segunda-feira, 29 de outubro de 2007

Império de São Mateus

No passado mês, a freguesia de São Mateus celebrou a festa do seu Padroeiro. Aliás isso acontece todos os anos e em todas as paróquias da ilha como nas demais da Diocese, que anualmente festejam o seu Padroeiro.
São Mateus, porém, tem um significado especial pois integra, nessa festa, o único Império do Divino Espírito Santo que ali se realiza, com a distribuição de rosquilhas a todos os participantes na solenidade. E vale a pena ver o magnífico cortejo de açafates incorporado na procissão do Padroeiro na qual, também, se inclui uma Coroa do Espírito Santo. Foi assim no dia 21 de Setembro último, cumprindo a população um voto muito antigo no qual colabora a própria Paróquia e também a população da Paróquia de São Caetano, dado que o voto foi feito quando as duas comunidades constituíam uma só paróquia.
Fora da época do Pentecostes, apenas se realizam na Ilha do Pico os Impérios de São Mateus e o de São Pedro, primeiro Padroeiro da Ilha, cuja igreja, actualmente uma pequena ermida, ainda se conserva na vila das Lajes. E já conta mais de quinhentos anos! Mas hoje refiro-me especialmente ao Império de São Mateus.
Estava-se no ano de 1718. Uma violente crise sísmica, principiando em Santa Luzia, abalou toda a ilha, seguida de erupções vulcânicas. O fogo rebentou em terra e no mar. Um verdadeiro inferno, como diz o povo. Mas vejamos muito sumariamente o que nos dizem os historiadores coevos.
Sobre os bodos que se costumam realizar anualmente em louvor do Divino Espirito Santo, escreve o Padre Alberto Pereira Rey, em escrito de 1753 (Arquivo dos Açores, Vol. III, pág.286): "Pelos anos de 1718 na ilha do Pico, a 2 do mês de Outubro (deve ser Fevereiro) rebentou o fogo dos minerais, que tem nas entranhas da Terra , de tal sorte, que parecia se acabava o mundo, ficando o espaço de quatro léguas tanto a Norte, como para a parte do Sul cheia de pedras, como de escamas que parecem montes altos, fazendo pontes pelo mar fora, até onde chegava a fúria dos minerais (fogo), não padeceram lesão alguma naqueles lugares, onde o fogo tudo converteu em pedra, algumas casas de moradores que nelas tinham trigo e vinho dedicado e separado para gastarem no ano seguinte com os Pobres no dia do Bodo do Divino Espírito Santo…"
Silveira de Macedo – servindo-se do "Auto voto que fizeram os faialenses quando o fogo rebentou na freguesia de Santa Luzia da Ilha do Pico" e da "Memória do vulcão da freguesia de São João da ilha do Pico ( extraído do Livro do Tombo da Matriz da vila das Lajes, daquela ilha)" ( aonde pára ele?…), - diz que o fogo rebentou em Santa Luzia no dia 1 de Fevereiro de 1718 e, no dia 2, a sul na freguesia de São João.
Por seu lado o Doutor Gaspar Frutuoso, (1589) narra: "Como tenho dito, na era de mil quinhentos e sessenta e dois, a vinte e dois (?) de Setembro, dia de São Mateus, uma légua da Vila de São Roque, caminhando para a Prainha do Norte, em cima, no cume da serra, quase da banda do Sul, como espaço de três léguas da falda do Pico, ficando ele para a banda do leste, tremendo primeiro a terra em um terço de hora dezasseis vezes, com contínuos e horrendos abalos e tão grandes estrondos, como de grossas peças de artilharia, em um lameiro arrebentou fogo fazendo cinco bocas muito grandes, sendo uma a principal e maior, de que manou uma grande ribeira de polme, que correu para a banda do norte por espaço de uma légua e meia até cair da rocha abaixo e fazer um grande cais abaixo da rocha onde se espraiou aquele polme e se tornou pedra viva, em que se não pode pôr pé descalço, nem se cria nenhum género de erva, nem mato, até hoje, sendo em alguma parte onde se não acabou de cobrir daquele polme ( "Livro Sexto de Saudades da Terra", a pág. 303.
Foi então que o "povo de São Mateus, receando o perigo mais próximo pela abundância de cinzas que caíam sobre a freguesia, concorreram à igreja a implorar a clemência divina e conjuntamente com os povos de São João, renovaram suas preces e votos dos antepassados. É que o voto de São Mateus deve reportar-se ao ano de 1562, aquando dos fenómenos ocorridos no dia 21 de Setembro. Tão violentos foram os tremores de terra e tão longe caíram as cinzas e a lava que, diz ainda o historiador, o povo do Pico se refugiou nas Ilhas de São Jorge, do Faial e da Terceira.
Como se verifica na narração de Frutuoso, a lava deste vulcão, ocorrido no Pico do Cavaleiro (?), correndo para o mar, formou a planície onde veio a fundar-se o Cais do Pico.
As preces e os votos dos nossos antepassados, seriamente atormentados por tais cataclismos, foram tão fervorosos que ainda hoje se cumprem com grande devoção e entusiasmo, por vezes emocionante, sendo testemunho, de tais votos, os Impérios do Espírito Santo que se realizam em toda a Ilha, mas em moldes diferentes daqueles que se praticam nas demais ilhas dos Açores, pois esses Impérios são realizados com a distribuição de pães de massa sovada, rosquilhas ou bolos de véspera, conforme as zonas, a todos os que comparecem nos arraiais. E não são esquecidos até aqueles que, por doença ou qualquer motivo justo, não podem comparecer.
É o que se verifica na freguesia de São Mateus, como atrás referi, cujo Império tem lugar no dia da festa do Padroeiro, a 21 de Setembro, com a ida da Coroa em cortejo à Igreja, onde está durante a Missa solene e, depois, tem lugar a coroação do Mordomo.
Vila das Lajes do Pico
19 de Outubro de 2007
Ermelindo Ávila

