sexta-feira, 7 de novembro de 2008

NO RESCALDO

NOTAS DO MEU CANTINHO

Terminaram as campanhas eleitorais para as eleições regionais. Os resultados foram frustrantes para algumas. Outros cantam vitória. O povo, esse ficou retido nas suas casas alheio à euforia dos políticos. Não será essa a leitura que se pode fazer dos 53 por cento de abstenções?
Todos os interessados em conseguir lugar no Parlamento, um emprego aliciante e que sabe bem aproveitar... fizeram promessas e mais promessas, distribuíram a rodos cartazes, objectos utilitários embora marcados pelas suas siglas, andaram de porta em porta com folhetos em que haviam impresso seus programas - promessas... E pouca diferença faziam uns dos outros. Mas alguns dos empreendimentos de que há muito se reclama, ficaram totalmente no esquecimento. Ignoramos a razão mas tudo leva a crer que houve o receio de levantar ondas, por razões que bem se compreendem. Podiam entrar em conflito parlamentar com os parceiros de outros círculos e isso todos quiseram evitar.
Todavia, não faltaram propósitos e afirmações para a solução de alguns empreendimentos que ,há muito, já têm solução satisfatória.
Um dos assuntos que não vimos devidamente tratado foi o Turismo na ilha do Pico. Esquecimento ou propósito?
Ainda agora estou escutando pela voz dum político nacional que o Turismo é a principal actividade económica da Ilha da Madeira. Há muito que o sabemos. E quem por lá passa depara-se, em toda a ilha, com luxuosos e avantajados estabelecimentos hoteleiros que não foram construídos para servir os nativos mas aqueles que, de todas as partes do Mundo e desde há longas décadas, ali chegam para momentos de lazer e de gozo paisagístico.
E as ilhas açorianas? Nada têm para oferecer ao Turismo? Não refiro S. Miguel porque é um caso à parte, muito embora, quando se refere qualquer invento naquela Ilha, se diz: “Nos Açores”.. . E à ilha...nada falta! Agora, vão-se “inventando” novas estruturas que às outras ilhas nada interessam, mas é Açores...
O Turismo nasceu em São Miguel, há muitos anos, por uma firma comercial e industrial, cujos proprietários, não sendo dali, há mais de um século ali se fixaram e na ilha têm desenvolvido a sua operosa actividade. E igualmente na Ilha do Faial.
No mês de Agosto de 1939 encontrava-me em Ponta Delgada. Passava as tardes no antigo café “Giesta”, situado ao lado da Matriz. Um pouco além, havia sido inaugurado, meses antes, o “Bureau” de Turismo, que estava a cargo do excelente amigo Silva Júnior. E como órgão, suponho, desse estabelecimento - posto de turismo, havia sido criado e circulava, ainda sob a direcção do distinto Dr. Agnelo Casimiro, o jornal “A Ilha”, onde tinha assento um grupo de distintos e intelectuais jovens micaelenses. Alguns eram bons amigos. Recordo-os com saudade, entre eles Victor Pedroso.
Um dia “A Ilha” , secundada pelos outros jornais micaelenses da época – Diário dos Açores, Correio dos Açores e Açoriano Oriental (ainda em primeira série), anunciaram a inauguração do Campo de Golfe das Furnas, para o que chegara dos Estados Unidos um milionário americano com o seu secretário. Uma “matança de porco” era o elemento atractivo. E, nessa véspera de domingo, a cidade despovoou-se para assistir à “matança” e à inauguração, pois na ilha ainda não havia praticantes daquele desporto.
O campo lá ficou para nacionais e estrangeiros e ainda hoje existe.
Na Ilha do Pico, há duas dezenas de anos, se não mais, constituiu-se uma sociedade para a construção de um campo de golfe. A Câmara Municipal cedeu o terreno. As obras iniciaram-se. Muita terra de quintais da vila foi transportada para o Mistério da Silveira para regularização do campo. Mas as obras ficaram em meio. Não sei se ainda existe a sociedade promotora. Sei que o campo não foi concluído e a ilha ficou privada de uma estrutura indispensável ao desenvolvimento do Turismo que, repito, é a indústria do futuro. O Pico faz parte dos Açores ou Região. Tem um potencial enorme que está desprezado e que muito poderá contribuir, quando devidamente aproveitado, para a implantação e desenvolvimento do Turismo. E não precisa de serem suspensos PDM...
Explicam que o Pico não tem força política para solucionar os seus problemas e que nunca caminhará com firmeza para o futuro porque será sempre um servidor submisso e calado...
Pois que assim seja. Mas, não se enganem os políticos. Tempos virão em que o castão da bengala se virará para o chão...
A abstenção venceu nas passadas eleições. Uma ou muitas razões houve para que isso acontecesse É isso que não se quer ver nem se analisa.
Vila das Lajes, 28-Outubro-2008
Ermelindo Ávila

