sábado, 28 de julho de 2007

Os Botos

Hoje chamam-lhe golfinhos. Botos ou golfinhos ou moleiros, são uma e a mesma espécie de mamíferos que os Lajenses, em tempos passados, aproveitavam para diversos usos. Todavia, não deixam de ser animais interessantes que não atacam o homem e que, em certas e determinadas épocas, cabriolam pelos mares, causando gosto aos observadores.
Não é agora que foi descoberta a observação dos botos. Eles sempre andaram pelos mares das ilhas e, quando foi necessário utilizar o óleo e a carne, constituíram uma excelente ajuda às paupérrimas economias domésticos dos povos insulares.
Aqui há setenta/oitenta anos era agradável viajar nos barcos da Insulana, o “Lima” e o “São Miguel” substituído depois pelo “Carvalho Araújo” e, encostados às amuradas dos navios, ver os botos em correrias a acompanhar os barcos à ilharga, dando cambalhotas e elevando-se por vezes fora das águas. No meio do Oceano, navegando do Pico para São Jorge ou desta ilha para a Terceira, rara era a viagem, e várias fizemos, em que não tivéssemos por agradável companhia os simpáticos animais.
Mas, como todo o ser criado tem seu destino traçado, os botos eram caçados, principalmente no porto desta Vila, para utilização das populações, tal como os outros peixes e animais marinhos e, mais tarde, o cachalote.
Ao criar o mundo “Deus criou os grandes peixes e todos os animais que têm vida e movimentos, os quais foram produzidos pelas águas segundo a sua espécie… E Deus viu que tudo era bom. E os abençoou dizendo: crescei e multiplicai-vos, e enchei as águas do mar…E depois disse: «Façamos o homem à sua imagem e semelhança, e presidia aos peixes do mar, às aves do céu e aos animais selvagens e a toda a terra…»
Utilizando os animais, as aves e os peixes, o homem está a servir-se de um mandato do Criador, que tudo pôs à sua disposição.
Recusar ao homem o direito de fruição dos animais, das aves, dos peixes, das árvores e dos bens da terra é cercear-lhe um direito que lhe foi outorgado pelo Criador, Senhor de todas as coisas criadas. Mas sobre isso não faço comentários.
Valendo-me do Comendador Ernesto Rebelo, falecido em 1902, escritor faialense, em «Notas Açorianas», publicadas no «Arquivo dos Açores», a partir do volume sétimo respigamos:
«Depois de nove horas de jornada, de haver atravessado a serra, subido e descido muita ladeira e cruzado os grandes descampados de pedra roliça e requeimada, entremeada aqui e além por moitas de rasteiras faias, descampados a que se dá o nome de Mistérios por serem estes os sítios por onde passaram as ribeiras de refervente lava das antigas erupções vulcânicas do Pico, chegámos finalmente, ao cair da noite, à Vila das Lajes»…
«Encaminhámo-nos para o velho e estragado Convento de São Francisco, que domina a Vila no qual um amigo obsequioso nos havia permitido permanecer num desguarnecido quarto.» E aqui deixo para trás as peripécias porque passou durante a noite com as chuvas que pingavam do soalho e com o barulho das cagarras que lhe pareciam gritos de vozes humanas.
O rapaz que o acompanhava de manhã, chamou-o para um grande divertimento que iam ter: «Um cardume de botos que foi avistado ao romper da manhã, já saíram algumas lanchas a ver se conseguem metê-los na Lagoa e a povoação toda está de espreita na costa, há-de ter que ver». Ernesto Rebelo descreve a seguir minuciosamente o rodear dos botos para o interior da Lagoa e, depois, a caçada.
«No fim de duas horas de trabalho, estavam estendidos na costa sessenta e nove valentes botos e começou a mais simples faina de os retalhar, para ali mesmo serem derretidos em enormes caldeiras.
«A pesca tinha sido excelente e os lucros importantes, pois quanto azeite houvesse obtinha certo e bom preço, para exportação.
«As tripulações das lanchas em um dia de trabalho, haviam ganho mais do que num ano de pescaria miúda…»
A caça ao boto era um dos principais rendimentos da classe marítima. O azeite não só era exportado, como ainda utilizado nas candeias que alumiavam os serões das famílias e a própria carne era salgada e utilizada na alimentação de suínos e como isco para a pesca. Nada era desaproveitado.
Hoje…fico por aqui.

Vila das Lajes,20 de Julho de 2007
Ermelindo Ávila

domingo, 22 de julho de 2007

A Ilha do Pico não terá direito a um campo de golfe?

Há anos, “nem eu sei há quantos”, houve uma sociedade legalmente constituída que projectou a construção de um campo de golfe na zona do Mistério da Silveira. Para tal, julgo que a Câmara Municipal, pois é a legítima proprietária do terreno, embora esteja afecto as Serviços Florestais, cedeu a essa Empresa o espaço necessário para a implantação de um complexo turístico destinado à prática do Golfe, um desporto em crescente desenvolvimento mundial.
As obras do novo empreendimento começaram naquela época – são decorridos vários anos. De alguns “quintais” da vila das Lajes foram levantados muitos metros cúbicos (centenas, milhares?) de terra para o novo campo mas, a dado momento, as obras foram suspensas. Razão? Desconheço. 0 certo é que motivos devem ter existido e, como se trata de uma empresa particular, só ela tem o direito de suspender ou prosseguir com os trabalhos. Da nossa parte só lamentamos a decisão.
Mas, julgo que embora decorridos tantos anos, há uma solução: O terreno deve ter sido cedido a título precário e, não tendo sido utilizado no fim para que foi cedido, impõe-se que volte à posse do Município.
Na Carta Turística dos Açores, (não importa que não seja este o nome técnico), distribuem-se por algumas ilhas campos de golfe. Mesmo para a Ilha do Faial onde, inicialmente, não estava prevista a construção desse complexo. Mas os faialenses tanto reclamaram, que conseguiram. A Ilha do Pico, onde já estava iniciado um campo, ficou excluída desse programa, por lapso ou propositadamente?!…
Verdade que, por razões incompreensíveis, não pertence ao grupo das ilhas da coesão. Daí, talvez, o esquecimento a que vem sendo acintosamente votada.
No entanto, porque não tem direito a ilha do Pico a um campo de golfe, se à ilha estão a chegar muitos turistas de diversas nacionalidades, fora de grupos excursionistas, que aqui se demoram, não só um dia nem dois mas muitos mais, a gozar o clima, os acidentes geográficos, os poentes multicolores, a paisagem extasiante que a própria montanha oferece ?!…
Acaba de ser fundada uma Empresa Municipal, a CULTURPICO, destinada à aquisição de equipamentos turísticos, desportivos, recreativos, culturais, ambientais e habitacionais. E a Presidente da Câmara, no “Boletim Municipal” do mês de Fevereiro deste ano, donde extraio a notícia, afirma: “O concelho das Lajes do Pico precisa, merece e há-de ter tudo o que for melhor. Não nos comparamos com o que há de pior, mas sim com o que o mundo tem de melhor para oferecer. Ser medíocre é pensar que só os outros é que merecem do melhor que há na vida.”
Subscrevo com prazer a afirmação conceituosa da Presidente da Edilidade Lajense. Mas é preciso que ela se concretize nos mais simples pormenores. E é por isso que venho chamar a atenção para a conclusão (não conheço qual o andamento das obras) de tão importante empreendimento indispensável ao progresso do concelho.
Como igualmente desconheço qual a situação jurídica deste assunto mas, se não estou em erro, creio que o Município tem competência legal para tomar posse administrativa da obra e promover o prosseguimento dos trabalhos até à sua conclusão, quer por administração directa da Empresa Culturpico, quer chamando interessados que àquela entidade se associem, não apenas para a execução dos trabalhos mas sobretudo para a futura exploração do empreendimento.
ノ uma oportunidade que urge desenvolver para que não surjam inesperados oportunistas estranhos à ilha a aproveitar-se da situação.
A Empresa recém–criada pela Câmara Municipal tem um caminho longo a percorrer para o desenvolvimento do concelho. Todavia, e segundo os economistas, o Turismo deve estar no primeiro plano das preocupações municipais pois é um sector do qual depende (em grande medida!) o progresso e, consequentemente, o futuro do próprio concelho e da ilha não pode ser relegado a segundo plano das preocupações ou projectos da Autarquia. Em todas as terras está este sector a desenvolver-se assombrosamente e nem todas elas dispõem do potencial que se encontra na Ilha do Pico.
Sabemos que o Turismo se dispersa por diversas vertentes – os caminhos pedrestes para as zonas altas, os miradouros, os lugares de lazer, a restauração e hotelaria, etc.
Mas um campo de golfe, modalidade desportiva de tanto interesse mundial, está entre o “equipamento” turístico mais apreciado pelos endinheirados e não só. ノ preciso aproveitar com urgência a oportunidade e os bens com que a Natureza nos dotou.
Vila Baleeira, 10 de Julho de 2007
Ermelindo Avila

