domingo, 23 de novembro de 2008

SANTA CECÍLIA - PADROEIRA DOS MÚSICOS

A Igreja Católica celebra hoje a festa de Santa Cecília, Padroeira dos Músicos.
Desde longos tempos que os músicos comemoram a festa da sua Padroeira. Todavia, que eu saiba, foi o Dr. Francisco Garcia da Rosa que, ao chegar de Roma, onde fez estudos universitários, e sendo nomeado Vigário da Matriz da Horta, ali instituiu a festa da Padroeira dos Músicos; festa que tem continuado desde os recuados anos vinte do século passado.
A Horta tem uma tradição musical muito notável e importante.
A Filarmónica Artista Faialense é a mais antiga do ex-distrito e viveu momentos de elevada craveira sob a regência do célebre Mastro Francisco Simaria.
A Ilha do Pico possui um assinalado número de sociedades filarmónicas, algumas delas já centenárias, como é o caso da Liberdade Lajense, fundada em l4 de Fevereiro de 1864; a União Artista, de S. Roque do Pico, fundada em 1880; a Lira Fraternal Calhetense, fundada na Calheta de Nesquim em 1888; a Recreio Ribeirense, de S. Cruz das Ribeiras, fundada em 1900; e a Recreio dos Pastores, fundada na freguesia de S. João, em 1904. Outras mais vão a caminho do século, como é a União e Progresso Madalenense, da Madalena, fundada em 15 de Janeiro de 1917.
A Ilha do Pico possui, actualmente , treze filarmónicas, algumas tunas e vários ranchos folclóricos.
A tradição musical, nos Açores, vem de longa data. E os açorianos souberam mantê-la e levá-la para as terras da Diáspora, onde fundaram excelentes bandas, como é o caso da Califórnia, o Leste americano e o Canadá.
E já não aludo aos coros ou conjuntos orfeónicos, excelentes agrupamentos que estão a causar sucesso pelas terras por onde passam. Regista-se o Grupo Coral da Terra Chã, na Ilha Terceira, o Grupo Coral das Lajes do Pico, o Grupo Coral de São José e o Orfeão Dr. Edmundo Machado Oliveira, de Ponta Delgada, o Grupo Coral da Horta e muitos mais, pois quase todas as Ilhas mantêm com brilho os seus grupos corais. E não refiro, pois a crónica torna-se extensa em demasia, as capelas existentes em quase todas as igrejas paroquiais, algumas delas de excelente qualidade.
No entanto, falar destes conjuntos impõem-se também falar dos grandes mestres que, há mais de cem anos, vem instituindo esses agrupamentos, ensinando alguma música aos seus componentes e estes a outros mais por essas ilhas além.
Da Ilha de São Miguel recordo o Padre Serrão, autor de várias composições sacras de grande valor artístico e clássico, depois outros mais, dos quais destaco o Tenente José Dias.
Da Ilha Terceira não pode esquecer-se o celebrado Padre Borba, autor do Solfejo com que nas Escolas se ensinavam os rudimentos musicais. E muitas partituras espalhadas pelas igrejas açorianas
São Jorge, orgulha-se do célebre maestro e compositor Francisco de Lacerda, que arrebatou os auditórios de Paris.
Nesta Ilha do Pico recordo o Padre João Pereira da Terra que, no então curato da Silveira da Matriz das Lajes, hoje paróquia de S. Bartolomeu, ensinou um bom número de rapazes e fundou uma esplêndida capela que regeu com acentuada mestria. "Dos seus discípulos de então sobressaiu, de forma especial, o grande maestro Pe. José de Ávila”, (como regista o Pe. José Carlos no seu “Padres da Ilha do Pico”). E foi o Pe. José de Ávila o grande impulsionador dos grupos corais dos Açores e não só, e professor de outros que também são ou foram Maestros. De elevada craveira.
Na Matriz das Lajes do Pico, pelas 6 horas da tarde, realiza-se a festividade de CRISTO-REI, SENDO INCORPORADA A Memória da Padroeira dos Músicos, Santa Cecília. Nesta solenidade tomam parte, além da Capela da Matriz, o Grupo Coral das Lajes do Pico e a Filarmónica Liberdade Lajense.
22 de Novembro de 2008
Ermelindo Ávila
(crónica lida no programa MANHÃS DE SÁBADO DA RDP-AÇORES)

