quinta-feira, 13 de março de 2008

FROTA BALEEIRA

A frota baleeira lajense foi dispersa por essas ilhas e anda agora numa azáfama enorme.
Voltaram às regatas já que outra utilidade não têm as airosas canoas. E não se têm sucedido mal. Foram à Galiza e arrancaram de lá os troféus. Voltaram agora para os Estados Unidos e no porto baleeiro de New Bedford foram os marinheiros picoenses e faialenses mostrar, uma vez mais, o seu valor de homens do mar, já que não é a primeira vez que ali se deslocam.
Por cá as regatas programadas pelos serviços regionais, têm-se realizado em alguns portos açorianos, principalmente pelas festas principais, fazendo parte dos respectivos programas. Todavia não é só agora que isso acontece. Sempre assim sucedeu ao longo dos anos.
A canoa baleeira, que substituiu as que eram importadas dos Estados Unidos , uma criação do lajense Francisco José Machado no último quartel do século XIX, .- um homem que anda esquecido e cuja memória de artista invulgar bem merecia ser perpetuada - sempre foi “requisitada” para tomar parte em regatas. Uma embarcação conhecida como a mais bela do mundo, na opinião de críticos náuticos. A primeira que Mestre Francisco José, como era conhecido, construiu, denominava-se “SÃO JOSÉ”. Afastava-se algo das canoas importadas até então dos E.U pela sua elegância e condições náuticas. E serviu de modelo às dezenas ou centenas que passaram a ser construídas pelos artistas picoenses..
Há anos foram os botes lajenses tomar parte numa regata realizada na baía de Angra e integrada nas Festas da Cidade. A vitória foi sua. Aquando da visita régia, a 28 de Junho de 1901, à cidade da Horta, os Reis D. Carlos e D. Amélia viajaram no cruzador D. Carlos e foram recebidos por uma esquadrilha de canoas-baleeiras, a remos, que contornaram o navio e o acompanharam ao ancoradouro. No dia seguinte à chegada das Magestades, houve regatas, à vela e a remos, de canoas baleeiras e embarcações de recreio. Os régios visitantes assistiram às provas a bordo do cruzador S. Gabriel .
Não nos diz o historiador quem ganhou a regata mas sabemos que foram duas canoas das Lajes, pertencentes, respectivamente, às companhias das “Senhoras “(União Lajense, L.da) e “Judeus” (Nova Sociedade Lajense, L.da). D. Carlos ficou muito satisfeito com a homenagem dos baleeiros (que nas ruas da cidade haviam já levantado um artístico arco triunfal que se destacou entre os demais), e veio a oferecer, às armações proprietárias das duas canoas vencedoras, uma canoa baleeira.
No tempo as armações baleeiras eram sociedades irregulares. As embarcações eram registadas no departamento marítimo em nome do gerente “e outros”. Nessas condições estavam matriculadas na Delegação Marítima, no ano de 1897, 16 canoas das Lajes, 4 das Ribeiras, 3 da Calheta e 4 do Cais do Pico. Quando foram estabelecidas as zonas baleeiras, por força do Decreto 39 657, em 1935 a actividade baleeira era exercida por 107 baleeiros, nas Lajes, com 23 canoas e 5 lanchas motorizadas; 74 nas Ribeiras, com 9 canoas e 2 lanchas; e 40 na Calheta, com 5 canoas e 2 lanchas, no total de 36 embarcações (canoas e lanchas) e 231 baleeiros.
A baleação deve ter sido iniciada nesta vila a meados do século XIX. O primeiro armador João Paulino Narciso da Silveira armou um brigue, aí por volta de 1850, mas a sorte não o bafejou. Mais tarde, precisamente em 28 de Abril de 1876, é constituída a primeira armação, com contrato escrito, entre os Dabney’s, comerciantes e industriais americanos instalados na Horta e Anselmo Silveira, antigo Capitão de baleeiras americanas, regressado e residente na sua freguesia natal, a Calheta de Nesquim.
No porto de S. João foi instalada uma armação, pertencente aos Maciéis. O ciclone de Agosto de 1893 destruiu as instalações terrestres e eles acabaram por vender as canoas para o porto das Lajes, ficando a respectiva armação conhecida por “Queijeiros”.
Por força do Regulamento para a pesca da baleia, de 12 de Agosto de 1902, as armações então existentes foram obrigadas a constituírem-se em sociedades comerciais. Em algumas das escrituras notariais, lavradas em Junho e Julho de 1904, constava: ”Tendo há anos no porto desta Vila, uma sociedade particular para a pesca da baleia, cachalotes e outros similares, e venda do respectivo produto – a vem pela presente escritura constituir legalmente a mesma sociedade.” Em 1918 e 1929 novas escrituras foram outorgadas por força de legislação então publicada.
Todavia, a actividade baleeira foi preocupação do Governo que, durante mais de um século, publicou diversa legislação reguladora da pesca. Por Lei de 26 de Maio de 1862 foram concedidos certos benefícios aos navios, utensílios e indivíduos que se empregassem na pesca da baleia. Por Lei de 10 de Abril de 1877 foi prorrogada por mais 10 anos a lei de 26-5-1862. E por Portaria de 14 de Abril de 1886 foi estabelecidas normas para a execução das Leis citadas.
Em 1918 e em 1929 os pactos sociais tiveram de ser reformulados por exigência das leis publicadas nesses anos.
Em 30 de Abril de 1929 “O Dever”, em correspondência das Lajes, dava notícia de que, no dia 21 daquele mês havia sido lançada à água “uma linda lancha com motor de grande força destinada à pesca da baleia, construída nesta Vila pelos habilíssimos artistas Manuel, Joaquim e António José Machado filhos do falecido artista Francisco José Machado” Tratava-se da lancha “Zélia”, . A nova armação, conhecida por “Companhia da Zélia”, construiu ainda a canoa “Ester” e passou a girar sob a firma Joaquim José Machado, que mais tarde passou à sociedade ”Joaquim José Machado, L.da.”
Depois uma nova legislação obrigou ao estabelecimento de “Zonas” para a pesca da baleia. Uma medida controversa que, em vez de deixar livre a actividade, a condicionou à faixa de mar que ficava em frente do respectivo porto de armamento. E até se criou, com sede em Lisboa (!), por decreto n.º 34.655, de 1945, o “Grémio dos Armadores da Pesca da Baleia” para o qual cada sócio (armador) tinha de pagar a joia de 500$00 por cada 100 contos de capital e a quota mensal de 30$00, além de uma quota a fixar por cada quilo de óleo produzido!…
Com a modernização industrial deixaram de existir os caldeiros de derretimento ao ar livre, que se encontravam nos portos respectivos, instalando-se fábricas de aproveitamento. A primeira, na ilha do Faial, da qual faziam parte as armações denominadas “Da Ribeira do Meio”, depois foi a do Cais do Pico e por fim a SIBIL, constituída pelas armações dos portos das Lajes e Ribeiras, por escritura de 22 de Janeiro de 1948. Trabalhou as primeiras baleias (4 de cardume) em 15 de Julho de 1955. Mas o fim havia de chegar, como infelizmente chegou! A fábrica da SIBIL hoje, por iniciativa da Câmara Municipal, sua proprietária, é o “Centro de Artes e de Ciências do Mar. Espera-se que tenha o mais plausível êxito.
Um tratado internacional, ao qual Portugal aderiu, proíbe a caça da baleia nos mares do Atlântico. Um golpe mortal numa actividade secular. A última baleia arpoada no porto das Lajes foi em Novembro de 1987, pela canoa “Maria Armanda”, da qual era oficial Manuel Macedo Portugal de Brum e trancador João Macedo de Brum “Lé-lé”. Razão tinha o articulista de “O Dever” quando, já no recuado dia 5 de Agosto de 1939, escrevia: “Actualmente constitui um dos principais problemas a resolver, no nosso meio, a indústria da baleia, que, neste concelho, está ligada à sua prosperidade económica”.
Resta agora a “Whale-Watching”, distribuída por diversos locais das Ilhas dos Açores, alguns sem qualquer tradição baleeira. Mas, do mal o menor. No porto das Lajes estão instaladas algumas.

