sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

Uma prenda do Menino Jesus

Fazia-se tarde. Zebedeu perdera-se pelas ruas a admirar os lindos brinquedos expostos nas montras dos grandes espaços comerciais, para a época do Natal. E havia-os de todos os preços, desde os mais baratuchos até aos de milhares de euros.Via-os e passava à frente. Os cobres que juntara no mealheiro durante o ano nem chegavam para comprar um simples pião, que lá os havia…
Voltou a casa, pesaroso, com a certeza de que naquele ano, o Pai Natal não chegaria à sua porta. Mas, mesmo assim, não se revoltara. Tinha um pressentimento de que alguma coisa de bom lhe havia de acontecer.
No dia seguinte e nos outros, logo que saia da escola, deambulava pelas lojas de brinquedos na intenção de descobrir algum que estivesse dentro do seu magro “orçamento”. Nada, porém…Parece que os preços subiam dia após dia.
A, mãe, que o esperava, estranhava a demora, pois ele era sempre pontual em chegar a casa logo que terminavam as aulas do Ensino Básico, que Zebedeu frequentava. E procurou saber o que se passava.
Um dia, perto da hora de terminar as aulas, saiu de casa e foi até perto do edifício escolar. Pôs-se em posição de não ser vista pelos alunos, à saída. E foi acompanhando ao longe o caminhar do filho, até que este se encaminhou para a zona dos mercados de brinquedos e por aí ficou. Estava descoberta a razão da demora do Zebedeu em chegar a casa. Voltou pressurosa, mas triste, sem que o filho de nada soubesse.
Em casa a mãe não deixou de pensar continuamente no caso. O filho desejava um brinquedo pelo Natal. Ela, viúva, só dispunha de uma magra pensão de invalidez, que mal dava para o “prato” e para os remédios que tomava diariamente. Para vestir valiam-lhe as dádivas dos benfeitores, que bem conheciam as suas necessidades materiais…Que fazer, pois?
O filho era uma criança invulgar: inteligente, dava boa conta das aulas. Conhecia as carências da mãe e nada exigia, sujeitando-se àquilo que, bom ou mau, ela lhe preparava. Na escola fazia os seus deveres com diligência e captava a simpatia da Mestra. Os próprios colegas, vivendo em melhores condições económicas, não raro lhe ofereciam uma esferográfica, um lápis, ou um caderno de papel, que aceitava com certa humildade e com gratidão. E eles não eram assim para todos os colegas. O Zebedeu gozava de uma estima de excepção, entre todos os que o conheciam.
Foi-se aproximando o Natal. Naquele ano a Mestra anunciou que iriam fazer uma festa para celebrar o Nascimento do Menino Jesus. Era o tempo em que não existia o Pai Natal e o Deus Menino era a figura principal da solenidade…(Hoje seria algo diferente, com o agnosticismo reinante…)
Alvitrou que os meninos, cujos pais o pudessem fazer, contribuíssem com alguma prenda para os outros que as não podiam comprar. Todos aceitaram a sugestão da Senhora Professora.
No dia destinado à festa, na sala de aula, foi colocado um bonito pinheiro para servir de “Arvore de Natal”. Decoraram-na com lâmpadas coloridas e com algumas séries que davam luz intermitente. Não faltaram bonecos e outros motivos natalícios. Todos os meninos – poucos faltaram…- levaram suas prendas para a Arvore, e alguns levaram mesmo duas…Para a Senhora Professora foi levada uma especial, preparada por alguns pais.
Decorreu a festa com muita alegria, à mistura com um lanche de bolos e guloseimas que a Mestra havia preparado. Durante a semana anterior foram ensaiados diversos cânticos próprios da quadra festiva, para que o ambiente fosse o mais agradável para todos e resulta-se num verdadeiro louvor ao Menino nascido em Belém.
Chegou o momento ansiosamente esperado por todos. Um dos alunos foi vestido de “São Nicolau”, como é já tradicional, e apareceu na sala para distribuir as prendas. Um silêncio e uma ansiedade pairava naqueles pequenos corações. Principiou a chamada…Apareceu a primeira prenda para o mais novinho, o Filipe. Outros foram seguindo, até que um leu: Zebedeu! Era um cavalo de boa estatura, com arreios e montado num pequeno estrado de rodas. Foi um delírio. Depois, seguiram-se outros até que, de novo, alguém leu no rótulo: Zebedeu! E, dali até ao fim, várias vezes apareceu o nome do nosso felizardo.
Os pais de outros alunos, sabendo da situação do Zebedeu e do desejo de ter uma prenda do Natal, foram pródigos em dar aos filhos prendas para o companheiro: brinquedos, roupas, livros e até uma caixa de bombons. A mãe, que estava presente, só chorava e o filho não tinha palavras para agradecer aos companheiros a quem abraçava fraternalmente e com muita ternura. Na noite de Natal, mãe e filho foram à “Missa do Galo” agradecer ao Menino Jesus tantas Graças. Para o Zebedeu foi o Natal mais feliz da sua vida.
Vila das Lajes, 2007-12-04
Ermelindo Ávila

