sábado, 18 de agosto de 2007

AS FESTAS DE VERÃO

É assim que as classifica o povo. Desde remotas eras. Eram as festas e os arraiais a única distracção que existia nas freguesias até meados do século passado.
As populações juntavam-se nos adros das respectivas igrejas onde se celebravam as festas dos Santos Padroeiros ou os de maior devoção e aí passavam as tardes, assistindo ao arrematar, por vezes em despique acalorado, das “ofertas” que eram de variadas espécies: produtos da terra, tais como maçarocas de milho, frutos das quintas e dos quintais, massa sovada dos mais variados feitios. A figura de uma perna, de um braço ou de uma cabeça, conforme a graça da cura de uma doença que havia afectado uma daquelas partes do corpo humano; uma vaquinha ou um porco, pela cura de um animal doméstico que havia sofrido alguma enfermidade, etc. E outros mais.
Nos arraiais os moços iniciavam ou mantinham namoros que, quase sempre, os levavam ao casamento “para toda a vida”.
Um viver patriarcal e cristão. Bons tempos!...
A meados do século XIX surgiram as filarmónicas e os arraiais passaram a ter maior assistência e, naturalmente, mais alegria. E os arraiais continuaram, abrilhantados pelas filarmónicas que foram aparecendo em quase todas as freguesias, numa simpática nota de cultura, até nossos dias.
Dom João Paulino de Azevedo e Castro, ao tempo Vice-Reitor do Seminário de Angra e que pode ser considerado o iniciador da Festa de Nossa Senhora de Lourdes nesta vila, como na Sé de Angra e em Santo Antão, S. Jorge, onde paroquiava o irmão, Pe. Francisco Xavier de Azevedo e Castro, em artigos publicados no “Peregrino de Lourdes”, de Angra, em Julho de 1889 (in “Textos de D. João Paulino”, Provisões e outros escritos, Vol. II, Macau – 1997, coordenação do Pe. Tomás Bettencourt Cardoso), relata a primeira festa realizada nesta vila em honra de Nossa Senhora de Lourdes, em Setembro de 1883. E permito-me a transcrição:
“A Vila das Lajes, triste e pacata de ordinário, toma durante estes dias um aspecto risonho, alegre e animado. Desacostumada de ver gentes de fora tomar parte em suas festas desde o tempo dos capitães-mores, em que a festa anual do Corpus Christi atraía ao seu recinto, vindos de todo o concelho, uns legendários corpos de milícia armados de chaços e espadas em atitude bélica, - vê-se, durante estes dias, povoada de estranhos, que em atitude pacífica, armados quando muito do rosário a visitam, atraídos de todos os pontos da ilha pelo encanto da devoção à Virgem de Lurdes.
Há uma nota muito característica destes ajuntamentos, que não deve ficar em silêncio. A popularíssima viola, companheira inseparável de gente folgazã, mesmo durante as romarias, por ocasião de alguma festa religiosa, onde só deve reinar o recolhimento e a piedade, não se tem ouvido durante aqueles dias abençoados, e os bailados tão frequentes noutras romarias e sempre funestas consequências para a moral e para os costumes, não se acomodam, ao que parece, naquela atmosfera embalsamada pelos suaves perfumes que exalam as virtudes da Virgem sempre pura.”
Mas, antes, o mesmo Autor, no citado artigo faz referência aos festejos externos, embora com certa parcimónia, escrevendo:
“Durante o dia da festa e na véspera, as proximidades da igreja acham-se vistosamente embandeiradas, e na noite de um destes dias, conforme o tempo o permite, tem lugar uma bonita iluminação à chinesa que atrai concurso imenso de espectadores.”
É o tradicional arraial nocturno, abrilhantado, desde o início, pela Filarmónica Lajense e, posteriormente, por outras filarmónicas, principalmente do Faial, que aqui vinham, gratuitamente, somente no desejo dos seus componentes gozarem as festas que tinham grande nomeada nestas ilhas.
Mas não apenas a Festa de Nossa Senhora de Lourdes era assistida por milhares de pessoas. O mesmo na Festa do Bom Jesus em São Mateus, na Festa de Nossa Senhora da Piedade, na Ponta da Ilha, no Bom Jesus da Calheta, na de Santa Maria Madalena, na de São Roque, na Senhora do Carmo em Santo Amaro, para só estas citar, pois a lista abrangeria todas as freguesias picoenses, onde as festividades religiosas dedicadas, principalmente, aos Santos Padroeiros eram e ainda hoje algumas são precedidas de arraiais nocturnos, sempre muito frequentados os quais sempre decorreram, normalmente, com ordem e respeito.
No entanto, em diversas festas algo se modificou. Hoje, algumas delas são precedidas de “semanas” recreativas, desportivas, culturais e folclóricas e outros atractivos, tendo quase sempre o concurso de artistas contratados, filarmónicas e grupos artísticos estranhos à localidade.
Estamos uma vez mais no verão e as festas principais de cada localidade estão aí. Decorrem até ao mês de Setembro. Arrastam para a ilha muitos picoenses que mourejam a vida pelas outras ilhas e por terras da Diáspora. É sempre um prazer encontrá-los, quase todos os anos, e com eles travar uma amena conversa de amizade e de saudade, recordando até tempos idos...
Que todos, residentes ou visitantes, possam gozar as festas com alegria, é o voto que aqui deixo com muita simpatia.

