quarta-feira, 20 de agosto de 2008

O NAVEGADOR GENUÍNO MADRUGA

A Ilha do Pico tem dado, ao longo da sua vida de mais de cinco séculos, homens notáveis e que se hão distinguido nas artes, na cultura e nas ciências.
Há instantes, os meios de comunicação social deram a notícia do navegador solitário GENUÍNO MADRUGA ter pisado terras de Timor. Emocionou-me a notícia tal como aconteceu quando o vi sair no seu veleiro pelo porto das Lajes rumo ao mar alto no início da volta ao mundo, faz precisamente agora um ano. E recordei a Família Madruga, a família do Genuíno. Uma Família amiga que nunca esquecerei.
A Ilha do Pico tem dado, ao longo da sua vida de mais de cinco séculos, homens notáveis e que se hão distinguido nas artes, na cultura e nas ciências.
A Família Madruga é uma Família de artistas. Os seus filhos andam por aí com seus trabalhos de pintura, como ontem executavam primorosamente a gravura. E não só aqui. Uma Madruga, imigrada no Brasil, lá se distinguiu como a artista Alex Madruga, festejada pela Imprensa.
Aqui lembro o Fernando, presentemente em Macau. Estava-se no tempo da chamada guerra colonial. O Fernando e outro companheiro, partiram, clandestinamente, para a Europa. Chegaram a Paris. O companheiro por aí ficou. O Fernando seguiu e um dia chegou à antiga possessão portuguesa de Macau. Por lá ficou. Estabeleceu-se na ilha de Coloane com café e restaurante, numa rústica cabana. Mas nem por isso lhe faltaram os fregueses. O café fornecido pelo Fernando era uma especialidade e toda a gente macaense, ou de visita, para lá corria a tomar a bica. Conversámos e perguntei-lhe se após a anexação, voltava ao Pico. Respondeu-me que ficaria, porque os chineses eram seus amigos. Gostavam dos pratos que apresentava e serviam-se das hortaliças que o Fernando cultivava no pequeno terreno que circundava o restaurante. Certo é que, passados meses, a Imprensa noticiou a concessão de um terreno, em território chinês, para o Fernando fazer horta.
O Dr. Manuel Alexandre Madruga, licenciado em Belas Artes, ficou pela Horta como professor. Os filhos ingressaram igualmente nessa área artística: são arquitectos e pintores. E recordo, igualmente, o Pe Genuíno Madruga, um segundo Pe Américo.
E aqui impõe-se lembrar uma Senhora que me impressionou na adolescência distante. Refiro D. Maria das Dores Madruga, professora em São João, sua terra natal, que leccionou até ao limite de idade – 70 anos – e que sofreu imenso ao abandonar as alunas, passando todos os dias pelo edifício escolar à hora da abertura da escola. Não se conformava que a lei lhe impusesse tão brusca saída, tal a dedicação que votava ao Ensino e, sobretudo, às suas alunas.
O irmão, Manuel Alexandre Madruga sénior, era proprietário de terrenos ao sul desta vila. No tempo não havia veículos motorizados. Era o seu carro de um só boi que, diariamente, fazia a viagem de São João às terras da Queimada. E fazia-o sem pressas, muito calmamente. E se vinha de madrugada, a noite levava-o a casa. Era uma pessoa extraordinária. É o tronco de todos os Madrugas. À descendência transmitiu a calma, a serenidade, a inteligência...
O Genuíno, depois de descer o Atlântico, passar o cabo Horn, um feito notável, atravessar o Pacífico, costeando ilhas e ilhotas, chegou à antiga ilha portuguesa de Timor. Foi recebido festivamente pelos muitos portugueses que ainda lá se encontram e, talvez, por alguns nativos.
Timor é uma terra muito querida para os picoenses. Por lá andaram Dom Jaime Garcia Goulart, seu primeiro Bispo, o Pe. José Pereira da Silva Brum, o Pe. Isidoro da Silva Alves, o Pe. José Carlos Vieira Simplício, e outros mais.
Quem não recorda a odisseia do Pe. Brum, que aqui chegou com um grupo de sete alunos, que passaram a frequentar o Externato Lajense, e que, depois, caminharam para o continente, onde reorganizaram suas vidas. Um deles voltou a Timor já sacerdote.
Foi nessa terra que Genuíno Madruga acaba de aportar com o seu “Hemingway“. Vai refazer energias, reabastecer-se, restaurar o barco, para regressar à Terra-Mater.
Cá o esperamos com prazer e alegria... os que cá estiverem...