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

AS ESTRADAS E OS CAMINHOS DO PICO

Há meio século a Ilha do Pico, como a das Flores e a de São Jorge, não possuíam uma rede de estradas que cobrissem a totalidade da Ilha . Andava-se por aí a cavalo ou a pé, pois a estrada nacional só cobria a parte norte, da Prainha do Norte à Vila das Lajes.
Em vésperas de eleições iniciavam-se os trabalhos, para a estrada Lajes-Piedade, ali, acima da Ladeira, mas, depois, ficava tudo como dantes.
Felizmente, que esses tempos já pertencem à História e as novas gerações nem sabem o que era vir ou ir a pé, da Piedade à Vila, por caminhos “de cabras” como diziam, subindo e descendo ladeiras íngremes e perigosas.
O circuito ficou completo há meio século e, depois, veio a rede de estradas no interior, para acesso e utilização das pastagens e baldios, obra executada pelos Serviços Florestais, então instalados nestas Ilhas.
Mesmo assim, não deixaram alguns de contestar as obras e impedir que os caminhos florestais passassem pelos seus terrenos, o que evitou a construção de alguns.
Todos os caminhos e estradas estão, na sua quase totalidade asfaltados, com excepção de alguns caminhos vicinais da responsabilidade do Município, privando-se as populações utentes de beneficiarem de direitos iguais aos seus conterrâneos.
Todavia, há situações pontuais que merecem aqui um reparo. A estrada Lajes - Piedade foi recentemente asfaltada, substituindo-se a calçada à portuguesa, que vinha do tempo da sua construção em 1940.
( E que difícil foi conseguir o calcetamento, pois o Empreiteiro não desejava fazê-lo, apesar de constar do respectivo projecto. “O Dever” alertou os poderes públicos mas, mesmo assim, foi preciso moverem-se influências para que o projecto fosse totalmente executado. Foram mais de vinte e um quilómetros de estrada. No tempo dizia-se que era a melhor estrada dos Açores. Mas, porque não houve a devida conservação, o seu fim chegou...)
Contudo não se refizeram as bermas, deixando-se que uma vegetação selvagem prejudique muitas vezes o trânsito dos peões e contribua para os perigos que o trânsito de veículos, que é bastante, muitas vezes provoca. Importa ter em atenção que a Ilha do Pico tem, actualmente, um parque automóvel de cerca de dez mil (!) veículos.
Além disso, a sinalização não é a mais adequada. E os locais de interesse turístico não estão devidamente indicados, como se verifica em outras zonas, mesmo na Ilha.
No início, ao longo da estrada foram plantados pinheiros e outro arvoredo mas deixou-se de atender às podas indispensáveis, constituindo hoje bardos densos que, algumas vezes, impedem a visibilidade das curvas e tapam os panoramas maravilhosos que mereciam ser assinalados para melhor serem apreciados, principalmente pelos visitantes.
No “antigamente” que, parece, todos hoje condenam, as estradas estavam divididas em secções e estas em cantões, entregues, respectivamente, a chefes de conservação e cantoneiros. Anualmente, uma entidade particular – julgo que o Automóvel Clube de Portugal, não sei se ainda existe esta organização – distribuía prémios aos cantoneiros que trouxessem os respectivos cantões, melhor cuidados e floridos.
Se esses servidores do Estado (neste caso Região) existem, desconheço pois, antes, o pessoal cantoneiro envergava farda fornecida pelo Estado. Actualmente, só usam farda, em serviço, os guardas policiais e a guarda republicana... Cantoneiros, não os vejo quando passo nas estradas do Pico. Existirão? E, como disse, que bons serviços prestavam esses modestos trabalhadores, aos utentes das estradas e caminhos!
Tudo isto já escrevi anteriormente. O stato quo mantêm-se. As queixas do Zé continuam. Não há remédio senão voltar a registá-las neste “cantinho” até que Alguém se canse de as escutar e algo faça por esta Terra.
Vila das Lajes,
22 de Outubro de 2008
Ermelindo Ávila

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

O MUNDO EM CRISE

São assustadores os momentos que vivemos. A crise financeira que, ao que se julga, principiou nos Estados Unidos, atingiu a Europa, e está a produzir os efeitos mais nefastos. Até aqueles que haviam amealhado grandes fortunas, dum momento para o outro, perderam milhões. Eles, porém e como vulgarmente se diz, não ficam “descalços”. No entanto a crise não deixa de reflectir-se, sobretudo, nos mais pobres e necessitados. E é ver o que se está a passar... Os créditos foram congelados (dizem que é por poucos dias...) os géneros sobem, os combustíveis, e a electricidade igualmente.
Para aqueles que têm compromissos a solver, a vida tornou-se um pesadelo.
As empresas construtoras vêem diminuir os empreendimentos públicos pela recessão dos orçamentos do Estado, da Região e das Autarquias. Daí surge, naturalmente, o desemprego dos trabalhadores da construção civil e não só. E o pior ainda, é que não encontram novas colocações.
Afinal tudo caminha para uma crise sem solução aparente, que teve início na Banca e se propaga vertiginosamente, para o Comércio e Indústria, para os empreendimentos públicos e para as próprias pessoas. E que vai ser de certas famílias, sem as habitações, sem os empregos , sem garantias de trabalho certo?!
Infelizmente, não é nova a crise, embora se apresente com contornos diferentes. Ciclicamente, elas acontecem. E as suas consequências são sempre as mais devastadoras.
Em 1930 uma crise financeira atingiu diversos estabelecimentos bancários dos Açores (para só a estas ilhas me reportar) e as falências sucederam-se, levando atrás de si outras actividades e economias familiares. Quem disso se não recorda? Houve quem viesse, anos decorridos, tomar a posição desses bancos e caixas mas os depositantes só receberam uma parte dos seus depósitos, ( 75% ?) depois de estarem anos vários sem receber quaisquer rendimentos ou juros. Famílias houve que ficaram seriamente atingidas pela crise e sem a totalidade dos seus depósitos, que eram fruto das suas economias domésticas, conseguidas à custa de muito trabalho e de grandes sacrifícios. Até emigrantes retornados ficaram quase na pobreza porque perderam uma boa parte das suas economias. Salvaram-se aqueles que, ao chegar, empregaram o seu dinheiro na aquisição de propriedades imobiliárias: pastagens e terrenos de semeadura. Outros tiveram de regressar às terras de origem para refazerem o seu património, e alguns por cá ficaram quase na miséria.
O falecido escritor picoense, Dias de Melo, no seu belo romance Pedras Negras, dá-nos, com grande realismo, uma panorâmica, do que foi a crise após a guerra 1914-1918. É a falência do Banco Nossa Senhora da Vida e a decadência de Francisco Marroco, o “Senhor Americano”, ao qual “tudo se desfez e perdeu: a alegria, a fortuna, o sonho, a vida que sonhara para os filhos”. E quantos Franciscos Marrocos não houve por essas ilhas?! Este capítulo de Pedras Negras é bastante realista e doloroso... Irá repetir-se?
Verdade é que os bancos desapareçam quase totalmente. Outros vieram mais tarde tomar-lhes a posição e desenvolver o negócio. É ver os que estão fixados por todos os “cantos” destas ilhas. Mas não são já pertença dos açorianos... Em trinta anos fizeram-se fortunas extraordinárias e talvez escandalosas. A esses milionários do século chegará a crise? Creio que a maior crise se vai reflectir naqueles que, iludidos com as facilidades de crédito - empréstimos a médio e longo prazo com baixos juros – vão sentir o “aperto”. E é pena. Foram esses que contribuíram para o desenvolvimento económico da Região, movimentando os fundos bancários, construindo novas habitações, criando novas empresas comerciais e industriais, reorganizando a economia com bases que pareciam sólidas, e proporcionando à Banca negócios avantajados que lhes permitiu alargar o crédito a novos empreendimentos e auferir proventos avantajados.
Não sou nem financeiro nem economista. Todavia a minha experiência de longos anos ensina-me que o momento actual pode ser uma repetição do que aconteceu na década de trinta do Século passado, cerca de oitenta anos decorridos. E como a experiência nos ensina que a história repete-se, julgo que a geração actual tem à sua frente um gravíssimo problema que só será resolvido com muito critério e sacrifícios de não poucos. E estes, normalmente, reflectem-se, como sempre, mais intensamente, nas classes remediadas e pobres.
Que me engane eu!
Vila das Lajes.
14 de Outubro de 08
Ermelindo Ávila

