quarta-feira, 22 de outubro de 2008

UMA LOTA ORIGINAL!...

Num dos meses do Verão foram inauguradas as obras realizadas no porto interior (lagoa) da vila das Lajes e, conjuntamente, a muralha (parte) de defesa a cortina da Vila. Aplaudimos os trabalhos realizados mas nunca deixamos de referir que tais obras, principalmente a muralha, ficavam incompletas, pois é indispensável dar-lhe continuidade para Sul, até ao Calhau Grosso, ao menos, para que a Vila fique resguardada dos temporais de Sul, Sudoeste e Oeste, bastante frequentes.
Não se completou o troço de muralha entre o muro do Caneiro e a muralha de defesa ora construída, dizem que por falta de projecto que, entretanto, estava a ser elaborado...
O porto interior ou lagoa, não foi aquilo que estava inicialmente projectado: amarrações para setenta embarcações que ficaram reduzidas a cinquenta. Mas nem assim, pois a prancha central foi modificada, retirando-se-lhe as guardas transversais afim de serem amarrados os barcos de vigia de baleias, e neles puderem embarcar os visitantes...
Nem o fundo do agora porto interior, nem mesmo o do porto exterior agora “criado”, foram devidamente regularizados, obrigando as embarcações a desvios na entrada, que não deixa por isso de ser perigosa.
Já aqui deixámos o nosso agrado pelas obras realizadas, mas antes de se conhecerem algumas das mazelas que posteriormente
vieram a ser detectadas. Todavia, porque logo vieram ao conhecimento público, não posso nem devo deixar de aqui registar o meu reparo.
Não há sinais de se vir a construir definitivamente o troço de muralha que a Empresa Empreiteira lançou para a circulação dos seus veículos, durante as obras, e que lá se encontra ainda embora obstruído a evitar que os veículos e as pessoas atinjam o molhe exterior.
No início do muro de acesso ao cais, antigo caneiro, foi construída, pela Câmara Municipal, há cerca de trinta anos uma casa
para Lota, que sempre funcionou a contento quer dos pescadores quer dos compradores pois reunia as condições de higiene e laboração. E até no Inverno era utilizado pelos pescadores e outros parceiros, para as tardes de lazer...
Com as obras do chamado “porto de recreio”, ou “marina”, como alguns dizem, houve que destruir o edifício da Lota. Os respectivos serviços e pessoal foram transferidos ou incorporados nos serviços da Madalena, onde é já prática corrente concentrar tudo o que existia nesta Vila, naturalmente para lhe dar maior grandeza...
A vila das Lajes foi privada do serviço de lota ou, melhor dizendo, da possibilidade de adquirir peixe no seu porto, onde ainda existem mais de duas dezenas de embarcações de pesca local.
E a propósito: ainda me recordo das grandes pescarias de chicharro que se faziam no “limpo”, zona da baía das Lajes onde aquela espécie se concentrava em grandes cardumes. Esse pescado era tratado no areal que existia na Lagoa antes da construção da nova muralha (1936). Depois de tratado era vendido ou seco para a troca de géneros ou uso no Inverno. Outros tempos, dirão...
Agora o pescado é concentrado na actual Lota (a de Santa Cruz das Ribeiras também deixou de existir ?) e, depois de cumpridas as formalidades legais, posto à disposição dos vendilhões que, geralmente, se desembaraçam do pescado antes de chegarem às Lajes.
E neste vai-e-vem o peixe que resta, percorreu 70 quilómetros”!...
Além dos lajenses serem privados de ter peixe fresco, como estavam habituados desde que a ilha é povoada de gente. Ficam sujeitos a adquirir peixe congelado, que não é nem será nunca da qualidade do fresco.
Está anunciada, para 13 do corrente mês, a inauguração da nova peixaria na Vila das Lajes: um contentor, pintado de fresco, instalado ao lado do edifício da escola do primeiro ciclo, para funcionar das 7,30H às 11,30H de cada dia, naturalmente com o pescado da véspera ou congelado. Não será?
Não deixa de ser um tanto frustrante a situação. Ou serei apenas o único que neste imbróglio não tem razão?
Julgo que a Vila das Lajes merecia melhor tratamento, pelo seu passado histórico, pelos seus honestos e dignos pescadores que ainda os há e de excelente qualidade profissional e pelas suas gentes em geral, nada inferiores aos seus vizinhos.
Isto, entenda-se, sem deixar de realçar as obras realizadas no porto.
Custa escrever crónicas deste teor mas também é difícil suportar tanto atropelo aos direitos e à dignidade pessoal e profissional dum povo digno e laborioso como é e sempre foi o da MINHA TERRA.
É por esse meu povo, porque a ele pertenço, e só pela defesa dos seus direitos legítimos, que ainda aqui estou.
Vila das Lajes,
11 de Outubro de 2008
Ermelindo Ávila

