segunda-feira, 24 de setembro de 2007

REGATAS BALEEIRAS

A frota baleeira tem andado por essas ilhas numa azÁfama tremenda. E não só.
Voltaram às regatas já que outra utilidade não têm as airosas canoas. E não se têm sucedido mal. Foram à Galiza e arrancaram de lá os troféus. Voltaram agora aos Estados Unidos e no porto baleeiro de New Bedford foram os marinheiros picoenses e faialenses mostrar uma vez mais o seu valor de homens do mar, já que não é a primeira vez que ali se deslocam.
Por cá as regatas programadas pelos serviços náuticos, têm-se realizado em alguns portos açorianos, principalmente pelas festas principais, fazendo parte dos respectivos programas. Todavia não só agora que isso sucede. Sempre assim aconteceu ao longo dos anos.
O bote baleeiro, uma criação do lajense Francisco José Machado, no último quartel do século XIX, ao longo dos anos, e mais de um século já passou, tem sido "requisitado" para tomar parte em regatas "oficiais" e particulares.
Aqui há anos foram os botes lajenses tomar parte numa regata realizada na baía de Angra integrada nas Festas da Cidade. A vitória foi sua.
Aquando da visita régia, a 28 de Junho de 1901, à cidade da Horta, os Reis D. Carlos e D. Amélia, que viajavam no cruzador D. Carlos, foram recebidos por uma esquadrilha de canoas-baleeiras, a remos, que contornaram o navio e o acompanharam ao ancoradouro.
No dia seguinte houve uma regata à vela e a remos de canoas baleeiras e embarcações de recreio. Os régios visitantes assistiram à regata a bordo do cruzador S. Gabriel. (l)
Não nos diz o historiador quem ganhou a regata mas sabemos que foram duas canoas das Lajes pertencentes, respectivamente, às companhias das "Senhoras" (União Lajense, L.da.) e "Judeus" (Nova Sociedade Lajense, L.da.)
D. Carlos ficou muito satisfeito com a homenagem dos baleeiros (que nas ruas da cidade haviam já levantado, em homenagem às Magestades um artístico arco triunfal que se destacou entre os demais), e ofereceu às duas canoas vencedoras uma canoa baleeira.
Como ficou dito, as regatas têm continuado. Os botes baleeiros, depois da drástica proibição da caça do cachalote, foram distribuídos pelos diversos clubes navais e servem agora para, na época do verão, fazerem regatas a remos e à vela, nos portos onde se realizam festividades cívicas e religiosas. E não importa que essas zonas hajam sido estações baleeiras…
Foi a maneira encontrada de dar utilidade a um património que ameaçava desaparecer, como aconteceu a outras embarcações de notório valor histórico que, nos séculos XIX e XX, muito contribuíram para o desenvolvimento económico das ilhas do chamado Grupo Central do Arquipélago Açoriano.
A "Calheta", a primeira embarcação motorizada que, nos meses de verão, fazia ligação das ilhas do Faial, Pico, S. Jorge e Terceira, ficou limitada às viagens do Canal; a "Espalamaca", o "Terra-Alta", e já não refiro o "Ribeirense", o "Andorinha", o "Bom Jesus", o "Espírito Santo", a "Helena" e outros mais que constituíram a riqueza económica e o progresso social do último século, para as gentes destas ilhas, porque alguns desses outros rumos tomaram, todos ingloriamente foram abatidos como peças incómodas do progresso actual.
Vila Baleeira,
Setembro de 2007
Ermelindo Ávila

domingo, 16 de setembro de 2007

AS APARIÇÕES DE LOURDES (1858-2008)