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

UMA LOTA ORIGINAL!...

Num dos meses do Verão foram inauguradas as obras realizadas no porto interior (lagoa) da vila das Lajes e, conjuntamente, a muralha (parte) de defesa a cortina da Vila. Aplaudimos os trabalhos realizados mas nunca deixamos de referir que tais obras, principalmente a muralha, ficavam incompletas, pois é indispensável dar-lhe continuidade para Sul, até ao Calhau Grosso, ao menos, para que a Vila fique resguardada dos temporais de Sul, Sudoeste e Oeste, bastante frequentes.
Não se completou o troço de muralha entre o muro do Caneiro e a muralha de defesa ora construída, dizem que por falta de projecto que, entretanto, estava a ser elaborado...
O porto interior ou lagoa, não foi aquilo que estava inicialmente projectado: amarrações para setenta embarcações que ficaram reduzidas a cinquenta. Mas nem assim, pois a prancha central foi modificada, retirando-se-lhe as guardas transversais afim de serem amarrados os barcos de vigia de baleias, e neles puderem embarcar os visitantes...
Nem o fundo do agora porto interior, nem mesmo o do porto exterior agora “criado”, foram devidamente regularizados, obrigando as embarcações a desvios na entrada, que não deixa por isso de ser perigosa.
Já aqui deixámos o nosso agrado pelas obras realizadas, mas antes de se conhecerem algumas das mazelas que posteriormente
vieram a ser detectadas. Todavia, porque logo vieram ao conhecimento público, não posso nem devo deixar de aqui registar o meu reparo.
Não há sinais de se vir a construir definitivamente o troço de muralha que a Empresa Empreiteira lançou para a circulação dos seus veículos, durante as obras, e que lá se encontra ainda embora obstruído a evitar que os veículos e as pessoas atinjam o molhe exterior.
No início do muro de acesso ao cais, antigo caneiro, foi construída, pela Câmara Municipal, há cerca de trinta anos uma casa
para Lota, que sempre funcionou a contento quer dos pescadores quer dos compradores pois reunia as condições de higiene e laboração. E até no Inverno era utilizado pelos pescadores e outros parceiros, para as tardes de lazer...
Com as obras do chamado “porto de recreio”, ou “marina”, como alguns dizem, houve que destruir o edifício da Lota. Os respectivos serviços e pessoal foram transferidos ou incorporados nos serviços da Madalena, onde é já prática corrente concentrar tudo o que existia nesta Vila, naturalmente para lhe dar maior grandeza...
A vila das Lajes foi privada do serviço de lota ou, melhor dizendo, da possibilidade de adquirir peixe no seu porto, onde ainda existem mais de duas dezenas de embarcações de pesca local.
E a propósito: ainda me recordo das grandes pescarias de chicharro que se faziam no “limpo”, zona da baía das Lajes onde aquela espécie se concentrava em grandes cardumes. Esse pescado era tratado no areal que existia na Lagoa antes da construção da nova muralha (1936). Depois de tratado era vendido ou seco para a troca de géneros ou uso no Inverno. Outros tempos, dirão...
Agora o pescado é concentrado na actual Lota (a de Santa Cruz das Ribeiras também deixou de existir ?) e, depois de cumpridas as formalidades legais, posto à disposição dos vendilhões que, geralmente, se desembaraçam do pescado antes de chegarem às Lajes.
E neste vai-e-vem o peixe que resta, percorreu 70 quilómetros”!...
Além dos lajenses serem privados de ter peixe fresco, como estavam habituados desde que a ilha é povoada de gente. Ficam sujeitos a adquirir peixe congelado, que não é nem será nunca da qualidade do fresco.
Está anunciada, para 13 do corrente mês, a inauguração da nova peixaria na Vila das Lajes: um contentor, pintado de fresco, instalado ao lado do edifício da escola do primeiro ciclo, para funcionar das 7,30H às 11,30H de cada dia, naturalmente com o pescado da véspera ou congelado. Não será?
Não deixa de ser um tanto frustrante a situação. Ou serei apenas o único que neste imbróglio não tem razão?
Julgo que a Vila das Lajes merecia melhor tratamento, pelo seu passado histórico, pelos seus honestos e dignos pescadores que ainda os há e de excelente qualidade profissional e pelas suas gentes em geral, nada inferiores aos seus vizinhos.
Isto, entenda-se, sem deixar de realçar as obras realizadas no porto.
Custa escrever crónicas deste teor mas também é difícil suportar tanto atropelo aos direitos e à dignidade pessoal e profissional dum povo digno e laborioso como é e sempre foi o da MINHA TERRA.
É por esse meu povo, porque a ele pertenço, e só pela defesa dos seus direitos legítimos, que ainda aqui estou.
Vila das Lajes,
11 de Outubro de 2008
Ermelindo Ávila