terça-feira, 18 de novembro de 2008

A ANTIGA CASA DA CÂMARA

A quase totalidade da actual geração de lajenses ignora que a Câmara Municipal teve uma sede própria – a Casa da Câmara – situada no centro da Vila. Foi assim que procederam todos os concelhos. Era nos centros das Vilas e Cidades que se situavam os edifícios públicos e os particulares de maior relevo ou importância.
Para corroborar a afirmação basta ter presente as actuais cidades de Ponta Delgada, Ribeira Grande, Praia da Vitória e Angra do Heroísmo, onde ainda existem as antigas casas dos Municípios.
No “Meio da Vila” ficavam a velha Igreja Matriz, a “Casa da Câmara”, a Igreja da Misericórdia e as residências dos Morgados.
A Casa da Câmara situava-se ao norte da Matriz. Esta tinha a empena principal – altar mor – voltada para Leste. A Casa da Câmara ficava com a frente voltada a norte e o acesso ao piso superior era feito por duas escadas de pedra, em sentido oposto. No cimo havia um alpendre semelhante ao da Praia da Vitória, embora de menores dimensões. O edifício da Câmara só tinha duas salas. No primeiro piso ficavam as cadeias. Na parte exterior existia um pequeno muro com o sino que, às 9 horas da noite, tocava a recolher.
Na acta da Vereação de 5 de Abril de 1826 consta: “Visto o definhamento que se mostra estar esta casa e sala da Câmara “foi deliberado proceder aos reparos do edifício “correndo este diminuto reparo de conta do Procurador do Concelho...”
Depois, anos decorridos: “Dada a pobreza do concelho e a necessidade de reparar o estado totalmente de ruína em que se acham esta casa do concelho e as cadeias, por proposta do Juiz de Fora, José Prudêncio Telles d’Utra Machado, (que presidia à Vereação), foram convidados os proprietários que se achavam presentes para concorrerem para as obras com o que lhes parecesse.” E logo ali os proprietários presentes, em número de dezasseis, ofereceram madeira, os carretos e o ferro necessário.
Em 21 de Junho de 1830, a casa estava novamente em ruínas e foi arrematada a reparação por 6.400 reis.
Em 1834 os serviços municipais encontravam-se a funcionar no extinto convento franciscano, suprimido por Decreto de 17 de Maio de 1832 de D. Pedro, Duque de Bragança, então em Ponta Delgada. Estando o antigo edifício da Câmara abandonado, a Vereação deliberou pôr em praça a sala dos antigos Paços do Concelho e que estava servindo de aula de Latim. Nova arrematação se procedeu em 5 de Dezembro de 1898. No orçamento desse ano foi inscrita a verba de 60.900 para “conserto da antiga casa da Câmara em consequência do estado de ruína.”
Com o início das obras da Nova Matriz, cuja primeira pedra foi solenemente lançada em 7 de Julho de 1897, foi o edifício demolido , entregando-se os respectivos materiais à Junta de Paróquia, para as respectivas obras.
Após a demolição da Casa da Câmara ampliou-se o largo (meio da Vila) e retirou-se o Pelourinho que lhe ficava na frente (Norte) e cujo pedestal ficou subterrado com as obras executadas no arruamento circundante. Nessa ocasião foram também retiradas as casas de morada do Padre Teodoro, que ficavam por detrás da casa da Câmara, e dela separada por um arruamento.
Mais tarde, quando já se estava a concluir a Matriz, nos anos sessenta do século passado, foram demolidas as casas de Francisco Silva (antiga casa de Manuel Xavier Bettencourt) que ficava a norte e a casa de Manuel Cardoso Serpa, a sul, no enfiamento da Rua do Passal.
Depois de quase quatrocentos anos ser o centro das decisões das Diversas Vereações que por ela passaram, Vereações que eram constituídas pelos homens bons do concelho, como então eram designados os vereadores, desapareceu a velha, secular e histórica casa da Câmara. Dela foi resguardada a pedra que encimava a porta principal, onde estava esculpido o “Escudo Municipal”, nem mais do que a Cruz de Cristo. Disso dá testemunho Lacerda Machado na História do Concelho das Lages de que é erudito Autor. Mas a pedra, que havia sido guardada numa dependência do convento Franciscano, agora a servir de “Paços do Concelho” –interinamente, note-se – desapareceu !... Ignora-se quem tenha sido o benemérito que a haja acautelado...
O Velho convento de Nossa Senhora da Conceição, como era designado oficialmente, hoje considerado “Imóvel de Interesse Público”, por Portaria nº .22/78, de 30 de Março de 1978 do Governo Regional dos Açores, continua a ser propriedade do Estado, como o considerou a Direcção Geral da Fazenda Pública por ofício de 15 de Novembro de 1944.(1)
Assim sendo, não será oportuno considerar a Câmara Municipal a construção de um edifício condigno no centro da Vila, seguindo a tradição que vem dos antepassados do concelho?
____________
1) E. Ávila – “Conventos Franciscanos da Ilha do Pico – (Notas Históricas)”-1990
Vila das Lajes,
15 de Novº de 2008
Ermelindo Ávila