Lajes do Pico, Julho de 2006
Ermelindo Ávila

sábado, 11 de agosto de 2007

A grande Semana Lajense

É a Semana da Senhora, a Padroeira das gentes lajenses e picoenses, Nossa Senhora de Lourdes. A Senhora que há 124 anos tem altar reservado na Matriz da Santíssima Trindade ao qual o Papa Leão XIII concedeu a mercê de ALTAR PRIVILEGIADO.
Hoje não somente o altar mas todo o templo deveria ser considerado Santuário, tal como acontece a outros nos quais estão entronizadas Imagens de grande devoção do Povo crente.
Quando, há anos, foi apresentada petição junto da entidade competente para que a Matriz da Santíssima Trindade desta vila, fosse considerada Santuário da Virgem de Lourdes, indeferiu-se esse requerimento sem qualquer explicação, num gesto de aparente prepotência que chocou deveras os crentes e devotos d’Aquela que, por dezoito vezes, “apareceu a uma inocente filha do povo”.
Igual povo, que não o de Lourdes, anda há mais de um século a suplicar e louvar a Virgem de Massabielle e isso não basta para que a “Casa Santa, Mimosa de Deus” seja considerado um Santuário, onde o povo que professa a fé cristã, suplica à sua Padroeira as graças e benesses de que necessita? Será melhor assistir, indiferente, ao seu afastamento da Casa de Deus ?…
No livro Perfumes de Lourdes, editado em Angra do Heroísmo em 1892, escreveu o seu autor Mons. António Maria Ferreira, a páginas 331: “Lages do Pico – Foi talvez o primeiro logar dos Açores onde Nossa Senhora de Lourdes começou a ser invocada, não obstante ser o Fayal a primeira Ilha onde foi exposta ao culto a primeira Imagem de Nossa Senhora de Lourdes.
“Em occasião aflictiva para os habitantes d’aquela villa, n’um d’esses dias em que o mar enfurecido parece, na phrase dos lagenses, querer engulir a terra, algumas canôas balieiras tripuladas por intrepidos marinheiros demandavam o porto, luctando corajosamente com as ondas enfurecidas; mas para os de terra havia eminente risco de os verem despedaçar-se nas penedias que tornam perigosíssima a entrada do porto.
“As proximidades da lagôa cuja bacia forma o porto achavam-se apinhadas de povo que pressuroso havia accudido a presenciar aquele triste espectáculo. Nos momentos de maior angústia apparece alli um filho da localidade que era considerado por todos como tendo sido objecto de uma insigne graça de Nossa Senhora de Lourdes. A sua presença e a sua palavra conseguiram serenar um pouco aquelles corações afllictos inspirando-lhes uma tal confiança na miraculosa Senhora de Massabielle, que d’envolta com os gritos de angustias que de continuo irrompiam de todos os peitos eram repetidamente ouvidas dos diferentes pontos da multidão as exclamações de:- Nossa Senhora de Lourdes livrai-os do perigo – Nossa Senhora de Lourdes salvae-os!
O Facto é que a tempestade serenou, as embarcações entraram a salvo no porto, e da tripulação ninguem soffreu o menor dano. Desde então a confiança em N. Senhora de Lourdes começou a ganhar os corações entre aquele bom povo e a sua devoção dia a dia conquistava terreno. Estava desta forma inaugurado n’aquela villa e no archipelago e diocese de Angra o culto publico em honra da Virgem dos Pyreneus.”
Que mais acrescentar para justificar a necessidade de intensificar o culto da Virgem de Lourdes na terra lajense, que parece esquecer-se daqueles recuados momentos de angústia em que a Virgem foi invocada publicamente e atendeu de maneira assombrosa – milagrosa? – os povos aflitos !
Vamos celebrar uma vez mais a Festa de Nossa Senhora de Lourdes.
Nas últimas duas semanas de Agosto, tal como desde 1884, as nossas gentes vão estar junto do altar, tomando parte no Novenário e nas solenidades do dia. E igualmente muitos picoenses e outros que aqui chegam de outras ilhas e das Terras da Diáspora. É um tempo forte de empolgante solenidade, dedicado à Senhora que, junto do porto e quando as antigas canoas baleeiras estavam em perigo, ouviu as preces angustiosas do povo ali reunido a presenciar os horrores da tragédia que se aproximava mas que a Virgem afastou com sua maternal bondade!
Já não há homens que pratiquem a ardilosa pesca. Restam apenas alguns que ainda foram baleeiros, mas a tradição ficou. Todavia, nuns vislumbres de fé tradicional, todos os lajenses a eles se unem ali, no mesmo local, onde a Virgem foi invocada há 124, junto do porto, a escutar a Palavra do sacerdote e a viver emocionados ainda esses momentos de recordação e de fé ardente que era !
Celebremos com alegria as maravilhas que o Senhor fez!