Vila Baleeira
Fev. 2008
Ermelindo Ávila

quinta-feira, 6 de março de 2008

OS IRMÃOS BULLAR'S

Precisamente há 170 anos chegaram aos Açores, “depois de uma tormentosa viagem de vinte e três dias, os irmãos Drs. Joseph e Henry Bullar, para aqui se demorarem “Um Inverno nos Açores e um verão no vale das Furnas”, titulo do diário que escreveram e que veio a ser traduzido, já em 1948, pelo Dr. João Hickling Anglin. Tem prólogo do Dr. Armando Cortes-Rodrigues.
Os Irmãos Bullar’s chegaram ao Faial no dia 15 de Abril e no dia 8 de Maio “Partiram ao meio dia do Faial para o Pico num barco que faz a travessia do canal, barco grande, tosco e por acabar no interior, com duas velas latinas estendidas em varas que mais se assemelhavam a ramos de árvores descascados.”
“A casa, que por amabilidade de Mr. Dabney, (consul americano), fora posta à nossa disposição, está um pouco acima do desembarcadoiro.” Pelo que se deduz do texto, devem ter desembarcado na Areia Larga, pois, dizem: ”Fomos a pé até à vizinha vila da Madalena, a principal povoação da ilha (sic), por uma vereda de areia grossa entre rochedos da costa de um lado e terrenos de vinha, negros e rochosos, do outro.”
A Igreja da Madalena, a meio da praça, está sem torre nem campanário, “assemelhando-se mais a um armazém abandonado do que às bem conservadas igrejas destas ilhas…”
Fazem larga referência ao vinho, “o melhor do que em qualquer das outras ilhas.” Aludem ao “vinho de estufa”, por ser preparado em estufa ou coisa semelhante e exportado em grandes quantidades para a Inglaterra e América. E acrescentam: “No nosso pais, embora os importadores o conheçam por “vinho do Faial”, é em geral procurado por consumidores incautos, sob o agradável rótulo de xeres. Além disto, produz-se grande quantidade do vinho vulgar do Pico…” Em nota de rodapé referem que “se remetem todos os anos do Pico para o Faial, 25 mil cascos de vinho para exportação.”
Queixavam-se de que não havia cavalos, mulas ou burros para alugar, pois “o forasteiro que não seja andarilho, não poderá dar a volta à ilha e, mesmo assim se o fizer, corre o risco de não arranjar cama nem poisada para a noite, visto não existirem nem hospedarias nem outros alojamentos.” Isso impediu que conhecessem toda a ilha, pois os caminhos tortuosos não eram convidativos a grandes caminhadas. Ficaram todavia, presos à casa que lhes foi cedida, contemplando as vinhas e saboreando os vinhos que, mesmo assim, não eram muito do seu grado. “O piso da lava, de cor parda, apresentava regos regulares, abertos pelas rodas dos carros de bois; os muros de pedra, de cada lado do caminho, tinham a mesma cor sombria e, na frente, recuando à medida que avançávamos, a montanha, coberta de uma rede de pedras negras, projectava para as nuvens soturna cor de azeitona.”
No dia 9 de Maio, acompanhados de dois guias, partiram para a subida da montanha. Um dos guias, natural do Pico, vivera na América e falava inglês. O outro guia era um homem casado que também estivera entre americanos e sabia algumas palavras de inglês.
Chegaram ao cume da Montanha mas, muitas milhas de neblina se acumulavam sobre o oceano, ocultando por completo as ilhas Terceira e Graciosa. No entanto, “livres de nuvens, viam-se claramente as ilhas do Faial e de São Jorge”. Pessoas amantes do maravilhoso dizem que, em dias muito claros, se enxerga do Pico a ilha distante de São Miguel”.
Os visitantes ingleses estranharam os diferentes trajes que encontraram nas ruas da Horta. E descrevem: “Alguns aldeões do Pico vestem-se inteiramente de vermelho. Usam jaqueta curta de estamenha, vermelha, colete e calções do mesmo tecido e cor, com polainas abotoadas sobre os pés. Estes andam descalços ou cobertos de sandálias de coiro (onde não raras vezes ficaram restos do pêlo do boi), atadas sobre o dedo grande.
“Parece, porém, que o receio do ridículo inibe estes homens de visitarem o Faial, onde os seus trajes tanto chamam a atenção e de tal modo dão motivo a troças que raramente eles se dispõem a submeter-se à prova; “e como é apenas numa parte do Pico que os habitantes se vestem por aquela forma, sucede que eles dificilmente são vistos no Faial.”
Nota-se aqui uma certa contradição, pois anteriormente haviam escrito: “Nas ruas, a que os trajes da gente do campo e dos pobres da cidade dão um ar alegre, nota-se muita animação”.
Hoje seria diferente. As modas modificam os trajes quase todas as épocas. Aquilo que ontem era simples traje do trabalhador do campo, parece que passou a ser para uma maioria, e não apenas da juventude, quase o vestuário de luxo. Usar uma calça ou uma jaqueta de ganga, mesmo com um remendo nas joelheiras, é moda e fica bem!… Se voltassem a estas paragens os Irmãos Bullar’s que diriam ?!