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Pe Dr. Garcia da Rosa

A Ilha do Pico vai saindo do seu marasmo de incultura. Aqui e ali vai promovendo, manifestações artísticas e de boa formação intelectual. É agradável isso assinalar. E, fazendo-o, apoiamo-nos, principalmente, nos vários jornais que têm surgido ao longo de quase dois séculos e que hoje estão representados pelos semanários “O Dever” na Vila das Lajes, já no 92º ano de publicação ininterrupta; na Vila da Madalena, o “Ilha Maior”, no 21º ano ; e o “Jornal do Pico”, da Vila de São Roque, a ultrapassar o 5º ano de publicação. E não aludimos os vários boletins paroquiais e, ainda, os que publicam as Escolas do Ensino Secundário.
O movimento bibliográfico é notável para uma ilha de 15 mil habitantes. São vários os escritores picoenses da actualidade. Alguns deles de notável craveira intelectual. Uns da lei da morte se foram libertando ; mas há ainda aqueles que estão na pujança do seu talento e da sua cultura e vem publicando obras, de géneros vários, que honram e dignificam a cultura açoriana e continental.
Mais de três centenas de títulos arquivo nas minhas modestas estantes, de autores picoenses. E eles são naturais de todas as freguesias da ilha. Desde o conto, a poesia, o romance, o ensaio, a história... Dá gosto compulsá-los de vez em quando e deleitarmo-nos com a sua leitura.
Diz o conhecido Cónego Pereira no seu magnifico trabalho “Padres Açorianos –Bispos -Publicistas - Religiosos”, Angra, 1939, que Fr. João da Fé – picoense – que viveu no século dezoito, professou na Ordem de S. Francisco e foi Lente e Guardião do Convento da Horta, logo que o mesmo foi construído. Depois passou a Provincial da sua Ordem, nos Açores. Publicou: “Panegírico ao muito alto e Poderoso Rei de Portugal, D. João V, pregado na festa da sua gloriosa aclamação que celebrou a fidelíssima ilha do Faial, aos 25 de Abril de 1707. "
Trata-se, pois, do primeiro trabalho impresso, que se conhece, da autoria de um picoense. E tantos outros se seguiram...
No dia 14 de Novembro de 1958 – ocorreram ontem cinquenta anos - faleceu em Angra o Dr. Francisco Garcia da Rosa, que foi vigário da Paróquia da Conceição, daquela cidade , Cónego da Sé e professor do Seminário. Era natural da freguesia de São João Baptista, desta Ilha.
Sobre o erudito picoense, diz o Cónego José Augusto Pereira, no seu trabalho já citado, que o Dr. Garcia da Rosa publicou em “A União” (5 –Agosto - 1937) um trabalho sobre A Restauração Artística de uma Igreja Notável, referindo-se à Igreja de São Sebastião da Ilha Terceira. Desenvolvendo o mesmo assunto, apresentou ao Congresso Açoriano em Lisboa (realizado em Lisboa em 1938), um trabalho intitulado Uma velha igreja gótica na Ilha Terceira. E publicou a conferência, que em 1939, pronunciara no Teatro Micaelense, a quando da deslocação do Orfeão de Angra, sob o título: Origem, decadência e Restauração da Polifonia Sacra. E diversos estudos históricos no Boletim do I.A.C. Em 1943, publicou a Oração de Sapiência, intitulada “Maria Santíssima e as Belas Artes", proferida na abertura solene do Seminário de Angra no ano lectivo de 1942-43.
O Dr. Garcia da Rosa faleceu há precisamente cinquenta anos. No entanto é justo que, nesta ocasião, lhe preste a minha sincera homenagem, pois trata-se de uma figura que sempre me dispensou grande amizade e que muito respeitei mas que, infelizmente, anda esquecida.
Outros há que merecedores são de igual lembrança, porém, ela não cabe na crónica de hoje. Mas, nunca os esquecerei.
(crónica lida no programa da RDP-Açores MANHÃS DE SÁBADO).
Ver também o trabalho de Ermelindo Ávila, sobre o mesmo tema publicado em Figuras & Factos, vol.I pag 69.
Vila das Lajes, 15 de Novembro de 2008 Ermelindo Ávila

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

NO RESCALDO

NOTAS DO MEU CANTINHO

Terminaram as campanhas eleitorais para as eleições regionais. Os resultados foram frustrantes para algumas. Outros cantam vitória. O povo, esse ficou retido nas suas casas alheio à euforia dos políticos. Não será essa a leitura que se pode fazer dos 53 por cento de abstenções?
Todos os interessados em conseguir lugar no Parlamento, um emprego aliciante e que sabe bem aproveitar... fizeram promessas e mais promessas, distribuíram a rodos cartazes, objectos utilitários embora marcados pelas suas siglas, andaram de porta em porta com folhetos em que haviam impresso seus programas - promessas... E pouca diferença faziam uns dos outros. Mas alguns dos empreendimentos de que há muito se reclama, ficaram totalmente no esquecimento. Ignoramos a razão mas tudo leva a crer que houve o receio de levantar ondas, por razões que bem se compreendem. Podiam entrar em conflito parlamentar com os parceiros de outros círculos e isso todos quiseram evitar.
Todavia, não faltaram propósitos e afirmações para a solução de alguns empreendimentos que ,há muito, já têm solução satisfatória.
Um dos assuntos que não vimos devidamente tratado foi o Turismo na ilha do Pico. Esquecimento ou propósito?
Ainda agora estou escutando pela voz dum político nacional que o Turismo é a principal actividade económica da Ilha da Madeira. Há muito que o sabemos. E quem por lá passa depara-se, em toda a ilha, com luxuosos e avantajados estabelecimentos hoteleiros que não foram construídos para servir os nativos mas aqueles que, de todas as partes do Mundo e desde há longas décadas, ali chegam para momentos de lazer e de gozo paisagístico.
E as ilhas açorianas? Nada têm para oferecer ao Turismo? Não refiro S. Miguel porque é um caso à parte, muito embora, quando se refere qualquer invento naquela Ilha, se diz: “Nos Açores”.. . E à ilha...nada falta! Agora, vão-se “inventando” novas estruturas que às outras ilhas nada interessam, mas é Açores...
O Turismo nasceu em São Miguel, há muitos anos, por uma firma comercial e industrial, cujos proprietários, não sendo dali, há mais de um século ali se fixaram e na ilha têm desenvolvido a sua operosa actividade. E igualmente na Ilha do Faial.
No mês de Agosto de 1939 encontrava-me em Ponta Delgada. Passava as tardes no antigo café “Giesta”, situado ao lado da Matriz. Um pouco além, havia sido inaugurado, meses antes, o “Bureau” de Turismo, que estava a cargo do excelente amigo Silva Júnior. E como órgão, suponho, desse estabelecimento - posto de turismo, havia sido criado e circulava, ainda sob a direcção do distinto Dr. Agnelo Casimiro, o jornal “A Ilha”, onde tinha assento um grupo de distintos e intelectuais jovens micaelenses. Alguns eram bons amigos. Recordo-os com saudade, entre eles Victor Pedroso.
Um dia “A Ilha” , secundada pelos outros jornais micaelenses da época – Diário dos Açores, Correio dos Açores e Açoriano Oriental (ainda em primeira série), anunciaram a inauguração do Campo de Golfe das Furnas, para o que chegara dos Estados Unidos um milionário americano com o seu secretário. Uma “matança de porco” era o elemento atractivo. E, nessa véspera de domingo, a cidade despovoou-se para assistir à “matança” e à inauguração, pois na ilha ainda não havia praticantes daquele desporto.
O campo lá ficou para nacionais e estrangeiros e ainda hoje existe.
Na Ilha do Pico, há duas dezenas de anos, se não mais, constituiu-se uma sociedade para a construção de um campo de golfe. A Câmara Municipal cedeu o terreno. As obras iniciaram-se. Muita terra de quintais da vila foi transportada para o Mistério da Silveira para regularização do campo. Mas as obras ficaram em meio. Não sei se ainda existe a sociedade promotora. Sei que o campo não foi concluído e a ilha ficou privada de uma estrutura indispensável ao desenvolvimento do Turismo que, repito, é a indústria do futuro. O Pico faz parte dos Açores ou Região. Tem um potencial enorme que está desprezado e que muito poderá contribuir, quando devidamente aproveitado, para a implantação e desenvolvimento do Turismo. E não precisa de serem suspensos PDM...
Explicam que o Pico não tem força política para solucionar os seus problemas e que nunca caminhará com firmeza para o futuro porque será sempre um servidor submisso e calado...
Pois que assim seja. Mas, não se enganem os políticos. Tempos virão em que o castão da bengala se virará para o chão...
A abstenção venceu nas passadas eleições. Uma ou muitas razões houve para que isso acontecesse É isso que não se quer ver nem se analisa.
Vila das Lajes, 28-Outubro-2008
Ermelindo Ávila