No próximo ano dois acontecimentos notáveis ocorrem nas solenidades de Nossa Senhora de Lourdes: os cento e cinquenta anos das Aparições de Nossa Senhora, na Gruta de Massabielle, à Bernardette, hoje já elevada à dignidade dos Altares; e os cento e vinte e cinco anos da celebração da primeira Festa em honra de Nossa Senhora de Lourdes na Matriz das Lajes do Pico..
A “Semana dos Baleeiros”, que não passa de um complemento externo das solenidades religiosas, tem sido objecto, nas últimas semanas, de sugestões, não refiro críticas, pois cada um é senhor de ter critério diferente sobre os actos externos que têm vindo a ser programados .
O Culto Mariano deve merecer um tratamento especial no ano dos “centenários”, pois não é todos os anos que se celebram conjuntamente dois factos históricos de relevância tamanha.
Altere – se, se assim entender a comissão respectiva, o programa das festas externas. Reduza-se o tempo destinado à denominada “Semana dos Baleeiros” que, dest’arte, deixará de ser “Semana” para ter outra denominação adequada. A parte religiosa, essa não poderá sofrer alteração de maior, pois é normal, nas solenidades mais relevantes das comunidades religiosas, as festas principais serem precedidas de novenário litúrgico e, no dia da festa, Missa solene e Procissão. É um programa secular que está estabelecido em todas as paróquias e não vai ser a Matriz das Lajes a modificá-lo.
A organização do novenário pode ter sofrido correcções. Antes havia sido estabelecido um programa litúrgico diferente. A meio da tarde, cerca das quatro horas, reuniam-se os fiéis na paroquial para a celebração daquela devoção que constava de Invitatório, um trecho litúrgico cantado, o sermão, normalmente para ele se convidavam os mais notáveis oradores sacros, a Ladainha laurentina, cantada, e os hinos de encerramento. As partituras haviam sido adquiridas no Continente, aquando da introdução desta solenidade. Nos últimos três dias de novena o Santíssimo era exposto no Trono, o mesmo sucedendo durante a Missa solene do dia. Hoje, com as alterações litúrgicas introduzidas pelo Concílio Vaticano II, isso não seria possível. Aliás em nada ficou prejudicado o acto litúrgico, antes valorizado com a Eucaristia e distribuição da sagrada comunhão. Consequentemente uma vivência mais condizente com a época actual.
O programa externo foi bastante alterado com a “criação” da “Semana dos Baleeiros”. E uma semana, se a memória me não falha, são sete dias. Mas isso não importa. Dias a mais ou a menos não me interessa, se bem que não esteja aqui a defender a minha dama... Já a bem poucos ou quase nenhuns actos do programa externo assisto, muito embora defenda que o programa externo deva manter-se. Pois se ele sempre existiu desde a primeira festa… Noutros moldes? Naturalmente. Os tempos evoluíram e não devemos ficar na cepa torta…
Porque alguns distintos articulistas apresentaram suas opiniões sobre a “Semana dos Baleeiros”, já incluída nos cartazes turísticos, aqui deixo uma sugestão, que aliás não é invenção minha.
Durante alguns anos o programa dos actos externos reservava um lugar especial à parte cultural. Normalmente eram convidadas individualidades, que aqui vinham fazer conferências sobre os mais diversificados temas. Vieram sacerdotes, professores universitários e personalidades de comprovada cultura. Algumas dessas conferências foram publicadas, quer em boletins de instituições culturais quer em separatas. Não me consta que algum dos eruditos conferencistas recebesse qualquer benesse pelo seu trabalho. Permito-me lamentar que se tenha excluído dos programas esses eventos culturais. Somente…
Mesmo assim atrevo-me a deixar aqui uma sugestão, muito simples mas que será de frutuosa utilidade.
Em Lourdes, onde se deram as Aparições de Nossa Senhora a Bernardette – 1858- vão comemorar-se os cento e cinquenta anos desse acontecimento extraordinário.
Segundo a Voz Portucalense (29-8-2007), “A preparação está a ser dimensionada para ocorrer ao longo de um ano, de 8 de Dezembro de 2007 a 8 de Dezembro de 2008, através de um amplo programa de formação e divulgação do sentido teológico, devocional e cultural deste acontecimento” Este jubileu está a ser organizado sob a direcção do Bispo de Tarbes-Lourdes.
E o mesmo semanário - órgão da Diocese do Porto - escreve ainda: “A história de Lourdes escreve-se dia-a-dia. Não é uma lenda de tempos passados. Cento e cinquenta anos depois das aparições era necessário agradecer as graças recebidas, tomar consciência da nossa missão no início do terceiro milénio, abrir mais amplamente as portas do santuário”.
A introdução da devoção a Nossa Senhora de Lourdes, nesta terra, vai perfazer cento e vinte e cinco anos. Foi a primeira terra açoriana onde Nossa Senhora foi invocada publicamente, a primeira vez. Esse facto histórico traz aos lajenses grandes e sérias responsabilidades. E foi em 1883 que, após a chegada da veneranda Imagem, teve lugar a primeira festa de Nossa Senhora Aparecida, no último domingo de Setembro. Nos anos seguintes, porém, passou a realizar-se no último domingo de Agosto, pois, no antigo calendário litúrgico, a Igreja dedicava esse domingo, salvo erro, ao Imaculado Coração de Maria.
A Matriz da Santíssima Trindade das Lajes do Pico, a partir daquele ano de 1883 tornou-se o autêntico Santuário da Virgem para onde, durante todos estes anos, acorrem peregrinos vindos das mais diversas paragens.
Importa, pois, pensar desde já o que vai ser o próximo ano . É um ano duplamente jubilar para os lajenses. Há que ter isso em muita consideração e preparar desde já a faustosa comemoração.
Creio que muitas pessoas desconhecem hoje o que foram as Aparições de Nossa Senhora em Lourdes, como “discutem”, sem conhecimento de causa, o que representaram para Portugal e para o Mundo cristão as Aparições de Fátima em 1917, apesar de tanta pregação nesse sentido.
Adequado seria promover no próximo ano, para além do novenário, um Congresso ou Jornadas Marianas em que o tema das Aparições e não apenas, seja tratado por eruditos sacerdotes ou leigos, devidamente credenciados. Seria um acontecimento cultural e religioso de tamanha relevância, que ficaria a marcar, louvavelmente, as comemorações dos cento e cinquenta anos das Aparições em Lourdes e os cento e vinte e cinco anos da introdução da solenidade de Lourdes na Matriz das Lajes do Pico.
Porque se trata de um evento de responsabilidade, um ano não será demais para o preparar. Julgo que ninguém se escusará a dar a sua colaboração a tais Jornadas!.