Vila Baleeira,
2 de Agosto de 2007
Ermelindo Ávila

domingo, 5 de agosto de 2007

Bom Jesus Milagroso

Estamos no mês de Agosto. O mês das Festas do Pico por excelência. Há semanas realizaram-se as festas da Padroeira, na vila da Madalena. Agora temos a Festa do Bom Jesus Milagroso, em São Mateus do Pico.
Em 1984 o Padre António Filipe Madruga, Pároco de S. Mateus e Reitor do Santuário, presidiu pela última vez à solenidade do Bom Jesus. O cronista da festa, professor Helder Melo, no Boletim Paroquial “Ecos do Santuário”, no número de Setembro daquele ano, escrevia: “O Reitor do Santuário testemunhou a felicidade que sentia por voltar a orientar as solenidades e por presidir àquela Concelebração solene da Eucaristia, na qual entoou as Orações Presidenciais quase com o mesmo belo timbre de voz dos bons tempos da sua acção pastoral.”
Afinal, foi o derradeiro ano pois, logo a seguir, no dia de Todos os Santos, quando em Angra assistia à ordenação diaconal do Rev. Pe. Zulmiro Sarmento, o Padre António Filipe Madruga terminava sua vida terrena para a continuar na Mansão dos Justos. E já lá vão quase 23 anos.
À frente da Paróquia de São Mateus encontra-se, presentemente, o Sacerdote que, naquele ano de 1984, teve a seu cargo a Liturgia da Palavra, “o Pe. José Carlos, cujo bem elaborado sermão, por iniciativa do Pároco
será publicado em Separata” como nos diz a reportagem da festividade. Afinal isso não chegou a acontecer.
O Pe. Filipe Madruga foi um sacerdote que todo se deu à sua missão eclesial e apostólica. Os testemunhos que o seu Boletim – e seu porque o fundou em 1968 e com ele terminou em 1984 –no último número e ao P. Filipe Madruga dedicado, relevam de maneira incontestada, a sua nobilitante acção como sacerdote e como pároco. E logo na primeira página nos apresenta os “depoimentos” de quatro Bispos, incluindo do diocesano, e do Vigário Geral da Diocese. Que mais preciso seria para demonstrar a sua vida plena de doação e sacrifício? Dom Jaime Garcia Goulart, Bispo resignatário de Dili, escreveu: “De facto, o Padre António Filipe Madruga foi acima de tudo um verdadeiro Sacerdote, totalmente devotado à Igreja e às almas. Todo se consumiu neste indefectível amor, que torna grande o mais humilde Padre.”
Mas, além do testemunho que, naquele Boletim, deixou a Professora Universitária, Doutora Rosa Maria B. Goulart, interessa recordar o P.S.: “Se ninguém levasse a mal que saíssemos um pouco do assunto, permitir-nos-íamos uma breve referência – que, pela nossa parte, é também testemunho de gratidão- à actividade de D. Maria do Espírito Santo e D. Maria da Conceição Madruga, pelo melhor que de si deram à freguesia de São Mateus. A primeira, em tudo quanto fosse necessidade: em casa, na igreja, onde quer que houvesse doença, sofrimento ou morte. A segunda, mais no silêncio abnegado – portas dentro onde nunca lhe conhecemos tréguas.”
Afinal, tudo foi esquecido!…A memória do Pe. António Filipe Madruga perdeu-se com o decorrer dos anos.
Segundo fontes mais aceitáveis, o culto ao Bom Jesus, cuja Imagem Veneranda foi trazida do Brasil por um benemérito filho da freguesia, Francisco Ferreira Goulart, foi inaugurado em São Mateus do Pico no dia 6 de Agosto de l862. Cento e quarenta e cinco anos são passados.
Por Decreto do Bispo de Angra, de 1 de Julho de 1862, ano do centenário da inauguração do culto ao Bom Jesus, a igreja de S. Mateus foi elevada à categoria de Santuário; e, em 20 de Setembro de 1968, solenemente sagrada pelo Bispo Dom Jaime Garcia Goulart.
Foi enobrecida com o título de Igreja Matriz por despacho do Prelado Diocesano, de 20 de Setembro de 1972.
O sismo de 1998 abalou aquele templo, como aliás aconteceu à grande maioria das igrejas da ilha mas, felizmente, foi já totalmente recuperada e voltou ao seu anterior estado artístico.
Prepara-se uma vez mais a Paróquia de São Mateus para celebrar a festa do Bom Jesus Milagroso. Antigamente, era um lugar de romaria de toda a ilha. Não havia transportes motorizados e os carros de bois só serviam para transportar as roupas e os farnéis. Eram, em muitos casos, romarias de penitência. Levava-se por vezes oito dias a chegar a São Mateus. Não havia locais de alojamento mas muitas pessoas da freguesia num gesto altruísta de verdadeiro espírito cristão, facultavam as suas residências, ou casas devolutas, aos romeiros para “se abrigarem da noite”. Depois a Paróquia construiu um salão a que chamou “casa dos romeiros”. Tudo isso passou. Com as facilidades de comunicação, as deslocações dos devotos ou simples forasteiros fazem-se no próprio dia, normalmente, para tomar parte na procissão, que não deixa de ser um acto penitencial pelo seu longo percurso.
“Romeiros de São Mateus / Descansai, tomai alento / Que a Virgem Nossa Senhora / Nos há-de dar bom tempo”. Era uma das quadras que os romeiros cantavam, quando paravam para descanso e, num terreiro ao lado do caminho, bailavam uma “Chamarrita”, baile regional de remotas eras. Tempos passados…

Vila das Lajes,
Agosto de 2007
Ermelindo Ávila

sábado, 28 de julho de 2007

Os Botos

Hoje chamam-lhe golfinhos. Botos ou golfinhos ou moleiros, são uma e a mesma espécie de mamíferos que os Lajenses, em tempos passados, aproveitavam para diversos usos. Todavia, não deixam de ser animais interessantes que não atacam o homem e que, em certas e determinadas épocas, cabriolam pelos mares, causando gosto aos observadores.
Não é agora que foi descoberta a observação dos botos. Eles sempre andaram pelos mares das ilhas e, quando foi necessário utilizar o óleo e a carne, constituíram uma excelente ajuda às paupérrimas economias domésticos dos povos insulares.
Aqui há setenta/oitenta anos era agradável viajar nos barcos da Insulana, o “Lima” e o “São Miguel” substituído depois pelo “Carvalho Araújo” e, encostados às amuradas dos navios, ver os botos em correrias a acompanhar os barcos à ilharga, dando cambalhotas e elevando-se por vezes fora das águas. No meio do Oceano, navegando do Pico para São Jorge ou desta ilha para a Terceira, rara era a viagem, e várias fizemos, em que não tivéssemos por agradável companhia os simpáticos animais.
Mas, como todo o ser criado tem seu destino traçado, os botos eram caçados, principalmente no porto desta Vila, para utilização das populações, tal como os outros peixes e animais marinhos e, mais tarde, o cachalote.
Ao criar o mundo “Deus criou os grandes peixes e todos os animais que têm vida e movimentos, os quais foram produzidos pelas águas segundo a sua espécie… E Deus viu que tudo era bom. E os abençoou dizendo: crescei e multiplicai-vos, e enchei as águas do mar…E depois disse: «Façamos o homem à sua imagem e semelhança, e presidia aos peixes do mar, às aves do céu e aos animais selvagens e a toda a terra…»
Utilizando os animais, as aves e os peixes, o homem está a servir-se de um mandato do Criador, que tudo pôs à sua disposição.
Recusar ao homem o direito de fruição dos animais, das aves, dos peixes, das árvores e dos bens da terra é cercear-lhe um direito que lhe foi outorgado pelo Criador, Senhor de todas as coisas criadas. Mas sobre isso não faço comentários.
Valendo-me do Comendador Ernesto Rebelo, falecido em 1902, escritor faialense, em «Notas Açorianas», publicadas no «Arquivo dos Açores», a partir do volume sétimo respigamos:
«Depois de nove horas de jornada, de haver atravessado a serra, subido e descido muita ladeira e cruzado os grandes descampados de pedra roliça e requeimada, entremeada aqui e além por moitas de rasteiras faias, descampados a que se dá o nome de Mistérios por serem estes os sítios por onde passaram as ribeiras de refervente lava das antigas erupções vulcânicas do Pico, chegámos finalmente, ao cair da noite, à Vila das Lajes»…
«Encaminhámo-nos para o velho e estragado Convento de São Francisco, que domina a Vila no qual um amigo obsequioso nos havia permitido permanecer num desguarnecido quarto.» E aqui deixo para trás as peripécias porque passou durante a noite com as chuvas que pingavam do soalho e com o barulho das cagarras que lhe pareciam gritos de vozes humanas.
O rapaz que o acompanhava de manhã, chamou-o para um grande divertimento que iam ter: «Um cardume de botos que foi avistado ao romper da manhã, já saíram algumas lanchas a ver se conseguem metê-los na Lagoa e a povoação toda está de espreita na costa, há-de ter que ver». Ernesto Rebelo descreve a seguir minuciosamente o rodear dos botos para o interior da Lagoa e, depois, a caçada.
«No fim de duas horas de trabalho, estavam estendidos na costa sessenta e nove valentes botos e começou a mais simples faina de os retalhar, para ali mesmo serem derretidos em enormes caldeiras.
«A pesca tinha sido excelente e os lucros importantes, pois quanto azeite houvesse obtinha certo e bom preço, para exportação.
«As tripulações das lanchas em um dia de trabalho, haviam ganho mais do que num ano de pescaria miúda…»
A caça ao boto era um dos principais rendimentos da classe marítima. O azeite não só era exportado, como ainda utilizado nas candeias que alumiavam os serões das famílias e a própria carne era salgada e utilizada na alimentação de suínos e como isco para a pesca. Nada era desaproveitado.
Hoje…fico por aqui.