Vila das Lajes,
1 de Março de 2008
Ermelindo Ávila

CAMPO DE JOGOS

Foi inaugurado no passado domingo, 24 do corrente mês, o novo campo de futebol, - alguns já lhe chamaram estádio – obra levada a efeito pela Câmara Municipal e que representa um excelente e importante complexo para o desenvolvimento desportivo da juventude e recreio dos amantes do desporto rei.
Em falas diversas e em escritos na Imprensa, por vezes várias tive oportunidade de me referir ao Clube Desportivo Lajense, fundado nesta Vila em 15 de Abril de 1924 por um grupo de lajenses verdadeiramente amantes da sua terra. Para a defesa dos interesses da terra não havia cores políticas, se bem que os dois únicos partidos então existentes andassem de “costas voltadas”, mas somente nos períodos eleitorais. No Clube Desportivo Lajense nunca a política se meteu.
O antigo campo de jogos foi construído nos terrenos do Juncal, cedidos pela Câmara Municipal em sessão de 31 de Março de 1924, - o clube ainda não tinha os estatutos aprovados, - a pedido de um grupo de lajenses,” de todas as classes sociais”, representado pelo cidadão Leonardo Xavier de Castro Amorim. E em 16 de Junho do mesmo ano, foi presente à Câmara um requerimento de diversos cidadãos, - o primeiro signatário foi João Soares de Lacerda – pedindo para que , no lugar do Verdoso desta Vila,” não seja permitido cortar pedra a qual a ser tirada abaixo do muro muito prejudicará o quebra-mar que ali precisa ter a vila, quando de preferência a mesma devia ser tirada numa pedreira existente acima do muro em frente à rua de Baixo “, trazendo, naturalmente, benefícios à terraplanagem do campo de jogos.
Creio que não houve lajense, novo ou velho, que não desse a sua ajuda à construção do campo que, inicialmente tinha as medidas mínimas para nele se praticar uma partida oficial. Depois foi crescendo consoante se conseguiu a cedência de parcelas laterais. A primeira foi adquirida ao proprietário do terreno que lhe ficava a leste, o comendador António Homem da Costa que o cedeu, se não estou em erro, pela “módica” quantia de quinhentos mil reis… Ao lado ficava um terreno de vinha pertencente à família de Machado Soares. O filho não queria , nem dado –lo nem vende-lo. Um dia, porém, houve um enchente de mar, que derrubou a parede de vedação. Esse filho encontrava-se na Horta, impossibilitado de regressar ao Pico, pois o mar no canal não permitia viagem. O Presidente da Câmara de então, sabedor disso, propôs ao pai o levantamento da parede mediante a cedência da parcela de terreno para o alargamento do campo. O Senhor concordou e, no dia seguinte, a parede singela, como era, foi levantada pela companhia de pedreiros do mestre José de Melo. Quando regressou o senhor ficou exasperado mas o pai não deixou de cumprir a sua palavra. E o campo foi alargado…
Além do trabalho braçal, os lajenses tudo fizeram para que o seu Clube caminhasse a desenvolver a sua actividade desportiva.
Era difícil conseguir os equipamentos e até a bola de jogo. Os jogadores faziam os próprios equipamentos. As sapatarias locais faziam e concertavam as botas e todas as semanas tinham de refazer as “travessas”. E até a bola, era remendada, pois não era fácil outra obter.
O Clube funcionava num armazém, cedido gratuitamente.
Tudo difícil para uma época em que era débil a economia local.
Em carta datada de 23 de Setembro de 1929, Leonardo Xavier de Castro Amorim e Manuel d’Azevedo Castro Neves, um lajense residente na Horta, diziam: “Temos o prazer de incluir a importância de Esc. Ins. (Escudos Insulanos) 354$50, produto líquido do Sarau por nós organizado com o fim de beneficiar o cofre do Club a que V. Exa. mui dignamente preside.”
E assim ia vivendo o Clube.
Estou talvez a repetir o que já lembrei em outras ocasiões. Não importa.
O Lajense foi caminhando, com algumas interrupções. Teve tardes boas e más, como acontece ainda hoje a todas as associações. No entanto foram bastante agradáveis as tardes que os lajenses passaram no seu campo. Algumas, horas de glória, outras menos felizes. Nem por isso se despedia o treinador nem os jogadores abandonavam o campo ou o clube.
E aí está ele a beneficiar de nova “habitação”. Louvores à Câmara que assim entendeu dotar a sede do concelho com tão importante estrutura física, em substituição do velho campo, cujo local deverá ter uma aplicação condizente com a dignidade do velho burgo.
Que o Club Desportivo Lajense continue e consiga novas tardes de triunfo, para regalo dos próprios jogadores, dos sócios e dos lajenses em geral, são os votos que aqui deixo muito sentidamente, não deixando de recordar os bons tempos, de uma juventude já muito distante, em que todos os lajenses se concentravam no velho recinto para assistir a uma partida de futebol. E aqui, uma vez mais, presto as minhas homenagens a quantos fundaram o Clube Desportivo Lajense e a quantos, durante estes anos todos, se tem empenhado para que a velha associação rejuvenesça sempre e ultrapasse vigorosamente o centenário que já se aproxima.
Impõe-se lembrar que o velhinho campo é um património dos lajenses. Foram eles que o construíram com entusiasmo e com muitos sacrifícios. Impõe-se que lhe seja dada uma utilização condigna. Já me constou que será transformado em jardim público. Não ficará mal. Mas importa que seja um jardim cheio de beleza e encanto, com arvores, arbustos floridos, flores, muitas flores, espaço verdes, para ali se puderem passar tardes amenas e de óptimo lazer. E porque não alargar o muro, como era, para permitir passeios ao pôr do sol ou nocturnos como antes muito faziam?
A Câmara Municipal tem aqui uma palavra a dizer. E não será dispendiosa a tarefa…

