domingo, 4 de maio de 2008

O CENTENÁRIO DO NASCIMENTO DE DOM JAIME GARCIA GOULART

Foi a 8 de Janeiro de 1908 que, na freguesia da Candelária desta Ilha do Pico, nasceu o emérito Bispo de Timor, Dom Jaime Garcia Goulart.
Devo à memória de tão distinto Filho da Ilha do Pico uma referência homenageante, não só pela amizade que sempre me dispensou mas, sobretudo, pela obra de extraordinário vulto que nos deixou, principalmente na Diocese de Timor, de que foi o primeiro Bispo, e igualmente pelos notáveis dotes de Bispo e de Homem de Deus.
Dom Jaime foi para Macau, afim de ingressar no respectivo Seminário de São José, em 1921.Nesse ano havia sido sagrado Bispo de Macau, na Matriz da Horta, seu tio, que viria a ser o Cardeal Dom José da Costa Nunes-
Ainda seminarista, acompanhou Dom José na sua viagem aos Açores, em 1930. Trazia o terceiro ano de Teologia e, no Seminário de Angra, completou o Curso. Foi aí que nos conhecemos. O Seminário vivia um período de transformação pouco adequado à formação dos alunos. Era um ambiente pesado, fiscalizado constantemente por um reitor ao qual faltavam talvez qualidades diria pedagógicas e humanas, para dirigir e orientar cerca de cento e cinquenta jovens das mais diversas idades.
O Seminarista Jaime Goulart vinha de um estabelecimento muito diferente, aberto e humano, sem deixar de ser disciplinado. Desconhecendo o ambiente, passou a viver dentro das normas da casa mas, aqui e ali, procurava expandir-se nos contactos com os colegas, no confraternizar amigo com todos, embora respeitando a disciplina e as separações dos cursos em prefeituras. Nos recreios, jogava, saltava a vara e praticava desportos com alegria e jovialidade, passando a ser uma referência que todos admiravam e respeitavam. ( Presentemente, sou talvez o único “sobrevivente” a dar este testemunho.)
Ordenado em 10 de Maio de 1931 na Paroquial da Candelária pelo tio Dom José, seguiu no fim do verão para Macau, viajando de barco, único transporte que então havia. A viagem, pelo Cabo da Boa Esperança, durava algumas semanas, tempo que, para uns era de férias e, para outros, de algum martírio. Ao partir recebeu do seu Bispo instruções para, semanalmente, enviar para “O Dever”, - que então se publicava em São Jorge sempre sob a direcção Pe. Xavier Madruga, antigo colega de curso e intimo amigo de Dom José - crónicas da viagem que ia fazer. E assim cumpriu. Elas aí estão nas páginas já amarelecidas do jornal, a revelarem já o que viria a ser “a acção pastoral de J.G.G. como padre e Bispo missionário – acção pautada pelo comando do cérebro, nos compromissos livremente assumidos e fielmente cumpridos”. Isto escreveu o Padre Tomás Bettencourt Cardoso na “Nota prévia” de “Textos de D. Jaime Garcia Goulart” por ele coordenados e publicados a quando da sua estada em Macau, em 1999.
E é ainda do P. Tomás este excelente comentário: “A simplicidade e subtileza destas linhas – o começo da VI crónica de Em viagem para a China – são o suficiente para se ficar ciente de que tais crónicas são de um valor inestimável, porque, antes de mais, fruto do esforço ingente do A. para as dar à estampa”.
Ao chegar a Macau o então Pe. Jaime Goulart assumiu as funções de professor de Latim no Seminário e no Liceu, até que, em 1933 foi destacado para Timor onde se conservou até 1937. Voltou a Macau para ser secretário do Prelado, e professor no Liceu e no Colégio de Santa Rosa de Lima. Decorridos dois anos, foi novamente destacado para Timor, primeiro como Vigário Geral e, a seguir, como Administrador Apostólico da nova Diocese, criada em 1940 pelo Papa Pio XII. E aí ficou, para sofrer o doloroso calvário que foi a invasão japonesa, que o obrigou a refugiar-se na Austrália. Penosa e arriscada foi a fuga de Timor pois, além de ser obrigado a descer por rochas altas até ao local de embarque, teve ainda de amparar uma religiosa já de avançada idade e doente. Uma odisseia que D. Jaime contava com algum humor.
Na Austrália recebe a notícia da eleição para Bispo da mesma Diocese. É sagrado na Capela do Colégio Eclesiástico de S. Patrício em Manly, Sydney, na Austrália, no dia 30 de Outubro de 1945, pelo Delegado Apostólico, D. João Panico, com a assistência do Arcebispo de Sidney, D. Normano Gilroy e o Bispo de Armidale, D. João Colemau. Na cerimónia estiveram presentes os Cônsules de Portugal e do Brasil, além de outras entidades civis e religiosas. (A crónica do faustoso acontecimento está em “O Dever” de 12 de Janeiro de 1946 e é da autoria do Pe. Ezequiel Pascoal. )
Dom Jaime governou a Diocese de Timor desde 1940 a 1967, ano em que resignou devido a problemas de saúde. Passou então a residir nos Açores, primeiro na Candelária e Horta e, depois, em Ponta Delgada onde se fixou definitivamente e veio a falecer em 15 de Abril de 1997. Está sepultado no Cemitério de São Joaquim, daquela cidade.
Em 1964 recebeu do Governo Português a Ordem do Infante, no grau de Oficial, modesto galardão para quem levou uma vida a trabalhar, em Terras do Oriente, procurando sempre engrandecer o Padroado, e, sobretudo a ainda terra portuguesa de Timor. Bem mais merecia.
A freguesia natal, a Candelária do Pico, erigiu-lhe uma estátua junto da Paroquial, onde Dom Jaime foi baptizado, fez a profissão de fé, foi ordenado e celebrou a primeira Missa.
Falta a derradeira homenagem: a trasladação dos seus restos mortais para a Candelária, “cuja humilde pacatez não trocava por nada deste mundo”. Este ano centenário seria a ocasião propícia para se promover esse acto de elementar justiça a Alguém que tanto prestigiou e engrandeceu, com a sua nobilitante acção missionária Portugal e, sobretudo, esta Ilha que sempre o respeitou e admirou e orgulho sentia por esse “barão assinalado”, que “em perigos esforçados”, “edificou Novo Reino, que tanto sublimou”, parafraseando Camões..