quinta-feira, 19 de julho de 2007

D. JOSEFINA CANTO E CASTRO celebra centénário

Há cinco anos tive o prazer de assinalar, num modesto escrito, os 95 anos da distinta Senhora. Agora, com redobrado júbilo, venho, na modéstia do meu dizer, congratular-me com os CEM ANOS, que hoje celebra a distinta Poetisa, jornalista, musicóloga e professora, rodeada da ilustre Família, no Sul da Califórnia, Estados Unidos da América do Norte, onde passou a residir.
D. Josefina Amarante Freitas do Canto e Castro nasceu no dia 19 de Julho de 1907 em Providence, Rhode Island, E.U.A.. Com um ano de idade veio com os pais para S. Jorge, passando ainda menina, a residir na cidade de Angra e ali, conheceu o marido, também ele poeta e jornalista, Francisco do Canto e Castro, fixando a seguir residência no lugar do Cais do Pico, concelho de São Roque, em cujo concelho ele era ao tempo, funcionário de Finanças. Dali o casal transferiu-se para a Horta, onde residiu até emigrar para os Estados Unidos.
Na Horta, D. Josefina foi professora de piano e francês e colaborou na “Horta Desportiva”, depois de adquirida pelo marido, até regressar aos E.U.A.. É aí que a vai encontrar o Pe. Xavier Madruga, fundador e director deste semanário, aquando da sua visita à América. E, numa das suas excelentes “Cartas da América”, (cuja publicação em livro foi autorizada ao Núcleo Cultural da Horta, mas que este instituto nunca realizou), o Pe. Xavier Madruga presta homenagem à ilustre Senhora, pondo em relevo o trabalho exaustivo que estava a realizar: Poetisa e escritora, nunca escreve nem fala que não seja para cantar as Figuras máximas da nossa incomparável História, as suas grandes Datas Nacionais, a musicalidade harmoniosa da Língua Portuguesa e o dever que todos têm de a tornar conhecida e amada dos estrangeiros.
E, depois, afirma: “Pela rádio e na imprensa, nas Sociedades e Clubes da Califórnia, nos Colégios e Liceus onde se tem encontrado a ensinar, é contínuo e perseverante o seu esforço e a sua acção, porfiada, constante, obstinada pela nossa Pátria, de quem se constituiu, voluntariamente, animadora e advogada, sem credenciais, nesta grande nação.”(…)“Actualmente professora na Douglas School de Pebble Beach, próximo de Monterey ali ensina espanhol e francês, como poderia ensinar português e inglês”.
E, quase a terminar a sua “Carta da América”, publicada neste jornal no dia 15 de Março de 1947, precisamente há sessenta anos, escreve ainda o Pe. Xavier Madruga acerca de D. Josefina Canto e Castro: Rezar, sofrer, dar bom exemplo: duas mão postas, molhadas de lágrimas, são chaves de ouro capazes de abrir o coração mais endurecido ou a inteligência mais desnorteada.
D. Josefina, decorridos alguns anos, voltou ao Pico e fixou residência em São Roque, terra que primeiro habitou após o casamento. Ali viveu rodeada do maior carinho e amizade durante alguns anos, leccionando música e piano como ocupação dos “tempos livres”. E foram vários os alunos que, depois, seguiram a carreira musical. Sentindo que os anos passavam, voltou para junto dos Filhos e Netos, nos Estados Unidos e fixou-se novamente na Califórnia. Aqui iniciou a sua colaboração em “O Dever” sob a rubrica “Da Minha Janela”, continuando-a nos Estados Unidos até há cerca de dois anos. A sua colaboração era semanária e, quando o original não chegava a tempo, arreliava-se com o atraso.
Foram muitos e diversificados os assuntos e temas tratados em “Da minha Janela”, local de observação atenta dos problemas, os mais diversificados, desta ilha.
Três livros de poemas publicou a distinta e inspirada Poetisa: “Naquele Tempo…Poemas Bíblicos”, 1ª edição em 1941 e 2ª edição em 1985; “Poemas de Ontem”,1989 e “Despedida”, l996.
Sempre interessada pela literatura açoriana, numa das muitas cartas que me escreveu, (12 de Agosto de 1997), diz: Fiquei surpreendida com tantos livros publicados recentemente e a lançar este verão. Os Açores estão, deveras, a lançar a sua literatura. O que falta é mais comunicação e vendas entre as Ilhas. Não será possível melhorar a situação? Quem sabe!
O “Tribuna Portuguesa”, jornal que se publica em Modesto, Califórnia, no dia 1 de Julho corrente, ao celebrar os 100 anos de D. Josefina Canto e Castro escreveu, e aqui transcrevo com a devida vénia: …Emigrou em 1945. Teve uma vida indescritível de empenho, de solidariedade, de bem escrever, de ser mulher com M grande. Lutadora de muitas causas, a sua “Janela” é a pérola mais preciosa deste jornal. Faz l00 anos no dia 19 de Julho e vai estar acompanhada por toda a família no Sul da Califórnia. Happy Birthday.
Com emoção, respeito e amizade, também aqui deixo os meus votos de Parabéns à Veneranda Senhora, seus Exmos. Filhos e Familiares. Feliz Aniversário!
Pico,19 de Julho de 2007
Ermelindo Ávila