terça-feira, 22 de janeiro de 2008

Obras e Obras

O Governo Regional e os Municípios anunciaram os Planos para o ano corrente, a executar na Ilha do Pico.
Quem se der ao trabalho de ler esses exaustivos programas fica ao corrente das intenções dos gestores regionais e municipais. Com tais documentos pretendem dar satisfação às reivindicações das populações, feitas desde longa data e que só agora, no final dos mandatos, parece que vão ser realizadas. Todavia, fico-me na dúvida de que tais projectos venham a ser concretizados, pois faz-se saber que os Serviços Públicos estão quase “insolventes” e que a maior parte das receitas vão ser encaminhadas para satisfazer os encargos com as dívidas contraídas nos estabelecimentos bancários. Mas, a dar como certo que os programas serão postos em execução, julgo que somente deverão ser iniciados os processos de empreitadas uma vez que, dada a burocracia a que estão sujeitos, nem para o fim do ano estarão concluídos.
A Secretaria do Ambiente traz em execução a empreitada de construção do molhe de defesa da Vila, uma obra que tem merecido o aplauso dos lajenses, mas ele só beneficiará a parte Norte deixando a descoberto a zona Sul, com a agravante de continuar sujeita aos ciclones e “enchentes” do mar do Sul. Além disso, não se vê que a ligação provisória do muro do Caneiro ao molhe em execução ou conclusão, seja considerada, muito embora se saiba, pelo que por aí constou, que está nas intenções da Secretaria manter essa ligação, necessitando apenas da elaboração e aprovação do projecto respectivo. Mas, isso dizia-se há um ano. Decorridos mais de doze meses, pergunta-se: Em que situação se encontra tal projecto?
Não se trata somente de uma obra complementar. Trata-se de um pequeno molhe que vai permitir, como já se verifica, a formação de uma bacia capaz de receber embarcações de avantajado calado e a segurança daquelas outras que permaneçam anualmente na bacia interior.
Foi pena que o projecto não tivesse o aceleramento desejado, permitindo que a empresa empreiteira tomasse a responsabilidade da construção como “obras a mais”, se é que a actual legislação contempla essa modalidade.
Importa, no entanto, prosseguir com as obras de defesa da Vila. A segurança dos seus habitantes exige que o Governo tenha isso em consideração prioritária. Parar na execução da defesa da Vila é contribuir para o mal estar da população que há muito vem reclamando, com toda a justiça, que se lhe dê um mínimo de condições para “dormir descansada”.
É indispensável assegurar a defesa dos edifícios que se situam na parte Sul da Vila. Se tal se vier a realizar, dar-se-á tranquilidade às pessoas que nela habitam e, sobretudo, a necessária segurança ao edifício da Escola Preparatória e Secundária, que merece ser garantida, evitando-se que a veleidade de alguns que, ao que consta, por acaso não residem na área urbana (chamemos-lhe assim), pretendem que o edifício seja abandonado e se construa um novo imóvel longe da Vila, provocando nela seu completo despovoamento. Já por diversas vezes manifestei a minha discordância pelo facto de se pretender, sem qualquer razão plausível, abandonar um edifício que foi inicialmente construído pela Câmara Municipal e que, - adaptando-se o da Ponta da Ilha para a instalação do curso preparatório, - pela diminuição da frequência de alunos, ficará com espaço suficiente para dar resposta às exigências do ensino actual.
Quando resolve a Câmara Municipal a situação dos terrenos destinados a um campo de golfe? Não será tempo demasiado esperar que a empresa, antiga concessionária, se resolva a abandonar a detenção da posse daqueles terrenos que, aliás, são propriedade municipal e que, ao que constou, lhe foram cedidos a título precário e sem qualquer retribuição? Com o impasse que se verifica, ficarão o concelho e a ilha privados de usufruir um complexo de vital importância para o desenvolvimento do turismo, indústria que, parece, vai ser o sustentáculo da economia picoense, e não só, num futuro muito próximo.
A Vila das Lajes tem de ser olhada com carinho e respeito. Há zonas abandonadas e em degradação, que necessitam ser recuperadas, e outras que podem ser ocupadas por edificações, evitando-se a fuga dos casais para as periferias.
E só mais esta pergunta, aliás inofensiva: Porque não incorporar na parte urbana a zona do ramal, que já foi denominado “Eng.º. Arantes e Oliveira”, (cuja placa toponímica desapareceu) sem que nenhuma investigação se houvesse realizado) proporcionando-se a construção de edifícios para habitação e, vamos lá, se se “teimar” na construção de um novo edifício escolar, implantá-lo naquela zona?
Vila Baleeira, Jan.º de 2008
Ermelindo Ávila

segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

CEREAIS E OUTROS GÉNEROS

Escreve Vitorino Magalhães Godinho em A Economia dos Descobrimentos Henriquinos, citado por Ernesto Veiga Oliveira e Benjamim Pereira, in Tecnologia Tradicional Agrícola dos Açores que o trigo foi a primeira grande cultura de cereais destas Ilhas, trazido pelos povoadores. Carreiro da Costa, (Boletim da Comissão Reguladora dos cereais do Arquipélago dos Açores. nºs. 31/32,) na rubrica “Rebuscos e Respigos”, diz, por seu lado, que: “O trigo, como se sabe, foi uma das primeiras culturas dos Açores, especialmente na ilha de S, Miguel, e aquela que foi objecto de maior exportação durante os primeiros tempos da vida agrícola insular”.
Na “História Insulana”, a pág. 213, o seu autor, P. António Cordeiro, informa: “Das terras lavradias (da ilha de São Miguel) não só se ocupam em trigo as mais delas, mas também em linho, e tanto, que ainda vai para as outras ilhas. Para o Brasil e para Portugal…”.
Em 1585 na Ilha de São Miguel houve grande produção de trigo de tal modo que um tal Pedro Anes, do Pico, morador na Ribeirinha, comprou a Luiz Gago, avô de Rui Gago da Câmara, oito moios de trigo por dezasseis quintais de pastel, que valia então o quintal a dois tostões somente”. (“Arquivo dos Açores”, Vol. XII, citando “Saudades da Terra” – de Gaspar Frutuoso, L.º 4º, Capº 51.) E ainda de Gaspar Frutuoso: “Este Pedro, do Pico. deu por uns sapatos brancos (que valiam naquele tempo trinta reis) para um seu criado seis alqueires de trigo.” Era uma abundância tal que o trigo, parece, não tinha valor.
Ainda a propósito do trigo, por Lei de 12 de Setembro de 1561, Dom Sebastião estabelecia as regras a que deviam obedecer as medidas de pão nas ilhas dos Açores. Por essa Lei somente passava a haver medidas de alqueire, meio alqueire e quarta de alqueire.
Depois apareceu nos Açores o milho, vindo dos Estados Unidos da América. Os historiadores não são precisos na data da entrada do milho nas ilhas. Carreiro da Costa, um dos mais distintos investigadores e historiógrafos açorianos do século XX, no estudo “Esboço Histórico dos Açores”, citando o Pe. Maldonado, recorda que o ano de 1647 foi um ano de tremenda fome, “em razão da esterilidade dos frutos comestíveis” e pela pouca ou quase nenhuma cultura dos milhos grossos que naqueles tempos se não usava senão por curiosidade.
Numa estatística de produção agrícola de 1702 (“Arquivo dos Açores”, Vol. X, pág. 297, verifica-se que o milho dela não consta, mas somente o trigo, a cevada, o vinho e o linho. Nessa estatística consta que o Pico produziu mil moios de trigo e vinte mil pipas de vinho, esta a maior produção dos Açores. No entanto, vinte e dois anos decorridos, o dizimeiro informava a Câmara Municipal das Lajes que tinha cinquenta moios de milho armazenado nesta Vila e nas Ribeiras, para exportação.
Interessante, pois, a deliberação municipal de 11 de Dezembro de 1847: “A Câmara, atendendo à grave falta de milho que se dá não só neste concelho, mas em toda a ilha, e bem assim a falta de batatas e a carestia dos trigos e igualmente a que das Ilhas mais próximas não deixam exportar milho, deliberou que desde ora em diante digo desde já ficava proibida exportação de milho tanto de dízimo como de particulares para fora do concelho tanto por mar como por terra sob pena de serem apreendidos na forma da lei e castigados os exportadores e condutores cada um com uma multa de dois mil reis.”
Mas esta não foi a única deliberação municipal sobre o milho que, após a sua introdução, passou a base da alimentação dos picoenses e da maioria dos açorianos. O trigo baixou a segundo plano, não apenas pelos cuidados que exigia a sua plantação, como pela exigência da vigilância provocada pela passarada – a praga como o povo lhe chamava – que exigia permanência de uma pessoa, durante o dia na época da maturação.
Em 17 de Maio de 1876, António Joaquim da Rosa, da cidade de Angra, pedia licença à Câmara para remover para a Ilha Terceira 30.000 litros de milho, por não achar comprador e achar ele (milho) a arruinar-se. O requerimento veio por intermédio do Governador para ser informado. Parte do milho havia sido recebido em pagamento de dívidas. Foram ouvidas a Câmara e Juntas de Paróquia por escrito. Foram todas de parecer que se podiam exportar os 30.000 litros de milho. Mesmo assim, a produção de trigo ainda se mantinha com algum volume, muito embora a Câmara, em sessão de 13 de Maio de 1880, considerando que a produção de trigo seria de 39.833 litros, necessitava importar até à próxima colheita, 85.6447 litros, pois poderia existir no concelho 440.568 litros de milho, pelo que deveria faltar, pelos seus cálculos, 353.978 litros.
E já agora registo aqui a introdução do inhame, uma dos produtos base da alimentação da população picoense. Em documentos notariais já em 1752 se fazia referência a dois pedaços de terra da Candelária de inhames e vinha. (F. S. Lacerda Machado, “Os Capitães Mores das Lages", pág. 44) muito embora Carreio da Costa, em apontamento no Boletim da C.R.C.A.A. (Vol.4 pág.99) refira que a cultura do inhame nos Açores deve datar do século XVII.
E ainda mais uma referência à batata doce que deve ter sido introduzida na Ilha Terceira nos fins do século XVI e na Graciosa, Pico e Faial no terceiro quartel do século XIX. No entanto, em 1849 Thomas Anglin, de S. Miguel, importou dos Estados Unidos da América cinco novas variedades de batata doce.
Hoje seria tarefa quase inútil a importação destes géneros para sementeira local. (Note-se que digo sementeira e não consumo…) Basta ver como estão os nossos campos, praticamente abandonados, sem que haja braços disponíveis para os trabalhar.
Até meados do século XIX todos os terrenos eram cultivados. Quase nem havia lenhas, nas partes baixas da ilha, para queimar. Uma tia avó dizia-me que, quando moça, ia com outras companheiras à serra juntar lenha para queimar nas cozinhas. As lenhas vieram descendo e, com a emigração do princípio do século XX , muitos terrenos foram abandonados e as faias, os incensos, e outros arvoredos tomaram conta deles. No conflito mundial de 1939-45, dada a dificuldade de importação de cereais, moveu-se uma campanha para a arroteia e limpeza das terras, chegando a Junta Geral do Distrito, organismo que tinha a seu cargo os serviços agrícolas, a dar prémios a quem procedesse a tais trabalhos.
As encostas desta vila, desde os quintais junto às residências, até ao alto, produziam muito milho e trigo. Havia em todas as chamadas “ladeiras”, o “serrado do trigo”. E pelas terras baixas abundavam, na época própria, as searas do mesmo cereal que, quando amadurecido, contrastando com o verde viçoso dos milharais, ofereciam um espectáculo interessante. Além dos cantares dos “vigias” para espantar a passarada, principalmente os canários que então abundavam, porque o pardal ainda cá não tinha chegado…
Hoje a vegetação selvagem quase invade as residências que lhe ficam vizinhas. E é pena que isso aconteça, pois provoca a necessidade da importação do trigo, que voltou a substituir quase o milho na alimentação dos povos.