segunda-feira, 22 de outubro de 2007

Modernização da Vila

Há cerca de dois ou três anos a Câmara Municipal promoveu, no Auditório Municipal, uma reunião com uma equipa de Arquitectos que havia convidado para procederam ao estudo urbanístico da vila das Lajes. Não foi apresentado, se me recordo, qualquer relatório elaborado por esses Técnicos. Se existe deve encontrar-se no Arquivo municipal.
Interessante seria que, se existe, esse relatório ou estudo viesse a público para que os lajenses, - e não só… - tomassem conhecimento do parecer técnico sobre o estado da vila e seus possíveis arranjos urbanísticos.
Realmente, importa tomar uma posição sobre o estado actual do velho burgo, com uma existência que já ultrapassou os quinhentos anos e que é, assim, uma das mais antigas Vilas da Região, com um traçado que vem dos primórdios da sua criação mas que foi executado com sentido artístico. Olhe-se, com olhos abertos, para esse mesmo traçado urbanístico e ficar-se-á com a certeza do que venho de dizer.
Mas a vila não pode ficar por aí, com certas zonas decrépitas, e espaços abandonados. Há que fazer alguma coisa no sentido de a modernizar e a equiparar a outras que, de simples "aldeias" vão caminhando a passos largos para a urbanização que querem citadina.
Agradável seria que a zona urbana, em vez de caminhar para norte, se desenvolvesse no lado sul, ocupando os terrenos que ficam dum lado e de outro do ramal, levando-se a chamada zona industrial para melhor sítio, que não aquele.
Não será fácil proceder a grandes e inovadores arranjos. Mas algo se poderá empreender.
Não há muitos anos procedeu a Câmara ao calcetamento das ruas da Vila e dos respectivos passeios. Parece que a obra não ficou completa pois o empreiteiro – não constaria do caderno de encargos? – não procedeu ao nivelamento da calçada, o que provoca, em dias de chuva, a retenção das águas em sítios mais baixos…
Se, no entanto, o executor da obra não satisfez o seu compromisso, ainda será tempo de o obrigar a corrigir os defeitos deixados.
Além disso, vai sendo vulgar as diversas entidades exploradoras de serviços – electricidade, telefones, etc., abrirem valas para a reparação dos cabos subterrâneos. É um serviço que não pode ser evitado, uma vez que, aquando do lançamento desses cabos, não houve a necessária cautela na execução das "caixas". Mas importa que, ao remexer-se na calçada, tudo seja reposto com o necessário cuidado.
A Vila está sendo sinalizada para a regularização do trânsito. Todavia nem todos os sinais, a fazer fé nas reclamações ou críticas que se ouvem, são suficientemente esclarecedores. Além disso podia ter - se alterado o trânsito de certas ruas transversais, de maneira que umas permitissem a subida e outras a descida. E, a propósito, quando evitar a desorganização do estacionamento na rua Capitão Mór e Largo Lacerda Machado?
Volto a referir a "histórica" casa da Maricas do Tomé - Bem a meu pesar o faço, pois custa ver aquele montão de pedra e verdura no chamado "Centro Histórico" sem que haja quem lhes acuda. E nem só este, como a casa da Feliciana, à entrada da rua de Olivença. São mazelas que dão um sinal de desinteresse pelo embelezamento da vila e causam surpresa aos inúmeros visitantes estrangeiros que aqui chegam.
E já não refiro a Casa do Primeiro Povoador e a ponte adjacente.
Talvez resultante da actividade marítima, provocada satisfatoriamente pela exploração do "Whale Watching" a zona voltada ao mar, conhecida pela "Pesqueira", está sendo a mais movimentada da vila. Lá existem cafés-restaurantes, estabelecimentos de artesanato, residenciais, e até o Museu dos Baleeiros, que, apesar de outras "concorrências" continua a ser bastante visitado.
O antigo campo de futebol, um espaço com uma história rica, vem sendo ocupado pelo "estaleiro" das obras da Muralha da Cortina da Vila, que, segundo se diz, estão a chegar ao fim. Assim sendo, há que dar-lhe uma utilização capaz de servir os habitantes da vila e os visitantes. Não sei se algum estudo há feito nesse sentido, uma vez que campo de jogos não será mais, pois está em vias de conclusão o complexo de Santa Catarina.
Impõe-se transformar aquele espaço numa zona de lazer. Um jardim, devidamente arborizado, com bancos de descanso, a construção de um arruamento junto da muralha, e qualquer outra construção de utilidade pública. Mas, para tanto, impõe-se que o piso seja subido para o nivelamento da actual rua que o circunda, evitando que se transforme num lago como acontecia nos dias de enchente, ainda bem vivos na memória dos lajenses.
É tempo de algo se fazer, antes que outro destino menos conveniente lhe seja dado.
Estou em crer que os gestores municipais estão atentos aos "casos" que acima registo. Contudo, não faz mal lembrar que se olhe para a Vila, uma vez que, até aqui, se tem estado voltado para outras zonas…
Vila das Lajes,
14-10-2007
Ermelindo Ávila