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

FÉ E SENTIDO

Nos recenseamentos da população, ordinariamente realizados de dez em dez anos, os inquiridos tinham de responder (ainda terão?) qual a religião que professavam. A grande maioria dos portugueses declarava ser católica, embora alguns esclarecessem que não eram praticantes.
Raros eram os casamentos civis, e a ninguém era proibido fazê-los. Quase todos os jovens optavam pelo casamento católico. Além do mais, uma tradição de longos séculos e que ninguém contestava, embora tivesse liberdade para o fazer.
Todavia, mais de um século decorrido, algo era bem diferente. Quem examinava os roteiro paroquiais raramente encontrava um freguês que não tivesse cumprido os preceitos da Igreja Católica. E podemos mesmo acrescentar que, v.g., no ano de 1878 – há precisamente cento e trinta anos, a população da freguesia da Santíssima Trindade, Ilha do Pico, era constituída por 1141 indivíduos do sexo masculino, 1575 do sexo feminino e 541 eram de idades inferiores a sete anos. No total, 3257 indivíduos. Curioso referir que, nesse ano, estavam ausentes ou emigrados, vinte e sete maridos.
Todos os que estavam na idade canónica de cumprirem os preceitos pascais o haviam feito sem qualquer excepção.
Este pequeno preâmbulo vem a propósito do livro “Entre o Culto e o Sentido – Fé professada, calculada e vivida em meio urbano” que o Professor da Universidade dos Açores, Doutor Octávio H. Ribeiro de Medeiros acaba de publicar.
Na “Introdução” escreve o Autor: “Em Portugal a percentagem de católicos é agora de 89,9% - 9,4 milhões de pessoas. Contudo, segundo o Recenseamento da Prática Dominical de 2001, o numero total de praticantes não chegou aos 2 milhões de fiéis.”
Para esta descida preocupante de praticantes da Religião Católica, o Autor apresentou diversas causas e recorda as palavras de ordem segundo o Papa: ”É precioso mudar o estilo de organização da comunidade clerical portuguesa e a mentalidade dos seus membros para se ter uma Igreja ao ritmo do Concílio Vaticano II, na qual esteja bem estabelecida a função do clero e do laicado, tendo em conta que todos somos um, desde quando fomos baptizados e integrados na família dos filhos de Deus, e todos somos corresponsáveis pelo crescimento da Igreja."
Na realidade, há um desinteresse, uma apatia da parte da família católica que está a concorrer para a desintegração da própria Igreja local.
Fazem-se as festas tradicionais com alguma concorrência mas mais presente nos actos externos...
“Legalizam-se” situações aberrantes dos indivíduos, com reflexos naqueles que se confessam (confessavam) católicos. E julga-se natural certas práticas que antes eram atentatórias da dignidade humana.
Fé e Sentido”, com 266 páginas de texto, é um trabalho exaustivo de estudo e análise da época sócio-religiosa em que vivemos; trabalho bastante documentado com gráficos e dados estatísticos, que termina com esta afirmação do douto Mestre da “Sociologia Católica Açoriana”: “Na sociedade actual, a valorização do hic et nunc, vai dominando cada vez mais a vida fazendo com que a vivência do homem moderno tarda a circunscrever-se em coordenadas humano-temporais, dando origem a uma forma diferente de ser homem, empenhado em outras buscas e entregue a outras esperanças, de preferência intra-mundanas.”
A hora que se vive é de autêntica tribulação. Não se assume a responsabilidade da prática de determinados actos e vive-se num labirinto de incertezas e contrariedades, de consequências bastante funestas.
O Mundo, o mundo que nos fica ao pé da porta, abandonou os seus dogmas essenciais e entregou-se ao desvario, à apatia dos seus próprios valores.
Um materialismo bárbaro transformou-se em pseudo doutrina privilegiada, mas pertinente.
Quando voltará o homem a ocupar o seu lugar numa sociedade honesta, disciplinada, respeitadora dos valores sagrados, que transforme a iniquidade em valores humanos, dignos e capazes de promoverem uma vida de respeitabilidade, seriedade, responsabilidade e amor?
Vila das Lajes,
11 de Outº de 2008
Ermelindo Ávila

