo ali os proprietários presentes, em número de dezasseis, ofereceram madeira, os carretos e o ferro necessário.
Em 21 de Junho de 1830, a casa estava novamente em ruínas e foi arrematada a reparação por 6.400 reis.
Em 1834 os serviços municipais encontravam-se a funcionar no extinto convento franciscano, suprimido por Decreto de 17 de Maio de 1832 de D. Pedro, Duque de Bragança, então em Ponta Delgada. Estando o antigo edifício da Câmara abandonado, a Vereação deliberou pôr em praça a sala dos antigos Paços do Concelho e que estava servindo de aula de Latim. Nova arrematação se procedeu em 5 de Dezembro de 1898. No orçamento desse ano foi inscrita a verba de 60.900 para “conserto da antiga casa da Câmara em consequência do estado de ruína.”
Com o início das obras da Nova Matriz, cuja primeira pedra foi solenemente lançada em 7 de Julho de 1897, foi o edifício demolido , entregando-se os respectivos materiais à Junta de Paróquia, para as respectivas obras.
Após a demolição da Casa da Câmara ampliou-se o largo (meio da Vila) e retirou-se o Pelourinho que lhe ficava na frente (Norte) e cujo pedestal ficou subterrado com as obras executadas no arruamento circundante. Nessa ocasião foram também retiradas as casas de morada do Padre Teodoro, que ficavam por detrás da casa da Câmara, e dela separada por um arruamento.
Mais tarde, quando já se estava a concluir a Matriz, nos anos sessenta do século passado, foram demolidas as casas de Francisco Silva (antiga casa de Manuel Xavier Bettencourt) que ficava a norte e a casa de Manuel Cardoso Serpa, a sul, no enfiamento da Rua do Passal.
Depois de quase quatrocentos anos ser o centro das decisões das Diversas Vereações que por ela passaram, Vereações que eram constituídas pelos homens bons do concelho, como então eram designados os vereadores, desapareceu a velha, secular e histórica casa da Câmara. Dela foi resguardada a pedra que encimava a porta principal, onde estava esculpido o “Escudo Municipal”, nem mais do que a Cruz de Cristo. Disso dá testemunho Lacerda Machado na História do Concelho das Lages de que é erudito Autor. Mas a pedra, que havia sido guardada numa dependência do convento Franciscano, agora a servir de “Paços do Concelho” –interinamente, note-se – desapareceu !... Ignora-se quem tenha sido o benemérito que a haja acautelado...
O Velho convento de Nossa Senhora da Conceição, como era designado oficialmente, hoje considerado “Imóvel de Interesse Público”, por Portaria nº .22/78, de 30 de Março de 1978 do Governo Regional dos Açores, continua a ser propriedade do Estado, como o considerou a Direcção Geral da Fazenda Pública por ofício de 15 de Novembro de 1944.(1)
Assim sendo, não será oportuno considerar a Câmara Municipal a construção de um edifício condigno no centro da Vila, seguindo a tradição que vem dos antepassados do concelho?
____________
1) E. Ávila – “Conventos Franciscanos da Ilha do Pico – (Notas Históricas)”-1990
Vila das Lajes,
15 de Novº de 2008
Ermelindo Ávila