Vila das Lajes
18 de Fev. de 2008
Ermelindo Ávila

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

A VIRGEM IMACULADA APARECEU EM LOURDES HÁ 150 ANOS

Foi no dia 11 de Fevereiro de 1858 que Nossa Senhora apareceu pela primeira vez na Gruta de Massabielle, em Lourdes. Cento e cinquenta anos são decorridos e a mensagem da Virgem à vidente Bernardette é completamente actual
Passados vinte e cinco anos sobre o extraordinário acontecimento, a Imagem de Nossa Senhora de Lourdes era solenemente intronizada na Matriz da Santíssima Trindade, das Lajes do Pico, pois fora a primeira terra açoriana onde Nossa Senhora havia sido publicamente invocada sob o título de Senhora de Lourdes.
É o que nos narra Monsenhor António Maria Ferreira no seu livro “Perfumes de Lourdes” editado em 1902; e aí escrevia o erudito sacerdote: “LAGES DO PICO – Foi talvez o primeiro logar dos Açores onde Nossa Senhora de Lourdes começou a ser publicamente invocada não obstante ser o Faial a primeira Ilha onde foi exposta ao culto público a primeira Imagem de Nossa Senhora de Lourdes. Em ocasião aflitiva para os habitantes daquela villa, num desses dias em que o mar embravecido parece, na frase dos lajenses, querer engolir a terra, algumas canôas baleeiras, tripuladas por intrépidos marinheiros demandavam o porto, lutando corajosamente com as ondas enfurecidas; mas para os de terra havia iminente risco de os verem despedaçar-se nas penedias que tornam perigosíssima a entrada do porto.
As proximidades da lagoa, cuja bacia forma o porto, achavam-se apinhadas de povo que pressuroso havia acudido a presenciar aquele triste espectáculo. Nos momentos de maior angústias aparece ali um filho da localidade que era considerado por todos como tendo sido objecto de uma insigne graça de Nossa Senhora de Lourdes. A sua presença e a sua palavra conseguiram serenar um pouco aqueles corações aflictos inspirando-lhes uma tal confiança na miraculosa Senhora de Massabielle, que d’envolta com os gritos de angústias que de contínuo irrompiam de todos os peitos eram repetidamente ouvidos de diferentes pontos da multidão as exclamações de: - Nossa Senhora de Lourdes livrai-os do perigo – Nossa Senhora de Lourdes salvae-os.
O facto é que a tempestade serenou, as embarcações entraram a salvo o porto, e da tripulação ninguem sofreu o menor damno. Desde então a confiança em N. Senhora de Lourdes começou a ganhar os corações entre aquele bom povo e a sua devoção dia a dia conquistava terreno. Estava por esta forma inaugurada naquela vila e no arquipélago e diocese dos Açores o culto público em honra da Virgem dos Pireneus… Era isto em fins de 1882”
A igreja universal celebra a festa de Nossa Senhora de Lourdes a 11 de Fevereiro, dia da primeira aparição. Este ano, porque se comemoram cento e cinquenta anos sobre tal acontecimento, há diversos eventos programados a nível universal, entre eles um congresso em que as aparições serão estudas à luz da fé, da ciência e dos tempos actuais.
A Matriz da Santíssima Trindade da vila das Lajes comemora também os cento e quinze anos da devoção e festa à Senhora que, durante este tempo todo foi a Protectora dos lajenses e dos seus homens do Mar. Não pode nem deve ser esquecida esta efeméride. Nisso tem responsabilidades acrescidas a própria Diocese que não pode esquecer tão relevante acontecimento. E é aqui, neste solar abençoado pela Virgem, que tem de ser lembrado, com o devido respeito e grande solenidade o faustoso acontecimento.
É de não esquecer o que nos diz o Grande Lajense que foi Dom João Paulino de Azevedo e Castro, no artigo que, sob o título “Incremento da devoção” escreveu e foi publicado, em 27 de Julho de 1889, no antigo jornal de Angra, “Peregrino de Lourdes”:
“Muito concorreu para aumentar a devoção a Nossa Senhora de Lourdes a liberal magnificência de que usou o Santo Padre Leão XIII enriquecendo de graças o culto da sua devota imagem, a pedido daqueles que desde o começo se acharam sempre à frente de movimento tão consolador. Em 1884 foram expedidos de Roma dois rescritos, concedendo as seguintes indulgências: 1ª plenária no dia da festa a quem visitar a imagem de Nossa Senhora na sua igreja, desde a véspera até ao sol posto, orando ali pelas intenções do Sumo Pontífice, havendo-se previamente confessado e comungado; 2ª parcial de l00 dias por cada vez que visitar a imagem de Nossa Senhora tendo ao menos o coração contrito; 3ª indulgência de altar privilegiado aplicável aos defuntos por quem se celebrar a Santa Missa no altar da Santíssima Virgem.
Em próximo texto falaremos das dezoito Aparições de Nossa Senhora àquela que hoje veneramos nos altares sob a invocação de Santa Bernardette.

Vila Baleeira,
Fevereiro de 2008
Ermelindo Ávila

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

APROXIMA-SE O CARNAVAL

Ficaram para trás, perdidos nos horizontes da vida, os acordes festivos da época natalícia. Chegados ao “Dia de Reis” apagaram-se as luzes coloridas das casas e das ruas, algumas de excelentes efeitos e todas elas com motivos da época. A chamada rua Direita da Vila, quase a única que mereceu as atenções da Municipalidade, era de surpreendente efeito.
Em alguns lugares houve os chamados concertos do Natal e nesse aspecto as Lajes também lucrou bastante com a Cantata do Natal, na Matriz da Santíssima Trindade das Lajes, executada pelo seu, nosso, Grupo Coral, como singelamente é designado e conhecido, um organismo, melhor dito uma verdadeira Instituição cultural que, conjuntamente com a Filarmónica Lajense, que está a atingir quase século e meio de existência, muito dignificam a avoenga Vila.
E antes que a Quaresma chegue - tempo litúrgico preparatório da Páscoa do Redentor - temos o Carnaval, com as quintas-feiras de amigos e amigas, compadres e comadres, dias esses destinados a encontros e confraternizações onde, antigamente, não faltavam as tradicionais “folgas” com os “bailes de roda” e as “chamarritas”, (Alguns dizem ser uma corruptela de chama-a-Rita).
Era também o tempo destinado às “matanças dos porcos”, uma época de fartura e de verdadeira confraternização entre familiares e amigos que hoje, praticamente, desapareceu do nosso meio lajense. As criança e os jovens deliravam com estas festas familiares. O dia da “matança” era “feriado” nas respectivas famílias. As crianças dispensavam-se de ir à escola e a falta era retirada no dia seguinte talvez com o “presente de porco” que se lavava à Senhora Professora.
Nesse dia não apenas os familiares eram chamados a tomar parte na festa. Á noite havia a ceia com os convidados, por vezes as pessoas principais do lugar, que todos apreciavam uma boa jantarada de morcela, fígado, e outros manjares tradicionais.
Depois era o bailado ou “chamarrita”, e até os “bailes de roda” que se prolongavam até à meia-noite, nunca além, pois o dia seguinte era de grandes “trabalheiras” com o derretimento do toucinho e a preparação das carnes na salgadeira, para os jantares de uma boa parte do ano.
Mas estava-se no Carnaval ou Entrudo. Havia os improvisados actores que, mascarados, percorriam nas quintas-feiras, sábados e domingos, as casas daquelas famílias que recebiam tais personagens. E por vezes era hilariante a sua actuação. Quase sempre o recordar de algum facto ocorrido durante o ano transacto: um namoro, o escândalo de um casal desavindo, um negócio mais escuro, e outros mais acontecimentos pouco vulgares. Tudo era trazido a Terreiro, como se dizia, mas tratado com subtileza e sem ofensas pessoais. Acontecia também a exibição de ranchos e de cantares ou a apresentação de uma pequena comédia quase sempre improvisada no próprio dia. Mas o que salvava eram os trajes picarescos que os mascarados apresentavam e que, quase sempre eram a imitação de alguma figura que havia caído na voz, quantas vezes malidicente, do povo!…
Os “mascarados” ou actores improvisados, eram recebidos, anos a seguir, em determinadas casas, que se tornavam tradicionais. Nelas se reuniam familiares e amigos, para “ver mascarados”. Era quase uma obrigação dos donos dessas habitações, para evitarem que os filhos miúdos saíssem à rua durante a noite. As ruas não eram iluminadas, pois a electricidade só chegou por volta de 1932.
Por vezes apareciam grupos de cantadores e bailarinos, já então a darem um estilo diferente ao Carnaval. Em salas particulares tinham lugar, também, reuniões dançantes, com assistência restrita. Depois deixaram de realizar-se nas ruas os jogos carnavalescos, passando para os salões das sociedades recreativas – Filarmónica e Grémio – apenas os bailes que, durante anos, atraiam pessoas de toda a Ilha. Hoje somente na Filarmónica se promovem, de anos a anos, as reuniões dançantes, pois o Grémio ou Sociedade L e Recreativa deixou de funcionar à falta de sede.
Estamos em plena época carnavalesca. Festejá-la é incerto pois a juventude foi desaparecendo e a que resta não tem grande entusiasmo por este estilo de Carnaval. Prefere as modernas “boites” com todos os seus inconvenientes…
O Carnaval da primeira metade do século passado, deixai que aqui o registe, vive na nossa saudade e dos poucos que restam dessa época algo distante !…