Vila Baleeira,
12-08-2008
Ermelindo Ávila

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

A CANOA BALEEIRA

Quando se presta a homenagem que é devida e merecida, a Mestre Francisco José Machado e/ou à Família dos Mestres Experientes ou Machados ?
As Lajes do Pico pode orgulhar-se de possuir a patente de invenção da Canoa Baleeira, que agora só é utilizada em regatas locais, nacionais e internacionais.
A história da sua criação anda por aí, nem sempre de harmonia com a verdade. Convém por isso repeti-la, para que justiça seja feita a quem teve a ideia de substituir a antiga baleeira importada dos Estados Unidos da América por um novo tipo, maior, mais elegante e veloz.
E vou repetir o que anteriormente escrevi sobre este assunto (Crónicas da Minha Ilha, Vol. II, ´pag.82 – 2002):
Francisco José Machado desde novo teve a vocação para a construção naval. Não encontrando quem o quisesse ensinar, abalançou-se a construir uma pequena embarcação que registou na Delegação Marítima com o nome de “Experiência”. Daí passou a ser conhecido por “Mestre Experiente”.
Depois, servindo-se de uma canoa baleeira daquelas que então eram importadas dos Estados Unidos, construiu a primeira canoa, muito mais aperfeiçoada e elegante, e que denominou de “São José”. Mas volto ao que escrevi há seis anos, e repito: “Foi este artista que construiu o primeiro bote ou canoa baleeira nos Açores, embora tomando por modelo, que soube aperfeiçoar com arte e esmerada técnica, as canoas que, até então, eram importadas dos Estados Unidos da América.“
Barco de uma elegância e beleza estética, que ainda hoje não existe outra que a iguale. Tanto assim, que o Museu de New Bedford (ou outra entidade americana, não posso afirmá-lo, neste momento) mandou construir, por um calafate picoense, o Mestre João Silveira Tavares, de Santa Cruz das Ribeiras, duas canoas para a sua escolta de regatas à vela e a remos.
Depois do Mestre Francisco José, - que, além de outras canoas e embarcações, também construiu as lanchas de passageiros e carga, “Lourdes” e “Hermínia”, as quais, durante dezenas de anos, prestaram óptimos serviços às populações do Sul do Pico e Faial, - os filhos Manuel José Machado, António José Machado e Joaquim José Machado continuaram a construir canoas, lanchas motorizadas e bateis de pesca. Nas Lajes, dedicou-se a igual actividade António dos Santos Fonseca, construindo. na década de vinte, a “Margarida”, primeira lancha baleeira e, depois, algumas canoas, entre elas a “Liberdade” e a “Maria Celeste”. E, pelo Pico além, foram surgindo outros calafates, cujas canoas tinham por modelo aquela que primeiro havia construído o mestre Francisco José Machado. E construíram-se canoas para todas as Ilhas dos Açores e Madeira, onde se explorava a caça à baleia.
Com a proibição da caça, as canoas, foram adquiridas pelo Governo Região e distribuídas por diversas entidades, incluindo Juntas de Freguesia, que passaram a utilizá-las em regatas desportivas. Daí não veio nem vem mal algum. Só se não compreende que, sendo embarcações que tiveram um destino específico, fossem distribuídas por portos onde, ao que julgo, nunca existiu a actividade baleeira.
Em regatas, sempre foram utilizadas as canoas baleeiras, e basta trazer aqui o que escreve Marcelino de Lima nos “Anais do Município da Horta”, referindo-se à visita de Suas Majestades o Rei Dom Carlos e a Rainha D. Amélia, em 28 de Junho de 1901: “ Diversos arcos triunfais se levantaram nas ruas do trajecto (do Cais â Câmara Municipal), destacando-se o armado pelas companhias baleeiras.” “No segundo dia, depois de ouvir missa, visitaram os navios estrangeiros, seguindo depois para bordo do S. Gabriel, donde assistiram a uma regata à vela e a remos, de canoas baleeiras e embarcações de recreio.” Sabe-se que venceram as regatas as canoas do porto das Lajes e tão agradado ficou Dom Carlos, que ofereceu às armações lajenses, participantes nas regatas, uma canoa baleeira.
O cientista, Professor Almeida Langhans, há anos de passagem nesta Vila, entrevistou o construtor Manuel Alves Machado, neto do Mestre Francisco José Machado, que lhe fez uma descrição bastante pormenorizada da construção da canoa baleeira.(Existe uma cópia desse documento no Museu dos Baleeiros).
O Professor Langhans refere-se a “esse portento da arquitectura naval que é a Canoa Baleeira Açoriana”, ou esse espantoso bote, que é a canoa baleeira e que outros cientes já consideraram como a embarcação mais bela do Mundo. Será? Assim o creio..
Felizmente, uma das canoas construídas pela Família Machado,- a “Santa Teresinha” - está arrecadada e exposta no Museu dos Baleeiros. Mas é pena que as canoas tenham saído do seu “meio ambiente” e fossem parar a outros portos sem qualquer tradição baleeira. Ao menos que as conservem como rico património histórico de uma actividade que foi florescente e que, hoje ainda, mal conhecida é.!
Já agora e a propósito: quando se presta a homenagem que é devida e merecida a Mestre Francisco José Machado e/ou à família dos Mestres Experientes ou Machados?
Vila Baleeira,
21 de Julho de 2008
Ermelindo Ávila

domingo, 10 de agosto de 2008

BOM JESUS MILAGROSO

A ilha do Pico está em festa. Festas religiosas, festas cívicas. E nestas há sempre um fundo religioso, quando acontecem ao domingo. É uma tradição bastante antiga e que o povo picoense ainda não abandonou. Mas hoje fiquemos pela festa religiosa do Bom Jesus Milagroso. Realiza-se nas freguesias de São Mateus e da Calheta de Nesquim. Duas festas idênticas dedicadas ao mesmo Senhor, Rei do Céu e da Terra e que Pilatos, o timorato e cobarde Governador Romano, coroou de espinhos e vestiu com escárnio com uma reles capa, colocando-Lhe nas mãos, como cetro, uma cana verde.
É esse Senhor, que os católicos picoenses veneram em Imagens de excelente escultura que inspiram fé, piedade e amor. O Senhor a que muitos cristãos recorrem em horas de aflição e angústia, que não poucas são.
Em 1862 Francisco Ferreira Goulart, estando imigrado no Rio de Janeiro adquiriu ali e ofereceu à sua freguesia natal a Imagem do Bom Jesus. Logo que ela foi intronizada na paroquial de São Mateus, iniciaram-se as festas no dia 6 de Agosto que o calendário romano dedica à Festa da Transfiguração do Senhor.
E, a propósito desta solenidade escreveu o lajense, D. João Paulino:”Em 1882 no mês de Agosto passava pela freguesia de S. Mateus da ilha do Pico, por ocasião da festa que anualmente ali se celebra no dia 6 em honra do Bom Jesus um sacerdote da vila das Lajes da mesma ilha. Viu e admirou o entusiasmo religioso da imensa multidão de fieis que de todos os pontos da ilha e de fora dela ali haviam concorrido impelidos pela devoção à imagem do Senhor Ecce Homo que sob aquela invocação se venera na igreja da freguesia. Não é longa esta devoção .Há trinta anos não havia ali a imagem do Senhor que dela é objecto. Contudo é hoje tão popular em toda a ilha e tão conhecida fóra dela nas demais ilhas dos Açores e até de países estrangeiros pelos bons filhos destas terras, que durante os dois dias da festa e véspera a igreja, suas imediações e as ruas principais ofereciam de contínuo espectáculo dum formigueiro de povo, que se comprimia, acotovelava e remexia em todos os sentidos.”
Era penoso ir ao “Bom Jesus de Longe”, como dizia o povo. E daí, uma devota da Calheta de Nesquim, ter adquirido, no princípio do século passado, uma idêntica Imagem do Bom Jesus para a sua Igreja Paroquial, que passou a realizar a Festa, com toda a pompa, no mesmo dia 6 de Agosto. E ainda hoje essa solenidade se realiza, com grande afluência de fiéis, muito embora ainda se encontrem devotos que preferem ir ao “Bom Jesus de Longe”.
O dia 6 de Agosto é dia de festa para toda a Ilha. A paroquial de São Mateus, por instâncias do antigo e falecido Pároco, Pe. António Filipe Madruga, é hoje Matriz e Santuário do Bom Jesus. Todos os Bispos Diocesanos têm particular atenção por esta solenidade e quase sempre a ela presidem.
E lembrando o Pe. Filipe Madruga, recordo os antigos párocos P. Manuel Matos, Pe. José Garcia de Lemos e Pe. Joaquim Vieira da Rosa, este, naturalmente o grande administrador e homem de personalidade forte e que largos anos paroquiou em S. Mateus, até ao fal3cimento.
De recordar ainda o Professor José Inácio Garcia de Lemos, uma das figuras de maior relevo do concelho, onde exerceu, em períodos diferentes, o cargo de Presidente da Câmara. Mas é como colaborador da Paróquia que aqui o trago. Foi organista, tinha a seu cargo a organização externa das festas do Bom Jesus e, na memória de alguns, ficou aquele dia em que, regeu o Hino do Bom Jesus, executado pelas filarmónicas presentes nas solenidades, um acto que, pelo brilho que imprimiu às mesmas, causou a maior admiração e aplauso da assistência.
Agosto é o mês das festas religiosas do Pico, sem esquecer a festa da Padroeira da Madalena, realizada com solenidade, na segunda quinzena de Julho.
A ilha do Pico, nestas semanas de Julho e Agosto fica com a população duplicada ou mesmo triplicada. São os picoenses que vêm gozar férias; os emigrantes que, num retorno saudoso, aqui aparecem para passar estas semanas com amigos e familiares e assistirem às suas tradicionais festas religiosas; são os turistas estrangeiros que aproveitando o clima da ilha, aqui vêm, alguns quatro e cinco anos seguidos, para retemperar forças para os trabalhos do novo ano.
Todos vivem estas semanas com alegria, conforto e bem-estar, recordando o passado, convivendo com as pessoas de família ou amigos e até com aqueles que vão encontrando e que agora aqui habitam.
Bem vindos sejam!