sexta-feira, 13 de julho de 2007

AS LUTAS LIBERAIS

Está-se a comemorar a partida dos soldados açorianos, arregimentados por D. Pedro IV, e que foram desembarcar na Praia do Mindelo um facto, que ficou na História e que os açorianos ainda recordam com todos os seus incidentes e aventuras. Celebram-se agora 175 anos e Ponta Delgada, donde partiram os “Bravos do Mindelo”, vai assinalar a efeméride com o descerramento de” um memorial em forma de pirâmide com 1,80 metros de altura, de pedra serrada, onde ficará a proclamação de D. Pedro IV”, como informa a Imprensa micaelense.
Mas não eram somente da ilha de São Miguel os soldados que o Rei-Soldado reuniu para constituir o grupo que viria a desembarcar numa das praias do Porto e, com ele, conquistar o poder ao Rei D. Miguel, seu irmão.
Os povos do Pico e Faial eram fiéis ao rei D. Miguel. Nas Câmaras Municipais havia ele sido aclamado com toda a pompa, em 9 de Setembro de 1828. Sabedor disso, o irmão D. Pedro, como representante da filha, futura Rainha D. Maria, fez desembarcar, em 21 de Abril de 1831, no porto de Santa Cruz das Ribeiras, um batalhão, sob o comando do Conde de Vila Flor. Nesse batalhão vinha incorporado o Batalhão Académico, que foi albergado em S. João, pelo Alferes Vieira de Bem.
Entrando na Vila das Lajes, em Abril de 1831, a divisão liberal comandada pelo Conde de Vila Flor, depois duque da Terceira, foi por este encarregado o capitão Manuel Machado Soares de prover às subsistências da divisão durante a estada das tropas na ilha, missão delicada, porque as populações sentindo na consciência o pecadinho da afeição pelo Senhor D. Miguel , fugiam (para os montes) à aproximação das forças liberais. “
Contava minha bisavó, que ainda conheci muito bem, que, à frente da tropa, ia um arauto avisando as populações para abaterem gado e cozerem pão para alimento dos soldados.
E Lacerda Machado (in “Os Capitães Mores das Lages”) narra o seguinte episódio: “Em 1931 desembarcou em Santa Cruz o Conde de Vila-Flôr, com a divisão liberal, marchando em direcção às Lajes. Ao passar em frente da casa do capitão José Bettencourt da Silveira, este saiu-lhe ao encontro e convidou o Conde e o seu estado-maior a tomar uma refeição.” “…no decurso da refeição, Manuel Homem encheu o copo e perguntou ao dono da casa como se chamava, no intuito de lhe fazer um brinde, ao que o interrogado respondeu naturalmente: José Bettencourt… Manuel Homem pousou bruscamente o copo na mesa, e insistiu, se era com efeito esse o seu nome. O capitão José Bettencourt, é claro, nada compreendia do que se estava passando, mas confirmou… Interveio o Conde, nobremente, dizendo, com firmeza, que mais Marias havia na terra, e que quando mesmo não houvesse, estavam numa casa onde se lhes tinha oferecido expontânea hospitalidade. – Apurado o caso, Manuel Homem julgou ter diante de si outro José Bettencourt, miguelista assanhado que, no Faial, se tornou muito conhecido, sendo por isso notado no livro negro dos liberais e que, ao ter a infausta notícia da aproximação das tropas constituicionais, se safou para o Pico metido numa pipa!”
José Bettencourt Brum da Silveira era filho de D. Izabel Brites Bettencourt Brum e Silveira e do alferes José Francisco Silveira, natural, segundo uns da freguesia Matriz das Lajes, segundo outros, de S. João, porque afinal era natural…do mistério!” (onde havia rebentado o vulcão de 1720).
Quando houve notícia da aproximação das tropas liberais, como acima se refere, não apenas o povo mas sobretudo os rapazes em idade militar refugiaram-se nas “casas de pasto” existentes nas «terras do alto” para não serem incorporados no Batalhão. No entanto, alguns apanhou-os a tropa e lá seguiram. Entre eles foi o “Pereira Soldado”, desta vila, como ficou conhecido – “o qual entretinha a velhice a contar as aventuras ocorridas durante a ausência por terras estranhas…”
Demais não foi pacífica a passagem de D. Pedro pelo arquipélago. Tenha-se presente o Decreto que suprimiu diversos mosteiros, conventos e colegiadas dos …Açores, entre eles “os conventos de religiosos menores de S. Pedro de Alcântara e de Nossa Senhora da Conceição na ilha do Pico”; decreto que foi expedido do Paço em Ponta Delgada, em 17 de Maio de 1832 e que foi assinado por D. Pedro, Duque de Bragança.
E não repito mais do que escrevi anteriormente (Vidé: “Figuras & Factos – Notas Históricas” (1993)”.
Vila das Lajes,
Julho de 2007
Ermelindo Ávila.