Vila das Lajes,
9 de Setembro de 2007-09-09
Ermelindo Ávila

sábado, 8 de setembro de 2007

"O DEVER" NAS LAJES

No ano em que o jornal lajense celebra noventa anos de vida operosa e difícil, impõe-se uma palavra sobre a sua publicação nesta vila, cujo primeiro número – o 983, saiu no dia 3 de Setembro de 1938, ocorrem hoje (69) sessenta e nove anos.
É verdade que o jornal iniciou a sua publicação no dia 2 de Junho de 1917, na Vila do Topo, S. Jorge, onde se encontrava a paroquiar desde 1911, o seu Fundador e Director, P. João V. XAVIER MADRUGA, passando na semana seguinte a publicar-se na vila da Calheta, onde paroquiava o Pe. Manuel Joaquim de Matos, que assumiu a edição e administração do jornal e nesses cargos se manteve até ao falecimento.
A partir daí assumiu a Administração e Redacção do Jornal o Poeta e Jornalista Samuel da Silveira Amorim. Mas o jornal continuava a ser perseguido pelos caciques locais, o que levou o P Xavier Madruga a pedir para que ficasse sob a alçada do Oficial Censor da Horta, situação que era de natureza precária. Isso levou o Proprietário a requerer a transferência do jornal para as Lajes do Pico. Foi então que houve de proceder à partilha da tipografia: a maquinaria e tipo afecto à feitura do jornal ficou para o Pe. Xavier Madruga; e a parte tipográfica, Minerva e tipo, para a Família do P. Matos, cujo cunhado já a explorava por conta própria. Em parêntesis se diga que o prelo havia sido comprado em Angra, aos proprietários do antigo jornal “O Tempo”. Aliás dizia o Pe. Madruga que toda a maquinaria havia sido paga do seu bolso mas que, por um acordo feito a pedido do Pe. Manuel Joaquim de Matos, que tinha em S. Jorge a responsabilidade da Redacção e da Administração, aquiescera em que a tipografia ficasse para os dois, bem como a casa onde estava instalado o jornal.
Tanto assim que só vieram para as Lajes o prelo e as caixas de tipo respectivas. Indo aos Estados Unidos, o Pe. Madruga comprou em Boston uma guilhotina, uma minerva e uma grafadeira para a secção de trabalhos; e no decorrer dos anos foi renovando o tipo, já cansado e adquirindo outro para títulos.
Quando da transferência do prelo e tipo para as Lajes, cujo material foi transportado pelo antigo iate “Andorinha”, encarregou-se da expedição o Sr. Samuel Amorim, bom amigo de saudosa memória.
Tudo decorreu pacífica e cordialmente, sem atropelos de quaisquer direitos de propriedade. Magoa pois que, decorridos quase setenta anos, haja quem se atreva a classificar menos correctamente a transferência do jornal.
Quando o material de “O Dever” aqui chegou encontrava-se o Pe. Xavier Madruga em viagem pela Europa, tomando parte na Peregrinação Nacional a Budapeste, onde se realizou o Congresso Eucarístico. Na secção portuguesa do Congresso e a convite do Presidente da Peregrinação, o Arcebispo de Mitilene, fez uma conferência sobre a Eucaristia, que as agências noticiosas logo espalharam pelo mundo. E foi aí que o Senhor Arcebispo o convidou para ficar na Capital. Ele não aceitou porque, uma das razões principais, a mãe era de avançada idade e desejava estar junto dela. Mais tarde veio a penitenciar-se de não ter aceitado o convite…
O Pe. Xavier Madruga desejava que o jornal iniciasse a publicação logo que o prelo chegasse às Lajes, mas preferiu-se aguardar o seu regresso, principiando a publicação , como acima se diz, a 3 de Setembro de 1938.
No jornal iniciou logo as suas impressões de viagem, que depois havia de reunir em volume, sob o título “…ATÉ AO DANÚBIO” . e, além deste, já havia publicado anteriormente “Dos Açores a Roma”, com as suas impressões de viagem aquando da canonização de Santa Teresinha, em 1925. Depois, só um pequeno volume, com os artigos que escreveu sobre a sua visita a São Jorge!… para pregar nas festas de Nossa Senhora de Fátima, a 13 de Maio de 1949, a convite do P. Teixeira Soares,
Vigário de Santo Amaro e ouvidor do concelho. O livrinho tem o título “Magnificat ou o Milagre de Fátima em Terra Açoriana” e é uma separata de “O Dever”. Nesses artigos dá testemunho da maneira simpática como foi recebido e do carinho e respeito que lhe foi dispensado, não só pelos colegas como de distintas personalidades jorgenses.
Todo este arrazoado vem a propósito da diabrite que se enviou impensadamente, creio, para o ar, num programa que tem larga audiência nos Açores e que só teve o mérito de realçar a memória respeitosa e saudosa de tão distinta figura do clero açoriano, no fim do século XX.
“ Dever” nas Lajes há quase setenta anos. Tinha vinte e um anos quando assumi os cargos de Editor e Administrador. Cheio de entusiasmo procurei colaborar o melhor que me foi possível e já antes, desde 1932, dava a minha modesta colaboração ao jornal do Senhor Padre Madruga, como então era conhecido. E assim continuei. Já decorreram (75) setenta e cinco anos. Nem sempre foi fácil. Também sofri, quer conjuntamente com o Director, quer pessoalmente e não raras vezes. Recordo aquele dia em que fomos notificados para comparecer no Tribunal Judicial para esclarecer quem era o autor do artigo “Aqui também é Portugal!”. Um caso que foi resolvido na Relação e que custou ao Director de “O Dever” a “módica” quantia de dez contos, paga ao Advogado de defesa! Naquele tempo, uma fortuna.
Representei o jornal em diversas jornadas, conferências e congressos, o que me deu certa alegria, pois tive ocasião de visitar terras desconhecidas e contactar com jornalistas de grande craveira cultural e profissional.
Nunca deixei de estar na linha da frente, quando se tratava dos interesses da minha e nossa terra. Algumas vezes fui maldosamente “apedrejado” mas procurei sempre sair ileso, porque só pugnava e defendia a verdade e os direitos do nosso povo.
Hoje, arrumado, como habitualmente se diz, vivo ainda intensamente os problemas da terra e espero que um dia, que já não vejo, a Vila das Lajes do Pico ocupe o lugar a que tem direito e merece com justiça. E “O Dever”, o seu mais acérrimo defensor, continue a lutar desassombradamente pela terra e pelos direitos das suas gentes e que, daqui a dez anos, ao celebrar o centenário, os lajenses lhe prestem e ao seu Fundador as homenagens devidas e merecidas.
Vila das Lajes do Pico,
Setembro de 2007
Ermelindo Ávila

sábado, 1 de setembro de 2007

IMPRENSA PICOENSE

Orlando Castro,. Jornalista, em tempo, do “Jornal de Notícias”, andou pelos Açores no Verão de 1993, visitando especialmente as ilhas do Grupo Central, onde se demorou dezoito dias. Das Crónicas que escreveu para a Imprensa Continental, publicou, depois, “Açores- Realidades Vulcânicas”, um livro de 137 páginas, com vinte pequenos capítulos, incluindo o Prefácio da lavra de José Manuel Tavares Rebelo, Presidente da Casa dos Açores do Norte.
Um dos capítulos é dedicado à (IM)PRENSA (sic). Principia por referir o centenário “O Telégrafo”, infelizmente já desaparecido para, de seguida, aludir à Imprensa que já existiu nas Ilhas do Grupo Central – Graciosa, São Jorge, Pico e Faial. Faz alusão ao primeiro jornal agrícola português . “O Agricultor Micaelense” (1843) Não esquece o “Açoriano Oriental”, felizmente transformado em diário aqui há uns anos passados, e, da ilha de São Jorge, cita alguns títulos.
Sobre o Pico e o Faial apenas escreve: “Embora com grande tradição, se é que a ancestralidade pode ser considerada como uma tradição, a Imprensa açoriana não existe enquanto tal. O que existe são várias imprensas, e nem por isso menos dignas, cada uma no seu nicho, cada uma na sua ilha. O sentido de arquipélago não passa de uma miragem. Mesmo entre o Faial e o Pico, separados por escassos 6 Kms, há uma barreira enorme. Não são, mas parecem e funcionam como se fossem “países” diferentes, com culturas e línguas antagónicas.” (pág.73)
Não sei onde o sr. Castro teve tempo para, em três semanas (l8 dias)
tanto descobrir. Mas mais não cito.
Porfírio Bessone no seu “Dicionário Cronológico dos Açores” (1932) insere uma relação das publicações açorianas que ocupa 24 (vinte e quatro páginas) e não inclui todos os jornais que existiram, v.g., na ilha do Pico.
A primeira Imprensa que houve na ilha foi trazida para as Lajes pelo professor Manuel Tomás Pereira em Setembro de 1874, muito embora nela não tenha sido impresso qualquer periódico. (Arquivo dos Açores, Vol.IX, p.41) O primeiro jornal existente na ilha foi publicado na Madalena, “O Picoense”, fundado em 1874 pelo ainda estudante Dr. Urbano Silva Ferreira.
Até à actualidade a Madalena fundou doze periódicos, incluindo dois em S. Mateus. Actualmente publica o semanário “Ilha Maior” no vigésimo ano de publicação.
Nas Lajes publicaram-se oito jornais, incluindo “O Dever” que há meses celebrou 90 anos de existência, muito embora se edite nesta Vila somente a partir de Setembro de 1938 ( ocorrem agora 69 anos).
Em São Roque do Pico publicaram-se : O Echo do Pico, 1878; Boletim Judicial, 1879; O Picaroto, 1882; O Pico, 1885, este fundado e dirigido pelo malogrado Poeta Manuel Henrique Dias; O Independente, 1882; O Picaroto, 1890, com várias séries; O Popular, 1890; O Futuro, também com várias séries; e o Picoense, com várias séries, igualmente. Presentemente há o Jornal do Pico já no quarto ano de publicação.
Embora alguns dos jornais fossem de efémera duração, presentemente os jornais picoenses, já com assinalável existência, têm colaboradores distintos que lhes asseguram existência promissora e estável.
A Ilha do Pico não é apenas uma das vinte mais notáveis, em diversos aspectos, no mundo. Vive uma época de cultura notável que a distingue entre as demais do Arquipélago. Felizmente!