Vila das Lajes
Janeiro de 2008
Ermelindo Ávila

quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

LOJA DA CULTURA

O Director Regional da Cultura, através da RTP-Açores, anunciou há dias a criação de diversas Lojas da Cultura, em algumas Ilhas da Região. A Ilha do Pico é uma das que vai beneficiar da instalação, muito em breve, de uma dessas instituição que, segundo a mesma comunicação, ficará instalada nas Lajes do Pico. Não foi indicada a localidade mas cremos que se trata da vila sede do concelho.
Segundo os técnicos trata-se do centro com maior vocação cultural da ilha. Afinal, uma prerrogativa que não é nova mas que lhe vem do século dezanove ou mesmo, mais de trás.
Primeiro foram os frades franciscanos que estimularam a cultura, ensinando a juventude que desejava adquirir os conhecimentos das letras e ciências. Com a extinção do convento, a aula de latim teve uma função muito meritória, preparando aqueles que desejavam seguir cursos universitários. A propósito, lê-se no Arquivo dos Açores (Vol. IX, págs. 54) a propósito da criação do Gabinete de Leitura das Lajes do Pico: “Como estivesse, então, em Coimbra, a cursar a Universidade, um distinto e talentoso lajense, o eventual Dr. João Paulino de Azevedo e Castro, hoje lente no Seminário de’Angra do Heroismo e sacerdote respeitado, pelas suas virtudes e erudição, secundou, poderosamente, os esforços literários dos seus conterrâneos, angariando dádivas de alguns centos de volumes, que para as Lajes do Pico foram logo remetidos.” E acrescenta: “Durante alguns anos manteve-se com regularidade este Gabinete de leitura, mas a falta de uma casa apropriada ao fim a que se destinava. Foi-lhe afrouxando a concorrência, até passar quase desaparecido”.
Igual Gabinete foi criado na Vila de São Roque, o qual teve também viva efémera.
Em sessão extraordinária de l de Maio de 1876 a Câmara Municipal, então presidida pelo negociante José Silveira Peixoto, “deliberou atribuir, por proposta do Presidente, ao Gabinete de Leitura Popular Lajense, por julgar ser uma instituição civilizadora, e que, possuindo à roda de 500 volumes, de muito pode servir à mocidade estudiosa da freguesia, principalmente quando for Lei do Estado, a reforma da instrução pública.”
Nos anos de 1881 e 1882 a Câmara deliberou conceder ao Gabinete o subsídio de 18$000, em cada um desses anos.
Ao Gabinete de Leitura, fundado por Manuel Joaquim de Azevedo e Castro, irmão do Dr. João Paulino, que viria a ser Bispo de Macau, sucedeu o Grémio Literário Lajense, fundado em 28 de Outubro de 1895, e onde foram recolhidos os livros do Gabinete.
O Grémio continuou, passando, na década de trinta do século findo, a denominar-se Sociedade Literária e Recreativa Lajense, a qual deixou de funcionar nos anos setenta por falta de sede.
Entretanto em Setembro de 1935 a Imprensa distrital anunciava a fundação da Biblioteca Popular Lajense, que recebeu uma parte do espólio literário do P. António Ávila, da Horta, e funcionou até à sua integração, em 1940, na Biblioteca Municipal. Interessante registar os nomes dos jovens que constituíam a Comissão organizadora da biblioteca: Raul Xavier, João José de Azevedo e Castro, Francisco António Rodrigues de Simas Melo Ferreira, Manuel Vitorino Nunes Júnior e E. S. Machado Ávila. Este o único vivo.
A Biblioteca Municipal, que recebeu também, o depósito da Biblioteca Gulbenkian, existente nesta vila, está em funcionando, em edifício próprio, mas tem-se dedicado ultimamente, com maior interesse, à juventude infantil .
Aplaudo às duas mãos a criação da Loja da Cultura, nesta Vila, onde não existe uma Livraria que permita aos interessados a aquisição, além de outros, principalmente de edições de autores açorianos. É um acto de valorização cultural, que muito dignifica a Direcção Regional da Cultura e, com certeza, vai prestar inestimável contributo para a formação cultural dos novos e mesmo velhos desta terra a qual, assim, vai poder continuar a manter a sua prestigiosa acção cultural.
É bom que o Governo Regional traga até nós iniciativas em todos os sectores - culturais, científicos, sociais e económicos, promovendo o desenvolvimento, como lhe cumpre, das terras que estão sob a sua jurisdição administrativa. Só assim a Região Autónoma dos Açores conseguirá o crescimento harmónico de todas as Ilhas, como um todo. Demais, foi esse o slogan que esteve na base da instituição da Autonomia.
Vila das Lajes,
Janeiro de 2008
Ermelindo Ávila

segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

O passado e o futuro...

Entrámos há poucos dias no novo ano e o mês de Janeiro, que é o primeiro, já vai correndo a mais de meio. É assim todos os anos mas parece que não nos conformamos com este rodar constante do tempo.
E é destarte que os anos vão decorrendo e aqueles que ontem nasceram amanhã serão os velhos desta geração. Todavia nem todos se apercebem desta realidade que não deixa de ser amarga para muitos, principalmente para aqueles que não se cansam de fazer projectos e raramente os cumprem integralmente.
Estamos já no ano de 2008. Não há muito que entrámos no novo Milénio e ele já vai um tanto para trás. Parece um paradoxo mas é uma realidade da qual não nos podemos afastar.
Este novo ano entrou, para muitos, principalmente para aqueles que, escolhidos pelo povo, governam os seus destinos e que projectam empreendimentos novos que, muitas vezes, não passam do papel. No entanto, e é uma realidade. sem tais planos não se constrói o futuro. E o futuro está sempre em renovação, porque os sistemas de vida vão-se alterando a todo o momento, tal como o homem que nasce, cresce, atinge o patamar da existência e depois inicia a decadência. E é assim que a humanidade se renova constantemente. Precisa, todavia, de ser constantemente revitalizada e amparada para não cair no colapso. E são as famílias que se constituem, se desenvolvem, se desagregam, com a saída dos filhos e, depois, desaparecem.
Mas o homem nem sempre atinge essa realidade. Esquece-se por vezes, como é o caso , como tantos outros, que hoje aqui se regista.