sexta-feira, 6 de julho de 2007

AS FESTAS DA SILVEIRA

Estamos com o verão em casa. É a época das festas mais apetecidas.
Outrora, os lajenses tinham como festas principais as chamadas Festas de Verão da Silveira. Era então a Silveira a estância de veraneio. Todos para lá se transferiam, ou para as próprias adegas do “Caminho de Baixo” ou para casas de velhos amigos. Raros eram os que dispensavam uns dias na Silveira, sobretudo para aproveitar melhor a apreciada água da Fonte e gozar a frescura do lugar, com um clima excepcional.
Mas a Silveira tem um encanto especial para os lajenses, que Amâncio Victor (P. Francisco Vieira Soares), um dia, em antigo publicado na antiga revista “Eco Cedrense”, (25 - IV – 1929) que ele próprio havia fundado na freguesia dos Cedros, da Ilha do Faial, onde e encontrava como coadjutor do Pároco, assim exaltou: “Fresca e vistosa, com as suas casitas brancas de neve cercadas de luxuriantes latadas, donde pendem os mais saborosos cachos a vigiar-nos por detrás da verdura das folhas com um risinho malicioso, abraçando-nos em desejos e submetendo a uma duríssima prova o nosso respeito pelo alheio, a Silveira do Pico é, sem dúvida, o melhor lugar da Ilha onde, com sossego, depois de quase um ano de trabalho extenuante, nos podemos entregar nos braços da natureza durante uns dois meses de verão, a renovar forças e a fazer novas provisões de vida e saúde para novos trabalhos”.
E a Silveira, subúrbio da Vila das Lajes, sempre assim foi. Normalmente, ia-se para a Silveira nos primeiros dias de Julho para aproveitar as Festas de Santo Cristo, que tradicionalmente se realizam no primeiro domingo do mês.
A 15 de Agosto celebrava-se, como ainda hoje, a festa da Mãe de Deus, por certo a maior da localidade. A seguir, no dia 24 a do Padroeiro, S. Bartolomeu.
“O Dever” a 13 de Setembro de 1930 , a propósito da Imagem de Nossa Senhora de Fátima, dá seguinte notícia: “No dia 13 de Agosto de 1930, à noite, houve uma importante e encantadora procissão de velas com edificante piedade e pregação ai ar livre (no Largo do Beleza e no balcão de José Naia) em honra de Nossa Senhora de Fátima. A primeira Imagem chegada à Ilha foi entronizada na igreja da Silveira, onde se realizou a festa a que se refere a notícia. Esta passou a realizar-se no mês de Setembro."
Durante alguns anos dei o meu modesto concurso nas Festas da Igreja de S. Bartolomeu da Silveira. Mas nisto tudo há uma história algo rocambolesca.
O Pároco da Silveira era o lajense, Pe. Manuel Vieira Feliciano, que ali exerceu o seu múnus desde o falecimento do Pe. Jerónimo, em 1904, até ao seu falecimento, em 26 de Março de 1962. Embora a Silveira fosse um curato sufragâneo da Matriz das Lajes, o Pe. Feliciano, seu cura, administrava-o como paróquia dado o óptimo relacionamento e amizade que sempre existiram entre ele e o Pároco, P. José Vieira Soares, colegas de curso. A ele se ficou a dever o restauro completo da Igreja de São Bartolomeu, pasto de um pavoroso incêndio sucedido na noite de 23 para 24 de Junho de 1924.
Restaurada a igreja, e adquiridas as respectivas imagens dos santos ali venerados, foram recomeçadas as festas e organizada a respectiva capela sob a regência de Francisco Vieira Beleza, uma notável voz de baritono e que havia sido companheiro do Pe. José d’Ávila nas aulas do grande mestre Pe. João Pereira da Terra.
O Pe. Feliciano tinha por hábito servir o jantar (hoje seria almoço…) aos colegas sacerdotes e aos músicos da Capela que tomavam parte nas festividades. Estava-se nos primeiros anos da Ditadura Militar. A acção dos partidos políticos ainda não havia terminado. Durante o repasto de uma das festas, discutiram-se assuntos políticos e sobretudo a acção do Governador que, como então acontecia, se “encostara” a um dos partidos. No dia imediato o Governo Civil estava informado do que se passara em casa do P. Feliciano e, imediatamente, os sacerdotes foram chamados à Policia da Horta para declarações. Nada resultou. No entanto Pe. Feliciano, não tolerando o desrespeito da sua casa, acabou com a capela e o Beleza e seus companheiros deixaram de colaborar nas festividades de S. Bartolomeu.
Novo como era e alheio a toda a politiquice da época, passei a colaborar nas festas da Silveira com músicos de S. João, David Ferreira, João Barroso, Tomás Ganhado, sob a regência de Gil Xavier Bettencourt. Chegamos os dois a ir na moto de João de Brum Bettencourt, uma possante moto que trouxe dos E.U. e que nos levava e trazia (os três) .
Com a chegada à freguesia do Prof. Manuel José dos Santos, excelente músico, organizou ele uma capela na Silveira e assumiu a sua regência. Era organista D. Angélica Vieira. O orgão, que o segundo incêndio veio a destruir, fora construído pelo organeiro Manuel Serpa da Silva, em 1890 para a igreja dos Biscoitos, São Jorge, e fora vendido para a igreja da Silveira porque a Igreja dos Biscoitos era muito húmida e estava a estragá-lo.(P. M. Azevedo Cunha, in “Notas Históricas” - 1924).
E já agora uma nota: No frontispício da Igreja de São Bartolomeu existe uma placa onde se lê:. “Construída com esmolas do povo. Começada em 1879 . Concluída em 1888”.
Eram concorridos e alegres os arrais das festas da Silveira. Lá se encontravam as primeiras frutas da época, escolhidas e de óptimo aromo e paladar, algumas de espécies raras.
Vila das Lajes,
1 de Julho de 2007
Ermelindo Ávila

quinta-feira, 28 de junho de 2007

A VILA E O MAR

Nasceu sobre o mar e sobre o mar se tem desenvolvido. Hoje chamam-lhe “Vila Baleeira” pela actividade que desenvolveu mais de um século.
Não é propriamente uma vila piscatória, se bem que muitos sejam aqueles que ainda hoje se dedicam à chamada pesca artesanal.
Vive voltada para o mar. Contempla orgulhosa a grande baia que a cerca e a montanha grandiosa que lhe fica em fundo. Faltam-lhe porém os passeios marítimos.
Está anunciado um arruamento que ligará a zona da antiga Pesqueira ao Castelo e Fábrica da “Sibil”. E bem necessária que ela é para fazer uma ligação rápida e normal àqueles dois polos turísticos da Vila, uma vez que os actuais acessos distanciam os referidos locais. Mas há que acautelar a “Mouraria”, um local histórico onde as lavadeiras lajenses iam, na maré vazia, lavar as roupas, e os gados iam dessedentar -se, pois a água que saia das muralhas vinha dessalgada.
A zona do Museu dos Baleeiros carece de um tratamento adequado com a frequência diária que tem a mais notável instituição cultural da vila. Julgamos que as obras de ampliação do Museu darão àquele espaço um aspecto condizente com a função sócio-cultural que desempenha nas Lajes.
Segundo as informações que temos, o molhe de defesa da parte norte da vila das Lajes deve estar concluído dentro de alguns meses (nem chegará a ano). Há que continuar os trabalhos, construindo um segundo molhe ao sul daquele, afim de proteger capazmente a zona da Vila que fica por detrás do Calhau Grosso. Não vai ser esquecida a consolidação e arranjo do actual acesso de trabalho, ao molhe exterior?!... Depois, impõe-se o ordenamento conveniente do Juncal, (antigos quintais das moradias leste da Rua Direita), hoje classificado como zona protegida, pela espécie de junco que lá existe, das únicas no Universo. No entanto, uma zona protegida sem protecção, sem tratamento da espécie juncácea (?) que por lá se desenvolveu, sem acessos (carreiros ou atalhos) para que possa ser observada, sem permitir que os pescadores - amadores possam atingir a costa, outrora tão fértil em peixe e crustáceos, - não é compreensível.
Antes da classificação o junco era normalmente ceifado para uso nas pocilgas dos suínos. Não ficava prejudicado porque rebentava com novas forças e estava sempre verdejante. Presentemente, está envelhecido e “caído”, apodrecendo aqui e ali. A poda não o prejudicava como não prejudica as árvores de fruto, as roseiras, ou as árvores de sombra, quando feitas racionalmrnte…
Trata-se de um espaço pertencente aos Serviços Regionais competentes. A esses serviços compete não só fiscalizar como, sobretudo, cuidar da zona protegida.
Em terminando os trabalhos do molhe de protecção, impõe-se que o espaço do antigo campo de jogos, agora ocupado pelo estaleiro das obras em curso, tenha um tratamento capaz de o embelezar e tornar útil como zona de lazer, que bem falta.
A Vila das Lajes está num período de transformação. O turismo já por aí aparece com notória frequência. Vão surgindo estabelecimentos hoteleiros, embora excelentes, mas de terceira ordem. Ainda há dias foi aberta a nova Residencial Bela Vista, de Camilo Costa. Está equipada com os indispensáveis requisitos modernos de molde a satisfazer totalmente os utentes. Mas não basta. É indispensável que apareçam outros investidores que, dentro da Vila, instalem uma unidade hoteleira – hotel de duas ou três estrelas – para que o visitante estrangeiro não se limite a visitar rapidamente a vila e os seus núcleos de interesse, e abale a pernoitar noutros sítios…porque têm hotel. E a classificação “hotel” é muito importante para o visitante estrangeiro, se bem que, pela Europa ,v.g., haja estabelecimentos classificados de hotel, muito inferiores às nossas residenciais. Não colhi quaisquer informações …
Julga-se que o Município tem algo a dizer neste sector. Porque não põe à disposição de investidores interessados o espaço que tem reservado para um teatro – estabelecimento que, pela arquitectura que oferece, só prejudicará o aspecto urbanístico do centro histórico da vila, o qual pode muito bem ser desviado para outra zona, além de só interessar os residentes – estimulando a implantação, no local, de uma unidade hoteleira, como vem acontecendo em outras vilas da Região ?!
A promoção artística, cultural e económica de qualquer meio não depende somente dos seus habitantes mas igualmente dos respectivos municípios, que existem – não como poder local – mas como entidades promotoras do progresso das respectivas circunscrições e do bem-estar social dos seus munícipes.
Vila Baleeira,
19-Jun-2007
Ermelindo Ávila