Vila das Lajes,

29 de Julho de 2008
Ermelindo Ávila

quinta-feira, 31 de julho de 2008

A CASA DO PRIMEIRO POVOADOR

Quando Fernão Alvares Evangelho foi deixado na ilha pelos companheiros - e a razão foi porque, fazendo-se à enseada do Castelete e não conhecendo a costa se encheram de medo quando o mar rebentou no Penedo Negro, o que foi natural, - percorreu a costa para norte, por ser zona mais plana e encontrou uma ribeira, que viria a denominar-se “Ribeira de Fernão Alvares”. Já no século XIX, passou a ser conhecida por Ribeira da Burra, dada a circunstância macabra de nela ter morrido uma asinina. Na ribeira existiam, naturalmente, poços de água, elemento essencial à vida.
Foi aí que Fernão Alvares construiu a sua habitação - uma construção rudimentar, na margem da ribeira, com uma porta e uma pequena janela na empena oeste e cujas ruínas ainda ali se encontram. A tradição sempre afirmou ser a casa do primeiro povoador.
Apoiado no “Espelho Cristalino”, de Frei Diogo das Chagas, que esteve nas Lajes em 1641, escreve Lacerda Machado na História do Concelho das Lajes:
Dos quais os dois principais povoadores, foram o dito Fernando Alvares, e Jurdão Alvares Caralta. Este ficou povoando ali aonde saltou; (actual freguesia das Ribeiras) e o Fernando Alvares começou a sua pela parte aonde se diz a Ribeira do meio”.
O Município Lajense, no propósito de salvaguardar a História e o Património concelhios, adquiriu há anos as ruínas da casa de Fernando Alvares, na margem norte da Ribeira para nele fazer obras de recuperação. Um pouco a Leste existe a primitiva ponte romana, que faz a ligação da antiga Rua dos Castanhos, muito embora um troço desta via, por razões mal explicáveis, tivesse sido, incompreensívelmente, incorporado num pátio fronteiriço a uma moradia que ali foi reconstruída.
Aquela zona - que bem perto fica do acesso à antiga fábrica da SIBIL, hoje um dos centros turísticos mais relevantes do concelho, por nela ter sido instalado o Centro de Artes e Ciências do Mar- merece ser recuperada, restituindo-se-lhe o seu traçado primitivo e, com um pouco de limpeza, tornar transitável a secular ponte, um marco histórico do Património desta avoenga vila. Nas ruínas da casa, para já, basta abater a figueira que existe no interior e que, segundo o antigo proprietário, não era retirada por haver sido plantada por um filho da família, há cerca de cem anos e que depois emigrou para os Estados Unidos. Seja como for: aquela figueira não tem interesse algum e só prejudica a visibilidade daquela histórico espaço, algo procurado por quem dele tem conhecimento.
E escreve ainda o historiador F.S. Lacerda Machado:
Confirmando esta tradição, conservou sempre o nome de Ribeira de Fernando Alvares a que, desde algumas dezenas de anos, estupidamente se chama da burra, fazendo-se desaparecer da toponímia local uma expressão que representava apreciável vestígio histórico e veneração pela memória do primeiro povoador, fundador da vila.”
A primeira preocupação, de Fernão Alvares, como seria natural., foi encontrar água para se dessedentar (matar a sede) e encontrou-a com relativa facilidade, a menos de um quilómetro de distância do local de desembarque. Não deixa de ser curioso e, naturalmente, porque os abusos começaram a verificar-se, o Alvará do 1º Capitão Donatário do Faial e 2º da ilha do Pico, Jos d’Utra, passado em 24 de Março de 1502 no qual prescreve: “para que ninguém lavasse da Ponte de Fernão Alvares para cima onde passa o Caminho do Suro que vai ter à Almagreira, sob pena de cada vez que for achado pague duzentos reis para o Concelho.”( in Espelho Cristalino…).
Nota-se que os abusos, a cerca de meio século do início do povoamento, já aconteciam. A instalação do concelho iniciara-se antes de 1502, como se deduz do alvará de Jós D’Utra, muito embora nunca fosse descoberto o documento que o criou.
Hoje, nem um edital ou alvará da autoridade competente é capaz de evitar qualquer situação anómala dos bens comuns.