Vila das Lajes.
31 de Agosto de 2007
Ermelindo Ávila

sábado, 18 de agosto de 2007

AS FESTAS DE VERÃO

É assim que as classifica o povo. Desde remotas eras. Eram as festas e os arraiais a única distracção que existia nas freguesias até meados do século passado.
As populações juntavam-se nos adros das respectivas igrejas onde se celebravam as festas dos Santos Padroeiros ou os de maior devoção e aí passavam as tardes, assistindo ao arrematar, por vezes em despique acalorado, das “ofertas” que eram de variadas espécies: produtos da terra, tais como maçarocas de milho, frutos das quintas e dos quintais, massa sovada dos mais variados feitios. A figura de uma perna, de um braço ou de uma cabeça, conforme a graça da cura de uma doença que havia afectado uma daquelas partes do corpo humano; uma vaquinha ou um porco, pela cura de um animal doméstico que havia sofrido alguma enfermidade, etc. E outros mais.
Nos arraiais os moços iniciavam ou mantinham namoros que, quase sempre, os levavam ao casamento “para toda a vida”.
Um viver patriarcal e cristão. Bons tempos!...
A meados do século XIX surgiram as filarmónicas e os arraiais passaram a ter maior assistência e, naturalmente, mais alegria. E os arraiais continuaram, abrilhantados pelas filarmónicas que foram aparecendo em quase todas as freguesias, numa simpática nota de cultura, até nossos dias.
Dom João Paulino de Azevedo e Castro, ao tempo Vice-Reitor do Seminário de Angra e que pode ser considerado o iniciador da Festa de Nossa Senhora de Lourdes nesta vila, como na Sé de Angra e em Santo Antão, S. Jorge, onde paroquiava o irmão, Pe. Francisco Xavier de Azevedo e Castro, em artigos publicados no “Peregrino de Lourdes”, de Angra, em Julho de 1889 (in “Textos de D. João Paulino”, Provisões e outros escritos, Vol. II, Macau – 1997, coordenação do Pe. Tomás Bettencourt Cardoso), relata a primeira festa realizada nesta vila em honra de Nossa Senhora de Lourdes, em Setembro de 1883. E permito-me a transcrição:
“A Vila das Lajes, triste e pacata de ordinário, toma durante estes dias um aspecto risonho, alegre e animado. Desacostumada de ver gentes de fora tomar parte em suas festas desde o tempo dos capitães-mores, em que a festa anual do Corpus Christi atraía ao seu recinto, vindos de todo o concelho, uns legendários corpos de milícia armados de chaços e espadas em atitude bélica, - vê-se, durante estes dias, povoada de estranhos, que em atitude pacífica, armados quando muito do rosário a visitam, atraídos de todos os pontos da ilha pelo encanto da devoção à Virgem de Lurdes.
Há uma nota muito característica destes ajuntamentos, que não deve ficar em silêncio. A popularíssima viola, companheira inseparável de gente folgazã, mesmo durante as romarias, por ocasião de alguma festa religiosa, onde só deve reinar o recolhimento e a piedade, não se tem ouvido durante aqueles dias abençoados, e os bailados tão frequentes noutras romarias e sempre funestas consequências para a moral e para os costumes, não se acomodam, ao que parece, naquela atmosfera embalsamada pelos suaves perfumes que exalam as virtudes da Virgem sempre pura.”
Mas, antes, o mesmo Autor, no citado artigo faz referência aos festejos externos, embora com certa parcimónia, escrevendo:
“Durante o dia da festa e na véspera, as proximidades da igreja acham-se vistosamente embandeiradas, e na noite de um destes dias, conforme o tempo o permite, tem lugar uma bonita iluminação à chinesa que atrai concurso imenso de espectadores.”
É o tradicional arraial nocturno, abrilhantado, desde o início, pela Filarmónica Lajense e, posteriormente, por outras filarmónicas, principalmente do Faial, que aqui vinham, gratuitamente, somente no desejo dos seus componentes gozarem as festas que tinham grande nomeada nestas ilhas.
Mas não apenas a Festa de Nossa Senhora de Lourdes era assistida por milhares de pessoas. O mesmo na Festa do Bom Jesus em São Mateus, na Festa de Nossa Senhora da Piedade, na Ponta da Ilha, no Bom Jesus da Calheta, na de Santa Maria Madalena, na de São Roque, na Senhora do Carmo em Santo Amaro, para só estas citar, pois a lista abrangeria todas as freguesias picoenses, onde as festividades religiosas dedicadas, principalmente, aos Santos Padroeiros eram e ainda hoje algumas são precedidas de arraiais nocturnos, sempre muito frequentados os quais sempre decorreram, normalmente, com ordem e respeito.
No entanto, em diversas festas algo se modificou. Hoje, algumas delas são precedidas de “semanas” recreativas, desportivas, culturais e folclóricas e outros atractivos, tendo quase sempre o concurso de artistas contratados, filarmónicas e grupos artísticos estranhos à localidade.
Estamos uma vez mais no verão e as festas principais de cada localidade estão aí. Decorrem até ao mês de Setembro. Arrastam para a ilha muitos picoenses que mourejam a vida pelas outras ilhas e por terras da Diáspora. É sempre um prazer encontrá-los, quase todos os anos, e com eles travar uma amena conversa de amizade e de saudade, recordando até tempos idos...
Que todos, residentes ou visitantes, possam gozar as festas com alegria, é o voto que aqui deixo com muita simpatia.