segunda-feira, 25 de junho de 2007

CONTRABANDO

Em tempos passados era “normal” o comércio de contrabando do tabaco desembarcado das baleeiras americanas. Vários eram os negociantes contrabandistas por esse Pico fora e não só. Em todas as Ilhas se fazia contrabando de tabaco e de roupas de “angrin”. No excelente estudo que publicou no Boletim do Núcleo Cultural da Horta (Vol. XI 1993-95, pág.135), sobre o “Faial 1808-1810 – Um tempo Memorável”, o Dr. Ricardo Manuel Madruga da Costa, transcreve uma carta do Comandante da “Iris”, na qual “é possível aperceber ainda com maior precisão os contornos da rede de contrabando e a natureza diversificada das mercadorias transaccionadas, completada por um informação que lhe fora prestada pela firma Tho’s Reay & Cº sediada no Fayal: “(...) Tenho pois a honra de remetter a Vossa Excelencia a / inclusa Copia da dita Carta (que o Capitão-General havia pedido por ter conhecimento verbal da sua existência) datada de 29 do passado e igualmente de participar a Vossa Excelência que entre os dias 22 e 26 do passado, se avistarão desta Fragata dois Navios Americanos, na Costa Meridional da Ilha do Pico, comunicando-se com a Terra, e que depois foi publicado, e notorio no Fayal, que aquelles navios tinhão feito contrabando de Tabaco. Sendo o Consul Americano por mim perguntado (sic) a este respeito, avançou o contrario, porem suspeita-se com bons fundamentos, que elle mesmo teve comunicação clandestina com os ditos Navios (...)”.
Há dias passei na rua marginal da Vila, onde está o antigo “poço da Rochinha”. Entristeceu-me algo, que aquele poço esteja praticamente inutilizado, pois dele extraiu a população da zona, durante séculos, a água algo salobra mas indispensável aos seus usos domésticos. E não só...
Recordei uma “história” de contrabando que, na minha juventude, contava a centenária Luiza de José António, moradora nas imediações. Ela própria negociava com tabaco americano, para suprir os gastos domésticos “uma vez que o marido era quase inválido”. Certo dia – e aqui vai a história- teve conhecimento que a guarda da Alfândega lhe ia dar busca à moradia. Ainda de madrugada, tomou o pote de água e colocou no fundo algum tabaco que foi despejar no poço da Rochinha. No regresso trouxe água que vazou num buraco da cozinha térrea. E tantas vezes fez o percurso quantas as necessárias para se desfazer do contrabando que, se fosse encontrado, a sujeitaria a pesadas penas. Da última vez que transportou a água, vira-se para os guardas, que estavam à entrada da rua e que só podiam iniciar a busca depois do Sol nascer, e diz-lhes: “Parece impossível uma mulher não poder governar-se na sua casa!” Os guardas que ignoravam o “trabalho” de Luiza de José António, responderam-lhe: “Esteja à vontade!” Quando apareceu o Sol por detrás da lomba, os guardas invadiram a casa mas nada encontraram. E ela contava o acontecido com entusiasmo, pois era uma das várias façanhas da sua vida.
Um outro caso de contrabando deu-se na freguesia da Piedade. Não daqueles de que nos fala Manuel d’Ávila Coelho no seu interessante trabalho “A Freguesia de Nossa Senhora da Piedade na Ilha do Pico” (Boletim do N.C. da Horta, Vol.2, Nº3-1961, pág.291) mas de um outro acontecido no lugar da Engrade onde passavam o verão algumas famílias lajenses.
Era habitual alguns lajenses irem passar o verão nas adegas que possuíam na Engrade, freguesia da Piedade. Quando aí estavam tiveram conhecimento de a guarda da Alfândega, aquartelada na Calheta de Nesquim, caminhara para aquele lugar, pois houvera uma denúncia de que naquele sítio se fazia contrabando de tabaco. O “negociante” não se amedrontou, como aconteceu com Luiza de José António. Mandou preparar uma refeição com linguiça e torresmos, e o bom vinho Verdelho. Juntou o tabaco na celha do lagar, instalou esta no pátio, com o portão aberto para o caminho. Em cima da celha colocou uma porta a servir de mesa. Cobriu-a com uma toalha e sobre ela a “merenda”.
Mandou vigiar os guardas e quantos estes se aproximavam sentaram-se à improvisada mesa e iniciaram a refeição no meio de grande alarido. Quando os guardas passavam, convidou-os a entrar e a comer. Eles aceitaram e se bem comeram melhor beberam. No final do repasto perguntou-lhes o contrabandista:” Para onde ides?” Resposta: “Íamos fazer um serviço mas agora vamos é para casa.” E assim fizeram. Tinham comido sobre o contrabando...
Não menos interessantes são as narrativas que Ávila Coelho faz no seu trabalho acima citado. Não as vou repetir.
Mas, afinal, que vai acontecer ao Poço da Rochinha ? Vão restaura-lo? É o “ex libris” da zona ribeirinha da Vila.
Lajes do Pico
24 de Junho de 2003 Ermelindo Ávila
in Figuras & Factos II Vol., 2005