terça-feira, 2 de outubro de 2007

Protecção da orla costeira das Lajes do Pico

Vão-se aproximando do fim as obras de protecção marítima desta vila. Já saiu do porto, para outra ilha, a barca que transportava para o alto mar os materiais extraídos da zona onde está a construir-se o molhe de defesa, ao norte da baía e mesmo no local da antiga “carreira”.
Embora os trabalhos hajam sofrido atraso motivado nos temporais do Inverno passado, eles no entanto puseram à prova a eficiência da obra que mesmo assim, há que continuar na parte sul, para que a vila das Lajes, uma vez por todas, deixe de ser inundada pelos mares do Oeste, em ocasiões de enchentes. Quando será considerada a execução de um segundo molhe, a Sul do que, agora, foi construído? Os lajenses interrogam-se e não há quem lhes responda. E é pena. Na verdade, parte norte da Vila fica defendida, o mesmo porém já não acontece com a parte Sul, ou seja a zona do Calhau Grosso, outrora defendida pela enorme cortina de pedra que se levantava naquele espaço e que foi desaparecendo com o rodar dos anos. Era uma “pedreira” ali ao lado, onde facilmente se extraíam muitas toneladas de pedra que servia para diversas construções e até para a muralha de defesa , junto à zona marginal da Lagoa, quando, em 1936, um enchente de mar destruiu a velha muralha. E bem reclamaram os habitantes da parte baixa da Vila para que não se retirasse pedra que constituía uma excelente defesa. Tudo foi em vão. Ninguém quis ou soube ouvir o seu justo reclamar.
E se “Roma e Pavia não se fizeram num dia”, há que estar atento, que, depois desta obra executada não fica completa a “Protecção da orla marítima das Lajes do Pico”
Os lajenses, na generalidade, senão todos, estão satisfeitos com a obra realizada. E nesse sentido sabem ser agradecidos. Esperam porém que, em futuro próximo e consoante os resultados obtidos com as obras em curso, se venha a reconhecer a imperiosa necessidade de se lhe dar continuidade.
Segundo uma comunicação oficiosa de 18 de Abril de 2005, ia ser estudada a eventual manutenção do acesso à obra, tal como o têm vindo a reclamar muitos lajenses.
Ao que nos consta os estudos já foram realizados. O acesso parece que, logicamente, vai tornar-se definitivo, muito embora haja que realizar-se algumas obras de consolidação e “adaptação” ao local.
Seja como for. Importa que o acesso seja mantido e o piso do trânsito sobre o molhe devidamente consolidado. E mais deve ser considerado. Esta a razão forte deste arrazoado.
Todos temos a nítida certeza de que não vai construir-se no futuro uma “doca”. Sabemos que não nos está reservada essa, aliás, excelente estrutura, pois não ignoramos que pedir tal, a “ira dos deuses” voltar-se-ia contra nós. Mas pedir não ofende…
Neste momento, que se julga o aprazado, pede-se somente que, a meio do molhe em construção, voltado para o “Poção”, ou seja a nova bacia agora criada, seja construída uma plataforma com escadaria de acesso, que bem poderia servir no futuro para a acostagem de qualquer embarcação de maior calado.
E porque não?
Vão em bom ritmo as obras de desassoreamento e arranjo da Lagoa ou porto interior. Junto da muralha de defesa está a ser construída uma plataforma donde enrocarão as rampas de acostagem das embarcações de pesca e de recreio. E isso torna-se muito importante para dar um arranjo disciplinado àquele espaço, uma vez que, no último ano, as pequenas embarcações existentes no porto duplicaram.
O terrapleno junto da muralha poderá ser o início do passeio marítimo que a Câmara Municipal projecta realizar até ao Portinho, na zona da Ribeira do Meio.
Estarei a sonhar? Talvez. O tempo, porém, o dirá.
O turismo marítimo principia a desenvolver-se nesta terra. É preciso dar-lhe condições para que daqui não se venha a afastar. E é no turismo que está o desenvolvimento futuro da economia desta parte da ilha.
Não demorem, pois, com as estruturas indispensáveis ao seu desenvolvimento. É o apelo que hoje aqui fica.
Em todas as terras ditas civilizadas encontramos pelos largos e jardins aves, das mais variadas espécies. As populações tratam-nas com carinho e dão-lhes alimento. Vi isso na América, em Lisboa, na França e outros mais sítios por onde andei. Porque não dispensar o mesmo carinho às patas que há poucos anos se fixaram nas lagoas desta vila? Porque as exterminam com requintes de malvadez?
Um pedido aqui deixo: Não as maltratem pois elas dão um ambiente novo e interessante à pacatez do meio onde vicejam.
Vila das Lajes
27 de Setembro de 2007
Ermelindo Ávila

segunda-feira, 24 de setembro de 2007

REGATAS BALEEIRAS

A frota baleeira tem andado por essas ilhas numa azÁfama tremenda. E não só.
Voltaram às regatas já que outra utilidade não têm as airosas canoas. E não se têm sucedido mal. Foram à Galiza e arrancaram de lá os troféus. Voltaram agora aos Estados Unidos e no porto baleeiro de New Bedford foram os marinheiros picoenses e faialenses mostrar uma vez mais o seu valor de homens do mar, já que não é a primeira vez que ali se deslocam.
Por cá as regatas programadas pelos serviços náuticos, têm-se realizado em alguns portos açorianos, principalmente pelas festas principais, fazendo parte dos respectivos programas. Todavia não só agora que isso sucede. Sempre assim aconteceu ao longo dos anos.
O bote baleeiro, uma criação do lajense Francisco José Machado, no último quartel do século XIX, ao longo dos anos, e mais de um século já passou, tem sido "requisitado" para tomar parte em regatas "oficiais" e particulares.
Aqui há anos foram os botes lajenses tomar parte numa regata realizada na baía de Angra integrada nas Festas da Cidade. A vitória foi sua.
Aquando da visita régia, a 28 de Junho de 1901, à cidade da Horta, os Reis D. Carlos e D. Amélia, que viajavam no cruzador D. Carlos, foram recebidos por uma esquadrilha de canoas-baleeiras, a remos, que contornaram o navio e o acompanharam ao ancoradouro.
No dia seguinte houve uma regata à vela e a remos de canoas baleeiras e embarcações de recreio. Os régios visitantes assistiram à regata a bordo do cruzador S. Gabriel. (l)
Não nos diz o historiador quem ganhou a regata mas sabemos que foram duas canoas das Lajes pertencentes, respectivamente, às companhias das "Senhoras" (União Lajense, L.da.) e "Judeus" (Nova Sociedade Lajense, L.da.)
D. Carlos ficou muito satisfeito com a homenagem dos baleeiros (que nas ruas da cidade haviam já levantado, em homenagem às Magestades um artístico arco triunfal que se destacou entre os demais), e ofereceu às duas canoas vencedoras uma canoa baleeira.
Como ficou dito, as regatas têm continuado. Os botes baleeiros, depois da drástica proibição da caça do cachalote, foram distribuídos pelos diversos clubes navais e servem agora para, na época do verão, fazerem regatas a remos e à vela, nos portos onde se realizam festividades cívicas e religiosas. E não importa que essas zonas hajam sido estações baleeiras…
Foi a maneira encontrada de dar utilidade a um património que ameaçava desaparecer, como aconteceu a outras embarcações de notório valor histórico que, nos séculos XIX e XX, muito contribuíram para o desenvolvimento económico das ilhas do chamado Grupo Central do Arquipélago Açoriano.
A "Calheta", a primeira embarcação motorizada que, nos meses de verão, fazia ligação das ilhas do Faial, Pico, S. Jorge e Terceira, ficou limitada às viagens do Canal; a "Espalamaca", o "Terra-Alta", e já não refiro o "Ribeirense", o "Andorinha", o "Bom Jesus", o "Espírito Santo", a "Helena" e outros mais que constituíram a riqueza económica e o progresso social do último século, para as gentes destas ilhas, porque alguns desses outros rumos tomaram, todos ingloriamente foram abatidos como peças incómodas do progresso actual.
Vila Baleeira,
Setembro de 2007
Ermelindo Ávila

domingo, 16 de setembro de 2007

AS APARIÇÕES DE LOURDES (1858-2008)