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Pe Dr. Garcia da Rosa

A Ilha do Pico vai saindo do seu marasmo de incultura. Aqui e ali vai promovendo, manifestações artísticas e de boa formação intelectual. É agradável isso assinalar. E, fazendo-o, apoiamo-nos, principalmente, nos vários jornais que têm surgido ao longo de quase dois séculos e que hoje estão representados pelos semanários “O Dever” na Vila das Lajes, já no 92º ano de publicação ininterrupta; na Vila da Madalena, o “Ilha Maior”, no 21º ano ; e o “Jornal do Pico”, da Vila de São Roque, a ultrapassar o 5º ano de publicação. E não aludimos os vários boletins paroquiais e, ainda, os que publicam as Escolas do Ensino Secundário.
O movimento bibliográfico é notável para uma ilha de 15 mil habitantes. São vários os escritores picoenses da actualidade. Alguns deles de notável craveira intelectual. Uns da lei da morte se foram libertando ; mas há ainda aqueles que estão na pujança do seu talento e da sua cultura e vem publicando obras, de géneros vários, que honram e dignificam a cultura açoriana e continental.
Mais de três centenas de títulos arquivo nas minhas modestas estantes, de autores picoenses. E eles são naturais de todas as freguesias da ilha. Desde o conto, a poesia, o romance, o ensaio, a história... Dá gosto compulsá-los de vez em quando e deleitarmo-nos com a sua leitura.
Diz o conhecido Cónego Pereira no seu magnifico trabalho “Padres Açorianos –Bispos -Publicistas - Religiosos”, Angra, 1939, que Fr. João da Fé – picoense – que viveu no século dezoito, professou na Ordem de S. Francisco e foi Lente e Guardião do Convento da Horta, logo que o mesmo foi construído. Depois passou a Provincial da sua Ordem, nos Açores. Publicou: “Panegírico ao muito alto e Poderoso Rei de Portugal, D. João V, pregado na festa da sua gloriosa aclamação que celebrou a fidelíssima ilha do Faial, aos 25 de Abril de 1707. "
Trata-se, pois, do primeiro trabalho impresso, que se conhece, da autoria de um picoense. E tantos outros se seguiram...
No dia 14 de Novembro de 1958 – ocorreram ontem cinquenta anos - faleceu em Angra o Dr. Francisco Garcia da Rosa, que foi vigário da Paróquia da Conceição, daquela cidade , Cónego da Sé e professor do Seminário. Era natural da freguesia de São João Baptista, desta Ilha.
Sobre o erudito picoense, diz o Cónego José Augusto Pereira, no seu trabalho já citado, que o Dr. Garcia da Rosa publicou em “A União” (5 –Agosto - 1937) um trabalho sobre A Restauração Artística de uma Igreja Notável, referindo-se à Igreja de São Sebastião da Ilha Terceira. Desenvolvendo o mesmo assunto, apresentou ao Congresso Açoriano em Lisboa (realizado em Lisboa em 1938), um trabalho intitulado Uma velha igreja gótica na Ilha Terceira. E publicou a conferência, que em 1939, pronunciara no Teatro Micaelense, a quando da deslocação do Orfeão de Angra, sob o título: Origem, decadência e Restauração da Polifonia Sacra. E diversos estudos históricos no Boletim do I.A.C. Em 1943, publicou a Oração de Sapiência, intitulada “Maria Santíssima e as Belas Artes", proferida na abertura solene do Seminário de Angra no ano lectivo de 1942-43.
O Dr. Garcia da Rosa faleceu há precisamente cinquenta anos. No entanto é justo que, nesta ocasião, lhe preste a minha sincera homenagem, pois trata-se de uma figura que sempre me dispensou grande amizade e que muito respeitei mas que, infelizmente, anda esquecida.
Outros há que merecedores são de igual lembrança, porém, ela não cabe na crónica de hoje. Mas, nunca os esquecerei.
(crónica lida no programa da RDP-Açores MANHÃS DE SÁBADO).
Ver também o trabalho de Ermelindo Ávila, sobre o mesmo tema publicado em Figuras & Factos, vol.I pag 69.
Vila das Lajes, 15 de Novembro de 2008 Ermelindo Ávila