sábado, 23 de junho de 2007

Centenário da Filarmónica RECREIO DOS PASTORES

O concelho das Lajes do Pico pode orgulhar-se de ter o maior número de filarmónicas centenárias.
A segunda mais antiga do ex-distrito da Horta é a “Liberdade Lajense”, fundada em 14 de Fevereiro de 1864. A seguir vem a “Lira Fraternal Calhetense”, fundada em 1888. Depois, a “Recreio Ribeirense”, fundada em S. Cruz das Ribeiras a 6 de Janeiro de 1900.
Agora chegou a vez da Filarmónica “Recreio dos Pastores”, fundada em 23 de Junho de 1907, na freguesia de São João, também do concelho das Lajes, celebrar o seu primeiro centenário.
Centenárias, no concelho de São Roque existe a “União Artista”, fundada em Março de 1880; e, no concelho da Madalena, a “Lira Madalense”, fundada em 1897.
Segundo os elementos extraídos do livro de actas da Junta de Paroquia da freguesia de São João, a Filarmónica “Recreio dos Pastores” apareceu a primeira vez em público na véspera da festa do Padroeiro, São João Baptista, a 23 de Junho de 1907. Consequentemente ocorrem agora cem anos! Um acontecimento notável que está a ser assinalado com o maior relevo.
Quando a “Recreio dos Pastores celebrou o cinquentenário, lá estive presente e pude testemunhar o entusiasmo dos sanjoanenses em comemorar a faustosa efeméride. Já passaram outros cinquenta anos! E a “Recreio dos Pastores” continua cheia de vitalidade no cultivo da bela Arte, mercê dos seus sócios, dirigentes e tocadores. Porque não dize-lo, de toda a população da laboriosa freguesia de São João? !
“Recreio dos Pastores”, uma denominação significativa a registar a operosa actividade pastorícia da freguesia que, durante muitos anos, foi a mais industrial da Ilha do Pico, pelo delicioso “queijo do Pico” que só ela sabia fabricar.
A industria do queijo, originária da freguesia, pois foi ali que se fabricou o primeiro queijo do Pico, deve ter-se desenvolvido paralelamente à da tecelagem por serem ambas produto da actividade pastoril tão do gosto daquele povo.” (1)
A “Recreio dos Pastores” actuou a primeira vez na homenagem que a freguesia prestou a dois distintos filhos da freguesia: o Dr. Manuel Homem Bettencourt, que emigrou jovem para o Brasil e ali fez o curso de medicina dentária e foi Consul de Portugal, gozando de grande pestígio entre a comunidade portuguesa e a própria nação brasileira; e o padre Cândido Ávila Martins que, depois de ordenado e de haver exercido os seu munus na ilha Terceira, preferiu emigrar para os Estados Unidos da América onde se manteve até ao falecimento, tendo construido, nos poucos anos em que viveu, o templo São Miguel Arcanjo. Faleceu com 35 anos de idade apenas, em 1898”. (2)
Foram fundadores da “Recreio dos Pastores”: José Silveira Pimentel, José Vieira Cardoso, João de Brum Bettencourt, Manuel Vieira Madruga, João Vieira Madruga, João Manuel Madruga, António Brum da Silveira, António Silveira Martins, todos da freguesia de São João, e, ainda, um tal “Caraça de Ferro”; e, da freguesia das Lajes, António Vieira Rodrigues, Manuel Vieira Cardoso (Pataca) e Gaspar Vieira das Neves. O seu primeiro Regente foi Manuel Baptista, da freguesia de São Mateus. Depois, Manuel Garcia da Rosa (irmão do Dr. Garcia da Rosa que, nas férias, prestava grande contributo à Filarmónica chegando a organizar partituras); Professor Manuel José dos Santos; David Leal Ferreira, um auto didacta de muito valor (compunha e fazia arranjos para a Filarmónica, e para teatros, mas tudo quis que o acompanhasse para a eterna morada…); Gil Xavier Bettencourt; Manuel Bernardo Maciel; João Rodrigues Ferreira; Manuel Emílio Porto; Olga Maria Lopes Machado Ávila de Sousa Pacheco; Manuel Joaquim Cabral; Zulmiro Silva, de São Mateus; Mário Maciel e Paulo Renato Bettencourt. Presentemente é seu Regente Anibal Alves Gonçalves.
A“Recreio dos Pastores” teve como primeira sede uma casa junto à Igreja Paroquial, até que, em 7 de Fevereiro de 1935, inaugurou a sede própria, no Ramal. Mais tarde foi esta remodelada e ampliada, sendo inaugurada em 23 de Junho de 2001.
A Filarmónica funcionou sem estatutos, como era habitual na época, até 1932, ano em que foram aprovados pelo Governo Civil os respectivos estatutos, passando a Sociedade a denominar-se “Grémio de São João Baptista” e na qual ficou incorporada a “Recreio dos Pastores”. Em 1995 aprovou novos estatutos, elaborados pelo Dr. José António Bernardo Maciel, advogado, natural da freguesia. Nesse ano foi promovida a inscrição oficial no Registo Nacional das Pessoas Colectivas.
A “Recreio dos Pastores” tem feito diversas digressões pelas Ilhas, Continente Português e Canadá, tomando parte em festividades locais. Visitou Lajes das Flores; Vila das Capelas São Miguel; Santa Cruz da Graciosa; Vila Nova da ilha Terceira; Santa Cruz das Flores; Vila da Povoação; Pedrogão Pequeno, Distrito de Castelo Branco; Norte Pequeno, de São Jorge; e Canadá (Oakville e Toronto).
Teve também o prazer de receber, em visita de cortesia, a “Filarmónica Divino Espírito Santo” de Vila Nova Ilha Terceira; “Eco Edificante” do Nordeste São Miguel; “União Popular” da Ribeira Seca, São Jorge; ”Filarmónica Pedroguense”; “Filarmónica Recreio São Lázaro”, da Ilha de São Jorge; e “União dos Amigos“, das Capelas, São Miguel.
Ao longo destes cem anos participou e abrilhantou, com grande êxito e aceitação do público, não só as festas da própria freguesia como as principais da Ilha do Pico.
Depois de um certo período de encerramento, motivado pela degradação do instrumental, teve o prazer de ver constituída uma comissão para a angariação de novo instrumental. Presidiu a essa comissão o Professor catedrático Doutor José Ávila Martins, saudoso conterrâneo a quem se prestou a devida homenagem. A comissão era constituída pelas principais individualidades de São João. “Nos Estados Unidos teve também trabalho árduo e importantíssimo a Doutora Fátima Martins, personalidade de grande dinamismo, já falecida, que muito trabalhou para a concretização da compra de instrumentos, naquele País”.
Em 23 de Maio de 1992 a Recreio recebeu 32 novos instrumentos, uns vindos da América e Canadá, alguns oferta pessoal de sanjoanenses e outros adquiridos com o produto de dádivas locais.
Em 2002 participou na gravação de um CD, “Sons da Montanha”, conjuntamente com as Filarmónicas do concelho das Lajes, para a celebração dos 500 anos do Município; e em 2006 gravou o primeiro CD para comemorar o seu 1º. Centenário.
A “Recreio dos Pastores” faz parte, como associada, da Federação de Bandas das Ilhas do Ocidente.
Conheci ainda vários dos fundadores, sócios dirigentes, regentes e tocadores a quem presto a minha homenagem.
Presentemente a Filarmónica “Recreio dos Pastores” tem, como Presidente da Direcção, José Armindo Alves Gonçalves, pessoa de dinamismo invulgar que se vem dedicando de maneira assombrosa aos problemas da freguesia, a cuja Junta de Freguesia preside há vinte anos (!), bem como à Casa do Povo local.
Ao Bom Amigo José Armindo, os meus agradecimentos pelos elementos oferecidos para a organização deste texto e votos de muitas felicidades bem como às prestimosas colectividades a que preside.
P.S.-Por lapso involuntário, não foi referido o nome do regente Manuel Xavier Soares no historial desta filarmónica. As minhas desculpas. (Ermelindo Avila)
______________
1)– Madruga, Dr. Manuel Alexandre – “A freguesia de S.João Baptista da Ilha do Pico, na Tradição Oral dos
Seus Habitantes . separata do Boletim do N.C.H. Vol.1, nº 2, Dezembro de 1957, págs, 143/167.
2) _ Carlos,Padre José –“ Daqui houve Missionários Até aos Confins do Mundo”, 2000, pág.21-
VILA DAS LAJES, 18. 06. 2007
ERMELINDO ÁVILA