Vila das Lajes,20 de Julho de 2007
Ermelindo Ávila

domingo, 22 de julho de 2007

A Ilha do Pico não terá direito a um campo de golfe?

Há anos, “nem eu sei há quantos”, houve uma sociedade legalmente constituída que projectou a construção de um campo de golfe na zona do Mistério da Silveira. Para tal, julgo que a Câmara Municipal, pois é a legítima proprietária do terreno, embora esteja afecto as Serviços Florestais, cedeu a essa Empresa o espaço necessário para a implantação de um complexo turístico destinado à prática do Golfe, um desporto em crescente desenvolvimento mundial.
As obras do novo empreendimento começaram naquela época – são decorridos vários anos. De alguns “quintais” da vila das Lajes foram levantados muitos metros cúbicos (centenas, milhares?) de terra para o novo campo mas, a dado momento, as obras foram suspensas. Razão? Desconheço. 0 certo é que motivos devem ter existido e, como se trata de uma empresa particular, só ela tem o direito de suspender ou prosseguir com os trabalhos. Da nossa parte só lamentamos a decisão.
Mas, julgo que embora decorridos tantos anos, há uma solução: O terreno deve ter sido cedido a título precário e, não tendo sido utilizado no fim para que foi cedido, impõe-se que volte à posse do Município.
Na Carta Turística dos Açores, (não importa que não seja este o nome técnico), distribuem-se por algumas ilhas campos de golfe. Mesmo para a Ilha do Faial onde, inicialmente, não estava prevista a construção desse complexo. Mas os faialenses tanto reclamaram, que conseguiram. A Ilha do Pico, onde já estava iniciado um campo, ficou excluída desse programa, por lapso ou propositadamente?!…
Verdade que, por razões incompreensíveis, não pertence ao grupo das ilhas da coesão. Daí, talvez, o esquecimento a que vem sendo acintosamente votada.
No entanto, porque não tem direito a ilha do Pico a um campo de golfe, se à ilha estão a chegar muitos turistas de diversas nacionalidades, fora de grupos excursionistas, que aqui se demoram, não só um dia nem dois mas muitos mais, a gozar o clima, os acidentes geográficos, os poentes multicolores, a paisagem extasiante que a própria montanha oferece ?!…
Acaba de ser fundada uma Empresa Municipal, a CULTURPICO, destinada à aquisição de equipamentos turísticos, desportivos, recreativos, culturais, ambientais e habitacionais. E a Presidente da Câmara, no “Boletim Municipal” do mês de Fevereiro deste ano, donde extraio a notícia, afirma: “O concelho das Lajes do Pico precisa, merece e há-de ter tudo o que for melhor. Não nos comparamos com o que há de pior, mas sim com o que o mundo tem de melhor para oferecer. Ser medíocre é pensar que só os outros é que merecem do melhor que há na vida.”
Subscrevo com prazer a afirmação conceituosa da Presidente da Edilidade Lajense. Mas é preciso que ela se concretize nos mais simples pormenores. E é por isso que venho chamar a atenção para a conclusão (não conheço qual o andamento das obras) de tão importante empreendimento indispensável ao progresso do concelho.
Como igualmente desconheço qual a situação jurídica deste assunto mas, se não estou em erro, creio que o Município tem competência legal para tomar posse administrativa da obra e promover o prosseguimento dos trabalhos até à sua conclusão, quer por administração directa da Empresa Culturpico, quer chamando interessados que àquela entidade se associem, não apenas para a execução dos trabalhos mas sobretudo para a futura exploração do empreendimento.
ノ uma oportunidade que urge desenvolver para que não surjam inesperados oportunistas estranhos à ilha a aproveitar-se da situação.
A Empresa recém–criada pela Câmara Municipal tem um caminho longo a percorrer para o desenvolvimento do concelho. Todavia, e segundo os economistas, o Turismo deve estar no primeiro plano das preocupações municipais pois é um sector do qual depende (em grande medida!) o progresso e, consequentemente, o futuro do próprio concelho e da ilha não pode ser relegado a segundo plano das preocupações ou projectos da Autarquia. Em todas as terras está este sector a desenvolver-se assombrosamente e nem todas elas dispõem do potencial que se encontra na Ilha do Pico.
Sabemos que o Turismo se dispersa por diversas vertentes – os caminhos pedrestes para as zonas altas, os miradouros, os lugares de lazer, a restauração e hotelaria, etc.
Mas um campo de golfe, modalidade desportiva de tanto interesse mundial, está entre o “equipamento” turístico mais apreciado pelos endinheirados e não só. ノ preciso aproveitar com urgência a oportunidade e os bens com que a Natureza nos dotou.
Vila Baleeira, 10 de Julho de 2007
Ermelindo Avila