Vila das Lajes,
15 de Abril de 2008
Ermelindo Ávila.

quinta-feira, 1 de maio de 2008

UM GESTO NOBRE

Emigrou bastante novo para a Califórnia. Por lá andou a vigiar ovelhas e, depois, em ranchos a tratar de vacas.
Não frequentava festas nem mesmo ia ao “Taum” ao domingo, seu dia de folga. Ficava na pequena casa, que o “bosse” lhe havia distribuído, a descansar, para retomar o trabalho na madrugada da segunda-feira.
A sua vida de trabalho era igual à de tantos outros imigrados, só com uma diferença: enquanto eles aproveitavam o domingo para ir divertir-se na cidade ele ficava a retemperar forças para o trabalho da semana seguinte. E assim continuou pelos anos fora.
O dinheiro da féria quase nem lhe tocava. Apenas uns “pesos” para algum fato mais estragado, e só quando o patrão lhe pagava alguma hora extraordinária, porque o cheque da semana ia inteirinho para o Banco.
Fora à América juntar uns dólares para, depois, regressar à sua terra. Tinha deixado moça apalavrada e não queria faltar à sua palavra.
De tempos a tempos, pois os correios eram demorados, recebia carta da família, que, aqui e ali lhe davam notícias da Maria. E por aí ficava.
Foram decorrendo os anos. A saúde não lhe faltou, felizmente, o que lhe permitiu trabalhar sempre. Mas um dia, deu contas à vida. Pediu ao “bosse” autorização para ir ao “taum”, para ver a quantas andava a sua conta no Banco.
Recebido cortezmente pelo funcionário do balcão, disse o que desejava. Foi levado ao gerente que o recebeu com todas as amabilidades, pois era um dos melhores depositantes do Banco. Nem sabia quanto tinha mas, pelas suas contas, devia andar por alguns centos. Afinal, não eram centos mas milhares que lá estavam na sua conta bancária.
Sabia já qual o preço do dólar na sua ilha. Fez contas e concluiu que tinha já um bom pé-de-meia que lhe permitia comprar umas terrinhas e viver sem muito trabalho.
A partir daí começou a preparar-se para regressar. Comprou na “estoa” algumas roupas para si e outras para os pais e irmãos, uns “alvarozes” e umas navalhas para oferecer aos amigos. Pediu à patroa que o auxiliasse na compra de alguns vestidos para a sua Maria. Encheu dois ou três baús. Não se esqueceu de comprar sementes de arvoredo, pois sempre teve intenção de fazer uma mata com madeiras exóticas (americanas). Tudo emalado, com a devida segurança, fez as despedidas e tomou o carro de fogo (comboio) para o Leste, até “Bastão” (Boston). Ali embarcou num navio da Fabre Line, única companhia que navegava para as ilhas. A viagem durou oito dias, até chegar ao Faial. Ninguém o esperava.
Despachada a bagagem na Alfândega da Horta, sem grandes dificuldades (não trazia contrabando), foi até ao cais para fazer viagem no barco do Pico. Na Madalena tomou o carro do Caetano e seguiu para a sua terra. Escusado será dizer que, quando alguém o viu e o reconheceu, foi um alvoroço na freguesia. Improvisou-se em casa dos pais uma grande festa, pois era preciso festejar a chegada do filho que há anos partira dali e poucas notícias dava.
Deu-se depois o encontro com a Maria. Foi acertado o dia do casamento e a boda foi motivo para reunir toda a família.
Entretanto, o nosso Frank não descansou. Principiou logo a indagar onde comprar algumas terras para pão e outras para pastagem, além de terrenos abandonados, nos matos, onde faria a sua “mata”.
Fora da freguesia comprou dos melhores terrenos para semeadura. Para as pastagens adquiriu gado do melhor que havia: vacas de bom leite e bois do Faial.
Estava organizada a sua vida. E tudo passou a decorrer normalmente embora com muito trabalho. Ainda lhe restaram alguns dólares que depositou no Banco. Mas, com esses, teve pouca sorte porque, passados poucos anos, o banco faliu. Valeram-lhe os terrenos comprados em boa ocasião e a mata que ia desbastando e vendendo a madeira para construções.
Os prédios de longe foram arrendados, não por dinheiro mas por milho: um alqueire de terreno, tantos alqueires de milho. E assim foi vivendo sem dificuldades. Cresceram os filhos. Alguns estudaram, o que só era possível a pessoas de rendimentos.
Os rendeiros, pessoas honestas e sérias, cumpriam escrupulosamente seus contratos.
Certo ano, porém, a produção foi muito baixa, pois um grande vendaval estragou os milheiros quando eles estavam ainda verdes. O pobre do rendeiro viu-se aflito, sem ter novidade com que pagar a renda. Mesmo assim, não desanimou. Não queria perder os prédios que lhe davam grande jeito e resolveu, embora com sacrifício, comprar o milho necessário para o pagamento da renda.
No dia habitual, deitou os sacos com milho no carro de bois e seguiu o seu destino até à casa do dono dos prédios, a alguns quilómetros de distância. Quando lá chegou o Frank ficou admirado de ele lhe trazer o milho, pois sabia que, naquele ano, os prédios nada tinham produzido. E assim sendo, não deixou que o rendeiro descarregasse o milho. “Não tiveste culpa do temporal. O prejuízo deve ser para nós os dois. Volta com o milho para a tua casa e para o ano pagarás a renda deste ano que vai correr.”
E assim aconteceu. E a amizade entre aqueles dois homens durou até à morte.
O facto é real. Os nomes são fictícios. Os lugares nem os indico.

Vila das Lajes,
16 de Abril de 2008
Ermelindo Ávila

segunda-feira, 14 de abril de 2008

A VILA BALEEIRA TEM O SEU LUGAR NO CONTEXTO PICOENSE!