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

FÉ E SENTIDO

Nos recenseamentos da população, ordinariamente realizados de dez em dez anos, os inquiridos tinham de responder (ainda terão?) qual a religião que professavam. A grande maioria dos portugueses declarava ser católica, embora alguns esclarecessem que não eram praticantes.
Raros eram os casamentos civis, e a ninguém era proibido fazê-los. Quase todos os jovens optavam pelo casamento católico. Além do mais, uma tradição de longos séculos e que ninguém contestava, embora tivesse liberdade para o fazer.
Todavia, mais de um século decorrido, algo era bem diferente. Quem examinava os roteiro paroquiais raramente encontrava um freguês que não tivesse cumprido os preceitos da Igreja Católica. E podemos mesmo acrescentar que, v.g., no ano de 1878 – há precisamente cento e trinta anos, a população da freguesia da Santíssima Trindade, Ilha do Pico, era constituída por 1141 indivíduos do sexo masculino, 1575 do sexo feminino e 541 eram de idades inferiores a sete anos. No total, 3257 indivíduos. Curioso referir que, nesse ano, estavam ausentes ou emigrados, vinte e sete maridos.
Todos os que estavam na idade canónica de cumprirem os preceitos pascais o haviam feito sem qualquer excepção.
Este pequeno preâmbulo vem a propósito do livro “Entre o Culto e o Sentido – Fé professada, calculada e vivida em meio urbano” que o Professor da Universidade dos Açores, Doutor Octávio H. Ribeiro de Medeiros acaba de publicar.
Na “Introdução” escreve o Autor: “Em Portugal a percentagem de católicos é agora de 89,9% - 9,4 milhões de pessoas. Contudo, segundo o Recenseamento da Prática Dominical de 2001, o numero total de praticantes não chegou aos 2 milhões de fiéis.”
Para esta descida preocupante de praticantes da Religião Católica, o Autor apresentou diversas causas e recorda as palavras de ordem segundo o Papa: ”É precioso mudar o estilo de organização da comunidade clerical portuguesa e a mentalidade dos seus membros para se ter uma Igreja ao ritmo do Concílio Vaticano II, na qual esteja bem estabelecida a função do clero e do laicado, tendo em conta que todos somos um, desde quando fomos baptizados e integrados na família dos filhos de Deus, e todos somos corresponsáveis pelo crescimento da Igreja."
Na realidade, há um desinteresse, uma apatia da parte da família católica que está a concorrer para a desintegração da própria Igreja local.
Fazem-se as festas tradicionais com alguma concorrência mas mais presente nos actos externos...
“Legalizam-se” situações aberrantes dos indivíduos, com reflexos naqueles que se confessam (confessavam) católicos. E julga-se natural certas práticas que antes eram atentatórias da dignidade humana.
Fé e Sentido”, com 266 páginas de texto, é um trabalho exaustivo de estudo e análise da época sócio-religiosa em que vivemos; trabalho bastante documentado com gráficos e dados estatísticos, que termina com esta afirmação do douto Mestre da “Sociologia Católica Açoriana”: “Na sociedade actual, a valorização do hic et nunc, vai dominando cada vez mais a vida fazendo com que a vivência do homem moderno tarda a circunscrever-se em coordenadas humano-temporais, dando origem a uma forma diferente de ser homem, empenhado em outras buscas e entregue a outras esperanças, de preferência intra-mundanas.”
A hora que se vive é de autêntica tribulação. Não se assume a responsabilidade da prática de determinados actos e vive-se num labirinto de incertezas e contrariedades, de consequências bastante funestas.
O Mundo, o mundo que nos fica ao pé da porta, abandonou os seus dogmas essenciais e entregou-se ao desvario, à apatia dos seus próprios valores.
Um materialismo bárbaro transformou-se em pseudo doutrina privilegiada, mas pertinente.
Quando voltará o homem a ocupar o seu lugar numa sociedade honesta, disciplinada, respeitadora dos valores sagrados, que transforme a iniquidade em valores humanos, dignos e capazes de promoverem uma vida de respeitabilidade, seriedade, responsabilidade e amor?
Vila das Lajes,
11 de Outº de 2008
Ermelindo Ávila

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

BOTOS E POMBAS

O Escritor faialense, Ernesto Rebello, nas “Notas Faialenses”, publicadas no “Arquivo dos Açores”(1886) dedica o capitulo XIX do seu notável trabalho, à caça dos “Botos e Pombas”,na Vila das Lajes. E para cá chegar, ao cair da noite, da Madalena às Lajes, levou nada menos de “nove horas de jornada”.
Na alegre perspectiva daquela povoação, maxime para quem vem fatigado e batido de chuvas e ventanias, acrescendo ainda que nessa ocasião estávamos no fim do inverno, que os dias bons eram ainda raros e que uma nortada aguda nos fazia assoprar nos dedos e embrulhar aconchegadamente nuns cobertores de lã, que nos haviam emprestado pelo caminho.
Os nossos companheiros de jornada eram um rapaz da vila, que tinha ido ao Faial, donde regressava, por causa do recrutamento, um homem da Madalena, que tinha a seu cargo os dois péssimos burros que montávamos e um cão rafeiro, de raça ordinaríssima, que durante todo o caminho matara, na serra, dois coelhos, dos quais o arrieiro logo se apoderara, e pela estrada vários ratos de enormes proporções.”
E não continuo a transcrição, para aqui dizer o que Ernesto Rebello nos narra da caça aos botos e pombos.
Botos são o que a moderna Ecologia chama Golfinhos e que era caçados para deles extrair o óleo ou azeite que alimentava as candeias...A sua carne não era utilizada, ao contrário da toninha cuja carne era uma das peças basilares da alimentação dos picoenses. Mas deixemos essas histórias que causam engolios aos actuais ecologistas...
No entanto, só esta afirmação de E.R.:”Os lajenses dão certa solenidade a esta pesca”. E não só.
Quantas pessoas, de diversas origens, se deslocavam à Vila das Lajes para assistir à caçada”!
Não menos interessante a narrativa da caça ao pombo da rocha na qual tomou parte Ernesto Rebello que, referindo o companheiro Francisco e a irmã Maria, que o acompanharam, faz esta afirmação:
Agradeci-lhe muito a bela noite que me havia feito gozar e atrevi-me a oferecer à pequena Maria uma moeda de seis tostões”.
Desapareceram os pombos da costa mas, em suas substituição trouxeram para o pombo trocaz, culturas uma espécie prejudicial às culturas como se tem verificado ultimamente.
Mas, porque não caça ao coelho bravo que prolifera por esses campos, atravessa as estradas com grande desfaçatez e tudo destrói onde entra. E dizem os prejudicados agricultores e vinhateiros que basta um coelho para destroçar uma vinha. Eles por ai andam despreocupadamente nesses campos que vão-se tornando em autênticos matagais.
Há anos houve quem teve a infeliz ideia de trazer para cá os pardais, que acabaram por dar cabo, quase completamente, do antigo canário cujo canto, no campo em manhãs primaveris ou nas casa que os recolhiam, tudo alegravam com seu trinado.
Mas hoje refiro o torcaz, uma espécie que quase não existia e que, para regalo dos caçadores, para cá trazido livremente, sem qualquer protesto ou impedimento legislativo da entidade fiscalizadora, ao que nos consta.
A Ilha do Pico vai-se tornando uma verdadeira coitada onde amanhã somente poderão ocupa-la as aves selvagens, mas não todas, pois até o milhafre, que aqui se alimentava do rato, vai desaparecendo.
As cagarras, com a sua musica rofenta, em noites escuras, vai desaparecendo. O pombo da costa não existe. Mas teima-se em introduzir outras espécies prejudiciais às culturas para que não faltem boas peças aos praticantes da caça.
Vila das Lajes,
1 de Outº de 2008
Ermelindo Ávila