quinta-feira, 19 de julho de 2007

D. JOSEFINA CANTO E CASTRO celebra centénário

Há cinco anos tive o prazer de assinalar, num modesto escrito, os 95 anos da distinta Senhora. Agora, com redobrado júbilo, venho, na modéstia do meu dizer, congratular-me com os CEM ANOS, que hoje celebra a distinta Poetisa, jornalista, musicóloga e professora, rodeada da ilustre Família, no Sul da Califórnia, Estados Unidos da América do Norte, onde passou a residir.
D. Josefina Amarante Freitas do Canto e Castro nasceu no dia 19 de Julho de 1907 em Providence, Rhode Island, E.U.A.. Com um ano de idade veio com os pais para S. Jorge, passando ainda menina, a residir na cidade de Angra e ali, conheceu o marido, também ele poeta e jornalista, Francisco do Canto e Castro, fixando a seguir residência no lugar do Cais do Pico, concelho de São Roque, em cujo concelho ele era ao tempo, funcionário de Finanças. Dali o casal transferiu-se para a Horta, onde residiu até emigrar para os Estados Unidos.
Na Horta, D. Josefina foi professora de piano e francês e colaborou na “Horta Desportiva”, depois de adquirida pelo marido, até regressar aos E.U.A.. É aí que a vai encontrar o Pe. Xavier Madruga, fundador e director deste semanário, aquando da sua visita à América. E, numa das suas excelentes “Cartas da América”, (cuja publicação em livro foi autorizada ao Núcleo Cultural da Horta, mas que este instituto nunca realizou), o Pe. Xavier Madruga presta homenagem à ilustre Senhora, pondo em relevo o trabalho exaustivo que estava a realizar: Poetisa e escritora, nunca escreve nem fala que não seja para cantar as Figuras máximas da nossa incomparável História, as suas grandes Datas Nacionais, a musicalidade harmoniosa da Língua Portuguesa e o dever que todos têm de a tornar conhecida e amada dos estrangeiros.
E, depois, afirma: “Pela rádio e na imprensa, nas Sociedades e Clubes da Califórnia, nos Colégios e Liceus onde se tem encontrado a ensinar, é contínuo e perseverante o seu esforço e a sua acção, porfiada, constante, obstinada pela nossa Pátria, de quem se constituiu, voluntariamente, animadora e advogada, sem credenciais, nesta grande nação.”(…)“Actualmente professora na Douglas School de Pebble Beach, próximo de Monterey ali ensina espanhol e francês, como poderia ensinar português e inglês”.
E, quase a terminar a sua “Carta da América”, publicada neste jornal no dia 15 de Março de 1947, precisamente há sessenta anos, escreve ainda o Pe. Xavier Madruga acerca de D. Josefina Canto e Castro: Rezar, sofrer, dar bom exemplo: duas mão postas, molhadas de lágrimas, são chaves de ouro capazes de abrir o coração mais endurecido ou a inteligência mais desnorteada.
D. Josefina, decorridos alguns anos, voltou ao Pico e fixou residência em São Roque, terra que primeiro habitou após o casamento. Ali viveu rodeada do maior carinho e amizade durante alguns anos, leccionando música e piano como ocupação dos “tempos livres”. E foram vários os alunos que, depois, seguiram a carreira musical. Sentindo que os anos passavam, voltou para junto dos Filhos e Netos, nos Estados Unidos e fixou-se novamente na Califórnia. Aqui iniciou a sua colaboração em “O Dever” sob a rubrica “Da Minha Janela”, continuando-a nos Estados Unidos até há cerca de dois anos. A sua colaboração era semanária e, quando o original não chegava a tempo, arreliava-se com o atraso.
Foram muitos e diversificados os assuntos e temas tratados em “Da minha Janela”, local de observação atenta dos problemas, os mais diversificados, desta ilha.
Três livros de poemas publicou a distinta e inspirada Poetisa: “Naquele Tempo…Poemas Bíblicos”, 1ª edição em 1941 e 2ª edição em 1985; “Poemas de Ontem”,1989 e “Despedida”, l996.
Sempre interessada pela literatura açoriana, numa das muitas cartas que me escreveu, (12 de Agosto de 1997), diz: Fiquei surpreendida com tantos livros publicados recentemente e a lançar este verão. Os Açores estão, deveras, a lançar a sua literatura. O que falta é mais comunicação e vendas entre as Ilhas. Não será possível melhorar a situação? Quem sabe!
O “Tribuna Portuguesa”, jornal que se publica em Modesto, Califórnia, no dia 1 de Julho corrente, ao celebrar os 100 anos de D. Josefina Canto e Castro escreveu, e aqui transcrevo com a devida vénia: …Emigrou em 1945. Teve uma vida indescritível de empenho, de solidariedade, de bem escrever, de ser mulher com M grande. Lutadora de muitas causas, a sua “Janela” é a pérola mais preciosa deste jornal. Faz l00 anos no dia 19 de Julho e vai estar acompanhada por toda a família no Sul da Califórnia. Happy Birthday.
Com emoção, respeito e amizade, também aqui deixo os meus votos de Parabéns à Veneranda Senhora, seus Exmos. Filhos e Familiares. Feliz Aniversário!
Pico,19 de Julho de 2007
Ermelindo Ávila