Chegou há dias a Primavera, Num gesto de simpatia apareceu o Sol a brilhar e a aquecer. Mas pouco durou. Hoje apareceu a chuva. A montanha do Pico está encoberta por um denso lençol de nuvens escuras. Nem apetece chegar à janela, pois as ruas estão desertas. Parece que o inverno voltou. E cá ficamos “amarrados” a esta cadeira que está em frente da mesa onde rabisco estas linhas para dar um pouco de expansão a este isolamento que me atrofia constantemente.
Quero escrever a crónica que prometi mas não me chega o assunto que desejo. O espírito paira em outros campos, que desconheço, porque por lá nunca passei.
Do correio chega a correspondência. Não é muita. Também mais não esperava, pois os meus velhos correspondentes vão desaparecendo aos poucos. Os que restam não têm por hábito escrever-me mas apenas telefonam, de tempos a tempos. Alguns jornais chegam, mas também o que trazem pouco interesse me desperta. São os crimes, as desavenças políticas, as revoltas em certas nações, os impostos que ora sobem ora descem para tornar a subir, as eleições que ocorrem ou se preparam em determinados países, e já a campanha anda na rua para o próximo acto eleitoral. E os bilhetes que os políticos vão enviando uns aos outros, demonstrando a sua incapacidade de governar com seriedade as nações que habitam. Presidentes que desfazem o lar por motivos de lana caprina, são capazes de governar uma nação? São capazes de publicar leis justas e de defesa da moral e dos sãos costumes? Mas isso acontece naquelas nações que outrora eram conhecidas como exemplares .
Deixemos, porém, essa política brejeira com os seus mentores que, embora se considerem os barões da ciência e da intelectualidade, não passam de aventureiros inexperientes, sequiosos do mando e das alcavalas que possam usufruir.
Os políticos de ontem, que por acaso morreram pobres e andaram de solas rotas, porque os proventos dos cargos mal davam para socorrer algum necessitado que a eles recorria, são classificados de destruidores da Nação que governaram. Os de agora são os grandes beneméritos e os salvadores da Pátria. Esquecem que encontraram os cofres cheios de ouro e que o esbanjaram, para agora andarem na pedincha…
Eu volto à minha janela. Olho o céu e aqui e ali descubro uns raios de sol. Lembro-me que hoje é sábado e que, segundo o velho ditado popular, “não há sábado sem sol…” Não continuo porque, infelizmente, hoje a parte final já não tem aplicação… O horizonte vai desanuviando e daqui a pouco teremos o pôr do sol. Será belo e esplendoroso como são habitualmente os pôr do sol primaveris e outonais?
Estou e sempre estive, desde o recuado momento em que vim ao mundo, numa ilha. Na frente tenho o Oceano, manso e belo no verão mas bravo e impetuoso no inverno. Além apresenta-se a bela montanha, que, durante o dia, oferece diversos aspectos, ora belos ora anunciando tempo agreste. A montanha que mal sabemos apreciar mas que os outros, nossos visitantes, param e nela se extasiam, está hoje coberta com o seu habitual manto de neve, branco, espelhento, a dar vida e encanto a quem a contempla. Depois, esses montes e vales verdejantes, outrora férteis no pão abundante que nos ofereciam, embora com algum trabalho e, que hoje são matagais abandonados onde viceja toda a casta de espécies daninhas. Mas, no seu conjunto, não deixam de nos dar paisagens luxuriantes e amenas, onde a vista se recreia e o espírito descansa na sua contemplação .
Nas encostas, um pouco distantes, por entre os arvoredos, descobrem-se as risonhas habitações dos nativos que por lá se fixaram há séculos e que, mercê do seu trabalho duro e cansativo, transformaram os lugares abandonados, alguns deles ainda com a vala vulcânica fumegante, em sítios de prazer onde levantaram as habitações, os centros de recreio, as pequenas igrejas onde se recolhem, em prece de agradecimento e petição. São as nossas pequenas aldeias, dispersas pelas encostas da ilha, onde vivem povos trabalhadores, sérios e honestos que, em trabalhos de mutua ajuda, vão fazendo progredir exemplarmente os lugares que habitam e deles não querem sair.
Hoje é sábado, como acima disse. Nas ruas não circulam os alunos da Escola Preparatória e Secundária. Ficaram pelas suas terras para voltarem na segunda-feira e para novamente circularem nos próximos cinco dias da semana escolar, como acontece durante todo o ano lectivo. Como eles alegram e dão vida a estas ruas e praças, que diariamente percorrem nos intervalos das aulas! E são os estabelecimentos comerciais – o supermercado, os cafés, as pastelarias e até os restaurantes que têm uma vida nova, que a todos eles empresta essa juventude brincalhona e hilariante. E são as ruas que se enchem de veículos dos funcionários dos diversos Serviços, que estacionam durante o dia enquanto os proprietários cumprem nos serviços os respectivos horários. Entristeço, porém, quando penso que todo esse movimento um dia desaparecerá e a vila irá entrar, maldosamente, nos estertores da morte…Principalmente quando a juventude for aliciada para outras zonas…


Vila das Lajes,
5 de Abril de 08
Ermelindo Ávila

sábado, 5 de abril de 2008

MODERNISMOS...