sexta-feira, 22 de junho de 2007

BALEAÇÃO (um pouco de história) II

Já referi aqui a iniciativa de João Paulino Narciso que, por volta de 1866, pretendeu estabelecer uma armação baleeira nesta vila, cujos resultados foram infrutíferos. Mas os lajenses não se quedaram perante esse insucesso. Depois dos Dabney’s terem estabelecido, de parcerias com o Capitão Anselmo, uma armação na Calheta de Nesquim, surgiram logo diversas armações pelo Sul do Pico. Uma das primeiras, senão a primeira, foi a do Raimundo, na freguesia de São João, que veio a ser destruída pelo ciclone de 28 de Agosto de 1893. O material que restou foi vendido para as armações desta vila.
Em 1897 existiam nesta vila seis companhias baleeiras, sociedades irregulares, que funcionavam em nome dos respectivos gerentes. Na Delegação Marítima estavam registadas: Companhia de João Manuel e outros (sic), com as canoas “Aurora”, ”Amélia” e “Santo Cristo”; a Companhia de António Laureano, com o barco “Ella”; a Companhia de Manuel Joaquim, com as canoas “Leonor” e “Flor das Ilhas”; a Companhia de Francisco Xavier Bettencourt e outros, com as canoas “Águia” e “Andorinha”; a Companhia de João de Deus Bettencourt, com as canoas “Espírito Santo” e “Felicidade”; a Companhia de Manuel Pereira Domingos, com as canoas “Conceição “ e “S. Sebastião”; e a Companhia de Francisco da Rosa Vieira, com as canoas “Santo Cristo” e “São Pedro” . Na Calheta de Nesquim havia a Companhia de Anselmo Silveira e outros, com as canoas “Apatia”, ”Democrata” e Calhetense”; e nas Ribeiras, a Companhia de Joaquim Medina com as canoas ”Boa Vista”, Santo António” e “Espirito Santo”. Em São Roque havia também duas Companhias, a de Manuel Machado da Silveira Soares com as Canoas “Maria Pequena”, “Madalena” e “Livramento”, e a de António Cristiano de Sousa, com a canoa “São Roque”.
No entanto, o jornal “O Lagense”, que existiu nesta vila, em seu número 131, de 20 de Maio de 1893, dava a seguinte notícia: “As canoas baleeiras que actualmente estacionam nos diferentes portos desta ilha e fazem serviço, são em número de 39, sendo duas em São João; 15 nesta Vila; sete nas Ribeiras; quatro na Calheta e quatro em Santo Amaro.”
Todas as companhias funcionavam em regime de cooperativas e não possuíam, ao que consta, contratos escritos. Só em 1904 é que se encontram nas Notas do Notário Tomé Cardoso de Simas Machado e Mello, as escrituras de constituição das Sociedades Baleeiras: “Nova Sociedade Lajense,” de que era gerente Manuel Cardoso Machado Bettencourt; “Companhia Nova Ribeirense do Pico” e ”Companhia Velha Ribeirense”, das Ribeiras. O capital social da Lajense era representado, então, por” casa de alto e baixo, para a recolha das canoas e o direito a colocar no Caneiro as caldeiras para extracção de azeite”.
Nas mesmas escrituras afirmava-se ainda: “Que tendo há anos uma sociedade para a pesca da Baleia, cachalotes e outros similares e venda do respectivo produto, vem pela presente escritura constituir legalmente uma sociedade ...”
Ao longo dos tempos diversas leis foram promulgadas pelo Governo para a disciplina da actividade baleeira. Em 26 de Maio de 1862 é publicada uma Lei que “concede certos benefícios aos navios, utensílios e indivíduos que se empregassem na pesca da baleia. A Lei de 10 de Abril de 1877 prorroga por mais dez anos a lei de 26 de Maio de 1962 sobre a pescaria da baleia nos Açores. E, em 14 de Abril de 1886 é publicada uma Portaria que regula a execução das Leis de 26-5-1862 e de 10-4-1877, acerca da pesca nacional da baleia.
Em 11 de Abril de 1901 é publicada nova Lei que regulamentou a actividade baleeira e que dá origem à legalização das sociedades existentes. Em 1918 são obrigadas as sociedades a reformular os respectivos pactos sociais e em 10 de Março de 1924 é publicado o Decreto nº 11011, que regulamentou a Lei 1561 e o qual dá origem às novas sociedades, cujos pactos sociais vieram a ser realizados em Abril de 1929.
Depois é publicado em 19 de Maio de 1954 o célebre Decreto nº 39.657 que estabeleceu as zonas de baleação e limitou, assim, a actividade. Afinal, estava-se no princípio do fim!...
Do Pacto Social da “Nova Sociedade Lajense, Lda.”, outorgado no dia 3 de Julho de 1904 – cem anos são decorridos ! - nas notas do antigo Notário Tomé de Simas, já atrás referido, constam as cláusulas que não deixam de ter interesse para um estudo sócio-económico daquela extinta actividade. Dele se extraem as seguintes.”
= Tendo há anos no porto desta vila uma sociedade particular para a pesca da baleia, cachalotes e outros similares e venda do respectivo produto, o vem pela presente escritura constituir legalmente a mesma sociedade.
= Ao sócio oficial ou trancador que se ausentar do porto desta Vila para ir balear fora, em botes que não sejam da companhia, será descontado dos lucros da sua quota quarenta e cinco por cento para a companhia, das baleias arpoadas durante a sua ausência.
= O sócio que arriar à baleia em canoas que não sejam da Companhia e onde estiverem botes dela, será excluído da sociedade e se lhe entregará em dinheiro a quantia que a maioria dos sócios entender valer a quota ou acção que tiver na companhia.
= Divisão – Do produto total da pesca serão pagas todas as despesas com reboques, imposto do pescado, vigias, fretes, comissões, e quaisquer outros imprevistos fizerem até que a Companhia seja embolsada da importância que tiver produzido a pesca e da importância que sobrar destas despesas serão pagas as soldadas que serão para cada oficial uma parte de vinte; para cada trancador uma parte de trinta; e para cada tripulante uma parte de cinquenta. – Depois de pagas as soldadas a sociedade por maioria de votos dos seus sócios designará a importância que deve reforçar o fundo social ou se deste se deve levantar alguma quantia para reforçar o dividendo.”
O gerente tinha direito a uma soldada, pelo seu incomodo (sic) igual à de cada tripulante não classificado.
O sistema de remuneração, estabelecido em 1904 e que, naturalmente, redominava desde a fundação das Companhias Baleeiras (eram assim designadas), vigorou sempre até à proibição da caça ao cachalote, em 1947.
Importa ainda lembrar aqui que o Governador Santa Rita, que governou o Distrito da Horta durante vinte anos, no relatório de 23 de Dezembro de 1867, referindo-se à Ilha do Faial, escreveu: “O contacto em que a população da ilha se acha com os americanos dos Estados Unidos do Norte (sic) e a frequência dos navios baleeiros daquela nação nos portos deste distrito, fez nascer a ideia das empresas da pesca da baleia. Efectivamente desde muitos anos se tem tentado este ramo da indústria humana, e a tal ponto chegara a ideia dos interesses que daí resultariam, que esta praça teve armados em um ano seis navios baleeiros. Infelizmente a fortuna não ajudou a todos; e daí veio naturalmente o desanimo. Presentemente só existem três baleeiras portuguesas, as quais mesmo neste último ano não obtiveram boa pesca. Contudo é esta uma indústria que podia ser de imenso interesse para este distrito, se a maior parte das empresas fosse coroada de um bom resultado.”
Tinha razão Santa Rita. A baleação foi uma indústria que muito contribuiu, durante século e meio, para um certo desafogo económico da população lajense e, igualmente, duma parte bem avantajada dos picoenses. Basta considerar que no ano de 1935. v.g., os portos da Calheta, Lajes e Ribeiras, tinham em actividade trinta e seis embarcações com 231 marinheiros.
Hoje, a lembrar a actividade, restam as regatas, com as canoas que daqui foram levadas para diversos portos dos Açores, mesmo para aqueles onde não existe nenhuma tradição baleeira. Mas as regatas, em dias festivos, sempre foram praticadas, utilizando-se as canoas baleeiras.
A quando da Visita Régia ao Faial, em 28 de Junho de 1901, um dos números do programa da recepção a Suas Majestade, foi uma regata de canoas baleeiras no porto da Horta como refere Marcelino de Lima (Anais do Município da Horta, 1943, pág.615). Ganharam as canoas das Lajes do Pico pertencentes às Companhias “União Lajense” – (Das Senhoras), e “Novas Sociedade Lajense” – (Os Judeus).Como prémio Dom Carlos ofereceu às referidas Companhias um bote baleeiro.
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P.S. No texto publicado neste Semanário ,em 22 de Janeiro último, sob o título “Horas Trágicas da Baleação”, por lapso deixei de referir os baleeiros: António Azevedo da Silva (António Teixeira), que foi atingido por uma baleia, tendo morte instantânea, e, levado pela linha, não mais apareceu. A Canoa chamava-se “Manuela Neves” e dela era oficial José Francisco Valim (Graxinha). O sinistro ocorreu em 13 de Junho de 1946. Alguns anos depois, em 1952 (?), João Ávila de Melo (João Saltão) , na canoa “Claudina”, de que era oficial João Silveira Furtado, depois de haver trancado uma baleia, foi levado pela linha para o abismo.
Agradeço aos amigos que me chamaram a atenção e me prestaram os esclarecimentos devidos.
Vila Baleeira, 1 de Fevereiro de. 2004 Ermelindo Ávila ,
in, Figuras & Factos vol.II, 2005