No próximo ano dois acontecimentos notáveis ocorrem nas solenidades de Nossa Senhora de Lourdes: os cento e cinquenta anos das Aparições de Nossa Senhora, na Gruta de Massabielle, à Bernardette, hoje já elevada à dignidade dos Altares; e os cento e vinte e cinco anos da celebração da primeira Festa em honra de Nossa Senhora de Lourdes na Matriz das Lajes do Pico..
A “Semana dos Baleeiros”, que não passa de um complemento externo das solenidades religiosas, tem sido objecto, nas últimas semanas, de sugestões, não refiro críticas, pois cada um é senhor de ter critério diferente sobre os actos externos que têm vindo a ser programados .
O Culto Mariano deve merecer um tratamento especial no ano dos “centenários”, pois não é todos os anos que se celebram conjuntamente dois factos históricos de relevância tamanha.
Altere – se, se assim entender a comissão respectiva, o programa das festas externas. Reduza-se o tempo destinado à denominada “Semana dos Baleeiros” que, dest’arte, deixará de ser “Semana” para ter outra denominação adequada. A parte religiosa, essa não poderá sofrer alteração de maior, pois é normal, nas solenidades mais relevantes das comunidades religiosas, as festas principais serem precedidas de novenário litúrgico e, no dia da festa, Missa solene e Procissão. É um programa secular que está estabelecido em todas as paróquias e não vai ser a Matriz das Lajes a modificá-lo.
A organização do novenário pode ter sofrido correcções. Antes havia sido estabelecido um programa litúrgico diferente. A meio da tarde, cerca das quatro horas, reuniam-se os fiéis na paroquial para a celebração daquela devoção que constava de Invitatório, um trecho litúrgico cantado, o sermão, normalmente para ele se convidavam os mais notáveis oradores sacros, a Ladainha laurentina, cantada, e os hinos de encerramento. As partituras haviam sido adquiridas no Continente, aquando da introdução desta solenidade. Nos últimos três dias de novena o Santíssimo era exposto no Trono, o mesmo sucedendo durante a Missa solene do dia. Hoje, com as alterações litúrgicas introduzidas pelo Concílio Vaticano II, isso não seria possível. Aliás em nada ficou prejudicado o acto litúrgico, antes valorizado com a Eucaristia e distribuição da sagrada comunhão. Consequentemente uma vivência mais condizente com a época actual.
O programa externo foi bastante alterado com a “criação” da “Semana dos Baleeiros”. E uma semana, se a memória me não falha, são sete dias. Mas isso não importa. Dias a mais ou a menos não me interessa, se bem que não esteja aqui a defender a minha dama... Já a bem poucos ou quase nenhuns actos do programa externo assisto, muito embora defenda que o programa externo deva manter-se. Pois se ele sempre existiu desde a primeira festa… Noutros moldes? Naturalmente. Os tempos evoluíram e não devemos ficar na cepa torta…
Porque alguns distintos articulistas apresentaram suas opiniões sobre a “Semana dos Baleeiros”, já incluída nos cartazes turísticos, aqui deixo uma sugestão, que aliás não é invenção minha.
Durante alguns anos o programa dos actos externos reservava um lugar especial à parte cultural. Normalmente eram convidadas individualidades, que aqui vinham fazer conferências sobre os mais diversificados temas. Vieram sacerdotes, professores universitários e personalidades de comprovada cultura. Algumas dessas conferências foram publicadas, quer em boletins de instituições culturais quer em separatas. Não me consta que algum dos eruditos conferencistas recebesse qualquer benesse pelo seu trabalho. Permito-me lamentar que se tenha excluído dos programas esses eventos culturais. Somente…
Mesmo assim atrevo-me a deixar aqui uma sugestão, muito simples mas que será de frutuosa utilidade.
Em Lourdes, onde se deram as Aparições de Nossa Senhora a Bernardette – 1858- vão comemorar-se os cento e cinquenta anos desse acontecimento extraordinário.
Segundo a Voz Portucalense (29-8-2007), “A preparação está a ser dimensionada para ocorrer ao longo de um ano, de 8 de Dezembro de 2007 a 8 de Dezembro de 2008, através de um amplo programa de formação e divulgação do sentido teológico, devocional e cultural deste acontecimento” Este jubileu está a ser organizado sob a direcção do Bispo de Tarbes-Lourdes.
E o mesmo semanário - órgão da Diocese do Porto - escreve ainda: “A história de Lourdes escreve-se dia-a-dia. Não é uma lenda de tempos passados. Cento e cinquenta anos depois das aparições era necessário agradecer as graças recebidas, tomar consciência da nossa missão no início do terceiro milénio, abrir mais amplamente as portas do santuário”.
A introdução da devoção a Nossa Senhora de Lourdes, nesta terra, vai perfazer cento e vinte e cinco anos. Foi a primeira terra açoriana onde Nossa Senhora foi invocada publicamente, a primeira vez. Esse facto histórico traz aos lajenses grandes e sérias responsabilidades. E foi em 1883 que, após a chegada da veneranda Imagem, teve lugar a primeira festa de Nossa Senhora Aparecida, no último domingo de Setembro. Nos anos seguintes, porém, passou a realizar-se no último domingo de Agosto, pois, no antigo calendário litúrgico, a Igreja dedicava esse domingo, salvo erro, ao Imaculado Coração de Maria.
A Matriz da Santíssima Trindade das Lajes do Pico, a partir daquele ano de 1883 tornou-se o autêntico Santuário da Virgem para onde, durante todos estes anos, acorrem peregrinos vindos das mais diversas paragens.
Importa, pois, pensar desde já o que vai ser o próximo ano . É um ano duplamente jubilar para os lajenses. Há que ter isso em muita consideração e preparar desde já a faustosa comemoração.
Creio que muitas pessoas desconhecem hoje o que foram as Aparições de Nossa Senhora em Lourdes, como “discutem”, sem conhecimento de causa, o que representaram para Portugal e para o Mundo cristão as Aparições de Fátima em 1917, apesar de tanta pregação nesse sentido.
Adequado seria promover no próximo ano, para além do novenário, um Congresso ou Jornadas Marianas em que o tema das Aparições e não apenas, seja tratado por eruditos sacerdotes ou leigos, devidamente credenciados. Seria um acontecimento cultural e religioso de tamanha relevância, que ficaria a marcar, louvavelmente, as comemorações dos cento e cinquenta anos das Aparições em Lourdes e os cento e vinte e cinco anos da introdução da solenidade de Lourdes na Matriz das Lajes do Pico.
Porque se trata de um evento de responsabilidade, um ano não será demais para o preparar. Julgo que ninguém se escusará a dar a sua colaboração a tais Jornadas!.