Vila das Lajes.
Jan.º de 2008
Ermelindo Ávila

quinta-feira, 27 de dezembro de 2007

2007 - 2008

Parece que foi ontem que assinalávamos o início de 2007. Afinal ele está a terminar seus dias. Voltamos a folha do calendário e um ano surge.
Que será 2008? Sabemos que é ano bissexto, o mesmo que é dizer que, ao mês de Fevereiro, será acrescentado mais um dia. E, de quatro em quatro anos, acontece o mesmo a menos que a sua expressão numeral não seja divisível por quatro . Antigamente era um ano de surpresas e de acontecimentos agoirentos. Nos últimos anos as pessoas deixaram de pensar assim e só sentem os efeitos porque os ordenados não se alteram e há mais um dia a contar nos orçamentos domésticos.
O ano que ora termina não deixa saudades à grande maioria das pessoas, segundo os alarmantes clamores que continuamente nos chegam. Que será o novo ano? A ter em consideração as premissas que nos oferecem os resultados do ano que dentro de dias terminará, não será nada famoso o de 2008.
Os ordenados e salários manter-se-ão estagnados ou, como actualmente se diz, estacionários, originando lutas laborais contínuas. Os preços dos géneros continuarão em subida vertiginosa, resultando uma carestia de vida insuportável. As crianças serão indesejáveis. As interrupções da gravidez ocuparão as mesas da cirurgia hospitalar com a agravante de faltarem as mesmas para os doentes carecidos da intervenções cirúrgicas que se vêm forçados a procurar alívios em hospitais estrangeiros. Haverá mais crianças abandonadas nas creches e, nas ruas, mais famintos.
Será perigoso chegar à terceira idade porque a eutanásia espreita…
Nas ruas andarão aos bandos os desempregados, porque só se manterão as actividades industriais que produzirem bons e avantajados lucros para os seus donos e senhores, sejam nacionais ou pseudo-nacionais (estrangeiros).
Aqui e ali as rusgas de rua e manifestações sindicais são uma constante. E tudo no mundo global, onde só se procura extremar os dois blocos: milionários e pedintes. Ricos, remediados e pobres era em tempos idos.
É triste e arrepiante o quadro que aqui fica traçado? Queira Deus que me engane e que a humanidade possa gozar de paz, de tranquilidade, de alegria de viver, de bem-estar social e material. E se isso acontecer e eu vivo for, cá estarei para aplaudir a mãos cheias, todo esse conforto e desafogo material, do qual resultará, naturalmente, a harmonia e o entendimento positivo e sério entre os povos e as nações.
Chegado à derradeira dezena da centúria, não acalento esperança alguma de que o Mundo venha a entrar numa época de paz e de desenvolvimento. A História repete-se e estamos naquele período em que a ganância, a vaidade, o desejo de mandar e de subjugar os mais fracos se desenvolvem de uma maneira drástica e arrepiante; a devassidão e a sodomia voltam a dominar os povos! Iremos cair novamente na época de Sodoma e Gomorra? Os divórcios, as desuniões, o abandono dos filhos, as desavenças familiares, a desagregação social, as tempestades, os desastres aéreos e marítimos, as derrocadas e os sismos; o terrorismo e os assaltos e roubos desenfreados; a droga e o alcoolismo; os motins e as revoluções internas; todas essas calamidades de que os meios de comunicação diariamente nos dão notícias alarmantes, não serão uma amostra dos cataclismos que poderão acontecer a qualquer momento e quando menos se esperar?
Serei pessimista? Poderei sê-lo mas nunca alarmista. Os sinais dos tempos dão-nos as provas concludentes de que o mundo está doente…
Que o Senhor a todos proteja e ampare no novo ano que vai começar, são os votos que aqui deixo com muita sinceridade e amizade.
Vila das Lajes,
20 de Dezembro de 2007
Ermelindo Ávila

sexta-feira, 14 de dezembro de 2007

UM HERÓI DESCONHECIDO

Algumas vezes referi em escritos meus o herói nas lutas americana contra os Índios, John "Portugee" Phillipss.
Era natural desta vila ou melhor dizendo do subúrbio das Terras, filho de Filipe Cardoso e de sua mulher Maria de Jesus, naturais e fregueses da Matriz da Santíssima Trindade e moradores no lugar das Terras, desta Vila, nascido a 28 de Abril de 1832 e baptizado em 3 de Maio do dito ano. Faleceu aos 51 anos de idade, em Cheyenne, a 18 de Novembro de 1883. Ocorrem agora 124 anos.
"Rapaz ainda, emigrou para a América , numa antiga baleeira, de salto, como era vulgar naqueles tempos. Desembarcou nas costas do Pacífico, seguiu depois para Lesta, trabalhando com um grupo de aventureiros, como ele, que iam à cata de ouro. No verão de 1866 Phillips, chegou ao Forte de Kearney, com quatro companheiros. Ali todos arranjaram trabalho, parte do tempo contratados pelo chefe do posto do exército dos Estados Unidos.
Foi então que se deu a grande façanha do nosso conterrâneo. O forte onde trabalhava foi cercado pelos Índios e tornou-se forçoso pedir reforços ao forte de Laramie que ficava a mais de duzentas milhas.
Estava-se na véspera do Natal de 1866. Phillips ofereceu-se para ir até Laramie afim de levar uma mensagem do comandante, pedindo ajuda para combater a fúria dos indianos, dispostos a tudo conquistarem, para o que tinham de fazer grande carnificina entre os ocupantes do forte Kearmey. Caminhando, durante a noite, por entre matas bravas, iludindo assim a apertada vigilância dos assaltantes, num cavalo bastante adestrado, (consta que era o cavalo do próprio comandante do forte), para não ser apanhado pelos índios, conseguiu chegar ao Forte de Laramie e entregar o pedido de socorro. O cavalo, que tinha as ferraduras pregadas ao contrário para despistar os índios, ao chegar à parada caiu morto, exausto pela longa caminhada. O auxílio chegou ao forte sitiado e os assaltantes foram desbaratados. Todavia jamais perdoaram ao nosso herói o seu feito e, durante a vida, as suas propriedades eram constantemente assaltadas, como vingança, pelos índios.
Aquando do seu falecimento a Comissão do Congresso aprovou uma moção na qual se afirmou: "A morte de Mr. Phillps foi uma perda irreparável para esta terra, foi um homem sempre leal e verdadeiro em tudo, nunca se provando coisa alguma em contrário, honesto, cidadão correcto e prestante, amigo do seu amigo e do seu próximo.
"Não cremos que ninguém tenha feito mais por esta terra para abrir o caminho para a civilização que muitos de nós agora gozamos do que John Phillips. Muitos dos pioneiros que aqui se estabeleceram, lembrar-se-ão de tantas vezes que arriscou a vida na fronteira, desde Cache de la Pondre até aos confins da Montanha, enganando habilmente a astúcia dos peles vermelhas (índios), dando socorro a tantos que tinham caído, presas desses selvagens. Representou um papel muito importante no drama este país."
O Phillips visitou uma vez as irmãs, residentes no lugar das Terras, e é tradição que viajou num barco de guerra americano posto à sua disposição pelo Governo estadunidense. Num trabalho publicado no Boletim do Núcleo Cultural da Horta (Vol. III, nº. l, 1962) permiti-me alvitrar que o Manuel Filipe, seu nome de baptismo, fosse homenageado na sua terra natal. Isso nunca se verificou.
Hoje, voltando ao assunto, decorridos que são quarenta e cinco anos sobre o meu primeiro escrito, e recordando as homenagens diversas que os Estados Unidos lhe hão prestado, como acontece com os seus heróis, por vezes tardiamente, ouso lembrar que nunca é tarde para se prestar a devida justiça a quem a merece.
Porque não colocar, na zona central das Terras, onde se situa a Ermida do Coração de Maria e o grandioso salão Social, aqui vai a razão deste texto, um busto do nosso herói ? Para isso poderia servir a foto verdadeira que aqui se publica.
Faço um apelo à Câmara Municipal e aos habitantes daquele progressivo lugar, para que não esqueçam o maior filho da localidade.
Uma vez mais presto a minha homenagem ao herói Manuel Filipe e espero que este modesto pedido seja atendido por quem de direito e não se faça, uma vez mais, "ouvidos de mercador" a tão importante assunto, como é o acto heróico de Manuel Filipe, ocorrido, precisamente, há 141 anos.
Vila das Lajes,
Natal de 2007
Ermelindo Ávila

segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

MONTE DE SANTA CATARINA

O monte de S. Catarina, situado entre a Vila e a Ribeira do Meio, se contribuiu para a separação dos dois núcleos habitacionais, também teve o mérito de oferecer aos seus habitantes um lugar aprazível e um primoroso miradoiro onde, em tardes outonais, principalmente, se acolhiam os lajenses, para desfrutar um dos mais belos panoramas picoenses.
A ermida, de secular existência – e que foi objecto de demanda judicial, em tempos passados, porque o proprietário dos terrenos adjacentes reivindicou a sua propriedade quando ela sempre fora propriedade da Igreja, tanto assim que estava separada por um muro com portão, tendo acesso pela encosta, o que hoje, infelizmente, se não verifica; - a ermida permitia, do pequeno adro, uma visão larga para o oceano e montanha, que era regalo, e ainda hoje isso se verifica, para quantos ali subiam.
Magnificas tardes ali passei com alguns companheiros da juventude, que não mais esquecerei.
Actualmente, com as obras executadas na zona, – quartel dos Bombeiros, Campo de Jogos e Hipermercado – tudo se modificou. Está em ruínas o acesso pelo Oeste â ermida, onde se venera Santa Catarina, cuja festa ali se realiza anualmente com apreciável número de devotos .
Quando éramos crianças – eu e os meus irmãos – passávamos os serões do Inverno a ouvir uma tia-avó materna contar-nos “casos” e lendas que aprendera nos seus velhos tempos de menina e moça. E uma das lendas era a de Santa Catarina. Contava-a mais ou menos nestes termos:
Em tempos remotos apareceu na costa de São João uma bela imagem de Santa Catarina de Alexandria. Aqueles que a acharam trouxeram-na piedosamente para a igreja da Vila e aí ficou depositada. No dia seguinte a Imagem desapareceu do altar onde fora colocada. As pessoas afligiram-se e trataram de a procurar até que alguém a encontrou novamente nas costas de S. João. Voltaram a traze-lo mas ela no dia seguinte voltou a desapareceu e regressou ao primitivo lugar até que alguém se lembrou de construir uma pequena capela, num monte sobranceiro à Vila, para a guardar. Na capela ou ermida tiveram o cuidado de abrir uma janela, a permitir que a imagem, do novo altar, visse o lugar, lá ao longe, onde aparecera a primeira vez. E, ao longo dos tempos, se tem conserva a Imagem na sua Ermida…
Santa Catarina passou a ser invocada como protectora das doenças mentais ou de outras enfermidades da cabeça das pessoas. Certo é que, todos os anos, no dia da sua festa, aparecem, junto do respectivo altar, algumas cabeças de massa, em cumprimento de promessas.
O local onde se diz que apareceu a antiga Imagem, em São João, passou a denominar-se “Ponta de Santa Catarina”. Ainda se mantém? – Não sei.
Lenda ou facto histórico, a ermida ali está mas a primitiva imagem desapareceu, sendo substituída, no século passado, pela actual, realmente de uma beleza escultural pouco vulgar.
A ermida e a casa de veraneio foram legadas à Igreja pelos derradeiros herdeiros dos antigos proprietários. Os terrenos anexos, como atrás se diz, estão sendo ocupadas por três imóveis de interesse público. Em breve, ao que consta, será inaugurado o complexo desportivo. Uma obra notável que dignifica o Município, seu executor, e indispensável, sob diversos aspectos, ao desenvolvimento desportivo da juventude picoense, que não só lajense.
Em vias de conclusão está o edifício destinado ao hipermercado. Uma moderna estrutura que, depois de um acidente lamentável, chega ao fim e vai contribuir de certeza para o desenvolvimento comercial desta zona.
Resta fazer uma ligação condigna entre a Vila e a Ribeira do Meio, para que os dois sítios, unidos territorialmente, possam progredir com acerto e eficiência.
E, para que isso se verifique, é indispensável dar uma ocupação útil aos edifícios do antigo matadouro e igualmente da central eléctrica. Este, segundo creio, pertence de direito à Câmara Municipal e nele poderia ser instalado qualquer serviço de utilidade local, como, v.g., o arquivo municipal. E porque não transformar o edifício do matadouro num estabelecimento hoteleiro?
Há que lhe dar uma ocupação condigna e capaz de servir os interesses lajenses. Dizem que o Turismo não se desenvolve por falta de camas. Não será a ocasião própria para ali se construir um hotel de três ou quatro estrelas?
A quem de direito, fica o repto.
Vila das Lajes,
21 de Novº. de 2007
Ermelindo Ávila