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

NO RESCALDO

NOTAS DO MEU CANTINHO

Terminaram as campanhas eleitorais para as eleições regionais. Os resultados foram frustrantes para algumas. Outros cantam vitória. O povo, esse ficou retido nas suas casas alheio à euforia dos políticos. Não será essa a leitura que se pode fazer dos 53 por cento de abstenções?
Todos os interessados em conseguir lugar no Parlamento, um emprego aliciante e que sabe bem aproveitar... fizeram promessas e mais promessas, distribuíram a rodos cartazes, objectos utilitários embora marcados pelas suas siglas, andaram de porta em porta com folhetos em que haviam impresso seus programas - promessas... E pouca diferença faziam uns dos outros. Mas alguns dos empreendimentos de que há muito se reclama, ficaram totalmente no esquecimento. Ignoramos a razão mas tudo leva a crer que houve o receio de levantar ondas, por razões que bem se compreendem. Podiam entrar em conflito parlamentar com os parceiros de outros círculos e isso todos quiseram evitar.
Todavia, não faltaram propósitos e afirmações para a solução de alguns empreendimentos que ,há muito, já têm solução satisfatória.
Um dos assuntos que não vimos devidamente tratado foi o Turismo na ilha do Pico. Esquecimento ou propósito?
Ainda agora estou escutando pela voz dum político nacional que o Turismo é a principal actividade económica da Ilha da Madeira. Há muito que o sabemos. E quem por lá passa depara-se, em toda a ilha, com luxuosos e avantajados estabelecimentos hoteleiros que não foram construídos para servir os nativos mas aqueles que, de todas as partes do Mundo e desde há longas décadas, ali chegam para momentos de lazer e de gozo paisagístico.
E as ilhas açorianas? Nada têm para oferecer ao Turismo? Não refiro S. Miguel porque é um caso à parte, muito embora, quando se refere qualquer invento naquela Ilha, se diz: “Nos Açores”.. . E à ilha...nada falta! Agora, vão-se “inventando” novas estruturas que às outras ilhas nada interessam, mas é Açores...
O Turismo nasceu em São Miguel, há muitos anos, por uma firma comercial e industrial, cujos proprietários, não sendo dali, há mais de um século ali se fixaram e na ilha têm desenvolvido a sua operosa actividade. E igualmente na Ilha do Faial.
No mês de Agosto de 1939 encontrava-me em Ponta Delgada. Passava as tardes no antigo café “Giesta”, situado ao lado da Matriz. Um pouco além, havia sido inaugurado, meses antes, o “Bureau” de Turismo, que estava a cargo do excelente amigo Silva Júnior. E como órgão, suponho, desse estabelecimento - posto de turismo, havia sido criado e circulava, ainda sob a direcção do distinto Dr. Agnelo Casimiro, o jornal “A Ilha”, onde tinha assento um grupo de distintos e intelectuais jovens micaelenses. Alguns eram bons amigos. Recordo-os com saudade, entre eles Victor Pedroso.
Um dia “A Ilha” , secundada pelos outros jornais micaelenses da época – Diário dos Açores, Correio dos Açores e Açoriano Oriental (ainda em primeira série), anunciaram a inauguração do Campo de Golfe das Furnas, para o que chegara dos Estados Unidos um milionário americano com o seu secretário. Uma “matança de porco” era o elemento atractivo. E, nessa véspera de domingo, a cidade despovoou-se para assistir à “matança” e à inauguração, pois na ilha ainda não havia praticantes daquele desporto.
O campo lá ficou para nacionais e estrangeiros e ainda hoje existe.
Na Ilha do Pico, há duas dezenas de anos, se não mais, constituiu-se uma sociedade para a construção de um campo de golfe. A Câmara Municipal cedeu o terreno. As obras iniciaram-se. Muita terra de quintais da vila foi transportada para o Mistério da Silveira para regularização do campo. Mas as obras ficaram em meio. Não sei se ainda existe a sociedade promotora. Sei que o campo não foi concluído e a ilha ficou privada de uma estrutura indispensável ao desenvolvimento do Turismo que, repito, é a indústria do futuro. O Pico faz parte dos Açores ou Região. Tem um potencial enorme que está desprezado e que muito poderá contribuir, quando devidamente aproveitado, para a implantação e desenvolvimento do Turismo. E não precisa de serem suspensos PDM...
Explicam que o Pico não tem força política para solucionar os seus problemas e que nunca caminhará com firmeza para o futuro porque será sempre um servidor submisso e calado...
Pois que assim seja. Mas, não se enganem os políticos. Tempos virão em que o castão da bengala se virará para o chão...
A abstenção venceu nas passadas eleições. Uma ou muitas razões houve para que isso acontecesse É isso que não se quer ver nem se analisa.
Vila das Lajes, 28-Outubro-2008
Ermelindo Ávila