Vila das Lajes,
Julho de 2008
Ermelindo Ávila

domingo, 20 de julho de 2008

O ANO DO BARULHO OU DO LEVANTE

Foi em 3 de Agosto de 1862 que se deu o motim popular que, na história, ficou como o ”ano do barulho”.
Anos depois, em 24 de Novembro de 1897 dava-se na Piedade o “corte dos alamos”. E se do primeiro acontecimento não se registaram vítimas, já o mesmo não se deu com o segundo, pois, segundo Manuel d’Ávila Coelho, houve três .
No trabalho intitulado “Nossa Senhora da Piedade na Ilha do Pico”, publicado no número 3 do vol, 2 do Boletim do Núcleo Cultural da Horta (Dez.º 196l) escreveu o seu autor, prof. Manuel d’Ávila Coelho: “A coincidência do aumento das fintas com a introdução do sistema métrico provocou um grande ajuntamento de povo que, ligado ao de outras freguesias, se dirigiu às Lages para protestar energicamente contra a deliberação tomada….
Este movimento que deixou fundas inimizades entre várias famílias e por muito tempo, ficou conhecido pelo “ano do levanto” …
Com o corte dos alamos que tinham sido plantados em 1779, houve nova agitação na freguesia, a que não faltaram hábeis pescadores de águas turvas, como se vê da pasquinada que naquela data se publicou sobre o assunto.
Refere-se o Autor ao livro de 144 páginas, publicado em Angra do Heroísmo no ano de 1898 - cento e dez anos são decorridos - da autoria de José Silveira Nunes – o Manha - no qual procura fazer, a seu modo, o relato dos acontecimentos que provocaram três vítimas mortais.
Os álamos encontravam-se no antigo largo do Império, a norte da Igreja Paroquial e na descida para o Calhau.
A antiga capela, construída no século dezasseis, é assim descrita por Ávila Coelho:
Edificação do princípio do século l6º tinha porta larga, em arco de volta inteira que descansava sobre colunas de bonitos capiteis, cantaria com soco bastante saliente e cimalha com pirâmides, tudo em boa pedra lavrada, - Foi demolida quando do alargamento da estrada municipal. Um crime.
A capela foi abandonada, com o corte dos alamos, e nela, mais tarde, instalada a estação dos CTT e um escritório particular. Com os trabalhos do arranjo do caminho do Calhau, porque a antiga capela impedia o alargamento, foi imperioso demolir a antiga capela, já em ruínas. Entretanto as Irmandades, logo que a abandonaram por causa do corte dos alamos, que faziam alameda do respectivo recinto, onde se realizava o Império, haviam construído uma nova capela no Curral da Pedra. Este local, após a conclusão da estrada Lajes-Piedade, por volta de 1944, foi alargado, dali partindo o arranjo do caminho para o Calhau.
Não foi, pois, crime, a sua demolição, mas uma necessidade provocada pelo progresso, o que aliás aconteceu em outras terras. Sem a demolição da antiga capela não seria possível o alargamento do caminho, como aliás era desejo da população e uma necessidade imperiosa.
Felizmente, do “Barulho” ou “levante” não houve vítimas a registar mas os prejuízos causados foram enormes e irreparáveis.
A população de todo o concelho, incitada por alguns encobertos interessados, “ roubaram as colecções dos padrões dos novos pesos e medidas, o quadro sinóptico dos mesmos pesos e medidas, as posturas municipais e vários papeis e documentos da Secretaria. A este respeito escreve Lacerda Machado na “Justificação” com que dá início à “História do concelho das Lages”: “No Ano do barulho (1862), o povo amotinado queimou toda a papelada que pude haver às mãos nas repartições públicas, e com ela, os quatro primeiros livros de termos de vereação (actas), compreendendo o período decorrido desde a criação da vila até Junho de 1773. Assim ficaram perdidos quase três séculos da história local”, melhor dito, da ilha do Pico.
Valeram as recolhas feitas por Frei Diogo das Chagas, que por aqui andou nos anos de 1646, e que fez boa colheita de documentos que existiam nos serviços municipais, arquivados agora no “Espelho Cristalino em Jardim de Várias Flores”; obra que só viria a ser totalmente publicada, sob a direcção do Professor Doutor Artur Teodoro de Matos, em l989. E é no Prefácio que o douto Mestre nos diz:”
“Contendo matéria em grande parte diferente, mas de incontestável interesse histórico, é o capítulo dedicado à ilha do Pico. Trata, é certo, como os respeitantes às demais ilhas, do descobrimento desta parcela açoriana, da descrição da ,mesma, das suas paróquias e ermidas, dos vigários, da população e de vários casos dignos de memória. …Enfim, um acervo de interessantes notícias através das quais poderemos em certa medida, reconstituir a vida social picoense nos primeiros dois séculos de vida humana, nas regiões correspondentes às vilas das Lajes, de São Roque e da Madalena.”
Julgo que tudo isso foi possível porque Frei Diogo das Chagas era irmão natural de Frei Mateus da Conceição, guardião do convento franciscano desta vila, a cuja ordem ambos pertenciam. E por essa circunstância a demora de Frei Diogo, nas Lajes, não deve ter sido limitada, permitindo-lhe assim a recolha de documentos importantes para o seu excelente trabalho que hoje representa um manancial precioso para a história desta ilha., como aliás nos diz o Professor Doutor Teodoro de Matos.
E não há necessidade de recorrer a lendas que os antigos historiadores, à falta de elementos concretos, procuraram inventar e fantasiar…