quinta-feira, 22 de novembro de 2007

OUTRAS TERRAS...

É agradável viajar. Conhecer novos mundos, outras terras e outras gentes. Encontrar aqueles que um dia abandonaram os seus torrões natais e viajaram para o incerto, para o desconhecido, levando a alma amargurada pela saudade mas envolta numa réstia de esperança…
Foi isso que aconteceu a tantos milhares de açorianos que, vivendo horas amargas provocadas por carências várias, rodeados de filhos sem saber como lhes preparar o futuro, que era incerto, resolveram partir para outras terras, para o meio de novas gentes, e aceitar trabalhos desconhecidos.
Aqui os vim encontrar uma vez mais, decorridas algumas dezenas de anos, rodeados de filhos e netos e instalados em habitações confortáveis, auferindo as reformas que lhes permitem uma vivência relativamente fácil e feliz.
Apesar disso, eles não esquecem a terra de origem, nem desprezaram os amores pátrios. É, antes, consolador estar com eles e sentir o calor patriótico que os anima e que mais se releva e revela nas organizações sociais que criaram e mantêm com vivo e exemplar entusiasmo.
Foi isso que aconteceu agora, na cidade de Toronto, Canada,
onde se fixou, a meados do século passado, uma comunidade portuguesa e, sobretudo, açoriana, que acaba de inaugurar a sede própria da Casa dos Açores de Toronto, depois de vinte e cinco anos de existência e de ocupar prédios alugados. Um acontecimento que mereceu a presença do Presidente do Governo Regional dos Açores, do Secretário Regional da Economia, da Directora Regional das Comunidades, da Cônsul Geral de Portugal em Toronto e de outras entidades oficiais da Província de Ontário, além de representantes das mais de duas dezenas de associações regionais de Toronto e de centenas de açorianos portugueses e seus descendentes.
O programa das solenidades da inauguração, incluíu a celebração da XI Semana Cultural Portuguesa, o que permitiu a apresentação de diversas manifestações culturais: Conferências, lançamento de livros de edição portuguesa, cantares e até um dia dedicado à juventude. Lá estavam estudantes dos ensinos secundários e universitários, que apresentaram um programa rico de cultura e de arte portuguesas.
Foi muito sensibilizante e agradável estar esta semana na grandiosa e cosmopolita cidade de Toronto, encontrar velhos amigos e conhecidos e outros conterrâneos, que todos quiseram dar-nos um abraço de amizade e de respeito.
Não posso, nem devo esquecer o acolhimento que recebi e as gentilezas que me dispensaram. Não virei, concerteza, mais a Toronto, mas esta viagem, a quinta, tal como as outras, não mais a poderei esquecer. Desejava aqui deixar os nomes dos conterrâneos, amigos e conhecidos que encontrei. Impossível, tantos foram! Para todos, o meu cordial abraço de amizade.
Mas deixo, nestes rabiscos singelos, o meu agradecimento
respeitoso e profundo pela maneira atenciosa como me acolheram os ilustres membros dos corpos directivos da hoje CASA DOS AÇORES DE ONTARIO, e desejo-lhes as maiores felicidades, prosperidades e muitos progressos no desenvolvimento da sua patriótica actividade a bem da Comunidade e do prestígio de Portugal.
Toronto, 11 de Novembro de 2007
Ermelindo Ávila