Vila das Lajes,
9 de Setembro de 2007-09-09
Ermelindo Ávila

sábado, 8 de setembro de 2007

"O DEVER" NAS LAJES

No ano em que o jornal lajense celebra noventa anos de vida operosa e difícil, impõe-se uma palavra sobre a sua publicação nesta vila, cujo primeiro número – o 983, saiu no dia 3 de Setembro de 1938, ocorrem hoje (69) sessenta e nove anos.
É verdade que o jornal iniciou a sua publicação no dia 2 de Junho de 1917, na Vila do Topo, S. Jorge, onde se encontrava a paroquiar desde 1911, o seu Fundador e Director, P. João V. XAVIER MADRUGA, passando na semana seguinte a publicar-se na vila da Calheta, onde paroquiava o Pe. Manuel Joaquim de Matos, que assumiu a edição e administração do jornal e nesses cargos se manteve até ao falecimento.
A partir daí assumiu a Administração e Redacção do Jornal o Poeta e Jornalista Samuel da Silveira Amorim. Mas o jornal continuava a ser perseguido pelos caciques locais, o que levou o P Xavier Madruga a pedir para que ficasse sob a alçada do Oficial Censor da Horta, situação que era de natureza precária. Isso levou o Proprietário a requerer a transferência do jornal para as Lajes do Pico. Foi então que houve de proceder à partilha da tipografia: a maquinaria e tipo afecto à feitura do jornal ficou para o Pe. Xavier Madruga; e a parte tipográfica, Minerva e tipo, para a Família do P. Matos, cujo cunhado já a explorava por conta própria. Em parêntesis se diga que o prelo havia sido comprado em Angra, aos proprietários do antigo jornal “O Tempo”. Aliás dizia o Pe. Madruga que toda a maquinaria havia sido paga do seu bolso mas que, por um acordo feito a pedido do Pe. Manuel Joaquim de Matos, que tinha em S. Jorge a responsabilidade da Redacção e da Administração, aquiescera em que a tipografia ficasse para os dois, bem como a casa onde estava instalado o jornal.
Tanto assim que só vieram para as Lajes o prelo e as caixas de tipo respectivas. Indo aos Estados Unidos, o Pe. Madruga comprou em Boston uma guilhotina, uma minerva e uma grafadeira para a secção de trabalhos; e no decorrer dos anos foi renovando o tipo, já cansado e adquirindo outro para títulos.
Quando da transferência do prelo e tipo para as Lajes, cujo material foi transportado pelo antigo iate “Andorinha”, encarregou-se da expedição o Sr. Samuel Amorim, bom amigo de saudosa memória.
Tudo decorreu pacífica e cordialmente, sem atropelos de quaisquer direitos de propriedade. Magoa pois que, decorridos quase setenta anos, haja quem se atreva a classificar menos correctamente a transferência do jornal.
Quando o material de “O Dever” aqui chegou encontrava-se o Pe. Xavier Madruga em viagem pela Europa, tomando parte na Peregrinação Nacional a Budapeste, onde se realizou o Congresso Eucarístico. Na secção portuguesa do Congresso e a convite do Presidente da Peregrinação, o Arcebispo de Mitilene, fez uma conferência sobre a Eucaristia, que as agências noticiosas logo espalharam pelo mundo. E foi aí que o Senhor Arcebispo o convidou para ficar na Capital. Ele não aceitou porque, uma das razões principais, a mãe era de avançada idade e desejava estar junto dela. Mais tarde veio a penitenciar-se de não ter aceitado o convite…
O Pe. Xavier Madruga desejava que o jornal iniciasse a publicação logo que o prelo chegasse às Lajes, mas preferiu-se aguardar o seu regresso, principiando a publicação , como acima se diz, a 3 de Setembro de 1938.
No jornal iniciou logo as suas impressões de viagem, que depois havia de reunir em volume, sob o título “…ATÉ AO DANÚBIO” . e, além deste, já havia publicado anteriormente “Dos Açores a Roma”, com as suas impressões de viagem aquando da canonização de Santa Teresinha, em 1925. Depois, só um pequeno volume, com os artigos que escreveu sobre a sua visita a São Jorge!… para pregar nas festas de Nossa Senhora de Fátima, a 13 de Maio de 1949, a convite do P. Teixeira Soares,
Vigário de Santo Amaro e ouvidor do concelho. O livrinho tem o título “Magnificat ou o Milagre de Fátima em Terra Açoriana” e é uma separata de “O Dever”. Nesses artigos dá testemunho da maneira simpática como foi recebido e do carinho e respeito que lhe foi dispensado, não só pelos colegas como de distintas personalidades jorgenses.
Todo este arrazoado vem a propósito da diabrite que se enviou impensadamente, creio, para o ar, num programa que tem larga audiência nos Açores e que só teve o mérito de realçar a memória respeitosa e saudosa de tão distinta figura do clero açoriano, no fim do século XX.
“ Dever” nas Lajes há quase setenta anos. Tinha vinte e um anos quando assumi os cargos de Editor e Administrador. Cheio de entusiasmo procurei colaborar o melhor que me foi possível e já antes, desde 1932, dava a minha modesta colaboração ao jornal do Senhor Padre Madruga, como então era conhecido. E assim continuei. Já decorreram (75) setenta e cinco anos. Nem sempre foi fácil. Também sofri, quer conjuntamente com o Director, quer pessoalmente e não raras vezes. Recordo aquele dia em que fomos notificados para comparecer no Tribunal Judicial para esclarecer quem era o autor do artigo “Aqui também é Portugal!”. Um caso que foi resolvido na Relação e que custou ao Director de “O Dever” a “módica” quantia de dez contos, paga ao Advogado de defesa! Naquele tempo, uma fortuna.
Representei o jornal em diversas jornadas, conferências e congressos, o que me deu certa alegria, pois tive ocasião de visitar terras desconhecidas e contactar com jornalistas de grande craveira cultural e profissional.
Nunca deixei de estar na linha da frente, quando se tratava dos interesses da minha e nossa terra. Algumas vezes fui maldosamente “apedrejado” mas procurei sempre sair ileso, porque só pugnava e defendia a verdade e os direitos do nosso povo.
Hoje, arrumado, como habitualmente se diz, vivo ainda intensamente os problemas da terra e espero que um dia, que já não vejo, a Vila das Lajes do Pico ocupe o lugar a que tem direito e merece com justiça. E “O Dever”, o seu mais acérrimo defensor, continue a lutar desassombradamente pela terra e pelos direitos das suas gentes e que, daqui a dez anos, ao celebrar o centenário, os lajenses lhe prestem e ao seu Fundador as homenagens devidas e merecidas.
Vila das Lajes do Pico,
Setembro de 2007
Ermelindo Ávila