O Jairo chegou a casa bastante tarde. Ao contrário do que era normal, vinha atordoado e sem um fio enxuto da roupa que trazia no corpo. Respirava com dificuldade e notava-se que havia sofrido qualquer acidente. Ou seria dos negócios que não tinham corrido bem?. A esposa, aflita, interrogava-se… Todavia Jairo tinha dificuldade em falar e não se explicava. Sentara-se na primeira cadeira que encontrara e nada dizia apesar das insistência da esposa para que algo dissesse. O que lhe tinha acontecido? Jairo continuava cabisbaixo e mudo.
A esposa havia tudo preparado, com o maior desvelo, para o jantar que comemorava o aniversário do casamento. Admirava-se, pois. que Jairo não tivesse chegado. Ele era habitualmente pontual e, principalmente naquele dia, sabia que estavam sós e que era um dia especial para o casal que, todos os anos, o celebrava com muito entusiasmo.
Passado algum tempo que, para a esposa pareceram horas, Jairo falou. E explicou-se; Saíra do escritório à hora habitual e vinha de viagem para casa. O carro seguia na sua marcha habitual. Nada previa que alguma coisa de anormal pudesse acontecer. O dia decorrera normalmente. Demais, Jairo estava ansioso por chegar a casa e abraçar a esposa, naquele dia de especial significado para ambos.
Quando seguia na estrada encontrou alguns amigos que o fizeram parar e o convidaram a entrar num Café próximo para cavaquearem e tomarem um Whisky. Embora com alguma relutância, Jairo acedeu ao convite pois alguns deles não os via há bastante tempo. Abancaram nas mesas desertas e o empregado serviu-lhes o primeiro Whisky e a cavaqueira começou…. Depois veio o segundo, o terceiro e nem sabem quantos mais… A noção do tempo desapareceu e eles lá continuaram , sem saberem já o que diziam…

A noite foi correndo e o grupo não se dispunha a abandonar a sala. Tornou-se necessário que o proprietário os convidasse a sair, o que, aliás, não foi fácil… Eles lá seguiram, ocupando os diversos carros que os aguardavam. No entanto, o inverosímil estava para acontecer.
Quando seguiam a grande velocidade, um veículo, viajando em sentido contrário, bateu de frente no carro de Jairo. Este e os restantes ocupantes do carro foram projectados a grande distância, felizmente sem sofrerem quaisquer ferimentos. (Um quase milagre!…) Entretanto, chegou a Polícia que tomou conta da ocorrência. Os sinistrados viram-se em palpos de aranha
para saírem daquela dramática situação, até que apareceu um auto, por acaso de um amigo, que os conduziu ao hospital, onde o médico de serviço os examinou. O álcool ainda não tinha desaparecido… Receberam o tratamento adequado e, passado algum tempo, já quase em estado normal, regressaram a suas casas. E foi assim que Jairo chegou. O relógio público já havia batido as primeiras horas da madrugada. E ele ali estava, ainda atordoado, junto da esposa a desculpar-se como podia. A esposa nada disse. Ficou calada, sofrendo intimamente a situação bastante arreliante. Era uma senhora possuidora de excelentes qualidades morais. Soube desculpar o marido e nunca mais se falou naquela noite trágica. Tudo voltou à normalidade.
Quantos casos acontecem no dia-a-dia da época actual!… Quantos Jairos não haverá por aí, vítimas de amigos da ocasião!…Todavia, e infelizmente, não se encontram muitas esposas como a de Jairo…
Este caso não seria caminho aberto para a desunião? Quantas acontecem por razões, as mais fúteis!…
Infelizmente é o que se verifica nos caminhos da vida actual.

Vila das Lajes
Janº 2008
Ermelindo Ávila

sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

Uma prenda do Menino Jesus

Fazia-se tarde. Zebedeu perdera-se pelas ruas a admirar os lindos brinquedos expostos nas montras dos grandes espaços comerciais, para a época do Natal. E havia-os de todos os preços, desde os mais baratuchos até aos de milhares de euros.Via-os e passava à frente. Os cobres que juntara no mealheiro durante o ano nem chegavam para comprar um simples pião, que lá os havia…
Voltou a casa, pesaroso, com a certeza de que naquele ano, o Pai Natal não chegaria à sua porta. Mas, mesmo assim, não se revoltara. Tinha um pressentimento de que alguma coisa de bom lhe havia de acontecer.
No dia seguinte e nos outros, logo que saia da escola, deambulava pelas lojas de brinquedos na intenção de descobrir algum que estivesse dentro do seu magro “orçamento”. Nada, porém…Parece que os preços subiam dia após dia.
A, mãe, que o esperava, estranhava a demora, pois ele era sempre pontual em chegar a casa logo que terminavam as aulas do Ensino Básico, que Zebedeu frequentava. E procurou saber o que se passava.
Um dia, perto da hora de terminar as aulas, saiu de casa e foi até perto do edifício escolar. Pôs-se em posição de não ser vista pelos alunos, à saída. E foi acompanhando ao longe o caminhar do filho, até que este se encaminhou para a zona dos mercados de brinquedos e por aí ficou. Estava descoberta a razão da demora do Zebedeu em chegar a casa. Voltou pressurosa, mas triste, sem que o filho de nada soubesse.
Em casa a mãe não deixou de pensar continuamente no caso. O filho desejava um brinquedo pelo Natal. Ela, viúva, só dispunha de uma magra pensão de invalidez, que mal dava para o “prato” e para os remédios que tomava diariamente. Para vestir valiam-lhe as dádivas dos benfeitores, que bem conheciam as suas necessidades materiais…Que fazer, pois?
O filho era uma criança invulgar: inteligente, dava boa conta das aulas. Conhecia as carências da mãe e nada exigia, sujeitando-se àquilo que, bom ou mau, ela lhe preparava. Na escola fazia os seus deveres com diligência e captava a simpatia da Mestra. Os próprios colegas, vivendo em melhores condições económicas, não raro lhe ofereciam uma esferográfica, um lápis, ou um caderno de papel, que aceitava com certa humildade e com gratidão. E eles não eram assim para todos os colegas. O Zebedeu gozava de uma estima de excepção, entre todos os que o conheciam.
Foi-se aproximando o Natal. Naquele ano a Mestra anunciou que iriam fazer uma festa para celebrar o Nascimento do Menino Jesus. Era o tempo em que não existia o Pai Natal e o Deus Menino era a figura principal da solenidade…(Hoje seria algo diferente, com o agnosticismo reinante…)
Alvitrou que os meninos, cujos pais o pudessem fazer, contribuíssem com alguma prenda para os outros que as não podiam comprar. Todos aceitaram a sugestão da Senhora Professora.
No dia destinado à festa, na sala de aula, foi colocado um bonito pinheiro para servir de “Arvore de Natal”. Decoraram-na com lâmpadas coloridas e com algumas séries que davam luz intermitente. Não faltaram bonecos e outros motivos natalícios. Todos os meninos – poucos faltaram…- levaram suas prendas para a Arvore, e alguns levaram mesmo duas…Para a Senhora Professora foi levada uma especial, preparada por alguns pais.
Decorreu a festa com muita alegria, à mistura com um lanche de bolos e guloseimas que a Mestra havia preparado. Durante a semana anterior foram ensaiados diversos cânticos próprios da quadra festiva, para que o ambiente fosse o mais agradável para todos e resulta-se num verdadeiro louvor ao Menino nascido em Belém.
Chegou o momento ansiosamente esperado por todos. Um dos alunos foi vestido de “São Nicolau”, como é já tradicional, e apareceu na sala para distribuir as prendas. Um silêncio e uma ansiedade pairava naqueles pequenos corações. Principiou a chamada…Apareceu a primeira prenda para o mais novinho, o Filipe. Outros foram seguindo, até que um leu: Zebedeu! Era um cavalo de boa estatura, com arreios e montado num pequeno estrado de rodas. Foi um delírio. Depois, seguiram-se outros até que, de novo, alguém leu no rótulo: Zebedeu! E, dali até ao fim, várias vezes apareceu o nome do nosso felizardo.
Os pais de outros alunos, sabendo da situação do Zebedeu e do desejo de ter uma prenda do Natal, foram pródigos em dar aos filhos prendas para o companheiro: brinquedos, roupas, livros e até uma caixa de bombons. A mãe, que estava presente, só chorava e o filho não tinha palavras para agradecer aos companheiros a quem abraçava fraternalmente e com muita ternura. Na noite de Natal, mãe e filho foram à “Missa do Galo” agradecer ao Menino Jesus tantas Graças. Para o Zebedeu foi o Natal mais feliz da sua vida.
Vila das Lajes, 2007-12-04
Ermelindo Ávila