quarta-feira, 14 de novembro de 2007

ANTIGOS COMBATENTES

A partir do dia cinco do corrente passa a existir no Largo Gen. Lacerda Machado, da vila das Lajes, tal como aliás vem acontecendo nas demais localidades da Ilha, um memorial em pedra basalto, a recordar aqueles jovens militares que estiveram a combater no Ultramar, entre os anos de 1960-1974. Trata-se de uma homenagem singela, promovida pelos próprios antigos combatentes, a perpetuar os nomes daqueles que, em momentos de amargura, foram retirados dos meios familiares para irem defender os territórios que estavam sob a jurisdição político-administrativa de Portugal; luta inglória que não alcançou mérito algum e que abruptamente foi abandonada…
Por lá ficaram alguns dos jovens picoenses, como aliás das diversas terras de Portugal. O número de falecidos foi de alguns milhares. Felizmente que, destas ilhas, o número de sacrificados em nome da Pátria não passou de algumas dezenas, se bem me recordo.
Três dos meus filhos estiveram nesses anos, ao mesmo tempo, no serviço militar. Dois deles no Ultramar, um em Angola e outro em Moçambique. E ambos só regressaram quando se deu a histórica descolonização… Foram horas, dias, meses e anos de aflictiva angústia, que não mais esqueceram. Felizmente que regressaram a casa, embora ficassem sujeitos a intermitentes sequelas.
Pior sorte tiveram os que não regressaram às suas casas e ao seio das respectivas famílias. Recordá-los é um acto de elementar justiça e homenagear a sua memória um gesto digno e plausível.
Pelo Ultramar ficaram;
1) Alferes José Vieira da Silva Cardoso, filho de João Vieira Cardoso, da freguesia de São João, falecido em Moçambique;
2) José Leal Goulart, filho de Jaime Leal Goulart, da mesma freguesia, falecido em Angola;
3) Gabriel Pereira Bagaço, filho de José Pereira Bagaço, da Ribeira do Meio, Lajes do Pico, falecido na Guiné;
4) José Cardoso Carias, filho de Júlio Cristiano Carias, da Calheta de Nesquim, falecido em Angola;
5) António Alberto da Silva Garcia, filho de Manuel Machado Garcia, da Almagreira, Lajes do Pico, também falecido em Angola;
6) Gabriel Jorge da Silva, filho de Manuel Jorge da Silva, de Santa Bárbara, Ribeiras, falecido em Moçambique; e,
7) Silvino Barbosa do Amaral, filho de Dinis Amaral, de Santa Bárbara, igualmente falecido em Moçambique.
Estes somente os do concelho das Lajes do Pico. cujos nomes constam do memorial inaugurado do passado dia 5 porque, infelizmente, dos concelho de São Roque e Madalena não me foi possível obter informações.
Mas outros mais terminaram seus dias ao serviço da Pátria como soe dizer-se.
Em 1931 deu-se em Angra do Heroísmo o revolta dos Deportados. Manuel Testa, natural da Ribeira do Cabo, desta vila, encontrava-se a prestar serviço militar no Castelo de S. João Baptista. Num noite foi escalado para fazer guarda, com outros, ao Comando Militar. E foi aí que uma bala traiçoeira, partindo inesperadamente da arma de um camarada, o atingiu mortalmente.
A quando da explosão que destruiu o quartel da Bateria, na cidade da Horta, em 22 de Abril de 1941, faleceram l2 militares, e um civil. Daqueles, três eram da ilha do Pico:
Manuel Ferreira Vieira, filho de José Vieira, e Claudino Quaresma Dias, filho de Alfredo Quaresma, ambos da Calheta de Nesquim, e ainda, Manuel Ferreira Morais, do concelho de São Roque do Pico.
Segundo informação de Júlio Cabral, datada de Janeiro de 1905, incerta no “Arquivo dos Açores”, Vol. III, respeitante a militares mutilados diz que no Hospital de Inválidos Militares Runa, inaugurado em 25 de Julho de 1827, estiveram internados os seguintes militares:
- Manuel Joaquim, cabo, filho de Joaquim José, natural da Ilha do Pico. Serviu no regimento de artilharia nº l. Fez as campanhas da liberdade, desde 8 de Julho de 1832 a 1834 desembarcando nas praias do Mindelo;
- João Inácio, soldado, filho de João Inácio, natural da Vila das Lajes do Pico. Nasceu a 21 de abril de 1882, assentando praça, como compelido, em 1 de Novembro de 1901. Serviu na arma da artilharia, e reformou-se em 29 de Setembro de 1903, desde quando entrou para o hospital. Ainda conheci este João Inácio (Senhura), ao qual fora amputada a mão direita, a trabalhar na “Farmácia Lajense”.
Mas, da Ilha do Pico, não somente os militares que acima refiro foram mutilados ou faleceram no serviço militar. Outros houve que aqui não se citam por falta de informação.
A todos, porém, envolvo no mesmo sentimento de respeito e homenagem.
Lajes do Pico,
5 de Outubro de 2007
Ermelindo Ávila

quinta-feira, 8 de novembro de 2007

SAÚDE E DOENÇA


Depois de muitos clamores e penares por terra e mar, chega-nos a notícia de que a Ilha do Pico vai voltar a ser a terra natal para as gerações futuras. Mas quando? - perguntamos nós.
Não é há muitos anos que a ilha do Pico foi interditada a nascimentos e… quase óbitos. É ver, com olhos bem abertos, o que se passa.
O nascer na ilha passou a ser um “crime” punível pelas leis regionais. E precisamente quando a taxa de natalidade, por circunstâncias várias, baixava drasticamente. Senão vejamos : No final do último quartel do século dezanove nasciam e eram baptizados na Matriz da SS. Trindade mais de 100 (cem!) neófitos naturais da paróquia. Na década de cinquenta o concelho registava somente cerca de cem nascimentos. E actualmente?
Nesse período raro, raríssimo era o óbito de um recém-nascido ou mesmo de uma criança de tenra idade.
Enquanto não houve serviço hospitalar no concelho os nascimentos tinham lugar nas residências das próprias mães, como aliás em toda a parte, e raramente eram assistidos por médico. Só a partir de 1960, com a entrada em funcionamento do antigo hospital concelhio (agora é Centro de Saúde), as parturientes começaram a utilizar, ainda em pequeno número, os serviços hospitalares, até que todas se convenceram que ali eram melhor assistidas, dado que o Médico Municipal tinha essa especialidade. E, para tal, foram sendo admitidas enfermeiras especializadas. Mas, chegou o dia em que era, talvez, necessário dar mais movimento, pois outra razão nunca encontrei, para que as parturientes fossem atendidas no Hospital Walter Bensaúde. Aí principiou a tragédia das travessias no canal, os nascimentos, casuais, a bordo das lanchas e das ambulâncias e sobretudo a deslocação para fora de casa das futuras mães com todos os inconvenientes que isso sempre acarretou.
Entretanto surge uma lei que permitia o registo de nascimento nas residências das mães. Mas quantos, por conveniência de aproveitarem os subsídios da Previdência, os faziam ( ou fazem) nas Conservatórias das cidades? Ou mesmo nos próprios hospitais, como parece que agora é permitido?!
Não é menos angustiosa a situação dos doentes e sinistrados. Porque não há médicos especialistas na Ilha, lá vão eles, de barco, de avião ou de helicóptero para o chamado hospital central da Horta e, quando este não o pode atender, para o de Angra e/ou Ponta Delgada. E depois para Lisboa… E por aí acontecem os desenlaces e, depois, as trasladações para aqueles que as podem suportar.
Há dias chamavam-me a atenção para uma estatística recentemente publicada, que indicava o número de consultas de especialidade feitas nos Centros de Saúde da Ilha do Pico. E via-se a triste realidade: o concelho das Lajes éra o que acusava menor número de consultas naturalmente à falta de médicos especialistas. Talvez esse o motivo, pois todos sabemos que as populações vão envelhecendo dia-a-dia e as carências aumentam constantemente.
São bem poucos os clínicos especialistas que se deslocam ao concelho das Lajes. Está para detrás da ilha e é cómodo ficar pelos outros concelhos onde as comunicações com o exterior são mais rápidas. Será esta a razão forte, ou outra ou outras existem para justificar a ausência de especialistas no concelho? Além disso, até há pouco havia dois consultórios particulares nesta Vila - hoje existe um – e neles podiam ou podem exercer, facultativamente, médicos especialistas vindos de outras ilhas ou até do continente. Mas essas consultas, com certeza, não são registadas nas estatísticas oficiais.
Estou somente a lembrar o que por aí vai sobre a saúde dos lajenses. E a propósito, pessoalmente, só tenho a registar o meu reconhecimento pela maneira gentil e atenciosa como sou recebido e tratado de meus achaques, que já não são poucos, pelos Médicos lajenses, a quem devo esta palavra de gratidão.
Sei que mais não podem fazer. Os meios auxiliares de diagnóstico de que dispõem são primários, uma legislação que lhes coarcta a actividade e umas instalações que já se encontram obsoletas. E não se fala, nos meios políticos, em outras conseguir ou as actuais melhorar.
O centro de saúde de S. Roque é de construção recente. O edifício antigo foi restituído à Misericórdia local, sua proprietária.
Anuncia-se que a Madalena vai ter novo centro de saúde.( Há quem diga que será o hospital de ilha. Mas essa hipótese já foi posta quando se construiu o de São Roque…)
No das Lajes não se ouve falar. Nem sequer os representantes do Povo, possivelmente atarefados em outros sectores…
É realmente uma lástima (para usar uma expressão popular) o que nos está a acontecer para estas bandas do Sul.
Quando é que temos políticos lajenses que se interessem pela sua terra e que façam valer, com dedicação e isenção, perante as entidades públicas, os direitos dos povos que os elegeram, se bem que compreenda que, para alguns, será difícil essa missão ?…
Vila das Lajes,
Dia de “Pão por Deus”
Ermelindo Ávila