sexta-feira, 13 de julho de 2007

AS LUTAS LIBERAIS

Está-se a comemorar a partida dos soldados açorianos, arregimentados por D. Pedro IV, e que foram desembarcar na Praia do Mindelo um facto, que ficou na História e que os açorianos ainda recordam com todos os seus incidentes e aventuras. Celebram-se agora 175 anos e Ponta Delgada, donde partiram os “Bravos do Mindelo”, vai assinalar a efeméride com o descerramento de” um memorial em forma de pirâmide com 1,80 metros de altura, de pedra serrada, onde ficará a proclamação de D. Pedro IV”, como informa a Imprensa micaelense.
Mas não eram somente da ilha de São Miguel os soldados que o Rei-Soldado reuniu para constituir o grupo que viria a desembarcar numa das praias do Porto e, com ele, conquistar o poder ao Rei D. Miguel, seu irmão.
Os povos do Pico e Faial eram fiéis ao rei D. Miguel. Nas Câmaras Municipais havia ele sido aclamado com toda a pompa, em 9 de Setembro de 1828. Sabedor disso, o irmão D. Pedro, como representante da filha, futura Rainha D. Maria, fez desembarcar, em 21 de Abril de 1831, no porto de Santa Cruz das Ribeiras, um batalhão, sob o comando do Conde de Vila Flor. Nesse batalhão vinha incorporado o Batalhão Académico, que foi albergado em S. João, pelo Alferes Vieira de Bem.
Entrando na Vila das Lajes, em Abril de 1831, a divisão liberal comandada pelo Conde de Vila Flor, depois duque da Terceira, foi por este encarregado o capitão Manuel Machado Soares de prover às subsistências da divisão durante a estada das tropas na ilha, missão delicada, porque as populações sentindo na consciência o pecadinho da afeição pelo Senhor D. Miguel , fugiam (para os montes) à aproximação das forças liberais. “
Contava minha bisavó, que ainda conheci muito bem, que, à frente da tropa, ia um arauto avisando as populações para abaterem gado e cozerem pão para alimento dos soldados.
E Lacerda Machado (in “Os Capitães Mores das Lages”) narra o seguinte episódio: “Em 1931 desembarcou em Santa Cruz o Conde de Vila-Flôr, com a divisão liberal, marchando em direcção às Lajes. Ao passar em frente da casa do capitão José Bettencourt da Silveira, este saiu-lhe ao encontro e convidou o Conde e o seu estado-maior a tomar uma refeição.” “…no decurso da refeição, Manuel Homem encheu o copo e perguntou ao dono da casa como se chamava, no intuito de lhe fazer um brinde, ao que o interrogado respondeu naturalmente: José Bettencourt… Manuel Homem pousou bruscamente o copo na mesa, e insistiu, se era com efeito esse o seu nome. O capitão José Bettencourt, é claro, nada compreendia do que se estava passando, mas confirmou… Interveio o Conde, nobremente, dizendo, com firmeza, que mais Marias havia na terra, e que quando mesmo não houvesse, estavam numa casa onde se lhes tinha oferecido expontânea hospitalidade. – Apurado o caso, Manuel Homem julgou ter diante de si outro José Bettencourt, miguelista assanhado que, no Faial, se tornou muito conhecido, sendo por isso notado no livro negro dos liberais e que, ao ter a infausta notícia da aproximação das tropas constituicionais, se safou para o Pico metido numa pipa!”
José Bettencourt Brum da Silveira era filho de D. Izabel Brites Bettencourt Brum e Silveira e do alferes José Francisco Silveira, natural, segundo uns da freguesia Matriz das Lajes, segundo outros, de S. João, porque afinal era natural…do mistério!” (onde havia rebentado o vulcão de 1720).
Quando houve notícia da aproximação das tropas liberais, como acima se refere, não apenas o povo mas sobretudo os rapazes em idade militar refugiaram-se nas “casas de pasto” existentes nas «terras do alto” para não serem incorporados no Batalhão. No entanto, alguns apanhou-os a tropa e lá seguiram. Entre eles foi o “Pereira Soldado”, desta vila, como ficou conhecido – “o qual entretinha a velhice a contar as aventuras ocorridas durante a ausência por terras estranhas…”
Demais não foi pacífica a passagem de D. Pedro pelo arquipélago. Tenha-se presente o Decreto que suprimiu diversos mosteiros, conventos e colegiadas dos …Açores, entre eles “os conventos de religiosos menores de S. Pedro de Alcântara e de Nossa Senhora da Conceição na ilha do Pico”; decreto que foi expedido do Paço em Ponta Delgada, em 17 de Maio de 1832 e que foi assinado por D. Pedro, Duque de Bragança.
E não repito mais do que escrevi anteriormente (Vidé: “Figuras & Factos – Notas Históricas” (1993)”.
Vila das Lajes,
Julho de 2007
Ermelindo Ávila.

sexta-feira, 6 de julho de 2007

AS FESTAS DA SILVEIRA

Estamos com o verão em casa. É a época das festas mais apetecidas.
Outrora, os lajenses tinham como festas principais as chamadas Festas de Verão da Silveira. Era então a Silveira a estância de veraneio. Todos para lá se transferiam, ou para as próprias adegas do “Caminho de Baixo” ou para casas de velhos amigos. Raros eram os que dispensavam uns dias na Silveira, sobretudo para aproveitar melhor a apreciada água da Fonte e gozar a frescura do lugar, com um clima excepcional.
Mas a Silveira tem um encanto especial para os lajenses, que Amâncio Victor (P. Francisco Vieira Soares), um dia, em antigo publicado na antiga revista “Eco Cedrense”, (25 - IV – 1929) que ele próprio havia fundado na freguesia dos Cedros, da Ilha do Faial, onde e encontrava como coadjutor do Pároco, assim exaltou: “Fresca e vistosa, com as suas casitas brancas de neve cercadas de luxuriantes latadas, donde pendem os mais saborosos cachos a vigiar-nos por detrás da verdura das folhas com um risinho malicioso, abraçando-nos em desejos e submetendo a uma duríssima prova o nosso respeito pelo alheio, a Silveira do Pico é, sem dúvida, o melhor lugar da Ilha onde, com sossego, depois de quase um ano de trabalho extenuante, nos podemos entregar nos braços da natureza durante uns dois meses de verão, a renovar forças e a fazer novas provisões de vida e saúde para novos trabalhos”.
E a Silveira, subúrbio da Vila das Lajes, sempre assim foi. Normalmente, ia-se para a Silveira nos primeiros dias de Julho para aproveitar as Festas de Santo Cristo, que tradicionalmente se realizam no primeiro domingo do mês.
A 15 de Agosto celebrava-se, como ainda hoje, a festa da Mãe de Deus, por certo a maior da localidade. A seguir, no dia 24 a do Padroeiro, S. Bartolomeu.
“O Dever” a 13 de Setembro de 1930 , a propósito da Imagem de Nossa Senhora de Fátima, dá seguinte notícia: “No dia 13 de Agosto de 1930, à noite, houve uma importante e encantadora procissão de velas com edificante piedade e pregação ai ar livre (no Largo do Beleza e no balcão de José Naia) em honra de Nossa Senhora de Fátima. A primeira Imagem chegada à Ilha foi entronizada na igreja da Silveira, onde se realizou a festa a que se refere a notícia. Esta passou a realizar-se no mês de Setembro."
Durante alguns anos dei o meu modesto concurso nas Festas da Igreja de S. Bartolomeu da Silveira. Mas nisto tudo há uma história algo rocambolesca.
O Pároco da Silveira era o lajense, Pe. Manuel Vieira Feliciano, que ali exerceu o seu múnus desde o falecimento do Pe. Jerónimo, em 1904, até ao seu falecimento, em 26 de Março de 1962. Embora a Silveira fosse um curato sufragâneo da Matriz das Lajes, o Pe. Feliciano, seu cura, administrava-o como paróquia dado o óptimo relacionamento e amizade que sempre existiram entre ele e o Pároco, P. José Vieira Soares, colegas de curso. A ele se ficou a dever o restauro completo da Igreja de São Bartolomeu, pasto de um pavoroso incêndio sucedido na noite de 23 para 24 de Junho de 1924.
Restaurada a igreja, e adquiridas as respectivas imagens dos santos ali venerados, foram recomeçadas as festas e organizada a respectiva capela sob a regência de Francisco Vieira Beleza, uma notável voz de baritono e que havia sido companheiro do Pe. José d’Ávila nas aulas do grande mestre Pe. João Pereira da Terra.
O Pe. Feliciano tinha por hábito servir o jantar (hoje seria almoço…) aos colegas sacerdotes e aos músicos da Capela que tomavam parte nas festividades. Estava-se nos primeiros anos da Ditadura Militar. A acção dos partidos políticos ainda não havia terminado. Durante o repasto de uma das festas, discutiram-se assuntos políticos e sobretudo a acção do Governador que, como então acontecia, se “encostara” a um dos partidos. No dia imediato o Governo Civil estava informado do que se passara em casa do P. Feliciano e, imediatamente, os sacerdotes foram chamados à Policia da Horta para declarações. Nada resultou. No entanto Pe. Feliciano, não tolerando o desrespeito da sua casa, acabou com a capela e o Beleza e seus companheiros deixaram de colaborar nas festividades de S. Bartolomeu.
Novo como era e alheio a toda a politiquice da época, passei a colaborar nas festas da Silveira com músicos de S. João, David Ferreira, João Barroso, Tomás Ganhado, sob a regência de Gil Xavier Bettencourt. Chegamos os dois a ir na moto de João de Brum Bettencourt, uma possante moto que trouxe dos E.U. e que nos levava e trazia (os três) .
Com a chegada à freguesia do Prof. Manuel José dos Santos, excelente músico, organizou ele uma capela na Silveira e assumiu a sua regência. Era organista D. Angélica Vieira. O orgão, que o segundo incêndio veio a destruir, fora construído pelo organeiro Manuel Serpa da Silva, em 1890 para a igreja dos Biscoitos, São Jorge, e fora vendido para a igreja da Silveira porque a Igreja dos Biscoitos era muito húmida e estava a estragá-lo.(P. M. Azevedo Cunha, in “Notas Históricas” - 1924).
E já agora uma nota: No frontispício da Igreja de São Bartolomeu existe uma placa onde se lê:. “Construída com esmolas do povo. Começada em 1879 . Concluída em 1888”.
Eram concorridos e alegres os arrais das festas da Silveira. Lá se encontravam as primeiras frutas da época, escolhidas e de óptimo aromo e paladar, algumas de espécies raras.
Vila das Lajes,
1 de Julho de 2007
Ermelindo Ávila