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

PROFESSOR DIAS DE MELO

A notícia chegou-me rápida. Não a esperava e por isso enorme foi a surpresa e a mágoa que senti, muito embora o soubesse bastante doente.
A última vez que falámos, ao telefone, já era difícil entender a sua fala. Depois soube que saía a passeio, curto embora, mas que deixara de escrever. Naturalmente, fiquei preocupado pois sabia que tal atitude era sinal de curta existência.
Morreu o escritor, professor José DIAS DE MELO, um homem que levou a sua vida a cultivar a literatura, a escrever prosa e verso e, sobretudo, a utilizar a baleação como tema apaixonado.
Como poucos escreveu muito sobre a saga baleeira. As três dezenas de livros que deixou isso confirma. O último, A MONTANHA COBRIA-SE DE NEGRO é, com certeza, o seu canto do cisne.
Ainda este verão esteve no Pico, para assistir ao Império da Trindade, na sua freguesia, a Calheta de Nesquim. Na freguesia de São Mateus, onde passava semanas, na sua adolescência e juventude, quando a Tia Professora ali leccionava, foi-lhe prestada uma homenagem – a mais bonita que lhe fizeram, no seu próprio dizer.
Quando cá vinha, não se esquecia de passar por esta casa que conhecia desde a juventude. Nem que fossem escassos minutos. “Vou todas as semanas à vila, às Lajes, encontrar-me com os amigos que lá tenho...”, Poeira do Caminho – Reminiscências do Passado, Vivências do Presente” -2004, p. 211. E não falhava.
Dias de Melo escreveu muito. Era a sua grande paixão. Acompanhava-o o gravador e o bloco de notas. Em casa, na Rua de São Gonçalo, ou no Alto da Rocha do Canto da Baía, uma pequena mesa lhe servia para a máquina de escrever e, mais recentemente, para o computador, a que se afeiçoara como bem poucos. Embora de idade octogenária, tinha um espírito lúcido, jovem mesmo, como bem poucos, que sabia analisar os acontecimentos com uma clarividência extraordinária.
Milhas Contadas foi um dos seus livros preferidos. Julgo que a história triste dele e da Esposa, que falecera muito nova. Depois veio Poeira do Caminho, onde ficaram registadas Reminiscências do passado e vivências do presente.
No Poeira do Caminho escreveu: “ Será Milhas Contadas o meu último livro? Não sei.
“De qualquer modo, sem o deixar da mão, comecei e trabalho neste novo livro de alguns dias, poucos, para cá. Caso o chegue a acabar, gostaria de conseguir um livro diferente, escrito com temas vários anteriormente pensados ou, e principalmente, que me surgissem na altura do próprio texto ou, mais importante, da vida vivida no dia-a-dia, ou por mim no meu o próprio passado, ou por outros, vivos ou mortos, no passado deles e a que eu próprio tenha assistido ou que por eles, ou por outros me tenham sido contados.
” (pág. 19).
E não foram os últimos livros. Como disse, há “A Montanha Cobria-se de Negro”, que somente foi distribuído no Pico e, creio que, no Faial. E talvez outros escritos... pois Dias de Melo não parava de escrever. Tinha esse vício, nobre vício!
José de Melo, como era conhecido na sua freguesia natal – a Calheta de Nesquim, deste Pico que ele tanto amava - não teve tempo para mais... Deixou, todavia, uma obra notável e rica de cultura e de saber. Alguns dos originais dos seus livros ofereceu-os a amigos...
Dias de Melo partiu. Tinha as “milhas contadas” . Mas deixou uma obra literária que muito tarde será igualada. Dedicou-a, principalmente, à baleação pois o mar era a sua grande paixão. Como diria o José Garcia Tavares, que Dias de Melo recorda em Poeira do Caminho (pág.123): “Depois de tudo o que tem escrito sobre nós, os homens do mar, em barco de que eu seja mestre, o senhor não compra nenhum peixe, diz o que precisa e leva-o . E não me fale em pagamentos que me ofende.”
É cedo ainda para lembrar a extraordinária, notável e volumosa obra do Escritor e Poeta, Professor José DIAS DE MELO. Como disse, cerca de trinta volumes. Uma autêntica “Biblioteca”.
E mais não posso escrever. Perdi um Amigo. Amigo que, quando na sua Cabana do Pai Tomás, no Alto da Rocha do Canto da Baía, me visitava semanalmente.
Aqui deixo, comovido e sentidamente, este singelo ramalhete de violetas, a José DIAS DE MELO, Amigo de muitos anos, nem eu sei quantos...
Vila Baleeira,
24 de Setembro de 2008
Ermelindo Ávila

sábado, 13 de setembro de 2008

PARA QUANDO O HOTEL DA VILA DAS LAJES?