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

AS ESTRADAS E OS CAMINHOS DO PICO

Há meio século a Ilha do Pico, como a das Flores e a de São Jorge, não possuíam uma rede de estradas que cobrissem a totalidade da Ilha . Andava-se por aí a cavalo ou a pé, pois a estrada nacional só cobria a parte norte, da Prainha do Norte à Vila das Lajes.
Em vésperas de eleições iniciavam-se os trabalhos, para a estrada Lajes-Piedade, ali, acima da Ladeira, mas, depois, ficava tudo como dantes.
Felizmente, que esses tempos já pertencem à História e as novas gerações nem sabem o que era vir ou ir a pé, da Piedade à Vila, por caminhos “de cabras” como diziam, subindo e descendo ladeiras íngremes e perigosas.
O circuito ficou completo há meio século e, depois, veio a rede de estradas no interior, para acesso e utilização das pastagens e baldios, obra executada pelos Serviços Florestais, então instalados nestas Ilhas.
Mesmo assim, não deixaram alguns de contestar as obras e impedir que os caminhos florestais passassem pelos seus terrenos, o que evitou a construção de alguns.
Todos os caminhos e estradas estão, na sua quase totalidade asfaltados, com excepção de alguns caminhos vicinais da responsabilidade do Município, privando-se as populações utentes de beneficiarem de direitos iguais aos seus conterrâneos.
Todavia, há situações pontuais que merecem aqui um reparo. A estrada Lajes - Piedade foi recentemente asfaltada, substituindo-se a calçada à portuguesa, que vinha do tempo da sua construção em 1940.
( E que difícil foi conseguir o calcetamento, pois o Empreiteiro não desejava fazê-lo, apesar de constar do respectivo projecto. “O Dever” alertou os poderes públicos mas, mesmo assim, foi preciso moverem-se influências para que o projecto fosse totalmente executado. Foram mais de vinte e um quilómetros de estrada. No tempo dizia-se que era a melhor estrada dos Açores. Mas, porque não houve a devida conservação, o seu fim chegou...)
Contudo não se refizeram as bermas, deixando-se que uma vegetação selvagem prejudique muitas vezes o trânsito dos peões e contribua para os perigos que o trânsito de veículos, que é bastante, muitas vezes provoca. Importa ter em atenção que a Ilha do Pico tem, actualmente, um parque automóvel de cerca de dez mil (!) veículos.
Além disso, a sinalização não é a mais adequada. E os locais de interesse turístico não estão devidamente indicados, como se verifica em outras zonas, mesmo na Ilha.
No início, ao longo da estrada foram plantados pinheiros e outro arvoredo mas deixou-se de atender às podas indispensáveis, constituindo hoje bardos densos que, algumas vezes, impedem a visibilidade das curvas e tapam os panoramas maravilhosos que mereciam ser assinalados para melhor serem apreciados, principalmente pelos visitantes.
No “antigamente” que, parece, todos hoje condenam, as estradas estavam divididas em secções e estas em cantões, entregues, respectivamente, a chefes de conservação e cantoneiros. Anualmente, uma entidade particular – julgo que o Automóvel Clube de Portugal, não sei se ainda existe esta organização – distribuía prémios aos cantoneiros que trouxessem os respectivos cantões, melhor cuidados e floridos.
Se esses servidores do Estado (neste caso Região) existem, desconheço pois, antes, o pessoal cantoneiro envergava farda fornecida pelo Estado. Actualmente, só usam farda, em serviço, os guardas policiais e a guarda republicana... Cantoneiros, não os vejo quando passo nas estradas do Pico. Existirão? E, como disse, que bons serviços prestavam esses modestos trabalhadores, aos utentes das estradas e caminhos!
Tudo isto já escrevi anteriormente. O stato quo mantêm-se. As queixas do Zé continuam. Não há remédio senão voltar a registá-las neste “cantinho” até que Alguém se canse de as escutar e algo faça por esta Terra.
Vila das Lajes,
22 de Outubro de 2008
Ermelindo Ávila