Vila das Lajes,
8 de Julho de 2008
Ermelindo Ávila

sábado, 12 de julho de 2008

INSTALAÇÕES HOTELEIRAS

Vão aparecendo por aí grupos de estrangeiros, em visita ao Museu dos Baleeiros e pouco mais. Os restantes centros de interesse turístico nem sempre são conhecidos nem visitados.
Há dias esteve cá um grupo de excursionistas da Califórnia. Era o dia de São Pedro, cujo arraial (Império) costuma trazer à Vila das Lajes alguns milhares de forasteiros atraídos, naturalmente, pelas rosquilhas que se distribuem. Lembrei ao agente de viagens que organizou a visita, que esse era o dia do Império nesta vila. Respondeu-me que não sabia, pois as informações que lhe chegam à Califórnia não incluem esta festa. E o grupo de americanos, que visitava o Pico pela primeira vez, limitou-se a visitar o Museu dos Baleeiros, almoçar no restaurante “Lagoa” e seguir viagem. No dia seguinte, um casal de Point Loma, San Diego, (o marido médico reformado), voltou às Lajes para indagar das famílias de que ele era oriundo. E algo conseguiu.
Mais uma vez aconteceu aquilo para que, tantas e tantas vezes, tenho chamado a atenção dos responsáveis; entidades que não identifico porque nem sei quais sejam…
Há tempos, os meses passam rapidamente, tornou-se público que havia sido autorizada a construção de um Hotel, ou complexo hoteleiro, no Soldão (?), Mistério da Silveira, mas nada mais se fez.
A empresa que adquiriu a posição do campo de golfe do Mistério, anunciou, nos meios de comunicação social, que as obras do campo iam prosseguir e que seriam completadas com uma instalação hoteleira. Mas quando principiam as obras?
No entanto, o campo de golfe do Faial, do qual nem se falava antes do campo do Pico, diz a imprensa que vai começar. Lá será necessária a expropriação dos terrenos para a implantação do campo. No Pico, os terrenos são gratuitos…
Em anos passados, não poucos, perguntavam-me porque era contra o Faial. Uma pergunta pouco honesta e um tanto insinuante e malévola. Respondi muito naturalmente:
Não sou contra o Faial, tanto mais que lá tenho uma parte da minha família, mas contra a atitude nada correcta daqueles que têm o poder de mandar, e que são contra o progresso da ilha do Pico. Ilha que não se desenvolveu suficientemente porque as entidades oficiais sediadas no Faial nunca deixaram. E não trago aqui factos para não agravar a situação. Mas parece que o mal continua, em variados sectores, embora as atitudes tomadas sejam envoltas em certa e aparente ingenuidade… no entanto não as trago aqui.
Porque não assume o Município a liderança, à semelhança do que já aconteceu em outros concelhos, da construção de uma unidade hoteleira, constituindo-se para isso uma empresa, à qual se entregaria a respectiva exploração? Não será o empreendimento mais importante a promover o progresso do concelho?
O turismo que nos visita umas horas, muito embora faça uma refeição, não serve para o progresso do concelho. É muito pouco ou quase nada. Temos que criar estruturas que proporcionem a permanência dos visitantes alguns dias. Com as estadas mais ou menos prolongadas, lucra a hotelaria, a restauração, o artesanato e o comércio em geral. E é disso que a Vila das Lajes precisa neste momento em que a vida local está praticamente estagnada e pior ficará se um dia retirarem do centro urbano a escola secundária como pretendem alguns iluminados.
É imperioso dar vida às instalações portuárias, embora sejam elas de dimensão limitada, e dar movimento à vila para que não seja uma terra decrépita e ultrapassada por outras de menor valimento.
Não terei razão? Ao menos deixem-me dar vazão ao que, de angústia, me vai no íntimo. Um dia virá em que de tudo isto se lembrarão.
Vila das Lajes, 1 de Julho de 2008
Ermelindo Ávila

sexta-feira, 4 de julho de 2008

SEMANA DE LOURDES

Há vinte e cinco anos (1883), celebrando o centenário da Festa de Nossa Senhora de Lourdes, foi instituída nesta vila a “Semana dos Baleeiros”, embora esse designativo viesse a aplicar-se somente alguns anos mais tarde. Antes era a “Semana de Nossa Senhora de Lourdes”.
Nesse ano e para a celebração desse acontecimento a Vila das Lajes preparou-se com afã e entusiasmo: alindaram-se as respectivas moradias, melhoraram-se arruamentos, deu-se um ar de festa ao burgo que, assim preparado, celebrou com entusiasmo o faustoso acontecimento.
Foi organizado o Grupo Coral das Lajes do Pico, sob a direcção social e artística do Maestro Manuel Emílio Porto, grupo que tantas noites de glória tem trazido, neste quarto de século, a esta terra.
No corrente ano, como aliás já disse em anteriores textos publicados neste jornal, ocorrem dois factos notáveis e que merecem e devem ser devida e convenientemente lembrados pelos lajenses. Refiro os cento e cinquenta anos das Aparições da Virgem em Lourdes e os cento e vinte e cinco anos da celebração da primeira festa da Virgem Aparecida, nesta Vila das Lajes, hoje designada também por Vila Baleeira. E a Festa é das Lajes. Foram os lajenses que a criaram. São os lajenses que sempre a têm realizado ao longo destes cento e vinte e cinco anos.
Cabe, pois, a todos os Lajenses – Autoridades concelhias e população – celebrar esse duplo acontecimento com dignidade, brilho e entusiasmo, mantendo uma tradição que já vem dos nossos avós. Tem de continuar com a mesma fé e entusiasmo, não só pelos lajenses como até dos picoenses que sempre tiveram uma devoção especial pela Senhora de Lourdes das Lajes. Convêm não esquece-lo. Tanto mais que, nestes dias, está presente em tantas famílias lajenses a memória dos seus antepassados que foram baleeiros, que sempre foram os entusiastas promotores das celebrações anuais. Mas, felizmente, ainda há lajenses que foram baleeiros e que, na ocasião da Procissão, estão presentes no largo da Pesqueira, para homenagear com sentimento e emoção Aquela senhora que os salvou em ocasiões de perigo.
Embora se trate de um duplo acontecimento religioso que muito dignifica a alma do povo picoense, as festividades externas realizam-se desde os primeiros instantes, embora ao jeito dos tempos. E os anteriores não menos dispendiosos eram dos que agora se levam a efeito.
Os arraiais nocturnos com iluminação “à veneziana”, para o qual se trabalhava com semanas de antecedência, concertando as armações e forrando as lanternas com papel de cores diversas; fazendo os muitos arcos de verdura que engalanavam as ruas, presos em rijos mastros, encimados por coloridas bandeiras. Não faltava o fogo preso, com artísticas peças fabricadas por pirotécnicos de Angra e, mais tarde, desta ilha. E para não falar no alojamento gratuito, em casas particulares, dos membros das filarmónicas vindas, normalmente do Faial e, alguns anos, da Ilha de São Jorge.
Hoje a ilha do Pico possui magníficas Filarmónicas e os transportes terrestres permitem deslocações rápidas, sem necessidade de alojamentos. A menos que se recebam filarmónicas de outras ilhas ou do continente, como por vezes acontece.
Mas as festas externas tomaram outra feição e já não se dispensam os artistas de fados e canções, os conjuntos musicais escolhidos e contratados no continente e outras atracções mais.
E, fazendo parte do programas da “Festas Cívicas”, há uma componente cultural que já fez tradição e que é sempre muito apreciada por um escol de lajenses e de visitantes, que fez tradição. Refiro as sessões culturais, com conferências, lançamento de livros e/ou exibições de grupos artísticos, incluindo o nosso Grupo Coral.
Estamos, praticamente a dois meses da realização da Festa de Nossa Senhora de Lourdes. Igualmente da “Semana dos Baleeiros”, que já faz parte do calendário turístico da Região, embora por vezes de forma “apagada”. Naturalmente que a Associação Cultural Terra Baleeira e o Município das Lajes do Pico já tem o programa das festas organizado. Mas importa que os lajenses também colaborem, alegrando as respectivas moradias e dando à vila aquele aspecto festivo que é indispensável para o êxito da Festa de Nossa Senhora de Lourdes e Semana dos Baleeiros, a Festa por excelência dos lajenses.
Neste ano muito especial, deixo aqui, muito singelamente, esse apelo.