sexta-feira, 2 de novembro de 2007

PÃO POR DEUS

É uma tradição muito antiga que ainda é mantida por alguns nos tempos actuais.
Os pobres aproveitavam este dia para recolher um pouco nos seus alfobres e conseguir algumas provisões. E de tudo lhes davam: algum dinheiro, pouco, porque não existia em abundância, frutas da terra, milho em cambadas ou em grão, batatas, cebolas, peixe seco, etc. De tudo o que a terra e o mar davam.
O pagamento era um agradecimento singelo mas sentido: - Seja pelo amor de Deus e pelas almas dos vossos…
Os pobres, quando recolhiam à noite, iam radiantes pelas esmolas conseguidas e com as famílias, se as tinham, davam graças ao Senhor e imploravam as bençãos do Céu para os seus benfeitores.
Presentemente, quase desapareceram os pedintes mais idosos. Ficaram as crianças que tudo aceitam, sobretudo umas moedas e algumas guloseimas, que essas são bastante apreciadas. Mas mantêm a tradição, o que é importante.
E a propósito de esmolas, recordo-me que, a meados do século passado, o governador civil de um dos distritos insulares, pretendendo acabar com a pobreza e a pedincha nas ruas, pois tornava-se uma nota deselegante para os visitantes (turistas) que começavam a aparecer pelas Ilhas, criou uma Comissão de angariação de donativos para serem distribuídos pelos pobres. E para que os habituais pedintes não andassem de casa em casa, diariamente, a esmolar, resolveu criar um dístico que o contribuinte tinha o direito de afixar na porta da residência com estes ou semelhantes dizeres: "Esta casa contribui para a Comissão de Assistência". E porquê? Simplesmente para que os pobres e carecidos não fossem importunar os moradores com suas pedinchas…
Em outro burgo açoriano estabeleceu-se a norma de os estabelecimentos comerciais ou congéneres, só distribuírem esmolas ao sábado, até ao meio dia.
Estando, casualmente, num desses estabelecimentos, num sábado, entrou um pobre a pedir uma esmola. O empregado que o atendeu, respondeu-lhe: Não sabes que já passa da hora? Mesmo assim, entregou-lhe uma moeda de dez centavos… Retirara-a de um pequeno montículo, onde outras, de igual valor, ainda ficaram. E o pobre calcorreava as ruas da cidade durante uma manhã - não podia ultrapassar do meio dia – para juntar um escudo ou dois. Que nem dava para o pão da semana.
Fiquei intimamente magoado com aquela grosseira atitude. Felizmente que, na minha terra, tal não acontecia.
Hoje será diferente. Por aqui não aparecem mendigos e, no "Dia do Pão Por Deus" só as crianças, aos grupos, filhos de pobres ou remediadas, - porque ricos não os há - em ar festivo aparecem com seu saquitel, a percorrer as casas , a pedir "Pão por Deus, por amor de Deus" . E nunca vão de mãos vazias" pois há sempre qualquer coisa a dar-lhes, "pelas almas dos nossos".
Penso nestes costumes, dos poucos que ainda se vão mantendo, e penaliza-me que, com a evolução social a que se vai assistindo, num futuro muito o próximo, estas e outras boas tradições, passarão ao esquecimento. Nem todos compreenderão este meu pesar por haverem deixado de apreciar os costumes honestos que vieram dos nossos avoengos.
É doloroso que assim aconteça.
Vila das Lajes, 20 de Outubro de 2007