Estão chegados os novos tempos. Até as horas do relógio já se adiantaram. Tudo vai mudando. As pessoas, o seu trajar, as suas vivências. O mundo que as rodeia.
Todas têm receio dos novos tempos que se aproximam. Mas, afinal, o que é que muda? Os lugares, as paisagens, os campos e as suas produções hortícolas e as sementeiras; o sol que ilumina e aquece, a lua que quebra a escuridão da noite, o mar e os peixes que nele habitam, as aves que enxameiam os parques e os jardins e aproveitam as copas das árvores para nelas instalarem seus ninhos; enfim, todo o mundo habitado pelo ser humano, o próprio homem que, utilizando a inteligência com que foi dotado, procura alterar, dia a dia, os sistemas que estão à sua disposição ?!
Os homens mudam a cada momento que passa. Aceitam de bom grado as pesquisas, as invenções, as descobertas científicas e os novos sistemas de actuação cultural e social. Desprezam, quase sempre, o passado e enveredam por novas vias nem sempre as mais seguras para os levar a um futuro promissor.
A pratica da moral toma novos contornos e tudo se aceita como inovação das ciências.
Os tradicionais, chamados “bons costumes”, são esquecidos ou mesmo desprezados.
A maneira de trajar modifica-se. O vestuário toma novas formas e, das antigas saias caídas até aos tornozelos, passaram as mulheres a usar as mini-saias e saias fingidas, à descoberta do umbigo e, agora, aos próprios seios…Uma modernice que se me afigura sinal de devassidão e despudor.
Os homens ainda mantém as calças e as camisas porque, naturalmente, não lhes será cómodo imitar os ocupantes das selvas africanas e amazónicas. Mas, mesmo assim, substituíram os tradicionais fatos de bom tecido pelas calças de ganga, trajes que, antigamente, só se utilizavam nas fábricas e oficinas e nos trabalhos dos campos. Então, que apreciados eram os “alvaroses”( over all) e as calças de “angrin”, vindos dos E.U. E quanto mais velhos e coçados, mais “elegantes” se tornam para se apresentarem em qualquer acto público. Mais vulgar é agora o abandono da gravata, que passou a “moda elegante”, para acompanhar o progresso. Tudo uma maneira nova de renovar os hábitos clássicos, que, para muitos, se tornaram antiquados e bafientos.
Afinal, um retrocesso que exterioriza o desprezo de alguns por normas e sistemas de sóbrio mas elegante viver.
Estou a ver que algum leitor me vai alcunhar de atrasado, de velho do Restelo. Esquecem-se que a evolução das modas, dos sistemas devem ser feitos cautelosamente, sem apresentarem inovações gritantes e provocantes, num conflito desordenado com um passado recente, digno e respeitável.
Nunca me furtei à evolução das artes, das ciências e dos hábitos e costumes. Antes, sempre os aproveitei, com ordem e tranquilidade, evitando que chocassem e desprezassem a maneira antiga de viver. Tudo tem seu peso e medida. Não desejo voltar aos trajes dos antigos reis e cortesões que, vestindo cedas e brocados, nada cuidavam da higiene corporal. Mas o trajar decente, cómodo e elegante não deve ser desprezado.
E, falando do trajar corporal, recordo os hábitos e costumes que até há bem pouco tempo se praticavam e que hoje são simplesmente esquecidos.
A prática religiosa, está a ser abandonada para dar lugar a um viver mórbido e sensual. Desfazem-se as famílias, abandonam-se os filhos. O que era escândalo passou a ser normal. O crime anda constantemente na rua. Os tribunais enchem-se de processos que, à falta de pessoal, dizem, se vão amontoando nas prateleiras, sem que na rua haja quem evite tanta desordem, tantas arruaças, tantas agressões, tantos assaltos e roubos…
Mas, se as leis ignoram hoje actos de vandalismo, de práticas desonestas, de sensualismo e de atitudes imorais que antes constituíam crimes…
Desapareceu a vergonha e banalizou-se a moral. Qual será o futuro da humanidade?
É caso para se dizer e escrever: Deus super omnia!

Vil das Lajes,
30 de Março de 2008
Ermelindo Ávila

quinta-feira, 3 de abril de 2008

CEM ANOS!

No dia 25 de Março, corrente, celebrou a linda idade de cem anos, a Senhora D. Maria da Encarnação Bettencourt, natural das Lajes do Pico e actualmente residente na cidade da Horta, com sua filha, D. Antónia Bettencourt Xavier.
Presentemente encontra-se recolhida a casa, mas conservando a maior lucidez de espirito. Uma relíquia que muito consideramos e respeitamos desde os recuados tempos da nossa adolescência e juventude.
D. Maria da Encarnação residiu na sua casa da Ribeira do Meio, desta Vila enquanto a saúde lho permitiu.
Foi uma senhora de assinaladas qualidades artísticas. Como alguém me dizia há dias, quando lembrava o centenário de tão distinta lajense, D. Maria da Encarnação tinha umas mãos de ouro. Tudo fazia com gosto artístico e aprimorada beleza. Fabricava primorosamente flores artificiais, as mais variadas, com muita arte. Com elas se adornavam as igrejas, como era habitual até ao principio do século passado. E o requinte artístico era tão esmerado que até as rosas, das mais variadas espécies, eram perfumadas, o que lhes dava a sensação de serem naturais. Os arranjos de flores, para noivas, festas religiosas ou funerais eram de aprimorado feitio e gosto. Pintava a carvão, retratos ou paisagens, com elegância e beleza artística. Além de outros trabalhos manuais.
Tudo sabia executar com arte e perfeição.
Como mestras teve a antiga professora D. Maria de Lourdes e a artista D. Virgínia de Lacerda.
Era conhecida por Maria Caxetinha e foi casada com Manuel Bettencourt. É mãe do Engenheiro José Maria Bettencourt e de D. Antónia Bettencourt Xavier, viuva do Engº Tec. Raúl Pedro Xavier.
Falar de D. Maria da Encarnação Bettencourt é recordar Alguém que, nesta vila, era muito querida e estimada pelos seus dotes morais e intelectuais. Uma Senhora que todos respeitavam e admiravam. Com o marido emigrou há anos para os Estados Unidos, onde tinha familiares muito chegados. Depois regressou a Portugal, na década de 90, esteve alguns anos em Lisboa, com o filho, Eng. José Maria. Algum tempo depois, voltou aos Açores e fizou residência na Horta, em casa da filha, D.António, onde vive, presentemente, rodeada do carinho e desvelados cuidados da filha e netas.

Deixámos de a ver e de com ela contactar mas a sua Figura distinta não mais nos esqueceu. Recordamo-la com muito respeito e aquela amizade que nasce na juventude e nunca mais esquece. Valeu-me, porém, para este escrito, a amiga comum, Dra Luisa Machado Rodrigues, que sei, vai estar também presente no centenário da nossa querida e venerável conterrânea.
Não desejo exagerar as qualidades invulgares de D. Maria da Encarnação Bettencourt. Estou somente a lembrar uma Lajense que marcou uma época artística na nossa terra, e que agora celebra cem anos de existência. Um acontecimento invulgar para a maioria dos mortais.
E neste recordar de tantos anos passados, presto aqui a minha homenagem sentida e amiga a tão distinta Senhora que, apesar das suas extraordinárias qualidades e valências artísticas, sempre viveu recolhida e como que apagada, não passando para alguns de uma simples mas exemplar esposa e mãe.
Sei que os filhos, D. Maria Antónia Brum Xavier e Engenheiro José Maria Bettencourt, Netos e mais familiares, se sentem orgulhosos do Pai, da Mãe e dos Avós que tiveram. Nesta hora jubilar, junto da Mãe e Avó, recebem por isso dos parentes, amigos e conhecidos, efusivas felicitações por tão faustoso acontecimento.
Parabéns, por este dia, à Veneranda Aniversariante e aos respeitáveis Filhos e Netos, com os votos de que o Senhor Ressuscitado, conserve , para alegria de todos, a D. Maria da Encarnação Bettencourt.
Vila das Lajes,
25 de Março de 2008
Ermelindo Ávila

terça-feira, 1 de abril de 2008

Que turismo nos espera?