Vila Baleeira,
Junho de 2008
Ermelindo Ávila

segunda-feira, 30 de junho de 2008

AS FESTAS DE SÃO PEDRO


(foto: retábulo do altar da Ermida de São Pedro, cuja imagem se encontra ao centro)
Devem ser das mais antigas da ilha, pois a sua igreja (hoje ermida) foi a primeira casa de Deus, onde se realizou o baptizado do primeiro picoense, nascido na ilha, onde teve lugar o primeiro casamento e onde se encomendou o primeiro defunto.
Foi nela que Frei Pedro Gigante celebrou a primeira Missa e consagrou as hóstias produzidas do primeiro trigo que a ilha deu. Uma história linda que até os nossos avós, quase todos desconhecendo as letra do alfabete, sabiam de cor e transmitiam a filhos e netos. Tudo por volta de 1460.
Era solene a festa do orago. Os frades do convento franciscano, enquanto D. Pedro, não extinguiu o convento de Nossa Senhora da Conceição, desta vila, por decreto de 17 de Maio de 1832,(são decorridos 176 anos), deslocavam-se à ermida de S. Pedro para solenizar os actos religiosos.
Em 1677 era mordomo da confraria de São Pedro, o Pe, Pedro Toledo. (Todos os santos de maior devoção tinham a respectiva Confraria, que arrecadava as esmolas e fazia as despesas das festas). Besse ano, a receita da confraria foi de oito mil e trinta reis. Era constituída por esmolas, rendas, um foro, do “tresmalho da rede de peixe do Barco de Francisco Lopes” e de acompanhamentos da cruz em funerais.
Nesse ano a Igreja foi restaurada. As despesas, que no livro de “Receita e Despesa” estão registadas, dizem respeito aos salários dos pedreiro, cal, telha, fretes e carretos, serragem de madeiras, canteiros, pregaduras e varões de ferro, Reformação do Santo. Pregação e Missa da Festa do Santo aos frades, despesas do junco e uma Missa perpetuo por alma de Maria da Cruz
O junco servia para atapetar o chão térreo, pois nessa época as sepulturas eram feitas dentro das próprias igrejas, por ser chão sagrado. Nesse ano o junco custou cem reis.
Pela construção do arco da capela mor, foram pagos aos pedreiros, no ano de 1780, quatro mil e oitenta reis.
Já nos finais do século dezanove, era mordomo João de Deus Macedo, comerciante e pessoa de prestígio no meio, Tanto assim que era o Provedor da Santa Casa, quase perpétuo, e Administrador do Concelho. Tinha grande emprenho nas festas que as Irmandades promoviam. Vale a pena lembrar aqui o que, acerca da Festa, escreveu neste jornal, em 7 de Novembro de 1959, Gilberto Paulino de Castro,” um dos lajenses que, apesar de estar há longos anos afastado desta vila, vivia continuamente os seus problemas e estava sempre presente em todas as iniciativas que visassem o progresso desta terra e a elas jamais furtou o seu apoio”, como estão se escrevia no jornal: Estou a ver a “malta” desse tempo, “engodada” com punhados de alfarroba que o não menos popular e típico João de Deus Macedo, nas vésperas dela (festa) apressado e trepidante, às mãos ambas, arremessava ao formigueiro do rapazio que o seguia até ao largo onde se preparava o arraial (quadrilátero compreendido entre a ‘casa da escola’, a margem Norte da Maré e muros dos quintais dos prédios Sul e Leste) enquanto aquela mocidade esfusiante, assim estimulada, despredregava febrilmente o pavimento enxurrado pelas ‘enchentes’ do último inverno, para que se não molestassem os sapatos de verniz que se ‘espelhariam’ nos vistosos arraiais da véspera e dia de festa”, aos quais não faltava o combate entre o navio e o castelo (peças de fogo de artifício).
No arraial do dia da festa, já quando abrilhantado pela Filarmónica Lajense, distribuíam-se pela assistência rosquilhas de aguardente (de pequeno formato) e na véspera havia vistosa iluminação à veneziana e fogo preso. Mas, com a entrada da República, essas tradições foram caindo no esquecimento.
Em 1940 a Nação Portuguesa celebrou o duplo centenário da Independência e Restauração de Portugal. Promoveram-se pelo País diversas comemorações. O concelho das Lajes, por iniciativa do Município, organizou um programa festivo e nele incluiu o Império de São Pedro, com a distribuição de rosquilhas idênticas às dos Impérios do Espírito Santo. Foi o início. Os lajenses, felizmente, nunca mais deixaram de celebrar a festa com o respectivo Império, Nos últimos anos a Irmandade, alem do Império, começou a distribuir um jantar “do Espírito Santo” em que tomam parte os irmãos, mais de cem, e familiares, além de diversos convidados. Algumas centenas.
Nesse ano de 1940 foi construído e inaugurado no l.º de Dezembro, o Cruzeiro da Independência e Restauração de Portugal, no novo largo, à entrada da Vila, que, felizmente, ainda hoje se conserva para prestígio dos lajenses..
E porque a festa ocorre normalmente em dia de semana – no presente ano é excepção – a Câmara Municipal solicitou superiormente para que o dia 29 de Junho fosse decretado feriado municipal, substituindo o antigo feriado que tinha lugar no dia 15 de Agosto e que, pela Concordata com a Santa Sé, passou a feriado nacional.
Creio que já estas coisas escrevi. No entanto, vale a pena recordá-las como factos históricos cuja memória importa acautelar.