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

AS ESTRADAS E OS CAMINHOS DO PICO

Há meio século a Ilha do Pico, como a das Flores e a de São Jorge, não possuíam uma rede de estradas que cobrissem a totalidade da Ilha . Andava-se por aí a cavalo ou a pé, pois a estrada nacional só cobria a parte norte, da Prainha do Norte à Vila das Lajes.
Em vésperas de eleições iniciavam-se os trabalhos, para a estrada Lajes-Piedade, ali, acima da Ladeira, mas, depois, ficava tudo como dantes.
Felizmente, que esses tempos já pertencem à História e as novas gerações nem sabem o que era vir ou ir a pé, da Piedade à Vila, por caminhos “de cabras” como diziam, subindo e descendo ladeiras íngremes e perigosas.
O circuito ficou completo há meio século e, depois, veio a rede de estradas no interior, para acesso e utilização das pastagens e baldios, obra executada pelos Serviços Florestais, então instalados nestas Ilhas.
Mesmo assim, não deixaram alguns de contestar as obras e impedir que os caminhos florestais passassem pelos seus terrenos, o que evitou a construção de alguns.
Todos os caminhos e estradas estão, na sua quase totalidade asfaltados, com excepção de alguns caminhos vicinais da responsabilidade do Município, privando-se as populações utentes de beneficiarem de direitos iguais aos seus conterrâneos.
Todavia, há situações pontuais que merecem aqui um reparo. A estrada Lajes - Piedade foi recentemente asfaltada, substituindo-se a calçada à portuguesa, que vinha do tempo da sua construção em 1940.
( E que difícil foi conseguir o calcetamento, pois o Empreiteiro não desejava fazê-lo, apesar de constar do respectivo projecto. “O Dever” alertou os poderes públicos mas, mesmo assim, foi preciso moverem-se influências para que o projecto fosse totalmente executado. Foram mais de vinte e um quilómetros de estrada. No tempo dizia-se que era a melhor estrada dos Açores. Mas, porque não houve a devida conservação, o seu fim chegou...)
Contudo não se refizeram as bermas, deixando-se que uma vegetação selvagem prejudique muitas vezes o trânsito dos peões e contribua para os perigos que o trânsito de veículos, que é bastante, muitas vezes provoca. Importa ter em atenção que a Ilha do Pico tem, actualmente, um parque automóvel de cerca de dez mil (!) veículos.
Além disso, a sinalização não é a mais adequada. E os locais de interesse turístico não estão devidamente indicados, como se verifica em outras zonas, mesmo na Ilha.
No início, ao longo da estrada foram plantados pinheiros e outro arvoredo mas deixou-se de atender às podas indispensáveis, constituindo hoje bardos densos que, algumas vezes, impedem a visibilidade das curvas e tapam os panoramas maravilhosos que mereciam ser assinalados para melhor serem apreciados, principalmente pelos visitantes.
No “antigamente” que, parece, todos hoje condenam, as estradas estavam divididas em secções e estas em cantões, entregues, respectivamente, a chefes de conservação e cantoneiros. Anualmente, uma entidade particular – julgo que o Automóvel Clube de Portugal, não sei se ainda existe esta organização – distribuía prémios aos cantoneiros que trouxessem os respectivos cantões, melhor cuidados e floridos.
Se esses servidores do Estado (neste caso Região) existem, desconheço pois, antes, o pessoal cantoneiro envergava farda fornecida pelo Estado. Actualmente, só usam farda, em serviço, os guardas policiais e a guarda republicana... Cantoneiros, não os vejo quando passo nas estradas do Pico. Existirão? E, como disse, que bons serviços prestavam esses modestos trabalhadores, aos utentes das estradas e caminhos!
Tudo isto já escrevi anteriormente. O stato quo mantêm-se. As queixas do Zé continuam. Não há remédio senão voltar a registá-las neste “cantinho” até que Alguém se canse de as escutar e algo faça por esta Terra.
Vila das Lajes,
22 de Outubro de 2008
Ermelindo Ávila