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

BOTOS E POMBAS

O Escritor faialense, Ernesto Rebello, nas “Notas Faialenses”, publicadas no “Arquivo dos Açores”(1886) dedica o capitulo XIX do seu notável trabalho, à caça dos “Botos e Pombas”,na Vila das Lajes. E para cá chegar, ao cair da noite, da Madalena às Lajes, levou nada menos de “nove horas de jornada”.
Na alegre perspectiva daquela povoação, maxime para quem vem fatigado e batido de chuvas e ventanias, acrescendo ainda que nessa ocasião estávamos no fim do inverno, que os dias bons eram ainda raros e que uma nortada aguda nos fazia assoprar nos dedos e embrulhar aconchegadamente nuns cobertores de lã, que nos haviam emprestado pelo caminho.
Os nossos companheiros de jornada eram um rapaz da vila, que tinha ido ao Faial, donde regressava, por causa do recrutamento, um homem da Madalena, que tinha a seu cargo os dois péssimos burros que montávamos e um cão rafeiro, de raça ordinaríssima, que durante todo o caminho matara, na serra, dois coelhos, dos quais o arrieiro logo se apoderara, e pela estrada vários ratos de enormes proporções.”
E não continuo a transcrição, para aqui dizer o que Ernesto Rebello nos narra da caça aos botos e pombos.
Botos são o que a moderna Ecologia chama Golfinhos e que era caçados para deles extrair o óleo ou azeite que alimentava as candeias...A sua carne não era utilizada, ao contrário da toninha cuja carne era uma das peças basilares da alimentação dos picoenses. Mas deixemos essas histórias que causam engolios aos actuais ecologistas...
No entanto, só esta afirmação de E.R.:”Os lajenses dão certa solenidade a esta pesca”. E não só.
Quantas pessoas, de diversas origens, se deslocavam à Vila das Lajes para assistir à caçada”!
Não menos interessante a narrativa da caça ao pombo da rocha na qual tomou parte Ernesto Rebello que, referindo o companheiro Francisco e a irmã Maria, que o acompanharam, faz esta afirmação:
Agradeci-lhe muito a bela noite que me havia feito gozar e atrevi-me a oferecer à pequena Maria uma moeda de seis tostões”.
Desapareceram os pombos da costa mas, em suas substituição trouxeram para o pombo trocaz, culturas uma espécie prejudicial às culturas como se tem verificado ultimamente.
Mas, porque não caça ao coelho bravo que prolifera por esses campos, atravessa as estradas com grande desfaçatez e tudo destrói onde entra. E dizem os prejudicados agricultores e vinhateiros que basta um coelho para destroçar uma vinha. Eles por ai andam despreocupadamente nesses campos que vão-se tornando em autênticos matagais.
Há anos houve quem teve a infeliz ideia de trazer para cá os pardais, que acabaram por dar cabo, quase completamente, do antigo canário cujo canto, no campo em manhãs primaveris ou nas casa que os recolhiam, tudo alegravam com seu trinado.
Mas hoje refiro o torcaz, uma espécie que quase não existia e que, para regalo dos caçadores, para cá trazido livremente, sem qualquer protesto ou impedimento legislativo da entidade fiscalizadora, ao que nos consta.
A Ilha do Pico vai-se tornando uma verdadeira coitada onde amanhã somente poderão ocupa-la as aves selvagens, mas não todas, pois até o milhafre, que aqui se alimentava do rato, vai desaparecendo.
As cagarras, com a sua musica rofenta, em noites escuras, vai desaparecendo. O pombo da costa não existe. Mas teima-se em introduzir outras espécies prejudiciais às culturas para que não faltem boas peças aos praticantes da caça.
Vila das Lajes,
1 de Outº de 2008
Ermelindo Ávila

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

PROFESSOR DIAS DE MELO

A notícia chegou-me rápida. Não a esperava e por isso enorme foi a surpresa e a mágoa que senti, muito embora o soubesse bastante doente.
A última vez que falámos, ao telefone, já era difícil entender a sua fala. Depois soube que saía a passeio, curto embora, mas que deixara de escrever. Naturalmente, fiquei preocupado pois sabia que tal atitude era sinal de curta existência.
Morreu o escritor, professor José DIAS DE MELO, um homem que levou a sua vida a cultivar a literatura, a escrever prosa e verso e, sobretudo, a utilizar a baleação como tema apaixonado.
Como poucos escreveu muito sobre a saga baleeira. As três dezenas de livros que deixou isso confirma. O último, A MONTANHA COBRIA-SE DE NEGRO é, com certeza, o seu canto do cisne.
Ainda este verão esteve no Pico, para assistir ao Império da Trindade, na sua freguesia, a Calheta de Nesquim. Na freguesia de São Mateus, onde passava semanas, na sua adolescência e juventude, quando a Tia Professora ali leccionava, foi-lhe prestada uma homenagem – a mais bonita que lhe fizeram, no seu próprio dizer.
Quando cá vinha, não se esquecia de passar por esta casa que conhecia desde a juventude. Nem que fossem escassos minutos. “Vou todas as semanas à vila, às Lajes, encontrar-me com os amigos que lá tenho...”, Poeira do Caminho – Reminiscências do Passado, Vivências do Presente” -2004, p. 211. E não falhava.
Dias de Melo escreveu muito. Era a sua grande paixão. Acompanhava-o o gravador e o bloco de notas. Em casa, na Rua de São Gonçalo, ou no Alto da Rocha do Canto da Baía, uma pequena mesa lhe servia para a máquina de escrever e, mais recentemente, para o computador, a que se afeiçoara como bem poucos. Embora de idade octogenária, tinha um espírito lúcido, jovem mesmo, como bem poucos, que sabia analisar os acontecimentos com uma clarividência extraordinária.
Milhas Contadas foi um dos seus livros preferidos. Julgo que a história triste dele e da Esposa, que falecera muito nova. Depois veio Poeira do Caminho, onde ficaram registadas Reminiscências do passado e vivências do presente.
No Poeira do Caminho escreveu: “ Será Milhas Contadas o meu último livro? Não sei.
“De qualquer modo, sem o deixar da mão, comecei e trabalho neste novo livro de alguns dias, poucos, para cá. Caso o chegue a acabar, gostaria de conseguir um livro diferente, escrito com temas vários anteriormente pensados ou, e principalmente, que me surgissem na altura do próprio texto ou, mais importante, da vida vivida no dia-a-dia, ou por mim no meu o próprio passado, ou por outros, vivos ou mortos, no passado deles e a que eu próprio tenha assistido ou que por eles, ou por outros me tenham sido contados.
” (pág. 19).
E não foram os últimos livros. Como disse, há “A Montanha Cobria-se de Negro”, que somente foi distribuído no Pico e, creio que, no Faial. E talvez outros escritos... pois Dias de Melo não parava de escrever. Tinha esse vício, nobre vício!
José de Melo, como era conhecido na sua freguesia natal – a Calheta de Nesquim, deste Pico que ele tanto amava - não teve tempo para mais... Deixou, todavia, uma obra notável e rica de cultura e de saber. Alguns dos originais dos seus livros ofereceu-os a amigos...
Dias de Melo partiu. Tinha as “milhas contadas” . Mas deixou uma obra literária que muito tarde será igualada. Dedicou-a, principalmente, à baleação pois o mar era a sua grande paixão. Como diria o José Garcia Tavares, que Dias de Melo recorda em Poeira do Caminho (pág.123): “Depois de tudo o que tem escrito sobre nós, os homens do mar, em barco de que eu seja mestre, o senhor não compra nenhum peixe, diz o que precisa e leva-o . E não me fale em pagamentos que me ofende.”
É cedo ainda para lembrar a extraordinária, notável e volumosa obra do Escritor e Poeta, Professor José DIAS DE MELO. Como disse, cerca de trinta volumes. Uma autêntica “Biblioteca”.
E mais não posso escrever. Perdi um Amigo. Amigo que, quando na sua Cabana do Pai Tomás, no Alto da Rocha do Canto da Baía, me visitava semanalmente.
Aqui deixo, comovido e sentidamente, este singelo ramalhete de violetas, a José DIAS DE MELO, Amigo de muitos anos, nem eu sei quantos...
Vila Baleeira,
24 de Setembro de 2008
Ermelindo Ávila