Terminaram as Festas da Semana dos Baleeiros e é tempo de se fazer um balanço, desapaixonado mas objectivo, da maneira como decorreram e das deficiências que se notaram.
Há muito deixei de ser repórter. Um trabalho mais próprio da Redacção de qualquer periódico. Mesmo assim não me escuso a fazer um comentário, entre os mais que seriam devidos, e que julgo de oportunidade.
Conversando, muito cordialmente, durante os dias festivos, com um dos intervenientes convidados, disse-me ele que tinha de sair porque o hotel ficava distante. E em jeito de surpresa: Vocês aqui não têm um hotel. Respondi-lhe que tínhamos um mas que devia estar todo ocupado. Referia-me, naturalmente à Aldeia da Fonte, na Silveira.
E o comentário por aqui ficou. Não deixei, porém, de nele pensar com certa amargura. De facto, dentro da Vila das Lajes não existe um hotel, embora possua boas Residenciais e algumas dezenas de camas disponíveis. Têm os seus clientes e são indispensáveis, como é natural. Todavia, isso não basta, pois o turista estrangeiro não conhece a palavra residencial ou pensão. Para ele o significado é diferente.
É urgente a construção de um hotel "dentre muros” do velho burgo. Mais do que qualquer outra construção, mesmo que seja considerada de utilidade pública.
E vou repetir o que já, uma ou mais vezes, aqui escrevi. Não importa o número de “estrelas”. Impõe-se que seja hotel e como tal classificado. É isso que procura o visitante exigente. É um estabelecimento dessa categoria, que existe em todas ou quase todas as vilas açorianas. E o Município não pode nem deve estar ausente dessa iniciativa. Tal como o vêm fazendo as instituições congéneres da Região. E até da Ilha do Pico.
Um hotel, repito, é um factor de desenvolvimento e de atracção turística para qualquer terra que deseja desenvolver-se e promover a sua economia. E a Vila das Lajes dele tanto carece! São os empregos que se criam. São os transportes que se desenvolvem. São os produtos da terra que se comercializam. São uma série de factores que se desenvolvem com a estadia de visitantes em condições de bem-estar e de conforto.
Um apelo muito sério deixo, nestas rápidas linhas, à Câmara Municipal. Sei que está a chegar ao último ano do seu actual mandato mas ainda está a tempo de programar a construção de um hotel, aqui perto. Ou na antiga casa da Maricas do Tomé ou no espaço vazio que foi o “jardim do João Manuel” ao lado do edifício dos CTT. Ficaria na parte central da avoenga vila e contribuiria, além do mais, para dar um aspecto renovado e “civilizado” àquele abandonado local.
E porque não constituir uma empresa municipal, -mais uma, dirão, mas isso que importa? – para a realização de tão necessária estrutura sócio - económica!
Aqui fica o apelo. Haja quem se digne escutá-lo e dar-lhe a devida e concreta realização e os lajenses regozijar-se-ão e saberão aplaudir .
Vila das Lajes,
Setº 2008
Ermelindo Ávila