Vila das Lajes,
Junho de 2008
Ermelindo Ávila

quarta-feira, 18 de junho de 2008

OBRAS MARÍTIMAS

No dia 8 do corrente mês foram solenemente inauguradas, pelo Presidente do Governo Regional e com a presença de diversos Secretários Regionais, da Presidente do Município Lajense, outras entidades oficiais, e muitos picoenses, as obras de construção do quebra-mar para a protecção da Vila; o canal de entrada no Porto das Lajes, dragado e alargado; e a construção do núcleo de recreio náutico, na Lagoa (Porto interior) desta vila. Cerimónia que coincidiu “com a evocação do Dia Mundial dos Oceanos”.
Nesta ocasião vale a pena recordar um pouco, num enquadramento histórico que vem a propósito, o que os lajenses têm sofrido e lutado pela defesa da sua Vila.
“O ano de 1725 foi memorável para os habitantes da Vila das Lajes, por uma tempestade marítima que lhes inundou a Vila, causando muitos estragos, nos dias 14 a 20 de Abril. (Hist. 4 Ilhas, Vol. I. pág.219). Nessa ocasião fizeram um voto ao Senhor Jesus das Preces, (cuja imagem tem em muita veneração).”
No dia 26 de Agosto de 1893 um grande ciclone assolou a Vila das Lajes, invadindo o mar alteroso a vila, destruindo as culturas e fazendo outros grandes prejuízos em toda a Ilha. A Família Dabney, ao tempo na Horta, importou dos E. U. muitas toneladas de milho cujo cereal foi distribuído pelos povos sinistrados destas ilhas.
Um jornal da época, “Cartão de Visita”, citado pelo historiador Francisco Borba (Boletim do Museu Etn. da Ilha Graciosa, vol. n.º 5, pág. 107), narra esse acontecimento, dizendo que o povo se reuniu na igreja a fazer preces e concluídas estas, saiu em procissão levando o vigário a pesada imagem do Sr. Bom Jesus. E acrescenta: “Estavam ancorados na Lagoa o hiate S. João Baptista, o cahique Espírito Santo e o Barco Bom Jesus.” As tripulações conseguiram ir a bordo acautelar as amarrações mas, no “Bom Jesus” ficou um jovem de 20 anos, Manuel Machado, que, por não saber nadar, acabou por ser levado pelas vagas não mais sendo visto.
Construído o muro de acesso ao caneiro, a bacia interior era utilizada como ancoradouro das embarcações locais, principalmente no verão, onde permaneciam, ainda em nosso tempo, as lanchas a motor “Lourdes” e “Hermínia”, que faziam o tráfego de carga e passageiros entre os portos da ilha e a Horta. Depois foram também as baleeiras “Margarida”, “Zélia”, “Aliança”, “Gigana”, “Rosa Maria” e os batelões de descarga da E.I.N. que faziam serviço, primeiro ao velhinho “Funchal” e, depois, aos navios “Lima”, “Corvo”, “Terceirense” e a outros cargueiros. Mais tarde foram as traineiras da pesca do atum, enquanto a malfadada fábrica de conservas funcionou…
Em 1936 um violento ciclone derrubou a muralha que suportava a rua marginal da Pesqueira. As obras de reconstrução foram imediatamente iniciadas e, dois anos depois, estavam concluídas. Era Director das Obras Públicas o Engenheiro Angelo Corbal Hernandez que, apesar do seu esforço e da técnica utilizada, não deixou de ser acusado de estar a fazer uma obra onde gastava imenso dinheiro. Não demorou a inspecção que só serviu para louvar o distinto técnico.
(Nessa altura consolidou o muro de acesso ao caneiro de entrada na Lagoa, que nunca fora concluído, muito embora a sua construção fosse autorizada por alvará de 17 de Setembro de 1851.Com o remanescente orçamental, alargou a plataforma da entrada do caneiro, pelo lado mar, pois tencionava instalar aí o porto de desembarque, na zona do Poção. Foi afastado pela política que então aqui se implantara e nunca mais o Engenheiro Angelo Corbal voltou às Lajes. “Voltou-se”,antes, para a Calheta de Nesquim e Ribeiras…)
Em 1843, segundo a “História das Quatro Ilhas”, a Câmara Municipal das Lajes reclamava já a construção de uma muralha em torno da Vila das Lajes. Quase um século decorrido, é iniciado, em 1914, o muro de defesa da Vila, mas o alinhamento que lhe deram não foi aquele que os lajenses desejavam e tecnicamente o mais aconselhável. Lacerda Machado, em artigo publicado no jornal “As Lages”, escreveu que a muralha devia ter sido construída a partir do redondo do muro do caneiro, junto da orla marítima, até ao “Calhau Grosso”. E o mesmo quinzenário, sob o título “Obras da Muralha”, em 15 de Maio de 1914, escreveu: “A largura da muralha que ia seguindo 2 metros, passou para 1,50 portanto menos de meio metro. “
E foi decorrer, novamente, quase cem anos, para que o quebra mar de protecção da Vila fosse construído. No entanto, parece que só vai impedir a entrada do mar bravo na parte norte da Vila, permitindo mesmo assim maior segurança na entrada e no porto interior (Lagoa). Todos se congratulam, pois, com as obras – quebra-mar e construção do núcleo de recreio náutico realizadas – agora inauguradas. Mas parece que não bastam. A parte sul da Vila fica ainda sem segurança. O tempo poderá vir a demonstrar que, as obras agora realizadas são insuficientes para a defesa total da Vila. E a Vila não se pode ser mudada… Já sofreu bastante delapidações. Não continuem com as mutilações que lhe têm imposto e continua a sofrer.
Congratulo-me com as obras realizadas, que trouxeram alguma segurança e valorização à minha terra. Mas espero que não se fique por aí. Algo mais há a realizar. É indispensável continuar com a obra que agora foi principiada. Os lajenses não podem esperar mais um século por novos empreendimentos de fomento e desenvolvimento.
Por hoje mais não adianto.
Vila Baleeira,
13 de Junho de 2008
Ermelindo Ávila