Lajes do Pico, Julho de 2006
Ermelindo Ávila

sábado, 11 de agosto de 2007

A grande Semana Lajense

É a Semana da Senhora, a Padroeira das gentes lajenses e picoenses, Nossa Senhora de Lourdes. A Senhora que há 124 anos tem altar reservado na Matriz da Santíssima Trindade ao qual o Papa Leão XIII concedeu a mercê de ALTAR PRIVILEGIADO.
Hoje não somente o altar mas todo o templo deveria ser considerado Santuário, tal como acontece a outros nos quais estão entronizadas Imagens de grande devoção do Povo crente.
Quando, há anos, foi apresentada petição junto da entidade competente para que a Matriz da Santíssima Trindade desta vila, fosse considerada Santuário da Virgem de Lourdes, indeferiu-se esse requerimento sem qualquer explicação, num gesto de aparente prepotência que chocou deveras os crentes e devotos d’Aquela que, por dezoito vezes, “apareceu a uma inocente filha do povo”.
Igual povo, que não o de Lourdes, anda há mais de um século a suplicar e louvar a Virgem de Massabielle e isso não basta para que a “Casa Santa, Mimosa de Deus” seja considerado um Santuário, onde o povo que professa a fé cristã, suplica à sua Padroeira as graças e benesses de que necessita? Será melhor assistir, indiferente, ao seu afastamento da Casa de Deus ?…
No livro Perfumes de Lourdes, editado em Angra do Heroísmo em 1892, escreveu o seu autor Mons. António Maria Ferreira, a páginas 331: “Lages do Pico – Foi talvez o primeiro logar dos Açores onde Nossa Senhora de Lourdes começou a ser invocada, não obstante ser o Fayal a primeira Ilha onde foi exposta ao culto a primeira Imagem de Nossa Senhora de Lourdes.
“Em occasião aflictiva para os habitantes d’aquela villa, n’um d’esses dias em que o mar enfurecido parece, na phrase dos lagenses, querer engulir a terra, algumas canôas balieiras tripuladas por intrepidos marinheiros demandavam o porto, luctando corajosamente com as ondas enfurecidas; mas para os de terra havia eminente risco de os verem despedaçar-se nas penedias que tornam perigosíssima a entrada do porto.
“As proximidades da lagôa cuja bacia forma o porto achavam-se apinhadas de povo que pressuroso havia accudido a presenciar aquele triste espectáculo. Nos momentos de maior angústia apparece alli um filho da localidade que era considerado por todos como tendo sido objecto de uma insigne graça de Nossa Senhora de Lourdes. A sua presença e a sua palavra conseguiram serenar um pouco aquelles corações afllictos inspirando-lhes uma tal confiança na miraculosa Senhora de Massabielle, que d’envolta com os gritos de angustias que de continuo irrompiam de todos os peitos eram repetidamente ouvidas dos diferentes pontos da multidão as exclamações de:- Nossa Senhora de Lourdes livrai-os do perigo – Nossa Senhora de Lourdes salvae-os!
O Facto é que a tempestade serenou, as embarcações entraram a salvo no porto, e da tripulação ninguem soffreu o menor dano. Desde então a confiança em N. Senhora de Lourdes começou a ganhar os corações entre aquele bom povo e a sua devoção dia a dia conquistava terreno. Estava desta forma inaugurado n’aquela villa e no archipelago e diocese de Angra o culto publico em honra da Virgem dos Pyreneus.”
Que mais acrescentar para justificar a necessidade de intensificar o culto da Virgem de Lourdes na terra lajense, que parece esquecer-se daqueles recuados momentos de angústia em que a Virgem foi invocada publicamente e atendeu de maneira assombrosa – milagrosa? – os povos aflitos !
Vamos celebrar uma vez mais a Festa de Nossa Senhora de Lourdes.
Nas últimas duas semanas de Agosto, tal como desde 1884, as nossas gentes vão estar junto do altar, tomando parte no Novenário e nas solenidades do dia. E igualmente muitos picoenses e outros que aqui chegam de outras ilhas e das Terras da Diáspora. É um tempo forte de empolgante solenidade, dedicado à Senhora que, junto do porto e quando as antigas canoas baleeiras estavam em perigo, ouviu as preces angustiosas do povo ali reunido a presenciar os horrores da tragédia que se aproximava mas que a Virgem afastou com sua maternal bondade!
Já não há homens que pratiquem a ardilosa pesca. Restam apenas alguns que ainda foram baleeiros, mas a tradição ficou. Todavia, nuns vislumbres de fé tradicional, todos os lajenses a eles se unem ali, no mesmo local, onde a Virgem foi invocada há 124, junto do porto, a escutar a Palavra do sacerdote e a viver emocionados ainda esses momentos de recordação e de fé ardente que era !
Celebremos com alegria as maravilhas que o Senhor fez!