sábado, 1 de setembro de 2007

IMPRENSA PICOENSE

Orlando Castro,. Jornalista, em tempo, do “Jornal de Notícias”, andou pelos Açores no Verão de 1993, visitando especialmente as ilhas do Grupo Central, onde se demorou dezoito dias. Das Crónicas que escreveu para a Imprensa Continental, publicou, depois, “Açores- Realidades Vulcânicas”, um livro de 137 páginas, com vinte pequenos capítulos, incluindo o Prefácio da lavra de José Manuel Tavares Rebelo, Presidente da Casa dos Açores do Norte.
Um dos capítulos é dedicado à (IM)PRENSA (sic). Principia por referir o centenário “O Telégrafo”, infelizmente já desaparecido para, de seguida, aludir à Imprensa que já existiu nas Ilhas do Grupo Central – Graciosa, São Jorge, Pico e Faial. Faz alusão ao primeiro jornal agrícola português . “O Agricultor Micaelense” (1843) Não esquece o “Açoriano Oriental”, felizmente transformado em diário aqui há uns anos passados, e, da ilha de São Jorge, cita alguns títulos.
Sobre o Pico e o Faial apenas escreve: “Embora com grande tradição, se é que a ancestralidade pode ser considerada como uma tradição, a Imprensa açoriana não existe enquanto tal. O que existe são várias imprensas, e nem por isso menos dignas, cada uma no seu nicho, cada uma na sua ilha. O sentido de arquipélago não passa de uma miragem. Mesmo entre o Faial e o Pico, separados por escassos 6 Kms, há uma barreira enorme. Não são, mas parecem e funcionam como se fossem “países” diferentes, com culturas e línguas antagónicas.” (pág.73)
Não sei onde o sr. Castro teve tempo para, em três semanas (l8 dias)
tanto descobrir. Mas mais não cito.
Porfírio Bessone no seu “Dicionário Cronológico dos Açores” (1932) insere uma relação das publicações açorianas que ocupa 24 (vinte e quatro páginas) e não inclui todos os jornais que existiram, v.g., na ilha do Pico.
A primeira Imprensa que houve na ilha foi trazida para as Lajes pelo professor Manuel Tomás Pereira em Setembro de 1874, muito embora nela não tenha sido impresso qualquer periódico. (Arquivo dos Açores, Vol.IX, p.41) O primeiro jornal existente na ilha foi publicado na Madalena, “O Picoense”, fundado em 1874 pelo ainda estudante Dr. Urbano Silva Ferreira.
Até à actualidade a Madalena fundou doze periódicos, incluindo dois em S. Mateus. Actualmente publica o semanário “Ilha Maior” no vigésimo ano de publicação.
Nas Lajes publicaram-se oito jornais, incluindo “O Dever” que há meses celebrou 90 anos de existência, muito embora se edite nesta Vila somente a partir de Setembro de 1938 ( ocorrem agora 69 anos).
Em São Roque do Pico publicaram-se : O Echo do Pico, 1878; Boletim Judicial, 1879; O Picaroto, 1882; O Pico, 1885, este fundado e dirigido pelo malogrado Poeta Manuel Henrique Dias; O Independente, 1882; O Picaroto, 1890, com várias séries; O Popular, 1890; O Futuro, também com várias séries; e o Picoense, com várias séries, igualmente. Presentemente há o Jornal do Pico já no quarto ano de publicação.
Embora alguns dos jornais fossem de efémera duração, presentemente os jornais picoenses, já com assinalável existência, têm colaboradores distintos que lhes asseguram existência promissora e estável.
A Ilha do Pico não é apenas uma das vinte mais notáveis, em diversos aspectos, no mundo. Vive uma época de cultura notável que a distingue entre as demais do Arquipélago. Felizmente!

Vila das Lajes.
31 de Agosto de 2007
Ermelindo Ávila

sábado, 18 de agosto de 2007

AS FESTAS DE VERÃO

É assim que as classifica o povo. Desde remotas eras. Eram as festas e os arraiais a única distracção que existia nas freguesias até meados do século passado.
As populações juntavam-se nos adros das respectivas igrejas onde se celebravam as festas dos Santos Padroeiros ou os de maior devoção e aí passavam as tardes, assistindo ao arrematar, por vezes em despique acalorado, das “ofertas” que eram de variadas espécies: produtos da terra, tais como maçarocas de milho, frutos das quintas e dos quintais, massa sovada dos mais variados feitios. A figura de uma perna, de um braço ou de uma cabeça, conforme a graça da cura de uma doença que havia afectado uma daquelas partes do corpo humano; uma vaquinha ou um porco, pela cura de um animal doméstico que havia sofrido alguma enfermidade, etc. E outros mais.
Nos arraiais os moços iniciavam ou mantinham namoros que, quase sempre, os levavam ao casamento “para toda a vida”.
Um viver patriarcal e cristão. Bons tempos!...
A meados do século XIX surgiram as filarmónicas e os arraiais passaram a ter maior assistência e, naturalmente, mais alegria. E os arraiais continuaram, abrilhantados pelas filarmónicas que foram aparecendo em quase todas as freguesias, numa simpática nota de cultura, até nossos dias.
Dom João Paulino de Azevedo e Castro, ao tempo Vice-Reitor do Seminário de Angra e que pode ser considerado o iniciador da Festa de Nossa Senhora de Lourdes nesta vila, como na Sé de Angra e em Santo Antão, S. Jorge, onde paroquiava o irmão, Pe. Francisco Xavier de Azevedo e Castro, em artigos publicados no “Peregrino de Lourdes”, de Angra, em Julho de 1889 (in “Textos de D. João Paulino”, Provisões e outros escritos, Vol. II, Macau – 1997, coordenação do Pe. Tomás Bettencourt Cardoso), relata a primeira festa realizada nesta vila em honra de Nossa Senhora de Lourdes, em Setembro de 1883. E permito-me a transcrição:
“A Vila das Lajes, triste e pacata de ordinário, toma durante estes dias um aspecto risonho, alegre e animado. Desacostumada de ver gentes de fora tomar parte em suas festas desde o tempo dos capitães-mores, em que a festa anual do Corpus Christi atraía ao seu recinto, vindos de todo o concelho, uns legendários corpos de milícia armados de chaços e espadas em atitude bélica, - vê-se, durante estes dias, povoada de estranhos, que em atitude pacífica, armados quando muito do rosário a visitam, atraídos de todos os pontos da ilha pelo encanto da devoção à Virgem de Lurdes.
Há uma nota muito característica destes ajuntamentos, que não deve ficar em silêncio. A popularíssima viola, companheira inseparável de gente folgazã, mesmo durante as romarias, por ocasião de alguma festa religiosa, onde só deve reinar o recolhimento e a piedade, não se tem ouvido durante aqueles dias abençoados, e os bailados tão frequentes noutras romarias e sempre funestas consequências para a moral e para os costumes, não se acomodam, ao que parece, naquela atmosfera embalsamada pelos suaves perfumes que exalam as virtudes da Virgem sempre pura.”
Mas, antes, o mesmo Autor, no citado artigo faz referência aos festejos externos, embora com certa parcimónia, escrevendo:
“Durante o dia da festa e na véspera, as proximidades da igreja acham-se vistosamente embandeiradas, e na noite de um destes dias, conforme o tempo o permite, tem lugar uma bonita iluminação à chinesa que atrai concurso imenso de espectadores.”
É o tradicional arraial nocturno, abrilhantado, desde o início, pela Filarmónica Lajense e, posteriormente, por outras filarmónicas, principalmente do Faial, que aqui vinham, gratuitamente, somente no desejo dos seus componentes gozarem as festas que tinham grande nomeada nestas ilhas.
Mas não apenas a Festa de Nossa Senhora de Lourdes era assistida por milhares de pessoas. O mesmo na Festa do Bom Jesus em São Mateus, na Festa de Nossa Senhora da Piedade, na Ponta da Ilha, no Bom Jesus da Calheta, na de Santa Maria Madalena, na de São Roque, na Senhora do Carmo em Santo Amaro, para só estas citar, pois a lista abrangeria todas as freguesias picoenses, onde as festividades religiosas dedicadas, principalmente, aos Santos Padroeiros eram e ainda hoje algumas são precedidas de arraiais nocturnos, sempre muito frequentados os quais sempre decorreram, normalmente, com ordem e respeito.
No entanto, em diversas festas algo se modificou. Hoje, algumas delas são precedidas de “semanas” recreativas, desportivas, culturais e folclóricas e outros atractivos, tendo quase sempre o concurso de artistas contratados, filarmónicas e grupos artísticos estranhos à localidade.
Estamos uma vez mais no verão e as festas principais de cada localidade estão aí. Decorrem até ao mês de Setembro. Arrastam para a ilha muitos picoenses que mourejam a vida pelas outras ilhas e por terras da Diáspora. É sempre um prazer encontrá-los, quase todos os anos, e com eles travar uma amena conversa de amizade e de saudade, recordando até tempos idos...
Que todos, residentes ou visitantes, possam gozar as festas com alegria, é o voto que aqui deixo com muita simpatia.