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

O MUNDO EM CRISE

São assustadores os momentos que vivemos. A crise financeira que, ao que se julga, principiou nos Estados Unidos, atingiu a Europa, e está a produzir os efeitos mais nefastos. Até aqueles que haviam amealhado grandes fortunas, dum momento para o outro, perderam milhões. Eles, porém e como vulgarmente se diz, não ficam “descalços”. No entanto a crise não deixa de reflectir-se, sobretudo, nos mais pobres e necessitados. E é ver o que se está a passar... Os créditos foram congelados (dizem que é por poucos dias...) os géneros sobem, os combustíveis, e a electricidade igualmente.
Para aqueles que têm compromissos a solver, a vida tornou-se um pesadelo.
As empresas construtoras vêem diminuir os empreendimentos públicos pela recessão dos orçamentos do Estado, da Região e das Autarquias. Daí surge, naturalmente, o desemprego dos trabalhadores da construção civil e não só. E o pior ainda, é que não encontram novas colocações.
Afinal tudo caminha para uma crise sem solução aparente, que teve início na Banca e se propaga vertiginosamente, para o Comércio e Indústria, para os empreendimentos públicos e para as próprias pessoas. E que vai ser de certas famílias, sem as habitações, sem os empregos , sem garantias de trabalho certo?!
Infelizmente, não é nova a crise, embora se apresente com contornos diferentes. Ciclicamente, elas acontecem. E as suas consequências são sempre as mais devastadoras.
Em 1930 uma crise financeira atingiu diversos estabelecimentos bancários dos Açores (para só a estas ilhas me reportar) e as falências sucederam-se, levando atrás de si outras actividades e economias familiares. Quem disso se não recorda? Houve quem viesse, anos decorridos, tomar a posição desses bancos e caixas mas os depositantes só receberam uma parte dos seus depósitos, ( 75% ?) depois de estarem anos vários sem receber quaisquer rendimentos ou juros. Famílias houve que ficaram seriamente atingidas pela crise e sem a totalidade dos seus depósitos, que eram fruto das suas economias domésticas, conseguidas à custa de muito trabalho e de grandes sacrifícios. Até emigrantes retornados ficaram quase na pobreza porque perderam uma boa parte das suas economias. Salvaram-se aqueles que, ao chegar, empregaram o seu dinheiro na aquisição de propriedades imobiliárias: pastagens e terrenos de semeadura. Outros tiveram de regressar às terras de origem para refazerem o seu património, e alguns por cá ficaram quase na miséria.
O falecido escritor picoense, Dias de Melo, no seu belo romance Pedras Negras, dá-nos, com grande realismo, uma panorâmica, do que foi a crise após a guerra 1914-1918. É a falência do Banco Nossa Senhora da Vida e a decadência de Francisco Marroco, o “Senhor Americano”, ao qual “tudo se desfez e perdeu: a alegria, a fortuna, o sonho, a vida que sonhara para os filhos”. E quantos Franciscos Marrocos não houve por essas ilhas?! Este capítulo de Pedras Negras é bastante realista e doloroso... Irá repetir-se?
Verdade é que os bancos desapareçam quase totalmente. Outros vieram mais tarde tomar-lhes a posição e desenvolver o negócio. É ver os que estão fixados por todos os “cantos” destas ilhas. Mas não são já pertença dos açorianos... Em trinta anos fizeram-se fortunas extraordinárias e talvez escandalosas. A esses milionários do século chegará a crise? Creio que a maior crise se vai reflectir naqueles que, iludidos com as facilidades de crédito - empréstimos a médio e longo prazo com baixos juros – vão sentir o “aperto”. E é pena. Foram esses que contribuíram para o desenvolvimento económico da Região, movimentando os fundos bancários, construindo novas habitações, criando novas empresas comerciais e industriais, reorganizando a economia com bases que pareciam sólidas, e proporcionando à Banca negócios avantajados que lhes permitiu alargar o crédito a novos empreendimentos e auferir proventos avantajados.
Não sou nem financeiro nem economista. Todavia a minha experiência de longos anos ensina-me que o momento actual pode ser uma repetição do que aconteceu na década de trinta do Século passado, cerca de oitenta anos decorridos. E como a experiência nos ensina que a história repete-se, julgo que a geração actual tem à sua frente um gravíssimo problema que só será resolvido com muito critério e sacrifícios de não poucos. E estes, normalmente, reflectem-se, como sempre, mais intensamente, nas classes remediadas e pobres.
Que me engane eu!
Vila das Lajes.
14 de Outubro de 08
Ermelindo Ávila