sábado, 13 de setembro de 2008

PARA QUANDO O HOTEL DA VILA DAS LAJES?


Terminaram as Festas da Semana dos Baleeiros e é tempo de se fazer um balanço, desapaixonado mas objectivo, da maneira como decorreram e das deficiências que se notaram.
Há muito deixei de ser repórter. Um trabalho mais próprio da Redacção de qualquer periódico. Mesmo assim não me escuso a fazer um comentário, entre os mais que seriam devidos, e que julgo de oportunidade.
Conversando, muito cordialmente, durante os dias festivos, com um dos intervenientes convidados, disse-me ele que tinha de sair porque o hotel ficava distante. E em jeito de surpresa: Vocês aqui não têm um hotel. Respondi-lhe que tínhamos um mas que devia estar todo ocupado. Referia-me, naturalmente à Aldeia da Fonte, na Silveira.
E o comentário por aqui ficou. Não deixei, porém, de nele pensar com certa amargura. De facto, dentro da Vila das Lajes não existe um hotel, embora possua boas Residenciais e algumas dezenas de camas disponíveis. Têm os seus clientes e são indispensáveis, como é natural. Todavia, isso não basta, pois o turista estrangeiro não conhece a palavra residencial ou pensão. Para ele o significado é diferente.
É urgente a construção de um hotel "dentre muros” do velho burgo. Mais do que qualquer outra construção, mesmo que seja considerada de utilidade pública.
E vou repetir o que já, uma ou mais vezes, aqui escrevi. Não importa o número de “estrelas”. Impõe-se que seja hotel e como tal classificado. É isso que procura o visitante exigente. É um estabelecimento dessa categoria, que existe em todas ou quase todas as vilas açorianas. E o Município não pode nem deve estar ausente dessa iniciativa. Tal como o vêm fazendo as instituições congéneres da Região. E até da Ilha do Pico.
Um hotel, repito, é um factor de desenvolvimento e de atracção turística para qualquer terra que deseja desenvolver-se e promover a sua economia. E a Vila das Lajes dele tanto carece! São os empregos que se criam. São os transportes que se desenvolvem. São os produtos da terra que se comercializam. São uma série de factores que se desenvolvem com a estadia de visitantes em condições de bem-estar e de conforto.
Um apelo muito sério deixo, nestas rápidas linhas, à Câmara Municipal. Sei que está a chegar ao último ano do seu actual mandato mas ainda está a tempo de programar a construção de um hotel, aqui perto. Ou na antiga casa da Maricas do Tomé ou no espaço vazio que foi o “jardim do João Manuel” ao lado do edifício dos CTT. Ficaria na parte central da avoenga vila e contribuiria, além do mais, para dar um aspecto renovado e “civilizado” àquele abandonado local.
E porque não constituir uma empresa municipal, -mais uma, dirão, mas isso que importa? – para a realização de tão necessária estrutura sócio - económica!
Aqui fica o apelo. Haja quem se digne escutá-lo e dar-lhe a devida e concreta realização e os lajenses regozijar-se-ão e saberão aplaudir .
Vila das Lajes,
Setº 2008
Ermelindo Ávila