quarta-feira, 11 de junho de 2008

O PICO - A QUINTA ILHA MUNDIAL

Estão a chegar ao fim, pelo que nos é dado observar, os trabalhos de construção da futura marina – porquê, somente “porto de recreio” ? -- do porto das Lajes do Pico. Tudo faz crer que aquele espaço, conquistado à lagoa interior, com óptimo resultado, poderá ser utilizado pela navegação de recreio ainda no corrente ano, o que não deixa de ser uma excelente valia para a Vila Baleeira dos Açores.
Está também a concluir-se a ampliação do Museu dos Baleeiros, que vai trazer àquele instituição melhores condições de funcionalidade.
Mas, para que o turismo se possa implantar nesta terra e venha a ser um factor económico de assinalada valia, importa que outros empreendimentos se realizem com brevidade, pois só assim, todo o conjunto estrutural poderá ser convenientemente utilizado e ser um forte elemento de progresso e desenvolvimento a renovar a economia local.
Interessante o que no Pico se tem feito no sector hoteleiro, principalmente no chamado turismo rural e nas residenciais, já que os hotéis, infelizmente, andam daqui arredados, (propositadamente?) evitando que até as entidades regionais daqui se afastem pela carência de camas condizentes com a categoria dos ocupantes…
Porque se tem protelado a construção do Hotel previsto para o Mistério? Porque se evitou a construção de um estabelecimento hoteleiro junto do parque de campismo?
Um parque jamais poderá substituir um hotel. Demais os ocupantes, durante o verão, são grupos de estudantes, nacionais ou estrangeiros, ou outros visitantes de recursos económicos limitados e que pouco contribuem para a economia local.?!
Afastar qualquer construção de interesse público do meio urbano da vila é contribuir para o seu atrofiamento e aniquilamento. É preciso que isso se compreenda e se tenha em consideração, sem prejuízo do seu património artístico e da sua classificação de zona urbana histórica.
Todavia o turismo não exige somente bons hotéis, devidamente classificados e equipados, servidos por profissionais experientes e simpáticos.
O Whale Watching é uma atracção de comprovados êxitos, mal grado a concorrência de que vai sofrendo. Mas até esses que vêm para observar baleias e outros animais marinhos que aqui, na nossa frente, estacionam meses e anos, pouco se demoram, ou raramente pernoitam, na sua quase totalidade por falta de hotel nas Lajes. Isto sem esquecer a “Aldeia da Fonte”, algo desviada.
O turista deseja, também, ocupar os chamados tempos livres. Aqui recorda-se uma vez mais a necessidade de concluir o campo de golfe. A propósito, chega-nos a notícia de que a empresa “Picogolfe” encontrou novo proprietário que adquiriu “uma participação na Picogolfe com vista ao desenvolvimento de um campo de golfe e um Resort nas Lajes do Pico…”
Mas não há somente que providenciar sobre os momentos de lazer. Algo mais há que ter em atenção, como ainda há dias diziam os intervenientes no programa semanal da RTP, “Prós e Contras”. Cada ilha deve dispor de serviços de saúde capazes de atenderem não somente os casos resultantes de sinistros ocasionais como de outras doenças que surjam ao visitante durante a sua estadia na ilha. E esses serviços não devem ficar simplesmente pela transferência, (embora rápida), em transporte adequado, para uma das ilhas “capitais”. Isso não aceita o visitante estrangeiro, habituado a ter junto da residência a assistência imediata para qualquer caso de doença que lhe surja.
Tudo isso deve ter-se em consideração, se queremos promover as ilhas da Região e nela explorar um turismo eficiente e positivamente promotor de melhoria económica.
A Ilha do Pico, com um potencial turístico enorme, que quase desconhecido e mal aproveitado anda, tem de ser considerada com medidas, embora de excepção, eficientes e rápidas, se não desejamos ver passar ao largo um bem que à Ilha pertence.
Sabemos que “Roma e Pavia não se fizeram num dia”, mas cruzar os braços perante um potencial que, noutras bandas, seria avaramente aproveitado, não deixa de nos causar pena e angústia. Há quantos anos estamos a alertar os Poderes Públicos, sem que haja alguém que nos dê atenção!
Saibamos “vender” por bom preço aquilo que é nosso, que muito é e muito vale: as paisagens, dominadas pela alta montanha, os pôr de sol, o ar que respiramos, a água que bebemos e usamos, o clima ameno e confortável, as frutas deliciosas que mal aproveitadas são, esses mairoços que se espalham pelas terras e que são um testemunho eloquente dos muitos penares e canseiras dos nossos avós que tanto lutaram para nos deixarem os campos verdejantes, as vinhas e as pastagens que ainda desfrutamos… afinal, esse extraordinário património que aí está, agora mal aproveitado e quase abandonado.
Todavia chega-nos a notícia de que o Pico é a 5ª Ilha Mundial em potencialidades turísticas. Será por isso que investidores estrangeiros estão a adquirir terrenos na ilha, por interpostos compradores? Ao menos consta…
Vila Baleeira dos Açores,
Abril de 2008
Ermelindo Ávila