terça-feira, 22 de janeiro de 2008

Obras e Obras

O Governo Regional e os Municípios anunciaram os Planos para o ano corrente, a executar na Ilha do Pico.
Quem se der ao trabalho de ler esses exaustivos programas fica ao corrente das intenções dos gestores regionais e municipais. Com tais documentos pretendem dar satisfação às reivindicações das populações, feitas desde longa data e que só agora, no final dos mandatos, parece que vão ser realizadas. Todavia, fico-me na dúvida de que tais projectos venham a ser concretizados, pois faz-se saber que os Serviços Públicos estão quase “insolventes” e que a maior parte das receitas vão ser encaminhadas para satisfazer os encargos com as dívidas contraídas nos estabelecimentos bancários. Mas, a dar como certo que os programas serão postos em execução, julgo que somente deverão ser iniciados os processos de empreitadas uma vez que, dada a burocracia a que estão sujeitos, nem para o fim do ano estarão concluídos.
A Secretaria do Ambiente traz em execução a empreitada de construção do molhe de defesa da Vila, uma obra que tem merecido o aplauso dos lajenses, mas ele só beneficiará a parte Norte deixando a descoberto a zona Sul, com a agravante de continuar sujeita aos ciclones e “enchentes” do mar do Sul. Além disso, não se vê que a ligação provisória do muro do Caneiro ao molhe em execução ou conclusão, seja considerada, muito embora se saiba, pelo que por aí constou, que está nas intenções da Secretaria manter essa ligação, necessitando apenas da elaboração e aprovação do projecto respectivo. Mas, isso dizia-se há um ano. Decorridos mais de doze meses, pergunta-se: Em que situação se encontra tal projecto?
Não se trata somente de uma obra complementar. Trata-se de um pequeno molhe que vai permitir, como já se verifica, a formação de uma bacia capaz de receber embarcações de avantajado calado e a segurança daquelas outras que permaneçam anualmente na bacia interior.
Foi pena que o projecto não tivesse o aceleramento desejado, permitindo que a empresa empreiteira tomasse a responsabilidade da construção como “obras a mais”, se é que a actual legislação contempla essa modalidade.
Importa, no entanto, prosseguir com as obras de defesa da Vila. A segurança dos seus habitantes exige que o Governo tenha isso em consideração prioritária. Parar na execução da defesa da Vila é contribuir para o mal estar da população que há muito vem reclamando, com toda a justiça, que se lhe dê um mínimo de condições para “dormir descansada”.
É indispensável assegurar a defesa dos edifícios que se situam na parte Sul da Vila. Se tal se vier a realizar, dar-se-á tranquilidade às pessoas que nela habitam e, sobretudo, a necessária segurança ao edifício da Escola Preparatória e Secundária, que merece ser garantida, evitando-se que a veleidade de alguns que, ao que consta, por acaso não residem na área urbana (chamemos-lhe assim), pretendem que o edifício seja abandonado e se construa um novo imóvel longe da Vila, provocando nela seu completo despovoamento. Já por diversas vezes manifestei a minha discordância pelo facto de se pretender, sem qualquer razão plausível, abandonar um edifício que foi inicialmente construído pela Câmara Municipal e que, - adaptando-se o da Ponta da Ilha para a instalação do curso preparatório, - pela diminuição da frequência de alunos, ficará com espaço suficiente para dar resposta às exigências do ensino actual.
Quando resolve a Câmara Municipal a situação dos terrenos destinados a um campo de golfe? Não será tempo demasiado esperar que a empresa, antiga concessionária, se resolva a abandonar a detenção da posse daqueles terrenos que, aliás, são propriedade municipal e que, ao que constou, lhe foram cedidos a título precário e sem qualquer retribuição? Com o impasse que se verifica, ficarão o concelho e a ilha privados de usufruir um complexo de vital importância para o desenvolvimento do turismo, indústria que, parece, vai ser o sustentáculo da economia picoense, e não só, num futuro muito próximo.
A Vila das Lajes tem de ser olhada com carinho e respeito. Há zonas abandonadas e em degradação, que necessitam ser recuperadas, e outras que podem ser ocupadas por edificações, evitando-se a fuga dos casais para as periferias.
E só mais esta pergunta, aliás inofensiva: Porque não incorporar na parte urbana a zona do ramal, que já foi denominado “Eng.º. Arantes e Oliveira”, (cuja placa toponímica desapareceu) sem que nenhuma investigação se houvesse realizado) proporcionando-se a construção de edifícios para habitação e, vamos lá, se se “teimar” na construção de um novo edifício escolar, implantá-lo naquela zona?
Vila Baleeira, Jan.º de 2008
Ermelindo Ávila

segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

CEREAIS E OUTROS GÉNEROS

Escreve Vitorino Magalhães Godinho em A Economia dos Descobrimentos Henriquinos, citado por Ernesto Veiga Oliveira e Benjamim Pereira, in Tecnologia Tradicional Agrícola dos Açores que o trigo foi a primeira grande cultura de cereais destas Ilhas, trazido pelos povoadores. Carreiro da Costa, (Boletim da Comissão Reguladora dos cereais do Arquipélago dos Açores. nºs. 31/32,) na rubrica “Rebuscos e Respigos”, diz, por seu lado, que: “O trigo, como se sabe, foi uma das primeiras culturas dos Açores, especialmente na ilha de S, Miguel, e aquela que foi objecto de maior exportação durante os primeiros tempos da vida agrícola insular”.
Na “História Insulana”, a pág. 213, o seu autor, P. António Cordeiro, informa: “Das terras lavradias (da ilha de São Miguel) não só se ocupam em trigo as mais delas, mas também em linho, e tanto, que ainda vai para as outras ilhas. Para o Brasil e para Portugal…”.
Em 1585 na Ilha de São Miguel houve grande produção de trigo de tal modo que um tal Pedro Anes, do Pico, morador na Ribeirinha, comprou a Luiz Gago, avô de Rui Gago da Câmara, oito moios de trigo por dezasseis quintais de pastel, que valia então o quintal a dois tostões somente”. (“Arquivo dos Açores”, Vol. XII, citando “Saudades da Terra” – de Gaspar Frutuoso, L.º 4º, Capº 51.) E ainda de Gaspar Frutuoso: “Este Pedro, do Pico. deu por uns sapatos brancos (que valiam naquele tempo trinta reis) para um seu criado seis alqueires de trigo.” Era uma abundância tal que o trigo, parece, não tinha valor.
Ainda a propósito do trigo, por Lei de 12 de Setembro de 1561, Dom Sebastião estabelecia as regras a que deviam obedecer as medidas de pão nas ilhas dos Açores. Por essa Lei somente passava a haver medidas de alqueire, meio alqueire e quarta de alqueire.
Depois apareceu nos Açores o milho, vindo dos Estados Unidos da América. Os historiadores não são precisos na data da entrada do milho nas ilhas. Carreiro da Costa, um dos mais distintos investigadores e historiógrafos açorianos do século XX, no estudo “Esboço Histórico dos Açores”, citando o Pe. Maldonado, recorda que o ano de 1647 foi um ano de tremenda fome, “em razão da esterilidade dos frutos comestíveis” e pela pouca ou quase nenhuma cultura dos milhos grossos que naqueles tempos se não usava senão por curiosidade.
Numa estatística de produção agrícola de 1702 (“Arquivo dos Açores”, Vol. X, pág. 297, verifica-se que o milho dela não consta, mas somente o trigo, a cevada, o vinho e o linho. Nessa estatística consta que o Pico produziu mil moios de trigo e vinte mil pipas de vinho, esta a maior produção dos Açores. No entanto, vinte e dois anos decorridos, o dizimeiro informava a Câmara Municipal das Lajes que tinha cinquenta moios de milho armazenado nesta Vila e nas Ribeiras, para exportação.
Interessante, pois, a deliberação municipal de 11 de Dezembro de 1847: “A Câmara, atendendo à grave falta de milho que se dá não só neste concelho, mas em toda a ilha, e bem assim a falta de batatas e a carestia dos trigos e igualmente a que das Ilhas mais próximas não deixam exportar milho, deliberou que desde ora em diante digo desde já ficava proibida exportação de milho tanto de dízimo como de particulares para fora do concelho tanto por mar como por terra sob pena de serem apreendidos na forma da lei e castigados os exportadores e condutores cada um com uma multa de dois mil reis.”
Mas esta não foi a única deliberação municipal sobre o milho que, após a sua introdução, passou a base da alimentação dos picoenses e da maioria dos açorianos. O trigo baixou a segundo plano, não apenas pelos cuidados que exigia a sua plantação, como pela exigência da vigilância provocada pela passarada – a praga como o povo lhe chamava – que exigia permanência de uma pessoa, durante o dia na época da maturação.
Em 17 de Maio de 1876, António Joaquim da Rosa, da cidade de Angra, pedia licença à Câmara para remover para a Ilha Terceira 30.000 litros de milho, por não achar comprador e achar ele (milho) a arruinar-se. O requerimento veio por intermédio do Governador para ser informado. Parte do milho havia sido recebido em pagamento de dívidas. Foram ouvidas a Câmara e Juntas de Paróquia por escrito. Foram todas de parecer que se podiam exportar os 30.000 litros de milho. Mesmo assim, a produção de trigo ainda se mantinha com algum volume, muito embora a Câmara, em sessão de 13 de Maio de 1880, considerando que a produção de trigo seria de 39.833 litros, necessitava importar até à próxima colheita, 85.6447 litros, pois poderia existir no concelho 440.568 litros de milho, pelo que deveria faltar, pelos seus cálculos, 353.978 litros.
E já agora registo aqui a introdução do inhame, uma dos produtos base da alimentação da população picoense. Em documentos notariais já em 1752 se fazia referência a dois pedaços de terra da Candelária de inhames e vinha. (F. S. Lacerda Machado, “Os Capitães Mores das Lages", pág. 44) muito embora Carreio da Costa, em apontamento no Boletim da C.R.C.A.A. (Vol.4 pág.99) refira que a cultura do inhame nos Açores deve datar do século XVII.
E ainda mais uma referência à batata doce que deve ter sido introduzida na Ilha Terceira nos fins do século XVI e na Graciosa, Pico e Faial no terceiro quartel do século XIX. No entanto, em 1849 Thomas Anglin, de S. Miguel, importou dos Estados Unidos da América cinco novas variedades de batata doce.
Hoje seria tarefa quase inútil a importação destes géneros para sementeira local. (Note-se que digo sementeira e não consumo…) Basta ver como estão os nossos campos, praticamente abandonados, sem que haja braços disponíveis para os trabalhar.
Até meados do século XIX todos os terrenos eram cultivados. Quase nem havia lenhas, nas partes baixas da ilha, para queimar. Uma tia avó dizia-me que, quando moça, ia com outras companheiras à serra juntar lenha para queimar nas cozinhas. As lenhas vieram descendo e, com a emigração do princípio do século XX , muitos terrenos foram abandonados e as faias, os incensos, e outros arvoredos tomaram conta deles. No conflito mundial de 1939-45, dada a dificuldade de importação de cereais, moveu-se uma campanha para a arroteia e limpeza das terras, chegando a Junta Geral do Distrito, organismo que tinha a seu cargo os serviços agrícolas, a dar prémios a quem procedesse a tais trabalhos.
As encostas desta vila, desde os quintais junto às residências, até ao alto, produziam muito milho e trigo. Havia em todas as chamadas “ladeiras”, o “serrado do trigo”. E pelas terras baixas abundavam, na época própria, as searas do mesmo cereal que, quando amadurecido, contrastando com o verde viçoso dos milharais, ofereciam um espectáculo interessante. Além dos cantares dos “vigias” para espantar a passarada, principalmente os canários que então abundavam, porque o pardal ainda cá não tinha chegado…
Hoje a vegetação selvagem quase invade as residências que lhe ficam vizinhas. E é pena que isso aconteça, pois provoca a necessidade da importação do trigo, que voltou a substituir quase o milho na alimentação dos povos.

Vila das Lajes.
Jan.º de 2008
Ermelindo Ávila