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

O MUNDO EM CRISE

São assustadores os momentos que vivemos. A crise financeira que, ao que se julga, principiou nos Estados Unidos, atingiu a Europa, e está a produzir os efeitos mais nefastos. Até aqueles que haviam amealhado grandes fortunas, dum momento para o outro, perderam milhões. Eles, porém e como vulgarmente se diz, não ficam “descalços”. No entanto a crise não deixa de reflectir-se, sobretudo, nos mais pobres e necessitados. E é ver o que se está a passar... Os créditos foram congelados (dizem que é por poucos dias...) os géneros sobem, os combustíveis, e a electricidade igualmente.
Para aqueles que têm compromissos a solver, a vida tornou-se um pesadelo.
As empresas construtoras vêem diminuir os empreendimentos públicos pela recessão dos orçamentos do Estado, da Região e das Autarquias. Daí surge, naturalmente, o desemprego dos trabalhadores da construção civil e não só. E o pior ainda, é que não encontram novas colocações.
Afinal tudo caminha para uma crise sem solução aparente, que teve início na Banca e se propaga vertiginosamente, para o Comércio e Indústria, para os empreendimentos públicos e para as próprias pessoas. E que vai ser de certas famílias, sem as habitações, sem os empregos , sem garantias de trabalho certo?!
Infelizmente, não é nova a crise, embora se apresente com contornos diferentes. Ciclicamente, elas acontecem. E as suas consequências são sempre as mais devastadoras.
Em 1930 uma crise financeira atingiu diversos estabelecimentos bancários dos Açores (para só a estas ilhas me reportar) e as falências sucederam-se, levando atrás de si outras actividades e economias familiares. Quem disso se não recorda? Houve quem viesse, anos decorridos, tomar a posição desses bancos e caixas mas os depositantes só receberam uma parte dos seus depósitos, ( 75% ?) depois de estarem anos vários sem receber quaisquer rendimentos ou juros. Famílias houve que ficaram seriamente atingidas pela crise e sem a totalidade dos seus depósitos, que eram fruto das suas economias domésticas, conseguidas à custa de muito trabalho e de grandes sacrifícios. Até emigrantes retornados ficaram quase na pobreza porque perderam uma boa parte das suas economias. Salvaram-se aqueles que, ao chegar, empregaram o seu dinheiro na aquisição de propriedades imobiliárias: pastagens e terrenos de semeadura. Outros tiveram de regressar às terras de origem para refazerem o seu património, e alguns por cá ficaram quase na miséria.
O falecido escritor picoense, Dias de Melo, no seu belo romance Pedras Negras, dá-nos, com grande realismo, uma panorâmica, do que foi a crise após a guerra 1914-1918. É a falência do Banco Nossa Senhora da Vida e a decadência de Francisco Marroco, o “Senhor Americano”, ao qual “tudo se desfez e perdeu: a alegria, a fortuna, o sonho, a vida que sonhara para os filhos”. E quantos Franciscos Marrocos não houve por essas ilhas?! Este capítulo de Pedras Negras é bastante realista e doloroso... Irá repetir-se?
Verdade é que os bancos desapareçam quase totalmente. Outros vieram mais tarde tomar-lhes a posição e desenvolver o negócio. É ver os que estão fixados por todos os “cantos” destas ilhas. Mas não são já pertença dos açorianos... Em trinta anos fizeram-se fortunas extraordinárias e talvez escandalosas. A esses milionários do século chegará a crise? Creio que a maior crise se vai reflectir naqueles que, iludidos com as facilidades de crédito - empréstimos a médio e longo prazo com baixos juros – vão sentir o “aperto”. E é pena. Foram esses que contribuíram para o desenvolvimento económico da Região, movimentando os fundos bancários, construindo novas habitações, criando novas empresas comerciais e industriais, reorganizando a economia com bases que pareciam sólidas, e proporcionando à Banca negócios avantajados que lhes permitiu alargar o crédito a novos empreendimentos e auferir proventos avantajados.
Não sou nem financeiro nem economista. Todavia a minha experiência de longos anos ensina-me que o momento actual pode ser uma repetição do que aconteceu na década de trinta do Século passado, cerca de oitenta anos decorridos. E como a experiência nos ensina que a história repete-se, julgo que a geração actual tem à sua frente um gravíssimo problema que só será resolvido com muito critério e sacrifícios de não poucos. E estes, normalmente, reflectem-se, como sempre, mais intensamente, nas classes remediadas e pobres.
Que me engane eu!
Vila das Lajes.
14 de Outubro de 08
Ermelindo Ávila

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

UMA LOTA ORIGINAL!...