Vila Baleeira,
2 de Agosto de 2007
Ermelindo Ávila

domingo, 5 de agosto de 2007

Bom Jesus Milagroso

Estamos no mês de Agosto. O mês das Festas do Pico por excelência. Há semanas realizaram-se as festas da Padroeira, na vila da Madalena. Agora temos a Festa do Bom Jesus Milagroso, em São Mateus do Pico.
Em 1984 o Padre António Filipe Madruga, Pároco de S. Mateus e Reitor do Santuário, presidiu pela última vez à solenidade do Bom Jesus. O cronista da festa, professor Helder Melo, no Boletim Paroquial “Ecos do Santuário”, no número de Setembro daquele ano, escrevia: “O Reitor do Santuário testemunhou a felicidade que sentia por voltar a orientar as solenidades e por presidir àquela Concelebração solene da Eucaristia, na qual entoou as Orações Presidenciais quase com o mesmo belo timbre de voz dos bons tempos da sua acção pastoral.”
Afinal, foi o derradeiro ano pois, logo a seguir, no dia de Todos os Santos, quando em Angra assistia à ordenação diaconal do Rev. Pe. Zulmiro Sarmento, o Padre António Filipe Madruga terminava sua vida terrena para a continuar na Mansão dos Justos. E já lá vão quase 23 anos.
À frente da Paróquia de São Mateus encontra-se, presentemente, o Sacerdote que, naquele ano de 1984, teve a seu cargo a Liturgia da Palavra, “o Pe. José Carlos, cujo bem elaborado sermão, por iniciativa do Pároco
será publicado em Separata” como nos diz a reportagem da festividade. Afinal isso não chegou a acontecer.
O Pe. Filipe Madruga foi um sacerdote que todo se deu à sua missão eclesial e apostólica. Os testemunhos que o seu Boletim – e seu porque o fundou em 1968 e com ele terminou em 1984 –no último número e ao P. Filipe Madruga dedicado, relevam de maneira incontestada, a sua nobilitante acção como sacerdote e como pároco. E logo na primeira página nos apresenta os “depoimentos” de quatro Bispos, incluindo do diocesano, e do Vigário Geral da Diocese. Que mais preciso seria para demonstrar a sua vida plena de doação e sacrifício? Dom Jaime Garcia Goulart, Bispo resignatário de Dili, escreveu: “De facto, o Padre António Filipe Madruga foi acima de tudo um verdadeiro Sacerdote, totalmente devotado à Igreja e às almas. Todo se consumiu neste indefectível amor, que torna grande o mais humilde Padre.”
Mas, além do testemunho que, naquele Boletim, deixou a Professora Universitária, Doutora Rosa Maria B. Goulart, interessa recordar o P.S.: “Se ninguém levasse a mal que saíssemos um pouco do assunto, permitir-nos-íamos uma breve referência – que, pela nossa parte, é também testemunho de gratidão- à actividade de D. Maria do Espírito Santo e D. Maria da Conceição Madruga, pelo melhor que de si deram à freguesia de São Mateus. A primeira, em tudo quanto fosse necessidade: em casa, na igreja, onde quer que houvesse doença, sofrimento ou morte. A segunda, mais no silêncio abnegado – portas dentro onde nunca lhe conhecemos tréguas.”
Afinal, tudo foi esquecido!…A memória do Pe. António Filipe Madruga perdeu-se com o decorrer dos anos.
Segundo fontes mais aceitáveis, o culto ao Bom Jesus, cuja Imagem Veneranda foi trazida do Brasil por um benemérito filho da freguesia, Francisco Ferreira Goulart, foi inaugurado em São Mateus do Pico no dia 6 de Agosto de l862. Cento e quarenta e cinco anos são passados.
Por Decreto do Bispo de Angra, de 1 de Julho de 1862, ano do centenário da inauguração do culto ao Bom Jesus, a igreja de S. Mateus foi elevada à categoria de Santuário; e, em 20 de Setembro de 1968, solenemente sagrada pelo Bispo Dom Jaime Garcia Goulart.
Foi enobrecida com o título de Igreja Matriz por despacho do Prelado Diocesano, de 20 de Setembro de 1972.
O sismo de 1998 abalou aquele templo, como aliás aconteceu à grande maioria das igrejas da ilha mas, felizmente, foi já totalmente recuperada e voltou ao seu anterior estado artístico.
Prepara-se uma vez mais a Paróquia de São Mateus para celebrar a festa do Bom Jesus Milagroso. Antigamente, era um lugar de romaria de toda a ilha. Não havia transportes motorizados e os carros de bois só serviam para transportar as roupas e os farnéis. Eram, em muitos casos, romarias de penitência. Levava-se por vezes oito dias a chegar a São Mateus. Não havia locais de alojamento mas muitas pessoas da freguesia num gesto altruísta de verdadeiro espírito cristão, facultavam as suas residências, ou casas devolutas, aos romeiros para “se abrigarem da noite”. Depois a Paróquia construiu um salão a que chamou “casa dos romeiros”. Tudo isso passou. Com as facilidades de comunicação, as deslocações dos devotos ou simples forasteiros fazem-se no próprio dia, normalmente, para tomar parte na procissão, que não deixa de ser um acto penitencial pelo seu longo percurso.
“Romeiros de São Mateus / Descansai, tomai alento / Que a Virgem Nossa Senhora / Nos há-de dar bom tempo”. Era uma das quadras que os romeiros cantavam, quando paravam para descanso e, num terreiro ao lado do caminho, bailavam uma “Chamarrita”, baile regional de remotas eras. Tempos passados…