quinta-feira, 28 de junho de 2007

A VILA E O MAR

Nasceu sobre o mar e sobre o mar se tem desenvolvido. Hoje chamam-lhe “Vila Baleeira” pela actividade que desenvolveu mais de um século.
Não é propriamente uma vila piscatória, se bem que muitos sejam aqueles que ainda hoje se dedicam à chamada pesca artesanal.
Vive voltada para o mar. Contempla orgulhosa a grande baia que a cerca e a montanha grandiosa que lhe fica em fundo. Faltam-lhe porém os passeios marítimos.
Está anunciado um arruamento que ligará a zona da antiga Pesqueira ao Castelo e Fábrica da “Sibil”. E bem necessária que ela é para fazer uma ligação rápida e normal àqueles dois polos turísticos da Vila, uma vez que os actuais acessos distanciam os referidos locais. Mas há que acautelar a “Mouraria”, um local histórico onde as lavadeiras lajenses iam, na maré vazia, lavar as roupas, e os gados iam dessedentar -se, pois a água que saia das muralhas vinha dessalgada.
A zona do Museu dos Baleeiros carece de um tratamento adequado com a frequência diária que tem a mais notável instituição cultural da vila. Julgamos que as obras de ampliação do Museu darão àquele espaço um aspecto condizente com a função sócio-cultural que desempenha nas Lajes.
Segundo as informações que temos, o molhe de defesa da parte norte da vila das Lajes deve estar concluído dentro de alguns meses (nem chegará a ano). Há que continuar os trabalhos, construindo um segundo molhe ao sul daquele, afim de proteger capazmente a zona da Vila que fica por detrás do Calhau Grosso. Não vai ser esquecida a consolidação e arranjo do actual acesso de trabalho, ao molhe exterior?!... Depois, impõe-se o ordenamento conveniente do Juncal, (antigos quintais das moradias leste da Rua Direita), hoje classificado como zona protegida, pela espécie de junco que lá existe, das únicas no Universo. No entanto, uma zona protegida sem protecção, sem tratamento da espécie juncácea (?) que por lá se desenvolveu, sem acessos (carreiros ou atalhos) para que possa ser observada, sem permitir que os pescadores - amadores possam atingir a costa, outrora tão fértil em peixe e crustáceos, - não é compreensível.
Antes da classificação o junco era normalmente ceifado para uso nas pocilgas dos suínos. Não ficava prejudicado porque rebentava com novas forças e estava sempre verdejante. Presentemente, está envelhecido e “caído”, apodrecendo aqui e ali. A poda não o prejudicava como não prejudica as árvores de fruto, as roseiras, ou as árvores de sombra, quando feitas racionalmrnte…
Trata-se de um espaço pertencente aos Serviços Regionais competentes. A esses serviços compete não só fiscalizar como, sobretudo, cuidar da zona protegida.
Em terminando os trabalhos do molhe de protecção, impõe-se que o espaço do antigo campo de jogos, agora ocupado pelo estaleiro das obras em curso, tenha um tratamento capaz de o embelezar e tornar útil como zona de lazer, que bem falta.
A Vila das Lajes está num período de transformação. O turismo já por aí aparece com notória frequência. Vão surgindo estabelecimentos hoteleiros, embora excelentes, mas de terceira ordem. Ainda há dias foi aberta a nova Residencial Bela Vista, de Camilo Costa. Está equipada com os indispensáveis requisitos modernos de molde a satisfazer totalmente os utentes. Mas não basta. É indispensável que apareçam outros investidores que, dentro da Vila, instalem uma unidade hoteleira – hotel de duas ou três estrelas – para que o visitante estrangeiro não se limite a visitar rapidamente a vila e os seus núcleos de interesse, e abale a pernoitar noutros sítios…porque têm hotel. E a classificação “hotel” é muito importante para o visitante estrangeiro, se bem que, pela Europa ,v.g., haja estabelecimentos classificados de hotel, muito inferiores às nossas residenciais. Não colhi quaisquer informações …
Julga-se que o Município tem algo a dizer neste sector. Porque não põe à disposição de investidores interessados o espaço que tem reservado para um teatro – estabelecimento que, pela arquitectura que oferece, só prejudicará o aspecto urbanístico do centro histórico da vila, o qual pode muito bem ser desviado para outra zona, além de só interessar os residentes – estimulando a implantação, no local, de uma unidade hoteleira, como vem acontecendo em outras vilas da Região ?!
A promoção artística, cultural e económica de qualquer meio não depende somente dos seus habitantes mas igualmente dos respectivos municípios, que existem – não como poder local – mas como entidades promotoras do progresso das respectivas circunscrições e do bem-estar social dos seus munícipes.
Vila Baleeira,
19-Jun-2007
Ermelindo Ávila