Num dos meses do Verão foram inauguradas as obras realizadas no porto interior (lagoa) da vila das Lajes e, conjuntamente, a muralha (parte) de defesa a cortina da Vila. Aplaudimos os trabalhos realizados mas nunca deixamos de referir que tais obras, principalmente a muralha, ficavam incompletas, pois é indispensável dar-lhe continuidade para Sul, até ao Calhau Grosso, ao menos, para que a Vila fique resguardada dos temporais de Sul, Sudoeste e Oeste, bastante frequentes.
Não se completou o troço de muralha entre o muro do Caneiro e a muralha de defesa ora construída, dizem que por falta de projecto que, entretanto, estava a ser elaborado...
O porto interior ou lagoa, não foi aquilo que estava inicialmente projectado: amarrações para setenta embarcações que ficaram reduzidas a cinquenta. Mas nem assim, pois a prancha central foi modificada, retirando-se-lhe as guardas transversais afim de serem amarrados os barcos de vigia de baleias, e neles puderem embarcar os visitantes...
Nem o fundo do agora porto interior, nem mesmo o do porto exterior agora “criado”, foram devidamente regularizados, obrigando as embarcações a desvios na entrada, que não deixa por isso de ser perigosa.
Já aqui deixámos o nosso agrado pelas obras realizadas, mas antes de se conhecerem algumas das mazelas que posteriormente
vieram a ser detectadas. Todavia, porque logo vieram ao conhecimento público, não posso nem devo deixar de aqui registar o meu reparo.
Não há sinais de se vir a construir definitivamente o troço de muralha que a Empresa Empreiteira lançou para a circulação dos seus veículos, durante as obras, e que lá se encontra ainda embora obstruído a evitar que os veículos e as pessoas atinjam o molhe exterior.
No início do muro de acesso ao cais, antigo caneiro, foi construída, pela Câmara Municipal, há cerca de trinta anos uma casa
para Lota, que sempre funcionou a contento quer dos pescadores quer dos compradores pois reunia as condições de higiene e laboração. E até no Inverno era utilizado pelos pescadores e outros parceiros, para as tardes de lazer...
Com as obras do chamado “porto de recreio”, ou “marina”, como alguns dizem, houve que destruir o edifício da Lota. Os respectivos serviços e pessoal foram transferidos ou incorporados nos serviços da Madalena, onde é já prática corrente concentrar tudo o que existia nesta Vila, naturalmente para lhe dar maior grandeza...
A vila das Lajes foi privada do serviço de lota ou, melhor dizendo, da possibilidade de adquirir peixe no seu porto, onde ainda existem mais de duas dezenas de embarcações de pesca local.
E a propósito: ainda me recordo das grandes pescarias de chicharro que se faziam no “limpo”, zona da baía das Lajes onde aquela espécie se concentrava em grandes cardumes. Esse pescado era tratado no areal que existia na Lagoa antes da construção da nova muralha (1936). Depois de tratado era vendido ou seco para a troca de géneros ou uso no Inverno. Outros tempos, dirão...
Agora o pescado é concentrado na actual Lota (a de Santa Cruz das Ribeiras também deixou de existir ?) e, depois de cumpridas as formalidades legais, posto à disposição dos vendilhões que, geralmente, se desembaraçam do pescado antes de chegarem às Lajes.
E neste vai-e-vem o peixe que resta, percorreu 70 quilómetros”!...
Além dos lajenses serem privados de ter peixe fresco, como estavam habituados desde que a ilha é povoada de gente. Ficam sujeitos a adquirir peixe congelado, que não é nem será nunca da qualidade do fresco.
Está anunciada, para 13 do corrente mês, a inauguração da nova peixaria na Vila das Lajes: um contentor, pintado de fresco, instalado ao lado do edifício da escola do primeiro ciclo, para funcionar das 7,30H às 11,30H de cada dia, naturalmente com o pescado da véspera ou congelado. Não será?
Não deixa de ser um tanto frustrante a situação. Ou serei apenas o único que neste imbróglio não tem razão?
Julgo que a Vila das Lajes merecia melhor tratamento, pelo seu passado histórico, pelos seus honestos e dignos pescadores que ainda os há e de excelente qualidade profissional e pelas suas gentes em geral, nada inferiores aos seus vizinhos.
Isto, entenda-se, sem deixar de realçar as obras realizadas no porto.
Custa escrever crónicas deste teor mas também é difícil suportar tanto atropelo aos direitos e à dignidade pessoal e profissional dum povo digno e laborioso como é e sempre foi o da MINHA TERRA.
É por esse meu povo, porque a ele pertenço, e só pela defesa dos seus direitos legítimos, que ainda aqui estou.
Vila das Lajes,
11 de Outubro de 2008
Ermelindo Ávila