Estão a chegar ao fim, pelo que nos é dado observar, os trabalhos de construção da futura marina do porto das Lajes do Pico. Tudo faz crer que aquele espaço, conquistado à lagoa interior, com óptimo resultado, poderá ser utilizado pela navegação de recreio ainda no corrente ano, o que não deixa de ser uma excelente valia para a Vila Baleeira dos Açores.
Mas para que o turismo se possa implantar nesta terra e venha a ser um factor económico de assinalada valia, importa que outros empreendimentos se realizem com brevidade, para que assim, todo o conjunto estrutural seja convenientemente utilizado e seja elemento de progresso e desenvolvimento a renovar a economia local.
Interessante o que no Pico se tem feito no sector hoteleiro, principalmente no chamado turismo rural e nas residenciais, já que os hotéis, infelizmente, andam daqui arredados, (propositadamente?) evitando que até as entidades regionais daqui se afastem pela carência de camas condizentes com a categoria dos ocupantes…
Porque se protelou a construção do Hotel previsto para o Mistério? Porque se evitou a construção de um estabelecimento hoteleiro junto do parque de campismo?
Um parque jamais poderá substituir um hotel. Demais os ocupantes, durante o verão, são grupos de estudantes, nacionais ou estrangeiros, ou outros visitantes de recursos económicos limitados e que pouco contribuem para a economia local. ?!.
Afastar qualquer construção de interesse público do meio urbano da vila e contribuir para o seu atrofiamento e aniquilamento. É preciso que isso se compreenda e se tenha em consideração, sem prejuízo do seu património artístico e da sua classificação de zona urbana histórica.
Todavia o turismo não exige somente bons hotéis, devidamente classificados e equipados, servidos por profissionais experientes e simpáticos.
O Whale Watching é uma atracção de comprovados méritos, mal grado a concorrência de que vai sofrendo . Mas até esses que vêm para observar baleias e outros animais marinhos que aqui, na nossa frente, estacionam meses e anos, nem por cá pernoitam, na sua quase totalidade, por falta de hotel. (Isto sem esquecer a “Aldeia da Fonte”, algo desviada)
.(Um dos operadores disse-me há dias que uma baleia, com uma falha no rabo, estaciona na baia das Lajes, que ele saiba, há mais de sete0 anos.)
O turista deseja, também, ocupar os chamados “tempos livres” . Aqui recorda-se uma vez mais a necessidade de concluir o campo de golfe ou encontrar novo espaço onde se possa instalar um novo campo, pois o Mistério é enorme – cerca de cinco hectares de terreno, com três quilómetros de largura, junto da ER., que ninguém aproveita.
Mas não há somente que providenciar sobre os momentos de lazer. Algo mais há que ter em atenção, como ainda há dias diziam os intervenientes no programa semanal da RTV, “Prós e Contras”. Cada ilha deve dispor de serviços de saúde capazes de atenderem não somente os casos resultantes de sinistros ocasionais como de outras doenças que surjam ao visitante durante a sua estadia na ilha. E esses serviços não devem ficar simplesmente pela transferência, (embora rápida), em transporte adequado, para uma das ilhas-“capitais”. Isso não aceita o visitante estrangeiro, habituado a ter junto da residência a assistência imediata para qualquer caso de doença que lhe surja.
Tudo isso deve ter-se em consideração, se queremos promover as ilhas da Região e nela explorar um turismo eficiente e positivamente promotor de melhoria económica.
A Ilha do Pico, com um potencial turístico enorme, que quase desconhecido e mal aproveitado anda, tem de ser considerada com medidas, embora de excepção, eficientes e rápidas, se não desejamos ver passar ao largo um bem que à Ilha pertence.
Sabemos que “Roma e Pavia não se fizeram num dia”, mas cruzar os braços perante um potencial que, noutras bandas, seria avaramente aproveitado, não deixa de nos causar pena e angústia.
Saibamos “vender” por bom preço aquilo que é nosso, que muito é: as paisagens, dominadas pela alta montanha, os por de sol, o ar que respiramos, a água que bebemos e usamos, o clima ameno e confortável, as frutas deliciosas que mal aproveitadas são, esses mairoços que se espalham pelas terras e que são um testemunho eloquente dos muitos penares e canseiras dos nossos avós que tanto lutaram para nos deixarem os campos verdejantes, as vinhas e as pastagens que ainda disfrutamos. Afinal, esse extraordinário património que aí está, agora mal aproveitado e quase abandonado.

Vila Baleeira dos Açores,
Março de 2008
Ermelindo Ávila

No Lançamento do livro "BALADA DAS BALEIAS"