quarta-feira, 20 de junho de 2007

BALEAÇÃO (um pouco de história) - I

A baleação é um vocábulo usado pela primeira vez, segundo o erudito Coronel José Agostinho, por Robert Clark, quando pelos Açores andou a estudar a actividade baleeira.
Significa ela a actividade industrial dos açorianos que, ao longo dos séculos, se dedicaram como meio de sobrevivência, à caça do maior mamífero dos oceanos.
É muito vasta a bibliografia sobre a baleação. Mesmo antes do celebrado romance “Mau Tempo no Canal”, do insigne escritor Vitorino Nemésio, e da vasta obra literária do festejado escritor Dias de Melo, que, em seus trabalhos, quase uma trintena, praticamente esgotou a saga baleeira, muitos outros escritores e poetas, quer antes quer depois, têm dedicado boa parte da sua actividade literária à aliciante temática baleeira. Já um dia publiquei, eu que não passo dum rabiscador, incipiente trabalho sobre este aliciante tema (1).
Num modesto escrito jornalístico seria temerário tentar referir quantos, ao longo dos tempos, mas principalmente durante os séculos XIX e XX, discorreram, sob as mais diversas formas, acerca desta actividade, a mais importante indústria que se estabeleceu e desenvolveu, durante uma centena de anos, nestas ilhas, que não somente na ilha do Pico. Todavia lembro que já Gaspar Frutuoso, historiador e literato, formado na Universidade de Salamanca e micaelense de nascimento, nas suas Saudades da Terra, escritas por volta de 1580, falava do aparecimento de monstros marinhos no ano de 1536 ou 1537. (L.º 4º, pág.251).
A verdade é que as baleias sempre andaram por estes mares do Oceano. A sua existência remonta aos princípios do mundo, tal como as demais espécies que existiram ou existem em terra e mares. A própria Bíblia nos narra que o Profeta Jonas ( que deve ter existido no século VIII A.C.), sendo lançado ao mar, no meio de uma tempestade, pelos companheiros de viagem, foi engolido por um grande animal marinho. Jonas esteve três dias e três noites no ventre desse peixe. (Jonas, 2-1,3).
É natural que os navegadores, nas suas longas viagens pelos mares, topassem com monstros marinhos e deles se afastassem. No entanto, os povoadores, logo que chegaram a estas ilhas, aproveitaram todos os meios de subsistência e, consequentemente, esses monstros que eram arrojados às costas.
Todavia foram os americanos, ainda sob o domínio inglês, que iniciaram, nestes mares, a pescaria das baleias. E tanto assim que em 1768 andavam por estes mares açorianos (não havia a zona económica exclusiva... que, aliás, em breve desaparecerá...), 200 navios com a bandeira inglesa, na caça da baleia, o que levou o governador e capitão-general, D. Antão de Almada, em ofício de 19 de Outubro de 1768, a dirigir-se ao Ministro do Reino reclamando contra a presença desses navios nos mares dos Açores. E escrevia: ... sendo o azeite de baleia um dos géneros de grande utilidade para estas Ilhas, por que dele se servem os moradores para todo o gasto comum das suas respectivas casas e que sendo a providência de Deus Nosso Senhor servido dar uma tão grande cópia da produção daqueles peixes em todas estas costas, que dele se podia tirar uma avultada conveniência, não só em benefício destes povos, mas ainda da Fazenda Real, a nação inglesa se tinha aproveitado o ano passado desta pescaria (...) de que extraíram não só muita quantidade do dito género mas muito esparmacete e algum ambar...(Arq. dos Açores, Vol.VI, pág.8)
Em 11 de Setembro de 1869 o jornal “O Faialense” informava que em 1859 os Estados Unidos tinham uma frota baleeira superior a 600 embarcações.
A caça da baleia nos Açores inicia-se nos meados do século XVIII, embora Frutuoso, como acima se refere, houvesse assinalado, no século XVI, a presença de alguns monstros marinhos. Assim nos informa Carreiro da Costa no Esboço Histórico dos Açores, pág.207.
Em fevereiro (de 1857) foi armado em baleeira um brigue francês =Adonis= que tinha sido condenado pelo procurador do seguro; porque as despesas que exigia para o seu reparo eram excessivas, embandeirou-se à portuguesa com o nome de – Cidade da Horta-. (António L. Silveira Macedo - Hist. das Quatro Ilhas... II Vol. Pág 236 – 1981) O mesmo autor informa ainda (pág.281,Vol.c.): que, “Apesar dos poucos lucros que tinham dado os navios baleeiros armados na ilha do Faial, continuavam contudo os negociantes faialenses neste género de especulação possuindo já a praça da Horta 10 baleeiras.”
Na vila das Lajes “deve-se a João Paulino Laureano Narciso da Silveira, falecido em princípios de 1866, a introdução da caça da baleia com um brigue por ele armado e que lhe acarretou sérios dissabores e até a morte.”
Mas, certo é que o primeiro contrato escrito para a baleação costeira, se realizou em 28 de Abril de 1876 entre Samuel W. Dabney e George S.J. Oliver, cidadãos americanos residentes na Horta, e Samuel Silva, ou Anselmo Silva, cidadão americano, naturalizado, natural e residente na Calheta de Nesquim, da Ilha do Pico.
Os sócios Dabney e Oliver comprometeram-se a fornecer uma canoa devidamente preparada e arranjada e os utensílios e objectos necessários para a actividade e o sócio Samuel (Anselmo) a assumir pessoalmente o mando da canoa, e a prove-la com trancador e tripulantes devidamente habilitados.
Mas, a história não fica por aqui. Continuaremos.
(1) Ermelindo Ávila, “Temática Baleeira na Literatura Açoriana
Vila Baleeira, Jan. 2004.
Ermelindo Ávila
in Figuras & Factos, II vol. 2005