Lajes do Pico, Julho de 2006
Ermelindo Ávila

sábado, 11 de agosto de 2007

A grande Semana Lajense

É a Semana da Senhora, a Padroeira das gentes lajenses e picoenses, Nossa Senhora de Lourdes. A Senhora que há 124 anos tem altar reservado na Matriz da Santíssima Trindade ao qual o Papa Leão XIII concedeu a mercê de ALTAR PRIVILEGIADO.
Hoje não somente o altar mas todo o templo deveria ser considerado Santuário, tal como acontece a outros nos quais estão entronizadas Imagens de grande devoção do Povo crente.
Quando, há anos, foi apresentada petição junto da entidade competente para que a Matriz da Santíssima Trindade desta vila, fosse considerada Santuário da Virgem de Lourdes, indeferiu-se esse requerimento sem qualquer explicação, num gesto de aparente prepotência que chocou deveras os crentes e devotos d’Aquela que, por dezoito vezes, “apareceu a uma inocente filha do povo”.
Igual povo, que não o de Lourdes, anda há mais de um século a suplicar e louvar a Virgem de Massabielle e isso não basta para que a “Casa Santa, Mimosa de Deus” seja considerado um Santuário, onde o povo que professa a fé cristã, suplica à sua Padroeira as graças e benesses de que necessita? Será melhor assistir, indiferente, ao seu afastamento da Casa de Deus ?…
No livro Perfumes de Lourdes, editado em Angra do Heroísmo em 1892, escreveu o seu autor Mons. António Maria Ferreira, a páginas 331: “Lages do Pico – Foi talvez o primeiro logar dos Açores onde Nossa Senhora de Lourdes começou a ser invocada, não obstante ser o Fayal a primeira Ilha onde foi exposta ao culto a primeira Imagem de Nossa Senhora de Lourdes.
“Em occasião aflictiva para os habitantes d’aquela villa, n’um d’esses dias em que o mar enfurecido parece, na phrase dos lagenses, querer engulir a terra, algumas canôas balieiras tripuladas por intrepidos marinheiros demandavam o porto, luctando corajosamente com as ondas enfurecidas; mas para os de terra havia eminente risco de os verem despedaçar-se nas penedias que tornam perigosíssima a entrada do porto.
“As proximidades da lagôa cuja bacia forma o porto achavam-se apinhadas de povo que pressuroso havia accudido a presenciar aquele triste espectáculo. Nos momentos de maior angústia apparece alli um filho da localidade que era considerado por todos como tendo sido objecto de uma insigne graça de Nossa Senhora de Lourdes. A sua presença e a sua palavra conseguiram serenar um pouco aquelles corações afllictos inspirando-lhes uma tal confiança na miraculosa Senhora de Massabielle, que d’envolta com os gritos de angustias que de continuo irrompiam de todos os peitos eram repetidamente ouvidas dos diferentes pontos da multidão as exclamações de:- Nossa Senhora de Lourdes livrai-os do perigo – Nossa Senhora de Lourdes salvae-os!
O Facto é que a tempestade serenou, as embarcações entraram a salvo no porto, e da tripulação ninguem soffreu o menor dano. Desde então a confiança em N. Senhora de Lourdes começou a ganhar os corações entre aquele bom povo e a sua devoção dia a dia conquistava terreno. Estava desta forma inaugurado n’aquela villa e no archipelago e diocese de Angra o culto publico em honra da Virgem dos Pyreneus.”
Que mais acrescentar para justificar a necessidade de intensificar o culto da Virgem de Lourdes na terra lajense, que parece esquecer-se daqueles recuados momentos de angústia em que a Virgem foi invocada publicamente e atendeu de maneira assombrosa – milagrosa? – os povos aflitos !
Vamos celebrar uma vez mais a Festa de Nossa Senhora de Lourdes.
Nas últimas duas semanas de Agosto, tal como desde 1884, as nossas gentes vão estar junto do altar, tomando parte no Novenário e nas solenidades do dia. E igualmente muitos picoenses e outros que aqui chegam de outras ilhas e das Terras da Diáspora. É um tempo forte de empolgante solenidade, dedicado à Senhora que, junto do porto e quando as antigas canoas baleeiras estavam em perigo, ouviu as preces angustiosas do povo ali reunido a presenciar os horrores da tragédia que se aproximava mas que a Virgem afastou com sua maternal bondade!
Já não há homens que pratiquem a ardilosa pesca. Restam apenas alguns que ainda foram baleeiros, mas a tradição ficou. Todavia, nuns vislumbres de fé tradicional, todos os lajenses a eles se unem ali, no mesmo local, onde a Virgem foi invocada há 124, junto do porto, a escutar a Palavra do sacerdote e a viver emocionados ainda esses momentos de recordação e de fé ardente que era !
Celebremos com alegria as maravilhas que o Senhor fez!