Julguei que não voltaria a esta sala com a incumbência de “botar palavra”.
No entanto, novamente aqui estou para colaborar, apenas, no lançamento de um livro que fala de baleias e que aqui é trazido para apreciação dos lajenses, aqueles que foram baleeiros, e poucos são e aqueles outros que não sendo baleeiros, viveram e vivem ainda intimamente essa actividade que tanto prestigiou esta Vila Baleeira.
Também não fui baleeiro mas tive familiares baleeiros. Meu avô, Ermelindo dos Santos Madruga, foi um baleeiro em terras americanas e aqui igualmente. Para cá trouxe, no sangue e na alma, a arriscada faina de apanhar baleias. Ajudou a fundar a Companhia das Senhoras, cujo nome oficial era “União Lajense, Limitada”. A sede ou “casa dos botes” é aquela que, incorporada neste Museu, fica junto da oficina de ferreiro. E tive tios e primos e, porque não, bons e excelentes amigos e até afilhados que desde a juventude se dedicaram à caça da baleia. Foi até um deles que, contra todas as determinações oficiais, apanhou a última baleia que deu entrada neste porto lajense, e a última caçada nas diversas ilhas do Arquipélago. – Refiro Manuel Macedo Portugal de Brum.
Este livro, pelo documentário fotográfico que contem, é já um livro histórico. Nele se encontram pessoas, as canoas, as baleias, um conjunto de elementos que já constituem peças do passado, passado do qual nos orgulhamos e vangloriamos.
“BALADA DAS BALEIAS” é lançado no Museu dos Baleeiros. Está no lugar certo. O Museu onde nos encontramos, é a instituição mais rica e histórica da Ilha do Pico. Aqui se arquiva e revive o Passado, de saudosa memória. Um passado de que, repito, todos os lajenses e picoenses, se devem orgulhar.
Razão tinha quando, em l6 de Fevereiro de 1969 (artigo que o diário “Açores” então publicou) escrevi: “Hoje, a caça à baleia, a indústria baleeira, melhor dito, vive os derradeiros momentos”. E terminava o texto: “E quando a actividade fosse apenas histórica notícia, dísticos descritivos serviriam para elucidar os visitantes, das designações e utilidades dos diversos apetrechos e palamenta, porque então o MUSEU BALEEIRO (assim o designei) seria, realmente uma atracção turística. Não valeria a pena pensar-se a sério no Museu, antes que tantos valores artesanais se percam ou vão enriquecer os museus doutras terras? – Salvemos enquanto é tempo, o nosso património histórico”. (1)
Felizmente que alguém ouviu o meu grito de alarme. O Museu dos Baleeiros – a beneficiar de uma ampla ampliação - (e não o museu baleeiro, que isso pouco importa), é uma realidade a enriquecer o património cultural e histórico desta que, jamais deixará de ser a Vila Baleeira.
A cerca de quarenta anos de distância, cá nos encontramos todos dentro destas paredes históricas a celebrar um acontecimento que não deixa de ser igualmente histórico e enriquecedor do Património lajense.
Por aqui fico. Desculpai-me a pobreza do dizer e a evocação de um passado que só a minha avançada idade podia permitir .
_______
1) Ávila, Ermelindo, in “Crónicas da Minha Ilha” – 1995, pág.127.

Vila Baleeira, Museu dos Baleeiros, 28 de Março de 2008
Ermelindo Ávila

terça-feira, 25 de março de 2008

DOUTORA NORBERTA AMORIM

A Doutora Norberta Amorim, é uma das figuras literárias e científicas mais distintas e brilhantes, não somente na ilha natal mas em todo o Portugal . Mundialmente conhecida pelos seus eruditos trabalhos de investigação da Demografia Histórica, tem um curriculum literário e científico que muito a enaltece e é motivo de júbilo para os seus conterrâneos.
É sabido o trabalho de investigação e de promoção que dedicadamente tem desenvolvido na sua freguesia natal. Mas, mais do que isso, é empolgante a sua carreira como professora e investigadora. E, para que as minhas modestas palavras, não venham a enfuscar o brilho da sua notável , mas até propositadamente obscura, vida cultural, permito-me transcrever, com a devida vénia, o que a jornalista Helena Mendonça, escreveu na revista “Notícias Magazine” de 23 de Setembro do ano findo e que aqui se transcreve, em parte, com a devida vénia.
« Histórias da vida e da Morte - Não é só a história de um projecto de investigação que hoje aqui trazemos. Se essencialmente no percurso da linha de investigação em Demografia Histórica do Núcleo de Estudos da População e Sociedade (NEPS) da Universidade do Minho (UM), que se cruza com a história de vida da investigadora que a criou há quarenta anos, algum tempo depois de deixar a sua ilha do Pico, contra a vontade da mãe, para cumprir o sonho de viver e estudar na capital. Norberta Amorim tinha 21 anos, um diploma do Magistério Primário e dois anos de ensino. Em Lisboa inicia o curso de História, mas é no Porto que o termina, porque o jovem licenciado em Medicina com quem entretanto casou foi colocado no Hospital de Bragança. Estava dado o mote para o início de uma investigação pioneira e interminável que tem dado a conhecer a vida quotidiana dos portugueses de tempos remotos.»
«… Norberta Amorim … começa a estudar os registos paroquiais de Rebordão, uma antiga vila perto de Bragança. Ainda sem conhecer o trabalho (do francês Louis) Henry, cria uma metodologia própria de reconstituição de famílias. Apresenta tese em 1971 e em 1973 a Imprensa Nacional publica o trabalho, considerado pioneiro a nível ibérico… Nos tempos livres, entre a docência no liceu de Bragança e a família, mergulha nos registos. Apenas por gosto. Trabalha sobre mais duas paróquias de Bragança, até que o marido é colocado em Guimarães.»
« A primeira coisa que faz depois de se instalar é visitar o arquivo da cidade. Fica fascinada com a riqueza da documentação. Sente-se como peixe na água. -Traça um plano de trabalho e lança-se no estudo de dez paróquias, urbanas e rurais, tudo feito à mão em fichas que se iam empilhando sobre a secretária. Os computadores eram ainda uma miragem, O historiador e professor da Faculdade de Letras do Porto, Luís António de Oliveira Ramos, toma conhecimento do trabalho da investigadora e lança-lhe o desafio: ”Há muita gente na universidade que não faz o trabalho que a senhora está a fazer- Devia fazer o doutoramento.” Norberta Amorim tinha já muita investigação feita e até uma inovação em relação à metodologia de Henry. Enquanto o demógrafo francês reunia informações sobre famílias em função do apelido do pai, Norberta criou uma estratégia para estudar a família a partir do indivíduo, dado que em Portugal não havia rigor na transmissão de apelidos aos filhos, recorrendo-se frequentemente aos apelidos do lado da mãe. Candidata-se a doutoramento na Universidade do Minho, em 1984 e um ano depois defende a tese com sucesso.»
« …a investigadora entusiasma-se sempre que fala nos contributos do estudo de dezenas de paróquias – sobretudo do Norte 0e dos Açores, mas também de algumas do Centro e Sul do país – para conhecimento do quotidiano das populações a partir do século XVI…»
«… Os registos paroquiais não se limitavam às datas dos baptizados, casamentos e óbitos. Dependendo do gosto e da dedicação dos padres a este trabalho, neles encontram-se frequentemente ricas descrições dos momentos marcantes da vida dos paroquianos: como nasceram, a ascendência, com quem casaram, quantos filhos tiveram, se eram ricos ou pobres, estimados ou não, se deixaram esmolas, como morreram, que mortalha levaram nos funerais…»
«… Daqui para a frente, contudo, Norberta Amorim já não surgirá como coordenadora dessas pesquisas. Cumpridos 37 anos de docência, decidiu, há quatro anos, aposentar-se para se dedicar mais à investigação e acompanhar o marido na doença. Estava longe de imaginar que essa opção a impediria de continuar a liderar projectos de investigação. Mas a mágoa que transparece ao contar o que sente como uma injustiça logo se dissipa quando descreve a pesquisa que domina agora os seus dias, sobre a base de dados demográficos do Pico. Uma parte dos resultados desse trabalho, publicado em livro, foi apresentada em Agosto, nas Lajes do Pico, durante a Festa dos Baleeiros.»
O artigo da Revista “Notícias Magazine” está ilustrado com fotografias de Ricardo Meireles.
A Doutora Norberta Amorim publicou já os seguintes trabalhos sobre a Ilha do Pico: O PICO – Abordagem de uma Ilha – Vol. I : – As Famílias de S. João nos finais do Século XIX – 2004, com a coordenação do Doutor Ricardo Madruga da Costa; Tomo II- “ As Famílias de Santo Amaro nos finais do século XIX” –2005”; Tomo III - “As Famílias no espaço de São Caetano entre os séculos XIX 4e XX” – 2006; e, Tomo IV – As Famílias das Lajes (1ª Parte) nos finais do século XIX” - 2007.
Ler e apreciar estes doutos e magníficos trabalhos, reveladores de uma erudição e cultura invulgares, é penetrar no passado desta ilha e conhecer, com respeito e admiração o que foi o viver sacrificado por vezes, das gerações passadas dos nossos avós.
Afinal, o trabalho de investigação invulgar, de uma Picoense, natural da freguesia de São João, filha de D. Inácia de Simas, natural daquela freguesia e de João Bettencourt (Cardoso), natural das Lajes do Pico diga-se de passagem, investigadora de renome internacional que muito nos honra e é motivo de justificado orgulho para todos os seus conterrâneos e muitos admiradores.
Segundo estou informado, na obra em curso da Doutora Norberta Amorim, a freguesia das Lajes ocupará mais dois ou três tomos.