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

SEMANA DE CULTURA

Enquanto estas linhas escrevo, decorre a já tradicional “Semana dos Baleeiros”. Uma semana não apenas de arte e desporto mas igualmente de cultura.
Nos respectivos programas, organizados nestes decorridos vinte e cinco anos, houve relevantes eventos culturais: Conferências, lançamentos de livros, concertos e outras manifestações artísticas. E nunca faltou uma assistência, diria selecta, para abrilhantar com a sua presença, acontecimentos de notória e plausível cultura.
Este ano o programa não fugiu à já tradicional manifestação artística. As conferências tomaram, um cariz diferente. Foram, essencialmente, de temática religiosa e proferidas por eruditos mestres.
A primeira pertenceu ao Maestro Manuel Emílio Porto. Tratou de um tema do qual, se bem creio, é um verdadeiro Mestre nas ilhas açorianas: Música Mariana. O distinto Maestro fez o historial bastante pormenorizado da música sacra especialmente de temática mariana, revelando uma erudição pouco vulgar para o meio ilhéu . Teve a escutá-lo, na Igreja Matriz, uma assistência atenta e numerosa.
O Dr. Padre Adriano Borges, que pronunciou a sua conferência no dia 27,. tomou a seu cargo o aliciante tema: Maria na História da Igreja.
O Conferencista começou a sua brilhante fala por afirmar:”A evolução do culto mariano iniciou-se e foi-se desenvolvendo, pelo menos nos primeiros séculos, sempre ligada aos mistérios cristológicos. Ou seja, à medida que a teologia sempre auxiliada pela filosofia, ia aprofundando a Cristologia, necessariamente foi-se também meditando na figura da Mãe de Jesus.”
E em conclusão, disse: “A Igreja acredita e defende quatro verdades de fé sobre Maria: a) Imaculada Conceição; b) Virgindade perpétua; c) Maternidade divina; e, d) Assunção em Corpo e alma ao Céu.”
O terceiro conferencista foi o consagrado orador, Doutor Cunha de Oliveira, que, no dia 28, tratou, com a sua conhecida erudição, da Actualidade da devoção a Nossa Senhora de Lourdes. Como anunciou no início da sua brilhante lição, constou esta essencialmente de duas partes. Na primeira tratou de “Interpretar os sinais dos tempos”; e, na segunda. do “fenómeno místico de Lourdes”
A finalizar disse o Doutor Cunha de Oliveira, citando o Prelado Diocesano, D. António de Sousa Braga:
“Nós cristãos deveríamos estar mentalizados e preparados para as mudanças necessárias da sociedade em que vivemos e também na Igreja a que pertencemos (...) Qual fermento que leveda a massa, a vida cristã é uma caminhada permanente de conversão e, portanto, de mudança (o sublinhado é meu), também na forma histórica de presença no mundo”.
Para quantos tiveram a disponibilidade e o prazer de assistir a estas conferências, viveram decerto momentos agradáveis de saber, recordando naturalmente outros anos em que por aqui passaram, nestas decorridas vinte e cinco “Semanas dos Baleeiros”, professores universitários e homens de cultura, que não se escusaram nunca a abrilhantar com suas falas eruditas e eloquentes, as solenidades de Nossa Senhora de Lourdes. E recordo somente um, já falecido, o Doutor José de Almeida Pavão, que foi professor da Universidade dos Açores. Mas tantos mais.
Um outro aspecto das “Semanas dos Baleeiros” é o lançamento de livros de autores picoenses. Não posso referir quantos já foram “oferecidos” ao público mas mais de duas dezenas. Este ano o mesmo aconteceu.
Para assinalar as “Bodas de Prata” do GRUPO CORAL DAS LAJES DO PICO, o seu erudito Maestro e Director, Comendador Manuel Emílio Porto, na sessão comemorativa do evento, realizada no salão de festas da Filarmónica Liberdade Lajense, apresentou “25 Anos a Cantar – Grupo Coral das Lajes do Pico”. ”Um livro para salientar o investimento humano – a disponibilidade, o interesse e a generosidade – fundamentos que mantiveram e consolidaram o percurso, todo feito de prazer, recreio e cultura”, como escreve o seu autor no “Intróito”, ou palavras de abertura. E, depois: “Durante estes 25 anos todos fizeram o grupo. É fundamental que assim continue”.
O livro, de 126 páginas, escrito numa linguagem simples mas vernácula, profusamente ilustrada com fotos recordativas das muitas digressões do Grupo Coral, pelas ilhas, pelo continente, por Espanha e pelo Canadá, foi distribuído, simpaticamente, à quase totalidade da numerosa assistência presente ao concerto comemorativo.
Um outro livro, da autoria da Poetisa e escritora Cisaltina Martins, uma conterrânea que, acidentalmente, nascida na Ribeira do Cabo, Faial, se considera autêntica picoense, mais propriamente sanjoanense, com o sugestivo título “RAIZ DE PEDRA”- foi apresentado durante a Semana, no Centro de Artes e de Ciências do Mar, antiga Fábrica da SIBIL pelo professor Ruben Rodrigues, numa poética fala, intercalada de recitações de poemas do próprio livro. Foi bastante aplaudido.
Livro de Poemas, nele a Poetisa reuniu quarenta e cinco, trabalhos, nos capítulos: raízes de pedra, estados d’alma, raiz de mim, tributos, quadras soltas e outras cantigas.
Com muito sentimento deixo aqui o poema que a Autora dedica à sua falecida irmã a Dra. Fátima Martins, “Como homenagem póstuma, na entrega das Insígnias da Ordem do Infante, em Boston – Junho de 2007:
CAMINHOS DE IMIGRAÇÃO –“As pedras deste chão não são minhas,/outros aqui as puseram p’ra meus passos/ninguém sabe quem foi, homem? Mulher?/ mas sei que foi suor e foi cansaço.
“Não quero mais perder este sentir,/ respeito pela coragem que tiveram/ um Mundo Novo, todo só p’ra mim/ o Mundo que vos deixo e que me deram.
“Tomai-o em vossas mãos devagarinho,/ que é feito de sonho e de cuidados./ Quem saberá dizer se estes caminhos/ são os mesmos d’outros povos imigrados?/
“E se um dia tiverdes de partir/ da terra mais chegada ao coração,/ não tenhais nunca medo de sorrir/ que o sorriso é forma de Oração!”
Culturalmente assim decorreu a “Semana de Nª Senhora de Lourdes” ou “Semana dos Baleeiros”, comemorativa dos 150 anos das Aparições e dos 125 anos do Culto na Matriz das Lajes do Pico.
Vila das Lajes,
Semana dos Baleeiros de 2008
Ermelindo Ávila.