Vila das Lajes,
Agosto de 2007
Ermelindo Ávila

sábado, 28 de julho de 2007

Os Botos

Hoje chamam-lhe golfinhos. Botos ou golfinhos ou moleiros, são uma e a mesma espécie de mamíferos que os Lajenses, em tempos passados, aproveitavam para diversos usos. Todavia, não deixam de ser animais interessantes que não atacam o homem e que, em certas e determinadas épocas, cabriolam pelos mares, causando gosto aos observadores.
Não é agora que foi descoberta a observação dos botos. Eles sempre andaram pelos mares das ilhas e, quando foi necessário utilizar o óleo e a carne, constituíram uma excelente ajuda às paupérrimas economias domésticos dos povos insulares.
Aqui há setenta/oitenta anos era agradável viajar nos barcos da Insulana, o “Lima” e o “São Miguel” substituído depois pelo “Carvalho Araújo” e, encostados às amuradas dos navios, ver os botos em correrias a acompanhar os barcos à ilharga, dando cambalhotas e elevando-se por vezes fora das águas. No meio do Oceano, navegando do Pico para São Jorge ou desta ilha para a Terceira, rara era a viagem, e várias fizemos, em que não tivéssemos por agradável companhia os simpáticos animais.
Mas, como todo o ser criado tem seu destino traçado, os botos eram caçados, principalmente no porto desta Vila, para utilização das populações, tal como os outros peixes e animais marinhos e, mais tarde, o cachalote.
Ao criar o mundo “Deus criou os grandes peixes e todos os animais que têm vida e movimentos, os quais foram produzidos pelas águas segundo a sua espécie… E Deus viu que tudo era bom. E os abençoou dizendo: crescei e multiplicai-vos, e enchei as águas do mar…E depois disse: «Façamos o homem à sua imagem e semelhança, e presidia aos peixes do mar, às aves do céu e aos animais selvagens e a toda a terra…»
Utilizando os animais, as aves e os peixes, o homem está a servir-se de um mandato do Criador, que tudo pôs à sua disposição.
Recusar ao homem o direito de fruição dos animais, das aves, dos peixes, das árvores e dos bens da terra é cercear-lhe um direito que lhe foi outorgado pelo Criador, Senhor de todas as coisas criadas. Mas sobre isso não faço comentários.
Valendo-me do Comendador Ernesto Rebelo, falecido em 1902, escritor faialense, em «Notas Açorianas», publicadas no «Arquivo dos Açores», a partir do volume sétimo respigamos:
«Depois de nove horas de jornada, de haver atravessado a serra, subido e descido muita ladeira e cruzado os grandes descampados de pedra roliça e requeimada, entremeada aqui e além por moitas de rasteiras faias, descampados a que se dá o nome de Mistérios por serem estes os sítios por onde passaram as ribeiras de refervente lava das antigas erupções vulcânicas do Pico, chegámos finalmente, ao cair da noite, à Vila das Lajes»…
«Encaminhámo-nos para o velho e estragado Convento de São Francisco, que domina a Vila no qual um amigo obsequioso nos havia permitido permanecer num desguarnecido quarto.» E aqui deixo para trás as peripécias porque passou durante a noite com as chuvas que pingavam do soalho e com o barulho das cagarras que lhe pareciam gritos de vozes humanas.
O rapaz que o acompanhava de manhã, chamou-o para um grande divertimento que iam ter: «Um cardume de botos que foi avistado ao romper da manhã, já saíram algumas lanchas a ver se conseguem metê-los na Lagoa e a povoação toda está de espreita na costa, há-de ter que ver». Ernesto Rebelo descreve a seguir minuciosamente o rodear dos botos para o interior da Lagoa e, depois, a caçada.
«No fim de duas horas de trabalho, estavam estendidos na costa sessenta e nove valentes botos e começou a mais simples faina de os retalhar, para ali mesmo serem derretidos em enormes caldeiras.
«A pesca tinha sido excelente e os lucros importantes, pois quanto azeite houvesse obtinha certo e bom preço, para exportação.
«As tripulações das lanchas em um dia de trabalho, haviam ganho mais do que num ano de pescaria miúda…»
A caça ao boto era um dos principais rendimentos da classe marítima. O azeite não só era exportado, como ainda utilizado nas candeias que alumiavam os serões das famílias e a própria carne era salgada e utilizada na alimentação de suínos e como isco para a pesca. Nada era desaproveitado.
Hoje…fico por aqui.

Vila das Lajes,20 de Julho de 2007
Ermelindo Ávila

domingo, 22 de julho de 2007

A Ilha do Pico não terá direito a um campo de golfe?

Há anos, “nem eu sei há quantos”, houve uma sociedade legalmente constituída que projectou a construção de um campo de golfe na zona do Mistério da Silveira. Para tal, julgo que a Câmara Municipal, pois é a legítima proprietária do terreno, embora esteja afecto as Serviços Florestais, cedeu a essa Empresa o espaço necessário para a implantação de um complexo turístico destinado à prática do Golfe, um desporto em crescente desenvolvimento mundial.
As obras do novo empreendimento começaram naquela época – são decorridos vários anos. De alguns “quintais” da vila das Lajes foram levantados muitos metros cúbicos (centenas, milhares?) de terra para o novo campo mas, a dado momento, as obras foram suspensas. Razão? Desconheço. 0 certo é que motivos devem ter existido e, como se trata de uma empresa particular, só ela tem o direito de suspender ou prosseguir com os trabalhos. Da nossa parte só lamentamos a decisão.
Mas, julgo que embora decorridos tantos anos, há uma solução: O terreno deve ter sido cedido a título precário e, não tendo sido utilizado no fim para que foi cedido, impõe-se que volte à posse do Município.
Na Carta Turística dos Açores, (não importa que não seja este o nome técnico), distribuem-se por algumas ilhas campos de golfe. Mesmo para a Ilha do Faial onde, inicialmente, não estava prevista a construção desse complexo. Mas os faialenses tanto reclamaram, que conseguiram. A Ilha do Pico, onde já estava iniciado um campo, ficou excluída desse programa, por lapso ou propositadamente?!…
Verdade que, por razões incompreensíveis, não pertence ao grupo das ilhas da coesão. Daí, talvez, o esquecimento a que vem sendo acintosamente votada.
No entanto, porque não tem direito a ilha do Pico a um campo de golfe, se à ilha estão a chegar muitos turistas de diversas nacionalidades, fora de grupos excursionistas, que aqui se demoram, não só um dia nem dois mas muitos mais, a gozar o clima, os acidentes geográficos, os poentes multicolores, a paisagem extasiante que a própria montanha oferece ?!…
Acaba de ser fundada uma Empresa Municipal, a CULTURPICO, destinada à aquisição de equipamentos turísticos, desportivos, recreativos, culturais, ambientais e habitacionais. E a Presidente da Câmara, no “Boletim Municipal” do mês de Fevereiro deste ano, donde extraio a notícia, afirma: “O concelho das Lajes do Pico precisa, merece e há-de ter tudo o que for melhor. Não nos comparamos com o que há de pior, mas sim com o que o mundo tem de melhor para oferecer. Ser medíocre é pensar que só os outros é que merecem do melhor que há na vida.”
Subscrevo com prazer a afirmação conceituosa da Presidente da Edilidade Lajense. Mas é preciso que ela se concretize nos mais simples pormenores. E é por isso que venho chamar a atenção para a conclusão (não conheço qual o andamento das obras) de tão importante empreendimento indispensável ao progresso do concelho.
Como igualmente desconheço qual a situação jurídica deste assunto mas, se não estou em erro, creio que o Município tem competência legal para tomar posse administrativa da obra e promover o prosseguimento dos trabalhos até à sua conclusão, quer por administração directa da Empresa Culturpico, quer chamando interessados que àquela entidade se associem, não apenas para a execução dos trabalhos mas sobretudo para a futura exploração do empreendimento.
ノ uma oportunidade que urge desenvolver para que não surjam inesperados oportunistas estranhos à ilha a aproveitar-se da situação.
A Empresa recém–criada pela Câmara Municipal tem um caminho longo a percorrer para o desenvolvimento do concelho. Todavia, e segundo os economistas, o Turismo deve estar no primeiro plano das preocupações municipais pois é um sector do qual depende (em grande medida!) o progresso e, consequentemente, o futuro do próprio concelho e da ilha não pode ser relegado a segundo plano das preocupações ou projectos da Autarquia. Em todas as terras está este sector a desenvolver-se assombrosamente e nem todas elas dispõem do potencial que se encontra na Ilha do Pico.
Sabemos que o Turismo se dispersa por diversas vertentes – os caminhos pedrestes para as zonas altas, os miradouros, os lugares de lazer, a restauração e hotelaria, etc.
Mas um campo de golfe, modalidade desportiva de tanto interesse mundial, está entre o “equipamento” turístico mais apreciado pelos endinheirados e não só. ノ preciso aproveitar com urgência a oportunidade e os bens com que a Natureza nos dotou.
Vila Baleeira, 10 de Julho de 2007
Ermelindo Avila