Vila das Lajes.
Março de 2008
Ermelindo Ávila

domingo, 23 de março de 2008

Dia de São Vapor

Era um dia de festa o “Dia de S. Vapor”. Nas diversas cidades ou vilas onde aportavam quinzenalmente (em Ponta Delgada e Angra os barcos passavam, ou na vinda de Lisboa ou no regresso das Ilhas, normalmente todas as semanas), aos portos das Ilhas, muitos dos seus habitantes juntavam-se nas imediações do cais de desembarque para verem se chegava alguma pessoa conhecida. Mas o mesmo acontecia em Lisboa quando os barcos da Insulana partiam ou regressavam das Ilhas. Quantos açorianos – em Lisboa não se destinguiam as ilhas – residentes na Capital, só se encontravam nesses dias!… Era um saber de notícias da terra, um matar saudades…
Quando os barcos chegavam aos portos das ilhas, alguém trazia para terra um jornal publicado quinzenalmente por açorianos residentes em Lisboa, intitulado, “Portugal, Madeira e Açores”, onde se divulgavam notícias as mais variadas e sobretudo o movimento oficial do funcionalismo público, extraído do “Diário do Governo”, tais como: nomeações, transferências, aposentações, etc.
Conta-se que o Conselheiro António José Vieira Santa Rita, que esteve à frente do distrito da Horta como Governador Civil, entre os anos de 1834 e 1877, tinha por hábito, deslocar-se ao Cais de Santa Cruz, na Horta, para aguardar as notícias vindas nos vapores de Lisboa e que eram trazidas de bordo por um indivíduo que a isso se dedicava. Em certa viagem, o citado arauto, ainda no barquinho, ao aproximar-se do cais, levanta o “Portugal, Madeira e Açores” e grita: “O Governador Santa Rita foi demitido”. Parece que Santa Rita, montado numa burrinha, seu meio de transporte, - pois era defeituoso das pernas – ao ouvir o “pregão”, lhe deu uma síncope e caiu da burrinha abaixo. Certo ou não, referindo-se ao Governador Santa Rita, escreve o historiador Marcelino de Lima nos “Anais do Município da Horta”, (1943, pág. 368/9): “ Não era faialense; mas é como se fosse, pelo muito que viveu na ilha do Faial, administrando sempre muito zelosa e inteligentemente o distrito, durante largos anos, em tempos dos mais difíceis, 1834 a 1877, com três pequenas interrupções.)… Por fim, porque não servia a política como queriam, foi exonerado, recolhendo de vez a casa…”
Para quem vivia em Angra, era agradável chegar ao mês de Maio e aguardar que o facho, colocado no Pico Alto, do Monte Brasil, desse sinal da aproximação de uma embarcação vinda das “Ilhas de Baixo”. Nos anos em que vivi naquela cidade era a “Calheta”, pertencente ao porto da Calheta de Nesquim, do Pico que, durante a época estival, ligava semanalmente as ilhas do Faial, Pico, São Jorge e Terceira. Que óptimos serviços prestou às populações destas quatro ilhas! Em Angra era recebida como se se tratasse de um dos barcos da Insulana. Principalmente os picoenses e jorgenses residentes na Cidade, corriam para o Cais e raro era aquele que não recebesse um caixote ou um cabaz da família com lembranças da ilha. E tudo era desejado e apreciado! Mas o melhor seria mudar de tema. Todavia, quase um século é decorrido e, durante estes longos anos, tanta coisa se modificou que, por vezes, torna-se difícil recordar o passado, pela mágoa que causa. No entanto vale a pena recordar…
No “Lima”, que mensalmente passava no Porto das Lajes, vinham, além dos passageiros, que não eram muitos, a mala postal e a carga diversa principalmente para o comércio, porque quase tudo era importado . O mesmo acontecia no Cais do Pico com o “Carvalho Araújo”. Algumas vezes sucedia, normalmente no inverno, vir o barco atrasado e a mala só chegar à Estação Telégrafo – Postal, a altas horas da noite. Mas nem por isso deixava de ser distribuída, porque os funcionários diligenciavam para que a correspondência, especialmente as cartas, fossem entregues aos destinatários com a maior brevidade, permitindo a muitos responder no regresso do barco. Um serviço dedicado, e sem o pagamento de quaisquer horas extraordinárias, pois elas não eram nem exigidas nem conhecidas…
Com a entrada do “Funchal” ao serviço do continente e ilhas, e, nos Açores dos “Carvalhinhos” – “Cedros” e “Arnel” - o progresso resultou num atraso bastante danoso para a economia destas ilhas. As chamadas “Ilhas Secundárias” sofreram um golpe quase mortal no desenvolvimento das respectivas economias. O sistema pode ter sido benéfico para os armadores e para as cidades, então capitais de distrito, mas foi altamente prejudicial para as restantes ilhas, que ainda hoje sofrem os pérfidos resultados desse “progresso”.