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

SEMANA DE CULTURA

Enquanto estas linhas escrevo, decorre a já tradicional “Semana dos Baleeiros”. Uma semana não apenas de arte e desporto mas igualmente de cultura.
Nos respectivos programas, organizados nestes decorridos vinte e cinco anos, houve relevantes eventos culturais: Conferências, lançamentos de livros, concertos e outras manifestações artísticas. E nunca faltou uma assistência, diria selecta, para abrilhantar com a sua presença, acontecimentos de notória e plausível cultura.
Este ano o programa não fugiu à já tradicional manifestação artística. As conferências tomaram, um cariz diferente. Foram, essencialmente, de temática religiosa e proferidas por eruditos mestres.
A primeira pertenceu ao Maestro Manuel Emílio Porto. Tratou de um tema do qual, se bem creio, é um verdadeiro Mestre nas ilhas açorianas: Música Mariana. O distinto Maestro fez o historial bastante pormenorizado da música sacra especialmente de temática mariana, revelando uma erudição pouco vulgar para o meio ilhéu . Teve a escutá-lo, na Igreja Matriz, uma assistência atenta e numerosa.
O Dr. Padre Adriano Borges, que pronunciou a sua conferência no dia 27,. tomou a seu cargo o aliciante tema: Maria na História da Igreja.
O Conferencista começou a sua brilhante fala por afirmar:”A evolução do culto mariano iniciou-se e foi-se desenvolvendo, pelo menos nos primeiros séculos, sempre ligada aos mistérios cristológicos. Ou seja, à medida que a teologia sempre auxiliada pela filosofia, ia aprofundando a Cristologia, necessariamente foi-se também meditando na figura da Mãe de Jesus.”
E em conclusão, disse: “A Igreja acredita e defende quatro verdades de fé sobre Maria: a) Imaculada Conceição; b) Virgindade perpétua; c) Maternidade divina; e, d) Assunção em Corpo e alma ao Céu.”
O terceiro conferencista foi o consagrado orador, Doutor Cunha de Oliveira, que, no dia 28, tratou, com a sua conhecida erudição, da Actualidade da devoção a Nossa Senhora de Lourdes. Como anunciou no início da sua brilhante lição, constou esta essencialmente de duas partes. Na primeira tratou de “Interpretar os sinais dos tempos”; e, na segunda. do “fenómeno místico de Lourdes”
A finalizar disse o Doutor Cunha de Oliveira, citando o Prelado Diocesano, D. António de Sousa Braga:
“Nós cristãos deveríamos estar mentalizados e preparados para as mudanças necessárias da sociedade em que vivemos e também na Igreja a que pertencemos (...) Qual fermento que leveda a massa, a vida cristã é uma caminhada permanente de conversão e, portanto, de mudança (o sublinhado é meu), também na forma histórica de presença no mundo”.
Para quantos tiveram a disponibilidade e o prazer de assistir a estas conferências, viveram decerto momentos agradáveis de saber, recordando naturalmente outros anos em que por aqui passaram, nestas decorridas vinte e cinco “Semanas dos Baleeiros”, professores universitários e homens de cultura, que não se escusaram nunca a abrilhantar com suas falas eruditas e eloquentes, as solenidades de Nossa Senhora de Lourdes. E recordo somente um, já falecido, o Doutor José de Almeida Pavão, que foi professor da Universidade dos Açores. Mas tantos mais.
Um outro aspecto das “Semanas dos Baleeiros” é o lançamento de livros de autores picoenses. Não posso referir quantos já foram “oferecidos” ao público mas mais de duas dezenas. Este ano o mesmo aconteceu.
Para assinalar as “Bodas de Prata” do GRUPO CORAL DAS LAJES DO PICO, o seu erudito Maestro e Director, Comendador Manuel Emílio Porto, na sessão comemorativa do evento, realizada no salão de festas da Filarmónica Liberdade Lajense, apresentou “25 Anos a Cantar – Grupo Coral das Lajes do Pico”. ”Um livro para salientar o investimento humano – a disponibilidade, o interesse e a generosidade – fundamentos que mantiveram e consolidaram o percurso, todo feito de prazer, recreio e cultura”, como escreve o seu autor no “Intróito”, ou palavras de abertura. E, depois: “Durante estes 25 anos todos fizeram o grupo. É fundamental que assim continue”.
O livro, de 126 páginas, escrito numa linguagem simples mas vernácula, profusamente ilustrada com fotos recordativas das muitas digressões do Grupo Coral, pelas ilhas, pelo continente, por Espanha e pelo Canadá, foi distribuído, simpaticamente, à quase totalidade da numerosa assistência presente ao concerto comemorativo.
Um outro livro, da autoria da Poetisa e escritora Cisaltina Martins, uma conterrânea que, acidentalmente, nascida na Ribeira do Cabo, Faial, se considera autêntica picoense, mais propriamente sanjoanense, com o sugestivo título “RAIZ DE PEDRA”- foi apresentado durante a Semana, no Centro de Artes e de Ciências do Mar, antiga Fábrica da SIBIL pelo professor Ruben Rodrigues, numa poética fala, intercalada de recitações de poemas do próprio livro. Foi bastante aplaudido.
Livro de Poemas, nele a Poetisa reuniu quarenta e cinco, trabalhos, nos capítulos: raízes de pedra, estados d’alma, raiz de mim, tributos, quadras soltas e outras cantigas.
Com muito sentimento deixo aqui o poema que a Autora dedica à sua falecida irmã a Dra. Fátima Martins, “Como homenagem póstuma, na entrega das Insígnias da Ordem do Infante, em Boston – Junho de 2007:
CAMINHOS DE IMIGRAÇÃO –“As pedras deste chão não são minhas,/outros aqui as puseram p’ra meus passos/ninguém sabe quem foi, homem? Mulher?/ mas sei que foi suor e foi cansaço.
“Não quero mais perder este sentir,/ respeito pela coragem que tiveram/ um Mundo Novo, todo só p’ra mim/ o Mundo que vos deixo e que me deram.
“Tomai-o em vossas mãos devagarinho,/ que é feito de sonho e de cuidados./ Quem saberá dizer se estes caminhos/ são os mesmos d’outros povos imigrados?/
“E se um dia tiverdes de partir/ da terra mais chegada ao coração,/ não tenhais nunca medo de sorrir/ que o sorriso é forma de Oração!”
Culturalmente assim decorreu a “Semana de Nª Senhora de Lourdes” ou “Semana dos Baleeiros”, comemorativa dos 150 anos das Aparições e dos 125 anos do Culto na Matriz das Lajes do Pico.
Vila das Lajes,
Semana dos Baleeiros de 2008
Ermelindo Ávila.