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

FÉ E SENTIDO

Nos recenseamentos da população, ordinariamente realizados de dez em dez anos, os inquiridos tinham de responder (ainda terão?) qual a religião que professavam. A grande maioria dos portugueses declarava ser católica, embora alguns esclarecessem que não eram praticantes.
Raros eram os casamentos civis, e a ninguém era proibido fazê-los. Quase todos os jovens optavam pelo casamento católico. Além do mais, uma tradição de longos séculos e que ninguém contestava, embora tivesse liberdade para o fazer.
Todavia, mais de um século decorrido, algo era bem diferente. Quem examinava os roteiro paroquiais raramente encontrava um freguês que não tivesse cumprido os preceitos da Igreja Católica. E podemos mesmo acrescentar que, v.g., no ano de 1878 – há precisamente cento e trinta anos, a população da freguesia da Santíssima Trindade, Ilha do Pico, era constituída por 1141 indivíduos do sexo masculino, 1575 do sexo feminino e 541 eram de idades inferiores a sete anos. No total, 3257 indivíduos. Curioso referir que, nesse ano, estavam ausentes ou emigrados, vinte e sete maridos.
Todos os que estavam na idade canónica de cumprirem os preceitos pascais o haviam feito sem qualquer excepção.
Este pequeno preâmbulo vem a propósito do livro “Entre o Culto e o Sentido – Fé professada, calculada e vivida em meio urbano” que o Professor da Universidade dos Açores, Doutor Octávio H. Ribeiro de Medeiros acaba de publicar.
Na “Introdução” escreve o Autor: “Em Portugal a percentagem de católicos é agora de 89,9% - 9,4 milhões de pessoas. Contudo, segundo o Recenseamento da Prática Dominical de 2001, o numero total de praticantes não chegou aos 2 milhões de fiéis.”
Para esta descida preocupante de praticantes da Religião Católica, o Autor apresentou diversas causas e recorda as palavras de ordem segundo o Papa: ”É precioso mudar o estilo de organização da comunidade clerical portuguesa e a mentalidade dos seus membros para se ter uma Igreja ao ritmo do Concílio Vaticano II, na qual esteja bem estabelecida a função do clero e do laicado, tendo em conta que todos somos um, desde quando fomos baptizados e integrados na família dos filhos de Deus, e todos somos corresponsáveis pelo crescimento da Igreja."
Na realidade, há um desinteresse, uma apatia da parte da família católica que está a concorrer para a desintegração da própria Igreja local.
Fazem-se as festas tradicionais com alguma concorrência mas mais presente nos actos externos...
“Legalizam-se” situações aberrantes dos indivíduos, com reflexos naqueles que se confessam (confessavam) católicos. E julga-se natural certas práticas que antes eram atentatórias da dignidade humana.
Fé e Sentido”, com 266 páginas de texto, é um trabalho exaustivo de estudo e análise da época sócio-religiosa em que vivemos; trabalho bastante documentado com gráficos e dados estatísticos, que termina com esta afirmação do douto Mestre da “Sociologia Católica Açoriana”: “Na sociedade actual, a valorização do hic et nunc, vai dominando cada vez mais a vida fazendo com que a vivência do homem moderno tarda a circunscrever-se em coordenadas humano-temporais, dando origem a uma forma diferente de ser homem, empenhado em outras buscas e entregue a outras esperanças, de preferência intra-mundanas.”
A hora que se vive é de autêntica tribulação. Não se assume a responsabilidade da prática de determinados actos e vive-se num labirinto de incertezas e contrariedades, de consequências bastante funestas.
O Mundo, o mundo que nos fica ao pé da porta, abandonou os seus dogmas essenciais e entregou-se ao desvario, à apatia dos seus próprios valores.
Um materialismo bárbaro transformou-se em pseudo doutrina privilegiada, mas pertinente.
Quando voltará o homem a ocupar o seu lugar numa sociedade honesta, disciplinada, respeitadora dos valores sagrados, que transforme a iniquidade em valores humanos, dignos e capazes de promoverem uma vida de respeitabilidade, seriedade, responsabilidade e amor?
Vila das Lajes,
11 de Outº de 2008
Ermelindo Ávila

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

BOTOS E POMBAS

O Escritor faialense, Ernesto Rebello, nas “Notas Faialenses”, publicadas no “Arquivo dos Açores”(1886) dedica o capitulo XIX do seu notável trabalho, à caça dos “Botos e Pombas”,na Vila das Lajes. E para cá chegar, ao cair da noite, da Madalena às Lajes, levou nada menos de “nove horas de jornada”.
Na alegre perspectiva daquela povoação, maxime para quem vem fatigado e batido de chuvas e ventanias, acrescendo ainda que nessa ocasião estávamos no fim do inverno, que os dias bons eram ainda raros e que uma nortada aguda nos fazia assoprar nos dedos e embrulhar aconchegadamente nuns cobertores de lã, que nos haviam emprestado pelo caminho.
Os nossos companheiros de jornada eram um rapaz da vila, que tinha ido ao Faial, donde regressava, por causa do recrutamento, um homem da Madalena, que tinha a seu cargo os dois péssimos burros que montávamos e um cão rafeiro, de raça ordinaríssima, que durante todo o caminho matara, na serra, dois coelhos, dos quais o arrieiro logo se apoderara, e pela estrada vários ratos de enormes proporções.”
E não continuo a transcrição, para aqui dizer o que Ernesto Rebello nos narra da caça aos botos e pombos.
Botos são o que a moderna Ecologia chama Golfinhos e que era caçados para deles extrair o óleo ou azeite que alimentava as candeias...A sua carne não era utilizada, ao contrário da toninha cuja carne era uma das peças basilares da alimentação dos picoenses. Mas deixemos essas histórias que causam engolios aos actuais ecologistas...
No entanto, só esta afirmação de E.R.:”Os lajenses dão certa solenidade a esta pesca”. E não só.
Quantas pessoas, de diversas origens, se deslocavam à Vila das Lajes para assistir à caçada”!
Não menos interessante a narrativa da caça ao pombo da rocha na qual tomou parte Ernesto Rebello que, referindo o companheiro Francisco e a irmã Maria, que o acompanharam, faz esta afirmação:
Agradeci-lhe muito a bela noite que me havia feito gozar e atrevi-me a oferecer à pequena Maria uma moeda de seis tostões”.
Desapareceram os pombos da costa mas, em suas substituição trouxeram para o pombo trocaz, culturas uma espécie prejudicial às culturas como se tem verificado ultimamente.
Mas, porque não caça ao coelho bravo que prolifera por esses campos, atravessa as estradas com grande desfaçatez e tudo destrói onde entra. E dizem os prejudicados agricultores e vinhateiros que basta um coelho para destroçar uma vinha. Eles por ai andam despreocupadamente nesses campos que vão-se tornando em autênticos matagais.
Há anos houve quem teve a infeliz ideia de trazer para cá os pardais, que acabaram por dar cabo, quase completamente, do antigo canário cujo canto, no campo em manhãs primaveris ou nas casa que os recolhiam, tudo alegravam com seu trinado.
Mas hoje refiro o torcaz, uma espécie que quase não existia e que, para regalo dos caçadores, para cá trazido livremente, sem qualquer protesto ou impedimento legislativo da entidade fiscalizadora, ao que nos consta.
A Ilha do Pico vai-se tornando uma verdadeira coitada onde amanhã somente poderão ocupa-la as aves selvagens, mas não todas, pois até o milhafre, que aqui se alimentava do rato, vai desaparecendo.
As cagarras, com a sua musica rofenta, em noites escuras, vai desaparecendo. O pombo da costa não existe. Mas teima-se em introduzir outras espécies prejudiciais às culturas para que não faltem boas peças aos praticantes da caça.
Vila das Lajes,
1 de Outº de 2008
Ermelindo Ávila