segunda-feira, 25 de junho de 2007

CONTRABANDO

Em tempos passados era “normal” o comércio de contrabando do tabaco desembarcado das baleeiras americanas. Vários eram os negociantes contrabandistas por esse Pico fora e não só. Em todas as Ilhas se fazia contrabando de tabaco e de roupas de “angrin”. No excelente estudo que publicou no Boletim do Núcleo Cultural da Horta (Vol. XI 1993-95, pág.135), sobre o “Faial 1808-1810 – Um tempo Memorável”, o Dr. Ricardo Manuel Madruga da Costa, transcreve uma carta do Comandante da “Iris”, na qual “é possível aperceber ainda com maior precisão os contornos da rede de contrabando e a natureza diversificada das mercadorias transaccionadas, completada por um informação que lhe fora prestada pela firma Tho’s Reay & Cº sediada no Fayal: “(...) Tenho pois a honra de remetter a Vossa Excelencia a / inclusa Copia da dita Carta (que o Capitão-General havia pedido por ter conhecimento verbal da sua existência) datada de 29 do passado e igualmente de participar a Vossa Excelência que entre os dias 22 e 26 do passado, se avistarão desta Fragata dois Navios Americanos, na Costa Meridional da Ilha do Pico, comunicando-se com a Terra, e que depois foi publicado, e notorio no Fayal, que aquelles navios tinhão feito contrabando de Tabaco. Sendo o Consul Americano por mim perguntado (sic) a este respeito, avançou o contrario, porem suspeita-se com bons fundamentos, que elle mesmo teve comunicação clandestina com os ditos Navios (...)”.
Há dias passei na rua marginal da Vila, onde está o antigo “poço da Rochinha”. Entristeceu-me algo, que aquele poço esteja praticamente inutilizado, pois dele extraiu a população da zona, durante séculos, a água algo salobra mas indispensável aos seus usos domésticos. E não só...
Recordei uma “história” de contrabando que, na minha juventude, contava a centenária Luiza de José António, moradora nas imediações. Ela própria negociava com tabaco americano, para suprir os gastos domésticos “uma vez que o marido era quase inválido”. Certo dia – e aqui vai a história- teve conhecimento que a guarda da Alfândega lhe ia dar busca à moradia. Ainda de madrugada, tomou o pote de água e colocou no fundo algum tabaco que foi despejar no poço da Rochinha. No regresso trouxe água que vazou num buraco da cozinha térrea. E tantas vezes fez o percurso quantas as necessárias para se desfazer do contrabando que, se fosse encontrado, a sujeitaria a pesadas penas. Da última vez que transportou a água, vira-se para os guardas, que estavam à entrada da rua e que só podiam iniciar a busca depois do Sol nascer, e diz-lhes: “Parece impossível uma mulher não poder governar-se na sua casa!” Os guardas que ignoravam o “trabalho” de Luiza de José António, responderam-lhe: “Esteja à vontade!” Quando apareceu o Sol por detrás da lomba, os guardas invadiram a casa mas nada encontraram. E ela contava o acontecido com entusiasmo, pois era uma das várias façanhas da sua vida.
Um outro caso de contrabando deu-se na freguesia da Piedade. Não daqueles de que nos fala Manuel d’Ávila Coelho no seu interessante trabalho “A Freguesia de Nossa Senhora da Piedade na Ilha do Pico” (Boletim do N.C. da Horta, Vol.2, Nº3-1961, pág.291) mas de um outro acontecido no lugar da Engrade onde passavam o verão algumas famílias lajenses.
Era habitual alguns lajenses irem passar o verão nas adegas que possuíam na Engrade, freguesia da Piedade. Quando aí estavam tiveram conhecimento de a guarda da Alfândega, aquartelada na Calheta de Nesquim, caminhara para aquele lugar, pois houvera uma denúncia de que naquele sítio se fazia contrabando de tabaco. O “negociante” não se amedrontou, como aconteceu com Luiza de José António. Mandou preparar uma refeição com linguiça e torresmos, e o bom vinho Verdelho. Juntou o tabaco na celha do lagar, instalou esta no pátio, com o portão aberto para o caminho. Em cima da celha colocou uma porta a servir de mesa. Cobriu-a com uma toalha e sobre ela a “merenda”.
Mandou vigiar os guardas e quantos estes se aproximavam sentaram-se à improvisada mesa e iniciaram a refeição no meio de grande alarido. Quando os guardas passavam, convidou-os a entrar e a comer. Eles aceitaram e se bem comeram melhor beberam. No final do repasto perguntou-lhes o contrabandista:” Para onde ides?” Resposta: “Íamos fazer um serviço mas agora vamos é para casa.” E assim fizeram. Tinham comido sobre o contrabando...
Não menos interessantes são as narrativas que Ávila Coelho faz no seu trabalho acima citado. Não as vou repetir.
Mas, afinal, que vai acontecer ao Poço da Rochinha ? Vão restaura-lo? É o “ex libris” da zona ribeirinha da Vila.
Lajes do Pico
24 de Junho de 2003 Ermelindo Ávila
in Figuras & Factos II Vol., 2005