domingo, 31 de agosto de 2008

A VIRGEM DE MASSABIELLE

O Pico, a Ilha dos Marinheiros está em festa. Comemora aquele dia distante em que os baleeiros lajenses, depois de um dia de trabalhos e de lutas com o monstro marinho, se fizerem ao porto e nele se viram impedidos de entrar, como tantas vezes aconteceu, porque vagas alterosas tapavam a entrada. E foi nessa ocasião que a Virgem, vinte e cinco anos antes aparecida a Bernardete na Gruta de Massabielle, invocada insistentemente, em altos brados, pelas gentes da vila das Lajes, que circundavam o porto, amainou as ondas e os botes entraram sãos e salvos na Lagoa. Cento e vinte e cinco anos são decorridos. Os lajenses não mais esqueceram o “milagre” e, a partir desse dia redobrou a devoção e a confiança na Senhora de Lourdes, hoje considerada a Padroeira das Lajes e não só. Todo os picoenses confiam na protecção daquela Senhora, que “os tem salvado mil vezes”. Só não se compreende por que não Lhe haja sido outorgado esse justo título oficial.
Há cento e cinquenta anos a França vivia tempos de verdadeiro paganismo. O dia 11 de Fevereiro de 1858 – quarta-feira gorda – era o dia em que inaugurava “os regozijos profanos que antecedem as austeridades quaresmais”.
A Igreja católica, por seu lado, promovia actos de desagravo, seguidos pelos católicos que restavam da devassa da Revolução.
Em Lourdes, cidade dos Pirinéus, vivia com a sua pobreza, a família dos Soubirous. Todavia, com muito trabalho, procurava suprir, embora deficientemente, as carências domésticas. E escreve Henrique Lasserra: “...não tinha sequer um pouco de lenha para fazer o seu magro jantar”.
Coube à filha mais velha ir junto das margens do rio Gave apanhar lenha para fazer o jantar desse dia. E foi então, quando juntava os gravetos para fazer o seu feixe, juntamente com uma irmã e uma vizinha, que, junto de uma pequena gruta cavada na rocha que ficava na margem do rio, lhe apareceu “uma mulher de incomparável esplendor”.
“O vestuário, de um pano desconhecido (que trazia) e tecido sem dúvida na misteriosa fábrica, que veste o lírio dos vales, era branco como a pura neve das montanhas e de mais magnificência, na sua simplicidade, do que o trajo de Salomão na sua glória.
“O manto comprido chegava ao chão, com castas dobras, deixava aparecer os pés que pousavam no rochedo e pisavam levemente os ramos da roseira brava. Sobre cada um dos seus pés de virginal nudez desabrochava a Rosa mística , cor de ouro.
“Adiante um cinto azul celeste ligando-lhe a cintura, caía em duas pontas compridas, que chegavam quase aos pés. “ (Henr. Lasserre)
Em tempos recuados (não muitos...) as jovens picoenses tinham por norma cumprir “promessas” vestindo-se à Lourdes, como diziam: Uma túnica ou vestido branco preso na cintura com uma faixa ou fita azul cujas pontas desciam até à beira do vestido. Não deixava de ser elegante e de trajar bem a devota, que assim se apresentava, diariamente, quer em serviços, quer em actos religiosos ou cívicos. Um contraste com as actuais indumentárias, onde uma parte sensível do corpo não merece ser recolhida...
No mesmo sentido, as mais adultas, casadas ou viúvas, cumpriam promessas trajando à Carmo, ou seja vestido de cor castanha, com escapulário e cinto de coiro com pala. Em Angra, as senhoras usavam os vestidos encimados por um colarinho branco à volta do pescoço. E muitas trajavam assim durante toda a vida.
Hoje seria uma velharia ridícula para algumas...
Foi a primeira aparição d’Aquela que, no último dia das Aparições, havia de revelar o Seu Nome: EU SOU A IMACULADA CONCEIÇÃO!
Confirmava-se assim o dogma proclamado pelo Papa Pio IX, em
8 de Dezembro de 1654, pela bula INEFFABILIS DEUS e que a Igreja Universal celebrou festivamente, muito embora em Portugal já o rei D. João IV houvesse proclamado, de Vila Viçosa, em 25 de Março de 1646, a Imaculada Conceição - Padroeira de Portugal. Pelo Breve Eximia dilectissimi, de 8 de Maio de 1871, o Papa Clemente X, confirmava a proclamação de João IV.
Vinte e cinco anos decorridos sobre as aparições de Nossa Senhora em Lourdes, e apesar das dificuldades de comunicação que retardavam imenso a chegada de qualquer notícia a estas Ilhas, já os lajenses imploravam, publicamente, por intermédio da Virgem, a misericórdia divina, para os Baleeiros em perigo eminente. E o milagre aconteceu. E o voto, ao contrário de outros que caíram no esquecimento, é cumprido há cento e vinte e cinco anos!
A Virgem Imaculada aparecida em Lourdes, a uma inocente menina, filha do povo, está sempre presente, quando invocada, em todas as empresas. Ela não falta às Suas promessas.
A Virgem Imaculada aparecida a Bernardete, há 150 anos, continua
a ser, a protectora dos lajenses e picoenses. Que a Senhora vele por nós nestes tempos calamitosas que se aproximam.

Vila das Lajes
Agosto de 2008
Ermelindo Ávila