Vila Baleeira,
2 de Agosto de 2007
Ermelindo Ávila

domingo, 5 de agosto de 2007

Bom Jesus Milagroso

Estamos no mês de Agosto. O mês das Festas do Pico por excelência. Há semanas realizaram-se as festas da Padroeira, na vila da Madalena. Agora temos a Festa do Bom Jesus Milagroso, em São Mateus do Pico.
Em 1984 o Padre António Filipe Madruga, Pároco de S. Mateus e Reitor do Santuário, presidiu pela última vez à solenidade do Bom Jesus. O cronista da festa, professor Helder Melo, no Boletim Paroquial “Ecos do Santuário”, no número de Setembro daquele ano, escrevia: “O Reitor do Santuário testemunhou a felicidade que sentia por voltar a orientar as solenidades e por presidir àquela Concelebração solene da Eucaristia, na qual entoou as Orações Presidenciais quase com o mesmo belo timbre de voz dos bons tempos da sua acção pastoral.”
Afinal, foi o derradeiro ano pois, logo a seguir, no dia de Todos os Santos, quando em Angra assistia à ordenação diaconal do Rev. Pe. Zulmiro Sarmento, o Padre António Filipe Madruga terminava sua vida terrena para a continuar na Mansão dos Justos. E já lá vão quase 23 anos.
À frente da Paróquia de São Mateus encontra-se, presentemente, o Sacerdote que, naquele ano de 1984, teve a seu cargo a Liturgia da Palavra, “o Pe. José Carlos, cujo bem elaborado sermão, por iniciativa do Pároco
será publicado em Separata” como nos diz a reportagem da festividade. Afinal isso não chegou a acontecer.
O Pe. Filipe Madruga foi um sacerdote que todo se deu à sua missão eclesial e apostólica. Os testemunhos que o seu Boletim – e seu porque o fundou em 1968 e com ele terminou em 1984 –no último número e ao P. Filipe Madruga dedicado, relevam de maneira incontestada, a sua nobilitante acção como sacerdote e como pároco. E logo na primeira página nos apresenta os “depoimentos” de quatro Bispos, incluindo do diocesano, e do Vigário Geral da Diocese. Que mais preciso seria para demonstrar a sua vida plena de doação e sacrifício? Dom Jaime Garcia Goulart, Bispo resignatário de Dili, escreveu: “De facto, o Padre António Filipe Madruga foi acima de tudo um verdadeiro Sacerdote, totalmente devotado à Igreja e às almas. Todo se consumiu neste indefectível amor, que torna grande o mais humilde Padre.”
Mas, além do testemunho que, naquele Boletim, deixou a Professora Universitária, Doutora Rosa Maria B. Goulart, interessa recordar o P.S.: “Se ninguém levasse a mal que saíssemos um pouco do assunto, permitir-nos-íamos uma breve referência – que, pela nossa parte, é também testemunho de gratidão- à actividade de D. Maria do Espírito Santo e D. Maria da Conceição Madruga, pelo melhor que de si deram à freguesia de São Mateus. A primeira, em tudo quanto fosse necessidade: em casa, na igreja, onde quer que houvesse doença, sofrimento ou morte. A segunda, mais no silêncio abnegado – portas dentro onde nunca lhe conhecemos tréguas.”
Afinal, tudo foi esquecido!…A memória do Pe. António Filipe Madruga perdeu-se com o decorrer dos anos.
Segundo fontes mais aceitáveis, o culto ao Bom Jesus, cuja Imagem Veneranda foi trazida do Brasil por um benemérito filho da freguesia, Francisco Ferreira Goulart, foi inaugurado em São Mateus do Pico no dia 6 de Agosto de l862. Cento e quarenta e cinco anos são passados.
Por Decreto do Bispo de Angra, de 1 de Julho de 1862, ano do centenário da inauguração do culto ao Bom Jesus, a igreja de S. Mateus foi elevada à categoria de Santuário; e, em 20 de Setembro de 1968, solenemente sagrada pelo Bispo Dom Jaime Garcia Goulart.
Foi enobrecida com o título de Igreja Matriz por despacho do Prelado Diocesano, de 20 de Setembro de 1972.
O sismo de 1998 abalou aquele templo, como aliás aconteceu à grande maioria das igrejas da ilha mas, felizmente, foi já totalmente recuperada e voltou ao seu anterior estado artístico.
Prepara-se uma vez mais a Paróquia de São Mateus para celebrar a festa do Bom Jesus Milagroso. Antigamente, era um lugar de romaria de toda a ilha. Não havia transportes motorizados e os carros de bois só serviam para transportar as roupas e os farnéis. Eram, em muitos casos, romarias de penitência. Levava-se por vezes oito dias a chegar a São Mateus. Não havia locais de alojamento mas muitas pessoas da freguesia num gesto altruísta de verdadeiro espírito cristão, facultavam as suas residências, ou casas devolutas, aos romeiros para “se abrigarem da noite”. Depois a Paróquia construiu um salão a que chamou “casa dos romeiros”. Tudo isso passou. Com as facilidades de comunicação, as deslocações dos devotos ou simples forasteiros fazem-se no próprio dia, normalmente, para tomar parte na procissão, que não deixa de ser um acto penitencial pelo seu longo percurso.
“Romeiros de São Mateus / Descansai, tomai alento / Que a Virgem Nossa Senhora / Nos há-de dar bom tempo”. Era uma das quadras que os romeiros cantavam, quando paravam para descanso e, num terreiro ao lado do caminho, bailavam uma “Chamarrita”, baile regional de remotas eras. Tempos passados…

Vila das Lajes,
Agosto de 2007
Ermelindo Ávila