domingo, 31 de agosto de 2008

A VIRGEM DE MASSABIELLE

O Pico, a Ilha dos Marinheiros está em festa. Comemora aquele dia distante em que os baleeiros lajenses, depois de um dia de trabalhos e de lutas com o monstro marinho, se fizerem ao porto e nele se viram impedidos de entrar, como tantas vezes aconteceu, porque vagas alterosas tapavam a entrada. E foi nessa ocasião que a Virgem, vinte e cinco anos antes aparecida a Bernardete na Gruta de Massabielle, invocada insistentemente, em altos brados, pelas gentes da vila das Lajes, que circundavam o porto, amainou as ondas e os botes entraram sãos e salvos na Lagoa. Cento e vinte e cinco anos são decorridos. Os lajenses não mais esqueceram o “milagre” e, a partir desse dia redobrou a devoção e a confiança na Senhora de Lourdes, hoje considerada a Padroeira das Lajes e não só. Todo os picoenses confiam na protecção daquela Senhora, que “os tem salvado mil vezes”. Só não se compreende por que não Lhe haja sido outorgado esse justo título oficial.
Há cento e cinquenta anos a França vivia tempos de verdadeiro paganismo. O dia 11 de Fevereiro de 1858 – quarta-feira gorda – era o dia em que inaugurava “os regozijos profanos que antecedem as austeridades quaresmais”.
A Igreja católica, por seu lado, promovia actos de desagravo, seguidos pelos católicos que restavam da devassa da Revolução.
Em Lourdes, cidade dos Pirinéus, vivia com a sua pobreza, a família dos Soubirous. Todavia, com muito trabalho, procurava suprir, embora deficientemente, as carências domésticas. E escreve Henrique Lasserra: “...não tinha sequer um pouco de lenha para fazer o seu magro jantar”.
Coube à filha mais velha ir junto das margens do rio Gave apanhar lenha para fazer o jantar desse dia. E foi então, quando juntava os gravetos para fazer o seu feixe, juntamente com uma irmã e uma vizinha, que, junto de uma pequena gruta cavada na rocha que ficava na margem do rio, lhe apareceu “uma mulher de incomparável esplendor”.
“O vestuário, de um pano desconhecido (que trazia) e tecido sem dúvida na misteriosa fábrica, que veste o lírio dos vales, era branco como a pura neve das montanhas e de mais magnificência, na sua simplicidade, do que o trajo de Salomão na sua glória.
“O manto comprido chegava ao chão, com castas dobras, deixava aparecer os pés que pousavam no rochedo e pisavam levemente os ramos da roseira brava. Sobre cada um dos seus pés de virginal nudez desabrochava a Rosa mística , cor de ouro.
“Adiante um cinto azul celeste ligando-lhe a cintura, caía em duas pontas compridas, que chegavam quase aos pés. “ (Henr. Lasserre)
Em tempos recuados (não muitos...) as jovens picoenses tinham por norma cumprir “promessas” vestindo-se à Lourdes, como diziam: Uma túnica ou vestido branco preso na cintura com uma faixa ou fita azul cujas pontas desciam até à beira do vestido. Não deixava de ser elegante e de trajar bem a devota, que assim se apresentava, diariamente, quer em serviços, quer em actos religiosos ou cívicos. Um contraste com as actuais indumentárias, onde uma parte sensível do corpo não merece ser recolhida...
No mesmo sentido, as mais adultas, casadas ou viúvas, cumpriam promessas trajando à Carmo, ou seja vestido de cor castanha, com escapulário e cinto de coiro com pala. Em Angra, as senhoras usavam os vestidos encimados por um colarinho branco à volta do pescoço. E muitas trajavam assim durante toda a vida.
Hoje seria uma velharia ridícula para algumas...
Foi a primeira aparição d’Aquela que, no último dia das Aparições, havia de revelar o Seu Nome: EU SOU A IMACULADA CONCEIÇÃO!
Confirmava-se assim o dogma proclamado pelo Papa Pio IX, em
8 de Dezembro de 1654, pela bula INEFFABILIS DEUS e que a Igreja Universal celebrou festivamente, muito embora em Portugal já o rei D. João IV houvesse proclamado, de Vila Viçosa, em 25 de Março de 1646, a Imaculada Conceição - Padroeira de Portugal. Pelo Breve Eximia dilectissimi, de 8 de Maio de 1871, o Papa Clemente X, confirmava a proclamação de João IV.
Vinte e cinco anos decorridos sobre as aparições de Nossa Senhora em Lourdes, e apesar das dificuldades de comunicação que retardavam imenso a chegada de qualquer notícia a estas Ilhas, já os lajenses imploravam, publicamente, por intermédio da Virgem, a misericórdia divina, para os Baleeiros em perigo eminente. E o milagre aconteceu. E o voto, ao contrário de outros que caíram no esquecimento, é cumprido há cento e vinte e cinco anos!
A Virgem Imaculada aparecida em Lourdes, a uma inocente menina, filha do povo, está sempre presente, quando invocada, em todas as empresas. Ela não falta às Suas promessas.
A Virgem Imaculada aparecida a Bernardete, há 150 anos, continua
a ser, a protectora dos lajenses e picoenses. Que a Senhora vele por nós nestes tempos calamitosas que se aproximam.

Vila das Lajes
Agosto de 2008
Ermelindo Ávila

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

O NAVEGADOR GENUÍNO MADRUGA

A Ilha do Pico tem dado, ao longo da sua vida de mais de cinco séculos, homens notáveis e que se hão distinguido nas artes, na cultura e nas ciências.
Há instantes, os meios de comunicação social deram a notícia do navegador solitário GENUÍNO MADRUGA ter pisado terras de Timor. Emocionou-me a notícia tal como aconteceu quando o vi sair no seu veleiro pelo porto das Lajes rumo ao mar alto no início da volta ao mundo, faz precisamente agora um ano. E recordei a Família Madruga, a família do Genuíno. Uma Família amiga que nunca esquecerei.
A Ilha do Pico tem dado, ao longo da sua vida de mais de cinco séculos, homens notáveis e que se hão distinguido nas artes, na cultura e nas ciências.
A Família Madruga é uma Família de artistas. Os seus filhos andam por aí com seus trabalhos de pintura, como ontem executavam primorosamente a gravura. E não só aqui. Uma Madruga, imigrada no Brasil, lá se distinguiu como a artista Alex Madruga, festejada pela Imprensa.
Aqui lembro o Fernando, presentemente em Macau. Estava-se no tempo da chamada guerra colonial. O Fernando e outro companheiro, partiram, clandestinamente, para a Europa. Chegaram a Paris. O companheiro por aí ficou. O Fernando seguiu e um dia chegou à antiga possessão portuguesa de Macau. Por lá ficou. Estabeleceu-se na ilha de Coloane com café e restaurante, numa rústica cabana. Mas nem por isso lhe faltaram os fregueses. O café fornecido pelo Fernando era uma especialidade e toda a gente macaense, ou de visita, para lá corria a tomar a bica. Conversámos e perguntei-lhe se após a anexação, voltava ao Pico. Respondeu-me que ficaria, porque os chineses eram seus amigos. Gostavam dos pratos que apresentava e serviam-se das hortaliças que o Fernando cultivava no pequeno terreno que circundava o restaurante. Certo é que, passados meses, a Imprensa noticiou a concessão de um terreno, em território chinês, para o Fernando fazer horta.
O Dr. Manuel Alexandre Madruga, licenciado em Belas Artes, ficou pela Horta como professor. Os filhos ingressaram igualmente nessa área artística: são arquitectos e pintores. E recordo, igualmente, o Pe Genuíno Madruga, um segundo Pe Américo.
E aqui impõe-se lembrar uma Senhora que me impressionou na adolescência distante. Refiro D. Maria das Dores Madruga, professora em São João, sua terra natal, que leccionou até ao limite de idade – 70 anos – e que sofreu imenso ao abandonar as alunas, passando todos os dias pelo edifício escolar à hora da abertura da escola. Não se conformava que a lei lhe impusesse tão brusca saída, tal a dedicação que votava ao Ensino e, sobretudo, às suas alunas.
O irmão, Manuel Alexandre Madruga sénior, era proprietário de terrenos ao sul desta vila. No tempo não havia veículos motorizados. Era o seu carro de um só boi que, diariamente, fazia a viagem de São João às terras da Queimada. E fazia-o sem pressas, muito calmamente. E se vinha de madrugada, a noite levava-o a casa. Era uma pessoa extraordinária. É o tronco de todos os Madrugas. À descendência transmitiu a calma, a serenidade, a inteligência...
O Genuíno, depois de descer o Atlântico, passar o cabo Horn, um feito notável, atravessar o Pacífico, costeando ilhas e ilhotas, chegou à antiga ilha portuguesa de Timor. Foi recebido festivamente pelos muitos portugueses que ainda lá se encontram e, talvez, por alguns nativos.
Timor é uma terra muito querida para os picoenses. Por lá andaram Dom Jaime Garcia Goulart, seu primeiro Bispo, o Pe. José Pereira da Silva Brum, o Pe. Isidoro da Silva Alves, o Pe. José Carlos Vieira Simplício, e outros mais.
Quem não recorda a odisseia do Pe. Brum, que aqui chegou com um grupo de sete alunos, que passaram a frequentar o Externato Lajense, e que, depois, caminharam para o continente, onde reorganizaram suas vidas. Um deles voltou a Timor já sacerdote.
Foi nessa terra que Genuíno Madruga acaba de aportar com o seu “Hemingway“. Vai refazer energias, reabastecer-se, restaurar o barco, para regressar à Terra-Mater.
Cá o esperamos com prazer e alegria... os que cá estiverem...