Vila das LAJES,
13 de Março de 2008
Ermelindo Ávila

quarta-feira, 19 de março de 2008

ALELUIAS PASCAIS

(Foto do interior da basílica da Santíssima Trindade-Fátima)



Estamos na Grande Semana. A semana em que o povo cristão comemora a Paixão, Morte e Ressurreição de Cristo, o Redentor.
Naturalmente que hoje a Páscoa é apenas lembrada pelas férias que se gozam nos estabelecimentos escolares, à parte as lutas e as contestações que por aí se espalham, a propósito de medidas que, talvez, pouco ou muito pouco, vão contribuir para o progresso do ensino escolar…
Mas, nesta sociedade de consumo em que se vive, também é de assinalar os negócios que se fazem com as amêndoas e doçarias próprias da época.
Antigamente, - e lá vou eu recordar o passado… - a Semana Santa era vivida com recolhimento e devoção. Todos procuravam respeitar a comemoração da Paixão e Morte de Cristo, o Redentor.
A meados do século passado, com as reformas tributárias introduzidas pelo governo de então, principiaram a vir funcionários continentais chefiar os respectivos serviços de finanças. Um deles não era nada afeito às práticas religiosas e até se dizia agnóstico… Porém, na Sexta - Feira Santa apareceu com gravata preta. Alguém fez-lhe o reparo, julgando até que lhe tinha falecido alguma pessoa da família. Ele respondeu-lhe simplesmente: “Então, hoje não é Sexta - Feira Santa? Na minha terra é hábito usar-se luto neste dia “. E a conversa ficou por aí. Afinal, uma lição!
Agora seria com certeza diferente…
As cerimónias litúrgicas eram bastante concorridas. Não faltavam homens para tomarem as insígnias ou levar os andores nas procissões. Alguns tinham opas suas, que todos os dias traziam de casa para a Igreja, com a maior simplicidade e respeito, afim de auxiliarem nos actos litúrgicos.
Antes, terminado o Carnaval, fechavam-se os salões das sociedades. Acabavam as danças e os bailes e entrava-se num tempo de certo recolhimento. Aos domingos, se não se realizavam as chamadas procissões quaresmais – Procissão de Penitência, com várias Imagens, no primeiro e Procissão de Passos no terceiro - havia à tarde, na igreja paroquial, com boa assistência de fieis, a Via-Sacra, com cânticos apropriados.
O tempo da Quaresma era especialmente destinado ao cumprimento dos 2º e 3º Preceitos da Santa Igreja: “Confessar-se ao menos uma vez por ano” e “Comungar ao menos pela Páscoa da Ressurreição”.
Na Paróquia da Santíssima Trindade da Vila das Lajes do Pico era organizado anualmente o “Rol dos confessados”, “contendo toda a população existente no dia 31 de Dezembro” anterior.
No ano de 1878 – cento e trinta anos são decorridos – a freguesia, que ia do Soldão às Terras, tal como hoje a freguesia civil, tinha 3257 habitantes, sendo 1141 do sexo masculino, 1575 do sexo feminino e 541 crianças com menos de sete anos, vivendo em 806 fogos. E, ao menos nesse ano, todos cumpriram o preceito. Anote-se que o excessivo número de indivíduos do sexo feminino resultava do grande número de “maridos ausentes”, ou seja emigrados no estrangeiro.
No tempo da minha adolescência, as amêndoas só eram distribuídas após o sino tocar festivamente, nas respectivas igrejas, ao canto do Aleluia. E até aí o rapazio aguardava esse momento para deitar o pião, pois, durante as semanas da Quaresma, os pais não lhes permitiam esse singelo divertimento.
Os folares, que todas as famílias habitualmente coziam, só eram partidos no almoço do Domingo de Páscoa. Até mesmo as “brindeiras” que se coziam para os miúdos, conjuntamente com os folares, eram reservadas para essa ocasião. Costumes simples mas com um significado cristão muito expressivo, que todo o povo, mesmo aquele que não era muito afeito às práticas religiosas, procurava respeitar a tradição.
Hoje, como são diferentes estes tempos! Pois se o Poeta já dizia: “Como é diferente o amor em Portugal”! E o amor é um sentimento muito terno, quando compreendido na sua verdadeira acepção.
Presentemente, logo que terminaram as folganças festas carnavalescas, as montras dos estabelecimentos comerciais (modernamente os super e hiper-mercados) apresentaram-se atulhadas de amêndoas, das mais variadas qualidades.
Diz-se que vivemos numa sociedade de consumo… Pois que seja. Lucram os negociantes ou empresários e despejam as bolsas os homens e as mulheres que, quantas vezes, passam os dias entregues aos serviços mais rudes.
Nesta quadra festiva aqui deixo, com o maior respeito e sinceridade, BOAS FESTAS PASCAIS a todos os leitores e pessoas amigas e conhecidas.

Vila das Lajes,
Páscoa de 2008-
Ermelindo Ávila