quinta-feira, 19 de julho de 2007

D. JOSEFINA CANTO E CASTRO celebra centénário

Há cinco anos tive o prazer de assinalar, num modesto escrito, os 95 anos da distinta Senhora. Agora, com redobrado júbilo, venho, na modéstia do meu dizer, congratular-me com os CEM ANOS, que hoje celebra a distinta Poetisa, jornalista, musicóloga e professora, rodeada da ilustre Família, no Sul da Califórnia, Estados Unidos da América do Norte, onde passou a residir.
D. Josefina Amarante Freitas do Canto e Castro nasceu no dia 19 de Julho de 1907 em Providence, Rhode Island, E.U.A.. Com um ano de idade veio com os pais para S. Jorge, passando ainda menina, a residir na cidade de Angra e ali, conheceu o marido, também ele poeta e jornalista, Francisco do Canto e Castro, fixando a seguir residência no lugar do Cais do Pico, concelho de São Roque, em cujo concelho ele era ao tempo, funcionário de Finanças. Dali o casal transferiu-se para a Horta, onde residiu até emigrar para os Estados Unidos.
Na Horta, D. Josefina foi professora de piano e francês e colaborou na “Horta Desportiva”, depois de adquirida pelo marido, até regressar aos E.U.A.. É aí que a vai encontrar o Pe. Xavier Madruga, fundador e director deste semanário, aquando da sua visita à América. E, numa das suas excelentes “Cartas da América”, (cuja publicação em livro foi autorizada ao Núcleo Cultural da Horta, mas que este instituto nunca realizou), o Pe. Xavier Madruga presta homenagem à ilustre Senhora, pondo em relevo o trabalho exaustivo que estava a realizar: Poetisa e escritora, nunca escreve nem fala que não seja para cantar as Figuras máximas da nossa incomparável História, as suas grandes Datas Nacionais, a musicalidade harmoniosa da Língua Portuguesa e o dever que todos têm de a tornar conhecida e amada dos estrangeiros.
E, depois, afirma: “Pela rádio e na imprensa, nas Sociedades e Clubes da Califórnia, nos Colégios e Liceus onde se tem encontrado a ensinar, é contínuo e perseverante o seu esforço e a sua acção, porfiada, constante, obstinada pela nossa Pátria, de quem se constituiu, voluntariamente, animadora e advogada, sem credenciais, nesta grande nação.”(…)“Actualmente professora na Douglas School de Pebble Beach, próximo de Monterey ali ensina espanhol e francês, como poderia ensinar português e inglês”.
E, quase a terminar a sua “Carta da América”, publicada neste jornal no dia 15 de Março de 1947, precisamente há sessenta anos, escreve ainda o Pe. Xavier Madruga acerca de D. Josefina Canto e Castro: Rezar, sofrer, dar bom exemplo: duas mão postas, molhadas de lágrimas, são chaves de ouro capazes de abrir o coração mais endurecido ou a inteligência mais desnorteada.
D. Josefina, decorridos alguns anos, voltou ao Pico e fixou residência em São Roque, terra que primeiro habitou após o casamento. Ali viveu rodeada do maior carinho e amizade durante alguns anos, leccionando música e piano como ocupação dos “tempos livres”. E foram vários os alunos que, depois, seguiram a carreira musical. Sentindo que os anos passavam, voltou para junto dos Filhos e Netos, nos Estados Unidos e fixou-se novamente na Califórnia. Aqui iniciou a sua colaboração em “O Dever” sob a rubrica “Da Minha Janela”, continuando-a nos Estados Unidos até há cerca de dois anos. A sua colaboração era semanária e, quando o original não chegava a tempo, arreliava-se com o atraso.
Foram muitos e diversificados os assuntos e temas tratados em “Da minha Janela”, local de observação atenta dos problemas, os mais diversificados, desta ilha.
Três livros de poemas publicou a distinta e inspirada Poetisa: “Naquele Tempo…Poemas Bíblicos”, 1ª edição em 1941 e 2ª edição em 1985; “Poemas de Ontem”,1989 e “Despedida”, l996.
Sempre interessada pela literatura açoriana, numa das muitas cartas que me escreveu, (12 de Agosto de 1997), diz: Fiquei surpreendida com tantos livros publicados recentemente e a lançar este verão. Os Açores estão, deveras, a lançar a sua literatura. O que falta é mais comunicação e vendas entre as Ilhas. Não será possível melhorar a situação? Quem sabe!
O “Tribuna Portuguesa”, jornal que se publica em Modesto, Califórnia, no dia 1 de Julho corrente, ao celebrar os 100 anos de D. Josefina Canto e Castro escreveu, e aqui transcrevo com a devida vénia: …Emigrou em 1945. Teve uma vida indescritível de empenho, de solidariedade, de bem escrever, de ser mulher com M grande. Lutadora de muitas causas, a sua “Janela” é a pérola mais preciosa deste jornal. Faz l00 anos no dia 19 de Julho e vai estar acompanhada por toda a família no Sul da Califórnia. Happy Birthday.
Com emoção, respeito e amizade, também aqui deixo os meus votos de Parabéns à Veneranda Senhora, seus Exmos. Filhos e Familiares. Feliz Aniversário!
Pico,19 de Julho de 2007
Ermelindo Ávila