Vila Baleeira,
12-08-2008
Ermelindo Ávila

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

A CANOA BALEEIRA

Quando se presta a homenagem que é devida e merecida, a Mestre Francisco José Machado e/ou à Família dos Mestres Experientes ou Machados ?
As Lajes do Pico pode orgulhar-se de possuir a patente de invenção da Canoa Baleeira, que agora só é utilizada em regatas locais, nacionais e internacionais.
A história da sua criação anda por aí, nem sempre de harmonia com a verdade. Convém por isso repeti-la, para que justiça seja feita a quem teve a ideia de substituir a antiga baleeira importada dos Estados Unidos da América por um novo tipo, maior, mais elegante e veloz.
E vou repetir o que anteriormente escrevi sobre este assunto (Crónicas da Minha Ilha, Vol. II, ´pag.82 – 2002):
Francisco José Machado desde novo teve a vocação para a construção naval. Não encontrando quem o quisesse ensinar, abalançou-se a construir uma pequena embarcação que registou na Delegação Marítima com o nome de “Experiência”. Daí passou a ser conhecido por “Mestre Experiente”.
Depois, servindo-se de uma canoa baleeira daquelas que então eram importadas dos Estados Unidos, construiu a primeira canoa, muito mais aperfeiçoada e elegante, e que denominou de “São José”. Mas volto ao que escrevi há seis anos, e repito: “Foi este artista que construiu o primeiro bote ou canoa baleeira nos Açores, embora tomando por modelo, que soube aperfeiçoar com arte e esmerada técnica, as canoas que, até então, eram importadas dos Estados Unidos da América.“
Barco de uma elegância e beleza estética, que ainda hoje não existe outra que a iguale. Tanto assim, que o Museu de New Bedford (ou outra entidade americana, não posso afirmá-lo, neste momento) mandou construir, por um calafate picoense, o Mestre João Silveira Tavares, de Santa Cruz das Ribeiras, duas canoas para a sua escolta de regatas à vela e a remos.
Depois do Mestre Francisco José, - que, além de outras canoas e embarcações, também construiu as lanchas de passageiros e carga, “Lourdes” e “Hermínia”, as quais, durante dezenas de anos, prestaram óptimos serviços às populações do Sul do Pico e Faial, - os filhos Manuel José Machado, António José Machado e Joaquim José Machado continuaram a construir canoas, lanchas motorizadas e bateis de pesca. Nas Lajes, dedicou-se a igual actividade António dos Santos Fonseca, construindo. na década de vinte, a “Margarida”, primeira lancha baleeira e, depois, algumas canoas, entre elas a “Liberdade” e a “Maria Celeste”. E, pelo Pico além, foram surgindo outros calafates, cujas canoas tinham por modelo aquela que primeiro havia construído o mestre Francisco José Machado. E construíram-se canoas para todas as Ilhas dos Açores e Madeira, onde se explorava a caça à baleia.
Com a proibição da caça, as canoas, foram adquiridas pelo Governo Região e distribuídas por diversas entidades, incluindo Juntas de Freguesia, que passaram a utilizá-las em regatas desportivas. Daí não veio nem vem mal algum. Só se não compreende que, sendo embarcações que tiveram um destino específico, fossem distribuídas por portos onde, ao que julgo, nunca existiu a actividade baleeira.
Em regatas, sempre foram utilizadas as canoas baleeiras, e basta trazer aqui o que escreve Marcelino de Lima nos “Anais do Município da Horta”, referindo-se à visita de Suas Majestades o Rei Dom Carlos e a Rainha D. Amélia, em 28 de Junho de 1901: “ Diversos arcos triunfais se levantaram nas ruas do trajecto (do Cais â Câmara Municipal), destacando-se o armado pelas companhias baleeiras.” “No segundo dia, depois de ouvir missa, visitaram os navios estrangeiros, seguindo depois para bordo do S. Gabriel, donde assistiram a uma regata à vela e a remos, de canoas baleeiras e embarcações de recreio.” Sabe-se que venceram as regatas as canoas do porto das Lajes e tão agradado ficou Dom Carlos, que ofereceu às armações lajenses, participantes nas regatas, uma canoa baleeira.
O cientista, Professor Almeida Langhans, há anos de passagem nesta Vila, entrevistou o construtor Manuel Alves Machado, neto do Mestre Francisco José Machado, que lhe fez uma descrição bastante pormenorizada da construção da canoa baleeira.(Existe uma cópia desse documento no Museu dos Baleeiros).
O Professor Langhans refere-se a “esse portento da arquitectura naval que é a Canoa Baleeira Açoriana”, ou esse espantoso bote, que é a canoa baleeira e que outros cientes já consideraram como a embarcação mais bela do Mundo. Será? Assim o creio..
Felizmente, uma das canoas construídas pela Família Machado,- a “Santa Teresinha” - está arrecadada e exposta no Museu dos Baleeiros. Mas é pena que as canoas tenham saído do seu “meio ambiente” e fossem parar a outros portos sem qualquer tradição baleeira. Ao menos que as conservem como rico património histórico de uma actividade que foi florescente e que, hoje ainda, mal conhecida é.!
Já agora e a propósito: quando se presta a homenagem que é devida e merecida a Mestre Francisco José Machado e/ou à família dos Mestres Experientes ou Machados?
Vila Baleeira,
21 de Julho de 2008
Ermelindo Ávila