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

PROFESSOR DIAS DE MELO

A notícia chegou-me rápida. Não a esperava e por isso enorme foi a surpresa e a mágoa que senti, muito embora o soubesse bastante doente.
A última vez que falámos, ao telefone, já era difícil entender a sua fala. Depois soube que saía a passeio, curto embora, mas que deixara de escrever. Naturalmente, fiquei preocupado pois sabia que tal atitude era sinal de curta existência.
Morreu o escritor, professor José DIAS DE MELO, um homem que levou a sua vida a cultivar a literatura, a escrever prosa e verso e, sobretudo, a utilizar a baleação como tema apaixonado.
Como poucos escreveu muito sobre a saga baleeira. As três dezenas de livros que deixou isso confirma. O último, A MONTANHA COBRIA-SE DE NEGRO é, com certeza, o seu canto do cisne.
Ainda este verão esteve no Pico, para assistir ao Império da Trindade, na sua freguesia, a Calheta de Nesquim. Na freguesia de São Mateus, onde passava semanas, na sua adolescência e juventude, quando a Tia Professora ali leccionava, foi-lhe prestada uma homenagem – a mais bonita que lhe fizeram, no seu próprio dizer.
Quando cá vinha, não se esquecia de passar por esta casa que conhecia desde a juventude. Nem que fossem escassos minutos. “Vou todas as semanas à vila, às Lajes, encontrar-me com os amigos que lá tenho...”, Poeira do Caminho – Reminiscências do Passado, Vivências do Presente” -2004, p. 211. E não falhava.
Dias de Melo escreveu muito. Era a sua grande paixão. Acompanhava-o o gravador e o bloco de notas. Em casa, na Rua de São Gonçalo, ou no Alto da Rocha do Canto da Baía, uma pequena mesa lhe servia para a máquina de escrever e, mais recentemente, para o computador, a que se afeiçoara como bem poucos. Embora de idade octogenária, tinha um espírito lúcido, jovem mesmo, como bem poucos, que sabia analisar os acontecimentos com uma clarividência extraordinária.
Milhas Contadas foi um dos seus livros preferidos. Julgo que a história triste dele e da Esposa, que falecera muito nova. Depois veio Poeira do Caminho, onde ficaram registadas Reminiscências do passado e vivências do presente.
No Poeira do Caminho escreveu: “ Será Milhas Contadas o meu último livro? Não sei.
“De qualquer modo, sem o deixar da mão, comecei e trabalho neste novo livro de alguns dias, poucos, para cá. Caso o chegue a acabar, gostaria de conseguir um livro diferente, escrito com temas vários anteriormente pensados ou, e principalmente, que me surgissem na altura do próprio texto ou, mais importante, da vida vivida no dia-a-dia, ou por mim no meu o próprio passado, ou por outros, vivos ou mortos, no passado deles e a que eu próprio tenha assistido ou que por eles, ou por outros me tenham sido contados.
” (pág. 19).
E não foram os últimos livros. Como disse, há “A Montanha Cobria-se de Negro”, que somente foi distribuído no Pico e, creio que, no Faial. E talvez outros escritos... pois Dias de Melo não parava de escrever. Tinha esse vício, nobre vício!
José de Melo, como era conhecido na sua freguesia natal – a Calheta de Nesquim, deste Pico que ele tanto amava - não teve tempo para mais... Deixou, todavia, uma obra notável e rica de cultura e de saber. Alguns dos originais dos seus livros ofereceu-os a amigos...
Dias de Melo partiu. Tinha as “milhas contadas” . Mas deixou uma obra literária que muito tarde será igualada. Dedicou-a, principalmente, à baleação pois o mar era a sua grande paixão. Como diria o José Garcia Tavares, que Dias de Melo recorda em Poeira do Caminho (pág.123): “Depois de tudo o que tem escrito sobre nós, os homens do mar, em barco de que eu seja mestre, o senhor não compra nenhum peixe, diz o que precisa e leva-o . E não me fale em pagamentos que me ofende.”
É cedo ainda para lembrar a extraordinária, notável e volumosa obra do Escritor e Poeta, Professor José DIAS DE MELO. Como disse, cerca de trinta volumes. Uma autêntica “Biblioteca”.
E mais não posso escrever. Perdi um Amigo. Amigo que, quando na sua Cabana do Pai Tomás, no Alto da Rocha do Canto da Baía, me visitava semanalmente.
Aqui deixo, comovido e sentidamente, este singelo ramalhete de violetas, a José DIAS DE MELO, Amigo de muitos anos, nem eu sei quantos...
Vila Baleeira,
24 de Setembro de 2008
Ermelindo Ávila