domingo, 10 de agosto de 2008

BOM JESUS MILAGROSO

A ilha do Pico está em festa. Festas religiosas, festas cívicas. E nestas há sempre um fundo religioso, quando acontecem ao domingo. É uma tradição bastante antiga e que o povo picoense ainda não abandonou. Mas hoje fiquemos pela festa religiosa do Bom Jesus Milagroso. Realiza-se nas freguesias de São Mateus e da Calheta de Nesquim. Duas festas idênticas dedicadas ao mesmo Senhor, Rei do Céu e da Terra e que Pilatos, o timorato e cobarde Governador Romano, coroou de espinhos e vestiu com escárnio com uma reles capa, colocando-Lhe nas mãos, como cetro, uma cana verde.
É esse Senhor, que os católicos picoenses veneram em Imagens de excelente escultura que inspiram fé, piedade e amor. O Senhor a que muitos cristãos recorrem em horas de aflição e angústia, que não poucas são.
Em 1862 Francisco Ferreira Goulart, estando imigrado no Rio de Janeiro adquiriu ali e ofereceu à sua freguesia natal a Imagem do Bom Jesus. Logo que ela foi intronizada na paroquial de São Mateus, iniciaram-se as festas no dia 6 de Agosto que o calendário romano dedica à Festa da Transfiguração do Senhor.
E, a propósito desta solenidade escreveu o lajense, D. João Paulino:”Em 1882 no mês de Agosto passava pela freguesia de S. Mateus da ilha do Pico, por ocasião da festa que anualmente ali se celebra no dia 6 em honra do Bom Jesus um sacerdote da vila das Lajes da mesma ilha. Viu e admirou o entusiasmo religioso da imensa multidão de fieis que de todos os pontos da ilha e de fora dela ali haviam concorrido impelidos pela devoção à imagem do Senhor Ecce Homo que sob aquela invocação se venera na igreja da freguesia. Não é longa esta devoção .Há trinta anos não havia ali a imagem do Senhor que dela é objecto. Contudo é hoje tão popular em toda a ilha e tão conhecida fóra dela nas demais ilhas dos Açores e até de países estrangeiros pelos bons filhos destas terras, que durante os dois dias da festa e véspera a igreja, suas imediações e as ruas principais ofereciam de contínuo espectáculo dum formigueiro de povo, que se comprimia, acotovelava e remexia em todos os sentidos.”
Era penoso ir ao “Bom Jesus de Longe”, como dizia o povo. E daí, uma devota da Calheta de Nesquim, ter adquirido, no princípio do século passado, uma idêntica Imagem do Bom Jesus para a sua Igreja Paroquial, que passou a realizar a Festa, com toda a pompa, no mesmo dia 6 de Agosto. E ainda hoje essa solenidade se realiza, com grande afluência de fiéis, muito embora ainda se encontrem devotos que preferem ir ao “Bom Jesus de Longe”.
O dia 6 de Agosto é dia de festa para toda a Ilha. A paroquial de São Mateus, por instâncias do antigo e falecido Pároco, Pe. António Filipe Madruga, é hoje Matriz e Santuário do Bom Jesus. Todos os Bispos Diocesanos têm particular atenção por esta solenidade e quase sempre a ela presidem.
E lembrando o Pe. Filipe Madruga, recordo os antigos párocos P. Manuel Matos, Pe. José Garcia de Lemos e Pe. Joaquim Vieira da Rosa, este, naturalmente o grande administrador e homem de personalidade forte e que largos anos paroquiou em S. Mateus, até ao fal3cimento.
De recordar ainda o Professor José Inácio Garcia de Lemos, uma das figuras de maior relevo do concelho, onde exerceu, em períodos diferentes, o cargo de Presidente da Câmara. Mas é como colaborador da Paróquia que aqui o trago. Foi organista, tinha a seu cargo a organização externa das festas do Bom Jesus e, na memória de alguns, ficou aquele dia em que, regeu o Hino do Bom Jesus, executado pelas filarmónicas presentes nas solenidades, um acto que, pelo brilho que imprimiu às mesmas, causou a maior admiração e aplauso da assistência.
Agosto é o mês das festas religiosas do Pico, sem esquecer a festa da Padroeira da Madalena, realizada com solenidade, na segunda quinzena de Julho.
A ilha do Pico, nestas semanas de Julho e Agosto fica com a população duplicada ou mesmo triplicada. São os picoenses que vêm gozar férias; os emigrantes que, num retorno saudoso, aqui aparecem para passar estas semanas com amigos e familiares e assistirem às suas tradicionais festas religiosas; são os turistas estrangeiros que aproveitando o clima da ilha, aqui vêm, alguns quatro e cinco anos seguidos, para retemperar forças para os trabalhos do novo ano.
Todos vivem estas semanas com alegria, conforto e bem-estar, recordando o passado, convivendo com as pessoas de família ou amigos e até com aqueles que vão encontrando e que agora aqui habitam.
Bem vindos sejam!

Vila das Lajes,

29 de Julho de 2008
Ermelindo Ávila